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O que ouviremos de Jesus se nos condenarmos?
Espiritualidade

O que ouviremos
de Jesus se nos condenarmos?

O que ouviremos de Jesus se nos condenarmos?

Porque escolheste antes estar para sempre sem mim no inferno, que comigo no céu; tua é, e não minha, a sentença que logo ouvirás com os outros mal-aventurados: “Ide, malditos, para o fogo eterno”.

Pe. António Vieira4 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 5 minutos
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Quid est quod debui ultra facere vineae meae, et non feci ei? “Que mais poderia eu ter feito pela minha vinha que não lhe tenha feito?” (Is 5, 4) Que coisa há, que eu devesse fazer-te, ó homem, ou devesse fazer por ti, que não tenha feito? De nada te era devedor, e como se o fora, de quanto tenho, de quanto posso, e de quanto sou, tudo empreguei e despendi contigo. Criei-te quando não eras, tirando-te dos abismos do não ser ao ser; dei-te um corpo formado com minhas mãos, o mais perfeito; dei-te uma alma tirada de minhas entranhas, e feita à imagem e semelhança; ornei, e habilitei um e outro, com as mais excelentes potências, e os mais nobres sentidos, para que fossem os instrumentos com que me servisses e amasses; e tu, ingrato, que fizeste? 

Dá conta dos cuidados, pensamentos e máquinas do teu entendimento; das lembranças e esquecimentos da tua memória; dos desejos e afeições da tua vontade. Dá conta de todos os passos de teus pés, de todas as obras de tuas mãos, de todas as vistas dos teus olhos, de todas as atenções dos teus ouvidos, de todas as palavras de tua língua, e de tudo mais que tu sabes, e não cabe em palavras. Depois de criado, que seria de ti, se eu com o mesmo poder e providência te não conservara? De repente perderias o ser e tornarias ao nada donde saíste. Para tua conservação, te dei não só o necessário, senão o superabundante, e tanta imensidade de criaturas no céu e na terra, todas sujeitas a ti, e ocupadas em teu serviço. 

Dei-te um anjo, que de dia e de noite, velando e dormindo, te assistisse e guardasse, como sempre assistiu e guardou. Agora te revelo os perigos secretos e ocultos, de que foste livre por seu meio; e tu lembra-te dos públicos e manifestos, que experimentaste e viste. Quantos pereceram em outros muito menores? Quantos mais moços que tu acabaram de mortes desastradas e repentinas, sem tempo, nem lugar de arrependimento e emenda, que eu sempre te concedi? Dá, pois, conta da vida, dá conta da saúde, dá conta dos anos, dá conta dos dias, dá conta das horas, sendo mui poucas, e contadas as que não empregaste em me ofender. 

Até agora te referi as dívidas exteriores do poder; agora me responderás às interiores e pessoais do amor, e do muito que fiz e padeci por ti. Por ti depois de te fazer à minha imagem e semelhança, me fiz à tua, fazendo-me homem; por ti nasci nos desamparos de um presépio; por ti fui desterrado ao Egito; por ti vivi trinta anos sujeito à obediência de um oficial, ajudando o trabalho de suas mãos com as minhas, e acompanhando o suor do seu rosto com o meu; por ti, e para ti, saí ao mundo a pregar o reino do céu; por ti nas peregrinações de toda a Judéia e Galiléia, sempre a pé, e muitas vezes descalço, padeci fomes, sedes, pobrezas, sem ter lugar de descanso, nem onde reclinar a cabeça, por ti recebi ingratidões por benefícios, ódios por amor, perseguições por boas obras; por ti suei sangue; por ti fui preso; por ti fui afrontado; por ti esbofeteado; por ti cuspido; por ti açoitado; por ti escarnecido; por ti coroado de espinhos; por ti, enfim, crucificado entre ladrões, aberto em quatro fontes de sangue, atormentado e afligido de angústias e agonias mortais, e ainda depois de morto, atravessado o coração com uma lança. 

De tudo isto pedi por ti perdão a Deus, e o pago que tu me deste foi não me perdoar tornando-me a crucificar tantas vezes, quantas gravemente pecaste, como te mandei declarar pelo meu apóstolo: Rursum crucifigentes Filium Dei, “crucificando novamente o Filho de Deus” (Hb 6, 6). Se as gotas de sangue que derramei por ti, tiveram conta, nem de uma só me pudera dar boa conta, ainda que padeceras por mim mil mortes; mas os milhares e os milhões foram das vezes que pisaste o mesmo sangue, sacrificando o infinito valor e merecimento dele, aos ídolos do teu apetite

Ainda em certo modo a maior dívida, a de que agora te pedirei conta é a da vocação. Reservei o saíres à luz deste mundo para o tempo da lei da graça; chamei-te à fé antes de me poderes ouvir, antecipou-se o meu amor ao teu uso da razão, e fiz-te meu amigo pelo batismo. Com o leite e doutrina da Igreja, te dei o verdadeiro conhecimento de mim, benefício que por meus justos juízos em quatro e cinco mil anos não concedi a tantos, e de que ainda nos teus dias careceram muitos. Não tiveste juízo, nem consideração, para ponderar e pasmar, de que tendo a minha justiça razões para condenar um gentio que me não conheceu, as tivesse minha misericórdia para perdoar a um cristão, que conhecendo-me, tanto me ofendia

Perdida a graça da primeira vocação, caíste, e tornei-te a chamar, e dar a mão, para que te levantasses; levantado tornaste a reincidir uma e tantas vezes, e eu, posto que tão repetidamente ofendido, e com tão continuadas experiências da pouca firmeza de teus propósitos, e falsidade de tuas promessas, não cessei de te oferecer de novo meus braços, e te receber sempre com eles abertos; até que infiel, rebelde, e obstinado, cerrando totalmente os ouvidos a minhas vozes, te deixaste jazer no profundo letargo da impenitência final. Dá agora conta de tantas inspirações interiores minhas, de tantos conselhos dos confessores e amigos, de tantas vozes e ameaças dos pregadores, que ou não querias ouvir, ou ouvias por curiosidade e cerimônia; e também ta pudera pedir, de eu mesmo te não chamar eficazmente na hora da morte, porque o desmereceste na vida.

Sete fontes de graça deixei na minha Igreja (que é o benefício da justificação) para que nelas se lavassem as almas de seus pecados, e com elas se regassem e crescessem nas virtudes. Em uma te facilitei em tal forma o remédio para todas as culpas, que só com as confessar te prometi o perdão, que tu não quiseste aceitar, fugindo da benignidade daquele sacramento como rigoroso, e amando mais as mesmas culpas, que estimando o perdão. Em outra te dei a comer minha carne e a beber meu sangue, e juntamente os tesouros infinitos de toda a minha divindade, em penhor da glória e bem-aventurança eterna, que foi o altíssimo fim para que te criei. 

Desprezaste o fim, não quiseste usar dos meios; e porque escolheste antes estar para sempre sem mim no inferno, que comigo no céu; tua é, e não minha, a sentença que logo ouvirás com os outros mal-aventurados: Ite maledicti in ignem aeternum, “Ide, malditos, para o fogo eterno”.

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Onde puseram o Menino Jesus?
Espiritualidade

Onde puseram o Menino Jesus?

Onde puseram o Menino Jesus?

Antes que comece o Natal, e as trocas de presentes em família, antes que todos comecem a fazer festa, permitam-nos apregoar em voz alta, permitam-nos colar cartazes com “procura-se”, permitam-nos denunciar: roubaram o Menino Jesus!

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 4 minutos
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Antes que comece o Natal, e as trocas de presentes em família, antes que todos comecem a fazer festa, permitam-nos apregoar em voz alta, permitam-nos colar cartazes com “procura-se”, permitam-nos denunciar que roubaram o Menino Jesus!

Gostaríamos muito que se tratasse apenas de uma anedota, como no tal Natal de Ângela, em que uma mocinha “rouba” de uma igreja a imagem do Divino Infante só porque achava, em sua inocência, que o menino estava com frio e precisava agasalhar-se. Mas não... Estamos diante de um roubo criminoso, sem arrependimento e intenção alguma de restituição. Roubaram o Menino Jesus e, poderíamos dizer com o Evangelho, “não sabemos onde o puseram” (Jo 20, 2).

Roubaram o Menino Jesus do ambiente público, no qual Ele sempre teve lugar de destaque, especialmente nesta época do ano. Os enfeites natalinos nas praças, comércios e repartições públicas incluem Papais Noéis, renas voadoras, árvores decoradas, mas o presépio cristão está cada vez mais difícil de encontrar. Em muitos lugares, especialmente na Europa, hoje tomada por muçulmanos, os termos natalinos cristãos são banidos em nome da tolerância e do respeito às outras religiões. O “Feliz Natal” de sempre há muito que se converteu em um vago e laico “Boas Festas” (ou Férias). O acontecimento histórico que deu origem à celebração foi reduzido a um artigo de fé meramente privada, de forma que, se uma pessoa quiser passar essa época do ano sem ouvir uma única vez o nome de Jesus (dependendo, é claro, dos ambientes que ela frequenta ou deixa de frequentar), o certo é que não terá muitas dificuldades em fazê-lo.

Roubaram o Menino Jesus do seio de nossas famílias trocando orações, novenas e idas à Missa por começões, bebedeiras e visitas ao shopping. O Natal se converteu quase que literalmente em uma “magia”: é preciso rir ainda que não se saiba por quê, é preciso festejar ainda que não se saiba o quê, é preciso seguir em frente ainda que não se saiba para onde. Pois foi roubado o Único que poderia dar real sentido à celebração, e verdadeira felicidade aos que celebram.

Roubaram o Menino Jesus de nossas casas, onde Ele deveria ocupar uma posição toda especial, ensinando às crianças que Deus, dois mil anos atrás, escolheu descer à baixeza e inocência delas. 

Mas que crianças, se também elas foram roubadas dos lares, antes mesmo de serem concebidas, trocadas pelas mais novas tecnologias do momento, pelo último lançamento de um carro e pelas viagens anuais à praia? Que crianças, se as famílias modernas decidiram não as ter e, se as tiveram, já cuidaram de sacrificá-las impiedosamente ao mundo, deixando que consumissem tudo o que ele lhes oferece, e que lhes fosse roubada desde cedo justamente a inocência que fazia delas crianças? Se todas as vezes que alguém recebesse uma criança, receberia o próprio Senhor, como Ele mesmo declarou (cf. Mt 18, 5), não é verdade que nossa aversão aos filhos é também uma aversão ao próprio Jesus? Que a recusa dos casais em serem fecundos impede que o próprio Menino Jesus nasça em suas casas?

Roubaram o Menino Jesus também de nossas igrejas, e isso nunca se poderá deplorar o suficiente. Primeiro, tiraram-no dos cibórios para o atirarem ao chão, porque não trataram com zelo o Santíssimo Sacramento. Depois, substituíram a celebração do Deus que se fez criança para nossa salvação por uma celebração grotesca do próprio “eu”. Nossas liturgias estão cada vez mais voltadas para o homem e menos centradas nEle. As pessoas sequer sabem direito o que estão fazendo na Missa, perdidas em meio aos teatros, às dancinhas e às músicas cada vez mais barulhentas dos “ministérios”, às criatividades cada vez mais absurdas dos celebrantes e às palmas cada vez mais efusivas do “auditório”. O padre fala com o povo, o povo fala com o padre, mas com Deus mesmo ninguém fala.

Roubaram o Menino Jesus, isso é triste; roubaram-no, mas ninguém se deu conta, e isso é pior ainda.

Repetimos acima a frase de Santa Maria Madalena, que não sabia onde haviam colocado o Senhor, mas agora não é o caso: nós sabemos onde o Menino Jesus está. A doutrina católica diz que, numa alma que crê e está em estado de graça, habita a Santíssima Trindade como um amigo. Pela fé, portanto, sabemos onde se esconde o Deus menino: Ele se encontra em toda alma que procura amá-lo e cumprir com os seus mandamentos. 

Talvez seja ao redor dessas almas que devamos celebrar o nosso Natal, ao redor de amigos que buscam a Deus. Mas se, infelizmente, as circunstâncias fazem com que nossas famílias, com quem passaremos esses dias, ainda estejam distantes de Cristo, que nossas conversas e nosso modo de viver possam despertar em seus corações a ânsia de procurar pelo Menino que há tanto tempo foi roubado de seus corações… sem que eles sequer lhe tenham notado a ausência.

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Quando foi que deixamos de fazer amigos?
Sociedade

Quando foi que
deixamos de fazer amigos?

Quando foi que deixamos de fazer amigos?

Enquanto as pessoas passam a vida na tela dos aparelhos eletrônicos, as instituições culturais desmoronam. Há quem atribua esse fenômeno à expansão da tecnologia, da grande mídia e da má educação. Mas a verdadeira raiz de tudo é a perda dos laços de amizade.

Auguste MeyratTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Novembro de 2019Tempo de leitura: 6 minutos
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É coisa óbvia hoje em dia que praticamente todas as instituições culturais estão desmoronando. É menor o número de pessoas que participam de organizações locais, clubes, igrejas, e maior o das que passam a maior parte do tempo conectadas. Entre as gerações mais jovens, esse fenômeno é ainda mais acentuado: é muito maior o número dos que buscam seus quinze minutos de fama no YouTube do que o de jovens que procuram fazer a diferença em sua comunidade. Alguns podem atribuir esse crescimento à expansão da tecnologia, da grande mídia e da má educação, mas a verdadeira raiz de tudo isso é a perda dos laços de amizade

De acordo com uma pesquisa recente da OnePoll, o americano médio tem feito menos amigos. Outras pesquisas revelam uma crescente “epidemia de solidão”, que faz com que as pessoas tenham menos contato umas com as outras e quase nenhum relacionamento relevante. Essas descobertas sugerem, em conjunto, que a maioria das pessoas prefere se isolar e que sua comunicação é essencialmente superficial e sem sentido

A típica resposta católica a esse fenômeno tem sido estimular tentativas de aproximação e a promoção do pastoralismo. No contexto paroquial, isso se traduz em mais refeições comunitárias, festas sazonais, estudos bíblicos, conferências para homens e mulheres, retiros para jovens e outros eventos sociais cujo objetivo é fomentar a interação entre os paroquianos e atrair visitantes. No contexto global, isso equivale à flexibilização de padrões, à suavização de definições doutrinais da Igreja e à realização de mais sínodos.

Como até os católicos otimistas podem confirmar, essas iniciativas tendem a ser insuficientes. Embora eventos sociais na paróquia sejam úteis a curto prazo, fazem pouca diferença a longo prazo. O mesmo pequeno grupo de pessoas organiza esses eventos e programas ano após ano, mas, como sempre, a grande maioria das pessoas não se compromete. As tentativas de lideranças eclesiais de “abrir” a Igreja e “caminhar” com as pessoas em sua jornada de fé podem angariar a simpatia da mídia secular e dos católicos liberais, mas, na realidade, têm afastado mais do que atraído os católicos.

Isso acontece porque afabilidade não é o mesmo que amizade, diferença ignorada e negligenciada por organizações que implementam soluções superficiais para problemas profundos.

A amizade é definida pela Sagrada Escritura e pela filosofia clássica como um relacionamento íntimo entre duas pessoas que desejam o bem uma da outra. O vínculo entre verdadeiros amigos transcende as circunstâncias, e os dois lados se envolvem ativa e igualmente. No Evangelho, Cristo chama seus discípulos de “amigos” em lugar de “servos”: são semelhantes (no contexto de seu relacionamento) que trabalham em prol do mesmo ideal e estariam dispostos a abrir mão de tudo pelo bem uns dos outros.

É importante observar que nada nessa amizade é imediatamente útil ou conveniente. Os discípulos não são colegas de classe, de trabalho ou membros da mesma tribo cujos caminhos simplesmente se entrecruzam em determinado momento. Na verdade, uma das condições para a existência dessa amizade é a superação desses rótulos. Se a amizade fosse fundamentada em qualquer coisa inferior a isso, como é o caso de muitas delas, seria antes um exemplo de coleguismo, isto é, algo dependente de uma situação externa. 

Algumas pessoas podem experimentar a verdadeira amizade, mas não é o caso da maioria. Ao contrário, elas fazem e desfazem ao longo da vida muitas supostas amizades. O contexto (escola, trabalho etc.) exigia tais “amizades” e, tão logo passavam por ele, os amigos desapareciam. Compreende-se que a perda de amigos e do círculo social é uma experiência comum para adultos que estão na casa dos vinte e estão saindo da faculdade ou de casa. 

Na verdade, amizades são ativas e requerem tempo e esforço. Entre outras coisas, amigos devem estar dispostos a falar, escutar, planejar, acolher, visitar, aprender, confiar e ser confiáveis. Uma pessoa vaidosa, egoísta, impaciente, temperamental ou desonesta jamais fará amigos. Em contrapartida, uma pessoa humilde, equilibrada, aberta, justa e honesta (para ter uma referência, leiam-se as bem-aventuranças) terá amizades sólidas e gratificantes.

Neste momento, vale a pena sublinhar a diferença entre ser popular e ter amigos. Não são expressões de modo algum sinônimas, mas na cultura de hoje recebem o mesmo tratamento. Uma pessoa popular tem “seguidores”: pessoas que podem gostar dela, mas não a conhecem realmente nem interagem com ela. O que mantém unidos esses seguidores é uma agenda comum ou uma preferência em comum. Como diz a escritora de comédias Keri Smith num artigo sobre a cultura do cancelamento, a pessoa popular “não tem amigos, tem aliados”. Quando alguém se desvia, o vínculo é prontamente dissolvido.

No entanto, uma pessoa com amigos é alguém entre iguais. Um grupo de amigos é necessariamente pequeno, já que conhecer verdadeiramente outra pessoa requer tempo e esforço, que são bens limitados. O que importa é a pessoa, não sua agenda política ou suas preferências. Fé e moralidade comuns podem aprimorar uma amizade, mas ela ainda é possível sem ambas. Com o passar do tempo, um verdadeiro amigo aprende a amar o pecador e a odiar o pecado; um aliado ou seguidor faz o oposto ou nenhuma dessas coisas.

A amizade é para a Igreja um bem indiscutível e algo que tanto o clero como o laicato devem fomentar juntos. Para sacerdotes e bispos, trata-se de pregar sobre o tema e mostrar o vínculo entre as exigências da amizade e as do discipulado cristão. Nenhum católico deveria se sentir confortável em rejeitar uma amizade por preguiça ou medo. Tampouco se deveria terceirizar para organizações seculares o convívio social relevante.

Para os leigos, fazer amizade significa primeiro remover as barreiras que a desestimulam. Para a maioria das pessoas, e eu me incluo nesse grupo, significa deixar de lado os aparelhos eletrônicos, pois eles não apenas tiram nosso tempo como também enfraquecem o desejo de fazer amigos. Muitas vezes a gratificação instantânea do entretenimento digital aniquila a gratificação tardia que vem do cultivo de uma amizade.

Tão logo haja tempo disponível, temos de nos esforçar para socializar. Como argumenta a escritora católica Leah Libresco em seu livro Building the Benedict Option [‘Construindo a Opção Beneditina’], esse passo é fundamental para a construção de uma comunidade católica autêntica. Em espírito de amizade, os católicos deveriam organizar noites de jogos, formar clubes de ensaios (uma alternativa mais fácil do que clubes de livros) e oferecer jantares. As primeiras tentativas serão um pouco forçadas e nem sempre correspondidas, mas de modo geral, com tempo e persistência, os relacionamentos se tornarão melhores.

Além disso, esses planos deveriam começar com as pessoas mais próximas: familiares, colegas de trabalho e escola e membros da paróquia. Embora proximidade e responsabilidades compartilhadas não sejam o único fundamento de uma amizade, podem e deveriam facilitá-la. A caridade telescópica (amor aos estranhos distantes mais do que aos familiares próximos) ficou mais popular depois da globalização, mas para os cristãos é tão hipócrita e prejudicial hoje quanto na época em que Charles Dickens escreveu sobre ela. 

Quando amizades sólidas são constituídas, sua bondade inevitavelmente se irradia para a comunidade. Muitos evangelizadores progressistas não compreendem que as pessoas que estão fora da Igreja são atraídas por amizades verdadeiras, não por uma lábia de vendedor ou por constantes afirmações feitas do alto do púlpito. As pessoas se sentem atraídas por famílias que comem juntas, homens que bebem juntos, mães que organizam dias para seus filhos brincarem juntos e crianças que brincam juntas. Por isso, em diversas ocasiões, Santo Agostinho exalta as bênçãos da amizade, reconhecendo-a como caminho para a santidade e fonte de rejuvenescimento para uma Igreja moribunda.

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Carlo Acutis e o mistério da iniquidade
Sociedade

Carlo Acutis e o mistério da iniquidade

Carlo Acutis e o mistério da iniquidade

Há alguns dias, o Vaticano confirmou como verdadeiro um milagre atribuído à intercessão do jovem Carlo Acutis. Mas e nós, será que ainda acreditamos em milagres e na onipotência divina? Ou já sucumbimos ao espírito iníquo dos tempos modernos?

Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Novembro de 2019Tempo de leitura: 6 minutos
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“As coisas misteriosas”, dizia René Chateaubriand, “são o que há de mais belo, grandioso, e doce na existência” [1]. Para provar seu pensamento, o autor de O Gênio do Cristianismo demonstrava como é grata a vida das crianças, que, tudo ignorando, são capazes de espantar-se com a mínima flor no jardim de casa, enquanto os adultos — que tudo sabem — lamentam a própria velhice e só voltam a admirar-se quando “principiam os mistérios da morte”.

Felizmente, as almas religiosas têm a graça da “infância espiritual” que as mantém abertas ao mistério. Diferentemente dos incrédulos, elas não exigem explicações “meticulosas” e “científicas” para tudo e qualquer coisa, mas se dão por satisfeitas quando a razão humana encontra o próprio limite. Porque, de fato, existe algo para além da sabedoria dos homens, e é esse algo que torna a nossa vida mais interessante e digna de ser vivida.

Vejamos um exemplo. No último dia 14 de novembro, a Comissão Médica do Vaticano, formada por profissionais altamente especializados, reconheceu o presumido milagre atribuído à intercessão do jovem italiano Carlo Acutis. Segundo o parecer da comissão, não há explicações médicas para a cura do menino Matheus Viana, que sofria de uma grave doença neonatal. Com dois anos de idade, ele havia sido diagnosticado com pâncreas anular, e, por conta disso, precisaria passar por uma cirurgia. A doença o fazia vomitar frequentemente, de modo que o seu organismo foi enfraquecendo e, com efeito, a cirurgia seria um procedimento demasiado arriscado. Sendo assim, a família resolveu recorrer à intercessão de Carlo Acutis.

Em 12 de outubro de 2010, Matheus e sua família foram à Missa de Nossa Senhora Aparecida, na Paróquia São Sebastião, em Campo Grande (MS), onde residem. Durante a celebração, o pároco, Pe. Marcelo Tenório, abençoou a todos com a relíquia de Carlo Acutis, e Matheus pediu a graça de não mais vomitar. Certo de que já estava curado, o menino voltou para casa pedindo aos avós um jantar com bife e batatas fritas. E a cura realmente aconteceu, como confirmaram os laudos médicos, pedidos posteriormente pela família. Hoje Matheus está saudável e é um fervoroso devoto de Carlo Acutis.

A página oficial do apostolado brasileiro de Carlo Acutis ainda relata outros milagres. Para uma alma verdadeiramente católica, esses prodígios são, como recordávamos no início deste artigo, belos, grandiosos e doces, ou seja, são motivo de ação de graças à Providência divina, que se dispôs a agir contra o curso natural da natureza para misteriosamente revelar a sua misericórdia e soberania. Esgotadas as possibilidades de explicações pelas causas segundas, o católico não hesita em prestar o obséquio da fé, diante dos argumentos externos dAquele que é a causa primeira de todo o ser.

Sem dúvida, um católico não deve ser ingênuo ao ponto de sair acreditando em qualquer fato aparentemente extraordinário, e é por isso que, desde a Idade Média, a Igreja tem recorrido a médicos especialistas para certificar a existência ou não de um milagre. Se a fé pede a razão, nada mais prudente que submeter os efeitos às causas. Mas a partir do momento em que a razão se encontra diante do mistério, então é ela que deve pedir a fé para crer nas palavras inequívocas de Nosso Senhor: “Aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas, porque vou para junto do Pai” (Jo 14, 12).

A Igreja precisa, pois, anunciar a vitalidade do Corpo de Cristo, mostrar o seu poder e celebrar alegremente o mistério de um Deus que se fez homem para acostumar o homem a ser de Deus. Porque, no fim das contas, se esse Deus se deu ao trabalho de realizar tais milagres, o mínimo que podemos fazer, dizia Carlo Acutis, é divulgá-los para que outros, vendo esses mesmos sinais, também creiam e encontrem a vida eterna.

A teologia modernista, por outro lado, não acredita em milagres nem se submete ao mistério. Orgulhosa de seu método “científico”, ela declara soberbamente: “Não se pode utilizar luz elétrica e aparelho de rádio, em casos de doença empregar modernos meios médicos e clínicos e, simultaneamente, acreditar no mundo dos espíritos e dos milagres do Novo Testamento” [2]. Para os teólogos dessa estirpe, a Igreja precisaria abandonar a hermenêutica “mitológica” e “mágica” dos primeiros cristãos para assumir, em seu lugar, uma visão histórico-crítica. E assim eles negam a multiplicação dos pães, negam a cura dos cegos e leprosos, negam a transformação da água em vinho e, como era de esperar, negam até a Ressurreição.

Ora, não podemos deixar de constatar como essa mentalidade incrédula tem privado os católicos da beleza dos mistérios divinos, tornando tudo feio, medíocre e amargo — sobretudo a liturgia, que passa a ser apenas um momento de pantomimas e esquisitices arbitrárias. Chesterton estava certo quando disse que o louco é aquele que perdeu tudo, menos a razão. A teologia moderna produziu frutos loucos porque, julgando-se muito racional, quis sepultar o mistério e qualquer forma de ação sobrenatural na vida dos homens. Ela jogou fora a “infância espiritual” que crê nos milagres — crê, por exemplo, na misteriosa presença de Cristo na Eucaristia —, para amargar com carolices comunitárias e celebrações autorreferenciais que, no fundo, não dizem nada com nada.

É por isso que ninguém deve se espantar quando uma pesquisa revela que a maioria dos católicos americanos já não crê na transubstanciação da Eucaristia. Uma coisa como essa é apenas consequência lógica da forma como temos ensinado e vivido o cristianismo. Uma teologia menos misteriosa, porque supostamente mais crítica, só pode dar nisso. E assim os católicos vão, pouco a pouco, debandando para as seitas e outros cultos onde acreditam que encontrarão, ao menos, algum resquício de mistério, de milagre, de profecia, de um Deus capaz de intervir na história e realizar a sua soberana vontade.

Uma teologia que não acredita em milagres nem celebra a profundidade dos mistérios cristãos não passa de uma teologia velha, que perdeu de vista o próprio Senhor. A ela bem cabem as palavras do profeta Jeremias: “Abandonou-me, a mim, fonte de água viva, para cavar cisternas, cisternas fendidas que não retêm a água” (2, 13). Foi para preservar a Igreja dessa apostasia, desse horrível mistério da iniquidade, que São Pio X forçou muitos teólogos a reconhecerem e admitirem “como sinais certíssimos da origem divina da religião cristã os argumentos externos à Revelação, isto é, os feitos divinos, e em primeiro lugar os milagres e profecias” [3]. Com isso, ele apenas repetia a mesma reprimenda de Cristo aos fariseus que, sabendo interpretar os aspectos do céu e da terra, recusavam-se, todavia, a acreditar nos sinais do tempo presente (cf. Lc 12, 56).

Ainda no limiar deste terceiro milênio, os homens continuam a ter sede de respostas para os mistérios mais profundos de sua existência; eles continuam a desejar um poder transcendente que seja capaz de sanar suas dores e angústias; eles continuam, enfim, a maravilhar-se com as belezas inexplicáveis, com o impossível e o extraordinário. Fujamos de uma teologia racionalista, que só consegue produzir mais crise nos corações. Tenhamos nós, católicos deste século, a coragem de devolver aos homens as misteriosas verdades do cristianismo, que devem tornar a existência mais bela, grande e doce.

Referências

  1. René Chateaubriand, O gênio do cristianismo, Trad. de Camilo Castelo Branco. São Paulo: Editora W. M. Jackson, p. 15.
  2. Rudolf Bultmann, Crer e Compreender. São Leopoldo: Sinodal, 1987, p. 16.
  3. “Juramento antimodernista” de São Pio X, em: Motu proprio Sacrorum Antistitum (1.º de setembro de 1910).

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