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A “tatuagem” de Santa Joana de Chantal
Santos & Mártires

A “tatuagem” de
Santa Joana de Chantal

A “tatuagem” de Santa Joana de Chantal

Para não quebrar um voto de castidade, esta santa “gravou em seu peito, com ferro incandescente, o santíssimo nome de Jesus Cristo”. Mas ela não o fez para ser imitada. E nem de longe esse ato de amor se compara ao fenômeno moderno das tatuagens.

Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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A 3.ª leitura das Matinas do antigo Ofício Divino para a festa de S. Joana de Chantal (21 de agosto no calendário da Forma Extraordinária; 12 do mesmo mês no rito atual) traz um dado biográfico interessante a respeito dela que você provavelmente não conhecia (os grifos e a tradução são nossos):

Joana Francisca Frémyot de Chantal, nascida em Dijon, na Borgonha, de família nobre, ainda menina e órfã de mãe consagrou-se à proteção da Virgem Mãe de Deus. Entregue pelo pai em casamento ao Barão de Chantal, mostrando com denodo ser mulher forte, fez-se tudo para todos. Morto o esposo durante a caça, obrigou-se por voto de continência e, vencedora de si mesma, não hesitou ser madrinha de Batismo do filho do assassino. Para não quebrar jamais a observância de seu propósito de castidade, renovado o voto, gravou em seu peito, com ferro incandescente, o santíssimo nome de Jesus Cristo. Instruída por Francisco de Sales, que lhe serviu como diretor espiritual, a respeito da vontade divina, fundou a Ordem da Visitação de Santa Maria, à qual difundiu muito e por vários lugares. Tendo-se obrigado por voto a fazer sempre o que entendesse ser mais perfeito, cheia de méritos, migrou em Moulins para os braços do Senhor, no ano de 1641, no dia 13 de dezembro, e foi canonizada por Clemente XIII.

Reforçando o negrito: a viúva Joana de Chantal, já àquela altura uma católica devota, “gravou em seu peito, com ferro incandescente, o santíssimo nome de Jesus Cristo”; em outras palavras — encheriam a boca para dizer os de nossa época —, ela fez em seu corpo uma “tatuagem”.

Antes, porém, de começarem os mais animados a invocar a santa como uma espécie de “padroeira dos tatuados”, talvez valha a pena fazer algumas considerações sobre o moderno fenômeno das tatuagens e o que o diferencia do ato realizado pela santa católica. 

Primeiro, Santa Joana não gravou em seu peito o nome de Cristo com o fim de ser imitada. Sua ação deve ser vista, antes, à luz da moção sobrenatural com que Deus tantas vezes inspira os seus santos a empreender ações extraordinárias por amor a Ele. Afinal, não estamos falando aqui de uma simples inscrição no corpo, como são feitas as tatuagens modernas. O ato de gravar em si o nome de Jesus “com ferro incandescente” comporta uma dor atroz e uma mutilação corporal permanente, que fogem absolutamente do dia a dia das ações do cristão. 

Escrevendo sobre a “mortificação positiva” do sentido do tato, o Pe. Antonio Royo Marín adverte:

É mister proceder com prudência e gradualmente, aumentando os exercícios de penitência à medida que as forças da alma vão crescendo e os convites interiores da graça vão sendo mais e mais prementes. A princípio, sobretudo, evite-se a efusão de sangue enquanto não apareça com clareza a vontade de Deus em contrário [...]; e guarde-se muito a alma de converter em fim o que não passa de puro meio, crendo que a santidade consiste em despedaçar-se cruelmente o corpo, como fizeram alguns santos. Há na vida desses santos muitos fatos dignos de admiração, mas que seria imprudente e temerário tratar de reproduzir. Eles contavam com uma particular inspiração e assistência de Deus que não estão à disposição de todos. Se o Espírito Santo quiser levar uma alma pelo caminho de penitências extraordinárias, cuidará de a inspirar fortemente e de lhe dar forças proporcionadas para tanto. Enquanto isso, a maior parte das almas deve praticar a mortificação corporal ordinária, à base de mil coisas pequenas praticadas com assiduidade e perseverança [1].

Para reforçar que as pessoas não devem repetir em casa certos heroísmos dos santos, citemos ainda S. Afonso de Ligório, comentando justamente esse episódio da vida de S. Joana:

Um dia, o bem-aventurado Henrique Suso, querendo imprimir mais fortemente no coração o amor de seu divino Mestre, tomou um ferro afiado e gravou no peito o nome de Jesus; depois exclamou banhado em sangue: “Senhor, quisera gravar-vos no fundo do meu coração, mas não posso; vós que tudo podeis, gravai vosso nome adorável no meu coração, de maneira que dele não possa desaparecer nem o vosso nome nem o vosso amor”. S. Joana de Chantal chegou a imprimir o nome de Jesus em seu coração por meio de um ferro em brasa. De nós, Jesus não pede tanto; contenta-se com que o conservemos em nosso coração com um afeto sincero e que o invoquemos muitas vezes com amor [2].

Segundo, Santa Joana não gravou em seu peito o nome de Cristo com o fim de atrair os olhares do mundo. Muito pelo contrário. Ela o fez “para não quebrar jamais a observância de seu propósito de castidade”, pois, falecido seu marido, quis obrigar-se por voto à continência perfeita, por amor ao Reino dos céus. Podemos pensar inclusive que, antes de sua morte e da divulgação de sua hagiografia, a notícia de sua “tatuagem” só por Deus era conhecida, e no máximo por seu diretor espiritual

“S. Francisco de Sales”, que foi diretor de S. Joana. Pintura de Francisco Bayeu.

Com isso já é possível notar grande diferença para as tatuagens de hoje, que transformam o corpo em quadro ou letreiro, para chamar a atenção de todos. Isso quando as próprias imagens ou inscrições não são feitas em partes menos honestas, com o fim de atrair olhares para lugares que, definitivamente, não deveriam sequer ficar descobertos. Sem falar que o nome de Jesus não está entre os mais tatuados: a moda são os símbolos de religiões da “Nova Era” e de uma cultura de sadomasoquismo e morte que pode evoluir ao próprio culto satânico. Ou seja, o que Santa Joana de Chantal fez como penitência e por amor a Deus, grande parte de nossos contemporâneos o fazem por vaidade e sensualidade, quando não por verdadeiro ódio ao sagrado.

Terceiro, Santa Joana fez ela mesma a inscrição do nome de Cristo em seu corpo. Hoje, as pessoas o fazem alimentando uma indústria que, infelizmente, muito pouco tem de cristã. O que se deduz, na verdade, das tatuagens que se vêem com frequência é que um tatuador profissional precisaria viver fazendo constantes “objeções de consciência” para ser bom católico e exercer o seu ofício ao mesmo tempo — ou ter uma freguesia de tal modo seleta que seu serviço se tornaria, na prática, inviável. 

Também não se pode subestimar o fato de que, nesse meio, o ocultismo e seus efeitos constituem não um perigo remoto, mas uma realidade viva. O Pe. John Zuhlsdorf citou em seu site, recentemente, o seguinte testemunho de um exorcista anônimo, de sua inteira confiança:

Tenho lidado com pessoas que pensavam ter tatuagens inócuas em seus corpos. Quando perguntei a uma garota o porquê de o “t” em uma palavra ser uma Cruz invertida, ela ficou sem resposta e bem zangada com o tatuador. Ela não fazia ideia daquilo. Às vezes tatuadores fazem satanistas amaldiçoarem a tinta que usam, a fim de que seus portadores tenham um malefício permanente (demonic fortuna — algo semelhante a um antissacramental, um objeto físico portador de maldição) em seus corpos. Por que eles fazem isso? Trata-se de uma propensão à malícia, por certo; mas também é uma forma de “ganhar pontos” com Satanás, pela quantidade de pessoas que eles podem contaminar. Ao fazer orações de libertação sobre tatuagens (decommission tattoos), eu uso a fórmula do Ritual Romano para “Reconsagração (Reconciliation) de uma Igreja Profanada”, alterando onde apropriado as palavras. Eu passo óleo exorcizado sobre elas usando um cotonete: algumas vezes, as pessoas gritam como se eu as estivesse esfolando vivas; outras vezes, só as machuca um pouco; às vezes não acontece nada. Conheço uma ex-religiosa que havia feito uma tatuagem. Quando fiz um exorcismo mental dela (ela não estava olhando para mim e não sabia o que eu estava fazendo na minha mente), ela deu um solavanco. Depois de lhe dizer que ela estava contaminada devido à tatuagem, ela me disse que havia feito todas as irmãs de seu antigo convento se tatuarem com o mesmo rapaz. Todas elas deixaram o convento dentro de 6 meses (grifos nossos).

Não se trata de dizer que o simples ato de tatuar algo no corpo seja pecado (pois não é). Mas não deixa de ser curioso que essa prática tenha se tornado mais comum à medida que o Ocidente se foi afastando de suas raízes cristãs. O ensinamento de S. Paulo, por exemplo, de que “o nosso corpo é templo do Espírito Santo” (1Cor 6, 19), noutros tempos seria argumento mais do que suficiente para demover as pessoas de ideias como essa. A cultura em que estão inseridas modas como a tatuagem e o piercing é, infelizmente, a do individualismo egocêntrico, do desprezo ao corpo e da rebelião contra o Criador.

Aqui, a “tatuagem” de Santa Joana e as modernas se tocam: assim como os homens do campo marcam o gado para mostrar que são sua propriedade, essa santa católica gravou em si o nome de Jesus justamente para indicar sua pertença a Ele, e talvez... as marcas que trazemos em nossa pele denunciem a mesma coisa. Pois também elas, e não só a boca, falam do que está cheio o coração (cf. Mt 12, 34). A quem pertencemos, com o estilo de vida que levamos, com o modo como tratamos o nosso corpo e com as roupas que usamos — sejam elas roupas no sentido próprio ou roupas “definitivas”, como as tatuagens? Quem é o senhor das nossas vidas?

A pergunta é importante porque chega um momento, inevitável, em que os senhores reclamam sua propriedade, de uma vez e para sempre. Foi o que aconteceu com S. Joana de Chantal, e é o que acontecerá também a nós, tatuados ou não. 

Cada um faça o seu exame de consciência.

Referências

  1. Teología de la perfección cristiana. 14.ª ed., Madri: BAC, 2015, pp. 357–358, n. 242.5.
  2. Encarnação, Nascimento e Infância de Jesus Cristo. São Paulo: Cultor de Livros, 2016, pp. 158–159.

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Dualismo gnóstico: ainda um desafio para a fé cristã
Doutrina

Dualismo gnóstico:
ainda um desafio para a fé cristã

Dualismo gnóstico: ainda um desafio para a fé cristã

A reverência e o respeito ao corpo são centrais no culto e no modo de vida católicos. Mas a cultura ocidental deteriorou-se sob muitos aspectos, assumindo uma forma de gnosticismo: uma ideologia da separação entre corpo e alma, dualista e contrária à Encarnação.

Pe. Tim McCauleyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Como uma erva daninha, a filosofia gnóstica viceja no solo estéril da nossa cultura pós-cristã [1]. Ela também exala um odor desagradável parecido com a fumaça de Satanás, que se infiltra pelas portas da Igreja, influenciando a nossa antropologia e comprometendo a integridade do nosso culto a Cristo na Eucaristia.

O catolicismo tem uma dimensão encarnada. A reverência e o respeito ao corpo são centrais em nosso culto e modo de vida. Infelizmente, a cultura ocidental deteriorou-se sob muitos aspectos, assumindo uma forma de gnosticismo: uma ideologia da separação entre corpo e alma, dualista e contrária à Encarnação. O gnosticismo é um falso espiritualismo que valoriza a alma ou a mente como o verdadeiro eu. Ele denigre o corpo, transformando-o em objeto, uma criação inferior, um estorvo para a alma, ou o trata como matéria bruta a ser manipulada à vontade.

Da perspectiva católica, os seres humanos não são almas que “possuem” corpos como se fossem objetos; pelo contrário, somos sujeitos com uma unidade entre corpo e alma. Pensar que “temos” um corpo pode nos levar a viver no mundo das ideias, desconectados do nosso corpo.  

A “identidade de gênero” é o exemplo mais óbvio da influência de conceitos gnósticos na nossa cultura. Algumas pessoas realmente acreditam que podem ter em sua mente uma “identidade de gênero” oposta ao sexo físico! É óbvio que essas pessoas sofrem e precisam de compaixão, mas a absurdidade da ideologia de gênero é um indício do quanto os seres humanos podemos nos dissociar da realidade do nosso corpo.

A tecnologia pode refletir e reforçar essas ideias gnósticas nocivas ao perpetuar a tendência de nos identificarmos de forma exagerada com a nossa mente. A internet possibilita a comunicação de longa distância em maior escala, o que leva à consequência involuntária de nos tirar de nosso ambiente imediato. Uma caminhada por um quarteirão qualquer numa cidade confirma essa observação. As pessoas estão tão absorvidas por seus smartphones, que ficam completamente alienadas do seu entorno e das outras pessoas. Muitas horas gastas com meios de comunicação em massa podem afetar profundamente a psique, criando o hábito de viver em um mundo exclusivamente mental e virtual, separado da realidade do corpo.  

Na Eucaristia, a nossa comunhão com Cristo encontra-se viciada pelo hábito de vivermos fechados em nossa mente, separados e dissociados do nosso corpo e do momento presente. Se não estamos presentes para nós em nosso corpo, como podemos estar presentes para o Corpo de Cristo na Eucaristia? Cristo está verdadeiramente presente, mas nós não. É como alguém que está tão ocupado e distraído, que cumprimenta outra pessoa sem olhá-la nos olhos. É um gesto de amizade vazio. Com paciência e persistência, Jesus fica à porta do nosso coração e bate, mas não há resposta porque ninguém está em casa. A pessoa está tão distraída e distante, que recebe o sacramento do Corpo e Sangue de Cristo como se fosse um pedaço de pão, e não uma pessoa viva.

No Catecismo da Igreja Católica, lemos o seguinte na seção que aborda o esforço na vida de oração: “A dificuldade habitual da nossa oração é a distração” (n. 2729). Essa falta de atenção na oração é um aspecto comum e normal na experiência humana. No entanto, quando a distração se aprofunda a ponto de virar dissociação, ficamos à beira de uma experiência de “desencarnação” que limita severamente a nossa capacidade de rezar e estar em comunhão com Deus e os outros.

Creio que precisamos trazer à luz a nossa colaboração inconsciente com ideias gnósticas. Por medo e orgulho, muitas vezes preferimos viver em nossa mente, não em nosso corpo. A mente pode nos dar ilusão de poder e controle. O corpo, fraco e limitado, faz-nos lembrar de uma realidade que muitos consideram desagradável e repugnante, para dizer o mínimo: somos seres mortais, contingentes, que a todo momento dependem por completo de Outro para permanecer na existência.  

No entanto, é somente através do nosso corpo, deficiente, fraco e mortal, que adoramos verdadeiramente e entramos em comunhão com Cristo em seu Corpo e Sangue. Cristo assumiu a natureza humana para que, por meio dela, pudéssemos entrar em comunhão com a sua divindade. E Ele, sendo Deus, abraçou a sua natureza humana com mais intensidade que nós! Não teve vergonha da pobreza nem da fraqueza humanas. Contudo, muitas vezes nos envergonhamos da nossa humanidade e desejamos desesperadamente libertar-nos dos limites e sofrimentos da condição humana. Mas dessa forma não podemos ter uma comunhão verdadeiramente física com Cristo.

Jesus é o nosso modelo para a adoração encarnada. Em sua Encarnação, quando veio ao mundo no seio de Maria, Ele disse ao Pai: “Mas me formaste um corpo [...]. Eis que venho para fazer a tua vontade” (Hb 10, 5.7).

Cristo não apenas se alegrou em fazer-se pequeno e indefeso como criança, mas também aceitou sofrer no próprio corpo uma dor incompreensível durante a Paixão. Poderia ter escolhido separar-se do corpo por um êxtase, graça dada a alguns mártires que foram milagrosamente poupados da violência de seus sofrimentos. Mas Cristo recusou beber vinho misturado com mirra, um tipo de analgésico, porque preferiu passar pela agonia plena da Paixão, a fim de esvaziar o cálice do seu sofrimento até os últimos resíduos amargos.  

Acima de tudo, surpreende-nos que Cristo tenha ressuscitado, retomando um corpo humano. Ele não ressuscitou como puro espírito, abandonando o corpo físico. Ascendeu aos céus com o mesmo corpo. Está agora sentado à direita do Pai com este corpo. Com este mesmo corpo humano glorificado Ele vive e reina para todo o sempre. 

E nós somos curados por sua Encarnação, Morte e Ressurreição. Por meio da “associação” permanente e irrevogável a seu próprio corpo, Cristo regenera a dissociação que tantas vezes experimentamos no nosso. Por meio da sua existência e adoração encarnadas, Ele nos torna capazes de abraçar amorosamente a nossa natureza humana e adorá-lo de modo reverente com todo o nosso ser. Pela nossa participação plena, ativa, consciente e corpórea na Missa, podemos experimentar a Eucaristia de forma mais profunda como fonte e ápice da nossa fé. Assim, estaremos capacitados para anunciar o Evangelho em nossa cultura secular. Nas palavras de São Paulo, espalharemos o “bom odor” de Cristo, afastando o ar envenenado das falácias gnósticas.

Notas

  1. Este texto sublinha especialmente a importância da corporalidade para a fé cristã; mas vale a pena destacar que o gnosticismo é mais do que desprezo do corpo, e nem todo desprezo do corpo é, só por isso, uma forma “derivada” de gnosticismo. Na verdade, a desvalorização do corpo, a perda de seu sentido sacro etc., é um traço mais ou menos comum às culturas pagãs, tenham ou não elementos gnósticos (Nota da Equipe CNP).

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O que fazer com meu santinho quebrado?
Espiritualidade

O que fazer
com meu santinho quebrado?

O que fazer com meu santinho quebrado?

Uma vez benzidos e destinados ao culto divino ou à veneração, os objetos sagrados devem ser tratados com reverência, não podendo ser usados de maneira imprópria ou profana. Como proceder, então, quando eles quebram ou se desgastam pelo uso?

Pe. William SaundersTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 2 minutos
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“O que devo fazer com o meu velho ramo bento? E com minhas imagens e rosários bentos? Já que foram benzidos, tenho certeza de que não devo simplesmente jogá-los no lixo. Existe alguma orientação sobre isso?”

Como católicos, estamos acostumados a possuir objetos “benzidos”. Nesse caso, um bispo ou um padre confere uma bênção que significa a santificação e consagração permanentes de um objeto a alguma finalidade sagrada. Essa bênção recebe o nome técnico de “bênção constitutiva”. Por exemplo, quando um bispo dedica ou, em terminologia clássica, consagra um altar, o altar deve ser usado apenas para fins sagrados: particularmente, para o oferecimento da Missa. Ou, quando um cálice é benzido, ele se torna um vaso sagrado, destinado unicamente ao uso sagrado. Uma vez que o objeto religioso foi benzido e destinado ao culto divino ou à veneração, ele deve ser tratado com reverência e não pode ser usados de maneira imprópria ou profana (cf. Código de Direito Canônico, Cân. 1171).

No entanto, objetos religiosos abençoados quebram e se desgastam pelo uso. A regra básica para desfazer-se deles é queimá-los ou enterrá-los [1]. Durante o séc. XIX, tanto a Sagrada Congregação dos Ritos quanto o Santo Ofício (hoje chamados, respectivamente, de Sagrada Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos e Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé) emitiram várias determinações a esse respeito. Eis aqui alguns exemplos: um cálice que se torna “inservível” não deve ser vendido, mas usado para algum outro fim sagrado ou derretido; vestes, paramentos e alfaias devem ser destruídos; água benta suja ou em excesso deve ser despejada na terra. Os ramos devem ser queimados e suas cinzas, distribuídas na Quarta-feira de Cinzas ou lançadas na terra; um rosário quebrado ou uma estátua religiosa devem, normalmente, ser queimadas etc. Em resumo, a ideia de fundo é que o que foi dedicado a Deus deveria voltar para Deus. Nunca deveríamos “jogar fora” o que foi consagrado a Deus.

Curiosamente, esse mesmo critério se aplica ao descarte da Santa Eucaristia. Em cada sacristia há um sumidouro (sacrarium), que é uma pia conectada não com o sistema de esgoto, mas diretamente com a terra. Se, por algum motivo, o sacerdote tiver de descartar uma Hóstia sagrada, ele deverá dissolvê-la completamente na água e deixá-la escoar pelo encanamento do sumidouro. Aliás, estava eu certa vez a distribuir a Santa Comunhão num asilo, e uma das velhinhas queria recebê-la como de costume, mas, por alguma razão, não conseguia engoli-la. Ela então expeliu a Hóstia sagrada no purificatório. Quando voltei à sacristia, entornei pelo sumidouro a Hóstia sagrada, já dissolvida na água [2].

Por vivermos numa sociedade em que tudo se tornou tão descartável, não podemos esquecer os objetos religiosos que foram benzidos e dedicados a Deus e a um uso sagrado. Meu coração se parte toda vez que entro numa loja de antiguidades e vejo um cálice, um relicário (às vezes, ainda com relíquias), vestes e outros objetos sagrados que, alguma vez, foram utilizados na Santa Missa. Eu me pergunto: “O que estaria pensando o sujeito para desfazer-se disso de tal maneira?” Ele deveria ter buscado para esses objetos religiosos um novo lar em alguma igreja, ou tê-los descartado da forma correta. 

Por favor, guarde sempre com cuidado os seus objetos religiosos em casa, venere-os com piedade e, se necessário, desfaça-se deles corretamente.

Notas

  1. Supondo-se, é claro, que a quebra ou o desgaste tenham tornado o objeto absolutamente impróprio para uso, sem que seja possível sequer restaurá-lo (no caso de uma estátua que se desfez em inúmeros pedaços, por exemplo).
  2. Recorde-se, a propósito, o que prescreve a Instrução Geral do Missal Romano, n. 280: “Se cair no chão alguma hóstia ou partícula, recolhe-se reverentemente. Se acaso se derramar o Sangue do Senhor, lava-se com água o sítio em que tenha caído e deita-se depois essa água no sumidouro colocado na sacristia” (ambas as notas são da Equipe CNP).

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Uma paráfrase do Pai-nosso e da Ave-Maria
Oração

Uma paráfrase
do Pai-nosso e da Ave-Maria

Uma paráfrase do Pai-nosso e da Ave-Maria

“Visto que a Oração Dominical é o mais perfeito exemplo de todas as orações, por conter tudo quanto Deus quer que lhe peçamos, e também por sua dignidade, pois Cristo mesmo no-la ensinou… vale a pena apresentá-la aqui ao modo de paráfrase.”

Wilhelm NakatenusTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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As paráfrases abaixo, do Pai-nosso e da Ave-Maria, assim como as orações, são para ser rezadas. Foram extraídas de uma antiga coletânea de preces devocionais, chamada Coeleste palmetum, e traduzidas diretamente do latim por nossa equipe. A introdução da obra original a esses pequenos comentários diz o seguinte: “Visto que a Oração Dominical é o mais perfeito exemplo de todas as orações, por conter tudo quanto Deus quer que lhe peçamos, e também por sua dignidade, pois Cristo mesmo no-la ensinou… vale a pena apresentá-la aqui ao modo de paráfrase.”

No mais, os complementos feitos a seguir às petições dominicais e à Saudação Angélica ajudam-nos a entendê-las e rezá-las melhor. Daí a oportunidade de publicá-los.


Paráfrase do Pai-nosso
(Coeleste palmetum, pp. 374–376)

Prefácio

Pai nosso amantíssimo, que por vossa bondade nos criastes do nada à vossa imagem e semelhança e, uma vez caídos, salvastes da condenação eterna por vosso Unigênito, e vos dignastes adotar-nos como filhos, protegendo-nos até este dia com afeto mais do que paternal. Oxalá, Pai, vos amemos e adoremos de tal modo, que mereçamos ser chamados verdadeiros filhos vossos.

Que estais nos céus em glória e grandeza, onde milhares e milhares de anjos vos servem, e dezenas de milhares vos assistem. Mas nós, degradados filhos vossos, vagamos errantes neste vale de lágrimas, e a vós clamamos gemendo e chorando. Eia pois, Pai nosso, que estais nos céus, ouvi clemente os votos e desejos dos vossos filhos, e elevai a vós os nossos corações, para que sejamos, ao vosso lado, cidadãos dos céus.

Petições

1. Santificado (que é o que mais desejamos) seja o vosso nome em nós, que em si mesmo é santo e glorioso, e dai-nos a graça de, em todo lugar e a todo o momento, o reconhecermos, venerarmos e celebrarmos, pois desde o nascente até o poente é digno de louvor o nome do Senhor.

2. Venha aos nossos corações e almas o vosso reino, lançados para longe deles a carne, o mundo e o diabo. Este vosso reino é o reino da graça, pelo qual anelamos chegar ao reino da vossa glória.

3. Seja feita a vossa vontade, pois nada mais santo, nada mais desejável se pode pedir, assim na terra entre os homens, com perfeitíssima resignação na adversidade e na prosperidade, na tristeza e na alegria, como no céu entre os anjos, com a suma felicidade e bem-aventurança.

4. O pão nosso de cada dia, não só aquele com que se alimenta o corpo, mas também aquele com que se dá refeição à alma, isto é, a vossa Palavra vivificante e o Pão dos anjos, nos dai hoje. Olhai, Pai, para a pobreza dos vossos filhos, e que não passemos um só dia com fome deste pão.

5. Perdoai-nos, benigníssimo Pai, as nossas imensas dívidas, contraídas com nossos muitos e gravíssimos pecados e negligências, que criatura nenhuma pode satisfazer. Por isso, imploramos suplicantes a vossa infinita misericórdia pela remissão deles, a fim de que no-los perdoeis assim como nós, por vosso amor, perdoamos aos nossos devedores, pelos quais alguma vez já fomos agravados. Abrandai, ó clementíssimo Pai, a relutante dureza e aspereza do nosso coração, para que todos estejamos intimamente unidos no Santo Espírito do vosso amor.

6. E não nos deixeis a nós, vasos frágeis, cair em tentação, à qual facilmente sucumbiríamos. A carne seduz, o mundo provoca, o diabo assalta: de vós, ó Pai, nos tentam arrebatar. Só vós sois o nosso refúgio e fortaleza; não permitais, vo-lo suplico, que sejamos tentados acima de nossas forças.

7. Mas livrai-nos do mal, dos de alma e de corpo, quase inumeráveis. Livrai-nos sobretudo do mal de culpa, que vos ofende a vós, nosso Deus e sumo Bem. Livrai-nos também (se assim o exigir a vossa glória e a nossa salvação) do mal de pena: da tristeza, da desonra, da guerra, da fome, da doença, da penúria e de tudo o que merecemos por nossos pecados; e associai-nos enfim àqueles que, no Céu, gozam eternamente de vós, sumo Bem. Afora vós, Deus do meu coração, que há para mim no Céu? Se vos possuo, meu Deus, nada mais me atrai na terra. Vós sois minha herança para sempre!

Amém, isto é, faça-se, ó Pai, o que pedimos, por vossas entranhas de misericórdia, pelos méritos do vosso Filho e pelo amor do Espírito Santo.

Paráfrase da Ave-Maria
(Coeleste palmetum, pp. 376–377)

1. Ave, alegrai-vos e rejubilai, ó Rainha do Céu e Senhora da terra, Maria. Ó gozoso e tão esperado Ave, pelo qual se inverteu o nome de Eva: ela introduziu no mundo maldição e morte; o vosso Ave, ó Maria, bênção e vida eterna.

2. Cheia de graça, sobre a qual se derramou todo um imenso mar de graças. Ó afluência de graça, que aos céus destes glória; à terra, Deus, aos homens, a salvação. Fazei, ó Mãe da graça, que a abundância da vossa graça redunde em meu coração.

3. O Senhor é convosco, como nunca esteve com homem ou anjo algum. O Pai dos céus é convosco, que fez ser vosso o próprio Filho. O Filho é convosco, que uniu a si com vínculo eterno a vossa carne virginal. O Espírito Santo é convosco, que com o Pai e o Filho santificou o vosso ventre. Por vossa intercessão, ó Maria, rogai ao mesmo Senhor que esteja comigo.

4. Bendita sois vós entre as mulheres, que fostes eximida da maldição das mulheres: sendo Virgem concebestes, e sem dor destes à luz. Ó Mãe do gênero humano, destes a salvação ao mundo: se Eva foi autora do pecado, vós, ó Maria, sois autora do mérito. Eva, matando, foi causa de ruína; vós, dando vida, fostes causa de saúde; ela feriu, vós curastes. Rogo-vos suplicante, ó bendita entre as mulheres, que me façais partícipe da vossa bênção.

5. E bendito é o fruto do vosso ventre, que é a fonte de toda bênção. Ó Virgem bendita! quem poderá louvar e agradecer-vos dignamente os vossos méritos, vós, que fizestes nascer ao mundo aquele em que são abençoados todos os povos? Que a abundância da vossa bondade escuse e supra os defeitos da nossa devoção. Fazei antes de tudo, ó Mãe da graça, ó Genitora da vida, ó Mãe da salvação, que aquele que por vós quis participar da nossa carne e miséria, também por vós nos faça participar agora de sua bênção e, no futuro, de sua glória, Jesus Cristo, vosso Filho e Senhor Nosso, que com o Pai e o Espírito Santo vive e reina.

6. Santa Maria, etc [1].

Notas

  1. O original latino propõe uma paráfrase à “Saudação Angélica”, isto é, apenas à primeira parte da oração da Ave-Maria. Quanto à sua segunda parte (“Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores…”), vale lembrar que seu acréscimo é, historicamente, bem posterior: tratava-se de uma súplica mariana rezada na oração litúrgica das Completas. Mais sobre a origem e o significado dessa antiquíssima prece: cf. Ao vivo com Pe. Paulo, n. 99: A Oração da Ave-Maria.

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