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Uma ladainha para pedir a graça da contrição perfeita
Oração

Uma ladainha para pedir
a graça da contrição perfeita

Uma ladainha para pedir a graça da contrição perfeita

Esta ladainha deve ser recitada para estimular em nossas almas a dor de nossos pecados e implorar a Deus uma contrição verdadeira, a correção eficaz de nossos costumes e o perdão de nossas tantas e tão graves culpas.

Equipe Christo Nihil Praeponere26 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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Poucos dons são tão estimáveis, sobretudo em épocas de difícil acesso aos sacramentos, do que a contrição perfeita, isto é, aquela dor de alma que tem por motivo a caridade divina — à qual nada é mais horrível do que ofender a Deus! — e se manifesta pela detestação verdadeira e suma de todos os pecados mortais já cometidos, com o propósito sincero de não tornar a pecar e o desejo, ao menos implícito, de receber assim que possível o sacramento da Penitência. É tamanha a força desse arrependimento, que o próprio Concílio de Trento diz ser efeito dele a reconciliação com Deus antes mesmo que se receba de fato a absolvição sacramental [1]. 

Trata-se, sim, de uma graça extraordinária, e por isso nem sempre nos é possível ter certeza de havê-la recebido; mas podemos, e até devemos, pedi-la a Deus com insistência e valer-nos dos meios que estão ao nosso alcance para suscitar em nós as condições necessárias à perfeição da contrição: a) considerar pausadamente os sofrimentos que, por nossos pecados, padeceu o Verbo encarnado, b) lembrar todos os dias os inúmeros benefícios com que Deus, apesar de nossa infidelidade, não cessa de nos cumular e, acima de tudo, c) rezar, e rezar muito para que Ele nos dê a prenda deste maravilhoso arrependimento.

É com essa finalidade que apresentamos abaixo uma tradicional ladainha composta para estimular em nossas almas a dor de nossos pecados e implorar a Deus, Misericórdia infinita, uma contrição verdadeira, a correção eficaz de nossos costumes e — queira Ele! — o perdão de nossas tantas e tão graves culpas.


Senhor, tende piedade de nós.
Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Deus Pai do céus, tende piedade de nós.
Deus Filho, Redentor do mundo, tende piedade de nós.
Deus Espírito Santo, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.

Vós, que não desejais a morte do pecador,
℟. Tende piedade de nós.
Vós, que esperais com paciência a conversão do pecador,
℟. Tende piedade de nós.
Vós, que convidais os pecadores a que se convertam,
℟. Tende piedade de nós.
Vós, que acolheis benignamente o pecador arrependido,
℟. Tende piedade de nós.
Vós, que Vos regozijais com a conversão do pecador,
℟. Tende piedade de nós.

De Vos ter ofendido,
℟. Pesa-me de todo coração, meu Deus.
De ter tantas vezes e tão gravemente pecado,
℟. Pesa-me de todo coração, meu Deus.
De ter pecado por pensamentos, palavras e ações,
℟. Pesa-me de todo coração, meu Deus.
De ter pecado pelos sentidos do meu corpo,
℟. Pesa-me de todo coração, meu Deus.
De ter pecado pelas potências de minha alma,
℟. Pesa-me de todo coração, meu Deus.
De ter pecado com tanta audácia,
℟. Pesa-me de todo coração, meu Deus.
De Vos ter abandonado pelas criaturas,
℟. Pesa-me de todo coração, meu Deus.
De ter preferido a Vós o que é ilusão e vaidade,
℟. Pesa-me de todo coração, meu Deus.
De ter menosprezado as Vossas perfeições infinitas,
℟. Pesa-me de todo coração, meu Deus.
De ter abusado de Vossos dons e benefícios,
℟. Pesa-me de todo coração, meu Deus.
De ter renovado os sofrimentos de Jesus Cristo,
℟. Pesa-me de todo coração, meu Deus.
De ter desprezado Vossos favores e amizade,
℟. Pesa-me de todo coração, meu Deus.
E somente por causa de Vós,
℟. Pesa-me de todo coração, meu Deus.
Por incorrer no Vosso desagrado,
℟. Pesa-me de todo coração, meu Deus.
Por ser ingrato à Vossa Bondade,
℟. Pesa-me de todo coração, meu Deus.
Não pelo temor do castigo,
℟. Pesa-me de todo coração, meu Deus.
Não pela esperança da recompensa,
℟. Pesa-me de todo coração, meu Deus.
Não constrangidamente,
℟. Pesa-me de todo coração, meu Deus.
Mas de puro amor para convosco,
℟. Pesa-me de todo coração, meu Deus.
Pelo respeito devido à Vossa Majestade Suprema,
℟. Pesa-me de todo coração, meu Deus.
Com o horror que Vos causam todos os pecados,
℟. Pesa-me de todo coração, meu Deus.
De tudo me pesa, meu Deus, com o mesmo pesar que os santos choraram suas faltas,
℟. Pesa-me de todo coração, meu Deus.

Propósito de emenda. — Porque eu Vos amo, meu Deus, prometo emendar-me, com o auxílio de Vossa graça; prometo não mais Vos ofender desde o presente; prometo evitar toda ocasião de pecar; prometo resistir a todas as tentações; prometo reprimir em mim todos os maus pensamentos; prometo preferir perder tudo quanto possuo antes de tornar a ofender-Vos; prometo preferir sofrer tudo antes que pecar; prometo morrer antes que tornar a pecar.

Pai nosso...

Oração. — Ó Deus, que sois a fonte dos bons propósitos e das obras santas, dai-me a fortaleza de que necessito para ter um verdadeiro arrependimento de meus pecados e para emendar sinceramente a minha vida, a fim de poder alcançar de Vossa misericórdia o perdão de todas as minhas culpas. Por Cristo, Senhor nosso. Amém.

Referências

  1. Cf. Concílio de Trento, s. 14, c. 4 (DH 1677).

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Aborto, estupro e algumas coisas que não contam a você
Pró-Vida

Aborto, estupro e algumas
coisas que não contam a você

Aborto, estupro e algumas coisas que não contam a você

Sabe por que o tema do aborto em casos de estupro é amplamente incompreendido? Porque as experiências reais de vítimas de abuso que engravidaram são sistematicamente ignoradas no debate. Justo as pessoas que mais deveriam ser ouvidas.

David C. Reardon, Ph.D.Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere26 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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“Como poderíamos negar um aborto a uma menina de doze anos que foi vítima de incesto?”, queixa-se, indignado, um apoiador do aborto. “E como você poderia considerar-se um cristão caridoso se forçasse uma vítima de estupro a ter o filho de um estuprador?”  

Todo pró-vida já escutou esses questionamentos, de uma ou outra maneira. São perguntas de tom emotivo, elaboradas para provar que os pró-vida são: (1) ou insensíveis “amantes de fetos” (2) ou eticamente incoerentes, pois permitem o aborto em algumas circunstâncias, mas não em outras.  

Infelizmente, a maioria dos pró-vida tem dificuldades para responder a esses questionamentos, porque o tema da gravidez decorrente de um estupro é amplamente incompreendido. Geralmente, os dois lados do debate aceitam o pressuposto de que as mulheres que engravidam em decorrência de violência sexual desejariam realizar um aborto, o que, por sua vez, as ajudaria de algum modo a se recuperarem do estupro. Portanto, o pró-vida fica na posição desconfortável de argumentar que a inviolabilidade da vida humana é “mais importante” do que as necessidades da vítima de violência sexual, de quem todos deveriam se compadecer (com justiça).   

Mas, na verdade, o bem-estar da mãe e da criança jamais são mutuamente excludentes, mesmo em casos de violência sexual. Tanto a mãe como a criança devem ser auxiliadas com a preservação das duas vidas, e não por meio da perpetuação da violência.

O motivo pelo qual a maioria das pessoas chega a conclusões equivocadas sobre o aborto em casos de estupro e incesto é o seguinte: as experiências reais de vítimas de abuso sexual que engravidaram são sistematicamente ignoradas no debate. Portanto, a maioria das pessoas, inclusive as vítimas de violência sexual que jamais engravidaram, formam suas opiniões com base em preconceitos e medos que estão desconectados da realidade.  

Por exemplo, é comum supor que as vítimas de estupro que engravidam desejariam, naturalmente, realizar um aborto. Mas no único estudo importante sobre mulheres que engravidaram em decorrência de um estupro, a Dra. Sandra Mahkorn descobriu que entre 75% e 85% das mulheres decidiram não abortar [1]. Essa evidência bastaria para levar as pessoas a refletir sobre o pressuposto de que o aborto é “desejado” pelas vítimas de violência sexual ou é mesmo o melhor para elas.

Há muitas razões para não abortar. Primeiro, aproximadamente 70% de todas as mulheres acreditam que o aborto é imoral, embora muitas também achem que ele deveria ser uma escolha legal para outras mulheres. Aproximadamente a mesma porcentagem de mulheres que engravidaram em decorrência de um estupro acreditam que o aborto seria apenas mais um ato de violência perpetrado contra seus corpos e seus filhos.

Segundo, algumas acreditam que a vida de seu bebê pode ter algum sentido ou propósito intrínseco que elas não compreendem. Esse bebê foi gerado por meio de um ato terrível e repulsivo. Mas talvez Deus ou o destino usará o bebê para um propósito maior. É possível tirar o bem do mal.

Terceiro, muitas vezes as vítimas de violência sexual se tornam introspectivas. Seu senso de valor da vida aumenta. Elas foram vítimas de violência, e causa-lhes repulsa a ideia de que poderiam vitimar seu próprio filho inocente por meio do aborto. 

Quarto, ao menos em nível subconsciente, a vítima pode perceber que, se conseguir passar pela gravidez, superará o estupro. Ao dar à luz, ela poderá recuperar algo da autoestima perdida. Ter um bebê, particularmente quando a concepção não foi desejada, é um ato de plena abnegação, uma demonstração de coragem, força e honra. É a prova de que a vítima é melhor do que o estuprador. Ele agiu de forma egoísta, mas ela conseguiu ser generosa. Ele agiu de forma destrutiva, mas ela pode ser acolhedora

Se o fato de dar à luz aumenta a autoestima, o que dizer do aborto? A maioria da pessoas nem sequer pensa sobre essa pergunta. Em vez disso, muitos supõem que um aborto pelo menos ajudará a vítima de estupro a esquecer a violência e seguir com a vida. Mas quando as pessoas concluem algo assim, aderem a uma visão nada realista do aborto. 

O aborto não é uma cirurgia mágica que faz o tempo retroceder para “desengravidar” uma mulher. Pelo contrário, é um evento da vida real que é sempre sofrido e muitas vezes traumático. Quando reconhecemos que o aborto é um evento que traz consequências para a vida de uma mulher, temos o dever de olhar com cuidado para as circunstâncias especiais que marcam a mulher que engravidou depois de ser estuprada. O aborto realmente a consolará, ou apenas provocará mais danos em sua mente já ferida?

“Escravo de Dependência”, de Katelynn Johnston.

Para responder a essa questão, é útil começar pela observação de que muitas mulheres relatam que seus abortos lhes pareceram uma espécie de estupro médico degradante e brutal [2]. Não é difícil compreender essa associação entre aborto e estupro.

O aborto requer um exame doloroso dos órgãos sexuais da mulher, o qual é feito por um estranho mascarado que invade o corpo dela. Quando ela chega à mesa cirúrgica, perde o controle sobre seu corpo. Caso ela proteste e peça que o aborteiro interrompa o procedimento, provavelmente será ignorada ou escutará as seguintes palavras: “É tarde para mudar de opinião. Foi você quem quis isso. Temos de ir até o fim agora”. E enquanto está lá, deitada, tensa e indefesa, a vida escondida em seu corpo é literalmente sugada do útero. Qual é a diferença? Num estupro sexual, a mulher é despojada de sua pureza; nesse estupro médico, ela é despojada de sua maternidade.

Essa associação empírica entre o aborto e o estupro é muito forte para muitas mulheres. É particularmente forte para mulheres que já sofreram outros abusos sexuais, independentemente de estarem ou não grávidas em decorrência de um estupro [3]. Este é apenas um dos motivos pelos quais mulheres com um histórico de abusos sexuais são mais propensas a experimentar um sofrimento mais intenso do que outras mulheres após um aborto.

Segundo, de acordo com algumas pesquisas, depois de qualquer aborto é comum que as mulheres sintam culpa, tenham depressão, se sintam “sujas”, alimentem rancor pelos homens e baixa autoestima. O mais importante é que tais sentimentos são idênticos aos que as mulheres têm depois de um estupro. O aborto, portanto, apenas acrescenta e salienta os sentimentos traumáticos associados ao estupro. Em vez de aliviar os fardos psicológicos da vítima de violência sexual, o aborto os aprofunda.

Foi essa a experiência de Jackie Bakker, que relata o seguinte: 

Logo descobri que as consequências do meu aborto continuaram por muito tempo depois que a lembrança do estupro havia desaparecido. Eu me sentia vazia e terrível. Ninguém me falou sobre a dor que eu sentiria em meu interior, provocando pesadelos e profundas depressões. Todos me disseram que depois do aborto eu seguiria em frente como se nada tivesse acontecido.

Aqueles que encorajam a realização de um aborto muitas vezes o fazem porque não se sentem à vontade para lidar com vítimas de abuso sexual, ou talvez por preconceito contra as vítimas, consideradas “culpadas pelo ocorrido”. Eliminar a gravidez é uma forma de camuflar o problema. É um caminho “rápido e fácil” para não ter de lidar com as verdadeiras necessidades emocionais, sociais e financeiras da mulher.

Diz Kathleen DeZeeuw: 

Eu sofri um estupro e também criei uma criança ‘concebida após um estupro’. Em função disso, sinto-me pessoalmente agredida e insultada toda vez que ouço que o aborto deveria ser legalizado por causa do estupro e do incesto. Sinto que estamos sendo usadas pelos pró-aborto para promover sua causa, embora ninguém nos tenha pedido para contar o nosso lado da história.

O argumento contra o aborto de bebês frutos de incesto é ainda mais forte. Estudos mostram que as vítimas de incesto raramente aceitam um aborto voluntariamente [4]. Em vez de considerarem a gravidez indesejada, é mais provável que a vítima de incesto veja a gravidez como uma forma de escapar da relação incestuosa, porque o nascimento da criança fará manifesta a atividade sexual. Também é provável que ela veja na gravidez a esperança de portar uma criança com quem poderá ter uma verdadeira relação de amor, muito diferente da relação de exploração em que estava presa.  

Embora a vítima de incesto possa valorizar sua gravidez porque lhe proporciona uma esperança de libertação e de encontrar um amor acolhedor, sua gravidez é uma ameaça para o explorador. É também uma ameaça ao sigilo patológico que pode tomar conta dos outros membros da família, que têm medo de reconhecer o abuso em curso. Por causa dessa dupla ameaça, a vítima pode ser forçada pelo abusador e por outros familiares a se submeter ao aborto.

Por exemplo, Edith Young, uma menina que engravidou aos doze anos após ser abusada por seu padrasto, escreve o seguinte vinte e cinco anos depois de ter abortado seu bebê: 

Ao longo dos anos, tive depressão, tendências suicidas, ódio, indignação, solidão e um senso de perda… O aborto, que deveria ‘ter sido para o meu bem’, simplesmente não ajudou em nada. Tanto quanto posso dizer, apenas ‘salvou a reputação deles’, ‘resolveu os problemas deles’ e ‘permitiu que eles seguissem suas vidas alegremente’. Minha filha… como sinto falta dela. Sinto falta dela, independentemente do modo como foi concebida. 

Os aborteiros que ignoram essa evidência e não entrevistam menores de idade que são levadas a uma clínica de aborto com sinais de coerção ou incesto, na verdade contribuem para a vitimização delas. Não apenas tiram o bebê da vítima, mas ocultam um crime, tornam-se cúmplices do agressor e fazem com que a vítima seja entregue de novo ao abusador para que a exploração continue.

Finalmente, temos de reconhecer que os bebês concebidos após um abuso sexual também têm uma voz que merece ser escutada. Julie Makimaa, concebida num estupro, trabalha com diligência contra a noção de que o aborto é aceitável ou até necessário em casos de abuso sexual. Embora se compadeça do sofrimento que sua mãe teve de enfrentar nas mãos do abusador, Julie sente um justo orgulho da coragem e da generosidade de sua mãe. Esta é a opinião que ela tem sobre sua própria origem: “Não importa como comecei. O que importa é quem eu me tornarei.” 

Podemos todos adotar esse slogan.

Referências

  1. Mahkorn, “Pregnancy and Sexual Assault”, The Psychological Aspects of Abortion, eds. Mall & Watts (Washington, D.C., University Publications of America, 1979), 55–69. 
  2. Francke, The Ambivalence of Abortion (New York: Random House, 1978) 84–95, 167; Reardon, Aborted Women — Silent No More (Chicago: Loyola University Press, 1987), 51, 126.
  3. Zakus, “Adolescent Abortion Option”, Social Work in Health Care, 12(4): 87 (1987).
  4. Maloof, “The Consequences of Incest: Giving and Taking Life”, The Psychological Aspects of Abortion (eds. Mall & Watts, Washington, D.C., University Publications of America, 1979) 84–85.

Notas

  • Publicado originalmente em The Post-Abortion Review 2(1), Winter 1994, Elliot Institute.

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A “tatuagem” de Santa Joana de Chantal
Santos & Mártires

A “tatuagem” de
Santa Joana de Chantal

A “tatuagem” de Santa Joana de Chantal

Para não quebrar um voto de castidade, esta santa “gravou em seu peito, com ferro incandescente, o santíssimo nome de Jesus Cristo”. Mas ela não o fez para ser imitada. E nem de longe esse ato de amor se compara ao fenômeno moderno das tatuagens.

Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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A 3.ª leitura das Matinas do antigo Ofício Divino para a festa de S. Joana de Chantal (21 de agosto no calendário da Forma Extraordinária; 12 do mesmo mês no rito atual) traz um dado biográfico interessante a respeito dela que você provavelmente não conhecia (os grifos e a tradução são nossos):

Joana Francisca Frémyot de Chantal, nascida em Dijon, na Borgonha, de família nobre, ainda menina e órfã de mãe consagrou-se à proteção da Virgem Mãe de Deus. Entregue pelo pai em casamento ao Barão de Chantal, mostrando com denodo ser mulher forte, fez-se tudo para todos. Morto o esposo durante a caça, obrigou-se por voto de continência e, vencedora de si mesma, não hesitou ser madrinha de Batismo do filho do assassino. Para não quebrar jamais a observância de seu propósito de castidade, renovado o voto, gravou em seu peito, com ferro incandescente, o santíssimo nome de Jesus Cristo. Instruída por Francisco de Sales, que lhe serviu como diretor espiritual, a respeito da vontade divina, fundou a Ordem da Visitação de Santa Maria, à qual difundiu muito e por vários lugares. Tendo-se obrigado por voto a fazer sempre o que entendesse ser mais perfeito, cheia de méritos, migrou em Moulins para os braços do Senhor, no ano de 1641, no dia 13 de dezembro, e foi canonizada por Clemente XIII.

Reforçando o negrito: a viúva Joana de Chantal, já àquela altura uma católica devota, “gravou em seu peito, com ferro incandescente, o santíssimo nome de Jesus Cristo”; em outras palavras — encheriam a boca para dizer os de nossa época —, ela fez em seu corpo uma “tatuagem”.

Antes, porém, de começarem os mais animados a invocar a santa como uma espécie de “padroeira dos tatuados”, talvez valha a pena fazer algumas considerações sobre o moderno fenômeno das tatuagens e o que o diferencia do ato realizado pela santa católica. 

Primeiro, Santa Joana não gravou em seu peito o nome de Cristo com o fim de ser imitada. Sua ação deve ser vista, antes, à luz da moção sobrenatural com que Deus tantas vezes inspira os seus santos a empreender ações extraordinárias por amor a Ele. Afinal, não estamos falando aqui de uma simples inscrição no corpo, como são feitas as tatuagens modernas. O ato de gravar em si o nome de Jesus “com ferro incandescente” comporta uma dor atroz e uma mutilação corporal permanente, que fogem absolutamente do dia a dia das ações do cristão. 

Escrevendo sobre a “mortificação positiva” do sentido do tato, o Pe. Antonio Royo Marín adverte:

É mister proceder com prudência e gradualmente, aumentando os exercícios de penitência à medida que as forças da alma vão crescendo e os convites interiores da graça vão sendo mais e mais prementes. A princípio, sobretudo, evite-se a efusão de sangue enquanto não apareça com clareza a vontade de Deus em contrário [...]; e guarde-se muito a alma de converter em fim o que não passa de puro meio, crendo que a santidade consiste em despedaçar-se cruelmente o corpo, como fizeram alguns santos. Há na vida desses santos muitos fatos dignos de admiração, mas que seria imprudente e temerário tratar de reproduzir. Eles contavam com uma particular inspiração e assistência de Deus que não estão à disposição de todos. Se o Espírito Santo quiser levar uma alma pelo caminho de penitências extraordinárias, cuidará de a inspirar fortemente e de lhe dar forças proporcionadas para tanto. Enquanto isso, a maior parte das almas deve praticar a mortificação corporal ordinária, à base de mil coisas pequenas praticadas com assiduidade e perseverança [1].

Para reforçar que as pessoas não devem repetir em casa certos heroísmos dos santos, citemos ainda S. Afonso de Ligório, comentando justamente esse episódio da vida de S. Joana:

Um dia, o bem-aventurado Henrique Suso, querendo imprimir mais fortemente no coração o amor de seu divino Mestre, tomou um ferro afiado e gravou no peito o nome de Jesus; depois exclamou banhado em sangue: “Senhor, quisera gravar-vos no fundo do meu coração, mas não posso; vós que tudo podeis, gravai vosso nome adorável no meu coração, de maneira que dele não possa desaparecer nem o vosso nome nem o vosso amor”. S. Joana de Chantal chegou a imprimir o nome de Jesus em seu coração por meio de um ferro em brasa. De nós, Jesus não pede tanto; contenta-se com que o conservemos em nosso coração com um afeto sincero e que o invoquemos muitas vezes com amor [2].

Segundo, Santa Joana não gravou em seu peito o nome de Cristo com o fim de atrair os olhares do mundo. Muito pelo contrário. Ela o fez “para não quebrar jamais a observância de seu propósito de castidade”, pois, falecido seu marido, quis obrigar-se por voto à continência perfeita, por amor ao Reino dos céus. Podemos pensar inclusive que, antes de sua morte e da divulgação de sua hagiografia, a notícia de sua “tatuagem” só por Deus era conhecida, e no máximo por seu diretor espiritual

“S. Francisco de Sales”, que foi diretor de S. Joana. Pintura de Francisco Bayeu.

Com isso já é possível notar grande diferença para as tatuagens de hoje, que transformam o corpo em quadro ou letreiro, para chamar a atenção de todos. Isso quando as próprias imagens ou inscrições não são feitas em partes menos honestas, com o fim de atrair olhares para lugares que, definitivamente, não deveriam sequer ficar descobertos. Sem falar que o nome de Jesus não está entre os mais tatuados: a moda são os símbolos de religiões da “Nova Era” e de uma cultura de sadomasoquismo e morte que pode evoluir ao próprio culto satânico. Ou seja, o que Santa Joana de Chantal fez como penitência e por amor a Deus, grande parte de nossos contemporâneos o fazem por vaidade e sensualidade, quando não por verdadeiro ódio ao sagrado.

Terceiro, Santa Joana fez ela mesma a inscrição do nome de Cristo em seu corpo. Hoje, as pessoas o fazem alimentando uma indústria que, infelizmente, muito pouco tem de cristã. O que se deduz, na verdade, das tatuagens que se vêem com frequência é que um tatuador profissional precisaria viver fazendo constantes “objeções de consciência” para ser bom católico e exercer o seu ofício ao mesmo tempo — ou ter uma freguesia de tal modo seleta que seu serviço se tornaria, na prática, inviável. 

Também não se pode subestimar o fato de que, nesse meio, o ocultismo e seus efeitos constituem não um perigo remoto, mas uma realidade viva. O Pe. John Zuhlsdorf citou em seu site, recentemente, o seguinte testemunho de um exorcista anônimo, de sua inteira confiança:

Tenho lidado com pessoas que pensavam ter tatuagens inócuas em seus corpos. Quando perguntei a uma garota o porquê de o “t” em uma palavra ser uma Cruz invertida, ela ficou sem resposta e bem zangada com o tatuador. Ela não fazia ideia daquilo. Às vezes tatuadores fazem satanistas amaldiçoarem a tinta que usam, a fim de que seus portadores tenham um malefício permanente (demonic fortuna — algo semelhante a um antissacramental, um objeto físico portador de maldição) em seus corpos. Por que eles fazem isso? Trata-se de uma propensão à malícia, por certo; mas também é uma forma de “ganhar pontos” com Satanás, pela quantidade de pessoas que eles podem contaminar. Ao fazer orações de libertação sobre tatuagens (decommission tattoos), eu uso a fórmula do Ritual Romano para “Reconsagração (Reconciliation) de uma Igreja Profanada”, alterando onde apropriado as palavras. Eu passo óleo exorcizado sobre elas usando um cotonete: algumas vezes, as pessoas gritam como se eu as estivesse esfolando vivas; outras vezes, só as machuca um pouco; às vezes não acontece nada. Conheço uma ex-religiosa que havia feito uma tatuagem. Quando fiz um exorcismo mental dela (ela não estava olhando para mim e não sabia o que eu estava fazendo na minha mente), ela deu um solavanco. Depois de lhe dizer que ela estava contaminada devido à tatuagem, ela me disse que havia feito todas as irmãs de seu antigo convento se tatuarem com o mesmo rapaz. Todas elas deixaram o convento dentro de 6 meses (grifos nossos).

Não se trata de dizer que o simples ato de tatuar algo no corpo seja pecado (pois não é). Mas não deixa de ser curioso que essa prática tenha se tornado mais comum à medida que o Ocidente se foi afastando de suas raízes cristãs. O ensinamento de S. Paulo, por exemplo, de que “o nosso corpo é templo do Espírito Santo” (1Cor 6, 19), noutros tempos seria argumento mais do que suficiente para demover as pessoas de ideias como essa. A cultura em que estão inseridas modas como a tatuagem e o piercing é, infelizmente, a do individualismo egocêntrico, do desprezo ao corpo e da rebelião contra o Criador.

Aqui, a “tatuagem” de Santa Joana e as modernas se tocam: assim como os homens do campo marcam o gado para mostrar que são sua propriedade, essa santa católica gravou em si o nome de Jesus justamente para indicar sua pertença a Ele, e talvez... as marcas que trazemos em nossa pele denunciem a mesma coisa. Pois também elas, e não só a boca, falam do que está cheio o coração (cf. Mt 12, 34). A quem pertencemos, com o estilo de vida que levamos, com o modo como tratamos o nosso corpo e com as roupas que usamos — sejam elas roupas no sentido próprio ou roupas “definitivas”, como as tatuagens? Quem é o senhor das nossas vidas?

A pergunta é importante porque chega um momento, inevitável, em que os senhores reclamam sua propriedade, de uma vez e para sempre. Foi o que aconteceu com S. Joana de Chantal, e é o que acontecerá também a nós, tatuados ou não. 

Cada um faça o seu exame de consciência.

Referências

  1. Teología de la perfección cristiana. 14.ª ed., Madri: BAC, 2015, pp. 357–358, n. 242.5.
  2. Encarnação, Nascimento e Infância de Jesus Cristo. São Paulo: Cultor de Livros, 2016, pp. 158–159.

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Dualismo gnóstico: ainda um desafio para a fé cristã
Doutrina

Dualismo gnóstico:
ainda um desafio para a fé cristã

Dualismo gnóstico: ainda um desafio para a fé cristã

A reverência e o respeito ao corpo são centrais no culto e no modo de vida católicos. Mas a cultura ocidental deteriorou-se sob muitos aspectos, assumindo uma forma de gnosticismo: uma ideologia da separação entre corpo e alma, dualista e contrária à Encarnação.

Pe. Tim McCauleyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Como uma erva daninha, a filosofia gnóstica viceja no solo estéril da nossa cultura pós-cristã [1]. Ela também exala um odor desagradável parecido com a fumaça de Satanás, que se infiltra pelas portas da Igreja, influenciando a nossa antropologia e comprometendo a integridade do nosso culto a Cristo na Eucaristia.

O catolicismo tem uma dimensão encarnada. A reverência e o respeito ao corpo são centrais em nosso culto e modo de vida. Infelizmente, a cultura ocidental deteriorou-se sob muitos aspectos, assumindo uma forma de gnosticismo: uma ideologia da separação entre corpo e alma, dualista e contrária à Encarnação. O gnosticismo é um falso espiritualismo que valoriza a alma ou a mente como o verdadeiro eu. Ele denigre o corpo, transformando-o em objeto, uma criação inferior, um estorvo para a alma, ou o trata como matéria bruta a ser manipulada à vontade.

Da perspectiva católica, os seres humanos não são almas que “possuem” corpos como se fossem objetos; pelo contrário, somos sujeitos com uma unidade entre corpo e alma. Pensar que “temos” um corpo pode nos levar a viver no mundo das ideias, desconectados do nosso corpo.  

A “identidade de gênero” é o exemplo mais óbvio da influência de conceitos gnósticos na nossa cultura. Algumas pessoas realmente acreditam que podem ter em sua mente uma “identidade de gênero” oposta ao sexo físico! É óbvio que essas pessoas sofrem e precisam de compaixão, mas a absurdidade da ideologia de gênero é um indício do quanto os seres humanos podemos nos dissociar da realidade do nosso corpo.

A tecnologia pode refletir e reforçar essas ideias gnósticas nocivas ao perpetuar a tendência de nos identificarmos de forma exagerada com a nossa mente. A internet possibilita a comunicação de longa distância em maior escala, o que leva à consequência involuntária de nos tirar de nosso ambiente imediato. Uma caminhada por um quarteirão qualquer numa cidade confirma essa observação. As pessoas estão tão absorvidas por seus smartphones, que ficam completamente alienadas do seu entorno e das outras pessoas. Muitas horas gastas com meios de comunicação em massa podem afetar profundamente a psique, criando o hábito de viver em um mundo exclusivamente mental e virtual, separado da realidade do corpo.  

Na Eucaristia, a nossa comunhão com Cristo encontra-se viciada pelo hábito de vivermos fechados em nossa mente, separados e dissociados do nosso corpo e do momento presente. Se não estamos presentes para nós em nosso corpo, como podemos estar presentes para o Corpo de Cristo na Eucaristia? Cristo está verdadeiramente presente, mas nós não. É como alguém que está tão ocupado e distraído, que cumprimenta outra pessoa sem olhá-la nos olhos. É um gesto de amizade vazio. Com paciência e persistência, Jesus fica à porta do nosso coração e bate, mas não há resposta porque ninguém está em casa. A pessoa está tão distraída e distante, que recebe o sacramento do Corpo e Sangue de Cristo como se fosse um pedaço de pão, e não uma pessoa viva.

No Catecismo da Igreja Católica, lemos o seguinte na seção que aborda o esforço na vida de oração: “A dificuldade habitual da nossa oração é a distração” (n. 2729). Essa falta de atenção na oração é um aspecto comum e normal na experiência humana. No entanto, quando a distração se aprofunda a ponto de virar dissociação, ficamos à beira de uma experiência de “desencarnação” que limita severamente a nossa capacidade de rezar e estar em comunhão com Deus e os outros.

Creio que precisamos trazer à luz a nossa colaboração inconsciente com ideias gnósticas. Por medo e orgulho, muitas vezes preferimos viver em nossa mente, não em nosso corpo. A mente pode nos dar ilusão de poder e controle. O corpo, fraco e limitado, faz-nos lembrar de uma realidade que muitos consideram desagradável e repugnante, para dizer o mínimo: somos seres mortais, contingentes, que a todo momento dependem por completo de Outro para permanecer na existência.  

No entanto, é somente através do nosso corpo, deficiente, fraco e mortal, que adoramos verdadeiramente e entramos em comunhão com Cristo em seu Corpo e Sangue. Cristo assumiu a natureza humana para que, por meio dela, pudéssemos entrar em comunhão com a sua divindade. E Ele, sendo Deus, abraçou a sua natureza humana com mais intensidade que nós! Não teve vergonha da pobreza nem da fraqueza humanas. Contudo, muitas vezes nos envergonhamos da nossa humanidade e desejamos desesperadamente libertar-nos dos limites e sofrimentos da condição humana. Mas dessa forma não podemos ter uma comunhão verdadeiramente física com Cristo.

Jesus é o nosso modelo para a adoração encarnada. Em sua Encarnação, quando veio ao mundo no seio de Maria, Ele disse ao Pai: “Mas me formaste um corpo [...]. Eis que venho para fazer a tua vontade” (Hb 10, 5.7).

Cristo não apenas se alegrou em fazer-se pequeno e indefeso como criança, mas também aceitou sofrer no próprio corpo uma dor incompreensível durante a Paixão. Poderia ter escolhido separar-se do corpo por um êxtase, graça dada a alguns mártires que foram milagrosamente poupados da violência de seus sofrimentos. Mas Cristo recusou beber vinho misturado com mirra, um tipo de analgésico, porque preferiu passar pela agonia plena da Paixão, a fim de esvaziar o cálice do seu sofrimento até os últimos resíduos amargos.  

Acima de tudo, surpreende-nos que Cristo tenha ressuscitado, retomando um corpo humano. Ele não ressuscitou como puro espírito, abandonando o corpo físico. Ascendeu aos céus com o mesmo corpo. Está agora sentado à direita do Pai com este corpo. Com este mesmo corpo humano glorificado Ele vive e reina para todo o sempre. 

E nós somos curados por sua Encarnação, Morte e Ressurreição. Por meio da “associação” permanente e irrevogável a seu próprio corpo, Cristo regenera a dissociação que tantas vezes experimentamos no nosso. Por meio da sua existência e adoração encarnadas, Ele nos torna capazes de abraçar amorosamente a nossa natureza humana e adorá-lo de modo reverente com todo o nosso ser. Pela nossa participação plena, ativa, consciente e corpórea na Missa, podemos experimentar a Eucaristia de forma mais profunda como fonte e ápice da nossa fé. Assim, estaremos capacitados para anunciar o Evangelho em nossa cultura secular. Nas palavras de São Paulo, espalharemos o “bom odor” de Cristo, afastando o ar envenenado das falácias gnósticas.

Notas

  1. Este texto sublinha especialmente a importância da corporalidade para a fé cristã; mas vale a pena destacar que o gnosticismo é mais do que desprezo do corpo, e nem todo desprezo do corpo é, só por isso, uma forma “derivada” de gnosticismo. Na verdade, a desvalorização do corpo, a perda de seu sentido sacro etc., é um traço mais ou menos comum às culturas pagãs, tenham ou não elementos gnósticos (Nota da Equipe CNP).

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