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Como a Igreja pode ser luz do mundo?

Assim como a Igreja nascente, nós também, como membros do Corpo Místico de Cristo, somos chamados a ser o “sal da terra” e a “luz do mundo”.  Mas, para que essa luz brilhe de modo eficaz, precisamos cultivar nossa vida interior.

Texto do episódio
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 5, 13-19)

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se tornar insosso, com que salgaremos? Ele não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não pode ficar escondida uma cidade construída sobre um monte. Ninguém acende uma lâmpada, e a coloca debaixo de uma vasilha, mas sim, num candeeiro, onde brilha para todos que estão na casa. Assim também brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus”.

Neste domingo, a Igreja proclama o Evangelho de São Mateus, capítulo 5, versículos do 13 ao 16. Trata-se da passagem na qual Nosso Senhor, olhando para os discípulos, afirma: “Vós sois o sal da Terra, vós sois a luz do mundo”. Para entendermos melhor esse trecho do Evangelho, precisamos observar que ele está inserido no contexto do Sermão da Montanha, em que Jesus fala exclusivamente aos seus discípulos — e não à humanidade em geral. 

Quando São Mateus escreveu seu Evangelho, a Igreja ainda estava nascendo. Poucos anos depois da Ressurreição do Senhor, São Paulo começou a fecundar a Europa com a semente da fé, fundando pequenas comunidades cristãs espalhadas ao redor do Mediterrâneo. Mas, apesar desse início tímido, Jesus diz: “Vós sois a luz do mundo. Não pode ficar escondida uma cidade construída sobre um monte” (Mt 5, 14). Se a Igreja era tão pequenina, como ela poderia ser uma cidade sobre um monte? Sim, estamos falando a respeito da Igreja nascente, mais semelhante à Igreja de hoje do que à do período medieval, quando toda a sociedade europeia orbitava em torno da fé. De fato, a pergunta é legítima: como esse pequeno rebanho vai fazer brilhar a luz do Evangelho para todo o mundo? Escrevendo para a diocese de Filipos — primeira comunidade cristã europeia —, São Paulo disse: “Fazei tudo sem reclamar ou murmurar, para que sejais livres de repreensão e ambiguidade, filhos de Deus sem defeito, no meio desta geração depravada e pervertida” (Fl 2, 14-15). Nesse contexto, São Paulo nos lembra que, se fizermos isso, seremos como “astros no universo”, e é justamente essa missão que Cristo nos propõe neste Evangelho: “Vós sois a luz do mundo”. Alguém pode interpretar que cada fiel é individualmente a luz do mundo. No entanto, essas palavras do Senhor referem-se ao mistério da Igreja. Ou seja, somos chamados a viver a santidade no Corpo Místico de Cristo. 

Em primeiro lugar, precisamos entender que o mistério da santidade não se trata de um moralismo, como se a santidade pudesse ser alcançada por nossas próprias forças. E isso foi explicado pelo Papa Bento XVI, o Pontífice que mais falou sobre o moralismo na história da Igreja. Para Bento XVI, o cristianismo seria um moralismo se nós tivéssemos de ser o sal da terra e a luz do mundo por nossas próprias forças; se, ao olhar para o amor heroico com que Cristo nos amou na Cruz, fôssemos obrigados a produzir um amor daquele. Isso seria uma exigência esmagadora, acachapante, opressora.

Mas o cristianismo está longe de ser um moralismo, como explica o Papa, porque Nosso Senhor não apenas nos deu o “exemplum”, morrendo na Cruz, mas também o dom, aquilo que os Padres da Igreja chamam de “sacramentum”, que é a graça, a capacidade de também vivermos esse amor. Então, ao olhar para essa Igreja incipiente, Jesus não está colocando um fardo sobre os ombros dela quando diz: “Vós sois a luz do mundo”. Aliás, é o contrário, pois Ele mesmo diz: “Aprendei de mim, o meu jugo é leve, e o meu fardo é suave” (cf. Mt 11, 28-30). O dom que Ele nos dá é o Espírito Santo, que nos torna capazes de amar. Sim, lavados no Batismo, temos o nosso eu transformado. É assim que contemplamos a multidão de santos na Igreja. 

Ao olhar para a vida dos santos, vemos o quanto Deus foi misericordioso, pois concedeu a seres humanos miseráveis a graça de um amor extraordinário. É fantástico lermos os relatos, por exemplo, dos mártires japoneses São Paulo Miki e seus companheiros: depois de receberem a graça santificante no Batismo, eles foram condenados à morte. Mas, ao ouvirem sua sentença, seus rostos se iluminaram, resplandecendo o amor de Deus; crianças de 5 anos de idade ergueram seus braços ao Céu, em sinal de louvor, depois de saberem que teriam a honra de também morrer crucificadas. Diante da morte, o que resplandecia nos rostos dos santos não era outra coisa senão a graça. Ao contemplarmos tamanho heroísmo, só podemos cair de joelhos e adorar ao Espírito Santo, que transforma nossa dor em amor e nos configura à sua Pessoa, como nos diz São Paulo: “Não sou mais eu quem vivo, é Cristo quem vive em mim” (Gl 2, 20).

Eis o que nos faz entender o mistério da ação de Deus na vida dos santos: como Santo Antônio e São João Bosco, cujos corpos literalmente resplandeciam; ou Santa Teresinha do Menino Jesus, que viveu tamanha entrega a Deus a ponto de ser declarada Doutora do Amor. Essa é a ação da graça, que já se inicia aqui neste mundo, até finalmente alcançarmos o Céu. A graça é a glória de Deus no exílio desta terra, assim como a glória dos santos é a graça que chegou à casa do Pai. A graça nada mais é do que uma semente de glória plantada no nosso coração. É a glória de Deus que saiu de sua morada eterna, de seu Templo Santo no Céu, e veio, exilada, transformar este mundo, para que possamos viver a santidade unidos ao Corpo Místico de Cristo.

Sim, chegar a esse nível de santidade é outra conversa; o que vale ressaltar aqui é que o caminho proposto por Nosso Senhor não é o caminho do moralismo, mas o da graça transformante. É nesse sentido que, nas suas “Confissões”, Santo Agostinho diz: “Dá aquilo que pedes e pede o que quiseres”, ou seja, Deus pode nos pedir qualquer coisa, desde que Ele nos conceda a graça de atendê-lo.

Assim, para vivermos objetivamente essa realidade, em primeiro lugar precisamos compreender a chamada vida interior. Não podemos viver entregues a um ativismo exagerado, tal qual a Marta do Evangelho; mas também não se trata de vivermos um intimismo. Precisamos cultivar uma vida interior, pois só assim conseguiremos iluminar o mundo. Eis o segredo.

Aliás, essa é a mensagem central do livro “A alma de todo apostolado”, do famoso monge trapista Jean-Baptiste Chautard. Ele diz que não adianta querermos difundir a Boa-Nova por todo o mundo sem antes cultivarmos nossa vida interior, buscando nossa santificação pessoal. Ou seja, precisamos ter uma autêntica vida de oração, que vem antes das nossas atividades. É assim que vivem os verdadeiros discípulos de Cristo. Chautard explica que os grandes santos e pregadores foram, antes, grandes místicos. Portanto, precisamos dessa vida de oração, pois ela é a fonte das virtudes infusas da fé, esperança e caridade — sem as quais não alcançaremos absolutamente nada. 

Então, de forma bastante prática, para não ficarmos desorientados: em primeiro lugar, está a oração. É como diz Santa Teresa d’Ávila: “A porta do castelo é a oração”. Precisamos entender que a vida de oração nada mais é do que a vida de amor. Não basta apenas recitar fórmulas prontas, é preciso ter um encontro pessoal com o Senhor. Aliás, como ressalta o próprio Bento XVI, o cristianismo é verdadeiramente um encontro com Jesus. E esse encontro que acontece na vida da Igreja exige o cultivo da vida interior. Não adianta rezar apenas mexendo os lábios — Santa Teresa diz que isso nem sequer é oração. Nossa oração deve ser um autêntico ato de amor a Deus, de modo que quando rezamos nos encontramos com Ele. Portanto, nossa primeira atitude deve ser a humildade, onde vemos nossa pequenez diante da grandeza do Senhor. Sem isso, jamais conseguiremos cultivar uma vida interior, pois “Deus resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes” (Tg 4, 6). Somos frágeis vasos de barro dentro dos quais Jesus escondeu o tesouro da graça santificante.

A partir disso, precisamos aumentar aquelas virtudes infusas da fé, esperança e caridade. E fazemos isso meditando assiduamente sobre os mistérios da vida do Senhor, especialmente a sua Paixão. Humilhemo-nos diante da Cruz de Cristo, crendo naquele amor com o qual Ele nos amou. A sede por esse amor é a virtude da esperança, que, por sua vez, suscita em nosso coração a virtude da caridade. Essa caridade começa de forma afetiva, quando suplicamos o auxílio do Senhor para nos livrar do pecado e amar a Ele cada vez mais; e passa a ser efetiva, quando passamos a trabalhar ativamente para corrigir nossos defeitos cotidianos, porque não queremos mais ofender a Cristo. É assim que, como membros da Igreja, resplandeceremos como astros luminosos neste mundo. 

Em suma, só seremos luz do mundo se tivermos vida interior, por meio da oração pessoal. E só conseguiremos rezar bem cultivando estas quatro virtudes: humildade, fé, esperança e caridade. Na humildade, adoramos a Deus em nossa pequenez; na fé, meditamos sobre os mistérios do amor de Cristo, especialmente a Cruz; na esperança; desejamos ardentemente o seu amor; e na caridade, que pode ser afetiva e efetiva, nossa vida vai sendo transformada para trilharmos o caminho da santidade, em que conformamos nossa vontade à vontade de Deus. Assim, preenchidos pela própria Santíssima Trindade, poderemos fazer coro com todos os santos: “Não sou mais eu quem vive, é Cristo quem vive em mim”. Desse modo, seremos verdadeiramente luz do mundo.

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