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O que os filmes e a TV fazem com nossa alma?
Espiritualidade

O que os filmes e a TV
fazem com nossa alma?

O que os filmes e a TV fazem com nossa alma?

O entretenimento popular de nossa época trava uma guerra contra a ordem criada e contra nosso “castelo interior”. A agitação constante das imagens e dos ruídos mundanos distraem-nos da busca da única coisa que realmente importa.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Agosto de 2019Tempo de leitura: 8 minutos
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Em sua Carta às Famílias Gratissimam Sane, de 1994, o Papa João Paulo II escreveu:

Conhecendo bem a ampla e profunda incidência dos meios de comunicação social, a Igreja não se cansa de acautelar os operadores da comunicação para os perigos de manipulação da verdade. De fato, que verdade poderá haver em filmes, espetáculos, programas rádio-televisivos onde prevalecem a pornografia e a violência? Será este um bom serviço à verdade do homem?

Essa é uma questão muito importante. As nossas atividades recreativas não nos deveriam restaurar, nossos lazeres não nos deveriam conduzir para a verdade mais profunda das coisas? Seria um mal se a mídia à qual damos a nossa atenção nos desviasse, de modos óbvios ou sutis, da virtude moral e intelectual, do amor à beleza e da verdade última para a qual fomos criados.

O Pe. Dominic Legge, dominicano, explica o porquê: 

Quando nós assistimos a atos de luxúria ou crueldade, nós tendemos a nos tornar mais luxuriosos e cruéis. O que você vê com os olhos, você acolhe na sua alma. Quanto do material de nossa época dito de “entretenimento” se enquadra nessa categoria? 

Com essa consideração, esse sacerdote está simplesmente seguindo os passos do Doutor Angélico, o qual escreve na Suma (STh II-II 167, 2 ad 2): 

O que torna perniciosa a assistência aos espetáculos é que, nas suas apresentações, eles inclinam o homem ao vício da lascívia ou da crueldade. Por isso, diz Crisóstomo, “esses espetáculos fazem os adúlteros e os impudicos”.

Outra consequência de se assistir a luxúria e crueldade exibidas explicitamente é que quem o faz torna-se indiferente ou até mesmo insensível a essas coisas, ficando entorpecido para o mal moral objetivo, e preguiçoso em reagir com o devido desgosto e arrependimento. Se eu assisto a estrelas de cinema fornicando ou assassinando, terei uma das três seguintes reações: ou sentirei simpatia pelo que elas estão fazendo — o que é algo pecaminoso para mim —, ou serei indiferente — o que também é pecaminoso —, ou sentirei repugnância. Este último sentimento é correto, mas nós não deveríamos sair por aí voluntariamente procurando por coisas repugnantes.

Além disso, já existe uma razão para se ter cautela e autocontrole com o quanto nós assistimos a essas coisas, e ela diz respeito à natureza dos meios de comunicação modernos. Os filmes, em particular, exercem um tipo de “mágica poderosa” porque preenchem nossa alma com imagens em alta definição, excessivamente atraentes (a que Aristóteles e S. Tomás chamavam “fantasmas”). A alma é incapaz de resistir a esse influxo e é modelada por sua influência. 

As telas de TV e cinema tendem a um estímulo excessivo das faculdades de um animal racional: vão muito para o animal e pouco para o racional. Elas apelam primeiramente aos sentidos da carne, induzindo assim a uma primazia prática da matéria sobre a mente. Nossa memória e imaginação tornam-se saturados com aquilo que vemos e ouvimos.

O Pe. A.-G. Sertillanges, em A vida intelectual, nota com precisão que a nós cabe prezar e proteger a pureza e a quietude interiores. É difícil para criaturas decaídas como nós permanecer sem mácula no meio de uma geração corrompida e manter nossas mentes fixas nas coisas do alto, como nos manda fazer a Escritura. Mais difícil ainda é adquirir o silêncio interior e o recolhimento necessários à oração. 

Imagine só, então, o que os grandes místicos diriam a respeito da televisão e dos filmes que nelas são exibidos. Pense em uma Santa Teresa de Jesus, em um São João da Cruz, em uma Santa Teresinha do Menino Jesus, ou em uma Santa Elisabete da Trindade: esses homens e mulheres não considerariam muito daquilo a que assistimos hoje, na melhor das hipóteses, uma colossal perda de tempo e, na pior delas, uma poluição da alma?

“Formando esse plano, terei usado de leviandade? Ou são puramente humanas as resoluções que tomo, de modo que haja em mim o ‘sim’ e depois o ‘não’? Deus é testemunha de que, quando vos dirijo a palavra, não existe um ‘sim’ e depois um ‘não’” (2Cor 1, 17-18).

“Quanto à fornicação, à impureza, sob qualquer forma, ou à avareza, que disto nem se faça menção entre vós, como convém a santos. Nada de obscenidades, de conversas tolas ou levianas, porque tais coisas não convêm; em vez disso, ação de graças” (Ef 5, 3-4). 

Se nós precisamos de argumentos sofisticados e oblíquos para justificar algo que estamos vendo ou ouvindo (ou, nesta matéria, lendo), nós muito provavelmente somos culpados de tentar dizer “sim” e “não” a Cristo. Como um cristão leva sua vida, como ele gasta o seu tempo, onde ele coloca a sua mente e o seu coração, devem ser coisas completamente consistentes com a fé que ele professa.

A mais forte das exortações nesse sentido encontra-se na Carta aos Filipenses (4, 8): “Tudo o que é verdadeiro, tudo o que é nobre, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, tudo o que é virtuoso e louvável, eis o que deve ocupar vossos pensamentos”. Aqui está implícito um alerta: não penseis, muito menos vos demoreis e mergulheis, no contrário dessas coisas, pois isso tornará vossas almas menos cristãs e menos plenamente humanas. Aqui se combate a falsa ideia de que o modo de se tornar “mais plenamente” alguém é ser “exposto” a um punhado de mal, ao menos indiretamente, a fim de que ele seja melhor entendido e combatido — o argumento fraco ao qual os defensores da mídia moderna recorrem com tanta frequência. 

Esse argumento tem uma certa força quando usado para retratos literários do mal, se eles forem de bom gosto, porque a potência de seu conteúdo é filtrada por meio do intelecto do leitor, o qual deve primeiro entender as palavras e os conceitos antes de poder, em alguma medida, recriar a cena em sua imaginação. O meio permite que o impacto visceral do mal seja mediado por um processo espiritual. Com um filme, no entanto, a imagem é captada diretamente pelos olhos, assim como os diálogos e a trilha sonora o são pelos ouvidos; há uma imediação que não filtra nem interpreta o conteúdo no ato de recebê-lo

Tampouco as consequências se limitam à esfera moral; elas se estendem também à esfera intelectual. Uma pessoa assiste a um filme “sem esforço” — e é exatamente esse o problema. Quantas pessoas hoje sabem entreter-se através do uso de suas próprias inteligências e imaginações? Por que somos tão passivos, dependentes de uma indústria gigante de fazer dinheiro que domina a cultura, ao invés de produzirmos, nós mesmos, belas coisas a nível local, ou ao menos assimilarmos ativamente uma obra de arte? 

Os filmes fazem o que é irreal parecer real — com o efeito gradual, talvez, de fazer o que é real parecer irreal. Os filmes e a vida terminam se misturando em uma fantasmagoria bruxuleante sem quaisquer consequências morais ou eternas

Nos cinemas, dezenas, centenas, milhares de pessoas ficam entorpecidas diante das telas bem à nossa frente: a vida é barata, e a violência é um bom entretenimento. Deveria nos surpreender que os homens de nossa época estejam preparados para descartar as vidas dos não-nascidos ou dos mais velhos? 

Conteúdo sexual explícito é uma excitação inegociável, e, em geral, o mal é tratado como um tempero da receita. Deveriam nos surpreender a promiscuidade, a baixeza e a excentricidade do comportamento sexual moderno, quando imagens disso são regularmente impressas nas imaginações de milhões de pessoas? Com nosso entretenimento, nós estamos descendo a um barbarismo pior que aquele dos antigos pagãos, porque eles, pelo menos, não tinham o benefício do cristianismo para os curar e elevar.

O que dizer diante disso? “Nunca assista a filmes ou à TV”? Não. Existem algumas excelentes produções artísticas, de fato, que não cedem ao mal gratuito. Mas a Palavra de Deus nos exorta à vigilância, ao discernimento cuidadoso, e uma santa intransigência com nossa própria tendência a sermos mesquinhos, arranjarmos desculpas e relaxarmos nossa conduta. Devemos adotar para todos os meios de comunicação a sábia atitude de São Basílio Magno para com os autores pagãos. Ele diz: 

Quando eles contam as palavras e os atos dos bons homens, vós deveis ao mesmo tempo amá-los e imitá-los, emulando fervorosamente tais condutas. Mas quando eles exibem condutas vis, deveis apartar-vos deles e tampar vossos ouvidos, como Ulisses fugiu do canto das sereias, pois a familiaridade com os maus escritos pavimenta o caminho para as más ações. A alma deve ser preservada, portanto, com grande cuidado, a fim de que pelo amor às letras não termine recebendo uma contaminação inconsciente, como o homem que toma veneno misturado com mel.

Se isso é verdade a respeito das letras — isto é, da literatura —, não é mil vezes mais verdade com relação aos filmes, à TV e a muitas outras modalidades do entretenimento popular de hoje em dia? 

Como cristãos, nós precisamos nos esforçar para juntar nossas energias e faculdades dispersas, focando-as na Santíssima Trindade que habita em nossa alma e que se mostra externamente na beleza da Criação. A modernidade em geral, e o entretenimento popular de modo particular, trava uma guerra contra a ordem criada e contra nossa interioridade, nosso “castelo interior”. A agitação constante das imagens e dos ruídos mundanos distraem-nos da busca do unum necessarium, a única coisa que realmente importa.

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A Igreja deve estar sujeita à autoridade civil?
Doutrina

A Igreja deve estar
sujeita à autoridade civil?

A Igreja deve estar sujeita à autoridade civil?

“Desde quando uma sentença da Igreja tem de receber autoridade do imperador?… São Paulo teve amigos entre os da casa de César, mas não os admitiu como companheiros de suas decisões.”

Ignacio Riudor, SJTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere (adaptado)6 de Agosto de 2019Tempo de leitura: 8 minutos
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I. O problema. — Não será necessário recordar aqui que a Igreja que Cristo fundou é uma verdadeira sociedade, ao mesmo tempo divina e humana, sobrenatural e existente na terra, e cujo fim é a salvação ou felicidade eterna de seus membros.

Em filosofia do direito, distinguem-se duas classes de sociedade: uma perfeita, cujo fim é o bem humano, supremo em seu gênero e que conta com os meios suficientes para consegui-lo ou que, pelo menos, tem direito a exigi-los; outra imperfeita, se carece de algumas destas qualidades. Esta última, como consequência de sua imperfeição, formará parte de outra sociedade de ordem superior, que lhe proporcionará os meios necessários para conseguir o seu fim. Na ordem natural, sabemos que o Estado é uma sociedade perfeita, e toda outra sociedade de ordem familiar, comercial, artística, recreativa etc. são sociedades imperfeitas, dentro do Estado e subordinadas a ele.

Contudo, não se devem confundir os conceitos de sociedade perfeita e imperfeita, de um lado, com os de sociedade completa e incompleta, de outro. Com efeito, chama-se completa a sociedade que procura diretamente o bem total do homem, tanto espiritual como temporal; ao passo que se chama incompleta a sociedade que atende só a um destes aspectos. A família, por exemplo, é uma sociedade completa, embora imperfeita; o Estado, por sua vez, é uma sociedade perfeita, mas incompleta, já que, diretamente, procura apenas o bem material de seus membros. 

Toda sociedade perfeita, por sua própria definição, é uma sociedade independente e exclui, portanto, toda subordinação direta, isto é, aquela subordinação que se dá quando uma sociedade é regida por outra dentro da esfera própria de seu fim. Por ter tal subordinação direta, um município ou uma família não são sociedades independentes dentro do Estado.

Supostas essas noções básicas, indispensáveis para compreender o problema que nos propusemos, cabe agora perguntar: é a Igreja uma sociedade perfeita e absolutamente independente?

II. Orientação histórica.1) Doutrinas errôneas. — A quem se lembra de qual é o fim altíssimo da Igreja (de que falamos noutro artigo), superior evidentemente a qualquer fim terreno, parecerá óbvio dar uma resposta afirmativa à pergunta que nos fizemos acima. No entanto, poucas verdades terão sido negadas com tanta frequência ao longo da história como esta. Primeiramente, quiseram na prática fazer caso omisso dela aqueles imperadores cristãos que, herdeiros dos antigos imperadores pagãos, chefes absolutos tanto no campo civil como no religioso, continuavam intervindo nos assuntos religiosos e tentavam subordinar a Igreja ao Estado. 

Assim agiram muitos imperadores bizantinos no Oriente, e no Ocidente, desde a Idade Média, alguns dos novos imperadores e reis cristãos. Preparado assim o ambiente, Marsílio de Pádua formulou a doutrina segundo a qual o imperador estaria acima do Papa: “Tudo o que na Igreja é temporal está submetido ao imperador, e este pode tomá-lo como coisa sua. Ao imperador, pois, cabe corrigir o Papa, investi-lo do pontificado, destituí-lo e castigá-lo. Toda a Igreja em conjunto não pode, por conseguinte, castigar um homem com pena coativa, se não lhe concede este poder o imperador” (cf. D 595-500). Estas proposições, condenadas pelo Papa João XXII em 1327, foram extraídas do livro Defensor pacis, verdadeira carta magna da doutrina que afirma a hegemonia do Estado sobre a Igreja, e na qual irão se inspirar todos os erros que, através dos séculos, forem surgindo nesta matéria.

Assim pensaram também os protestantes alemães do séc. XVI, com o seu célebre axioma: “Cuius regio, eius et religio” (quer dizer, a religião da cada território há-de ser a do seu senhor); o anglicanismo, com aquele artigo de fé anglicana, vigente desde 1552: “O rei de Inglaterra é a suprema cabeça da Igreja Anglicana depois de Cristo”; o regalismo e o galicanismo, que, apesar de terem surgido antes mesmo de Marsílio de Pádua nas lutas de Felipe, o Belo, contra Bonifácio VIII, chegaram ao apogeu com Edmundo Richer (1560-1631) e depois, em maior ou menor grau, influenciaram grandes homens do clero francês, como Bossuet, e deram origem aos artigos do clero galicano, declarados nulos por Alexandre VIII (cf. D 1322-1326). 

As teorias galicanas sobre a sujeição mais ou menos total da Igreja ao Estado se renovaram na Alemanha e na Áustria algum tempo depois com o febronianismo, sistema propugnado no livro De Statu Ecclesiae, que Nicolás Hontheim publicou sob o pseudônimo de Justino Febrônio, e o josefinismo, nome proveniente de José II, imperador da Áustria, que quis intervir em todos os assuntos da Igreja, coisa que lhe valeu o título de “o imperador sacristão”. 

Em nossos dias, ideias errôneas sobre a sujeição da Igreja ao Estado foram ressuscitadas nos sistemas totalitários do séc. XX, o nacional-socialismo e o comunismo, contra os quais o Papa Pio XI escreveu duas encíclicas: Mit brennender Sorge (de 14 de março de 1937) e Divini Redemptoris (de 19 de março de 1937).

2) Doutrina católica. — À medida que foram aparecendo as diversas doutrinas que atacam a independência da Igreja e querem sujeitá-la ao Estado, os Sumos Pontífices tiveram o bom cuidado de fazer resplandecer toda a verdade nesta matéria. Assim, Bonifácio VIII, na bula Unam Sanctam, define que “é necessário para a salvação de toda criatura humana submeter-se ao Romano Pontífice” (D 469). E João XXII condenou, como vimos, as teorias de Marsílio de Pádua (cf. D 495-497).

O Concílio de Trento definiu a plena independência da hierarquia eclesiástica de qualquer potestade humana (cf. D 960.967). Pio VI condenou os erros do falso Sínodo de Pistóia, que limitavam o poder da Igreja (cf. D 1504).

Mais recentemente, Pio IX levantou sua voz vigilante contra as teorias liberais e laicistas que propugnam a subordinação da Igreja ao Estado ou as que defendem como ideal a completa separação entre as duas potestades. No Syllabus, encontramos uma longa lista de proposições condenadas sobre este ponto em particular (cf. D 1719.20.28.39.41-45.51-55). Leão XIII escreveu diversas encíclicas sobre esta matéria, sendo a mais importante delas a Immortale Dei.

Pio XII, na encíclica Mystici Corporis, chamou também à Igreja sociedade perfeita e pronunciou dois discursos de grande transcendência para enfocar o difícil problema das relações entre Igreja e Estado, tendo em conta o estado atual das coisas.

III. Valoração teológica. — Deve-se considerar como, no mínimo, teologicamente certo que a Igreja é uma sociedade perfeita e absolutamente independente. 

1) Ensinamento bíblico. — De toda a doutrina evangélica, consta claramente que:

  1. A Igreja tem como fim a salvação sobrenatural dos homens. Recordem-se, por exemplo, os textos do Novo Testamento com que demonstramos noutra ocasião que o fim da Igreja é dar continuidade à missão de Cristo, e que a missão de Cristo é, pois, a salvação dos homens. Ora, este fim é evidentemente o mais perfeito e supremo que pode haver, superior a qualquer outro fim e, portanto, de tal natureza que todos os outros fins devem estar subordinados a ele, e a nenhum outro.
  2. Para conseguir este fim, Cristo deu à sua Igreja todos os meios necessários nos plenos poderes de ensinar, reger e santificar. Ensinar a lei evangélica, lei da mais alta perfeição (recordem-se, por exemplo, os capítulos 5 a 7 de S. Mateus) e, portanto, a mais apta para chegar ao fim sobrenatural de unir o homem a Deus; e isto com a absoluta garantia de ensinar a verdade, graças à prerrogativa da infalibilidade (cf. Mt 28, 20; Mc 16, 16; Jo 14, 13.16s. etc.). Reger, de modo que tudo o que a Igreja ou sua autoridade suprema atar ou desatar na terra ficará atado ou desatado, isto é, plenamente ratificado no céu (cf. Mt 16, 18; 18, 18). Santificar por meio dos sacramentos, que dão ou aumentam o penhor seguro da vida eterna, quer dizer, a graça santificante (cf. Jo 3, 5; 6, 48-59; 20, 22s.).

Pois bem, tais meios são suficientíssimos, por si mesmos, para conseguir o fim sobrenatural da salvação eterna, e se algo impede de fato que os homens cheguem à consecução deste fim, isto não é certamente devido a algo que falta à Igreja, provida da assistência divina até o fim do mundo, mas à deficiência do homem, que com sua liberdade põe obstáculos à ação salvífica da Igreja. 

A Igreja, além disso, é absolutamente independente, porque a sua autoridade suprema, nem por razão de seu fim nem por razão de um fim mais alto que fosse necessário alcançar, não está subordinada a nenhuma outra autoridade, como é evidente, suposto o que dissemos antes a respeito do fim sobrenatural da Igreja. Ademais, Jesus Cristo, ao fundar a Igreja como sociedade, a constituiu com completa independência de toda outra sociedade humana, como se vê claramente no modo como Ele escolheu os Apóstolos e a S. Pedro, constituindo-os hierarcas de sua Igreja, dando-lhes sua autoridade divina: “Como meu Pai me enviou, assim também eu vos envio a vós” (Jo 20, 21); “Todo poder me foi dado no céu e na terra. Ide, pois, e fazei discípulos a todos os povos” (Mt 28, 29), e profetizando-lhes repetidas vezes que eles encontrariam nos poderes civis apenas oposição e perseguições: “Entregar-vos-ão aos sinedritas e em suas sinagogas vos açoitarão; sereis levados por minha causa diante de governantes e reis, para que sirva de testemunho a eles e aos gentios” (Mt 10, 17s.); “Se me perseguiram a mim, também a vós hão-de perseguir” (Jo 15, 20).

Depois da Ascensão de Cristo aos céus, os Apóstolos, ao estenderem a Igreja por todo o mundo, o fazem com plena independência das potestades civis; mais ainda, com oposição aberta das mesmas: “Julgai-o vós mesmos”, diziam os Apóstolos às autoridades judaicas de Jerusalém, “se é justo diante de Deus obedecermos a vós mais do que a Deus. Não podemos deixar de falar das coisas que temos visto e ouvido” (At 4, 19s.; cf. 4, 5-31; 5, 17-42; 12, 1-24).

2) A voz da Tradição. — A perfeita independência da Igreja ante toda intromissão da autoridade civil é defendida acerrimamente por ela ao longo de toda a sua existência, de tal maneira que a história deste ponto em particular coincide com a história de todas as perseguições que a Igreja vem sofrendo, desde os tempos do Império Romano até os nossos dias. Contentemo-nos agora com somente alguns textos de dois grandes campeões da fé e da independência da Igreja, um do Oriente e outro do Ocidente. Escreve S. Atanásio: “Desde quando uma sentença da Igreja tem de receber autoridade do imperador?… São Paulo teve amigos entre os da casa de César, mas não os admitiu como companheiros de suas decisões” (História dos arianos, 52: PG 25, 726). E Ósio de Córdoba escreveu a Constâncio Augusto: “A ti confiou Deus o império; a nós, as coisas da Igreja: nem a nós é lícito ter poder na terra, nem a ti, imperador, tê-la sobre o que é sagrado” (A Constâncio Augusto: PL 8, 1327-29).

Notas

  • Este artigo é uma tradução levemente adaptada de F. de Vizmanos e I. Riudor, Teología fundamental para seglares. Madrid: BAC, 1963, pp. 828-832, nn. 673-680. 

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Teriam sofrido e morrido em vão os santos mártires?
Santos & Mártires

Teriam sofrido e morrido
em vão os santos mártires?

Teriam sofrido e morrido em vão os santos mártires?

“Pode haver situações em que o homem, e especialmente o cristão, não pode ignorar que deve sacrificar tudo, inclusive a própria vida, a fim de salvar a própria alma”. É o que nos recordam os mártires.

Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Agosto de 2019Tempo de leitura: 8 minutos
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No antigo calendário litúrgico, o dia 1.º de agosto é dedicado a uma santa família do Antigo Testamento, que morreu martirizada durante a perseguição do rei Antíoco IV Epifânio, por volta do ano 150 a.C.: trata-se da comemoração dos Santos Macabeus, que, embora não conste mais no calendário reformado, é uma celebração tradicional, antiquíssima e quase universal, sendo recordada também nos ritos ambrosiano e bizantino. O prefácio da Missa de hoje no rito de S. Ambrósio chega a contar em detalhes o martírio desses irmãos: 

É justo e salutar, em honra do vosso nome, Senhor, celebrar anualmente com toda admiração os vossos santos mártires Macabeus, irmãos pelo nascimento, semelhantes pela paixão. Concebeu-os a mãe em seu útero e coração, a fim de que os que havia gerado ao mundo segundo a carne, pelo espírito de fecundidade os gerasse a Deus onipotente para a vida. Porquanto os que nasceram carnalmente para a morte, religiosamente morriam para a vida. Cortam-se-lhe as línguas, arranca-se-lhes o couro cabeludo: e entre estes <tormentos> os gloriosíssimos jovens não se lamentavam, para serem mais cruelmente punidos; mas antes exultavam, para mais gloriosamente expirarem e serem assim consolo e exemplo uns para os outros. Depois de todos eles, foi, por fim, a vez da mãe pelo sangue e pela fé: não porque fosse ela a última, mas para que entregasse antes a Deus os frutos do seu ventre e alcançasse, segura, o prêmio de sua oferenda (tradução e grifos nossos).

O relato completo, porém, do que aconteceu a esses irmãos e a essa mãe encontra-se nas próprias Escrituras, no cap. 7 do Segundo Livro dos Macabeus

“Martírio dos Sete Macabeus”, por Antonio Ciseri.

Os filhos, num total de sete, “foram um dia presos com sua mãe” e instados a comer carne de porco, “por meio de golpes de azorrague e de nervos de boi” (v. 1). Um azorrague era uma espécie de açoite feito com tiras de couro e que possuía, em cada ponta, um instrumento cortante ou pedaços de articulações de carneiro. 

O espírito daquela família, no entanto, era resoluto. Nenhum dos terríveis golpes de azorrague diminuiu-lhes o fervor em cumprir a vontade de Deus: “Estamos prontos a morrer, antes de violar as leis de nossos pais” (v. 2), disse um deles, sem medo.

As torturas se seguiam, como em um conto de terror: “O rei ordenou que aquecessem até a brasa assadeiras e caldeirões” e “que cortassem a língua do que falara por todos e, depois, que lhe arrancassem a pele da cabeça e lhe cortassem também as extremidades, tudo isso à vista de seus irmãos e de sua mãe” (v. 3-4).

O que fizeram, então, aqueles rapazes, vendo seu irmão ser cruelmente torturado até o suplício? Não renunciaram a seu propósito, nem titubearam, mas “exortavam-se mutuamente a morrer com coragem” (v. 6). Animados pela esperança na ressurreição dos mortos, eles entregavam bravamente sua vida a Deus, um após o outro.

Chegando o momento de infligir a morte ao filho mais novo, Antíoco recuou por um instante. Ele insistia com o caçula, “prometendo-lhe com juramento torná-lo rico e feliz, se abandonasse as tradições de seus antepassados, tratá-lo como amigo e confiar-lhe cargos” (v. 24). Mas nem assim o jovem cedia. Então o rei tentou conversar com sua mãe: mandou que ela se aproximasse e o fizesse mudar de opinião, a fim de conservar a própria vida.

Mas o que fez aquela mulher, que tinha visto seus outros seis filhos serem torturados e mortos diante de si? O que fez aquela mãe dolorosa, que a essa altura já tinha dilacerada a alma? A Escritura diz que “ela consentiu em persuadir o filho” (v. 26), mas que, em seguida, exortou-lhe, falando em língua materna: “Meu filho, não temas este algoz, mas sê digno de teus irmãos e aceita a morte, para que no dia da misericórdia eu te encontre no meio deles” (v. 27.29).

Esta santa mulher, mesmo acabrunhada pelo sofrimento de perder todos os seus filhos, estava consciente de haver algo muito pior que a morte do corpo. Depois, “seguindo as pegadas de todos os seus filhos, a mãe pereceu por último” (v. 41). Naquele dia, uma família inteira entregava-se em sacrifício a Deus. Eles preferiram morrer a violar as leis de seus pais, a abandonar as tradições de seus antepassados.

Mas o que eram essas leis e tradições, e pelas quais esses santos deram a vida? Não se tratava de meras convenções humanas, e por mais dignos de honra que fossem seus antepassados, não foi simplesmente por eles que os mártires macabeus derramaram o próprio sangue. Essa família tinha consciência da origem das leis de sua religião: era o próprio Deus que as havia instituído. Por isso, desobedecer a elas era desobedecer a Deus. Foi para não ofendê-lo, portanto, para não pecar, que essa mãe e esses filhos enfrentaram as mais cruéis das torturas. Eles traziam bem vivas no coração as palavras do salmista: “Vosso amor vale mais do que a vida” (Sl 62, 4).

O que essa história tem a ver conosco, não é preciso muito para perceber… O exemplo desses jovens é um testemunho luminoso da coragem que precisamos ter em nossos dias para obedecer àquilo que Deus nos ensina através da Igreja que Ele mesmo deixou sobre a terra. No tempo desses Santos Macabeus, o que havia era a lei de Moisés e o oráculo dos profetas; foi em respeito a esse tesouro que eles morreram como mártires. Nos nossos tempos, porém, como diz a introdução da Carta aos Hebreus, foi o próprio Filho de Deus quem veio ao nosso encontro, deixando à Igreja a autoridade de ensinar em seu nome; é, pois, para conservar essa doutrina — muito mais elevada, perfeita e superior do que a antiga — que nós devemos estar dispostos a morrer.

Pode parecer “antiquada” essa teologia do martírio, mas ela é uma das respostas mais contundentes à crise moral que enfrentamos hoje, dentro e fora da Igreja. Não sem razão o Papa Pio XII, em um célebre discurso a mulheres (que já publicamos na íntegra aqui), recorreu justamente à história dos Santos Macabeus para ilustrar o heroísmo que muitas vezes o cumprimento da vontade de Deus nos exige:

Pode haver situações em que o homem, e especialmente o cristão, não pode ignorar que deve sacrificar tudo, inclusive a própria vida, a fim de salvar a própria alma. Todos os mártires no-lo recordam. E os há em grande número, também em nossos tempos. Mas será que a mãe dos Macabeus e seus filhos, santas Perpétua e Felicidade, sem embargo de seus recém-nascidos, Maria Goretti e milhares de outros, homens e mulheres venerados pela Igreja e que se opuseram à “situação”, sofreram inutilmente — e até por engano — uma morte sangrenta? Certamente não. E eles, com seu sangue, são os testemunhos mais expressivos da verdade contra a “nova moral”

Ao se referir à “situação” e à “nova moral”, o Papa Pio XII se referia à chamada moral de situação, segundo a qual “cada indivíduo em cada instante e conjuntura é dono de fazer o que lhe pareça melhor, sem ataduras de nenhum gênero”; Deus, nesse sistema moral, “só dá valor à intenção reta e à resposta sincera; a ação não lhe importa”. 

Na prática, isso significa que os Santos Macabeus poderiam muito bem ter se empanturrado de carne de porco; que os primeiros mártires cristãos poderiam muito bem ter jogado o quanto de incenso quisessem diante da estátua do Imperador; que São Thomas More poderia muito bem ter aceitado o adultério de Henrique VIII; que São José Sánchez del Río poderia muito bem ter cedido à pressão de seus perseguidores e negado a Cristo Rei… Bastava, veja só, que eles trouxessem no coração uma “boa intenção” e uma “sinceridade” meio abstrata, e estava tudo certo. 

Dedução lógica de tudo isso? Os pobres mártires sofreram “inutilmente”.

Mas é evidente que esse tipo de raciocínio não se limita a interpretações do passado; tudo é calculado para dar ao homem de hoje a “liberdade” (que está mais para libertinagem) de fazer o que lhe der na telha. Assim, diante das múltiplas situações (e algumas até muito difíceis, não negamos) com que se deparam os homens de hoje, seria lícito e perfeitamente aceitável que se contrariasse um “mandamentozinho” aqui e ali só para não se “enrascar”, só para não ficar numa situação embaraçosa, só para não sofrer um “martírio branco” diante dos outros. 

Porque o cristianismo custa, porque o Evangelho é exigente — e porque não queremos nos confessar fracos, miseráveis e até obstinados, dependendo do caso —, o pecado é visto por tantos de nós como algo “inevitável”: “todo o mundo faz”, “as coisas são assim mesmo”, “ninguém é de ferro” e, afinal, “o que importa é o coração”, “Deus não vai nos tratar assim também, a ferro e fogo” etc

Dedução lógica? Quem procura fazer a vontade de Deus é bobo, ultrapassado e está sofrendo à toa. Daqui a repulsa de tantos à vida religiosa, à busca de Deus e à obediência aos Mandamentos.

Para romper com essa forma mundana de pensar, nada melhor do que olhar com fé para o exemplo dos mártires. Os Santos Macabeus podiam muito bem ter cedido à tentação de comer carne e procurado “racionalizar” depois, usando alguma “justificativa” para sua traição. Mas, se o fizessem, seriam lembrados hoje na liturgia? Mais do que isso: teriam feito a coisa certa? Teriam salvado suas almas? 

Certos teólogos modernos arriscariam a dizer que “sim”, que no fundo é preciso compreender cada situação, e que o “certo” e o “errado” são muito relativosMas, afinal, iremos seguir as novidades do momento ou as leis e tradições de nossos pais? Iremos nos guiar pelas picadas que alguns decidiram abrir no meio do mato ou pela estrada segura que percorreram os santos? Iremos seguir as últimas modas teológicas ou a Palavra eterna que diz: “Seja o vosso sim, sim; e o vosso não, não; o que passa disto vem do Maligno” (Mt 5, 37)?

Certamente é mais difícil aceitar o que nos ensina o Senhor e nos submeter ao que Ele diz, ao invés de simplesmente fazer o que bem entendermos, tentando nos “desculpar” depois com alguma história mais ou menos bem elaborada. Acontece que viver de desculpas pode até trazer facilidades, mas não traz a salvação. Esta só nos vem quando entramos em contato com a Verdade, por mais dura e dolorosa que ela às vezes nos pareça num primeiro momento. É só conhecendo a ela que seremos verdadeiramente livres (cf. Jo 8, 32). Nesta e na outra vida.

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Leão XIII, São Miguel e o Combate Espiritual
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Leão XIII, São Miguel e o Combate Espiritual

“São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate…”: são a origem e a história desta oração, que tantos de nós dirigimos ao “príncipe da milícia celeste”, o tema de nosso mais novo curso.

Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Agosto de 2019Tempo de leitura: 1 minutos
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São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate…”: eis a oração que tantos de nós, católicos, dirigimos insistentemente ao “príncipe da milícia celeste”, pedindo refúgio e proteção nas batalhas que travamos neste vale de lágrimas. 

Como você deve saber, essa oração foi composta há não muito tempo, por ninguém menos que o Papa Leão XIII, e depois de uma visão impressionante que ele teve, cujo teor Sua Santidade confidenciou a pouquíssimas pessoas e sempre com a devida reserva.

Mas não, não se trata de “teoria da conspiração”. As fontes mais abalizadas são concordes: houve de fato uma missiva celeste para que essa invocação a São Miguel Arcanjo fosse rezada. 

Nem é preciso dizer que as circunstâncias em que nos encontramos não fizeram diminuir em nada a urgência e importância desta devoção… Muito pelo contrário!

Para que batalhas, porém, essa oração foi composta? E como discernir, em meio às inúmeras histórias que circulam na internet, o que é verdade do que é lenda e fantasia? 

É o que você vai descobrir no mais novo curso de nosso site: “A Oração de São Miguel Arcanjo”!

O lançamento deste conteúdo exclusivo para alunos será no próximo dia 12 de agosto. Em 6 aulas, Padre Paulo Ricardo contará a história desta célebre oração e, sobretudo, aprofundará a teologia e a espiritualidade por trás delas, pois não só é verdade que os anjos nos auxiliam no combate espiritual desta vida, como São Miguel possui um papel preponderante nessa batalha.

Venha participar conosco desta jornada histórica e teológica! Para receber mais informações a respeito deste conteúdo, inscreva-se em nossa lista exclusiva de e-mails, clicando aqui, e aguarde nossas comunicações!

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