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Os leigos e a crise na Igreja
Espiritualidade

Os leigos e a crise na Igreja

Os leigos e a crise na Igreja

Ainda que o ofício de ensinar tenha sido confiado diretamente à hierarquia da Igreja, os fiéis leigos não só podem, como devem “pregar”, especialmente em tempos como os nossos.

Peter Kwasniewski,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Setembro de 2018
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Ainda que o ofício de ensinar tenha sido confiado diretamente à hierarquia da Igreja (o Papa e os bispos em si mesmos, e padres e diáconos por extensão), os leigos não só podem, como devem “pregar”. Neste tempo de grande confusão entre os próprios membros da hierarquia, que supostamente deveriam exercer esse ofício, a “pregação” do laicato  — incluindo sua maciça presença na internet — assume uma importância ainda maior.

Esse tema já foi abordado pelo Papa Leão XIII em sua carta encíclica Sapientiae Christianae, de 1890. Tendo recordado que cabe ao episcopado ensinar com autoridade em nome de Cristo, o Papa afasta uma falsa conclusão que disso se poderia extrair:

Não pense ninguém que ficou proibido aos particulares cooperar com alguma diligência nesse ministério de ensinar, principalmente aos homens a quem Deus concedeu dotes de inteligência junto com o desejo de serem úteis ao próximo. […] ‘A todos os fiéis cristãos, principalmente àqueles que tem superioridade e obrigação de ensino, suplicamos pelas entranhas de Jesus Cristo, e em virtude da autoridade deste mesmo Senhor e Salvador nosso lhes ordenamos, que apliquem todo o seu zelo e trabalho em desviar esses erros e eliminá-los da luta da Igreja, e difundir a luz puríssima da nossa fé’ (Concílio Vaticano I, Cons. Dogm. Dei Filius).

Por fim, lembrem-se todos que podem e devem disseminar a fé católica com a autoridade do exemplo e pregá-la com uma profissão constante. Desse modo, nos deveres que nos ligam com Deus e com a Igreja está em primeiro lugar o zelo com que cada qual deve trabalhar segundo as suas forças em propagar a doutrina cristã e refutar os erros.

Quando uma pessoa é batizada, ela é introduzida no múnus sacerdotal, profético e régio de Cristo Senhor (cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 901-913): é o que denominamos “sacerdócio universal dos fiéis”. Devido ao caráter sacramental impresso na essência de suas almas, os cristãos têm o poder de oferecer a Deus seus corpos e almas, seus trabalhos e sofrimentos — o mundo inteiro, enfim, que geme por salvação. Esse ato de auto-oblação, em união com o Salvador da humanidade, e de esforço por conduzir as realidades temporais à sua finalidade evangélica, deve penetrar todos os aspectos da vida diária do cristão, ainda que ele sempre venha a encontrar a resistência do mundo, da carne e do diabo.

É assim também que Santo Tomás de Aquino entende os efeitos do sacramento da Confirmação (cf. Suma Teológica, III, q. 72): a todo cristão, em virtude do caráter sacramental conferido por essa unção, é dada a força para testemunhar publicamente a única fé verdadeira, seja pelo exemplo de vida, seja pela pregação e a apologética, seja por qualquer outro tipo de testemunho, inclusive o do sofrimento silencioso.

Para o laicato, assim como para as pessoas que estão na vida religiosa, pregar obviamente não significa uma pregação formal no contexto da liturgia. Mas, se tivermos um entendimento mais profundo de pregar como levar o Evangelho ao mundo e torná-lo vivo pela graça de Deus, veremos que não há limites para o número de maneiras através das quais a Boa Nova pode ser espalhada e compartilhada com as pessoas.

Cada religioso ou religiosa contemplativa que reza para a verdadeira reforma da Igreja, para a purificação e santificação do clero, bem como para o sucesso dos leigos em seu trabalho cristão no meio do mundo, pôe-se a serviço da missão apostólica de pregar. Sem as orações dos contemplativos, essas boas obras jamais se multiplicariam ou viriam a dar muitos frutos.

A mãe e o pai de família que ensinam seus filhos sobre Deus, que os introduzem na vida de Jesus, de sua Mãe e dos santos, são verdadeiros anunciadores da Boa Nova, transmissores do depósito da fé, “mestres da verdade e pregadores da graça”, como São Domingos. Através de um direito e um dever ao mesmo tempo natural e dado por Deus, eles servem como os primeiros catequistas e pregadores da fé a seus filhos e, nesse sentido, eles possuem um direito e um dever de transmitir a ortodoxia e afastar a heresia, que não podem ser removidos nem substituídos por pastor algum da Igreja — ainda que seja também verdade que o laicato permanece sob a guia e a autoridade magisterial de seus pastores, responsáveis que são por transmitir a palavra da verdade.

A pregação àqueles afundados no erro ou na descrença deve ser, no mais das vezes, ou apologética ou argumentativa, tentando mostrar a essas pessoas a verdade da posição católica. Mas também precisa fomentar as questões para as quais só o Evangelho — ou melhor, a Pessoa mesma de Cristo — pode dar respostas definitivas. Devido à disseminação do materialismo científico e comercial, existe hoje uma tremenda ignorância das realidades espirituais, uma falta de admiração a respeito de Deus e da alma, uma falta do tipo de questões que constituem terreno fértil para a graça da conversão. O convite a um banquete não é atrativo senão quando se tem fome e sede.

A pregação àqueles que já são católicos, seja os de nome, seja os que estão à margem, seja aos confusos, seja aos sinceros, tenderá a ser, por outro lado, expositiva e exortativa, um esforço por conduzir essas pessoas a um entendimento mais profundo, bem como a uma integração mais consistente de fé e vida. Os melhores “pregadores” leigos devem encontrar modos de acender nos católicos uma consciência do imenso caudal de graças que eles receberam no Batismo — sobretudo, o poder de receber Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, na Santa Comunhão: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim, e eu nele” (Jo 6, 56), e a tremenda misericórdia do sacramento da Confissão, por meio do qual o mesmo sangue lava os nossos pecados e restaura ou aumenta a graça em nossas almas.

Em tudo isso, nós podemos ver o enorme poder e responsabilidade do jornalismo e das publicações católicas em todos os meios de comunicação. Esse trabalho é parte da missão evangelizadora da Igreja, um verdadeiro apostolado de repassar a fé católica recebida.

Então, da próxima vez que você for tentado a reclamar de uma homilia ruim que escutou ou de um pastor que não está vivendo de acordo com seu ofício de pregador (seja porque ele está dizendo falsidades, sem falar nada de substancial, seja porque está vivendo de uma maneira que contradiz a fé católica), faça uma pausa, olhe para dentro de si mesmo e pergunte-se como anda a sua própria “pregação”: seu compromisso com a vida de oração, seu bom exemplo e suas obras de testemunho.

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Por que Nossa Senhora aparece chorando em La Salette?
Virgem Maria

Por que Nossa Senhora
aparece chorando em La Salette?

Por que Nossa Senhora aparece chorando em La Salette?

Em 19 de setembro de 1846, a Virgem Santíssima apareceu a Mélanie e a Maximin na montanha francesa de La Salette. Consigo a Mãe de Deus trazia uma mensagem, que ela revelou entre lágrimas.

Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Setembro de 2018
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Nossa Senhora apareceu em La Salette, no dia 19 de setembro de 1846, por causa de “duas coisas” principais, que estavam tornando pesado o braço de seu divino Filho. Ouçamos o que ela tem a revelar, entre lágrimas, a Mélanie, a Maximin e, através deles, a toda a humanidade:

Se meu povo não quer se submeter, sou forçada a deixar cair a mão de meu Filho. Ela é tão forte e pesada que não posso mais retê-la. Há quanto tempo sofro por vocês! Se quero que meu Filho não os abandone, sou obrigada a suplicá-lo incessantemente. E vocês nem se importam com isso. Por mais que rezem, por mais que façam, jamais poderão recompensar a aflição que tenho sofrido por vocês.

(1) Dei-lhes seis dias para trabalhar, e reservei-me o sétimo, e não me querem concedê-lo. É o que faz pesar tanto o braço de meu Filho.

(2) Os carroceiros não sabem falar sem usar o Nome de meu Filho. São essas duas coisas que tornam tão pesado o braço de meu Filho. [1]

Nós, os orgulhosos e descrentes homens do século XXI, somos quase tentados a não acreditar que a santíssima Mãe de Deus tenha saído do Céu, da bem-aventurança eterna em que se encontra, contemplando a face de seu divino Filho, simplesmente para nos dizer: parem de pecar contra o segundo e o terceiro mandamentos! Ela tem mais uma mensagem a passar, sim, principalmente às autoridades civis e religiosas, mas a primeira coisa que ela pede, aos dois videntes de La Salette, é para as pessoas guardarem os domingos e não tomarem o santo nome de Deus em vão.

A nós parece pouco? Infelizes de nós, meus amigos, que não temos dimensão do que seja o pecado! Se eram infelizes os homens do século XIX, castigados que foram por desrespeitar esses dois mandamentos, muito mais infeliz é a nossa época, que já há muito tempo lançou fora as próprias tábuas dos Mandamentos; que já há muito tempo deixou de temer a Deus…

Nossa apostasia, no entanto, já era prevista pela Virgem de La Salette, noutra parte de sua mensagem. Esta, Nossa Senhora havia pedido expressamente a Mélanie que a guardasse em segredo, até 1858, e dizia o seguinte:

No ano de 1864, Lúcifer e um grande número de demônios serão libertados do inferno: eles abolirão a fé pouco a pouco e mesmo nas pessoas consagradas a Deus; eles vão cegá-las de tal maneira que, exceto por uma graça particular, essas pessoas serão tomadas pelo espírito desses anjos maus; muitas casas religiosas perderão inteiramente a fé e perderão muitas almas.

Os maus livros abundarão sobre a terra, e os espíritos das trevas espalharão por toda parte um relaxamento universal em tudo aquilo que se refere ao serviço de Deus […]. A verdadeira fé estará extinta e a falsa luz iluminará o mundo. […] Os governantes civis terão todos o mesmo objetivo, que será abolir e fazer desaparecer todo princípio religioso, para dar lugar ao materialismo, ao ateísmo, ao espiritismo e a toda espécie de vícios.

No ano de 1865, a abominação será vista nos lugares santos; nos conventos, as flores da Igreja apodrecerão e o demônio tornar-se-á como o rei dos corações. Que aqueles que estão à frente das comunidades religiosas tomem cuidado com as pessoas que devem acolher, porque o demônio usará de toda sua malícia para introduzir nas ordens religiosas pessoas entregues ao pecado, pois as desordens e o amor aos prazeres carnais serão espalhados por toda a terra. […] Todos pensarão apenas em se divertir; os maus vão se entregar a toda espécie de pecados; mas os filhos da Santa Igreja, os filhos da fé, meus verdadeiros imitadores, crescerão no amor de Deus e nas virtudes que me são mais caras. […]

Tremei, ó terra, e vós que fazeis profissão de servir a Jesus Cristo e que, por dentro, adorais a vós mesmos, tremei; pois Deus vai entregar-vos a seu inimigo, porque os lugares santos estão na corrupção; muitos conventos não são mais casas de Deus, mas pastagens de Asmodeu e dos seus. […] Os homens estarão cada vez mais pervertidos [2].

Além da disseminação dos pecados carnais — também mencionados por Nossa Senhora em Fátima —, percebam que a principal profecia que se percebe ao longo de toda a mensagem de La Salette é a perda da fé: os demônios “abolirão a fé pouco a pouco”, “muitas casas religiosas perderão inteiramente a fé”, “a verdadeira fé estará extinta” etc.; ao mesmo tempo, e na contramão dessa tendência, “os filhos da Santa Igreja” são chamados pela Virgem Santíssima “os filhos da fé”.

Disso se deduz que a fé é importantíssima, e nunca se insistirá o bastante nesse ponto. Muitas vezes pode parecer exagero ficar repetindo, mas a ideia é que, de tanto ouvir essa mesma coisa, as pessoas finalmente se dêem conta da necessidade de crer — e crer não em qualquer coisa, mas sim em tudo o que crê e ensina a Santa Igreja Católica. Esse é o começo de tudo. De nada adiantaria, por exemplo, pregar sobre os deveres do cristão, sobre a importância de ir à Missa aos domingos ou fazer abstinência às sextas-feiras, de batizar os próprios filhos e contribuir com o dízimo na paróquia, se as pessoas, de maneira generalizada, deixaram de ter fé em Jesus Cristo e no que ensina a Igreja que Ele mesmo fundou.

Se as pessoas continuam a levar suas vidas no pecado mortal, elas podem até pagar “o dízimo da hortelã, do endro e do cominho”, como faziam os fariseus, mas “os preceitos mais importantes da Lei” continuarão a ser negligenciados (cf. Mt 23, 23). Se as pessoas não acreditarem que precisam abandonar o pecado, procurar o sacramento da Confissão e se reconciliar com Deus, nossas igrejas continuarão a ser lugar de sacrilégio e profanação, onde as pessoas comem e bebem a própria condenação (cf. 1Cor 11, 29). Pior do que isso: se não acreditarem no que diz o Catecismo, ao invés de dar ouvidos às modas ou às ideologias do momento, elas sequer acharão que precisam de conversão.

E é por isso que Nossa Senhora chora em La Salette. A mensagem que a santíssima Mãe de Deus veio nos trazer do Céu não é um tipo de “conscientização social”, dessas que se faz em uma propaganda banal de televisão; não é um recado “moralista”, de quem quer filhos “bem comportados” e seguindo à risca uma espécie de “manual de boas maneiras”. Não! Nossa Senhora apareceu em La Salette para chamar todos os seres humanos a um desafio radical, a uma mudança absoluta, que se chama conversão a Deus. Isso significa, em primeiro lugar, transformar completamente a nossa mentalidade, conformando-a à vontade divina, crendo naquilo que Deus revelou por meio de sua Igreja.

Por onde começar? A Virgem em La Salette só o que faz é repetir as palavras de Cristo ao jovem rico do Evangelho: “Se queres entrar na vida, observa os Mandamentos” (Mt 19, 17). Eis a nossa primeira vocação, eis o nosso primeiro desafio. Deus nos revelou que não devemos trabalhar no domingo, nem tomar seus santo nome em vão. Se nos parece pouco, se nos parece nada, será que Deus está errado ou somos nós, ao contrário, que temos pouca fé?

Deus nos revelou, e repetiu pela boca de Nossa Senhora, que precisamos rezar. Sem isso, não teremos forças para cumprir mandamento algum. As orações, “ah, meus filhos, é preciso fazê-las, à noite e pela manhã”, disse a Virgem aos videntes de La Salette. “Quando não puderem fazer melhor, rezem ao menos um Pai Nosso e uma Ave Maria; e quando tiverem mais tempo e puderem fazer melhor, rezem-nos por mais tempo” [3].

E nós, o que faremos? Trataremos o apelo da Virgem com indiferença? Ou nos deixaremos finalmente sacudir por suas lágrimas, saindo de nossa frieza e insensibilidade aos Mandamentos?

Nossa Senhora de La Salette chora por causa de nossos pecados; pior: chora por um século apóstata e sem fé, que até a noção de pecado já perdeu [4]. Se ela se revelou aos homens chorando, no entanto, é porque ainda há esperança, é porque Deus ainda busca a nossa conversão. Ouçamos a sua voz, despertemo-nos de nossa letargia e enxuguemos as lágrimas da Santíssima Virgem com uma vida de penitência e amor a Deus. Não pode haver nada que alegre mais o seu Sagrado Coração do que um pecador que se arrepende e volta para a casa do Pai (cf. Lc 15, 7).

Referências

  1. A Aparição da Santíssima Virgem na Montanha de La Salette em 19 de setembro de 1846. In: Léon Bloy, Aquela que chora — e outros textos sobre Nossa Senhora da Salette (trad. de Roberto Mallet), Campinas: Ecclesiae, 2016, pp. 149-150.
  2. Ibid., pp. 155-159.
  3. Ibid., p. 161.
  4. Cf. Papa Pio XII, Radiomensagem ao Congresso Eucarístico dos Estados Unidos, 26 de outubro de 1946.

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Por que exaltamos a Santa Cruz?
Espiritualidade

Por que exaltamos a Santa Cruz?

Por que exaltamos a Santa Cruz?

Por que os católicos celebram hoje um dos piores instrumentos de morte e tortura da história? Leia esta breve meditação e descubra por que nenhuma força terrena pode derrotar quem crê em Cristo crucificado.

Peter Kwasniewski,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Setembro de 2018
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Alguns anos atrás, participei de um retiro durante o qual um sábio diretor espiritual compartilhou insights profundos a respeito do mistério da Cruz. Em honra à festa de hoje — o Triunfo (ou Exaltação) da Santa Cruz —, permitam-me compartilhá-los com vocês, na medida do que me for possível. Trata-se de uma meditação muito conveniente, já que, aparentemente, a Igreja nunca participou de modo tão intenso do mistério da crucifixão como nesse momento da história.

A Santíssima Trindade, o Deus uno e trino, infinito e eterno, que existe antes e além de todas as coisas, e governa o universo com poder, sabedoria e amor — essa Trindade habita a alma em estado de graça. Um portento maravilhoso demais para entender! A alma espiritual feita à imagem de Deus torna-se o seu sacrário, o seu templo, o seu lugar de repouso, o seu deleite. Seja saboreando essa presença de Deus na quietude de uma meditação, seja simplesmente tendo fé nela com base nas palavras de Nosso Senhor (cf. Jo 14, 23), trata-se de uma verdade que é fonte de alegria e de fortaleza, especialmente quando estamos passando pela morte — seja ela metafórica, institucional ou mesmo física.

A fé e a esperança são necessárias, acima de tudo, quando não vemos nada e não temos nada em nossas mãos, quando somos pobres. E isto, em si mesmo, é algo com que devemos nos alegrar: o fato de sermos pobres! “Bem-aventurados os pobres em espírito”, disse Jesus, “porque deles é o Reino dos céus”. É deles, já agora. Quando estamos na escuridão, “no vale da sombra da morte” (como põe sinistramente a Escritura), nós precisamos mais do que nunca de fé e esperança; Deus está pedindo para que nos entreguemos em suas mãos, dependamos dEle, confiemos nEle, olhemos para Ele, procuremos a sua face.

A alegria da Santíssima Trindade está presente no coração do Crucificado, no centro mesmo da Cruz. A Cruz é a fonte de nossa vida cristã; foi a Paixão de Cristo o que nos redimiu do pecado, abriu-nos os portões do céu, granjeou-nos a amizade divina.

Mas a Cruz nunca é o fim, seja para Cristo, seja para o cristão. A Paixão atinge o seu cumprimento na ressurreição. “Se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação e também a nossa fé” (1Cor 15, 14). Por que o Apóstolo diz isso? Porque, se Ele não houvesse ressuscitado, então o sofrimento e a morte seriam a última palavra na vida. Mas a morte não pode ser o sentido da vida; ao contrário, é a vida, a vida do Senhor ressuscitado, o que dá sentido à morte, o que dá razão ao ato de morrer, o que explica por que é bom morrer para o mundo e para si mesmo por amor. A despeito das durezas ao longo do caminho, nós jamais nos esquecemos da meta: “Nossa habitação está no céu” (2Cor 5, 1; cf. Fl 3, 20). Os momentos de alegria na terra são apenas sinais para nos lembrar de nosso destino: a felicidade eterna.

Jesus, que é a Verdade, não afasta a verdade de nós; ele não nos “poupa”, não nos esconde a verdade. Isso se tornou mais claro do que nunca com os escândalos eclesiais à nossa volta, nos quais homens que deveriam ser “outros Cristos” afastaram e esconderam a verdade de nós. Jesus não é como pessoas que falam (com soberba condescendência) da ignorância como uma bênção, ou que prometem uma vida sem sofrimento. Ele não nos oferece remédios que podem tirar toda a dor, porque tais remédios acabam tirando também algo de nossa humanidade, podendo tirar até mesmo nossa consciência e nossa vida. Jesus ensinou seus discípulos a respeito da Cruz e da Ressurreição ao mesmo tempo, porque elas sempre andam juntas. Ele não nos induz erroneamente a pensar que pode haver Páscoa sem a Sexta-feira Santa.

A Igreja saiu do lado aberto de Cristo crucificado. Se toda ela nasceu desta forma, então todo homem batizado nasce do mesmo modo: concebido no Coração de Jesus e saindo de seu lado aberto. Jesus derramou até sua última gota de sangue e água por você, gerando-o para uma vida nova. E por quê? Porque Ele o ama, porque Ele quer partilhar sua alegria, amor e glória eternas com você, e irá até o extremo para fazer com que você consiga.

É por isso que Ele nos dá o Paráclito, o Consolador, o Advogado. Como São João declara no Apocalipse: “Deus enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição” (Ap 21, 4) Mas já agora o Paráclito nos está confortando, a fim de não perdermos a coragem.

“Deus está me pedindo demais, eu sou muito fraco” — seja sincero, é isso o que nós frequentemente somos tentados a pensar. Mas isso é falso. Lembre-se de Elias no deserto: “Basta, Senhor, tirai-me a vida, porque não sou melhor do que meus pais”, ele disse. Deus envia-lhe então um anjo: “Levanta-te e come, porque tens um longo caminho a percorrer” (1Rs 19, 7). Deus sabe o que precisamos e no-lo dá abundantemente; nós só temos de nos convencer disso, levantar e comer. Deixados a nós mesmos, o caminho é muito pesado; só com Deus ele é possível.

Nós estamos sempre tentando fazer as coisas por nós mesmos. Mas Deus irá nos ensinar, de uma forma fácil ou difícil, que “sem mim nada podeis fazer” (Jo 15, 5), mas “tudo posso naquele que me fortalece” (Fl 4, 13). “Nosso auxílio está no nome do Senhor, que fez o céu e a terra” (Sl 123, 8): se Ele fez céus e terra, Ele pode certamente nos ajudar a sair de nossas piores provações. Nossa mais elevada dignidade é sermos ajudados por Deus, porque assim Ele se coloca, de certa forma, a nosso serviço (cf. Lc 12, 37).

Para o humilde, para o pobre que confia em Deus, o caminho se torna mais fácil. Ele não nos irá desapontar, Ele não deixará de cumprir as suas promessas. Ele é nosso Pai fiel e que nos ama. “Se você lhe pedir pão, Ele por acaso lhe dará uma pedra?” (cf. Mt 7, 9). “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”, nós rezamos, e Ele no-lo dá, no Pão supersubstancial dos anjos, na Santíssima Eucaristia.

Ele só está nos esperando pedir, confiar, colocar-nos em suas mãos amorosas. É isso o que faz a fé; nisso consiste o ato de fé. Nós temos fé em Deus quando confiamos nEle, apesar da escuridão. Quando a Escritura diz que somos “salvos pela fé” (Ef 2, 8), eis o que isso significa: nós somos salvos sempre que humildemente rezamos a Deus: “Eu confio em vós, eu me entrego a vós, eu me coloco em vossas mãos. Fazei de mim como for de vosso agrado, fazei de mim o que quiserdes, porque eu sou vosso”. Essa é a atitude de uma criança de Deus, que sabe que o seu Pai é amoroso, é amor.

Isso é o que o sacrifício perfeitíssimo da Cruz nos mostra, nos ensina e nos dá o poder de fazer. Isso é o que o santo sacrifício da Missa torna repetidamente presente em nosso meio, a fim de que o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor seja sempre nosso, permeando nossa existência e remodelando-nos para a vida eterna. Por isso é que um cristão com fé é invencível e nenhuma força terrena pode derrotá-lo.

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Gestos e posições do povo na Santa Missa
Liturgia

Gestos e posições
do povo na Santa Missa

Gestos e posições do povo na Santa Missa

Quando se sentar, ficar de pé e se ajoelhar na celebração do santo sacrifício da Missa? O que prescreve a liturgia, o que recomenda a tradição e o que sugere a piedade nessa matéria?

​Adoremus, Salvem a Liturgia!14 de Setembro de 2018
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São muitos os que nos escrevem, já há algum tempo, perguntando quais são os gestos que deve fazer e as posições que deve assumir o povo durante a celebração da Santa Missa. Por isso, trazemos abaixo um bom guia, publicado pelo site norte-americano Adoremus, traduzido pelo site brasileiro Salvem a Liturgia! e adaptado aqui e ali por nossa equipe.

As orientações a seguir contêm, de modo indiscriminado, gestos a) prescritos pelos livros litúrgicos, outros b) recomendados pela tradição e outros ainda c) apenas sugeridos pelo simbolismo que carregam. Não se trata, portanto, de um “manual” a ser seguido estritamente e em todas as suas particularidades, mas, sim, de um auxílio à piedade dos fiéis, para que participem melhor e mais frutuosamente do santo sacrifício da Missa.

As instruções propriamente obrigatórias a esse respeito encontram-se disponíveis na Instrução Geral do Missal Romano, nn. 42-44, e no Cerimonial dos Bispos.


Ritos Iniciais

Fazer o sinal da Cruz com água benta (sinal do Batismo), se houver, ao entrar na igreja.

Fazer genuflexão em direção ao sacrário contendo o Santíssimo Sacramento e ao altar do sacrifício antes de se dirigir ao banco. (Se não houver sacrário no presbitério ou ele não for visível, inclinar-se profundamente ao altar, a partir da cintura, antes de se dirigir ao banco.)

Chegando ao banco, ajoelhar-se para oração privada antes de a Missa começar.

Ficar de pé para a procissão de entrada.

Inclinar-se quando o crucifixo, sinal visível do sacrifício de Cristo, passar por você na procissão. (Havendo um bispo, inclinar-se quando ele passar, reconhecendo-o assim como pastor do rebanho e representante da autoridade da Igreja e de Cristo.)

Permanecer de pé para os ritos iniciais. Fazer o sinal da Cruz junto com o sacerdote no começo da Missa.

Bater no peito ao “mea culpa” (“por minha culpa, minha tão grande culpa”) no Confiteor.

Fazer inclinação de cabeça e o sinal da Cruz quando o sacerdote disser “Deus todo-poderoso tenha compaixão de nós…”

Fazer inclinação de cabeça ao dizer o “Senhor, tende piedade de nós” no Kyrie.

Se houver o Rito da Aspersão (Asperges), fazer o sinal da Cruz quando o padre aspergir água em sua direção.

Durante a Missa, fazer inclinação de cabeça a cada menção do nome de Jesus e a cada vez que a Doxologia [“Glória ao Pai...”] for rezada ou cantada. Também quando pedir que o Senhor receba a nossa oração. (“Senhor, escutai a nossa prece” etc., e ao fim das orações presidenciais: “Por Cristo nosso Senhor” etc.)

Glória: fazer inclinação de cabeça ao nome de Jesus. (“Senhor Jesus Cristo, Filho Unigênito...”, “Só vós o Altíssimo, Jesus Cristo...”)

Liturgia da Palavra

Sentar-se para as leituras da Sagrada Escritura.

Ficar de pé para o Evangelho ao verso do Alleluia.

Quando o ministro anunciar o Evangelho, traçar o sinal da Cruz com o polegar na cabeça, nos lábios e no peito. Esse gesto é uma forma de oração para pedir a presença da Palavra de Deus na mente, nos lábios e no coração.

Sentar-se para a homilia.

Credo: De pé; fazer inclinação de cabeça ao nome de Jesus; na maioria dos Domingos inclinar-se durante o Incarnatus (“e se encarnou pelo Espírito Santo... e se fez homem”); nas solenidades do Natal e da Anunciação todos se ajoelham a essas palavras.

Fazer o sinal da Cruz na conclusão do Credo, às palavras: “e espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir. Amém.”

Liturgia Eucarística

A Consagração, ápice da Santa Missa.

Sentar-se durante o ofertório.

Ficar de pé quando o sacerdote disser “Orai, irmãos e irmãs…” e permanecer de pé para responder “Receba o Senhor por tuas mãos este sacrifício…”

Se for usado incenso, o povo levanta-se e faz inclinação de cabeça ao turiferário quando ele fizer o mesmo, tanto antes como depois da incensação do povo.

Permanecer de pé até o final do Sanctus (“Santo, Santo, Santo…”) e manter-se de joelhos durante toda a Oração Eucarística.

No momento da Consagração de cada espécie, inclinar a cabeça e pronunciar silenciosamente “Meu Senhor e meu Deus”, reconhecendo a presença de Cristo no altar. Estas são as palavras de São Tomé ao reconhecer verdadeiramente a Cristo quando este lhe apareceu no Cenáculo (cf. Jo 20, 28). Jesus disse: “Acreditaste porque me viste. Felizes os que acreditaram sem ter visto” (Jo 20, 29).

Ficar de pé ao convite do sacerdote para a Oração do Senhor.

Com reverência, unir as mãos e inclinar a cabeça durante a Oração do Senhor.

Manter-se de pé para o sinal da paz, após o convite. (O sinal da paz pode ser um aperto de mãos ou uma inclinação de cabeça à pessoa mais próxima, acompanhada das palavras “A paz esteja contigo”.)

Na recitação (ou canto) do Agnus Dei (“Cordeiro de Deus…”), bater no peito às palavras “Tende piedade de nós”.

Ajoelhar-se ao fim do Agnus Dei (“Cordeiro de Deus…”).

Fazer inclinação de cabeça e bater no peito ao dizer: “Domine, non sum dignus…”  (“Senhor, não sou digno…”).

Recepção da Comunhão

Deixar o banco (sem genuflexão) e caminhar com reverência até o altar, com as mãos unidas em oração.

Fazer um gesto de reverência ao se aproximar do ministro em procissão para receber a Comunhão. Se ela for recebida de joelhos, não se faz nenhum gesto adicional antes de recebê-la.

Pode-se receber a Hóstia tanto na língua como na mão.

Para o primeiro caso, abrir a boca e estender a língua, de modo que o ministro possa depositar a Hóstia de forma apropriada. Para o outro caso, posicionar uma mão sobre a outra (a esquerda sobre a direita, em forma de cruz), de palmas abertas, para receber a Hóstia. Com a mão de baixo (ou seja, a direita), tomar a Hóstia e com reverência depositá-la na sua boca. (Ver as diretrizes da Santa Sé de 1985).

Se estiver carregando uma criança no colo, é muito mais apropriado receber a Comunhão na língua.

Ao comungar também do Cálice, fazer o mesmo gesto de reverência ao se aproximar do ministro.

Fazer o sinal da Cruz após ter recebido a Comunhão.

Ajoelhar-se em oração ao retornar para o banco depois da Comunhão, até o sacerdote se sentar, ou até que ele diga “Oremos”.

Ritos Finais

Ficar de pé para os ritos finais.

Fazer o sinal da Cruz durante a bênção final, quando o sacerdote invocar a Trindade.

Permanecer de pé até que todos os ministros tenham saído em procissão. (Se houver procissão recessional, fazer inclinação ao crucifixo quando ele passar.)

Se houver um hino durante o recessional, permanecer de pé até o final da execução. Se não houver hino, permanecer de pé até que todos os ministros tenham se retirado da parte principal da igreja.

Depois da conclusão da Missa, pode-se ajoelhar para uma oração privada de ação de graças.

Fazer uma genuflexão ao Santíssimo Sacramento e ao Altar do Sacrifício ao sair do banco e deixar a (parte principal da) igreja em silêncio.

Fazer o sinal da Cruz com água benta ao sair da igreja, como recordação batismal de anunciar o Evangelho de Cristo a toda criatura.

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