Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 8, 1-3)
Naquele tempo, Jesus andava por cidades e povoados, pregando e anunciando a Boa Nova do Reino de Deus. Os doze iam com ele; e também algumas mulheres que haviam sido curadas de maus espíritos e doenças: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios; Joana, mulher de Cuza, alto funcionário de Herodes; Susana, e várias outras mulheres que ajudavam a Jesus e aos discípulos com os bens que possuíam.
O breve Evangelho de hoje nos apresenta Jesus percorrendo cidades e povoados para pregar o Reino dos Céus, acompanhado pelos seus Apóstolos e por algumas mulheres que os seguiam e os sustentavam com os seus bens. Entre elas, São Lucas menciona “Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios” (Lc 8, 2). Trata-se de uma pequena nota, mas bastante significativa para compreendermos aquilo que o Evangelho de hoje quer nos ensinar.
São Gregório Magno, ao comentar esses sete demônios expulsos de Maria Madalena, vê neles um sinal dos sete pecados capitais. Mas o que são, afinal, os pecados capitais? Ao contrário do que muitas pessoas pensam, eles não são propriamente pecados já cometidos, mas tendências para o pecado que permanecem dentro de nós. São chamados “capitais”, isto é, “cabeças”, porque, ao mesmo tempo que procedem do pecado — seja do pecado de Adão e Eva, seja dos nossos próprios pecados pessoais —, tornam-se também fonte de novos pecados, inclinando-nos a cometê-los. Por isso, quando saímos do confessionário absolvidos, infelizmente ainda podemos carregar dentro de nós essas doenças espirituais, que continuam como resquícios do pecado.
No entanto, o Evangelho nos diz que Jesus expulsou sete demônios de Maria Madalena, e isso significa que é possível vencermos essa raiz de pecado que permanece dentro de nós mesmo depois da Confissão. Mas como fazer isso? Como, depois de confessado, alguém consegue se livrar daquela tendência para a luxúria que adquiriu vendo pornografia? Ou consegue extinguir a avareza obtida depois de ter roubado ou trapaceado os outros, entre outros pecados capitais?
A resposta é que tudo isso precisa ser purificado. Porém, há no processo de purificação uma dificuldade: a de enxergarmos a visita de Nosso Senhor. Jesus, do mesmo modo que caminhava com seus discípulos e aquelas mulheres, precisa também caminhar conosco no dia a dia, a fim de nos libertar desses sete demônios.
São Máximo, o Confessor, cita uma expressão interessante: “Os idiotas clamam a misericórdia de Deus o dia inteiro; quando ela aparece, não a reconhecem”. Ou seja: se desejamos, por exemplo, livrar-nos do pecado da luxúria, às vezes Deus permite que nossos relacionamentos afetivos não estejam bem. Então, através dessa dificuldade, Ele expulsa de nós a tendência de usarmos os outros e ensina-nos a sofrer por eles.
Da mesma forma, quando os nossos negócios vão mal, conseguimos reconhecer que um fracasso econômico talvez seja Deus nos purificando da avareza? Quando tudo parece acontecer de modo contrário à nossa vontade, conseguimos perceber que talvez seja Ele nos visitando e nos livrando daquela ira, para que abracemos a contrariedade e estejamos dispostos a transformar aquela dor em amor?
Maria Madalena teve a grande “sorte” de ter esses sete demônios expulsos, e nós também podemos tê-los expulsos. Contudo, para isso, precisamos fazer aquilo que vemos no Evangelho: estar com Jesus em todos os momentos de nossas vidas e permitir que, gradativamente, cada um desses demônios seja expulso pela visita do Senhor.
Portanto, é de suma importância reconhecermos que Deus não nos visita somente na abundância e na bênção, mas também na provação, na contrariedade e nas dificuldades, porque é enfrentando os desafios que Ele expulsa de nós as tendências para o pecado, enviando o Espírito Santo — a força de Deus que transforma a dor em amor.
Se a dor nos visitou, então que alegria poder invocar o Paráclito! Diante de cada tormento, de cada cruz, é preciso dizer: “Que oportunidade maravilhosa de me livrar desses pecados capitais, desses demônios, e de me purificar para amar Jesus com um coração mais ardente e pleno, como Maria Madalena!”.
O Evangelho de hoje não nos diz isso, mas, no capítulo 20 do Evangelho de São João, vemos algo extraordinário: aquela mesma Maria Madalena, da qual Jesus expulsou sete demônios, é transformada num anjo, porque Ele lhe diz: “Vai e anuncia aos meus irmãos”. A palavra “anunciar”, em grego, remete justamente à função do anjo, que é mensageiro. Aquela, portanto, da qual haviam saído sete demônios, torna-se agora a anunciadora da Ressurreição de Cristo.
Que também nós possamos um dia, com a nossa própria vida, anunciar Cristo Ressuscitado, livres dos nossos sete demônios e inteiramente entregues ao serviço de Deus e à missão de testemunhá-lo diante dos homens.




























O que achou desse conteúdo?