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Como ter certeza da própria salvação?
Espiritualidade

Como ter certeza da própria salvação?

Como ter certeza da própria salvação?

Como poderá o homem conhecer desde agora o lugar que há de ter no dia do Juízo, e se há de ficar à mão direita, ou à esquerda? Também disto quis a Providência divina que tivéssemos um sinal muito claro e muito certo...

Pe. António Vieira20 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 5 minutos
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Cristo, Senhor nosso, deu hoje sinais para se conhecer ao longe o dia do Juízo; bem será que saibamos nós também algum sinal, por onde possamos conhecer o lugar que nele havemos de ter, e que seja hoje, pois o nosso juízo está mais perto. Para esta demonstração temos um famoso texto da mesma Sabedoria divina, tantas vezes alegada neste ponto, porque em matéria tão grave e tão sólida, não convém nem se requer menor autoridade. No capítulo onze do Eclesiastes, diz assim: “Si ceciderit lignum ad Austrum, aut Aquilonem, in quocumque loco ceciderit, ibi erit — Se a árvore cair para a parte austral, ou para a parte aquilonar, no lugar onde cair, aí ficará para sempre” (Ecl 11, 3).

Esta árvore é cada um de nós: cai ou há de cair na hora da morte, e para onde cair naquele momento, aí há de ficar para sempre, porque daquele momento depende a eternidade. Sendo porém quatro as partes universais do mundo para onde pode cair uma árvore, o norte, que é o aquilão, o sul, que é o austro, o leste, que é o levante, o oeste, que é o poente, faz menção o texto somente da parte austral, que é a direita do mundo, e da parte aquilonar, que é a esquerda, porque o homem só pode cair para uma destas duas partes, ou para a mão direita, com os que se salvam, ou para a esquerda, com os que se condenam

Mas como poderá esse homem adivinhar este grande segredo? Como poderá conhecer desde agora o lugar que há de ter no dia do Juízo, e se há de ficar à mão direita, ou à esquerda? Também disto quis a Providência divina que tivéssemos um sinal muito claro e muito certo, e esse é o mistério com que o Espírito Santo o reduziu todo à semelhança da árvore quando cai: In quocumque loco ceciderit lignum. Uma árvore, antes de se cortar, não se conhece muito fácil e muito naturalmente para que parte há de cair? Pois assim o pode conhecer cada um de si dentro em si mesmo. 

E se não entendeis ainda, e me perguntais o modo, ouvi-o da boca de São Bernardo, o qual com grande propriedade e clareza o ensina por estas palavras: “Quo vero casura sit arbor, si scire volueris, ramos ejus attende: unde maior est copia ramorum, et ponderosior, finde casuram ne dubitesSe quereis saber para onde há de cair a árvore quando for cortada, olhai para ela, e vede para onde inclina com o peso dos ramos”. Se inclina para a parte direita, para a parte direita há de cair, e pelo contrário, se o peso a tem dobrado para a parte esquerda, da mesma maneira há de cair para a parte esquerda, e uma e outra coisa é sem dúvida: Ne dubites.

Olhe agora cada um, e olhe bem para a sua alma, para a sua vida e para as suas obras, que estas são os ramos da árvore. Se vir que são de fé, de piedade, de temor de Deus, de obediência a seus preceitos, de religião, de oração, de mortificação das próprias paixões, de verdade, de justiça, de caridade, enfim, de pureza de consciência, de freqüência dos sacramentos, e das outras virtudes e obrigações do cristão, entenda que, perseverando, há de cair sem dúvida para a mão direita. Mas se as obras pelo contrário são de liberdade e soltura de vida, de ambição, de cobiça, de soberba, de inveja, de ódio, de vingança, de sensualidade, de esquecimento de Deus e da salvação, sem uma muito resoluta e verdadeira emenda e perseverança nela, entenda da mesma maneira que a árvore há de cair para a mão esquerda, e que tem certa a condenação. 

Dir-me-eis, ou dir-vos-á o diabo, que entre a árvore e o homem há uma grande diferença, porque a árvore, depois que está robusta e crescida, não se pode dobrar, mas o homem, que é árvore com alvedrio e uso de razão, ainda que agora esteja tão inclinada, com o peso dos vícios, para a mão esquerda, em qualquer hora que se quiser voltar para a direita, com o arrependimento dos pecados e emenda deles, o pode fazer. Assim é, ou assim poderá ser alguma vez, e assim o insinuou o mesmo S. Bernardo, acrescentando às palavras referidas: “Si tamen fuerit tunc excisa — Se contudo for então cortada”. Mas no dia do Juízo veremos que todos os católicos que estão no inferno, os levou lá esta mesma confiança ou esta mesma tentação [...].

O que resta é que cada um olhe atentamente e com a devida consideração para a árvore da sua vida, e que examine e veja sem engano do amor próprio, se os ramos das suas obras pesam para a mão direita ou para a esquerda: Ad Austrum, aut ad Aquilonem. E para que esta vista seja tão clara e certa, como quem vê de muito perto, e não de longe, só lembro por fim a todos, o que a todos pregava S. João Batista: Jam securis ad radicem arboris posita est (Lc 3, 9). Para qualquer parte que a árvore penda, e qualquer que ela seja, “já o machado está posto às raízes”. Cada dia e cada hora é um golpe que a morte está dando à vida. E reparem os que a fazem tão delicada, que para derrubar as árvores grossas são necessários muitos golpes; para as delgadas basta um.

Cristo, Senhor e Redentor nosso, que tanto deseja e tanto fez e padeceu por nossa salvação, nos desenganou hoje, que o nosso juízo não há de passar dos cem anos: “Non praeteribit generatio haec, donec omnia fiant — Não há de passar a presente geração, sem que tudo o que vos tenha dito se cumpra”. Mas advirtamos que não nos promete que havemos de chegar a esses cem anos, nem aos noventa, nem aos oitenta, nem a dez, nem a um, nem a meio, antes nos avisa que o dia pode ser este dia, e a hora esta hora. O mesmo Senhor, por sua misericórdia, no-la conceda a todos tão feliz, que todos naquele dia nos achemos à sua mão direita, e nos leve consigo a gozar daquela glória que se não alcança senão por boas obras, ajudadas da sua graça. Amém.

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As vantagens de ser católico
Espiritualidade

As vantagens de ser católico

As vantagens de ser católico

De modo geral, todos tendemos a aceitar “o amor que imaginamos merecer”. Mas, na manjedoura de Belém, Deus se fez um de nós para que recebêssemos o seu amor, e não nos contentássemos com as mixarias deste mundo.

Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 8 minutos
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Hoje está na moda falar de empatia. Num mundo tão tecnicista e cheio de distrações, as pessoas têm sentido falta de relações humanas verdadeiras, de olho no olho, de aperto de mãos, abraços, enfim, coisas que só um ser humano concreto pode oferecer. Chegamos a um ponto que não dá mais para esconder o profundo vazio e distanciamento que nossa sociedade está vivendo. Nas ruas, encontramos moças e rapazes oferecendo “abraços grátis”. Ora, empatia tem a ver com essa necessidade de conexão, com a atitude profundamente humana de colocar-se no lugar do outro e compartilhar dos mesmos sentimentos.

O ser humano não foi feito para ficar só. Está na sua natureza pessoal a busca por relações, nas quais ele possa reconhecer-se numa família; a descoberta do outro é, como salientava Gustavo Corção, uma das coisas mais fascinantes e admiráveis da existência, porque, estando “face a face com o outro, o homem está como diante de um espelho: inebriado, fascinado, enamorado numa espécie de narcisismo positivo que se abre para o louvor” [1]. O outro nos interroga e, ao mesmo tempo, nos consola, nos revela a nossa própria identidade pelo simples fato de nos estender a mão e, com isso, mostrar que somos feitos do mesmo barro.

Porém, quando essas relações não acontecem, o homem adoece e perde o elã da vida. Se falta empatia — ou seja, se falta amizade, compaixão, amor, companheirismo etc. —, nossas histórias acabam perdidas como cartas no baú, porque não temos com quem compartilhá-las; não há quem as escute, mesmo que seja para rir de nossas estrepolias. Tornamo-nos, de fato, uma mônada, uma bolha fechada em nossas próprias depressões. E aí surgem as máscaras de relações artificiais, de busca de alguma coisa que possa substituir os relacionamentos ausentes; as pessoas vão atrás de morfina para amenizarem a dor do tumor que lhes corrói a alma, submetendo-se a qualquer tipo de coisa para deixarem de ser invisíveis.

É isso o que notamos no romance As vantagens de ser invisível, de Stephen Chbosky, por exemplo. A história gira em torno do adolescente Charlie, um jovem bastante tímido, que, após algumas experiências traumáticas na infância, acaba bastante debilitado emocionalmente, sofrendo de fortes alucinações. Para aliviar seus sentimentos, ele escreve cartas em uma espécie de diário, no qual despeja todos os seus pensamentos sem qualquer medo de censura ou depreciação. Mas tudo começa a mudar na vida dele, quando Charlie ingressa no ensino médio e passa a ser “percebido” pela turma de “descolados” do colégio.

Nesse novo ambiente, Charlie tem a oportunidade de mostrar como ele se sente, porque encontra um ambiente de cumplicidade. Assim como ele, os seus amigos têm sede de viver algo em profundidade, não temendo os riscos do que suas atitudes podem acarretar. É emblemática a cena em que a jovem Sam, paixão secreta de Charlie, sobe na carroceria do carro de seu irmão, e abre os braços para experimentar o vento correndo sobre seu corpo e, desse modo, “sentir-se como o infinito”. De fato, eles têm desejo de um amor para além deste mundo, que os faça sair da bolha na qual estiveram aprisionados por tanto tempo.

Aos poucos, porém, Charlie vai descobrindo as feridas e os segredos de cada um de seus amigos, e como ainda estão vazios, mesmo com todas as suas festas, transgressões e rebeldias. Ele mesmo tem um encontro com suas “chagas” depois de ser privado da presença de seus companheiros, que o distraíam da sua interioridade bagunçada. Certo dia, vendo sua irmã ser agredida pelo próprio namorado, ele se intriga com aquilo e pergunta ao seu professor de inglês, com quem mantinha certa confiança: “Por que pessoas legais escolhem pessoas erradas para namorar?” E o seu professor responde: “Aceitamos o amor que imaginamos merecer”.

Na mosca. A maior parte dos personagens de As vantagens de ser invisível vive esse terrível drama de contentar-se com qualquer aparência de amor que sirva para retirá-los da fossa, por assim dizer. Eles sentem, sim, desejo do amor infinito (desiderium naturale videndi Deum, diriam os escolásticos), mas, por se julgarem tão antiquados e fora dos padrões, vão se entregando às aventuras da vida, porque, no fim das contas, acreditam ser a única coisa que lhes resta. E é assim que Charlie aparece, uma hora, na fila da Comunhão, junto com seus pais, para receber a Santíssima Eucaristia e, depois, na casa de seus amigos, para consumir drogas. Ele também aceita o amor que julga merecer.

Na realidade, nós todos experimentamos essa sensação terrível de querer algo infinitamente superior às nossas próprias forças e capacidades, e, ao mesmo tempo, julgarmo-nos dignos apenas das mixarias que a história nos oferece, porque não encontramos quem possa se conectar a nós mesmos, de maneira tão profunda como gostaríamos. Temos sede de absoluta empatia, mas nós não nos amamos o suficiente para renunciar àquilo que nos destrói a alma. Esse é um daqueles muitos paradoxos da humanidade, sobre os quais tanto escrevia G. K. Chesterton.

Chesterton também precisou passar pelo fio da navalha, até finalmente encontrar-se com a resposta que tanto procurava para seus dilemas. No seu livro Ortodoxia, ele afirma que sua vida pode ser definida como a viagem de um homem que sai à procura do infinito, da verdade mais profunda de seu ser, e a acaba encontrando no lugar mais improvável: a sua própria casa, de onde saíra

Durante toda a sua juventude, ele viveu tormentos profundos e grandes dúvidas espirituais, que o fizeram passar do ateísmo ao agnosticismo, de modo que ele chegou a pensar no suicídio. Mas ao abrir-se ao mistério do cristianismo, que ele havia ignorado por tanto tempo, Chesterton descobriu novamente a alegria da religião verdadeira, que nos conecta com o amor infinito que tanto procuramos. E as coisas que estavam invisíveis ao seus olhos tornaram-se claras, sobretudo o Homem Deus que veio se colocar no lugar da humanidade, num admirável intercâmbio.

Em sua obra mais vigorosa, O Homem Eterno, Chesterton observa como Jesus realiza, com sua misteriosa Encarnação, o mais perfeito gesto de empatia que homem algum jamais imaginou. Esse gesto, diz Chesterton, começa justamente onde tudo começou para o ser humano: na caverna. Ele escreve assim:

A segunda metade da história humana, que foi como uma nova criação do mundo, também começa numa caverna. Até se constata um detalhe dessa fantasia no fato de animais estarem mais uma vez presentes pois se deu numa caverna usada pelos montanheses das regiões altas de Belém, que ainda hoje conduzem seu gado para essas grutas e cavernas para o pernoite. Foi num lugar assim que um casal sem teto se refugiou junto com o gado quando as portas da apinhada estalagem haviam sido fechadas na cara deles; e foi num lugar assim, exatamente debaixo dos pés dos passantes, num subterrâneo sobre o próprio chão do mundo, que Jesus Cristo nasceu. Mas nessa segunda criação houve algo realmente simbólico nas raízes da rocha primeva ou nos chifres da pré-histórica manada. Deus era também um homem das cavernas e também havia desenhado estranhas formas de criaturas, curiosamente coloridas, sobre a parede do mundo; mas as pinturas do mundo feitas por ele ganharam vida [2].

No mais humilde dos berços, e na mais discreta de todas as maternidades, repousava o menino Jesus, em quem Chesterton descobriu não apenas outra pessoa, mas o Totalmente Outro que não se contentou em ser consubstancial ao Pai, e quis também ser consubstancial ao homem, para dar-lhe uma nova filiação. E, assim, Chesterton pôde experimentar a mesma alegria dos pastores de Belém, porque também lhe nascera na Cidade de Davi um Salvador. E ele poderia encontrar esse menino sempre que quisesse, poderia debruçar-se sobre o seu peito e confessar-lhe todos os tormentos, poderia comungar na sua mesma mesa eucarística, poderia alegrar-se com suas parábolas e também chorar suas feridas; poderia, afinal, ser um e todos ao mesmo tempo, numa autêntica família, porque, de fato, a Igreja, Corpo Místico do menino Deus, “não é um movimento e sim um lugar de encontro, um lugar de encontro para todas as verdades do mundo”.

Com o mistério do Natal, Jesus veio merecer para todos os homens o amor que tanto desejamos, mas que, por nossos próprios méritos, não somos dignos de receber. Em suas andanças e pregações, Ele olhou nos olhos de muitos, deu abraços, chorou e compadeceu-se, acolheu doentes, ladrões e prostitutas, e todos paravam para ouvir as suas Palavras de Vida Eterna, “porque o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19, 10). Mais ainda: Cristo não só se recusou a condenar a adúltera, que aceitava qualquer amor por imaginar-se indigna de coisa melhor; Ele a fez enxergar um horizonte maior, para além da vida medíocre que ela levava. Jesus a redimiu e ajudou a buscar um novo sentido para sua existência.

Todos nós, seja Charlie, seja Chesterton, temos dentro de nossas almas uma mulher adúltera, que precisa ser urgentemente redimida. Por medo, podemos nos esconder do apedrejamento do mundo, buscando uma vida invisível, escondida na escuridão, onde talvez nos sintamos aparentemente mais seguros. Mas os fantasmas permanecem lá, no mesmo lugar, apenas esperando a oportunidade para nos atormentarem outra vez. E é então que deve nascer o Menino Deus, para nos trazer alegria e exorcizar de nossos corpos todos os falsos ídolos e reis, todo e qualquer fantasma de uma existência sombria e amarga. Porque Ele, diz o salmista, “não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos castiga em proporção de nossas faltas”; “porque tanto os céus distam da terra quanto sua misericórdia é grande para os que o temem” (Sl 102, 10-11).

Que belo é esse amor, que belo é esse Deus que vem ao nosso encontro, e coloca-se no nosso lugar, como dizia São Gregório Nazianzeno, aceitando a pobreza de nossa condição humana para que nós recebamos os tesouros de sua divindade. No desfecho do diálogo de Charlie com seu professor, o jovem pergunta-lhe se é possível mostrar às pessoas que elas merecem um amor maior. “Nós podemos tentar”, responde-lhe o mestre. Mas Jesus não só tentou; ao contrário, aquele que possuía tudo em plenitude, aniquilou-se a si mesmo, despojou-se de sua glória por algum tempo, para que nós participássemos de sua plenitude. 

Para recebermos esses dons, basta que façamos como Chesterton e abramos os nossos olhos ao pequenino na manjedoura, que está ali quase invisível, enquanto nos distraímos com o mundo… Assim descobriremos as vantagens de ser católico.

Referências

  1. Gustavo Corção. Dois amores, duas cidades. Rio de Janeiro: Agir, 1967, v. 1, p. 33.
  2. G. K. Chesterton. O homem eterno. Cajamar: Mundo Cristão, 2010, p. 220.

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Quando será o dia do Juízo?
Espiritualidade

Quando será o dia do Juízo?

Quando será o dia do Juízo?

O conceito que ordinariamente fazemos do dia do Juízo é muito enganoso e muito errado. Consideramos o dia do Juízo como uma coisa medonha e espantosa, mas que está lá muito longe, e por isso nos não faz medo. Não é assim…

Pe. António Vieira17 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 8 minutos
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Cristo, Senhor nosso, disse a seus discípulos que o segredo daquele dia é reservado só ao Padre, e que nem os anjos do céu o sabem, nem ele o sabia em foro que o pudesse revelar: “De die autem illa et hora nemo scit, neque angeli in caelo, neque Filius, nisi Pater — Daquele dia e da hora, ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, mas só o Pai” (Mt 24, 36). Contudo, eu me não arrependo, nem me desdigo do que prometi. Prometi de vos dizer com certeza quando há de ser o dia do Juízo. E quando cuidais que há de ser? 

Não vos quero ter suspensos. É hoje, foi ontem, há de ser amanhã, e não amanhece nem anoitece dia, que não seja certamente o dia do Juízo. Que coisa é o dia do Juízo? É um dia em que se há de acabar o mundo, é um dia em que Cristo nos há de vir julgar, é um dia em que havemos de dar conta de toda a nossa vida, e em que os bons hão de ir para o céu e os maus para o inferno. Não é esta a essência e substância do dia do Juízo? Sim. Pois isto é o que se faz hoje, o que se fez ontem, o que se há de fazer amanhã e todos os dias. Acaba-se o mundo todos os dias, porque para quem morreu acabou-se o mundo. Vem Cristo a julgar todos os dias, porque no ponto em que cada um expira, logo o vem julgar, e julga, não outrem, senão o mesmo Cristo. Toma-se conta, e estreitíssima conta de toda a vida, todos os dias, porque no dia da morte, e no mesmo instante dela, se toma e se dá esta conta. Finalmente, vão os bons para o céu e os maus para o inferno todos os dias, porque todos os dias os que morrem, ou são absoltos e vão para o céu, ou condenados, e vão para o inferno. Vamos agora ao Evangelho, e vejamos como este mesmo Juízo, e na mesma forma em que o tenho declarado, é o que hoje nos prega Cristo.

Tinha Cristo, Senhor nosso, pregado o mesmo Evangelho que ouvistes, tinha anunciado a seus discípulos os sinais tremendos que hão de preceder ao Juízo, e o poder e majestade com que o mesmo Senhor há de vir em pessoa a julgar o mundo, e conclui com as palavras que tomei por tema: “Amen dico vobis, quia non praeteribit generatio haec, donec omnia fiant — De verdade vos prometo e afirmo que não há de passar a presente geração, sem que tudo o que vos tenha dito se cumpra”. Este é um dos dificultosos lugares de toda a história evangélica. Uma geração, em frase da Escritura, quer dizer uma idade ou um século, porque o mais que chega a durar a vida humana são cem anos [...]. 

Aqui está a dificuldade. Daquele tempo para cá, tem passado mais de mil e seiscentos anos, e já temos contado dezesseis séculos, e estamos no século dezessete, e o dia do Juízo ainda não chegou. Além desta demonstração, segundo as opiniões que acima referimos, o mundo provavelmente ainda há de durar, ou muitos ou alguns séculos, antes do dia do Juízo, pois, como diz o Senhor, e com tão particular asseveração, que tudo se havia de cumprir dentro do mesmo século que então corria, e que se não havia de acabar aquele século sem que viesse o dia do Juízo: Non praeteribit generatio haec donec omnia fiant

Assim o disse e afirmou a verdade eterna, e assim se cumpriu naquele século, e cumprirá nos seguintes, porque nenhum homem houve naquele século, que dentro do mesmo século não tivesse o seu dia do Juízo. Como as vidas e as idades geralmente não passam de cem anos, nenhum homem há que não acabe a vida dentro do mesmo século a que pertence, e nenhum há que não seja julgado no tribunal de Cristo, e tenha o seu dia do Juízo no mesmo século. Os que morrem hoje têm o seu dia do Juízo hoje; os que morreram ontem, tiveram o seu dia do Juízo ontem; os que morrerem amanhã, e daqui a vinte anos, amanhã e daqui a vinte anos terão o seu dia do Juízo, mas sempre dentro do mesmo século e da mesma idade ou geração: Non praeteribit generation haec, donec, omnia fiant [...].

Aqui vereis qual é o tudo do dia do Juízo, e que é o que Cristo chama tudo. O tudo do dia do Juízo é a conta da vida que o mesmo Cristo há de tomar; é a sentença que há de dar, segundo os merecimentos dela; é o céu ou inferno para sempre, a que cada um há de ser julgado; o demais são acidentes e aparatos do Juízo universal, e não a substância do mesmo Juízo, a qual se não distingue dos juízos particulares. Desta substância e deste tudo do Juízo universal é que falou o Senhor na sua conclusão, e porque esta substância e este tudo se não distingue dos juízos particulares que se fazem na morte, por isso disse que tudo se havia de cumprir dentro daquele século, como verdadeiramente se cumpriu. 

E se quisermos reparar na propriedade das palavras donec omnia fiant, ainda acharemos nelas mais particular energia, porque no dia do Juízo final, não se há de fazer coisa alguma de novo, senão declarar-se somente o que já está feito. Os juízos particulares, que se fizeram na morte, esses mesmos são os que se hão de publicar no Juízo universal, e o juízo não se faz quando se publica a sentença, senão quando se dá: logo no dia da morte é que propriamente se faz o Juízo, e tudo isto, que faz agora, e não depois, é o que o Senhor disse que se havia de fazer dentro daquele século: Non praeteribit generatio haec, donec omnia fiant

Para tirar toda a dúvida, ouçamos ao mesmo Cristo em caso muito mais apertado, e que a podia fazer maior. No capítulo quinto de S. João, fala o Senhor do dia do Juízo final com maiores e mais intrínsecas circunstâncias, porque faz menção da ressurreição universal dos mortos, e da sentença, também universal, dos bons e dos maus, segundo o merecimento de suas obras: “Omnes qui in monumentis sunt, audient vocem Filii Dei: et procedent qui bona fecerunt, in resurrectionem vitae; qui vero mala egerunt, in resurrectionem judicii — Todos os que repousam nos sepulcros ouvirão a voz do Filho de Deus e sairão: os que tiverem feito o bem, para uma ressurreição de vida; os que tiverem praticado o mal, para uma ressurreição de julgamento” (Jo 5, 29-30). E declarando o mesmo Senhor quando há de ser este tempo, diz que há de vir, e que agora é: Venit hora, et nunc est (Jo 5, 25). 

Pode haver proposição mais encontrada? Há de vir o dia do Juízo, e já agora é? Se o dia do Juízo estava tão longe, se há mil e seiscentos anos que ainda não veio, e se ainda não sabemos quando há de ser aquele dia ou aquela hora, como diz o oráculo de Cristo que já é: Venit hora, et nunc est? Admirável e literalmente S. Jerônimo, e se eu lhe pedira o comento, não o pudera escrever com mais ajustadas palavras: “Quia quod in die judicii futurum est omnibus, singulis in die mortis completur — Aquilo que a todos acontecerá no dia do juízo cumpre-se em cada um no dia da sua morte”.

Diz o Senhor que o dia do Juízo há de vir, e que já é, porque, ainda que o dia do Juízo há de ser depois, e muito depois, o dia da morte é já agora; e o que se há de cumprir em todos no dia do Juízo, cumpre-se em cada um no dia da morte: Singulis in die mortis completur. Notai o completur. As outras profecias cumprem-se a seu tempo, esta do dia do Juízo tem o seu cumprimento antes de tempo, porque aquilo mesmo que se faz agora, é o que se diz que há de ser então. Então hão-se de examinar as obras, então há-se de pronunciar a sentença, então hão de sair uns absoltos, outros condenados, e tudo isto que então se há de fazer no dia do Juízo é o que se faz ou está já feito agora no dia da morte. Por isso diz o Senhor que aquele dia está por vir e já é: Venit hora, et nunc est. Nunc: agora. Estes dois advérbios de tempo, então e agora, sempre são opostos; mas no dia do Juízo, comparado com o da morte, ainda que a morte seja dois mil anos antes que o Juízo, não tem oposição. O agora é então, e o então é agora. No nosso Evangelho diz o mesmo Senhor: Tunc videbunt: então verão, e aquele então é agora, aquele tunc é nunc: Tunc videbut, et nunc est [...]. 

De maneira, senhores, que o conceito que ordinariamente fazemos do dia do Juízo é muito enganoso e muito errado. Consideramos o dia do Juízo como uma coisa medonha e espantosa, mas que está lá muito longe, como as serpes nas areias da Líbia, ou os crocodilos no Nilo, e por isso nos não faz medo. Não é assim; o dia do Juízo não está longe; está tão perto como o dia de amanhã, e como o dia de hoje, e como esta mesma hora em que estamos: Venit hora, et nunc est. O vale de Josafá não está só em Jerusalém, nem entre o Monte Sião e o Olivete; está em Lisboa, está neste mesmo lugar, e em todos os do mundo. Se vos tomar a morte no mar, ou na campanha, ou na vossa cama, o mar, a campanha, a vossa cama é o vale de Josafá, e esse dia, qualquer que for, é o vosso dia do Juízo, ou mais cedo, ou mais tarde, mas dentro deste mesmo século em que nascemos: Non praeteribit generatio haec, donec omnia fiant.

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Ainda é possível uma educação de fato católica?
Sociedade

Ainda é possível
uma educação de fato católica?

Ainda é possível uma educação de fato católica?

A educação verdadeiramente católica consiste em iniciar uma vida de aprendizado com o único e verdadeiro Mestre, Jesus Cristo, libertando a mente e o coração dos escombros de uma civilização em colapso, porque escrava de suas paixões.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 7 minutos
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Todo o mundo diz que “a educação é a chave para o futuro, a solução para os nossos problemas, a única maneira de formar o destino da nação”. Mas quem realmente entende o que é a educação?

Para os burocratas do governo, muitas vezes é uma palavra da moda que significa: gastar muito dinheiro com profissionais que buscam interesses próprios, mesmo que muitas pesquisas demonstrem que os estudantes estão ficando cada vez mais imbecilizados, sem capacidade de raciocínio e conhecimento cultural — de fato, nem mesmo caligrafia legível, grafia correta ou gramática básica. Sem falar na imoralidade desenfreada que é promovida por “educadores” e legisladores, que evidentemente querem que a sociedade seja tomada por hordas de homens e mulheres escravos de suas paixões.

Educação, do latim ex ducere, significa “liderar” [1] — então, a questão lógica é: liderar a partir de quê e para quê? Da ignorância, do erro e do pecado, ao conhecimento, à verdade e à santidade. A educação deve refletir a trajetória do povo de Israel, conduzido da escravidão, no Egito, à liberdade em Canaã. A verdadeira educação pressupõe a revelação cristã da situação decaída do ser humano e da sabedoria do alto que pode curá-lo e elevá-lo.

Este é, de fato, o significado mais básico do tempo do Advento, com o qual a Igreja Católica, em seus ritos ocidentais, começa cada novo ano litúrgico: recomeçamos repetidas vezes a partir do desejo de libertação da escravidão, que perdura há muitos séculos e é também o nosso desejo. Como afirma São Paulo: “Sabemos que toda a Criação geme e sofre como que dores de parto até o presente dia. Não só ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, gememos em nós mesmos, aguardando a adoção, a redenção do nosso corpo” (Rm 8, 22-23).

É necessário admitir que entre os seres humanos não existe um mestre que esteja completamente livre de ignorância, erro e pecado, por mais inteligente ou bem-intencionado que seja. Entretanto, alguns pecados são qualitativamente piores que outros; alguns erros são mais densos e nocivos que outros; e alguns tipos de ignorância são muito mais terríveis que outras. Os professores não precisam ser perfeitos para serem instrumentos eficazes da Sabedoria Eterna e Encarnada, que está além de todos nós. Basta que estejam atrelados à verdade que nos liberta; que indiquem a beleza da santidade; e que demonstrem a aspiração constante por descobrir a realidade das coisas. Se assim for, bem-aventurados serão os seus alunos, que compreenderão o que significa viver plenamente em Cristo.

Em 15 de dezembro de 2011, o Papa Bento XVI fez uma homilia, durante a oração das Vésperas com universitários de Roma, partindo da Carta de São Tiago (5, 7): “Tende, pois, paciência, meus irmãos, até a vinda do Senhor. Vede o agricultor: ele aguarda o precioso fruto da terra e tem paciência até receber a chuva do outono e a da primavera” (5, 7). Aí ele falou da “atitude interior de nos prepararmos para ouvir e acolher novamente o anúncio do nascimento do Redentor na gruta de Belém, um mistério inefável de luz, amor e graça”. Como professor, muitas vezes fico impressionado com quanta paciência, dedicação e atenção são necessárias, tanto por parte dos alunos quanto por parte das instituições de ensino, para se acolher a espantosa verdade de que a Palavra Eterna do Pai — a Sabedoria Divina em que e para quem todas as coisas existem — tornou-se homem, a fim de que possamos nos tornar como Deus, sendo “divinizados” através de sua graça.

Esta é a verdade determinante para a nossa salvação, é a premissa fundamental do cristianismo. Cada Advento nos recorda a necessidade que temos do auxílio de outrem — não apenas de outras pessoas, mas, de forma mais precisa, de outra fonte que não seja a humanidade decaída ou qualquer elemento da ordem natural. Cada Natal nos lembra da bondade inefável de Deus para conosco, não porque merecemos, mas porque necessitamos. Essa é uma verdade que qualquer pessoa — até a mais simples, pobre ou iletrada — é capaz de a ouvir e acolher, nela crer e se alegrar.

Infelizmente, também se trata de uma verdade que o mundo, a carne e o diabo odeiam ouvir e se esforçam incessantemente para suprimir com uma variedade de ferramentas: programas governamentais progressistas, doutrinação secularista compulsória, descrédito social, desprezo profissional, refutações sofísticas, alternativas ilusórias, ameaças violentas ou o velho silêncio. É por isso que, em todas as épocas, houve a necessidade e, sempre haverá, de que os católicos se formem como professores, pregadores, apologistas, escritores, testemunhas e líderes de referência. Porém, não haverá formação de católicos sem o mesmo tipo de trabalho árduo e persistência paciente que caracteriza o agricultor mencionado na Carta de São Tiago.

Santo Agostinho, um dos maiores pregadores e mestres de todos os tempos, compreendeu muito claramente que, para alcançar um entendimento básico dos mistérios da Revelação divina, é preciso dedicar-se a todo um grupo de discípulos com constância, energia e concentração. O trabalho é gratificante e desgastante para a nossa natureza humana; geralmente não vemos o que está por vir, de onde viemos ou como teremos sucesso. Nesse sentido, o Papa Bento XVI afirmou aos estudantes universitários na homilia supramencionada:

A exortação do Apóstolo à constância paciente, que no nosso tempo poderia deixar-nos um pouco perplexos, é na realidade o caminho para acolher profundamente a questão de Deus, o sentido que Ele tem na vida e na história, porque precisamente na paciência, na fidelidade e na constância da busca de Deus, da abertura a Deus, Ele revela a sua Face. Não temos necessidade de um deus genérico, indefinido, mas do Deus vivo e verdadeiro, que abra o horizonte do futuro do homem a uma perspectiva de esperança firme e segura, uma esperança rica de eternidade e que permita enfrentar com coragem o presente em todos os seus aspectos. 

Certamente é disso que a nossa época precisa: a revelação do rosto de Deus, para que possamos ter esperança. O mundo, tão amado por Deus e tão contrário a Ele, não conseguirá aquilo de que necessita sem homens e mulheres sedentos de Deus, que desejem ver sua face, e viver unidos a Ele, confiantes nas suas promessas  — e que, ao mesmo tempo, estejam capacitados para “responder em vossa defesa a todo aquele que vos pedir a razão de vossa esperança” (1Pd 3, 15).

As palavras do Papa emérito são fundamentais para prosseguirmos com o “cultivo” da vida intelectual, onde os resultados não são instantâneos e onde a tecnologia não pode substituir o caráter e a sabedoria:

A paciência é a virtude daqueles que confiam nesta presença na história, que não se deixam vencer pela tentação de depositar toda a esperança no imediato, em perspectivas puramente horizontais, em programas tecnicamente perfeitos, mas distantes da realidade mais profunda, aquela que confere a dignidade mais excelsa à pessoa humana: a dimensão transcendente, ser criatura à imagem e semelhança de Deus, trazer no coração o desejo de se elevar a Ele.

O objetivo da educação liberal não é formar seres perfeitos a partir da instrução de seres que já são perfeitos; mas iniciar uma vida de aprendizado com o único e verdadeiro Mestre, Jesus Cristo, libertando a mente e o coração dos escombros de uma civilização que está em colapso, porque é escrava de suas paixões. Os estudantes que recebem essa educação têm a oportunidade de encontrar uma liberdade espiritual mais preciosa do que todas as riquezas deste mundo.

Hoje, são as escolas católicas mais novas e geralmente muito pequenas e independentes que oferecem a seus alunos um ambiente católico propício à oração e ao discernimento, um currículo relevante, com professores dedicados, a oportunidade de amizades honrosas e a inspiração para buscar as verdades perenes sobre Deus, o homem e o mundo, sem as quais perecemos na miséria de nossos confortos materiais e em nosso desespero existencial.

Quando Natanael, de forma cética, pergunta: “Pode, porventura, vir coisa boa de Nazaré?” (Jo 1, 46), Filipe, ao responder, não inicia uma discussão, mas lhe faz um convite, e até um desafio: “Venha e veja”. Sim, precisamos ir e ver o que essas escolas estão fazendo a crianças, adolescentes e jovens adultos, futuros cônjuges, padres e religiosos. Elas estão atendendo a um chamado que é semelhante ao do Advento: praticar um cultivo paciente, fiel e inabalável dos corações e das mentes, para o bem das almas e a glória de Deus. 

Notas

  1. Aqui o autor dá uma etimologia parcial à palavra “educação”, partindo do verbo ducere, quando o mais comum seria partir dos verbos educare (“alimentar”) e educere (“tirar de dentro”). Apesar disso, as lições que ele extrai dessa definição um tanto quanto incomum são perfeitamente válidas e úteis (Nota da Equipe CNP).

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