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A coisa mais cruel que Jesus já disse
Doutrina

A coisa mais cruel que Jesus já disse

A coisa mais cruel que Jesus já disse

“Quanto a esses inimigos, trazei-os aqui e matai-os na minha frente”: o final da parábola das minas tem um final tão chocante que, quando o li na Missa alguns anos atrás, uma criança disse em voz alta para a mãe: “Uau, isso é maldade!”

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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O Evangelho da Missa de quarta-feira da última semana (a 33.ª do Tempo Comum) é conhecido como a parábola das minas (cf. Lc 19, 11-27). Ele tem um final tão chocante que, quando o li na Missa alguns anos atrás, uma criança disse em voz alta para a mãe: “Uau, isso é maldade!”

Eu gostaria de olhar para o Evangelho e refletir sobre esse final chocante. A parábola é como a dos talentos, de Mateus, mas com algumas diferenças significativas. Na de Lucas, dez pessoas recebem uma moeda de ouro cada uma. Ouvimos apenas o relato de três deles (como em Mateus): dois que dão lucro e um que não o dá.

Outra diferença é o entrelaçamento de outra parábola (vamos chamá-la de “parábola do rei rejeitado”) dentro da mesma história. Aqui está uma versão abreviada, incluindo o final chocante:

Um homem nobre partiu para um país distante, a fim de ser coroado rei e depois voltar… Seus concidadãos, porém, o odiavam, e enviaram uma embaixada atrás dele, dizendo: “Nós não queremos que esse homem reine sobre nós”... Mas o homem foi coroado rei e, quando voltou..., [disse]: “E quanto a esses inimigos, que não queriam que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui e matai-os na minha frente” (Lc 19, 12.14.15a.27).

Ao analisar um texto como este, devo dizer que fiquei desapontado com o silêncio que a maioria dos comentários guarda a respeito desse final. A frase chocante: “matai-os na minha frente” (“massacrai-os na minha presença”, na tradução da Ave-Maria) passa quase despercebida.

Os Padres da Igreja parecem falar pouco sobre isso. Consegui, no entanto, encontrar duas referências na Catena Aurea, de S. Tomás de Aquino. Sobre este versículo, S. Agostinho ressalta a impiedade dos judeus, que se recusaram a se converter a Jesus. Teófilo escreveu: “A esses, ele os entregará à morte, lançando-os no fogo exterior; mas, neste mundo, eles foram mortos de modo lastimável pelo exército romano”.

Consequentemente, ambos os Padres consideram o versículo ao pé da letra, declarando-o historicamente cumprido na destruição de Jerusalém, em 70 d.C. Flávio Josefo relatou em sua obra que 1,2 milhão de judeus foram mortos naquela guerra terrível.

Cumprido historicamente ou não, o tom triunfal e vingativo de Jesus ainda me intriga. Se este versículo se refere à destruição de 70 d.C., como explicar o tom de Jesus aqui, sendo que apenas alguns versículos mais tarde Ele irá chorar por Jerusalém (cf. Lc 19, 41)?

Quando Jesus se aproximou de Jerusalém e viu a cidade, ele chorou e disse:

Se tu também compreendesses hoje o que te pode trazer a paz! Agora, porém, isso está escondido aos teus olhos! Dias virão em que os inimigos farão trincheiras contra ti e te cercarão de todos os lados. Eles esmagarão a ti e a teus filhos. E não deixarão em ti pedra sobre pedra. Porque tu não reconheceste o tempo em que foste visitada (Lc 19, 41-44).

De fato, uma variedade de emoções pode abater até mesmo Jesus, Deus feito homem [1]; deixe-me, porém, sugerir algumas considerações contextuais e culturais relacionadas com as palavras surpreendentes e “maldosas” de Jesus: “Quanto a esses inimigos, que não queriam que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui e matai-os na minha frente” (Lc 19, 27).

“Jesus purificando o Templo”, de Carl Bloch.

1. Jesus estava falando na tradição profética. — Os profetas frequentemente falavam dessa forma, usando imagens e caracterizações surpreendentes e, muitas vezes, mordazes. Embora muitos hoje tentem “amordaçar” Jesus, o verdadeiro Jesus falou com vivacidade, na tradição profética. Ele costumava usar imagens chocantes e paradoxais. Falava sem rodeios, como faziam os profetas, chamando seus interlocutores hostis de hipócritas, víboras, filhos do diabo, sepulcros caiados, maus, tolos, guias cegos e filhos daqueles que assassinaram os profetas. Ele os advertiu de que seriam condenados ao inferno, a menos que se arrependessem, e os expôs por sua contradição e dureza de coração. É assim que os profetas falavam.

Ao falar dessa maneira “rude”, Jesus seguia firmemente a tradição dos profetas, que falavam de maneira semelhante. Assim, para compreender as palavras duras de Jesus, não podemos ignorar o contexto profético. Suas palavras, que nos parecem iradas e até vingativas, eram esperadas na tradição profética na qual Ele falou; elas foram intencionalmente chocantes. Seu objetivo era provocar uma resposta.

Os profetas usaram hipérboles e palavras chocantes para transmitir e sublinhar seu chamado ao arrependimento. E embora não devamos descartar as palavras de Jesus como “exageradas”, não devemos deixar de vê-las no contexto tradicional do discurso profético.

Portanto, as palavras de Jesus não eram sinal de vingança em seu coração, mas antes uma profecia dirigida àqueles que se recusavam a se arrepender: “Morrereis no vosso pecado” (Jo 8, 21.24). Na verdade, a recusa deles em se reconciliar com Deus e seus vizinhos (neste caso, os romanos) levou a uma guerra terrível na qual foram mortos.

2. A cultura e a linguagem judaicas costumavam ser hiperbólicas. — Mesmo fora da tradição profética, os antigos judeus costumavam usar a linguagem do “tudo ou nada”. Embora eu não seja um estudioso do hebraico, aprendi que a língua hebraica contém muito menos palavras comparativas (por exemplo, “mais”, “menos”, “maior”, “menor” etc.) do que as línguas modernas. Se perguntassem a um judeu antigo se ele gostava mais de chocolate ou sorvete de baunilha, ele responderia: “Gosto de chocolate e odeio baunilha”. Com isso, o que ele realmente quis dizer foi: “Gosto mais de chocolate que de baunilha”. Quando Jesus disse em outro lugar que devemos amá-lo e odiar nossos pais, cônjuge e filhos (cf. Lc 14, 26), Ele não quis dizer que devamos odiá-los em sentido forte. Era uma maneira judaica de dizer que devemos amá-lo mais do que a eles.

Esse pano de fundo explica a antiga tendência judaica de usar hipérboles. Não é que eles não compreendessem as nuances; eles apenas não falavam dessa maneira, permitindo que o contexto explicitasse que “ódio” não significava ódio em sentido literal.

Essa contextualização linguística ajuda a entender como os elementos mais extremistas da linguagem profética tomam forma.

Devemos ter cuidado, entretanto, para não descartar as coisas como se fossem simples hipérboles. Nós, modernos, podemos adorar que nosso idioma permita maiores nuances; mas, às vezes, temos tantas nuances em nossa fala, que acabamos dizendo menos do que o devido. Há momentos em que é preciso dizer sim ou não; em que é preciso estar com Deus ou contra Ele. No final (mesmo que haja o Purgatório), só se pode ir para o Céu ou para o Inferno.

A antiga maneira judaica de falar, um pouco ao modo do “tudo ou nada”, não era primitiva em si. Era uma forma diferente e honesta de insistir que é preciso decidir estar contra Deus ou ao seu lado, é preciso decidir-se pelo que é certo e justo.

Portanto, embora as palavras de Jesus sejam duras, elas tocam num ponto importante: porque ou escolhemos a Deus e vivemos, ou escolhemos o pecado e morremos espiritualmente. “Porque o salário do pecado é a morte, enquanto o dom de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6, 23).

3. Jesus estava falando a pecadores endurecidos. — Os ouvintes aqui também são importantes. Ao se aproximar de Jerusalém, Jesus entrava em território hostil. Os pecadores e incrédulos que Ele encontrou eram muito rígidos e tinham endurecido seus corações contra Ele. As palavras de Jesus, portanto, devem ser entendidas como um forte remédio.

Pode-se imaginar um médico dizer a um paciente teimoso: “Se você não mudar de hábitos, morrerá em breve e eu o verei no seu funeral”. Embora alguns possam considerar isso uma atitude inadequada para com um doente, há pacientes para os quais essa linguagem é apropriada e necessária.

Jesus falou sem rodeios porque estava lidando com pecadores empedernidos. Eles estavam indo para a morte e o Inferno, e Ele disse isso abertamente.

Talvez nós, que vivemos nestes tempos “delicados”, que nos ofendemos tão facilmente e temos tanto medo de ofender, possamos aprender algo com essa abordagem. Há quem precise ouvir de padres, pais e outros: “Se você não mudar de caminho, não vejo como você possa evitar sua condenação ao Inferno”.

4. Um pensamento final (uma teoria, na verdade) sustentado por alguns. — De acordo com uma teoria, Jesus estava se referindo a um incidente histórico real, do qual se serviu para desiludir os ouvintes de suas vãs expectativas por um novo rei. Após a morte de Herodes, o Grande, seu filho Arquelau foi a Roma para solicitar o título de rei. Um grupo de judeus também compareceu perante César Augusto, opondo-se ao pedido de Arquelau. Embora não tenha recebido o título, Arquelau foi nomeado governante da Judeia e da Samaria; mais tarde, ele mandou matar os judeus que se opuseram a ele.

Os reis frequentemente são tiranos. — Como os judeus pensavam que o Messias (quando viesse) seria um rei, alguns esperavam que Jesus estivesse viajando para Jerusalém a fim de assumir o papel de monarca terreno. Segundo essa teoria, como o povo ansiava por um rei, Jesus usou essa parábola assustadora como um lembrete de que os reis terrenos geralmente são tiranos. Jesus, portanto, os estava tentando desiludir da ideia de que Ele ou qualquer outra pessoa deveria ser seu rei terreno.

Embora essa teoria seja aceitável, especialmente quanto aos precedentes históricos, parece improvável que o texto do Evangelho aponte para um evento historicamente tão localizado. Jesus não estava apenas falando às pessoas daquela época e lugar; Ele também está falando conosco. Mesmo que esse trecho se enquadre em um contexto histórico parcial, o significado precisa ser estendido para além de um incidente antigo.

Portanto, Jesus está sendo mau aqui? Não. Ele está sendo direto e dolorosamente claro? Sim. E, francamente, muitos de nós precisamos disso. Nestes tempos difíceis, podemos nos irritar com esse tipo de conversa, mas esse problema é nosso. A honestidade e um diagnóstico claro são muito mais importantes do que nossos “preciosos” sentimentos.

Notas

  1. A rigor, a tristeza vivida por Cristo foi o que alguns teólogos (entre eles, S. Tomás de Aquino) costumam chamar de “pro-paixão”, um movimento inicial do apetite concupiscível que não o extrapola, mas se mantém sob o controle da racionalidade. Quanto à paixão da ira, é certo que Cristo a experimentou de fato, não como apetite desordenado de vingança, mas como desejo de impor ao culpado o castigo devido; trata-se de uma ira justa e louvável, que Cristo mantinha perfeitamente subordinada à reta razão. O “abatimento” de que fala o autor do artigo deve entender-se em referência à intensidade dessas paixões (Cristo chorou de tristeza; por ira, disse palavras duras e justíssimas etc.), mas não em referência ao descontrole e insubordinação à razão que, em nós, elas costumam provocar (Nota da Equipe CNP).

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Por que antigamente não se celebrava São José?
Liturgia

Por que antigamente
não se celebrava São José?

Por que antigamente não se celebrava São José?

É justo que a Igreja tribute um culto especial àquele que Cristo venerou como pai. E como não o permitissem os inícios da Igreja nascente nem, depois, as perseguições dos tiranos e hereges, faz sentido que essas honras tenham lugar nestes últimos tempos.

Fr. Isidoro de IsolanoTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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Muitos perguntam por que os antigos não celebravam a festa de São José.

Devemos responder que os Santos Padres — que foram colunas da Igreja — dedicaram-se a tornar conhecida aos povos a natureza divina de Nosso Senhor, esmagando contra a pedra da fé as inúmeras heresias que se levantaram contra a divindade dele. E por isso deixaram de lado solenidades como a de São José (sobretudo os Padres do Ocidente e mais ainda a Igreja romana, que, conservando pura a fé, destruiu todas as heresias que se levantaram contra a santa e verdadeira doutrina).

Outra razão: José se encontra entre os patriarcas do Antigo e do Novo Testamento, e raras vezes se celebravam os patriarcas. Por isso disse Ubertino de Casal, da Ordem dos Frades Menores: “A Igreja não celebra a festa de São José porque ele desceu ao limbo e pertence ao Antigo Testamento”.

Por outra parte, a missão, os milagres e os benefícios de José permaneceram ocultos por muito tempo. E quando a Igreja logrou a paz (n.d.t.: com o Edito de Milão, em 313), os feitos de José tornaram-se públicos, chegando assim ao conhecimento dos povos católicos.

Também devemos acrescentar que, nos primeiros séculos, só eram cultuados os mártires; e, além disso, pensava-se que as festas do Nascimento do Salvador, da Circuncisão, Adoração dos Magos, Apresentação do Senhor no Templo e fuga para o Egito eram comuns a Jesus Cristo, à Virgem Santíssima e a São José. E, por isso, não buscavam outra festividade que honrasse o santo pai do Senhor, José.

Mas, com o passar do tempo — provada suficientemente a divindade do Salvador para todos quantos quisessem crer; explicadas também as passagens obscuras das Sagradas Escrituras; e sendo claramente conhecido por todos que José, ainda que fosse esposo da Santíssima Virgem, viveu com ela em perpétua virgindade, ligados por um mesmo voto —, é razoável crer que Deus tenha querido honrar José na Igreja militante com dignidades especiais, e é justo que a Mãe Igreja tribute um culto especial àquele que Cristo venerou como pai. E como não o permitissem os inícios da Igreja nascente nem, depois, as perseguições dos tiranos e hereges, faz sentido que essas honras tenham lugar nestes últimos tempos. Portanto, não tememos afirmar que é agradabilíssimo a Deus que se elevem súplicas e pedidos a José. Pois como o Filho de Deus iria negar algo a José, se no seu íntimo sempre o amou? Que filho agradecido pode esquecer os benefícios paternos? Ainda mais o Filho de Deus, que faz nascer o sol sobre bons e maus (cf. Mt 5, 45).

Não hesitemos nem temamos nos dirigir a José para implorar sua graça; em vez disso, confiemos que tais pedidos são agradabilíssimos ao Deus imortal e à Rainha dos anjos. O mesmo Filho de Deus — sob ameaças de penas temporais e eternas — mandou observar este grande preceito: “Honra teu pai”. E se a razão nos persuade disso e também a natureza o exige, por que vacilamos em fazer um ato tão agradável ao Filho de Deus: o ato de honrar com elogios a José, seu pai, como o designa o Evangelho? O que honra o pai, honra o filho dele. Quem ama o esposo, também ama a esposa; e se oferece presentes àquele, também compraz a ela.

Entre os habitantes do Céu não diminui a caridade nem o afeto mútuo, nem se perdem as súplicas que lhes são dirigidas: tudo se transforma em perfeição. Por isso, os que aqui se amaram santamente, ao chegar à pátria celeste, irão se amar ainda mais. Lá não haverá inveja: a alegria e todas as demais coisas serão comuns. E, se isso ocorre com os santos, que acontecerá com o Deus verdadeiro, que é o Santo dos santos? E assim, quando o Filho de Deus enxerga na luz de sua glória que alguém ama São José, que procura honrá-lo ou implora sua intercessão, alegra-se grandemente; e para glorificar — como filho — o seu pai nutrício, ouve essas súplicas e as atende bondosamente, derramando os dons celestiais com maior abundância sobre aqueles que o invocam por sua mediação.

Acaso duvidamos que a Rainha do Céu e da terra deseje com toda a sua alma a glorificação e a honra de seu verdadeiro esposo? Só poderá dizer que essas honras não comprazem os habitantes do Céu quem pensar, de forma insensata, que a caridade dos santos possa definhar. 

Por isso, fiel devoto da Santíssima Virgem, quando rezares o Terço, não deixes de acrescentar ao final dele alguma oração em honra do seu divino esposo São José. Com ele, tua oração será mais agradável a Deus e alegrarás de uma só vez o Céu e a terra. O Céu, porque toda a corte celeste se regozija quando vê o pai nutrício do Salvador ser honrado; e a terra, porque o homem nascido dela e nossa santa mãe Igreja — que é a terra dos que vivem na vida da graça — recebem os dons celestiais pelos méritos e súplicas de São José.

Notas

  • Fr. Isidoro de Isolano, “Por qué los antiguos no celebraban la fiesta de San José”. In: Suma de los dones de San José. Madrid: BAC, 1953, pp. 642-645.

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“Não coma um demônio”
Espiritualidade

“Não coma um demônio”

“Não coma um demônio”

Relato de um exorcista nos dá uma razão a mais para sempre rezar antes das refeições. Não pode haver melhor remédio para combater a fome do diabo, “que rodeia como um leão procurando a quem devorar”, do que a bênção e o refúgio em Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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Por que rezar antes das refeições? Já publicamos aqui um texto a esse respeito, ensinando o valor dessa prática principalmente na educação das crianças. Hoje, queremos apresentar uma reflexão um pouco diferente, contendo o interessante relato de um padre exorcista. Seu nome é Mons. Stephen Rossetti e ele mantém na internet uma espécie de “diário”, com histórias muito interessantes de seu ministério. Esta, em particular, tem um título particularmente intrigante: Don’t eat a demon — literalmente, “não coma um demônio”. Eis o que ele conta:

Eu estava almoçando com uma de nossas fiéis leigas agraciadas [por Deus com dons extraordinários]. Temos várias delas. Essa pessoa [em particular] tem o dom de realmente ver demônios. Os pratos de comida foram colocados pela serviçal à nossa frente, mas ela não começou a comer. Foi notável. Finalmente, ela levantou os olhos e disse: “O sr. não vai abençoar a comida?

Pelo modo de ela proceder, eu sabia que algo estava acontecendo. Respondi: “Algo errado com a comida?” Ela acenou com a cabeça, mas nada disse. “Há alguns demônios sobre ela?”, perguntei-lhe. “Sim”, ela disse. Dei [então] a típica bênção sobre os alimentos. Ela disse que os demônios rapidamente saíram. De novo, ao chegar a sobremesa, ela hesitou. “Há demônios sobre ela também?”, perguntei-lhe de novo. “Sim”, ela disse. Desta vez, fiz com que ela dissesse a bênção, e eles saíram.

Isso pode fazer você se perguntar: o que se passou na cozinha?! Bem, esse foi um raro incidente (até onde sei) de demônios sobre a comida vistos por ela. Suspeito que algum dos cozinheiros tenha amaldiçoado o alimento antes de ele sair. Pode parecer estranho, mas tenho descoberto que há mais pessoas amaldiçoando coisas, e envolvidas em práticas ocultistas, do que eu esperava.

Se eu tivesse ingerido a comida sobre a qual estavam os demônios, não sei ao certo o que teria acontecido. Sem dúvida não teria sido algo agradável. Eu decerto teria tido uma indigestão ou algo do tipo.

Moral da história: não vá a lugar algum sem o seu próprio místico! [Risada.] Ao mesmo tempo, você pode imaginar como eu fiquei bem mais atento à bênção sobre os alimentos antes de comê-los… Quem deseja comer um demônio, afinal [1]?

Antes de tratar da bênção sobre os alimentos propriamente dita, falemos um pouco do valor que realmente têm os malefícios feitos por outrem contra nós. Infelizmente, nessa matéria, muito facilmente as pessoas tendem ao extremo da credulidade e da superstição, atribuindo a determinados ritos e entidades um poder que eles definitivamente não têm. Sobre isso, vale a pena considerar o que escreveu certa vez o Fr. Boaventura Kloppenburg:

Para nós cristãos […] não há dúvida: o demônio existe e atua realmente entre os homens. Mas daí não se pode inferir sem mais nem menos que o demônio está também à disposição dos feiticeiros e malfeitores para executar fielmente suas perversas vontades. A questão da eficácia dos feitiços deve ser resolvida numa outra base: terá o homem a faculdade ou a possibilidade de provocar por sua própria iniciativa e de modo eficaz uma atuação ou intervenção destas forças do mal? O homem pode, não há dúvida, querer ou desejar a presença do demônio, pode mesmo consciente e deliberadamente entregar-se a ele, pode ajoelhar-se perante Satanás, adorá-lo e oferecer-lhe sacrifícios. Tudo isso, por mais deplorável, repugnante e pavoroso que seja, pode estar no abuso da liberdade humana. É o “mistério da iniquidade”, o tremendo mistério da desgraçada possibilidade de pecar, de revoltar-se contra o Criador e de pactuar com o mal. Outra, todavia, é a questão de saber se o demônio pode ser como que forçado ou obrigado pelo homem mau a comparecer e a executar suas ordens: bastará a má vontade de um feiticeiro ou babalaô para lançar a ação diabólica contra uma outra pessoa?

Nossa firme resposta é totalmente negativa: o homem não tem a faculdade ou a possibilidade de provocar por sua própria iniciativa e de modo eficiente uma atuação perceptível do demônio ou de qualquer outro espírito do além. Esta é a razão por que sustentamos que o feitiço, o malefício, o despacho ou a magia são, como tais, ineficazes (Nossas superstições. Petrópolis: Vozes, 1959, p. 22s).

Na mesma linha, o Pe. Royo Marín admite que “são raríssimos os verdadeiros malefícios (ainda que, de fato, possam dar-se) e não se deve facilmente dar crédito às calamidades que sem fundamento se atribuem aos feiticeiros” (Teología moral para seglares, vol. 1. Madri: BAC, 1996, p. 356).

O verdadeiro malefício

Em suma, esse ato de invocar os demônios para prejudicar os outros tem sempre um valor relativo. Essas coisas não funcionam como “sacramentos às avessas”; as palavras de bruxos e feiticeiros não necessariamente operam o que significam. E por um motivo bem simples: também os anjos decaídos, invocados por essas pessoas, estão submetidos à ordem da divina Providência. Muito antes de ser adversários de Deus, os demônios são criaturas; seu poder é sempre muitíssimo limitado, e até a sua liberdade de ação é aproveitada por Deus em favor dos eleitos, como diz o Apóstolo: “Tudo concorre para o bem dos que amam a Deus” (Rm 8, 28).

Portanto, não devemos nos preocupar: até os fios de cabelo de nossas cabeças estão todos contados (cf. Lc 12, 7). Assim como o justo Jó não foi acossado por Satanás sem antes apresentar-se diante de Deus e pedir-lhe permissão para agir, nós não estamos simplesmente à mercê dos espíritos maus, como se eles fossem “minideuses” onipotentes e o Deus único e verdadeiro nada pudesse contra eles. 

Consideremos também que o pior malefício que pode nos atingir é aquele que nós mesmos provocamos, quando caímos no pecado ou fazemos dele um projeto de vida. Eis o verdadeiro mal, do qual temos de pedir todos os dias a Deus que nos livre. 

Se as coisas não vão bem em nossa vida, desenganemo-nos de pensar que a culpa é do “mau olhado” do vizinho ou dos “trabalhos” que alguém fez para nós. Nossos pecados pessoais têm um papel muito mais importante na nossa ruína do que a suposta “inveja” dos outros. Nosso pior inimigo não são os satanistas, nem o próprio Satanás, pois nem este nem aqueles têm o poder de precipitar-nos no inferno; na maioria esmagadora das vezes, somos nós, com nossos “pensamentos e palavras, atos e omissões”, que causamos nossa própria desgraça — primeiro nesta vida, mas depois, e principalmente, na outra.

Como proceder diante da maldição?

Mas concedamos: talvez tenhamos sido, sim, alvo de um verdadeiro malefício. 

Neste caso, pensemos que ele só nos adveio depois de uma misteriosa permissão de Deus. E Ele não permite mal algum do qual não nos possa tirar um bem maior. Para Jó, a perda dos bens, da família e até da própria saúde só o fez crescer ainda mais na fé e na confiança em Deus. Habacuc, por sua vez, num cântico que a Igreja entoa pelos séculos em seu Ofício Divino, profetiza que se alegrará mesmo em meio às privações:

Porque a figueira não florescerá,
e as vinhas não deitarão os seus gomos.
Faltará o fruto da oliveira,
e os campos não darão de comer.
As ovelhas serão arrebatadas do aprisco,
e não haverá bois nos estábulos.
Eu, porém, me regozijarei no Senhor,
e exultarei em Deus, meu salvador (Hab 3, 17s).

Para nós, porém, o que será? Como reagiremos quando a desolação bater à nossa porta; quando, por assim dizer, a “maldição” nos visitar?

“A Oração Antes da Refeição”, de Jan Steen.

A história acima mostra como uma pequena bênção anulou uma maldição. Que instrumento tão simples e, ao mesmo tempo, tão eficaz Deus colocou em nossas mãos: uma refeição contaminada, pelas palavras constitutivas de um sacerdote, ou mesmo pela simples oração invocativa de um leigo, torna-se abençoada. Não é extraordinário? Quantos males não poderíamos evitar, e quantos bens não poderíamos ganhar, se simplesmente buscássemos rezar mais, invocando a proteção divina sobre nossos lares, abençoando nossos filhos ao chegarem e ao saírem de casa, fazendo uma prece pelo bom sucesso de uma viagem, consagrando nossos dias e noites a Deus e, também, orando em família antes e após as refeições? Alguém duvida de que muitas desgraças se abatem sobre nós, sobretudo as de ordem espiritual, justamente porque deixamos de nos encomendar a Deus e à sua proteção?

Que remédio pode haver melhor, portanto, para combater a fome do diabo, “que rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar” (1Pd 5, 8), do que a bênção e o refúgio em Deus? Só Ele, afinal de contas, pode fazer superabundar a graça onde, antes, abundou o mal. Só Ele é capaz de realmente afugentar os demônios dos “pratos” da nossa vida.

Isso envolve, evidentemente, muito mais do que uma simples oração antes e após as refeições. Mas tampouco caiamos na tentação de desprezar essas pequenas coisas. Se você ainda não tem o costume de rezar ao comer, comece hoje mesmo. Talvez nós e nossos familiares estranhemos no começo, talvez uma vez ou outra acabemos esquecendo de rezar e tenhamos de o fazer com um bocado de comida já dentro da boca... Mas, à medida que esse ato salutar se converter em hábito, veremos como, em pouco tempo, já não conseguiremos mais levar nada à boca sem antes agradecer a Deus o alimento que Ele nos dá e as graças de que Ele nos cumula todos os dias de nossa vida.

Abaixo, disponibilizamos um formulário simples de Benedictio mensae, em latim e português, para uso de todos. (Quem quiser incrementar sua oração em latim com alguns salmos e versículos bíblicos, ou com partituras para a bênção e ação de graças cantadas, pode acessar este arquivo, produzido pelos monges beneditinos de Norcia.)

1. Bênção antes das refeições.Bénedic, Dómine, nos et haec tua dona quae de tua largitáte sumus sumptúri. Per Christum Dóminum nostrum. ℟. Ámen. | Abençoai-nos, Senhor, a nós e a estes dons que da vossa liberalidade recebemos. Por Cristo, Senhor nosso. ℟. Amém.
Ante prándium: ℣. Mensae caeléstis partíceps faciat nos, Rex aetérnae glóriae. ℟. Ámen. | Almoço: ℣. Que o Rei da eterna glória nos faça participantes da mesa celestial. ℟. Amém.
Ante cénam: ℣. Ad cénam vitae aetérnae perdúcat nos, Rex aetérnae glóriae. ℟. Ámen. | Jantar: ℣. Que o Rei da eterna glória nos conduza à Ceia da vida eterna. ℟. Amém.

2. Bênção depois das refeições.Agimus tibi grátias, omnípotens Deus, pro univérsis benefíciis tuis, qui vivis et regnas in sáecula saeculórum. ℟. Ámen. | Nós vos damos graças, Deus onipotente, por todos os vossos benefícios, Vós que viveis e reinais por todos os séculos dos séculos. ℟. Amém.
℣. Deus det nobis suam pacem. ℟. Et vitam aetérnam. Ámen. | ℣. Que Deus nos dê a sua paz. ℟. E a vida eterna. Amém.

Notas

  1. Evidentemente, nenhum católico é obrigado a acreditar nessa história. Só a apresentamos na esperança de trazer algumas lições frutuosas para nossos leitores. Quem achar, porém, que ela nada acrescenta à sua própria vida, simplesmente a ignore, segundo aquilo do Apóstolo: Omnia legentes, quae bona sunt tenentes, “Examinai tudo, ficai com o que é bom”.

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José ou João Batista: quem foi o maior, afinal?
Santos & Mártires

José ou João Batista:
quem foi o maior, afinal?

José ou João Batista: quem foi o maior, afinal?

Se Nosso Senhor mesmo afirma que São João Batista é o maior entre os nascidos de mulher, por que tantos católicos insistem em afirmar que, depois da Santíssima Virgem Maria, São José é o maior de todos os santos?

Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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Há alguns meses, recebemos no suporte do site a seguinte pergunta: “Recentemente, li um artigo do site sobre o ano de S. José, e algo me capturou a atenção, a saber: ‘[…] crescer em devoção a este [S. José] que é, depois de Maria, o maior de todos os santos de Deus’. No entanto, não teria nosso próprio Senhor dito em Mt 11, 11: ‘Entre os nascidos de mulher não se levantou ninguém maior do que João, o Batista’? Como resolver esse dilema?”

Resposta: Nosso Senhor não se refere em Mt 11, 11 à grandeza de João Batista em sentido absoluto, como se ele fora, de todos os homens já nascidos ou por nascer, o maior em santidade e graça, mas em sentido relativo, por comparação com os santos do Antigo Testamento. João Batista, com efeito, foi o maior dos profetas, o que se vê pelos privilégios e ofícios que Deus lhe atribuiu, dentre os quais se podem destacar os seguintes:

  1. Foi santificado, isto é, purificado do pecado original ainda no útero materno e ali mesmo começou a anunciar, por seu frêmito de alegria, a presença do Messias (cf. Lc 1, 44);
  2. Instituiu, por inspiração especial, o batismo de penitência e, por disposição divina, teve a honra de batizar a Cristo no rio Jordão (cf. Mc 1, 7-11);
  3. Foi o primeiro a pregar a proximidade do Reino dos Céus, ao qual levou e converteu muitíssimos pecadores (cf. Mc 1, 5);
  4. Foi comparado pelo profeta Malaquias a um anjo (cf. Mt 11, 10; Ml 3, 1) e representado, como em seus tipos, pelos profetas que o precederam, especialmente por Elias (cf. Mt 11, 14);
  5. Teve, além do dom de profecia, a coroa da virgindade e a palma do martírio (cf. Mc 6,14-39), o que lhe merece gloriosas auréolas no céu.

Não há dúvida de que, por todos esses títulos e pela função especialíssima que lhe confiou a divina Providência (cf. Lc 1, 15ss), João Batista pode ser considerado o ponto alto de todo o Antigo Testamento e, por conseguinte, digno da mais profunda veneração.

Mas o mesmo Jesus, que louva tão sublimes predicamentos, na mesma passagem de Mt 11, 11 afirma: “No entanto, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele”, o que se pode entender, como nota S. Tomás de Aquino, em referência a três coisas:

  1. Quer aos beatos que estão no céu, porque é melhor ter chegado à pátria do que ainda estar em caminho. Por isso, o menor no céu é maior, isto é, está em melhor condição do que o maior santo na terra;
  2. Quer a Cristo mesmo, que, sendo mais jovem que João, é contudo maior do que ele em dignidade (cf. Jo 1, 15), por ser o próprio Verbo feito carne;
  3. Quer, enfim, a diferentes estados dentro da Igreja, porquanto é maior o mérito das virgens que o dos casados, e o dos profetas que o dos simples fiéis; mas é maior ser pai nutrício do Verbo encarnado e esposo castíssimo da Virgem Maria do que ser profeta e precursor de Cristo.

Além disso, vale lembrar que o grau de santidade se mede em função da proximidade ou união a Deus, já que dizemos ser santo justamente quem tem com Deus como que uma só vontade ou coração. Ora, é evidente que, depois de Nossa Senhora, nenhum outro santo esteve tão próximo de Cristo e se aproximou tão estreitamente quanto possível da ordem hipostática do que S. José: só a ele, e a ninguém mais, foi confiado o cuidado especial “de alimentar, educar e proteger a Deus feito homem”. A conclusão impõe-se por si mesma.

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Mulheres, não se casem com qualquer um!
Sociedade

Mulheres,
não se casem com qualquer um!

Mulheres, não se casem com qualquer um!

O medo da solidão parece estar levando muitas mulheres cristãs a abandonar suas crenças para garantir uma aliança de compromisso. Mas será que vale mesmo a pena abrir mão da própria fé, só para ficar com um homem?

Anna HitchingsTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 10 minutos
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Este é o testemunho de uma mulher católica, contendo impressões bastante pessoais a respeito da situação em que o mundo se encontra no que tange aos relacionamentos entre os católicos. É um relato que descreve alguns aspectos da realidade, sim, mas que não pretende esgotá-la.

Concedemos que algumas afirmações da autora podem parecer mais duras, especialmente quando ela se refere à falta de homens bons. Convidamos os homens de boa vontade, no entanto, a fazerem um sincero exame de consciência sobre tudo o que é dito abaixo, acolhendo o que há de verdadeiro neste testemunho — e rejeitando o que porventura acharem que não corresponde à verdade dos fatos.

Oportunamente, no futuro, podemos publicar o testemunho de algum homem com o título inverso, apresentando também os problemas das mulheres modernas, especialmente a sua adesão ao feminismo. De qualquer modo, já temos material abundante a esse respeito aqui. Por ora, esperamos que todos tenham a maturidade para entender que o fruto proibido não foi comido nem só por Eva, nem só por Adão.


Vivemos um período único na história. A política nunca foi tão polarizada, a sociedade de massas nunca esteve tão próxima da amoralidade (embora a Roma de Nero tenha chegado perto disso) e para as mulheres nunca foi tão difícil encontrar um homem bom

Reconheço que a última afirmação é ousada, mas permita-me desenvolvê-la. 

Nós vivemos a lamentar o estado em que se encontra a sociedade (a juventude, as universidades, a mídia etc.), que parece se envolver em situações cada vez mais difíceis, oriundas de ideias, comportamentos e políticas regressivas.

A adesão a alguma religião e a presença nas igrejas nunca foi tão baixa, especialmente entre os jovens e, de modo particular, entre os homens. O vício em pornografia é um flagelo de proporções epidêmicas entre os homens e até entre meninos de onze anos. Numa palavra, o mundo está uma bagunça.

Você ouviu falar disso antes.

Há, porém, um efeito colateral importante de tudo isso que não recebe a devida atenção: tem sido cada vez mais difícil para as mulheres (particularmente as cristãs) encontrar bons maridos nesse novo ambiente. A situação é tão terrível que, hoje, as mulheres tendem cada vez mais a abandonar suas convicções religiosas por causa de relacionamentos amorosos.

Talvez esse assunto não seja considerado tão sério quanto o aborto sob demanda ou a perda da liberdade de expressão, mas eu afirmo que ele é tão importante quanto esses temas, se não mais. O futuro de nossa sociedade depende de matrimônios, famílias e cidadãos bons e sólidos. Precisamos de famílias para gerar jovens educados e instruídos que continuarão combatendo o bom combate em todos os temas que afligem nossa sociedade.     

Mas, para alguém como eu — uma católica solteira com 32 anos —, a situação é, de fato, desoladora.

Se eu conversar com as mulheres do meu círculo social, todas elas dirão a mesma coisa: simplesmente não há homens disponíveis. Com isso queremos dizer que há uma assustadora escassez de homens entre 25 e 35 anos que frequentem a igreja, estejam solteiros e sejam maduros.  

A maioria dos homens que conheço têm duas dessas qualidades, mas muitas vezes não têm a última. Os solteiros que vão à igreja geralmente são desajeitados e carecem de habilidade social básica (um verdadeiro banho de água fria para as mulheres). Os mais mundanos não estão solteiros nem são religiosos. E ainda que não sejam religiosos, a maioria dos rapazes têm pontos de vista e valores de centro-esquerda diametralmente opostos aos nossos.

Por essa razão, é um esforço vão aventurar-nos fora do ambiente eclesial. (Sem falar na escassez de homens que estão mesmo abertos à ideia de castidade, mas esse é um assunto completamente diferente.) Não nego que haja bons rapazes solteiros por aí; é claro que há. Muitas das minhas amigas mais próximas foram afortunadas o bastante para conhecer e se casar com homens maravilhosos, inteligentes e com princípios, mas um número ainda maior de mulheres não teve a mesma sorte.  

Eu as encontro constantemente em festas e outros eventos sociais — católicas belas, inteligentes e solteiras que só querem encontrar um homem a quem amar e honrar. No entanto, esse grupo de mulheres parece crescer cada vez mais, ao passo que o número de homens devotos e casáveis está caindo rapidamente.

No início da década de 1960, 87% dos homens australianos se identificavam como cristãos. Essa porcentagem caiu para 49%. Não é necessário dizer que o número de homens que vão à igreja é ainda menor. Essa tendência tampouco existe apenas na Austrália; parece ser, antes, a norma em todo o Ocidente.

Fui a um casamento em Seattle no ano passado e conheci uma mulher que tinha mais ou menos a minha idade. Ela me perguntou se deveria se mudar para a Austrália para encontrar um marido, devido à falta de homens católicos em seu círculo social. 

O fato de ser uma experiência quase universal fala por si. Infelizmente, o crescente desespero alimentado por essa tendência começa a mostrar resultados preocupantes. Conheço pessoalmente três católicas nos seus 20 ou 30 anos que renunciaram às suas crenças para se relacionar com um homem (todos os casos ocorreram ao longo dos últimos anos). Uma delas conheceu um homem pela internet; mais tarde, descobriu que ele era casado (embora separado) e tinha filhos, mas mesmo assim ela foi em frente. 

Contrariando o conselho de seu pároco, outra delas se casou fora da Igreja com um agnóstico a quem namorou por pouco tempo. A terceira começou a sair com um ateu que havia conhecido na universidade. Um ou dois anos depois, ela abandonou a Igreja e as pessoas de quem era mais próxima para poder se casar com ele.

Não se tratava de católicas “de IBGE”. Todas eram católicas de berço, bem educadas na fé e muito ativas em suas respectivas paróquias e comunidades. Mas essas são apenas as que eu conheço pessoalmente. Com certeza há outras.

Muitas pessoas não compreendem isso. Na verdade, eu mesma me esforço para compreender a situação. Independentemente do grau de desespero para se casar, como qualquer outra coisa poderia ser mais importante do que a própria fé? 

Na história da Igreja, as mulheres foram tradicionalmente o bastião da integridade moral. Alguém já disse que, se quisermos julgar a bússola moral de uma sociedade, temos de prestar atenção em suas mulheres. Se entrarmos em qualquer igreja, com certeza veremos mais mulheres do que homens.

De acordo com quase todas as estatísticas, é mais comum que as mulheres permaneçam fiéis à religião, o que torna ainda mais surpreendente cada um dos incidentes relatados acima.

Na verdade, essas histórias são tão chocantes que uma delas bastaria para ser, há poucas décadas, a causa de um enorme escândalo para suas respectivas amigas e comunidades. Mas o novo clima social parece alimentar esse tipo especial de urgência para estar com um homem. A qualquer custo.

Sempre houve um estigma social em torno das mulheres que chegam solteiras aos 30 anos. Talvez isso seja percebido de forma mais intensa em ambientes cristãos, nos quais o casamento entre pessoas mais jovens é visto positivamente. Eu mesma comecei a entrar em pânico quando comecei a me aproximar do meu aniversário de 30 anos, por temer o julgamento daqueles que estavam ao meu redor e por sentir pavor dos rumores de que eu era muito fria ou simplesmente não era capaz de conseguir um marido. Além disso, as mulheres que chegaram aos 30 também sofrem uma pressão biológica, caso queiram ter filhos.

Entendo o pânico, o conflito e o medo, pois passei por tudo isso. Como tantas outras jovens, acreditava piamente que me casaria quando fizesse 25 anos. Minha ansiedade e minha dúvida cresceram constantemente durante todos os aniversários, enquanto meu dedo permanecia sem aliança.

Como, durante a vida inteira, estive convencida de que o matrimônio era minha vocação, foi um choque doloroso e claramente humilhante chegar aos 32 anos solteira. Por isso entendo perfeitamente o desespero que agora está levando as mulheres a iniciarem ou a se apegarem a relacionamentos, mesmo que sejam nocivos, prejudiciais ou ilícitos. 

A vida é muito mais interessante quando temos no horizonte a perspectiva de conseguir um marido. Não surpreende que às vezes as mulheres permaneçam muito tempo (ou até se casem) com homens que são claramente inapropriados para elas. É bastante real o temor de que essa pode ser a única oportunidade de se casarem, e a alternativa pode ser o retorno a uma vida entediante, imprevisível e inútil. 

Elas pensam: “Com certeza não era o que eu esperava, mas pelo menos não estou sozinha, certo?” A solidão é o verdadeiro inimigo na mente de muitas mulheres. É melhor ficar com o diabo que conhecemos do que com aquele que desconhecemos. Embora essa mentalidade sempre tenha existido, a escassez de bons rapazes em nosso mundo parece tê-la sobrecarregado. 

O medo da solidão parece estar levando as mulheres de fé a abandonar suas crenças para garantir uma aliança de compromisso. Assim como qualquer outra mulher, não quero ficar solteira pelo resto da minha vida, mas isso com certeza não quer dizer que eu ache que vale a pena abrir mão de tudo o que prezo, que me dá esperança, sentido e propósito na vida, apenas para ficar com um homem.

Nenhum homem jamais poderia substituir tais coisas, e eu nem esperaria que ele o fizesse. Por isso, preocupa-me bastante o fato de um número cada vez maior de mulheres perder de vista essa verdade axiomática. Precisamos de mais rapazes no caminho da verdade e da bondade? É claro que sim! Sou profundamente grata pela influência que pessoas como o Dr. Jordan Peterson e Ben Shapiro têm exercido sobre tantos homens, jovens e adultos.

Deveríamos fazer tudo o que estivesse ao nosso alcance para ajudar os homens a tomar a direção correta e encontrar a verdade e o sentido em sua vida. Homens guiados por bons princípios, que têm propósito e direção na vida não são apenas atraentes para as mulheres, são bens inestimáveis para a sociedade. Entretanto, muitas mulheres com quem converso acham que sua chance jamais aparecerá.

Começo agora a encarar a possibilidade de que, talvez, eu fique solteira para sempre. Eu me contorço pelo desconforto e a ansiedade gerados apenas por admiti-lo, mas preciso ser realista. No plano pessoal, a fé me ensina que, se não me casar, essa provavelmente é a vontade de Deus para mim. Posso não gostar disso, pode ser algo que talvez me encha de pavor e desespero, mas provavelmente teria me sentido assim se há dez anos alguém tivesse me dito que eu estaria solteira hoje.

Embora eu tenha realmente sofrido ao fazer 32 anos, sei que minha vida é valiosa, relevante e digna de ser vivida, apesar de não ter seguido o curso que eu imaginava. Além disso, creio que, se Deus quiser que eu permaneça solteira, então será isso que me trará mais satisfação e felicidade na vida.

Serei honesta: neste momento, isso me parece mais verdadeiro em minha mente do que em meu coração. Ainda claudico para aceitar essa circunstância porque, no fundo, não quero aceitar que um sonho alimentado por tanto tempo talvez jamais se realize.

Tenho a sensação de que aceitar essa possibilidade me prenderá a algo inevitável. 

Mas também sei, por bom senso e por experiência, que isso não é verdade; isto é, que se eu aceitar a vontade de Deus — qualquer que seja ela —, me tornarei livre. Pode ser difícil e doloroso, mas só o será a curto prazo. Também reconheço que existe uma diferença importante entre estar sozinha e ser solitária.

Suplico a outras mulheres que estão em minha situação: pensem nisso! Sei como é fácil entrar em desespero se achamos que ficaremos para sempre “na fila de espera”. Mas também sei que nenhum homem nem o matrimônio podem nos tornar realizadas na vida — eles são apenas um bônus (se você tiver sorte). Se aceitar isso, e se passar a se dedicar ao aperfeiçoamento da vida que tem hoje, em vez de buscar a vida que você idealiza, não se perderá no caminho.  

Porque onde está o seu tesouro, lá também está seu coração.

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