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Como viver o abandono à Providência de Deus?

Ao enviar os Apóstolos em missão, Jesus insiste para que não tenham medo, pois o Pai cuidará deles. De que modo, porém, devemos nos abandonar à Providência de Deus? É o que Padre Paulo explica, de forma prática, na homilia deste domingo.

Texto do episódio
11

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 10, 26-33)

Naquele tempo, disse Jesus a seus apóstolos: Não tenhais medo dos homens, pois nada há de encoberto que não seja revelado, e nada há de escondido que não seja conhecido. O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia; o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados! Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma! Pelo contrário, temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno! Não se vendem dois pardais por algumas moedas? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai. Quanto a vós, até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais. Portanto, todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante do meu Pai que está nos céus. Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus.

Neste 12.º Domingo do Tempo Comum, a Igreja proclama o Evangelho de São Mateus, capítulo 10, versículos 26 ao 33, em que Nosso Senhor, antes de enviar os Doze Apóstolos em missão, prepara-os para as perseguições vindouras. Para isso, repete-lhes três vezes a mesma exortação: “Não tenhais medo”.

A missão dos Apóstolos, com efeito, não será fácil. Versículos antes, Cristo já os tinha advertido: “Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos” (Mt 10, 16). Os discípulos irão passar por dificuldades, mas não devem permitir que o medo lhes domine o coração. O motivo de toda a sua confiança é e há de ser um só: a Providência divina.

A fim de incutir neles essa verdade, Jesus lança mão de um argumento recorrente nas Escrituras: se Deus tem cuidado dos seres mais frágeis e mais insignificantes da Criação, com mais razão o terá daqueles que foram criados à sua imagem e semelhança. Pensemos, por exemplo, nos pardais. Avaliados em poucas moedas, nenhum deles vem ao chão sem o consentimento do Pai dos céus. Ora, se “vós valeis mais do que muitos pardais”, é evidente que Deus, que nos conhece e ama mais do que nós mesmos nos conhecemos e amamos, está sempre muito perto de nós. Nada — nenhum sofrimento, nenhuma perseguição, nenhuma dificuldade — escapa do seu olhar nem se subtrai aos seus desígnios.

Para compreendermos melhor esse ponto, reflitamos um pouco sobre a noção de Providência. 

1. Do fato de ser criador, segue-se que Deus é também providente, uma vez que a Criação supõe que preexiste de algum modo, no intelecto divino, a ordem de todas as criaturas aos seus respectivos fins. A essa ordem damos o nome de Providência. Nesse sentido, poderíamos comparar a Providência divina com a prudência humana: de fato, o que caracteriza a prudência é, antes de tudo, a capacidade de ordenar os próprios atos a partir de certa previsão do que se espera que aconteça no futuro, posto que Deus, cujo eterno presente é simultâneo a todos os instantes do tempo, nada “prevê” em sentido próprio.

2. Além disso, a providência divina é detalhista e minuciosa. Deus não conhece apenas aquilo que é genérico e universal, mas também o particular e individual e, por isso mesmo, tem assinalado para cada coisa um fim determinado e os meios para o alcançar. Isso é assim em razão do tipo de causalidade correspondente a Deus, que, enquanto causa primeira e universalíssima, tem sob o seu poder todos os entes e graus de ser, e, por ser onisciente, conhece perfeitamente tudo o que de um modo ou de outro participa da perfeição do ser. 

3. Ora, se a Providência, como dissemos há pouco, não é mais do que a ordem das coisas aos seus respectivos fins preexistentes no intelecto divino, a execução efetiva dessa ordem recebe o nome de governo. Por isso, a Providência é sempre imediata, por ser Deus o único que a pode possuir intelectualmente, ao passo que o governo divino pode ser mediato, na medida em que Deus dispõe que alguns dos fins preordenados segundo a sua providência sejam realizados por intermédio das criaturas, às quais comunica, por bondade e desígnio de seu poder, a dignidade de serem causas segundas e participantes dos seus planos.

O pai que sustenta a família, a mãe que cuida dos filhos, o fiel que socorre o necessitado ou o amigo oferece ajuda a outro num momento difícil, eis alguns casos em que o homem pode ser instrumento da Providência divina. Se Deus é livre para intervir diretamente (por meio de milagres, por exemplo), não o é menos para fazer cumprir indiretamente os seus desígnios, servindo-se para isso ora dos homens, ora de circunstâncias da vida humana. Deus nunca deixa de estar à frente do governo da história tanto da humanidade como um todo quanto de cada homem em particular. 

Confiar na Providência, contudo, não é o mesmo que esperar de braços cruzados que tudo se resolva. A confiança cristã não exclui a responsabilidade pessoal. O pai de família tem de procurar trabalho, o estudante tem de estudar, o sacerdote tem de ser fiel ao ministério. Cada um de nós, em suma, deve cumprir os deveres próprios de sua vocação e valer-se dos meios, tanto naturais como sobrenaturais, necessários para tanto.

Para compreender isso, a tradição espiritual distingue dois aspectos da vontade de Deus. O primeiro é a chamada vontade significada, que diz respeito aos desígnios manifestos de Deus e conhecidos quer pela luz natural da razão e pela consciência bem formada, quer pela revelação sobrenatural, preservada e contida na doutrina da Igreja (os Mandamentos, os preceitos; conselhos evangélicos, os deveres de estado etc.). O segundo chama-se vontade de beneplácito, que compreende aquilo que, nos desígnios divinos, em regra nos permanece oculto durante esta vida. Não sabemos com certeza que cruzes nos reserva o amanhã nem que graças teremos a oportunidade de acolher ou não. São mistérios cujo conhecimento Deus reserva só para si.

Nesse sentido, o abandono cristão possui como que dois momentos: primeiro, o de cumprir com fidelidade o que Deus já nos deu a conhecer; e, além disso, entregar-se confiadamente à sua vontade não manifesta. Trata-se, em outras palavras, de fazer, com a graça, o que Deus quis que dependesse também de nós; e confiar, pela graça, no que Ele quis que dependesse apenas de si.

O Evangelho de hoje nos fala de perseguições, de calúnias, de sofrimentos. Diante disso, levanta-se a pergunta inevitável: por que Deus permite o sofrimento dos que o servem? A resposta da fé pode ser resumida naquilo que foi dito por São Paulo: “Sabemos que tudo contribui para o bem dos que amam a Deus” (Rm 8, 28).

Às vezes, Deus permite que haja sofrimentos para nos exercitar na virtude, como diz o mesmo São Paulo: “É na fraqueza que se revela totalmente a minha força” (2 Cor 12, 9), e São Tiago: “É preciso que a paciência efetue a sua obra” (Tg 1, 4).

Com a dor, Deus prova a quem sofre pela paciência, pela resignação, pelo silêncio, pelo abandono, pela esperança, e prova também a quem não sofre fazendo ver sofrer a quem ama, convidando à generosidade, dando ocasião às obras de misericórdia, impondo a necessidade da ascese. Do sofrimento, portanto, Deus pode tirar proveito para, com ele, nós nos tornarmos os santos que sem ele talvez não seríamos. “A tribulação”, acolhida na fé, “produz a constância; a constância, a virtude comprovada; a virtude comprovada, a esperança” (Rm 5, 3-4). 

Em síntese, o ponto central do Evangelho de hoje é o fato de que a Providência divina tudo governa com suavidade, sabedoria e amor. Deus não abandona os que não o abandonam. Ele conhece em detalhes a vida dos que se entregam a Ele e ordena todas as circunstâncias — alegrias e dificuldades, sucessos e fracassos — para o bem dos que o amam e permanecem unidos a Ele. Por isso, Jesus insiste: “Não tenhais medo”.

O cristão deve cumprir com generosidade a vontade de Deus já conhecida e, ao mesmo tempo, abandonar-se com confiança ao que ainda permanece oculto, aprendendo assim a caminhar na paz, certo de que o Pai dos céus dirige os seus passos e transforma tudo, até o que nos parece mau, em meios de santificação e de salvação. A verdadeira confiança na Providência consiste, pois, em fazer a vontade de Deus hoje e entregar-lhe sem medo o amanhã.

Para conseguir abandonar-se aos desígnios da Providência, é oportuno recitar uma oração composta pelo estimado Padre Réginald Garrigou-Lagrange, cujo texto segue abaixo:

Ato de Abandono
Frei Réginald Marie Garrigou-Lagrange, O.P.

Em vossas mãos, ó meu Deus, eu me entrego. Virai e revirai esta argila, sicut lutum in manu figuli (Jeremias 18, 6), como a vasilha que se modela nas mãos do oleiro. Dai-lhe forma; e em seguida despedaçai-a, se assim quiserdes; ela vos pertence, e nada tem a dizer. Basta-me que ela sirva a todos os vossos desígnios e que em nada resista ao vosso divino beneplácito, para o qual foi criada. Pedi, ordenai. Que quereis que eu faça? Que quereis que eu deixe de fazer? Exaltado ou rebaixado, perseguido, consolado ou aflito, utilizado em vossas obras ou sem para nada servir, a mim não resta senão dizer, a exemplo de vossa Mãe Santíssima: “Seja feito segundo a vossa palavra”.

Concedei-me o amor por excelência, o amor da cruz, não destas cruzes heroicas cujo esplendor poderia nutrir o amor próprio, mas destas cruzes ordinárias que nós carregamos, ai de nós, com tanta repugnância, destas cruzes de todos os dias, com as quais a vida está repleta e com as quais nos deparamos a todo momento, no caminho, na contradição, no esquecimento, no fracasso, nos falsos julgamentos, nas contrariedades, nas friezas ou nos entusiasmos de alguns, na grosseria ou no desprezo dos outros, na enfermidade do corpo, nas trevas do espírito, no silêncio e na secura do coração. Somente então sabereis que vos amo, embora, às vezes, nem eu mesmo o saiba nem sinta; e isso me basta!

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