É um dos momentos mais belos da vida de uma paróquia. Acabou-se a Missa da quinta-feira, ou a adoração do primeiro domingo do mês, ou a conclusão de uma Hora Santa. O sacerdote se paramenta com a capa pluvial branca. O véu umeral recai sobre seus ombros. O incenso sobe em espirais pelo presbitério. E, envolvido por esse perfume e pelo silêncio da Igreja, o povo se ajoelha, olhando para o Santíssimo exposto, enquanto se canta o Tantum Ergo. Depois da bênção, trinitária, trina e muda, que desce sobre todos, a assembleia ainda não se levanta. Há mais. Começam os Louvores: “Bendito seja Deus; Bendito seja o seu Santo Nome…”. E, por fim, antes do último sinal da cruz, sobe do coração do povo aquela prece tão nossa, que talvez muitos de nós rezamos há uma vida sem nunca termos perguntado de onde veio:

Deus e Senhor Nosso, protegei a vossa Igreja, dai-lhe santos Pastores e dignos Ministros. Derramai as vossas bênçãos sobre o nosso Santo Padre o Papa; sobre o nosso (Arce-)Bispo, sobre o nosso Pároco e sobre todo o Clero; sobre o Chefe da Nação (o do Estado), e sobre todas as pessoas constituídas em dignidade, para que governem com justiça. Dai ao povo brasileiro paz constante e prosperidade completa. Favorecei com os efeitos contínuos da vossa bondade o Brasil, este (Arce-)Bispado, a Paróquia que habitamos, a cada um de nós em particular e a todas as pessoas por quem somos obrigados a orar, ou que se recomendaram às nossas orações. Tende misericórdia das almas dos fiéis que padecem no purgatório. Dai-lhes, Senhor, o descanso e a luz eterna.

É uma oração de beleza rara e de alcance imenso. Num parágrafo só, ela abraça a Igreja universal, o Romano Pontífice, o bispo, o pároco, todo o clero, os governantes, o Brasil inteiro, a diocese, a paróquia, cada fiel presente, os ausentes que se recomendaram às nossas orações, e os fiéis que padecem no purgatório. São os vivos e os mortos, os próximos e os distantes, os da Igreja e os da Pátria, tudo numa única súplica ao Senhor, coroando a adoração do seu Corpo eucarístico. Poucas preces do patrimônio devocional católico dizem tanto em tão poucas palavras.


E, no entanto, esta oração — que para nós brasileiros é o fecho quase natural da Bênção do Santíssimo — não existe em nenhum outro país do mundo. É rigorosamente nossa. De onde veio ela? Quando foi composta? Por quem? É o que tentamos mostrar neste artigo, seguindo o rastro documental o mais longe que ele foi até aqui possível, e sem nos furtarmos, ao fim, a uma pequena sugestão pastoral.

Os Louvores Divinos: uma litania nascida da reparação

Antes de chegar à oração brasileira propriamente dita, é preciso compreender aquela que a precede imediatamente: a Fórmula de Louvores (“Bendito seja Deus; Bendito seja o seu Santo Nome…”). Ela não é brasileira, mas romana — e tem uma história muito bonita, que merece ser contada, porque ela toca também no modo como devemos rezar.

No fim do século XVIII, um jesuíta italiano chamado Padre Luigi Felici (1736–1818) vivia e exercia seu ministério às margens do rio Tibre, em Roma, no porto de Ripa Grande. Era um ambiente popular, duro, de trabalhadores, estivadores e marinheiros. As blasfêmias faziam parte do dia a dia como o cheiro do porto. Doído com tantas ofensas ao Nome de Deus, o bom jesuíta compôs, em 1797, uma pequena sequência de aclamações para se rezar em reparação pelas blasfêmias ouvidas. Eram oito invocações apenas, todas começando com as mesmas palavras simples e poderosas: “Bendito seja”. Era a voz dos pobres e dos rudes, erguida em louvor, em resposta à blasfêmia e à profanação ouvidas. Era o modo que aquele sacerdote encontrou de ensinar o povo de Ripa Grande a reparar.

“Louvado seja o Santíssimo Sacramento”. Escola Portuguesa, século XVIII.


A devoção pegou. O Papa Pio VII enriqueceu-a com indulgências em 1801, e daí ela se espalhou pelo mundo católico inteiro. E os papas foram, ao longo dos séculos XIX e XX, acrescentando novas invocações, como que tecendo devagar a tapeçaria inteira da fé católica dentro daquela forma popular de louvor: a Imaculada Conceição foi acrescentada por Pio IX; o Sacratíssimo Coração de Jesus, por Leão XIII; São José, por Bento XV; a gloriosa Assunção de Nossa Senhora, por Pio XII; o Preciosíssimo Sangue, por João XXIII; o Espírito Santo Paráclito, por Paulo VI. As catorze aclamações que rezamos hoje são, portanto, uma obra conjunta de muitas gerações da Igreja.

Mas há um detalhe sobre o modo de rezar os Louvores que o costume moderno de abreviar quase fez desaparecer, e que eu gostaria de recordar aqui. Padre Felici os concebeu, originalmente, não como uma oração recitada em uníssono, mas como uma litania: o sacerdote proclama cada aclamação, e o povo — todo o povo — repete-a inteira. Era assim que os marinheiros de Ripa Grande respondiam, era assim que se rezavam as Ladainhas, era assim que se fazia reparação na Igreja popular do final do século XVIII. A repetição não é redundância; é o gesto pelo qual cada fiel toma para si o louvor, faz dele a sua própria voz, e a opõe, pessoalmente, à blasfêmia do mundo. Suprimir a repetição é transformar uma oração participada numa declamação coletiva — é perder, na prática, aquilo que a tornava reparação.

Posso dar, disto, um testemunho pessoal. Em 10 de junho de 2010, no encerramento do Ano Sacerdotal convocado por Bento XVI, encontrei-me na Praça de São Pedro, entre mais de quinze mil sacerdotes vindos dos quatro cantos do mundo, para a Vigília de Oração presidida pessoalmente pelo Santo Padre. Fizemos Adoração Eucarística solene, diante do Santíssimo exposto. E lá, à hora dos Louvores, o coro entoava cada aclamação e todos nós — o Papa, os Cardeais, os bispos, os milhares de presbíteros — a repetíamos, uma a uma, em cantochão. O próprio livreto litúrgico oficial da Vigília trazia a rubrica inequívoca: La schola intona e l’assemblea ripete — “A schola entoa e a assembleia repete”. Essa é a forma tradicional autêntica da oração, e ela continua sendo a forma própria da Igreja, sempre que haja um pouco de tempo para cantá-la. Só entre nós, aos poucos, o apetite de abreviar foi impondo a execução em uníssono. Com isto, a oração ganhou em rapidez mas perdeu em espessura. Recuperá-la na forma responsorial seria, a meu ver, um pequeno mas precioso gesto de fidelidade à sua natureza originária. Quem quiser pode conferir diretamente na gravação da própria Vigília, a partir do minuto 30: 


A Igreja brasileira com o fim do Padroado

Para entender quando e por que a oração brasileira nasceu na forma que hoje conhecemos, é preciso recuar um pouco na história. Durante todo o Império, o regime do Padroado havia criado entre Igreja e Estado um vínculo jurídico estreito: o Imperador indicava bispos, aprovava ou rejeitava bulas pontifícias (o beneplácito régio), e a Igreja, em contrapartida, rezava por ele publicamente, na liturgia. Nas missas solenes e nas bênçãos, pedia-se a Deus pelo Imperador, pela Imperatriz, pela Família Imperial. Era a lógica herdada do Padroado português e absorvida pela Coroa brasileira a partir de 1822.

Quando a República foi proclamada, em 15 de novembro de 1889, e o Decreto 119-A, de 7 de janeiro de 1890, separou Igreja e Estado no Brasil, tudo isto teve de ser repensado. Não havia mais Imperador por quem rezar. Havia uma nação, uma República, uma Igreja que se encontrava subitamente desatrelada do aparato civil, e que precisava aprender a falar com Deus, em público, dentro dessa nova configuração. O Papa Leão XIII, atento aos ventos que sopravam sobre a América Latina, convocou um Concílio Plenário Latino-Americano, realizado em Roma entre maio e julho de 1899. Foi a primeira grande tentativa de reorganização comum da Igreja no continente depois da era das independências. Ao episcopado brasileiro, o Pontífice recomendou que, antes de convocar o seu próprio Concílio Plenário nacional, preparasse bem o terreno com conferências provinciais e com um documento comum.

A Pastoral Coletiva (1901–1915): onde a oração foi fixada

Obedientes a Leão XIII, os arcebispos e bispos das Províncias Eclesiásticas Meridionais do Brasil reuniram-se em conferência e redigiram, em 1901, a primeira versão daquilo que ficou conhecido como a Pastoral Coletiva — um documento disciplinar e pastoral conjunto, destinado a unificar a ação da Igreja do sul do Brasil diante da nova ordem republicana. Em conferências trienais sucessivas, o texto foi sendo amadurecido, e as Províncias Eclesiásticas do Norte também aderiram. A redação definitiva, anterior ao Código de 1917, fez-se de 12 a 17 de janeiro de 1915 — e é daí que o documento costuma receber o nome de “Pastoral Coletiva de 1915”.

“A Eucaristia”, por Jan van Kessel.


É precisamente nesse documento, no Apêndice 12.º — Cerimonial da Visita Pastoral, §VIII, dentro de um conjunto de orações prescritas “Para a Bênção do SS. Sacramento”, que encontramos a nossa oração, com um título que quase ninguém cita e que vale a pena conhecer: Oração pela Igreja, pelo Santo Padre e pela Pátria. Ela está lá, em seguida à Fórmula de Louvores, fechando o rito — exatamente como nós a rezamos hoje. A diferença quase imperceptível é que o texto, nessa sua primeira impressão consagrada, estava prescrito para o momento em que o Bispo visitava uma paróquia e dava solenemente a Bênção Eucarística aos fiéis. Foi dali, da Visita Pastoral, que ela depois se difundiu para todas as bênçãos do Santíssimo nas paróquias do Brasil.

Vale demorar um instante sobre uma delicadeza dessa formulação. A frase “sobre o Chefe da Nação (o do Estado)”, com os parênteses, não é descuido tipográfico: é opção deliberada dos bispos. Numa época em que a República acabara de se implantar (com relações tensas com a Igreja), os redatores procuraram uma fórmula larga, que reconhecesse a autoridade legítima sem atrelar a oração a um regime político específico: república ou monarquia; presidencialismo ou parlamentarismo. Reza-se pelo governante, seja qual for o nome que ele carregue. É uma dessas marcas finas de sabedoria eclesial, que se guardam melhor no exato modo como foram escritas. Hoje, com uma experiência histórica de presidencialismo republicano, usa-se a oração sem os parênteses e sem o segundo artigo definido: “sobre o Chefe da Nação e do Estado”.

A consagração oficial: o Concílio Plenário Brasileiro (1939)

O trabalho iniciado em 1901 chegou ao seu ponto mais alto quase quarenta anos depois. Entre 2 e 20 de julho de 1939, reuniu-se no Rio de Janeiro, sob a presidência do Cardeal Dom Sebastião Leme da Silveira Cintra, o primeiro e único Concílio Plenário Brasileiro — um código jurídico-eclesiástico feito exclusivamente para o Brasil. O texto final foi aprovado pela Santa Sé em 8 de março de 1940 e solenemente promulgado em 7 de setembro do mesmo ano. Doze dos seus setenta e um apêndices foram tomados diretamente da Pastoral Coletiva, entre os quais o Cerimonial da Visita Pastoral — e, portanto, também a nossa oração, que ganhou então o peso de uma norma conciliar confirmada por Roma.

Em 1950, foi publicada uma nova edição da Pastoral Coletiva, já adaptada ao Código de Direito Canônico (1917) e ao Concílio Plenário, pela Livraria Editora Salete (Rio Grande do Sul). Ali o texto está reproduzido integralmente, com o mesmo título de sempre: Oração pela Igreja, pelo Santo Padre e pela Pátria. É esse texto que chegou até nós — que os fiéis brasileiros rezam há mais de um século, muitas vezes sem saber que ali se condensa uma história tão longa.

Uma palavra sobre o rito

Bento XVI, rezando diante do Santíssimo Sacramento.


Vale, antes de seguirmos, uma observação de natureza litúrgica. Pela legislação universal da Igreja — codificada no Ritual da Sagrada Comunhão e do Culto do Mistério Eucarístico fora da Missa, publicado em 1973 e vigente em toda a Igreja latina —, o núcleo obrigatório da Bênção do Santíssimo Sacramento é, de fato, bem sóbrio: consiste no canto do Tantum Ergo (com a incensação), no versículo Panem de caelo com a oração Deus, qui nobis, e na bênção silenciosa dada com o ostensório. Essas três coisas são o que a Igreja prescreve como obrigatório em toda a parte. Tudo o mais que entre nós se reza na Bênção — a Oração pelo Santo Padre antes do Tantum Ergo, os Louvores Divinos depois da bênção, a nossa Oração pela Igreja, pelo Santo Padre e pela Pátria, o Pai-Nosso, a Ave-Maria e o Glória ao Pai finais — é, no direito universal, facultativo.

Seria injusto, porém, concluir dessa licitude que tais preces sejam meros acréscimos devocionais, soltos como qualquer devoção particular. Os Louvores, como vimos, foram enriquecidos com indulgências por Pio VII e sucessivamente ampliados por outros seis Pontífices Romanos: trata-se, portanto, de uma oração acolhida pelos Papas e feita sua pela Igreja universal. Quanto à nossa oração brasileira, acabamos de ver que foi incluída no Concílio Plenário Brasileiro e aprovada pela Santa Sé — carrega, portanto, o peso de uma norma conciliar. Nem uma nem outra são pias iniciativas locais. Ambas têm, cada uma a seu modo, o selo da autoridade da Igreja.

Uma graça no fim do rito

O costume de rezar, ao fim da Bênção, um Pai-Nosso, uma Ave-Maria e um Glória ao Pai parece, à primeira vista, mera formalidade devocional. Tem, porém, uma função precisa — e uma recompensa espiritual muito rica, que convém conhecer.

Para ganhar qualquer indulgência plenária, as condições habituais (Enchiridion Indulgentiarum, 4.ª ed., 1999, Norma n.º 20) exigem, além da confissão sacramental e da comunhão eucarística, que o fiel reze nas intenções do Sumo Pontífice — o que o próprio Manual estipula cumprir-se com um Pai-Nosso e uma Ave-Maria, a que muitos acrescentam um Glória ao Pai. É exatamente o conjunto que encerra a nossa Bênção do Santíssimo.

E o mesmo Enchiridion (Norma n.º 7 §1, 1.º) concede indulgência plenária ao fiel que visita o Santíssimo Sacramento, permanecendo em adoração por ao menos meia-hora. A Bênção, precedida por um tempo suficiente de adoração, é a ocasião clássica dessa graça. Quem confessou (dentro de cerca de vinte dias, antes ou depois, conforme resposta oficial da Penitenciaria Apostólica de 18 de fevereiro de 2005), comungou (de ordinário no mesmo dia) e reza atento aquelas três preces finais pelas intenções do Papa, já deixa cumprida uma das condições que lhe abrem a remissão de toda a pena temporal devida pelos pecados já perdoados. É uma das riquezas mais silenciosas que a piedade brasileira conserva — e que vale ser rezada com atenção, sabendo o que se está fazendo.

Uma pergunta que fica em aberto

A pesquisa documental realizada até aqui permite afirmar com segurança que a nossa oração, na sua forma republicana, está fixada desde 1901. Mas uma pergunta permanece na sombra: existia, antes de 1889, uma versão imperial correspondente? Havia, no tempo do Padroado, uma prece análoga na qual se pedia pelo Imperador, pela Imperatriz e pela Família Imperial, e que depois foi adaptada? A lógica interna do texto — em especial aquela formulação “Chefe da Nação”, tão genérica, tão claramente herdeira de algo anterior — sugere fortemente que sim. A Igreja do Brasil imperial rezava pela família real; o passo para “Chefe da Nação” é demasiado natural para ser criação do nada.

Só que o texto dessa eventual versão monárquica ainda não foi localizado. Ele há de estar em algum devocionário brasileiro do século XIX, à espera de um leitor atento. Se algum leitor tiver acesso a um devocionário do tempo do Império que a contenha, presta um bom serviço à memória da Igreja no Brasil.

Uma pequena sugestão pastoral

Feita a história, permita-me, caríssimo leitor, uma breve reflexão pastoral que, à minha condição de simples sacerdote, só cabe sob a forma de sugestão. A Bênção do Santíssimo Sacramento é um dos momentos mais densos da piedade eucarística do povo brasileiro. Depois da Missa, nada se compara à experiência de ficar ajoelhado diante do Santíssimo exposto, em silêncio, com o incenso subindo, cantando o Tantum Ergo e recebendo a bênção do próprio Cristo presente sob os sinais sacramentais. Os Louvores que se seguem são, como vimos, uma reparação pelas blasfêmias do mundo. E a oração brasileira, coroando o rito, recolhe numa só súplica toda a Igreja militante e padecente, sob o olhar de Cristo-Hóstia.


Parece-me que vale a pena rezarmos esse rito devagar, na sua forma inteira. Vale a pena restabelecer — onde ainda não se faz — a forma responsorial dos Louvores, com o sacerdote proclamando e o povo repetindo. Vale a pena preservar o título completo da oração final, lembrando-nos de que ela é “pela Igreja, pelo Santo Padre e pela Pátria”, e não simplesmente “uma oração pelo Brasil”. Vale a pena, enfim, redescobrir como herança aquilo que a Igreja do Brasil, no limiar do século XX, moldou com carinho e sabedoria. Poucas preces dizem tanto. Quase nenhuma o diz com tamanha brevidade.

Acompanha este artigo um pequeno livreto com o rito completo da Bênção do Santíssimo, com o latim e o português lado a lado. Que o povo de Deus, ao redescobri-lo na sua inteireza, seja consolado pelo sacramento do amor e, com o sacerdote, saiba repetir de coração: “Bendito seja Deus, bendito seja o seu Santo Nome…”.

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Apêndice: As preces facultativas pelo Papa e pelo Bispo

Antes do Tantum Ergo, em algumas paróquias rezam-se pequenas preces pelos pastores da Igreja — uma pelo Santo Padre e, onde há o costume, outra pelo Bispo diocesano. São preces tradicionais; a sua execução e a sua ordem são facultativas, e variam conforme a tradição que se siga. Vale a pena registrar as duas principais.

A tradição brasileira: Pastoral Coletiva (1915)

A Pastoral Coletiva, no mesmo §VIII do Cerimonial da Visita Pastoral em que depois prescreve a Oração pela Igreja, pelo Santo Padre e pela Pátria, coloca antes do Tantum Ergo uma “Oração pelo Santo Padre”, composta destes elementos:

℣. Orémus pro Pontífice nostro N.

℟. Dóminus consérvet eum, et vivíficet eum, et beátum fáciat eum in terra, et non tradat eum in ánimam inimicórum eius.

℣. Tu es Petrus. ℟. Et super hanc Petram aedificábo Ecclésiam meam.

Orémus. Deus, ómnium fidélium pastor et rector, fámulum tuum N., quem pastórem Ecclésiae tuae praeesse voluísti, propítius réspice: da ei, quaesumus, verbo et exémplo quibus praeest profícere; ut ad vitam, una cum grege sibi crédito, pervéniat sempitérnam. Per Christum Dóminum nostrum. Amen.

A Pastoral Coletiva acolhe esta prece pelo Papa como abertura solene à Bênção. Não prevê uma oração correspondente pelo Bispo diocesano, provavelmente porque o Bispo é mencionado logo adiante, no corpo da Oração pela Igreja, pelo Santo Padre e pela Pátria.

Papa Leão XIV dá a Bênção do Santíssimo após a procissão de Corpus Christi, em 2025.


A tradição romana: Liber Usualis (Solesmes, 1961)

O Liber Usualis, na sua seção de preces ocasionais, conserva duas preces irmãs associadas sobretudo à presença ou à intenção de um pastor. A primeira é a Orémus pro Pontifice, já citada acima. A segunda é a Orémus pro Antistite, pelo Bispo diocesano — rezada tradicionalmente em funções pontifícias, na entrada solene do Bispo na sua diocese ou em comemorações diocesanas. O seu versículo é tomado, quase ipsis litteris, do profeta Miqueias 5,4:

℣. Orémus pro Antístite nostro N.

℟. Stet et pascat in fortitúdine tua, Dómine, in sublimitáte nóminis tui.

Orémus. Deus, qui pópulis tuis indulgéntia cónsulis et amóre domináris, Antístiti nostro N., cui dedísti régimen disciplinae, da spíritum sapiéntiae, ut de proféctu sanctárum óvium fiant gáudia aetérna Pastóris. Per Christum Dóminum nostrum. Amen.

Algumas paróquias brasileiras, seguindo esta tradição, acrescentam a Orémus pro Antistite antes do Tantum Ergo, por devoção ao seu Bispo diocesano.

Uma nota sobre as traduções oficiais

Os versículos que acompanham estas duas preces — o Orémus pro Pontifice nostro / Dóminus consérvet eum, o Tu es Petrus / Et super hanc Petram, o Orémus pro Antistite / Stet et pascat in fortitúdine tua e o Tu es Sacerdos in aetérnum / Secundum órdinem Melchísedech — são textos do Liber Usualis e de livros litúrgicos anteriores ao Concílio Vaticano II, sem tradução oficial brasileira estabelecida; as traduções portuguesas que circulam nos devocionários e nos manuais sacerdotais são versões tradicionais consagradas pelo uso.

As orationes, por sua vez, têm situação diferente: ambas estão recolhidas, com tradução oficial, no Missal Romano (Brasil), 3.ª edição típica, CNBB/Paulus, 2023. A oração pelo Papa é a Coleta 2.ª da Missa “Pelo Papa” (n. 2), sobretudo no aniversário de sua eleição — traduzindo o clássico Deus, omnium fidelium pastor et rector

Ó Deus, pastor e guia de todos os fiéis, olhai benigno o vosso servo N., que constituístes pastor da vossa Igreja; concedei-lhe que, com sua palavra e exemplo, edifique aqueles a quem preside e chegue à vida eterna, com o rebanho que lhe foi confiado. 

A oração pelo Bispo é a Coleta 1.ª da Missa “Pelo Bispo” (n. 3), sobretudo no aniversário de sua ordenação — traduzindo o Deus, pastor aeterne fidelium

Ó Deus, pastor eterno dos fiéis, que dirigis a vossa Igreja com generosa solicitude e a governais com amor, concedei que o vosso servo N., colocado à frente de vosso povo, presida, em nome de Cristo, o rebanho de que é pastor, e seja mestre fiel da verdade, sacerdote do culto divino e servidor no governo pastoral. 

São estas as traduções que o livreto litúrgico que acompanha este artigo adota — cada pastor com a oração que o próprio Missal lhe destina.

Em resumo

O celebrante e a comunidade têm liberdade para optar por qualquer dos três caminhos: rezar apenas a Oração pelo Santo Padre (conforme a Pastoral Coletiva brasileira); acrescentar a ela a Oração pelo Bispo (seguindo o Liber Usualis); ou omitir ambas, entrando direto no Tantum Ergo — lembrando sempre que o Papa e o Bispo estão explicitamente nomeados mais adiante, na Oração pela Igreja, pelo Santo Padre e pela Pátria, que fecha o rito. As três escolhas são legítimas, e cada uma tem a sua beleza.


Referências

Constituições Eclesiásticas do Brasil — Nova Edição da Pastoral Coletiva de 1915, adaptada ao Código de Direito Canônico, ao Concílio Plenário Brasileiro e às decisões das Sagradas Congregações Romanas. Livraria Editora Salete, Rio Grande do Sul, 1950. Apêndice 12.º — Cerimonial da Visita Pastoral, §VIII.

Concílio Plenário Brasileiro. Rio de Janeiro, 2–20 de julho de 1939; aprovado pela Santa Sé em 8 de março de 1940, promulgado em 7 de setembro de 1940 (Editora Vozes, Petrópolis, 1940).

Missal Romano. Tradução portuguesa para o Brasil, 3.ª edição típica, CNBB, Edições CNBB/Paulus, 2023. Coleta da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo.

Liber Usualis, edição de Solesmes, 1961, p. 1867; e Cantus selecti, Solesmes, 1957, p. 231 — para a oração Oremus pro Antistite e seus versículos.

Enchiridion Indulgentiarum, edição oficial da Sagrada Penitenciaria Apostólica, que contém os Louvores Divinos e traz a história dos sucessivos acréscimos papais desde a composição do Pe. Luigi Felici, S.J. (1797), com os enriquecimentos de indulgências por Pio VII (1801) e as expansões posteriores (Pio IX, 1851; Leão XIII, 1897; Bento XV, 1921; Pio XII, 1952; João XXIII, 1960; Paulo VI, 1964).

Penitenciaria Apostólica. Resposta a dúvida apresentada em 16 de fevereiro de 2005 (Prot. N. 39/05/I), assinada pelo Regente Mons. Ioannes Franciscus Girotti, O.F.M. Conv., confirmando em perpetuidade o prazo de cerca de vinte dias (antes ou depois) para a confissão sacramental relativa ao ato indulgenciado — conforme fora concedido pelo documento O Dom da Indulgência (Penitenciaria Apostólica, 29 de janeiro de 2000).

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