Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
(Jo 3, 13-17)
Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: “Ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do Homem. Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna.
Pois Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele”.
Celebramos hoje, com grande alegria, a Festa da Exaltação da Santa Cruz. O que significa dizer que a Cruz foi exaltada? Em primeiro lugar, precisamos recordar que é pela Cruz redentora de Cristo que fomos libertos do pecado. E, para compreender a grandeza desse mistério, é necessário voltarmos à origem do próprio pecado.
O pecado foi, por assim dizer, uma “invenção” angélica. Lúcifer e seus demônios, tomados pela soberba, quiseram ocupar o lugar de Deus, e por isso tornaram-se maus. Eram criaturas maravilhosas, luminosas e dotadas de grande perfeição; mas, diante de Deus, o que é uma criatura? Nada. Satanás, porém, movido pelo orgulho, quis exaltar-se e tomar para si o lugar que pertence somente ao Senhor. Dessa forma, liderando os anjos rebeldes, terminou precipitado com eles no abismo da morte eterna.
Esse primeiro pecado, o pecado da soberba, foi também aquele com que Satanás tentou os nossos primeiros pais e provocou a sua queda. No Paraíso, a Serpente disse a Eva: “Sereis como deuses” (Gn 3, 5). Eis novamente a mesma tentação: a criatura querendo tomar o lugar do Criador, e o homem desejando elevar-se por si mesmo à condição de Deus.
Assim, diante da miséria em que a humanidade havia caído, nosso Pai Celeste quis nos redimir e salvar. Ele poderia simplesmente ter esmagado a cabeça da Serpente e nos libertado de nossos pecados com seu poder; no entanto, Ele não quis que fosse desse jeito. Como remédio para a soberba, escolheu exatamente o seu contrário: a humilhação, a humildade do seu Filho, Jesus Cristo, encarnado-se em nossa natureza.
O Filho eterno de Deus assumiu a nossa humanidade e, como diz São Paulo no segundo capítulo da Carta aos Filipenses, “humiliavit semetipsum”, “humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de Cruz” (Fl 2, 8). Logo, Ele assumiu a natureza humana para viver a humildade que nós não vivemos, e justamente nela encontramos o antídoto para o orgulho da Serpente.
Por isso, o hino da Carta aos Filipenses afirma, na sequência, que, porque Cristo se humilhou, “Deus o exaltou acima de tudo” (Fl 2, 9). A Cruz, portanto, é ao mesmo tempo o ponto mais profundo da humilhação de Cristo e o grande momento de sua exaltação, uma vez que ali se manifesta de maneira suprema a sua humildade, a sua obediência e o seu amor infinito.
Na Cruz, Jesus tornou-se verdadeiramente abjeto. Segundo os critérios humanos de grandeza e de glória, já não havia n’Ele aparência alguma que pudesse despertar admiração. Estava de tal modo desfigurado que, utilizando a linguagem das Escrituras, assemelhava-se a um verme: “Eu, porém, sou um verme e não um homem, o opróbrio dos homens e o desprezo da plebe” (Sl 21[22], 7). Contudo, é no momento da crucificação que nós contemplamos o grande momento de sua glória. Naquilo, então, que aos olhos do mundo parece derrota, resplandece a vitória de Deus.
Portanto, a Exaltação da Santa Cruz é a celebração dessa vitória: Deus esmaga a cabeça da Serpente por meio do antídoto contra a soberba, que é a humildade — e não uma humildade vazia ou simplesmente exterior, mas a humildade amorosa de Cristo, que obedece e entrega-se inteiramente a Deus.
Peçamos a Jesus, pois, a graça de seguirmos esse caminho de amor. Se os nossos primeiros pais caíram porque quiseram elevar-se e ser como Deus, somos chamados a percorrer o caminho inverso. Porque “Deus resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes”, e é pela humildade, unidos a Cristo crucificado, que vencemos em nós a antiga soberba e participamos daquela vitória que a Santa Cruz manifesta e que hoje a Igreja solenemente exalta.




























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