CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Evangelize compartilhando!
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
Dormindo e acordando como se Deus não existisse
Espiritualidade

Dormindo e acordando
como se Deus não existisse

Dormindo e acordando como se Deus não existisse

“Que deve fazer um bom cristão, pela manhã, assim que desperta?” E “à noite, antes de deitar, que se deve fazer?” São coisas que todo católico deveria saber, mas não sabe, e mesmo quando sabe, nem sempre põe em prática.

Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Fevereiro de 2019
imprimir

Que deve fazer um bom cristão, pela manhã, assim que desperta?”, pergunta o Catecismo de São Pio X, e ele mesmo responde: “Um bom cristão, pela manhã, assim que desperta, deve fazer o sinal da Cruz, e oferecer o coração a Deus, dizendo estas ou outras palavras semelhantes: Meu Deus, eu vos dou o meu coração e a minha alma.” (n. 969)

À noite, antes de deitar, que se deve fazer?”, pergunta o mesmo Catecismo, e responde: “À noite, antes de deitar, convém pôr-se, como de manhã, na presença de Deus, recitar devotamente as mesmas orações, fazer um breve exame de consciência, e pedir perdão a Deus dos pecados cometidos durante o dia.” (n. 981)

De fato, quem possui ou já folheou algum bom livro de orações, deve ter notado a presença de inúmeras fórmulas de oração da manhã e oração da noite. É um costume antigo das famílias católicas ensinar a seus filhos, desde a mais tenra infância, esse gênero de preces. Mais do que decorar, porém, esta ou aquela fórmula de oração em particular, o mais importante aqui é entender o porquê de as rezarmos. Por que não bastaria, por exemplo, rezar um Terço ou fazer uma oração mental ao longo do dia?

Essa questão admite múltiplas respostas, mas nesta matéria queremos falar da oração da manhã e da oração da noite principalmente como remédios para a nossa soberba.

“Soberba? Não temos coisas mais importantes com que nos preocupar?” Talvez você não saiba — e, se não sabe, deveria assistir ao nosso curso de Terapia das Doenças Espirituais —, mas o pecado de Adão e Eva, ao contrário do que pensa a maioria das pessoas, não foi um pecado de natureza sexual. Nossos primeiros pais pecaram por soberba, o mesmo pecado pelo qual caíram Lúcifer e todos os demônios. E talvez você não saiba também — se não sabe, tem mais um motivo para fazer o nosso curso de Terapia das Doenças Espirituais —, mas o pecado de soberba é a raiz de todos os pecados. Não se trata, portanto, de algo de pouca importância, mas da causa mesma de nossa condição decaída neste mundo.

Para entender mais concretamente o que é esse pecado, partamos desta indagação do Apóstolo, dirigida aos orgulhosos: “O que há de superior em ti?”, ele pergunta. “Que é que possuis que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se o não tivesses recebido?” (1Cor 4, 7). No fundo da soberba está uma desconexão com as verdades da Criação e da Redenção: ao invés de reconhecermos que fomos criados por Deus, que dEle recebemos o ser e, na ordem da graça, a remissão dos nossos pecados e a vida sobrenatural, gloriamo-nos do que somos e temos como se não o houvéssemos recebido. Funciona, na prática, como uma espécie de ateísmo: Deus não existe, Deus não me dá nada, eu sou bom e eu me basto.

O primeiro e mais óbvio remédio para essa realidade chama-se : contra o espírito autossuficiente e rebelde a Deus de nossa época, “é esta a vitória que vence o mundo” (1Jo 5, 4). Contra a soberba em especial, é preciso reconhecer como “grandíssima verdade o fato de nada de bom proceder de nós; só o fazem a miséria e a insignificância” (Santa Teresa, Sextas Moradas, 10, 7). Em outras palavras, precisamos de humildade!

Mas essas duas virtudes, que estão no fundamento da nossa vida com Deus (cf. S. Th., II-II, q. 161, a. 5, ad 2), devem se manifestar de um modo bem visível nas ações do nosso dia. Daí a importância de rezarmos pela manhã, ao nos levantarmos, e à noite, ao nos deitarmos.

Quando dormimos e levantamos de qualquer jeito, sem separar algum tempo para falar com Deus — e gastando, pelo contrário, nossos primeiros e nossos últimos minutos no smartphone, na TV ou em qualquer outra atividade —, o que estamos dizendo é: “Eu vivo do jeito que eu quiser. O princípio e o fim da minha vida sou eu mesmo. Eu me basto.” É como se fôssemos pequenos deuses, que não devem satisfação de nada, a ninguém.

É evidente que o fato de uma pessoa não fazer uma oração da manhã ou uma oração da noite não fará dela uma ateia. O que estamos dizendo é que o desleixo com essas orações vai criando dentro de nós um mau hábito e uma verdadeira ruptura na nossa relação com Deus. Se Ele é mesmo o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim de tudo o que foi, é e há de ser, se nós realmente cremos nisso, por que o começo e o final dos nossos dias não são passados com Ele? Se foi Ele quem nos deu tudo, por que não começamos tudo olhando para Ele? Se é nEle que tudo terminará — como será no dia em que morrermos —, por que não terminamos tudo elevando a Ele o nosso pensamento?

A verdade é que temos pouca fé. Para muitos de nós, Deus ainda é uma “ilusão confortável”, um “placebo” que eu tomo só para me sentir bem e, depois, “vida que segue”. Mas, se nós acreditássemos mesmo em tudo o que dizemos acreditar quando vamos à Missa, quando fazemos uma visita ao Santíssimo (ou mesmo quando ostentamos a nossa “catolicidade”, pessoalmente ou na internet), nós não viveríamos o restante de nossas horas do modo como vivemos, como se estivéssemos tentando nos livrar de Deus…!

Se você se sente assim, entregando-se a Deus pela metade, se você sente que seu coração não está no lugar em que deveria estar, saiba: é Ele mesmo quem está, através dessa pequena “amargura”, chamando você a uma sinceridade maior de coração e a uma conversão mais profunda. Reze, peça a Ele sinceramente a graça de crer mais, de amar mais… e, de fé em fé, seremos transformados do primeiro Adão, egoísta e negligente no serviço do Senhor, em verdadeiras imagens de Cristo.

Mas não nos esqueçamos de fazer este bom propósito: uma pequena oração ao acordarmos e um breve exame de consciência ao dormirmos. É a partir dessas práticas aparentemente insignificantes que Deus irá realizar em nós a grande obra de santidade que Ele nos tem preparada desde a fundação do mundo.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

A “fake news” que humilhou jovens católicos nos Estados Unidos
Sociedade

A “fake news” que humilhou
jovens católicos nos Estados Unidos

A “fake news” que humilhou jovens católicos nos Estados Unidos

Numa época de “luta de classes”, parece ser uma lei editorial promover o descrédito e a ridicularização de quem quer que se atreva a crer num Deus acima dos céus e a defender uma vida dentro do útero.

Equipe Christo Nihil Praeponere31 de Janeiro de 2019
imprimir

Parecia um fato absurdo: um grupo de rapazes brancos, católicos e pró-vida zombando de um índio idoso, durante um protesto na capital americana. Ao menos era essa a impressão que causava um vídeo que se tornou viral na manhã de 19 de janeiro, provocando reações instantâneas em toda a mídia. Às pressas, o The New York Times mandou publicar como manchete: “Boys in ‘Make America Great Again’ Hats surrounding Native Elder at Indigenous Peoples March”, algo assim em português: “Garotos com bonés do ‘Faça a América grande outra vez’ cercam índio idoso, na Marcha dos Povos Indígenas”. Outros tantos jornais repercutiram a mesma história logo em seguida, acompanhados pelo coro de sabe-se lá quantos políticos, artistas e ativistas dos direitos humanos.

A polêmica repercutiu até na Igreja e em sítios católicos na internet. A escola onde os adolescentes estudam, Covington Catholic High School, precisou fechar as portas naquela semana, dada a quantidade de ameaças e protestos contra a instituição. Para apaziguar os ânimos, sugeriu-se a expulsão dos meninos. Dom Roger Foys, bispo da diocese de Covington, em Kentucky, também condenou a agressão e aproveitou para se desculpar pelo incidente. Na página da Marcha pela vida, evento do qual os rapazes haviam participado poucas horas antes de o problema acontecer, os organizadores emitiram um comunicado repudiando a zombaria contra os indígenas. Enfim, padres, blogueiros católicos e demais lideranças embarcaram na narrativa midiática, que expressava indignação contra os rapazes, aqueles “fascistas”, e exigia as devidas providências.

O respeito ao ser humano é um dever de justiça. Por isso, não há dúvida de que o comportamento dos estudantes mereceria toda censura, não fosse um importante detalhe: eles não haviam feito nada. Depois das primeiras manchetes da imprensa, outros vídeos surgiram na internet, mostrando a história completa de tudo o que, de fato, havia ocorrido em frente ao Monumento a Lincoln, em Washington. Não houve zombaria contra nativos, não houve tentativa de intimidação nem bloqueio de passagem. Foi Nathan Phillips, o senhor que aparece no vídeo tocando um tambor na cara de outro rapaz, Nick Sandmann, quem livremente se aproximou dos estudantes para, supostamente, “ouvir seus ataques”. Ao contrário, os meninos do Covington Catholic High School é que haviam sofrido ataques por parte de outro grupo de manifestantes, os Israelitas Negros Hebreus, que os chamavam de “racistas”, “viados” e “ratos brancos”. Os meninos brancos, católicos e pró-vida apenas cantavam para encobrir os insultos quando Nathan Phillips se aproximou.

Em tempo, o jornalista Gleen Beck fez o excelente trabalho de reunir todos os vídeos e organizá-los segundo a sequência lógica dos fatos. Na tarde de 18 de janeiro, três manifestações ocorriam na cidade de Washington: a Marcha pela Vida, a Marcha dos Povos Indígenas e um protesto dos Israelitas Negros Hebreus, estes conhecidos por suas posições radicais e extremistas. Quando os jovens chegaram ao Monumento a Lincoln para tomarem o ônibus de volta a Covington, já acontecia uma confusão entre os dois outros grupos, como mostram as imagens dos vídeos. Foram os Israelitas Negros Hebreus que iniciaram a provocação. Sem entender o que se passava no local, e diante dos insultos que começaram a receber, os meninos apenas entoaram cantos da escola e algumas danças. Foi nesse momento que o ativista Nathan Phillips se aproximou deles para tocar-lhes o tambor. Eles não insultaram ninguém, não agrediram ninguém, não oprimiram ninguém. No local errado e na hora errada, esses garotos foram vítimas de um vídeo maldosamente editado, que se revelou mais tarde uma grande farsa.

Mas a mídia já havia feito seu serviço de causar a primeira impressão. Apesar das desculpas e lamentações pelo equívoco por parte dos jornais, os meninos brancos, católicos e pró-vida terão sempre na testa a marca de um crime que não cometeram. Nick Sandmann foi ameaçado de morte. Numa época de “luta de classes” — hostil ao cristianismo e à vida —, promover o descrédito e a ridicularização de quem quer que se atreva a crer num Deus acima dos céus e a defender uma vida dentro do útero parece ser uma lei editorial. Nick Sandmann e seus colegas empunhavam bandeiras contrárias aos valores mainstream: marchavam contra o aborto e defendiam uma “América grande de novo”, slogan não só do presidente Trump, mas que já foi usado por outros políticos como Ronald Reagan e, imaginem só, Bill Clinton. Isso tudo bastava para que jornalistas burlassem o protocolo de checar as fontes antes de publicá-las. The New York Times é aquele mesmo jornal que, anos atrás, publicou um anúncio incentivando os católicos a abandonar a Igreja. A causa acima da ética.

O que assusta, no entanto, é como católicos se deixaram ludibriar por um vídeo de apenas alguns minutos, unindo-se à narrativa da mídia contra os estudantes do Covington Catholic High School. De quem justamente se esperava prudência, a mãe de todas as virtudes, veio primeiro justiça. Diante de toda pressão, era preciso condenar rapidamente aquele episódio, a fim de que a Igreja passasse uma imagem positiva para o mundo, que espumava de ódio e indignação. De fato, a imprensa conseguiu machucar tanto a imagem dos católicos — sobretudo pelos desgraçados escândalos de pedofilia — que, agora, qualquer mínima suspeita levantada pelos jornais contra algum membro da Igreja é o bastante para que nós, católicos, disparemos anátemas e penitências. Para a nova mentalidade, todo católico deve ser considerado um racista-homofóbico-misógino-pedófilo em potencial, até que se prove o contrário.

O sr. Nathan Phillips, frente a frente com o jovem católico Nick Sandmann.

O incidente com os alunos do Covington Catholic High School é apenas mais um episódio de uma narrativa que se deseja construir contra o cristianismo: a de que se trata de uma religião perversa e inimiga da sociedade. No passado, os católicos podiam se ufanar da própria fé, com as mesmas palavras de Santo Agostinho aos fautores do Estado:

Os que dizem que a doutrina de Cristo é contrária ao bem do Estado dêem-nos um exército de soldados tais como os faz a doutrina de Cristo, dêem-nos tais governadores de províncias, tais maridos, tais esposas, tais pais, tais filhos, tais mestres, tais servos, tais reis, tais juízes, tais contribuintes, enfim, e agentes do fisco tais como os quer a doutrina cristã! E então ousem ainda dizer que ela é contrária ao Estado! Muito antes, porém, não hesitem em confessar que ela é uma grande salvaguarda para o Estado quando é seguida (Epist. 138 [al. 5] ad Marcellinum, cap. II, n. 15).

Hoje esse discurso não só parece soberbo como completamente fora da realidade. A ênfase com que os meios de comunicação expuseram os maus exemplos de tantos soldados, políticos e familiares católicos criou na mentalidade comum dos fiéis um verdadeiro “complexo de inferioridade”, como afirma a colunista Charlotte Allen, de modo que quase nos envergonhamos de servir ao Senhor. Ser católico não parece mais uma graça, mas um defeito.

Para todos os efeitos, tanto o bispo da diocese de Covington como os organizadores da Marcha pela Vida e outros líderes católicos pediram desculpas aos jovens. “Nós não deveríamos ter nos deixado intimidar a fazer uma declaração tão prematura”, lamentou Dom Roger Foys. A “fake news” que humilhou esses jovens católicos nos Estados Unidos expõe, no fim das contas, o estado da guerra cultural contra o cristianismo e a crise pela qual passam as instituições católicas. De um lado, uma elite anticristã cada vez mais descarada, oportunista e mentirosa, disposta a tudo para sepultar os valores cristãos da sociedade, até assassinar a reputação de jovens estudantes; do outro, uma Igreja confusa com o barulho do mundo, pressionada pela bagunça entre a moral politicamente correta e a moral cristã.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Que tal morrer e... virar adubo?
Sociedade

Que tal morrer e... virar adubo?

Que tal morrer e... virar adubo?

Que diferença faz se o lugar do repouso final de uma pessoa for a base de uma árvore, ao invés de um túmulo? Se não tivéssemos alma e se não houvesse vida eterna, de fato, não faria diferença nenhuma.

John Horvat IITradução: Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Janeiro de 2019
imprimir

Desde tempos imemoriais as pessoas têm enterrado seus mortos. Algumas vezes elas chegaram mesmo a arriscar as próprias vidas para cumprir esse dever básico de humanidade. Em tempos de perseguição, por exemplo, os cristãos se colocavam em grande perigo para reaver os corpos dos mártires, a fim de que estes passassem pelos ritos sagrados da sepultura cristã.

O Velho Testamento conta a história do velho Tobit, que, quando exilado em Nínive, observava a lei hebraica de enterrar os mortos, indo contra os desejos do Rei Senaquerib (cf. Tb 1, 20).

Até povos antigos como os gregos se sentiam compelidos a tributar uma reverência final aos defuntos. Na peça Antígona, Sófocles conta a história de uma irmã que desafia as ordens do tirano grego Creonte de não enterrar o seu irmão, que ele havia derrotado em batalha. Ela proclama então que o direito de enterrar o próprio irmão provinha de leis “que nunca foram escritas, mas são irrevogáveis; não existem a partir de ontem, ou de hoje; são eternas, sim! E ninguém sabe desde quando vigoram!”

O corpo humano é algo sagrado e deve ser tratado com todo o respeito e a dignidade devidas. Sempre foi dessa forma. Ninguém precisava explicar o porquê de os defuntos serem enterrados — até a nossa época.

Compostagem: um ato ecorreligioso. — De fato, quando a vida humana é tida como um bem disponível por meio do aborto e da eutanásia, o que poderia restar aos cadáveres humanos? De qualquer modo, é difícil não se chocar com um projeto de lei que tramita na Assembleia Legislativa de Washington, e com grande chance de ser aprovado: os legisladores estão trabalhando para autorizar um novo processo chamado “compostagem”, por meio do qual os seres humanos serão transformados em adubo.

A reciclagem humana não é apenas uma alternativa prática ao enterro. Trata-se de um ato ecorreligioso. Seus defensores promovem-no abertamente como uma expressão de justiça social e fervor ecológico. Ele se encaixa dentro de uma visão panteísta de mundo onde tudo é reduzido a matéria em constante transformação.

O processo de reciclagem humana consiste em colocar restos humanos em um reservatório juntamente com lascas de madeira, alfafa e outros materiais orgânicos para acelerar a decomposição. Depois de um mês, o corpo é reduzido a um metro cúbico de solo rico em nutrientes que pode ser usado para o plantio de árvores e o benefício do planeta.

Um manifesto antimetafísico. — Algumas pessoas pragmáticas não verão problema algum no processo. Elas dirão que pelo menos se dará um bom uso ao cadáver, promovendo o enriquecimento do solo e prevenindo a emissão de gás carbônico, responsável pelo aquecimento do planeta. Que diferença faz se o lugar do repouso final de uma pessoa for a base de uma árvore, ao invés de um túmulo?

De fato, não faria diferença nenhuma... se não existissem almas. A grande realização dos ecologistas que criaram a “compostagem” não é o desenvolvimento da engenhoca mecânica que transforma os humanos em adubo, mas sim a derrocada daquelas leis jamais escritas e irrevogáveis, inerentes à natureza humana, que nos impelem a reverenciar os mortos desde tempos imemoriais.

O processo aparentemente inofensivo de “compostagem” é como a publicação de um manifesto antimetafísico que, de modo implícito, nega a existência da alma, a ressurreição da carne e a necessidade da redenção. Ele leva a sugestões ainda mais radicais, como a de que a vida e a história humanas não têm nem sentido nem propósito algum.

Grande cuidado ao lidar com os mortos. — A Igreja sempre mostrou o maior cuidado ao lidar com os mortos. Enterrá-los é um ato de misericórdia. A Igreja os sepulta com grande pompa e cerimônia, além de manter cemitérios e consagrar o solo que cobrirá os corpos dos fiéis. Ainda que permita a cremação, ela insiste em que mesmos esses restos devem ser tratados com grande reverência, não podendo ser dispersos em lugares que todas as pessoas podem pisar.

As razões para esse grande cuidado são muitas:

  1. Templo do Espírito Santo. — A Igreja toma grande cuidado ao tratar dos corpos dos fiéis batizados porque ela sabe que o corpo não é apenas uma carcaça que pode ser jogada fora uma vez que a alma se foi. Para os cristãos, o sepultamento não é o descarte de uma coisa. É um aspecto do cuidado devido a toda pessoa humana, cuja alma continua a existir e está nas mãos de Deus. A Igreja ensina que o corpo é sagrado porque é templo do Espírito Santo, o instrumento por meio do qual a alma cristã se expressava em vida. De fato, o corpo foi lavado nas águas do Batismo, ungido com os óleos da salvação e alimentado pela Sagrada Eucaristia. O corpo foi o meio através do qual atos de caridade e virtude foram praticados. Não é adequado que o mesmo corpo seja tratado com indiferença e negligência.
  2. A ressurreição do corpo. — O sepultamento dos mortos está associado à crença na ressurreição dos mortos no fim dos tempos. Nós, católicos, cremos que todos os homens ressuscitarão para o Juízo Final. Por isso, a reverência e o cuidado dispensados ao corpo derivam da honra e do respeito pela pessoa falecida. Não somos livres para dispor dos corpos como se eles fossem lixo ou adubo. O corpo que é enterrado pertence à pessoa que ressuscitará um dia e novamente tomará posse de seu corpo. A crença na ressurreição dos mortos é essencial à fé. Negar essa verdade é rejeitar a Ressurreição de Cristo e a necessidade da redenção. Sem esses dogmas relativos à vitória de Cristo sobre a morte e à promessa de vida eterna, a fé perde o seu sentido.
  3. A morte não termina relacionamentos. — Outra razão pela qual a Igreja sepulta os mortos é o reconhecimento de que a morte não dá fim a nosso relacionamento com os fiéis defuntos. Eles são simplesmente transformados. Os mortos ainda são parte da comunidade cristã. O devido sepultamento fornece os meios para as famílias cumprirem suas obrigações para com seus entes queridos. Rezar pelos mortos é um ato de misericórdia espiritual, estimulado pelo enterro e pelas visitas aos cemitérios. As Missas oferecidas pelo repouso das almas são ainda outra forma de demonstrar caridade para com os mortos. De sua parte, as pobres almas do Purgatório também podem interceder pelos vivos. Assim, o falecido se beneficia da participação da comunidade paroquial, que estende esses relacionamentos para além da morte. Ao mesmo tempo, a comunidade passa a reconhecer o impacto da intercessão que as pessoas podem realizar umas pelas outras. O fiel defunto é integrado à história da comunidade, registrada como ela costuma ser pela Igreja.

Ecologistas radicais e o fim do homem. — Mas quão diferente da prática cristã é a opção da “compostagem” agora em debate! Implícita nessa iniciativa está a noção secular moderna do homem como um ser desprovido de alma ou de qualquer propósito na vida. O corpo é uma mera fase no processo de constante transformação da matéria. Um indivíduo não tem nenhum significado, nenhuma história real, nenhum destino eterno.

Era a partir de uma concepção assim que o filósofo Bertrand Russell († 1970) era capaz de afirmar que “a origem do homem, o seu crescimento, os seus temores e esperanças, as suas crenças e amores, constituem o resultado de colocações acidentais de átomos; nenhuma paixão, nenhum heroísmo, nenhuma intensidade de pensamento ou de sentimento pode preservar uma vida individual além do túmulo”.

Os ecologistas de hoje deduzem conclusões ainda mais radicais a partir dessa visão secular. Eles não só acreditam que os seres humanos são insignificantes; acham que eles são prejudiciais ao planeta Terra. Alguns denunciam a humanidade como um vírus que melhor seria que fosse varrido da Terra. Eles deploram a civilização e aspiram por viver (ou morrer) em harmonia com a natureza.

Na verdade, se uma ditadura ecológica vier a estabelecer-se sobre a Terra (além das amplas regulações socialistas já vigentes), a opção da “compostagem” não será mais opcional, mas obrigatória.

Sobre a extinção da espécie humana. — Essas ideias mórbidas sobre a humanidade são mainstream em muitos setores da sociedade. Um professor de filosofia universitário escreveu recentemente para o jornal The New York Times se perguntando se a extinção da espécie humana seria uma tragédia. “A extinção da humanidade poderia fazer do mundo um lugar melhor e, ao mesmo tempo, ser uma tragédia”, ele medita. “Eu não gostaria de dizer isso com segurança, já que o assunto é bem complexo. Mas certamente parece uma possibilidade real, e que por si mesma me perturba.”

Considerações assim sombrias e desanimadoras são o pano de fundo de um espírito de infelicidade e depressão que assombra e escarnece da sociedade pós-moderna. Somente a Igreja tem a resposta adequada para essas questões, baseada como está em leis jamais escritas e irrevogáveis, que dão à vida humana sentido e propósito.

Obviamente, o fato de muitos não acreditarem na existência da alma ou na vida eterna não muda a realidade das coisas. A alma de fato existe. Deus realmente criou e redimiu a humanidade. Haverá, sim, uma ressurreição geral e o Juízo Final para ratificar nosso destino eterno, seja ele passado no Céu ou no Inferno. O homem não é uma colisão acidental de átomos compostos; ele foi criado para se tornar filho adotivo de Deus e coerdeiro de seu Reino.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Deus predestinou uns ao céu e outros ao inferno?
Doutrina

Deus predestinou
uns ao céu e outros ao inferno?

Deus predestinou uns ao céu e outros ao inferno?

Se Deus criou os homens sabendo que iriam uns para o céu e outros para o inferno, seria correto dizer que Ele “predestinou” algumas almas a serem condenadas?

Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Janeiro de 2019
imprimir

Se Deus criou os homens sabendo que iriam uns para o céu e outros, para o inferno, seria correto dizer que Ele predestinou algumas almas a serem condenadas, assim como predestinou outras à salvação eterna?

Deve guiar-nos nesta resposta um versículo bíblico: “Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2, 4). Isso significa, em primeiro lugar, que não: Deus não criou nenhum ser humano com a intenção de condená-lo ao inferno. Essa tese — assumida por Calvino em suas consequências mais absurdas, a ponto de o herege reformador defender que Deus teria predestinado o ser humano inclusive ao pecado — deve ser descartada antes de qualquer coisa, sob o risco de blasfemarmos contra a justiça e a santidade divinas. Adotá-la equivaleria a dizer que Deus deseja o mal a suas criaturas.

Mas o termo predestinação admite, de fato, inúmeros sentidos. Por isso, antes de nos aprofundarmos na questão teológica, seria importante deixar bem claro a que, afinal, estamos nos referindo quando usamos este termo.

Em um sentido mais amplo, predestinação seria “todo decreto divino por meio do qual Deus, devido à infalível presciência que tem do futuro, fixou e ordenou desde a eternidade todos os eventos que ocorreriam no tempo, especialmente os procedentes diretamente, ou pelo menos influenciados pelo livre-arbítrio do homem” [1]. Neste sentido, falar de predestinação seria o mesmo que falar da Providência Divina, que todas as coisas governa com sabedoria.

Em um sentido mais estrito, porém, a predestinação diz respeito ao destino eterno que Deus tem reservado para suas criaturas racionais e, em especial, aos seres humanos. Teríamos de falar aqui, portanto, de uma dupla predestinação: uma ao céu e outra ao inferno (sendo esta mais comumente chamada de “reprovação”).

Mas as duas precisam ser entendidas do modo ortodoxo. Santo Tomás de Aquino, ao responder se Deus reprova algum homem (S. Th., I, q. 23, a. 3), explica que “a predestinação [ao céu] inclui a vontade de conferir a graça e a glória, assim também a reprovação inclui a vontade de permitir que alguém caia em culpa e de infligir a pena da condenação por esta culpa”. Note-se que os verbos usados pelo Aquinate não são os mesmos: em relação aos predestinados, há a vontade de conferir a graça e a glória; em relação aos condenados, há a vontade de permitir que pequem e de infligir a pena devida pelo pecado. As palavras são importantes porque deixam clara a interferência da liberdade humana no projeto original de Deus: embora Ele queira, de fato, que todos os homens se salvem, alguns, em virtude do “não” que respondem ao amor divino, terminam se condenando.

Explicação melhor a esse respeito encontramos ainda na Suma Teológica, quando Santo Tomás afirma, em relação à passagem de que “Deus quer que todos os homens se salvem”, tratar-se aqui de sua vontade antecedente, e não de sua vontade consequente:

Essa distinção não se toma da parte da própria vontade divina, em que não existe antes nem depois, mas da parte das coisas que Ele quer. Para compreendê-lo, é preciso considerar que qualquer coisa, na medida em que é boa, é querida por Deus. Ora, algo pode ser à primeira vista considerado, de modo absoluto, bom ou mau; ao passo que, considerado com outra coisa, e esta é uma consideração consequente, seja exatamente o contrário.

Por exemplo: que um homem esteja vivo é um bem, matar um homem é mal, se consideramos de modo absoluto. Se, contudo, se acrescenta, para determinado homem, que é um assassino ou um perigo para a coletividade, sob esse aspecto é bom que este homem seja morto, é um mal que viva. Daí poder-se falar de um juiz justo: quanto à vontade antecedente quer que todo homem viva, mas quanto à vontade consequente quer que o assassino seja enforcado. Assim também Deus quer, quanto à vontade antecedente, que todos os homens sejam salvos, mas quanto à vontade consequente quer que alguns sejam condenados, segundo exige sua justiça (I, q. 19, a. 6, ad 1).

Em suma, o responsável pela própria condenação é sempre o homem, nunca Deus.

O mesmo não se pode dizer, no entanto, da predestinação ao céu, sob o risco de incorrermos no extremo do pelagianismo. A obra da salvação do homem, desde o início até a sua consumação, é de iniciativa divina, pois é Deus “que opera em nós o querer e o fazer” (Fl 2, 13): Ele, “aos que predestinou, também os chamou; e aos que chamou, também os justificou; e aos que justificou, também os glorificou” (Rm 8, 30).

Esse trabalho de Deus não dispensa, é claro, a colaboração humana: “Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti”, dizia Santo Agostinho. Em inúmeras passagens do Evangelho, o céu e o inferno são tratados como o “prêmio” e o “castigo” eternos devidos a nossas obras boas ou más. Não é verdade, portanto, que nos salvaremos por puro arbítrio divino, não importando o que fizermos ou deixarmos de fazer. Se o nosso nome estiver escrito no Livro da Vida, isso se deverá sem dúvida nenhuma à misericórdia divina, mas à misericórdia que nós livremente aceitamos dizendo “sim”, dia após dia, à vontade de Deus.

Nesta vida, porém, ninguém pode estar seguro da própria salvação. Escutemos a esse respeito o que ensinou o imortal Concílio de Trento, respondendo às angústias mal resolvidas dos autores da “Reforma” Protestante e advertindo-nos da necessidade de viver santamente:

Ninguém [...], enquanto vive nesta condição mortal, deve presumir do arcano mistério da predestinação divina a ponto de se julgar, seguramente, no número dos predestinados, como se fosse verdade que quem foi justificado ou não pode mais pecar ou, se pecar, deve contar com um seguro arrependimento. Pois não se pode saber a quem Deus escolheu para si, senão por uma especial revelação.

De modo semelhante deve-se dizer em relação ao dom da perseverança, do qual está escrito: “Quem perseverar até o fim, será salvo” (Mt 10, 22) [...]. Ninguém, quanto a este dom, imagine alguma coisa com absoluta certeza, embora todos devam nutrir e guardar firmíssima esperança no auxílio de Deus. Pois, se não falharem quanto à sua graça, Deus, como começou a boa obra, assim também a levará a termo, operando o querer e o realizar (cf. Fl 2, 13).

Todavia, aqueles que crêem estar em pé cuidem de não cair (cf. 1Cor 10, 12) e realizem a própria salvação com temor e tremor (cf. Fl 2, 12), nas fadigas, nas vigílias, nas esmolas, nas orações e nas ofertas, nos jejuns e na castidade (cf. 2Cor 6, 5s). Sabendo que foram regenerados na esperança da glória (cf. 1Pd 1, 3), mas não ainda na glória, devem temer pela batalha que ainda resta contra a carne, contra o mundo, contra o diabo, da qual não podem sair vencedores, se não obedecerem, com a graça de Deus, às palavras do Apóstolo: “Somos devedores, mas não à carne, para vivermos segundo a carne; pois, se viveis segundo a carne, morrereis. Se, ao contrário, no Espírito fazeis morrer as obras da carne, vivereis” (Rm 8, 12) [2].

— Agora estou em parafusos! Ninguém pode ter certeza da própria salvação? É possível, então, que uma pessoa cumpra a vontade de Deus ao longo de toda a vida e, no último instante, consentindo em um pecado mortal, seja condenada ao inferno? Como pensar nisso e não enlouquecer?

Tendo “firmíssima esperança no auxílio de Deus”, como diz o Concílio de Trento e como ensina este episódio da biografia de São Francisco de Sales:

Entre fins de 1586 e começos de 1587, quando ainda estudava em Paris, [Francisco] tomara contato com a tese teológica da predestinação, defendida pelos protestantes (em especial Calvino) e por alguns autores católicos, e muito discutida na universidade. Ao debruçar-se sobre esse problema, começara a duvidar da própria salvação — muito embora, tanto quanto é possível sabê-lo, nunca tenha cometido um único pecado mortal —, e passara uns bons dois meses acossado por uma tentação obsessiva de desespero que lhe ia roendo a paz de espírito e até a saúde física.

Livrara-se dela num dia em que, ajoelhado diante de uma imagem de Nossa Senhora, fizera a única coisa possível a quem se encontra nessa situação: um ato heroico de abandono e de esperança em Deus. Declarou ao Senhor que estava disposto a amá-lo durante esta vida mesmo que o seu destino fosse a condenação eterna, e abandonou todas as dúvidas acerca da sua salvação na Misericórdia divina [3].

A exemplo de São Francisco de Sales, confiemo-nos à Virgem Maria, “esperança nossa”, sempre que nos ocorrer qualquer tentação, seja ao desespero, seja à presunção. E aprendamos a ter sempre em mente este ato de esperança: “Eu espero, meu Deus, com firme confiança, que pelos merecimentos de meu Senhor Jesus Cristo, me dareis a salvação eterna e as graças necessárias para consegui-la, porque vós, sumamente bom e poderoso, o haveis prometido a quem observar fielmente os vossos mandamentos, como eu proponho fazer com o vosso auxílio”. Amém.

Referências

  1. Joseph Pole, “Predestination”. The Catholic Encyclopedia, v. 12. New York: Robert Appleton Company, 1911.
  2. Concílio de Trento, Decreto sobre a justificação, 6.ª sessão, 13 jan. 1547, cc. 12-13 (DH 1540-1541).
  3. Joseph Tissot, A arte de aproveitar as próprias faltas, trad. de Emérico da Gama. 3.ª ed., São Paulo: Quadrante, 2003, p. 10.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.