CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Evangelize compartilhando!
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
Conselhos de Madre Angélica a uma Igreja moribunda
Igreja Católica

Conselhos
de Madre Angélica
a uma Igreja moribunda

Conselhos de Madre Angélica a uma Igreja moribunda

“Não há nada a temer”: Cristo está do nosso lado e nos capacita com sua graça para a missão. Devemos lutar por nossa Mãe, a Igreja, que pode estar ferida, sim, mas cujas chagas podemos curar “com nosso amor, nossa compaixão e com nosso zelo”.

Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Maio de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
imprimir

Ninguém gosta de receber más notícias, muito menos quando dizem respeito à morte. Segundo a psicóloga Elizabeth Kubler-Ross, as pessoas comuns tendem a apresentar ao menos cinco tipos de atitude na vivência do luto: a negação do problema, a raiva de si mesmo, a barganha com Deus, a depressão e, somente depois de tudo isso, a aceitação. É claro que esses estágios podem variar de um para outro e alguns até são capazes de experimentar tudo ao mesmo tempo.

Seja como for, não é preciso ser nenhum psicólogo renomado para perceber que essa é exatamente a condição da sociedade agora com relação ao novo coronavírus. Há de tudo um pouco: negacionistas, beligerantes, supersticiosos, depressivos, conformados… Quase todos doentes da “pandemia do medo” que se instalou nos corações, causando pânico até em bons cristãos. Para nós, católicos, especialmente, a vivência da quarentena tem sido ainda mais mórbida, dada a ausência dos sacramentos e da celebração comunitária do Corpo místico de Cristo. Se há alguns anos a Igreja já lembrava “uma barca que está para afundar”, hoje a impressão é que o navio afundou de vez, sem previsão de resgate.

Essa impressão é ainda mais realçada quando se sabe que, além da Covid-19, outro vírus muito mais agressivo flagela a fé católica: o relativismo. Os cristãos já não conhecem a própria doutrina de Cristo e têm medo de falar do Evangelho, sob o pretexto de não ofender a liberdade dos outros, ao passo que o mundo não hesita em proclamar seus “dogmas” infernais de cima dos telhados. Como dizia Bento XVI recentemente, “a sociedade moderna está em meio à formulação de um credo anticristão e, se alguém se opõe a isso, é castigado pela sociedade com a excomunhão”.

Mas que podemos fazer, afinal?

Entre a nostalgia das glórias da cristandade e o conformismo com uma Igreja moribunda, é possível lembrar um momento dramático da história de O Senhor dos Anéis, em que Frodo se lamentava e dizia: “Gostaria que isso não tivesse acontecido na minha época”. Nós também, certamente, não desejávamos ter de enfrentar uma pandemia, tendo uma Igreja em frangalhos, por conta de tantos problemas internos e externos. Mas, como responde Gandalf ao pequeno hobbit, “essa decisão não é nossa”, “tudo o que temos de decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado”.

É certo que estes que vivemos não são os piores tempos da história cristã. Já houve, de fato, situações muito mais dramáticas, que exigiram sacrifícios heroicos. Quando, por exemplo, o cristianismo ainda era, para muitos pagãos e judeus, apenas uma seita de um homem que supostamente teria ressuscitado, os cristãos tiveram a valentia de provar com o próprio sangue que aquela era uma fé fundada não em fábulas, mas, sim, numa rocha contra a qual as portas do inferno jamais prevaleceriam. E com esse espírito eles derrotaram um império, venceram várias heresias, fundaram uma nova civilização e espalharam a semente da boa-nova por todo o mundo.

Ainda assim, cai sobre as nossas costas a responsabilidade dos santos de outrora — de um São Francisco, só para citar, cuja humildade e fortaleza o levaram a reconstruir a Igreja de Nosso Senhor. “O preceito da hora presente”, portanto, “não é lamento, mas ação”, dizia Pio XII. Os cristãos devem estar “penetrados por um entusiasmo de cruzados” para combater pela libertação da terra santa espiritual, “destinada a ser a base e o fundamento das normas e leis imutáveis para as construções sociais de interna e sólida consistência”. Embora a Igreja não seja mesmo um Titanic, o seu casco pode, sim, sofrer grandes avarias, por causa de nossa própria negligência. É, pois, nosso dever consertá-lo.

Foi com esse espírito que Madre Angélica fundou a emissora católica EWTN, conclamando seus compatriotas a restaurar a fé num período crítico para a Igreja nos Estados Unidos. A fim de vencer os inimigos de Deus, ela insistia que os católicos precisavam ser corajosos e valentes. E de onde deveriam eles tirar essa coragem e valentia? Das próprias palavras de Cristo no Evangelho: “No mundo, tereis aflições, mas tende coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16, 33).

Na hora mais terrível da humanidade, Nosso Senhor não poupou os discípulos das “más notícias”, da provação pela qual eles mesmos, em seus corpos, haveriam de passar. Todos os discípulos foram torturados pela fidelidade ao Evangelho. Mas foi justamente a consciência daqueles fatos, iluminados pela luz da graça, que os fez seguir até o Calvário, onde venceriam o mundo, a exemplo de Jesus.

É o que precisamos fazer hoje também. “Não há nada a temer”, explicava Madre Angélica, porque Cristo está do nosso lado e nos capacita com sua graça para cumprirmos a missão. Devemos, sim, lutar por nossa Mãe, a Igreja, que pode estar ferida, seja pelos ataques do mundo, seja pela traição de seus próprios filhos. Madre Angélica enfrentou muitos desgostos em seu apostolado por conta da má compreensão de alguns que, mesmo dentro da Igreja, trabalhavam por sua destruição. Mas nem isso a fez desistir do trabalho. Ao contrário, ela se dedicou ainda mais à evangelização, à caridade, à oração porque, explicava ela, “nós podemos curar a Igreja com nosso amor, nossa compaixão e com nosso zelo”.

A Igreja necessita de filhos zelosos, com o mesmo zelo que devorou Jesus no Templo e o fez lutar pela fé. Não se trata de distribuir pancadas, mas de “não dar aos outros a autoridade que eles não têm”, ensinava Madre Angélica à sua audiência. O Templo, na época de Jesus, estava dominado por uma autoridade profana, que se servia da religião em benefício próprio. Do mesmo modo, há quem queira isso hoje também, colocando a Igreja de joelhos diante de autoridades profanas, como se a lei dos homens estivesse acima da lei de Deus. É contra isso que devemos lutar, contra “os principados, as potestades, os dominadores deste mundo tenebroso, os espíritos malignos espalhados pelo espaço” (Ef 6, 12).

Décadas atrás, o jovem padre Joseph Ratzinger profetizava que a Igreja, um dia, diminuiria de tamanho, reduzindo-se a um pequeno resto. “Mas dessa provação sairá uma Igreja que terá extraído uma grande força”, complementava ele, e os habitantes deste mundo “descobrirão, então, a pequena comunidade de fiéis como algo completamente novo... Como uma esperança que lhes cabe, como uma resposta que sempre procuraram secretamente”.

Não podemos dizer se estes são ou não os tempos do cumprimento dessa “profecia”, mas, ouvindo o que disse anos atrás a destemida Madre Angélica, desde já podemos forjar o nosso coração.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Por que os nossos corações se inflamam pela Eucaristia?
Igreja Católica

Por que os nossos corações
se inflamam pela Eucaristia?

Por que os nossos corações se inflamam pela Eucaristia?

A Eucaristia é o centro da nossa fé. “Pela conversão do pão e do vinho no Corpo e no Sangue do Senhor”, a Igreja goza da presença de Cristo “com uma intensidade sem par”. Por isso, sempre será um baque para o povo de Deus ficar sem a Missa e os sacramentos.

Constance T. HullTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Maio de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
imprimir

Você anseia pela Sagrada Eucaristia? Não está só. Inúmeros membros do Corpo místico em todo o mundo sentem profundamente a separação da presença real de Cristo. Neste ano, a alegria do tempo pascal tem um toque de tristeza por causa dessa separação. Estamos vivendo um dos maiores paradoxos de nossa fé: o fato de a alegria e a tristeza muitas vezes estarem misturadas nesta vida. Apesar desse sofrimento, esperamos que este período em que estamos separados da presença dEle na Sagrada Comunhão seja uma oportunidade de profundo crescimento no amor a Ele e à Igreja.

Antes de tudo, é necessário parar de desrespeitar e condenar as pessoas que sentem falta da celebração pública da Missa e da recepção da Sagrada Comunhão. A ideia de que nossos irmãos e irmãs em Cristo devam “engolir isso” (perdoe-me a expressão da época em que fui militar) porque as pessoas estão morrendo não é apenas uma falta de caridade; também revela a incompreensão de que a impossibilidade de receber Nosso Senhor na Sagrada Comunhão nos deveria causar algum grau de dor e desconforto, não necessariamente emocional, mas ao menos espiritual. 

Não se trata de escolher entre isto ou aquilo. Podemos manifestar nossa tristeza por estarmos impedidos de ir à Missa e, ao mesmo tempo, demonstrar a nossa preocupação com os doentes e moribundos. Discutir sobre essa tristeza também não significa falta de conformidade com a vontade de Deus. É apenas uma maneira de expressar a dificuldade desse período de exílio, mesmo sabendo que devemos suportá-lo e abraçá-lo como um momento de maior aperfeiçoamento no amor. Podemos seguir o exemplo de Nossa Senhora e de São João, que suportaram a agonia e a tristeza da Cruz, mas confiaram no plano supremo de Deus. Ainda assim sofreram muitíssimo, mas não deixaram de abandonar-se na fé.    

A Sagrada Eucaristia é o centro da nossa fé, razão por que sempre será um baque para o povo de Deus não poder participar da celebração pública da Missa e dos sacramentos. Isso não significa que esses períodos de suspensão não tenham sido necessários em algumas ocasiões, mas são sempre uma provação para os membros do Corpo místico. É algo que faz todo sentido, dada a centralidade da Sagrada Eucaristia na vida da Igreja. No início da encíclica Ecclesia de Eucharistia, São João Paulo II afirma o seguinte:

A Igreja vive da Eucaristia. Esta verdade não exprime apenas uma experiência diária de fé, mas contém em síntese o próprio núcleo do mistério da Igreja. É com alegria que ela experimenta, de diversas maneiras, a realização incessante desta promessa: “Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo” (Mt 28, 20); mas, na Sagrada Eucaristia, pela conversão do pão e do vinho no Corpo e no Sangue do Senhor, goza desta presença com uma intensidade sem par. Desde Pentecostes, quando a Igreja, povo da Nova Aliança, iniciou a sua peregrinação para a pátria celeste, este sacramento divino foi ritmando os seus dias, enchendo-os de consoladora esperança (n. 1).

A celebração da Missa é o encontro mais tangível que podemos ter com Cristo neste lado da eternidade. Por isso a separação causa tanta tristeza. Não obstante, este período de exílio é uma oportunidade para penetrar ainda mais o mistério da Sagrada Eucaristia através da nossa oração; para permitir que Cristo aumente em nós o amor a Ele através do desejo da sua presença real. Para isso, não podemos evitar essa dor, tampouco rejeitá-la com um aceno de mão pragmático. Em vez disso, temos de perguntar a Ele como podemos amar a sua face eucarística com mais ardor e devoção

Isso, de fato, é mais difícil neste momento de separação, mas por meio da oração podemos voltar nosso olhar para Ele na Sagrada Escritura, na oração diante do sacrário, na comunhão espiritual e no estudo da doutrina da Igreja sobre a Sagrada Eucaristia e a Missa.

Com efeito, “na Santíssima Eucaristia, está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, a nossa Páscoa e o pão vivo que dá aos homens a vida mediante a sua carne vivificada e vivificadora pelo Espírito Santo”. Por isso, o olhar da Igreja volta-se continuamente para o seu Senhor, presente no Sacramento do Altar, onde descobre a plena manifestação do seu imenso amor (Id., ibid.).

Por meio do isolamento e da separação podemos unir o nosso olhar ao olhar mais amplo da Igreja. O santo sacrifício da Missa não foi interrompido. A nossa participação pública foi suspensa temporariamente. Por meio da nossa oração, ainda podemos estar espiritualmente presentes na Missa quando os bispos e sacerdotes a celebram “do nascer ao pôr do sol”. É um momento no qual podemos buscar a união com Deus e a Igreja numa dimensão espiritual: algo que corremos o perigo de ignorar quando estamos fisicamente presentes na Missa. 

Pode ser grande a tentação de desviar do olhar dEle o nosso olhar apenas porque a separação causa em nós momentos de tristeza, agonia e lágrimas. Mas devemos perseverar. É possível que experimentemos aridez ou nenhuma resposta emocional durante este período. As nossas emoções não são um sinal confiável para a nossa vida espiritual. Independentemente do que possamos sentir no atual exílio, em união com a Igreja temos de manter o nosso olhar fixo no olhar amoroso de Cristo. Se cairmos, temos de pedir a Ele ajuda para levantarmos e a graça de que precisamos para suportar este período difícil. 

Ao longo desta Páscoa excepcional, somos convidados a penetrar a totalidade do mistério pascal da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor. Sentimos a presença da cruz de modo mais profundo neste tempo pascal, pois inúmeras pessoas sofrem com a atual pandemia e a preocupante ameaça de instabilidade econômica. A busca por um amor mais profundo à Sagrada Eucaristia nos fará aprofundar ainda mais no mistério pascal, no sofrimento pelo qual o mundo está passando e na comunhão com o Corpo místico.

Do mistério pascal nasce a Igreja. Por isso mesmo a Eucaristia, que é o sacramento por excelência do mistério pascal, está colocada no centro da vida eclesial (Id., n. 3).

Este período de exílio é um momento de tentação, de teste e de purificação por meio do fogo aperfeiçoador do amor de Deus. Procuremos fazer da presença real de Nosso Senhor o centro das nossas vidas a fim de que, com a chegada do feliz dia em que poderemos mais uma vez nos aproximar dEle na Sagrada Comunhão, os nossos corações sejam abrasados com um amor ainda maior a Ele.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Vivendo como filhos das luz em tempos obscuros
Espiritualidade

Vivendo como
filhos das luz em tempos obscuros

Vivendo como filhos das luz em tempos obscuros

Satanás é poderoso, e o pecado tem uma terrível influência neste mundo. O demônio, porém, não deixa de ser uma criatura. Deus é o Criador. Ele não só pertence a uma diferente ordem do ser, como Ele é o próprio ser.

Pe. Charles FoxTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Maio de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
imprimir
A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam (Jo 1, 5).

Por isso, enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo (Jo 9, 5).

Comportai-vos como verdadeiras luzes. Ora, o fruto da luz é bondade, justiça e verdade (Ef 5, 8-9).

As metáforas da luz e da escuridão podem ser aplicadas a muitas coisas. Elas evocam habilidades, deficiências, motivações, esperanças e medos primordiais da humanidade. Dizem muito sobre o que as pessoas têm enfrentado durante a crise da COVID-19

Está claro que vivemos um período de obscuridade. As pessoas estão preocupadas com a possibilidade de contrair o vírus, estão ansiosas por causa de sua saúde e da de outras pessoas, sentem-se intimidadas e tristes pelas exigências (sem dúvida legítimas!) de distanciamento social e estão aflitas por causa do colapso econômico e das graves consequências que ele trará consigo.

Há muita escuridão neste momento. Ninguém questiona isso. Antes de dizer algo sobre a presença da luz na situação atual, talvez venham a calhar umas palavras sobre o contraste entre luz e escuridão.

Muitas vezes passo as férias numa residência familiar próxima ao Lago Huron. Uma das muitas coisas que são diferentes naquela região do “Norte”, Michigan, é a radical mudança que ocorre ao cair da noite e, depois, ao nascer do sol. Quando anoitece, as estrelas resplandecem por causa da intensa escuridão; além disso, é possível ver um número muito maior delas do que no lugar onde moro. Então, bem cedo, durante o amanhecer no verão, o sol nasce sobre o Lago Huron e, em seguida, aparentemente se move em direção ao pé da minha cama. Ele fica tão brilhante e quente, que se torna impossível dormir sem fechar as cortinas, coisa que nunca faço. Nunca desejaria perder o amanhecer, por penosas que possam ser algumas manhãs.

O contato com extremos desse tipo ilustra o nítido contraste entre luz e escuridão. E até certo ponto ele nos proporciona uma boa imagem enquanto meditamos sobre a segunda leitura (cf. Ef 5, 8-14) e o Evangelho da Missa do 4.° Domingo do Advento (cf. Jo 9, 1-41), supracitados.

A imagem da “escuridão” muitas vezes é usada para descrever o mal e a pecaminosidade do mundo, enquanto Jesus é descrito como a “luz do mundo”, a “luz que brilha na escuridão”. E sabemos que no Sermão da Montanha Jesus também diz que devemos ser, como Ele, “luz do mundo”.

No entanto, a experiência ordinária da luz e da escuridão intensas difere da mensagem da Sagrada Escritura, pois revela um contraste entre duas forças aparentemente iguais. O bem e o mal ou, mais precisamente, Deus e Satanás, são forças opostas que disputam o domínio sobre o mundo, sim, mas elas não se equivalem uma à outra. Há religiões que creem nesse tipo de dualidade fundamental na ordem das coisas; essa, porém, não é a fé da Igreja Católica.

Somente o poder de Deus é absoluto. Jesus Cristo, o Filho de Deus, é o Senhor e Rei do universo. No Evangelho Jesus diz: “Enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo” (Jo 9, 5). As palavras “eu sou” podem facilmente passar despercebidas, mas este é um dos muitos casos no Evangelho de João nos quais Jesus usa a mesma expressão utilizada pelo Senhor no Antigo Testamento para identificar-Se: “EU SOU”. 

Satanás é poderoso, e o pecado tem uma terrível influência neste mundo. O demônio, porém, não deixa de ser uma criatura. Deus é o Criador. Ele não só pertence a uma diferente ordem do ser, como é o próprio ser. Jesus veio tirar a escuridão deste mundo — curou o cego, expulsou demônios, ensinou a verdade sobre Deus e nossas vidas, perdoou pecados, morreu e ressuscitou por nós e deu-nos o dom do Espírito Santo. Ele ilumina o mundo com uma luz sobrenatural e acende uma chama divina nos corações dos que lhe são fiéis.

“Satanás diante do Senhor”, de Corrado Giaquinto (séc. XVIII).

Creio ser particularmente importante reafirmar isso hoje, pois as pessoas estão se sentindo isoladas e o mundo parece muito obscuro. Pode ser fácil alimentar a ideia de que funciona no mundo uma espécie de dinâmica “yin e yang”, com a predominância do bem por um tempo, seguida de uma prevalência do mal.

Não é o que ensina a fé católica, e isso significa que Deus revelou que o mundo funciona de forma bem diferente. Este mundo está decaído. A humanidade escolheu o pecado e foi escravizada por ele. Mas Jesus Cristo veio, obteve a vitória definitiva sobre o pecado e a morte e agora convida todos os que creem nEle a compartilharem sua vitória para sempre. 

Por meio dos membros de sua Igreja, Cristo quer convidar o mundo inteiro a tomar parte em sua vitória. Às vezes, os católicos caem na tentação de achar que foram levados ao time vitorioso por possuírem alguma qualidade especial; assim, acabam desprezando outras pessoas e considerando-as perdedoras. Mas até os membros da Igreja se tornam perdedores quando cedem ao orgulho. E eles podem inclusive se ver “cortados” do “time” de Jesus, se não se levantarem do banco e batalharem por sua própria salvação e a de todos os que estão ao seu redor.

Todos passam por períodos — talvez um dia ruim ou algumas semanas, ou mesmo um ano muito difícil — nos quais a bondade parece ficar eclipsada e a luz da vida parece ter quase se apagado. É fácil ficar deprimido com a situação do mundo hoje. É fácil sentir-se oprimido por uma avalanche de problemas na família ou no trabalho, ou pela doença. Quando enxergam com clareza sua propensão para o pecado e em que medida ele obscurece seus corações, os católicos se sentem inclinados a buscar a luz de Cristo na Confissão. Mas às vezes até pessoas de fé só conseguem ver a escuridão ao seu redor e sentem-se impotentes para fazer qualquer coisa em relação a isso. 

O que você deve fazer se estiver nesse “lugar obscuro”? Eis algumas sugestões:

  • Reconheça sua fraqueza! Às vezes, conselhos de autoajuda bem-intencionados focam na exploração de sua capacidade pessoal, mas a verdade é que nós precisamos do poder de Deus. Isso não é desculpa para a preguiça, mas uma simples verdade sobre a vida: Deus está no comando do mundo, e além de pedir a Ele que assuma o controle de nossas vidas, temos de permitir que o faça.  
  • Agradeça pelos “pontos luminosos” em sua vida. Sempre há coisas pelas quais temos de agradecer, mas com muita facilidade podemos ser absorvidos pelo mal e pelos elementos negativos da vida. 
  • Confie a Ele todas as suas preocupações, pois Ele tem cuidado de você (cf. 1Pd 5, 7). O Senhor é nosso Pastor, como rezamos no Salmo 23. Quando somos tentados a duvidar da presença de Deus e do cuidado que Ele tem por nós e pelas pessoas que amamos, devemos fazer o firme propósito de confiar nEle e pedir-lhe o dom de uma fé ainda mais profunda.  
  • Saiba que Deus o chama e quer fortalecê-lo! Depois de admitir que, sozinhos, somos impotentes, nós nos esvaziamos, mas não para que permaneçamos vazios, senão para que Deus nos preencha com sua vida e poder. Ele dá a cada um de nós uma missão a fim de espalharmos pelo mundo sua cura, paz, verdade e bondade. Todos nós compartilhamos a missão de nos aproximar de Deus e levar outras pessoas a Ele, e Ele a outras pessoas. Se não compreendemos o chamado que Deus nos faz, devemos rezar nessa intenção e pedir essa graça. Também podemos pedir que alguém de nossa confiança nos ajude a descobrir nossas missões específicas. Trabalhar juntos funciona — o cristianismo é um “esporte de equipe”!

Essas são apenas algumas das coisas que podemos fazer para pôr em prática o que São Paulo nos ensina ao dizer: “Comportai-vos como verdadeiras luzes” (Ef 5, 8). O sinal mais seguro de que não estamos sozinhos, e a garantia da luz e do poder de Deus que nos preenchem, está na celebração da Eucaristia. Aquilo que tem aparência de pão e vinho é verdadeiramente a luz e o amor, o Corpo e Sangue do Filho de Deus, dados por nós como bebida e comida.

É verdade que a grande maioria de nós não pode participar da Missa ou receber a Eucaristia nestes dias difíceis. Mas a luz de Cristo ainda está presente nas Missas celebradas pelos sacerdotes em diversos lugares do mundo, nos tabernáculos de todas as nossas igrejas e em cada um de nós, quando oferecemos as nossas vidas ao Pai celestial em união com Jesus e pedimos o dom da comunhão espiritual. Sejamos sempre agradecidos porque Jesus é nosso Pastor e Rei, e porque “de tal modo o Pai amou o mundo, que lhe deu seu Filho único” (Jo 3, 16).

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Fátima, Baal, o monte Carmelo e o escapulário marrom
Virgem Maria

Fátima, Baal,
o monte Carmelo e o escapulário marrom

Fátima, Baal, o monte Carmelo e o escapulário marrom

O Rosário não foi o único instrumento que Nossa Senhora recomendou aos três pastorinhos de Fátima. Ao se despedir deles, em 13 de outubro de 1917, ela também apareceu como Virgem do Carmo, trazendo em sua mão direita o escapulário marrom.

Brian KranickTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Maio de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
imprimir

No dia 13 de outubro de 1917, a Virgem Maria apareceu em Fátima e disse: “Eu sou a Senhora do Rosário”, e instruiu as crianças videntes mais uma vez a “rezarem o Rosário todos os dias”. Além da devoção dos cinco primeiros sábados, essa é uma das grandes mensagens de Fátima. Há, porém, uma devoção associada com Fátima que parece ser menos conhecida: a do escapulário marrom.

Nessa última aparição, Lúcia viu Maria e Nosso Senhor ao longo de todos os mistérios do Rosário: ela primeiro os viu como parte dos mistérios gozosos; depois, dos dolorosos; e, finalmente, dos gloriosos. Especificamente na última visão destes, Maria foi vista como Rainha do Céu e da terra sob a forma de Nossa Senhora do Carmo, com o escapulário marrom na mão direita. De acordo com o padre carmelita Howard Rafferty, numa entrevista de 15 de agosto de 1950, a Irmã Lúcia afirmaria mais tarde o seguinte: “O Rosário e o escapulário marrom são inseparáveis. Não é possível ter um sem o outro”. O escapulário é parte integrante da mensagem original. Assim como a Virgem Maria pede a cada um de nós que reze o Rosário todos os dias, ela também quer, de acordo com a Irmã Lúcia, que usemos o escapulário marrom. É por isso que apareceu com ele em mãos, como se estivesse nos pedindo que o tomássemos e vestíssemos.

O que é o escapulário marrom? Até pouco tempo atrás, eu (talvez como você) sabia relativamente pouco a respeito. Ele se inspira no hábito dos monges carmelitas, dois panos de lã marrom usados sobre os ombros para cobrir a parte da frente e as costas. O escapulário marrom é uma miniatura desse traje. É um sacramental da Igreja. “Escapulário” deriva de “escápula”, osso das costas localizado na parte de trás do tórax que é coberta pela vestimenta. Os monges carmelitas usam a peça marrom como uma espécie de manta, ideia surgida entre eles por volta dos séculos XIII e XIV no monte Carmelo, em Israel. Segundo a tradição, Maria deu o escapulário marrom pela primeira a vez a São Simão Stock.

Os carmelitas foram a primeira Ordem consagrada à Virgem Maria. Por isso, ocupam um lugar especial no Coração dela. Moldam sua vida pela vida de Nossa Senhora, e assim com ela “conservava todas essas palavras, meditando-as no seu coração” (Lc 2, 19), também os carmelitas contemplam as coisas celestes e se consagram à Virgem Maria. Portanto, o manto carmelita é sinônimo de consagração ao Imaculado Coração. O escapulário marrom é a versão em miniatura dessa veste carmelita para o mundo secular. A veste grande marrom que cobre o corpo no mundo ascético se reduz, no mundo leigo, a dois pedacinhos de tecido presos por cordões. Trata-se da mesma espiritualidade carmelita e devoção mariana, ampliada para o leigo comum que vive no rebuliço da vida ordinária.

A ideia do manto carmelita remonta ao manto de Elias no Antigo Testamento. O profeta Elias desafiou os falsos profetas de Baal no monte Carmelo. Baal era o deus demoníaco dos cananeus, cuja religião exigia adoração idolátrica, cultos orgiásticos com prostitutas no templo e até oferendas com sacrifícios de crianças. A religião dos cananeus, em outras palavras, era uma mistura depravada de idolatria, imoralidade sexual e sacrifícios humanos. No monte Carmelo, Elias desafiou 450 sacerdotes de Baal a comprovar qual “deus” consumiria com fogo uma oferenda, numa espécie de disputa litúrgica. Baal, é claro, não respondeu, e os falsos profetas emudeceram. Elias, por outro lado, invocou o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, e uma chama vinda do céu consumiu a oferenda. Elias, graças a Javé, derrotou Baal e os falsos profetas. Esse é o legado do monte Carmelo. 

Mais tarde, Elias dividiu o rio Jordão ao tocar as águas com seu manto (cf. 2Rs 2, 8), reencenando a divisão das águas do Jordão por Josué e do mar Vermelho por Moisés. Trata-se de uma prefiguração do Batismo. Naquele momento, Elias foi levado ao Céu — ligando a noção de Batismo ao Céu. Portanto, a veste marrom, que é o hábito dos monges carmelitas, é por extensão uma reminiscência do manto de Elias no monte Carmelo.

Nos tempos modernos, combatemos o mesmo tipo de falsos profetas de Baal que Elias combateu há muito tempo no monte Carmelo. A influência mundana do modernismo tenta nos impor várias formas de idolatria, particularmente o dinheiro, o poder, o materialismo e o politicamente correto radical. A imoralidade sexual também é desenfreada em nossa sociedade. Até o sacrifício de bebês tornou-se “direito comum”, com o aborto quase irrestrito sob demanda. Baal e seu culto estão bem vivos na civilização ocidental

Mesmo assim, como na época bíblica no monte Carmelo, Deus vem derrotar Baal novamente. Sob a Nova Aliança do Evangelho, Deus esmaga a cabeça de Baal por meio da Virgem Maria. À luz disso, Nossa Senhora do Carmo pede que abracemos essa devoção e consagração especiais ao seu Imaculado Coração por meio do uso do escapulário marrom.  

Conhecemos as condições essenciais da promessa de Fátima: récita diária do Rosário, confissão e comunhão frequentes, sacrifícios espirituais e a devoção de reparação ao Imaculado Coração de Maria nos cinco primeiros sábados. No entanto, Maria também apareceu em Fátima como Nossa Senhora do Carmo, oferecendo-nos o escapulário marrom. Por meio de uma simples cerimônia de imposição feita por um sacerdote ou um diácono, podemos consagrar o nosso escapulário marrom e procurar viver essa consagração todos os dias. Ele deve ser muito importante, já que Maria fez questão de apresentá-lo ao mundo outra vez de um modo tão objetivo e dramático como em Fátima.

Aqui há também um vínculo com Nossa Senhora de Lourdes, já que a última aparição a Santa Bernadette ocorreu na festa de Nossa Senhora do Carmo, dia 16 de julho. É muito fácil usar o escapulário marrom, e é algo que requer pouco esforço. No entanto, o seu uso é uma forte afirmação e um sinal tangível da nossa consagração ao Imaculado Coração de Maria. É uma insígnia de nosso desejo de viver uma vida santa todos os dias sob o manto de sua guia e proteção.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.