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Os três graus da virtude da vigilância
Espiritualidade

Os três graus da virtude da vigilância

Os três graus da virtude da vigilância

Ao comentar três parábolas do Evangelho de São Mateus, Padre Paulo Ricardo põe diante de nossos olhos os três graus da virtude da vigilância, à luz das “Moradas”, de Santa Teresa d’Ávila.

Padre Paulo Ricardo29 de Agosto de 2016
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No fim desta semana que se passou — a 21.ª do Tempo Comum —, a liturgia da Igreja propôs à nossa meditação a virtude da vigilância. É no decorrer do Evangelho segundo São Mateus que Nosso Senhor nos narra estas três parábolas, todas com o mesmo tema, mas cada uma o abordando de forma distinta:

  1. a primeira é a do servo mau (cf. Mt 24, 42-51), que vendo demorar o seu senhor, começa a "bater nos companheiros, a comer e a beber com os bêbados", parábola que ilustra a imprudência dos que vivem em pecado mortal;
  2. a segunda é a das virgens imprevidentes (cf. Mt 25, 1-13), que não entraram na festa de casamento porque estavam sem óleo, história que ilustra a imprudência dos que não rezam;
  3. a terceira é a dos talentos (cf. Mt 25, 14-30), que foram enterrados por um servo mau e preguiçoso, imagem da imprudência das almas tacanhas, que não se dispõem a fazer frutificar os dons que receberam de Deus.

Curiosamente, essa mesma progressão feita por Jesus pode ser lida à luz das Moradas, de Santa Teresa d'Ávila. Foi o que fez Padre Paulo Ricardo ao comentar essas parábolas, nas homilias de semana passada (n.ºs 309, 310 e 311). Decidimos reunir todas nesta publicação de nosso Blog, para tornar mais fácil a procura e a divulgação deste precioso material:

Não se esqueça de divulgar essas reflexões com seus amigos e familiares. Ajude-nos a evangelizar!

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Marido e mulher, vocês pertencem um ao outro!
Família

Marido e mulher,
vocês pertencem um ao outro!

Marido e mulher, vocês pertencem um ao outro!

Embora, no amor humano, traição ou morte possam intervir, a vontade de amar é mais forte do que qualquer outra coisa, porque nasce das profundezas espirituais do coração humano.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Novembro de 2019
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Nas rubricas da celebração do matrimônio presente no Book of Common Prayer [1], o homem, ao colocar a aliança no dedo da mulher, é orientado a dizer: “Com esta aliança, eu te desposo; com meu corpo, eu te venero; e com todos os meus bens terrenos, eu te provejo: Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.”

Os cônjuges doam-se a si mesmos porque pertencem um ao outro. O respeito mútuo entre eles e sua união ao longo da vida são uma ratificação da aliança escrita, naquele dia, em seus corações pelo dedo ardente do Espírito Santo; escrita com a palavra de todo seu ser e o peso absoluto do passado, do presente e do futuro, testemunhando a imortalidade da alma humana e a origem divina do seu amor. Se votos como esse não são possíveis, os seres humanos não podem ser considerados animais racionais, muito menos filhos de Deus.

O voto nupcial é uma imitação da fé da Virgem Maria: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Essa declaração perpétua — dita por Eva a Adão, por Sara a Abraão, por Rebeca a Isaac, por Raquel a Jacó, por Maria a José, por Cristo a seu Pai, e pela Igreja a Cristo — é o atestado solene de amor eterno, o triunfo do amor sobre a morte. “Eu sou do meu amado, e meu amado é meu” (Ct 6, 3).

É por isso que, para o cristão, o divórcio não é apenas cruel e errado, mas impossível e inconcebível. Tornar-se a vida e o destino de alguém, por meio de um “sim”, e depois dizer “não”, é apagar a liberdade genuína da vontade e aniquilar a própria identidade enquanto portadora de promessas. A liberdade só pode sobreviver em uma atmosfera de amor, e o amor em um contexto de compromisso incondicional; do contrário, em uma tempestade de acaso ou em um deserto de incerteza, eles não sobrevivem. 

Nos votos matrimoniais seriamente intencionados, o homem torna-se da mulher e a mulher torna-se do homem — nas palavras de São Paulo, “já não vos pertenceis” (1Cor 6, 19). Como pai e filho, esposo e esposa são interdependentes. Se o pai nunca tivesse existido, a possibilidade do filho também desapareceria. O divórcio do que é intrinsecamente unido é tão impossível quanto separar a racionalidade da humanidade. Nesse sentido, a rejeição do amor prometido (divórcio) é como a negação da fé religiosa (apostasia), que, por sua vez, é uma imagem da rejeição da razão (niilismo).

Pensemos na dedicação da Virgem Maria ao seu Filho. Ele pediu tudo a ela, e ela em nada lhe faltou. Quando um homem e uma mulher se comprometem diante de Deus, eles o fazem em vista de uma bem-aventurança futura da qual não desfrutamos no presente. A grandeza da fé consiste nessa entrega livre e incondicional a um amor que não vemos, mas em cuja palavra solene confiamos.

Imaginemos a esposa de um jovem que partiu para a guerra. Ela sabe que pode não tornar a vê-lo nunca mais; ela sabe que nada pode lhe dar certeza de sua fidelidade no exterior. Mas, se ela o ama, manterá o compromisso assumido na expectativa do reencontro

A Escritura diz que Jacó “serviu por Raquel sete anos, que lhe pareceram alguns dias, tão grande era o amor que lhe tinha” (Gn 29, 20). Embora, no amor humano, traição ou morte possam intervir, a vontade de amar é mais forte do que qualquer outra coisa, porque nasce das profundezas espirituais do coração humano.

No caso de nosso Divino Amado, Ele deseja se tornar conhecido por nós: Ele não nos deixou órfãos. Para compreender essa realidade, basta nos perguntarmos: por que a Encarnação? Por que as parábolas e a Paixão de Jesus Cristo? Por que milagres? Por que santos e estudiosos? Não são esses os buquês, as cartas de amor, as manifestações apaixonadas de Deus ao homem? Além disso, se Deus cria o universo em um transbordar fecundo de sua perfeita bondade, acaso tornará impossível para nós encontrá-lo? E quando for encontrado, acaso tornará impossível para nós permanecer com Ele?

Ao contrário dos sonhos efêmeros e das trágicas quedas do amor humano — que, por sua própria natureza, permanece sujeito à mudança —, o amor de Deus é imutável e eterno: Ele é fiel, Ele não trairá seus filhos. Estes lhe pertencem, e Deus quer que retornem a Ele, como o pai quer o filho pródigo de volta em seus braços, sob seu teto. Começamos nossa vida mortal em um estado de alienação em relação a Deus, de modo que toda a nossa vida é uma peregrinação para encontrar o caminho de volta para Ele. O Pai espera por nós com um banquete e, por nossa causa, Ele permitiu o sacrifício, não de um bezerro gordo, mas de seu próprio Filho, a fim de que possamos retornar a Ele com confiança e descansar a cabeça fatigada em seu peito, como o pobre mendigo Lázaro repousando no seio de Abraão.

Neste mundo, só o que nos resta é procurar a estrela e segui-la: precisamos seguir qualquer que seja a luz visível para nós com a fé inabalável dos Magos. Thomas Valpy French, avô do monsenhor Ronald Knox, escreveu estas palavras sobre suas batalhas espirituais: “Confesso que tenho estado bastante perplexo... só posso concluir que, quando a luz total não é dada, é preciso aceitar a melhor luz que se tem, e seguir em frente lentamente, com alguma hesitação, mas com confiança ainda maior”. É também nisso que consiste a atitude de permanecer na esperança e ser fiel às promessas de alguém, exspectantes beatam spem et adventum Salvatoris nostri Iesu Christi, “esperando com alegria a vinda de Nosso Salvador Jesus Cristo”.

Notas

  1. Nota de tradução: o Book of Common Prayer é o livro de orações e celebrações utilizado pela Igreja Anglicana. Embora não seja um rito católico, o texto citado expressa de modo bem explícito a realidade da entrega mútua que se realiza no matrimônio.

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Obrigado, padre, porque o senhor escolheu morrer!
Padre Paulo Ricardo

Obrigado, padre, porque
o senhor escolheu morrer!

Obrigado, padre, porque o senhor escolheu morrer!

Neste dia em que nos alegramos pelo dom da sua vida, do seu sacerdócio e da sua paternidade, o que nós queremos mesmo celebrar, Padre Paulo Ricardo, é a sua morte.

Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Novembro de 2019
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Reverendíssimo Padre Paulo Ricardo,

Às vésperas que estamos deste dia 7 de novembro de 2019, no qual teremos a alegria de celebrar o seu 52.º aniversário natalício, queremos mais uma vez agradecer a Deus pelo dom da sua vida, do seu sacerdócio e da sua paternidade...

Mas, parando para pensar um pouco, o que nós queremos mesmo celebrar, padre, é a sua morte.

Obviamente, não estamos falando de sua morte física, tampouco sugerindo que sua vida não seja importante (o leitor entenda bem)... Acontece que, assim como uma vela não pode iluminar um cômodo sem se consumir, assim como uma árvore não pode crescer e dar fruto sem que antes a semente caia no chão e morra (cf. Jo 12, 24), a nossa alegria pelo dom da sua vida é ainda maior porque o senhor, um dia, escolheu morrer

O senhor escolheu morrer, padre, quando desde muito cedo abandonou as próprias opiniões para crer “em tudo o que crê e ensina a Santa Igreja Católica” e, assim, manter a fé que o senhor depois cuidaria de transmitir fielmente a nós, seus filhos. 

O senhor escolheu morrer, padre, quando desde pequeno pensou no sacerdócio e quis fazer-se padre, renunciando a todos os projetos que o mundo tinha para si e preferindo a eles o altar do Sacrifício.

O senhor escolheu morrer, padre, quando se prostrou diante do altar do Senhor, no dia da sua ordenação e abraçou o santo celibato como caminho de santificação.

O senhor escolheu morrer, padre, quando tomou a decisão de usar sempre sua batina preta, como mortalha e sinal do “sacrifício de um homem” que deve ser todo sacerdote.

O senhor escolheu morrer, padre, quando, ao invés de se obstinar em seus erros passados, sempre fez questão de reconhecer as próprias culpas e fraquezas, preferindo voltar atrás a trair o “mistério da fé” que lhe foi confiado. 

O senhor escolheu morrer, padre, sempre que preferiu a palavra da Igreja à sua, a sabedoria dos santos à sua, cumprindo com isso o lema de nosso site: Christo nihil praeponere, “nada antepor a Cristo”.

O senhor escolheu morrer, padre, quando trocou uma “carreira” pela árdua missão de anunciar a verdade aos bárbaros da sombria era digital, que somos nós.

E por que o senhor escolheu isso?

O senhor escolheu morrer, padre, para que tantos de nós pudéssemos viver, tornando-se com isso imagem do próprio Cristo, que veio non ministrari, sed ministrare, não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em favor de muitos. 

Por tudo isso, muito obrigado, padre! Obrigado pelo dom da sua vida e por gastá-la conosco! Obrigado por ter escolhido morrer e por continuar a fazê-lo, dia após dia, no seu ministério! 

E obrigado por nos ensinar que é assim, morrendo, que a nossa vida ganha verdadeiro sentido… Graças a esse ensinamento, também nós, seus filhos, queremos morrer.

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A impressionante conversão de Chopin no leito de morte
Testemunhos

A impressionante conversão
de Chopin no leito de morte

A impressionante conversão de Chopin no leito de morte

Chopin, educado desde cedo na fé católica, abandonou a casa do Pai em sua juventude e vida adulta. Porém, a graça de Deus o tocou no momento decisivo de sua vida, transformando sua morte no mais belo concerto jamais composto por ele.

Massimo ScapinTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Novembro de 2019
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Há cento e setenta anos, no dia 17 de outubro de 1849, falecia o compositor e pianista franco-polonês responsável pela renovação da sonoridade do piano romântico: Frederic Chopin (1810–1849).

Sua arte sobre-humana, melancólica e apaixonada é bem-resumida pelas belas e comoventes palavras que o Venerável Papa Pio XII dirigiu a um grande grupo de poloneses em Roma, no dia 30 de setembro de 1939:

Há em cada um de vós um pouco da alma de vosso imortal Chopin, cuja música extrai de nossas pobres lágrimas humanas, de modo tão brilhante, uma alegria profunda e inesgotável. Se a arte humana pôde realizar tantas coisas, quanto mais habilidosa não deve ser a arte de Deus em aliviar a tristeza de vossas almas? [1]

Mais recentemente, o Papa Bento XVI elogiou Chopin com as seguintes palavras: “Que a música desse famoso compositor polonês, que contribuiu de forma tão significativa para a cultura da Europa e do mundo, aproxime de Deus aqueles que a escutam e ajude-os a descobrir a profundidade do espírito humano” [2]. 

A vida interior de Chopin teve três fases: a educação em Varsóvia numa família católica devota, o afastamento da Fé e da prática religiosa durante sua carreira relâmpago em Paris (sua principal residência, desde 1831 até os seus últimos dias de vida) e o movimento de retorno a Deus pouco antes da morte.

Os pais de Chopin, Nicolau (um emigrante francês) e Justina (primeira professora de piano dele e de Ludovica, sua irmã mais velha), jamais falharam em relação à honra e à responsabilidade de transmitir a Fé aos filhos. Numa carta escrita em meados de março de 1842, Justina assegura que ela e o marido estavam próximos dele por meio da oração, mesmo durante o período que esteve em Paris, o mais feliz e ativo de sua carreira musical: “Esqueceste, meu querido filho, que teus velhos pais vivem apenas para ti e rezam todos os dias para que Deus te abençoe e proteja.”

Mas foi em Paris que sua fé definhou e sua vida ficou mais atormentada. Muitos de seus novos amigos eram “homens e mulheres sem princípios, ou melhor, de maus princípios” [3]. Sequer algumas mulheres lhe serviram de consolo — especialmente a escritora romântica George Sand, uma “devoradora de homens”, que o conheceu em 1836 e, depois de divergências de ideias e de personalidade, abandonou-o em 1847. 

A morte de Chopin.

Sua já delicada saúde, particularmente em função das cada vez mais graves e frequentes infecções nos pulmões, enfraqueceu-o bastante nos seus últimos anos de vida. Um dos mais ilustres representantes da emigração polonesa, o padre Alexandre Jelowicki, amigo íntimo de Chopin, esteve próximo do músico em seu leito de morte. O próprio sacerdote viria a relatar detalhadamente o retorno de Chopin à sua antiga fé [4]. 

O padre Alexandre se aproveitou do humor adocicado do compositor para conversar com ele sobre sua querida mãe Justina, uma boa cristã. “Sim”, disse Chopin, “para não ofender minha mãe eu receberia os sacramentos antes de morrer, mas não tenho por eles a consideração que desejas. Compreendo a bênção da confissão como o alívio de um coração pesado por meio de uma mão amiga, mas não como um sacramento. Estou pronto para me confessar contigo se desejares, porque te amo, não porque considero isso necessário”. Mas o sacerdote não desesperou da graça, que parecia estar próxima. 

Na noite de 12 de outubro de 1849, o médico do músico, convencido de que Chopin faleceria muito em breve, chamou o padre Alexandre, que foi correndo ao encontro dele. O moribundo apertou a mão do médico, mas pediu que ele fosse embora; garantiu que o amava, mas não quis falar com ele.

No dia seguinte, festa de São Eduardo, o Confessor, no martirológio tradicional, o padre Alexandre celebrou a Missa pelo repouso da alma de seu irmão Eduardo, morto com um tiro em Viena durante os motins de 1848, e rezou pela alma de Chopin. Ele voltou ao leito do músico e recordou-o de que aquele era o dia do onomástico de seu irmão, a quem o músico tanto amava. “Ó, não falemos sobre isso”, lamentou o moribundo. “Caríssimo amigo”, continuou o sacerdote, “deves me dar algo pelo dia do onomástico de meu irmão”. “O que devo te dar?” “Tua alma.” “Compreendo. Aqui está ela; toma-a!”

O músico segurou o crucifixo que lhe fora oferecido pelo padre Jelowicki; professou a fé em Cristo que sua mãe lhe ensinara e recebeu os sacramentos que o prepararam para se encontrar com o Deus vivo. Seu sofrimento durou quatro dias, mas ele se resignou, teve paciência e às vezes até sorria. O sacerdote escreveu:

Ele abençoou seus amigos e, quando — depois de uma crise que aparentava ser a última — viu a si mesmo rodeado pela multidão que dia e noite enchia seu quarto, perguntou-me: “Por que eles não rezam?” Ao ouvir essas palavras, todos se ajoelharam e até os protestantes se uniram às ladainhas e orações pelo moribundo.

Estas foram algumas das últimas palavras de Chopin: “Sem ti, meu amigo, eu teria morrido como um porco!” [5]. Ele invocou os nomes de Jesus, Maria e José, agarrou o crucifixo, apertou-o junto ao coração e disse, agradecido: “Agora me encontro na fonte da bem-aventurança!” Num apartamento no número 12 da Place Vendôme em Paris, onde hoje funciona uma joalheria, às duas da manhã de uma quarta-feira, 17 de outubro de 1849, Chopin, o rebelde, morreu aos 39 anos de idade. “Assim morreu Chopin”, concluiu padre Jelowicki, “e na verdade sua morte foi o mais belo concerto de sua vida” [6].

Referências

  1. The Catholic Northwest Progress, Seattle, WA, 6 de outubro de 1939, p. 3.
  2. Insegnamenti di Benedetto XVI, VI, 1, 2010, Libreria Editrice Vaticana, p. 284.
  3. J. Huneker, Chopin: The Man and His Music, New York: C. Scribner’s Sons, 1918, p. 79.
  4. Huneker, op. cit., 78-84.
  5. Wierzynski, The Life and Death of Chopin, New York: Simon and Schuster, 1949, p. 412.
  6. Huneker, op. cit. pp. 83-84.

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Existem almas pelas quais nem adianta rezar?
Doutrina

Existem almas
pelas quais nem adianta rezar?

Existem almas pelas quais nem adianta rezar?

A fé nos ensina que todos os homens que morrem em estado de pecado mortal incorrem na danação eterna. Mas quem são de fato os que morrem nesse estado? Só Deus o sabe, Ele que reserva a si o julgamento dos vivos e dos mortos.

Pe. François Xavier SchouppeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Novembro de 2019
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Já repassamos os recursos e os numerosos meios que a divina misericórdia colocou em nossas mãos a fim de darmos alívio às almas do Purgatório. Mas que almas se encontram nessas chamas expiatórias e a quais delas devemos prestar nossa assistência? Por que almas devemos rezar e oferecer sufrágios a Deus? 

A tais questões é preciso responder o seguinte: o nosso dever é rezar pelas almas de todos os fiéis falecidos, omnium fidelium defunctorum, de acordo com a expressão da Igreja. Ainda que a piedade filial nos imponha deveres especiais com relação a nossos pais e familiares, a caridade cristã manda-nos rezar pelos fiéis falecidos em geral, porque todos eles são nossos irmãos em Cristo Jesus, todos eles são nosso próximo, que devemos amar como a nós mesmos. Por estas palavras, “fiéis falecidos”, a Igreja se refere a todos que se encontram no Purgatório, ou seja, os que não estão no Inferno, mas também não se tornaram dignos ainda de ser admitidos à glória do Paraíso. 

Mas quem são essas almas? Acaso podemos conhecê-las? Deus reservou esse conhecimento a si mesmo e, a menos que Ele no-lo deseje revelar, é preciso que permaneçamos em ignorância completa a respeito do estado das almas na outra vida. É raro, de fato, que Ele nos dê a conhecer se uma alma está no Purgatório ou na glória do Céu, e mais raro ainda que Ele revele o destino de um réprobo. Por conta dessa incerteza, nós devemos rezar em geral, como faz a Igreja, por todos os falecidos, sem prejuízo das almas a que queremos prestar auxílio de modo particular.

Evidentemente, seria preciso restringir a intenção de nossas orações aos mortos que ainda se encontram em necessidade de nossa assistência, se Deus nos concedesse o privilégio dado a Santo André Avelino, de conhecer a condição das almas na outra vida. Quando com angélico fervor esse santo religioso da Ordem dos Teatinos rezava pelos falecidos, de acordo com seu piedoso costume, algumas vezes acontecia de ele experimentar em seu interior uma espécie de resistência, um sentimento de repulsa invencível, enquanto noutras vezes, pelo contrário, ele achava grande consolação e sentia uma particular inclinação à oração. 

Logo ele compreendeu o significado dessas diferentes impressões: a primeira queria dizer que sua oração seria inútil, porquanto a alma que ele desejava assistir era indigna da misericórdia de Deus e tinha se condenado ao fogo eterno; a segunda indicava que sua oração era eficaz para o alívio da alma no Purgatório. O mesmo se passava quando ele queria oferecer o Santo Sacrifício por alguém que morrera. Ele sentia, ao deixar a sacristia, como se fosse retido por uma mão irresistível, com o que entendia que aquela alma estava no Inferno; mas quando era inundado de alegria, iluminação e devoção, ele podia ficar certo de que contribuiria para a libertação de uma alma.

Esse generoso santo rezava, portanto, com o maior dos fervores pelos mortos que ele sabia estarem sofrendo, e não cessava de oferecer seus sufrágios até que as almas lhe viessem agradecer, dando-lhe a certeza de sua libertação.

O que nos cabe, a nós que não possuímos essas luzes sobrenaturais, é rezar por todos os falecidos, até mesmo pelo maior dos pecadores e pelo mais virtuoso dos cristãos. Santo Agostinho conhecia a grande virtude de sua mãe, Santa Mônica e, no entanto, não satisfeito por oferecer seus próprios sufrágios por ela a Deus, pedia a seus leitores que não deixassem de recomendar a alma dela à divina misericórdia.

No que diz respeito a grandes pecadores, que morrem sem se reconciliarem externamente com Deus, nós não devemos excluí-los de nossos sufrágios, porque não temos segurança de sua impenitência interior. A fé nos ensina que todos os homens que morrem em estado de pecado mortal incorrem na danação eterna; mas quem são de fato os que morrem nesse estado? Só Deus o sabe, Ele que reserva a si o julgamento dos vivos e dos mortos. Quanto a nós, só o que podemos fazer é tirar uma conclusão hipotética a partir de circunstâncias exteriores, mas mesmo disso nós devemos nos abster. 

É preciso admitir, contudo, que há muito o que temer por aqueles que morreram despreparados para a morte; e, para os que se recusam a receber os sacramentos, então, parece que se esvai toda esperança, dado terem deixado essa vida com sinais externos de réprobos. Apesar de tudo, devemos deixar o julgamento a Deus, pois é a Ele que pertence o juízo: Dei iudicium est (Dt 1, 17). 

Mais esperança existe para os que não foram positivamente hostis à religião, que foram benevolentes para com os pobres, que conservaram algumas práticas da piedade cristã ou que pelos menos aprovavam e favoreciam a piedade; há mais esperança para tais pessoas, eu digo, quando acontece de morrerem de repente, sem terem tido tempo de receber os últimos sacramentos da Igreja.

São Francisco de Sales não nos permite desesperar da conversão dos pecadores até o seu último suspiro, e mesmo depois da morte nos proíbe de julgar mal aqueles que levaram uma má vida. Com exceção daqueles pecadores cuja condenação é tornada manifesta pela Sagrada Escritura, nós não devemos concluir, ele diz, que uma pessoa se condenou; ao contrário, é preciso que respeitemos o segredo de Deus

A principal razão disso é que, assim como a primeira graça não se pode merecer, é gratuita, assim também é a graça da perseverança final, ou da boa morte. É por isso que devemos ter esperança por todos os falecidos, por mais lamentável que tenha sido sua morte, porque nossas conjecturas podem basear-se tão-somente no exterior, com base em que até mesmo os mais espertos podem se enganar.

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