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O que fazer com meu santinho quebrado?
Espiritualidade

O que fazer
com meu santinho quebrado?

O que fazer com meu santinho quebrado?

Uma vez benzidos e destinados ao culto divino ou à veneração, os objetos sagrados devem ser tratados com reverência, não podendo ser usados de maneira imprópria ou profana. Como proceder, então, quando eles quebram ou se desgastam pelo uso?

Pe. William SaundersTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 2 minutos
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“O que devo fazer com o meu velho ramo bento? E com minhas imagens e rosários bentos? Já que foram benzidos, tenho certeza de que não devo simplesmente jogá-los no lixo. Existe alguma orientação sobre isso?”

Como católicos, estamos acostumados a possuir objetos “benzidos”. Nesse caso, um bispo ou um padre confere uma bênção que significa a santificação e consagração permanentes de um objeto a alguma finalidade sagrada. Essa bênção recebe o nome técnico de “bênção constitutiva”. Por exemplo, quando um bispo dedica ou, em terminologia clássica, consagra um altar, o altar deve ser usado apenas para fins sagrados: particularmente, para o oferecimento da Missa. Ou, quando um cálice é benzido, ele se torna um vaso sagrado, destinado unicamente ao uso sagrado. Uma vez que o objeto religioso foi benzido e destinado ao culto divino ou à veneração, ele deve ser tratado com reverência e não pode ser usados de maneira imprópria ou profana (cf. Código de Direito Canônico, Cân. 1171).

No entanto, objetos religiosos abençoados quebram e se desgastam pelo uso. A regra básica para desfazer-se deles é queimá-los ou enterrá-los [1]. Durante o séc. XIX, tanto a Sagrada Congregação dos Ritos quanto o Santo Ofício (hoje chamados, respectivamente, de Sagrada Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos e Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé) emitiram várias determinações a esse respeito. Eis aqui alguns exemplos: um cálice que se torna “inservível” não deve ser vendido, mas usado para algum outro fim sagrado ou derretido; vestes, paramentos e alfaias devem ser destruídos; água benta suja ou em excesso deve ser despejada na terra. Os ramos devem ser queimados e suas cinzas, distribuídas na Quarta-feira de Cinzas ou lançadas na terra; um rosário quebrado ou uma estátua religiosa devem, normalmente, ser queimadas etc. Em resumo, a ideia de fundo é que o que foi dedicado a Deus deveria voltar para Deus. Nunca deveríamos “jogar fora” o que foi consagrado a Deus.

Curiosamente, esse mesmo critério se aplica ao descarte da Santa Eucaristia. Em cada sacristia há um sumidouro (sacrarium), que é uma pia conectada não com o sistema de esgoto, mas diretamente com a terra. Se, por algum motivo, o sacerdote tiver de descartar uma Hóstia sagrada, ele deverá dissolvê-la completamente na água e deixá-la escoar pelo encanamento do sumidouro. Aliás, estava eu certa vez a distribuir a Santa Comunhão num asilo, e uma das velhinhas queria recebê-la como de costume, mas, por alguma razão, não conseguia engoli-la. Ela então expeliu a Hóstia sagrada no purificatório. Quando voltei à sacristia, entornei pelo sumidouro a Hóstia sagrada, já dissolvida na água [2].

Por vivermos numa sociedade em que tudo se tornou tão descartável, não podemos esquecer os objetos religiosos que foram benzidos e dedicados a Deus e a um uso sagrado. Meu coração se parte toda vez que entro numa loja de antiguidades e vejo um cálice, um relicário (às vezes, ainda com relíquias), vestes e outros objetos sagrados que, alguma vez, foram utilizados na Santa Missa. Eu me pergunto: “O que estaria pensando o sujeito para desfazer-se disso de tal maneira?” Ele deveria ter buscado para esses objetos religiosos um novo lar em alguma igreja, ou tê-los descartado da forma correta. 

Por favor, guarde sempre com cuidado os seus objetos religiosos em casa, venere-os com piedade e, se necessário, desfaça-se deles corretamente.

Notas

  1. Supondo-se, é claro, que a quebra ou o desgaste tenham tornado o objeto absolutamente impróprio para uso, sem que seja possível sequer restaurá-lo (no caso de uma estátua que se desfez em inúmeros pedaços, por exemplo).
  2. Recorde-se, a propósito, o que prescreve a Instrução Geral do Missal Romano, n. 280: “Se cair no chão alguma hóstia ou partícula, recolhe-se reverentemente. Se acaso se derramar o Sangue do Senhor, lava-se com água o sítio em que tenha caído e deita-se depois essa água no sumidouro colocado na sacristia” (ambas as notas são da Equipe CNP).

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Uma paráfrase do Pai-nosso e da Ave-Maria
Oração

Uma paráfrase
do Pai-nosso e da Ave-Maria

Uma paráfrase do Pai-nosso e da Ave-Maria

“Visto que a Oração Dominical é o mais perfeito exemplo de todas as orações, por conter tudo quanto Deus quer que lhe peçamos, e também por sua dignidade, pois Cristo mesmo no-la ensinou… vale a pena apresentá-la aqui ao modo de paráfrase.”

Wilhelm NakatenusTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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As paráfrases abaixo, do Pai-nosso e da Ave-Maria, assim como as orações, são para ser rezadas. Foram extraídas de uma antiga coletânea de preces devocionais, chamada Coeleste palmetum, e traduzidas diretamente do latim por nossa equipe. A introdução da obra original a esses pequenos comentários diz o seguinte: “Visto que a Oração Dominical é o mais perfeito exemplo de todas as orações, por conter tudo quanto Deus quer que lhe peçamos, e também por sua dignidade, pois Cristo mesmo no-la ensinou… vale a pena apresentá-la aqui ao modo de paráfrase.”

No mais, os complementos feitos a seguir às petições dominicais e à Saudação Angélica ajudam-nos a entendê-las e rezá-las melhor. Daí a oportunidade de publicá-los.


Paráfrase do Pai-nosso
(Coeleste palmetum, pp. 374–376)

Prefácio

Pai nosso amantíssimo, que por vossa bondade nos criastes do nada à vossa imagem e semelhança e, uma vez caídos, salvastes da condenação eterna por vosso Unigênito, e vos dignastes adotar-nos como filhos, protegendo-nos até este dia com afeto mais do que paternal. Oxalá, Pai, vos amemos e adoremos de tal modo, que mereçamos ser chamados verdadeiros filhos vossos.

Que estais nos céus em glória e grandeza, onde milhares e milhares de anjos vos servem, e dezenas de milhares vos assistem. Mas nós, degradados filhos vossos, vagamos errantes neste vale de lágrimas, e a vós clamamos gemendo e chorando. Eia pois, Pai nosso, que estais nos céus, ouvi clemente os votos e desejos dos vossos filhos, e elevai a vós os nossos corações, para que sejamos, ao vosso lado, cidadãos dos céus.

Petições

1. Santificado (que é o que mais desejamos) seja o vosso nome em nós, que em si mesmo é santo e glorioso, e dai-nos a graça de, em todo lugar e a todo o momento, o reconhecermos, venerarmos e celebrarmos, pois desde o nascente até o poente é digno de louvor o nome do Senhor.

2. Venha aos nossos corações e almas o vosso reino, lançados para longe deles a carne, o mundo e o diabo. Este vosso reino é o reino da graça, pelo qual anelamos chegar ao reino da vossa glória.

3. Seja feita a vossa vontade, pois nada mais santo, nada mais desejável se pode pedir, assim na terra entre os homens, com perfeitíssima resignação na adversidade e na prosperidade, na tristeza e na alegria, como no céu entre os anjos, com a suma felicidade e bem-aventurança.

4. O pão nosso de cada dia, não só aquele com que se alimenta o corpo, mas também aquele com que se dá refeição à alma, isto é, a vossa Palavra vivificante e o Pão dos anjos, nos dai hoje. Olhai, Pai, para a pobreza dos vossos filhos, e que não passemos um só dia com fome deste pão.

5. Perdoai-nos, benigníssimo Pai, as nossas imensas dívidas, contraídas com nossos muitos e gravíssimos pecados e negligências, que criatura nenhuma pode satisfazer. Por isso, imploramos suplicantes a vossa infinita misericórdia pela remissão deles, a fim de que no-los perdoeis assim como nós, por vosso amor, perdoamos aos nossos devedores, pelos quais alguma vez já fomos agravados. Abrandai, ó clementíssimo Pai, a relutante dureza e aspereza do nosso coração, para que todos estejamos intimamente unidos no Santo Espírito do vosso amor.

6. E não nos deixeis a nós, vasos frágeis, cair em tentação, à qual facilmente sucumbiríamos. A carne seduz, o mundo provoca, o diabo assalta: de vós, ó Pai, nos tentam arrebatar. Só vós sois o nosso refúgio e fortaleza; não permitais, vo-lo suplico, que sejamos tentados acima de nossas forças.

7. Mas livrai-nos do mal, dos de alma e de corpo, quase inumeráveis. Livrai-nos sobretudo do mal de culpa, que vos ofende a vós, nosso Deus e sumo Bem. Livrai-nos também (se assim o exigir a vossa glória e a nossa salvação) do mal de pena: da tristeza, da desonra, da guerra, da fome, da doença, da penúria e de tudo o que merecemos por nossos pecados; e associai-nos enfim àqueles que, no Céu, gozam eternamente de vós, sumo Bem. Afora vós, Deus do meu coração, que há para mim no Céu? Se vos possuo, meu Deus, nada mais me atrai na terra. Vós sois minha herança para sempre!

Amém, isto é, faça-se, ó Pai, o que pedimos, por vossas entranhas de misericórdia, pelos méritos do vosso Filho e pelo amor do Espírito Santo.

Paráfrase da Ave-Maria
(Coeleste palmetum, pp. 376–377)

1. Ave, alegrai-vos e rejubilai, ó Rainha do Céu e Senhora da terra, Maria. Ó gozoso e tão esperado Ave, pelo qual se inverteu o nome de Eva: ela introduziu no mundo maldição e morte; o vosso Ave, ó Maria, bênção e vida eterna.

2. Cheia de graça, sobre a qual se derramou todo um imenso mar de graças. Ó afluência de graça, que aos céus destes glória; à terra, Deus, aos homens, a salvação. Fazei, ó Mãe da graça, que a abundância da vossa graça redunde em meu coração.

3. O Senhor é convosco, como nunca esteve com homem ou anjo algum. O Pai dos céus é convosco, que fez ser vosso o próprio Filho. O Filho é convosco, que uniu a si com vínculo eterno a vossa carne virginal. O Espírito Santo é convosco, que com o Pai e o Filho santificou o vosso ventre. Por vossa intercessão, ó Maria, rogai ao mesmo Senhor que esteja comigo.

4. Bendita sois vós entre as mulheres, que fostes eximida da maldição das mulheres: sendo Virgem concebestes, e sem dor destes à luz. Ó Mãe do gênero humano, destes a salvação ao mundo: se Eva foi autora do pecado, vós, ó Maria, sois autora do mérito. Eva, matando, foi causa de ruína; vós, dando vida, fostes causa de saúde; ela feriu, vós curastes. Rogo-vos suplicante, ó bendita entre as mulheres, que me façais partícipe da vossa bênção.

5. E bendito é o fruto do vosso ventre, que é a fonte de toda bênção. Ó Virgem bendita! quem poderá louvar e agradecer-vos dignamente os vossos méritos, vós, que fizestes nascer ao mundo aquele em que são abençoados todos os povos? Que a abundância da vossa bondade escuse e supra os defeitos da nossa devoção. Fazei antes de tudo, ó Mãe da graça, ó Genitora da vida, ó Mãe da salvação, que aquele que por vós quis participar da nossa carne e miséria, também por vós nos faça participar agora de sua bênção e, no futuro, de sua glória, Jesus Cristo, vosso Filho e Senhor Nosso, que com o Pai e o Espírito Santo vive e reina.

6. Santa Maria, etc [1].

Notas

  1. O original latino propõe uma paráfrase à “Saudação Angélica”, isto é, apenas à primeira parte da oração da Ave-Maria. Quanto à sua segunda parte (“Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores…”), vale lembrar que seu acréscimo é, historicamente, bem posterior: tratava-se de uma súplica mariana rezada na oração litúrgica das Completas. Mais sobre a origem e o significado dessa antiquíssima prece: cf. Ao vivo com Pe. Paulo, n. 99: A Oração da Ave-Maria.

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Excomungando a rainha
História da Igreja

Excomungando a rainha

Excomungando a rainha

Por muitos anos a Igreja acompanhou, consternada, a perseguição aos católicos na Inglaterra, até que um Papa achou que era hora de dar uma resposta radical… Saiba como, 450 anos atrás, a rainha Elizabeth I foi excomungada por São Pio V.

Steve WeidenkopfTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Chegara o dia há muito temido pelos católicos. O reinado da amada Maria havia terminado com a morte da rainha, enquanto ouvia Missa, no dia 17 de novembro de 1558.

A filha do rei Henrique VIII e de Catarina de Aragão demonstrou ser uma governante corajosa, que julgava ser vontade de Deus que a fé católica voltasse a ser praticada abertamente no reino. Embora o pai, a fim de se livrar da esposa, tivesse dado o primeiro passo no controle da Igreja na Inglaterra, a Coroa só aderiu à heresia no reinado de seu meio-irmão Eduardo VI, filho de Henrique e Joana Seymour.

O governo de Eduardo foi marcado pelo expurgo da fé e o uso da força, física e jurídica, para impor a heresia protestante aos católicos da Inglaterra. Mas Eduardo era de saúde frágil, e o seu reinado duraria apenas seis anos. Os homens da corte responsáveis pela implementação da doutrina e do culto protestantes para a população, sendo Thomas Cranmer o principal deles, foram levados a julgamento no reinado de Maria.  

A Igreja Católica prosperou durante o reinado da amada rainha (o apelido bloody, que em inglês tem duplo sentido, sanguinário e infame, e foi associado ao nome dela por historiadores protestantes, é uma caricatura da caridade), mas o medo sempre esteve à espreita nos bastidores. A rainha não era casada quando assumiu o trono aos trinta e sete anos, mas isso logo se resolveu, quando ela se casou com o príncipe Filipe da Espanha. Infelizmente, da união não vieram herdeiros, o que alimentou o temor de que a meia-irmã de Maria, a protestante Elizabeth Tudor, filha do rei Henrique e de Ana Bolena, assumiria o trono após a morte dela.

Os católicos ingleses acreditavam que a legítima herdeira da coroa inglesa era Maria Stuart, rainha dos escoceses (1542–1567), por causa de sua fé católica e do relacionamento com a linhagem dos Tudor (ela era neta de Margarida Tudor, irmã de Henrique VIII). No entanto, intrigas políticas — a principal das quais foi a revolução religiosa na Escócia, desencadeada pelo revolucionário protestante John Knox — impediram Maria Stuart de assumir o trono inglês. 

Retrato da rainha Elizabeth I, por Marcus Gheeraerts, o Jovem.

Educada no protestantismo, Elizabeth dedicou boa parte de seu reinado de quarenta e cinco anos à supressão violenta da fé católica na Inglaterra. Elizabeth, que teve um dos reinados mais longos da história inglesa, é muito conhecida como “Boa Rainha Bess” — uma “Rainha Virgem”, forte, independente e inteligente que levou seu povo a uma era de prosperidade sem precedentes e representou o sólido protestantismo dele.

Essa narrativa foi descrita adequadamente pelo historiador católico Hilaire Belloc como a monstrous scaffolding of poisonous nonsense, “uma armação monstruosa de uma malignidade absurda”. Na realidade, Elizabeth foi uma monarca testa de ferro, controlada nos bastidores por homens poderosos que enriqueceram às custas da dissolução de mosteiros católicos no reinado de Henrique e receberam incentivo econômico para evitar a restauração permanente da fé católica na Inglaterra.

Durante o reinado de Elizabeth, os católicos ingleses sofreram muito com a primeira perseguição à Igreja patrocinada pelo Estado desde a época do Império Romano. As primeiras desculpas, apresentadas numa longa campanha legislativa para erradicar a fé católica na Inglaterra, começaram em 1559, quando Elizabeth foi declarada Governante Chefe de Todos os Assuntos Espirituais e Eclesiásticos na Inglaterra, por meio do Ato de Supremacia, que exigiu de todo o clero e de todos os professores universitários a profissão de um juramento de lealdade à rainha como chefe da Igreja. A recusa em fazer o juramento implicava confisco de bens, prisão e a possibilidade de pena de morte

Outra lei, conhecida como Ato de Uniformidade, restaurou o culto protestante na Inglaterra e exigiu que todos os cidadãos frequentassem as cerimônias da Igreja da Inglaterra. A recusa em participar delas era penalizada com multas severas. A legislação também tornou crime acreditar que o Papa era o chefe da Igreja na Inglaterra. Outra legislação anticatólica aprovada durante o reinado de Elizabeth incluía uma lei que tornava a conversão à fé católica um ato de traição punível com a morte. Quando os missionários jesuítas chegaram ao país sitiado para servir à Igreja clandestina, foram aprovadas leis que tornavam crime (de auxílio e incentivo à rebelião) abrigar ou ajudar um sacerdote jesuíta.

O ataque à Igreja na Inglaterra elizabetana exigia uma resposta, principalmente se a fé quisesse sobreviver, ainda que na clandestinidade. O cardeal William Allen prontamente reconheceu a necessidade de preparar homens ingleses para o sacerdócio fora do país, os quais seriam depois reenviados à Inglaterra. Então, em 1568 ele fundou um seminário do outro lado do Canal em Douai (hoje, parte do território francês) conhecido como Colégio Inglês. Uma vez ordenados, os graduados no seminário retornavam para casa clandestinamente, a fim de cuidar dos fiéis perseguidos.

Um desses sacerdotes, Cuthbert Mayne (1544–1577), chegou em segredo à Inglaterra no dia 24 de abril de 1576. Ele serviu à Igreja clandestina por pouco mais de um ano até ser preso em 8 de junho de 1577 e condenado à morte. Deram-lhe oportunidade de salvar a sua vida, caso renunciasse à fé católica jurando sobre a Bíblia que Elizabeth era chefe da Igreja. O Pe. Mayne tomou a Bíblia, fez o sinal da cruz e disse: “A rainha nunca foi, não é nem jamais será chefe da Igreja.” Sofreu uma execução terrível: foi enforcado, afogado e esquartejado, tendo sido o primeiro de muitos sacerdotes martirizados na Inglaterra elizabetana.

Retrato do Papa Pio V, por Bartolomeo Passarotti.

Os Papas acompanharam muito consternados a perseguição à Igreja e apoiaram os esforços realizados para servir aos católicos clandestinos na Inglaterra. Finalmente, um Papa achou que era hora de dar uma resposta radical.

Após a sua eleição ao papado, o cardeal Michele Ghislieri tomou o nome de Pio V. Atormentada pela revolução protestante em toda a Europa, a Igreja precisava dar uma resposta vigorosa. Embora a Contrarreforma tivesse começado com os seus predecessores, foi o Papa São Pio V (1566–1572) quem implementou a grande Reforma e pôs a Igreja nos trilhos da restauração e da regeneração. Um santo dominicano, ex-chefe do Tribunal do Santo Ofício em Roma, Pio V foi resoluto em oferecer ajuda aos católicos sitiados na Inglaterra. Elizabeth reinava há doze anos, e os esforços dos pontífices anteriores para trabalhar com governantes seculares a fim de aliviar os sofrimentos dos católicos ingleses mostraram-se insuficientes. Por isso, Pio V decidiu que era hora de excomungar a rainha e exigir a destituição dela.

Em 27 de abril de 1570 (i.e., 450 anos atrás), Pio V promulgou a bula Regnans in Excelsis, na qual a “falsa rainha da Inglaterra e serva do crime” foi excomungada por abraçar os “erros dos hereges”. A bula apresentou um resumo da perseguição aos católicos sob o reinado de Elizabeth e declarou sua destituição.

Não foi a primeira vez que um pontífice excomungou um governante secular e convocou uma revolução. No entanto, como em muitos casos anteriores, tal intento não atingiu seu objetivo e o tiro ainda saiu pela culatra. Elizabeth e seus conselheiros, principalmente William Cecil (1520–1598), se aproveitaram do ato como “prova” de que era impossível ser católico e inglês leal ao mesmo tempo. Durante os trinta anos seguintes do reinado de Elizabeth, a Igreja passou por outros seis pontificados. A rainha continuou a perseguição sangrenta aos católicos na Inglaterra… 

Mas o sangue dos mártires não seria em vão, e a fé católica jamais desapareceria de solo inglês.

Notas

  • Na imagem acima está a intérprete da rainha Elizabeth I no filme “Duas Coroas” (Mary Queen of Scots), de 2018. A referência, porém, não significa uma aprovação ou recomendação desse filme (que, segundo o site IMDb, contém cenas bastante inapropriadas de sexo e nudez); é uma pena, aliás, que até produções históricas desse tipo apelem à vulgaridade para fazer sucesso (Nota da Equipe CNP).

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O que acontecerá com a Europa?
Sociedade

O que acontecerá com a Europa?

O que acontecerá com a Europa?

A Europa vem tentando realizar uma experiência audaz: preservar a sua unidade política, à parte o fundamento histórico de sua unidade cultural e moral. É um projeto notável, mas que tem tudo para dar errado. E o Papa Ratzinger sabe por quê.

Carson HollowayTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 10 minutos
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O que acontecerá com a Europa? Todas as pessoas atentas e informadas que acompanham os problemas mundiais certamente fazem a mesma pergunta. Uma das mais proeminentes nações europeias, o Reino Unido, abandonou a União Europeia [n.d.t.: a saída foi oficializada no dia 31 de janeiro de 2020]. Um Brexit bem-sucedido abre a possibilidade para que outras nações também deixem de fazer parte do bloco. De repente, é posta em xeque a viabilidade da Europa como um conjunto politicamente integrado, sonho e trabalho de vida de duas ou três gerações de estadistas europeus.

O tema do destino da Europa aponta para a questão mais profunda de sua identidade. Quando nos perguntamos “o que acontecerá com a Europa?” não podemos deixar de nos perguntar “o que é a Europa”. Em outras palavras, o que significa a Europa? O que ela aspira ser? Como observa Joseph Ratzinger, essas perguntas surgem porque a Europa é propriamente entendida não apenas como conceito geográfico, mas também como conceito cultural e histórico. A Europa, diz ele, sempre julgou ter alguma missão universal e algo precioso a oferecer ao mundo. Talvez, por isso, ela não possa permanecer unida politicamente, já que os vários povos que a compõem não estão mais de acordo sobre o que significa ser europeu.  

Tais questões — o que é a Europa e o que ela deveria ser — são analisadas por Ratzinger (hoje, Papa emérito Bento XVI) em Western Culture: Today and Tomorrow [“Cultura Ocidental: Hoje e Amanhã”, sem tradução para o português]. Dificilmente poderíamos desejar um guia mais criterioso para uma investigação como essa. O tratamento que Ratzinger dá a essas questões não é e não pretende ser sistemático. O livro se compõe de várias conferências dadas por ele ao longo dos anos como cardeal da Igreja Católica. Sem embargo, não podemos ler as suas meditações sem a consciência de estarmos na presença de uma mente sábia, incisiva, sóbria e séria. As avaliações ali apresentadas não são surpreendentes sob certos aspectos, mas o são sob outros, e todas são cuidadosas, provocativas (no melhor sentido da palavra) e dignas de um exame sério.

O Papa emérito, no aeroporto de Munique, no último dia 22 de junho. Ele regressava a Roma depois de visitar o irmão Georg, que faleceria em 1.º de julho. (Sven Hoppe/Pool, Reuters.)

Uma Europa à deriva. — Sem dúvida, não é nenhuma surpresa que, para Ratzinger, a Europa perdeu o rumo. Ela deseja obter respeito pelos direitos humanos, pela dignidade humana, pelo primado do direito a serviço do bem comum. De acordo com Ratzinger, esses compromissos morais dependem de uma crença na inteligibilidade do universo, que, por sua vez, depende da crença em Deus como causa inteligível e amorosa do universo — o Criador de uma ordem racional que seja ordenada ao bem do ser humano. A Europa, no entanto, perdeu a sua compreensão do cosmos, a qual sustentava outrora as suas aspirações éticas. Como observa Ratzinger com perspicácia, as elites europeias reconheceram o fracasso econômico do marxismo sem perceber os seus fracassos morais e filosóficos. Ninguém quer o retorno de uma economia planejada pelo Estado. Mas os atuais proponentes do (assim chamado) iluminismo europeu compartilham “com o marxismo a ideia evolucionista de um universo criado por um evento irracional” e, por essa razão, incapaz de fornecer qualquer “direção ética” para os seres humanos. Para muitos intelectuais europeus, o mundo do sentido e da justiça deve ser criado pelos seres humanos. Ratzinger, em contrapartida, argumenta que a ordem pública justa depende de uma moralidade que precede a política. Se a ordem é meramente criada por seres humanos, a maioria (ou quem for mais poderoso na sociedade) fica livre para impor aos fracos quaisquer políticas que desejarem. 

Esse diagnóstico é semelhante ao apresentado pelo grande predecessor de Ratzinger no papado, João Paulo II. Não é de se surpreender que seja sustentado também por seu mais confiável colaborador. No entanto, Ratzinger provavelmente surpreenderá ao menos alguns de seus leitores com o remédio que ele recomenda.

Influenciado por um jornalismo e uma análise cultural superficiais, o atual panorama intelectual do Ocidente é perseguido pela caricatura de um Ratzinger que encarna, de forma quase ideal, a figura do “prelado católico reacionário”. Seus argumentos sobre a cultura ocidental desmentem por completo essa paródia do homem e do pensador. Ratzinger não propõe um regresso à Idade Média. Não busca uma restauração do domínio da Igreja medieval sobre a vida política e social. Em vez disso, enfatiza o caráter secular e limitado do Estado, tal como é compreendido inclusive pelo cristianismo. Para Ratzinger, é possível dizer que o Estado tem um fundamento divino, no sentido de que Deus espera que os cristãos (e todas as pessoas) obedeçam às ordens justas das autoridades estabelecidas. Mas o Estado não tem uma missão sagrada. Seu objetivo não é a salvação das almas ou a imposição da fé cristã à sociedade, mas o estabelecimento da paz e de uma ordem moral justa. Ratzinger sustenta essa perspectiva por meio da referência às fontes cristãs mais antigas e confiáveis, como os Apóstolos e o próprio Cristo, que aconselhou os seus discípulos a obedecerem às autoridades políticas, ainda que o Estado existente naquele tempo, o Império Romano, certamente não fosse cristão.

Ratzinger pensa que a Europa moderna perdeu o rumo, mas ele não propõe um retorno à cristandade medieval. Portanto, para onde a Europa deveria retornar? Ratzinger retoma um estágio anterior (mas não muito distante) da história da Europa, uma época na qual o liberalismo europeu entendia a política principalmente em termos seculares, mas ainda assim entendia a si mesmo — entendia a Europa — como uma manifestação da cultura cristã. Segundo Ratzinger, os principais estadistas responsáveis pela reconstrução de uma justa paz depois da II Guerra Mundial — homens como Winston Churchill, Konrad Adenauer, Robert Schuman e Alcide De Gasperi — eram guiados pelas exigências morais que haviam aprendido da “fé cristã”. Procurando ir além da insanidade ideológica que havia devastado a Europa, eles buscaram estabelecer não um “Estado confessional” cristão, mas antes um “Estado permeado pelo pensamento ético” que a fé cristã sustenta — uma razão moral que vai além do mero cálculo de consequências e reconhece a dignidade e os direitos dos seres humanos como tais. Ratzinger recorda bem o que muitos leitores contemporâneos esqueceram ou jamais souberam: os principais estadistas ocidentais daquela época entendiam a II Guerra como uma luta para preservar a “civilização cristã”, e assim a chamavam publicamente. 

Quando analisamos o assunto desse ponto de vista, talvez não surpreenda o fato de Ratzinger — um homem de sensibilidades modernas, mas conservadoras — propor um retorno à organização política que prevaleceu em sua juventude. No entanto, não é razoável passar por cima do argumento dele como se fosse simples nostalgia. Afinal de contas, como Ratzinger mesmo afirma, e como qualquer um pode perceber, há sinais de que a Europa contemporânea está em apuros, sinais de que é insustentável a forma como o europeu de hoje compreende a si mesmo.

Preservando a cultura europeia. — Deixando de lado a questão de se a Europa pode manter-se ou não como unidade legal e política, também nos podemos perguntar se ela ao menos é capaz de preservar e transmitir-se como cultura. Ratzinger observa que a Europa “parece ter-se esvaziado”, inclusive em seu “momento de maior êxito”. Os europeus já não querem ter filhos o suficiente para preservar a vida de suas nações ao longo do tempo. Essa relutância talvez seja resultado do declínio na crença em Deus e, portanto, na bondade da Criação. Em condições normais, é mais provável que um casal considere os filhos um dom de um Deus benevolente do que meros produtos do acaso e da necessidade. É mais provável que os pais tenham mais confiança em gerar novas vidas quando acreditam que elas entrarão no reino do ser e da bondade governado por um Deus benevolente, e não quando creem que o universo não é mais do que o produto de forças indiferentes à vida humana. Seja como for, não há dúvida de que uma cultura que reluta em gerar filhos não conseguirá sobreviver.

Sem dúvida, os defensores da Europa contemporânea responderão que a transmissão cultural não depende, necessariamente, da reprodução biológica. A Europa pode transmitir os seus valores a recém-chegados, a imigrantes que darão continuidade ao projeto europeu depois que os europeus de origem desaparecerem. Isso de fato é possível, mas é algo que parece exigir uma autoconfiança moral e cultural que os europeus de hoje não possuem. Ratzinger observa que os europeus rejeitaram a crença em Deus, porque passaram a enxergá-lo como um limite para a liberdade individual. A crença em Deus, no entanto, dominou boa parte da história da Europa. Portanto, os europeus de hoje devem considerar o seu próprio passado como um período de opressão. Daí vem o “o ódio a si mesmo no mundo ocidental, que é estranho e pode ser considerado patológico”. Trata-se de uma cultura que “já não ama a si mesma”, e sobre a qual poderíamos nos perguntar até mesmo se “deseja sobreviver”. Como uma tal cultura poderia transmitir a novas gentes uma herança que ela mesma despreza? 

Mais uma vez, o defensor da Europa contemporânea pode responder que tudo isso é irrelevante, pois ela não deseja preservar e transmitir a sua antiga herança moral e cultural. Quer apenas transmitir os seus valores modernos — isto é, uma concepção universal secular e racionalista dos direitos humanos, dissociada de qualquer herança religiosa específica. Ratzinger sugere que, neste ponto, os europeus contemporâneos estão se enganando a si mesmos. Ele observa que a racionalidade exclusivamente secular parece óbvia para os ocidentais porque foi desenvolvida no Ocidente. Ela está “ligada a contextos culturais específicos” e, “enquanto tal, não pode ser reproduzida na humanidade inteira”. Um racionalismo puramente secular — a razão não permeada por crenças religiosas — é estranho à maioria dos povos, e há poucos motivos para achar que eles o aceitarão apenas por começarem a viver na Europa. 

Os europeus de hoje parecem acreditar que esses problemas serão superados pelo progresso. A crença no progresso é, para o europeu contemporâneo, o substituto da crença em Deus. As meditações de Ratzinger, no entanto, revelam alguns motivos por que essa confiança no progresso está desconectada da realidade e é, inclusive, incoerente. Ratzinger recorda que ela está desconectada da realidade porque a natureza humana “começa de novo em cada ser humano”. A geração seguinte não adquire, necessariamente, crenças e hábitos mais justos e humanos do que a anterior. O tipo de progresso moral que os europeus presumem exige que as raízes históricas e cristãs da crença na dignidade humana no Ocidente sejam reconhecidas e transmitidas, um empreendimento ao qual o europeu de hoje é indiferente ou hostil. A crença do europeu no progresso é incoerente porque não há razão para pensar que um progresso confiável surgiria num universo que, fundamentalmente, não se encontra governado por nenhum princípio inteligente ou benevolente.  

Atualmente, a Europa vem tentando realizar uma experiência notável. Ela tenta preservar e até ampliar a sua unidade política, ao mesmo tempo que abandona e despreza o fundamento histórico de sua unidade cultural e moral. O Brexit pode ser apenas o primeiro exemplo dos problemas que essa experiência poderá gerar. Em tais circunstâncias duvidosas, seria razoável procurar o conselho de vozes que a Europa está acostumada a ignorar e até desprezar. Uma Europa conturbada faria bem em começar o seu exame de consciência ao escutar a voz de Joseph Ratzinger. Ele recorda aos leitores que isso não implicaria uma submissão à autoridade espiritual da Igreja Católica, mas somente um compromisso respeitoso e compreensivo com a história moral e religiosa que deu origem à Europa.

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