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Beato Carlos, o Imperador da Paz
Santos & Mártires

Beato Carlos, o Imperador da Paz

Beato Carlos, o Imperador da Paz

Seu desejo de paz, infelizmente, não foi correspondido pelos chefes de Estado de sua época. Mas o Beato Carlos da Áustria não deixou de buscá-la jamais, tanto na vida quanto na morte. Por isso, mesmo os seus inimigos se lembram dele como “o Imperador da Paz”.

Denis KitzingerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Março de 2021Tempo de leitura: 7 minutos
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“Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5, 9).

Carlos I (1887-1922), imperador da Áustria e rei da Hungria, despediu-se da esposa, a imperatriz Zita. “Vou te amar para sempre”, declarou, assim como fizera onze anos antes, quando se casaram. Em seguida, chamou o primeiro filho, Otto, para “testemunhar como um católico e um imperador se comporta quando morre”. O imperador recebeu a Extrema Unção e pronunciou suas últimas palavras: “Faça-se a vossa santa vontade. Jesus, Jesus, vinde! Sim, sim. Meu Jesus, seja feita a vossa vontade. Jesus”.

Carlos morreu no exílio. Em 1919, a nova República da Áustria baniu o imperador de sua terra natal, por decreto das detestáveis Leis de Habsburgo. Após duas tentativas fracassadas de recuperar o trono da Hungria, ele foi exilado em Portugal pelas potências da Entente. A família residia numa casa de montanha na ilha da Madeira. Em março de 1922, o imperador contraiu um forte resfriado que logo evoluiu para pneumonia por causa da casa fria e úmida. Com o pensamento sempre voltado para o bem de seu povo, Carlos ofereceu sua doença e seu sofrimento em sacrifício pela paz e a unidade de suas terras: “Devo sofrer assim para que meu povo esteja unido”. Carlos I, imperador da Áustria e rei da Hungria, morreu no dia 1.º de abril de 1922, com trinta e cinco anos de idade.

Seis anos antes, o reinado de Carlos começara com o funeral de seu tio-avô, o imperador Francisco José (1830-1916). No nascimento de Carlos, poucos pensavam que um dia ele herdaria o trono. Um sobrinho-neto estava simplesmente muito distante na linha de sucessão.

Assim, o jovem príncipe recebeu pouca atenção pública. Ao crescer, tornou-se um rapaz encantador, dedicado a quaisquer que fossem as suas tarefas, caridoso sempre, reverente e piedoso. Ele adorava brincar de soldado, sua futura vocação. “Sua maior alegria”, porém, “foi poder ser coroinha”, relembrou seu tutor. Desde muito jovem, Carlos teve uma devoção especial e perpétua à Santa Eucaristia e ao Sagrado Coração.

Em 1900, Carlos repentinamente se viu em segundo lugar na linha de sucessão ao trono. Ele tinha apenas treze anos. Seu tio, o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro direto do trono, decidira casar-se com alguém abaixo de sua posição (sua esposa era uma mera condessa), e seus filhos, consequentemente, foram excluídos da sucessão imperial. Deu-se então prioridade ao casamento de Carlos com a princesa Zita de Bourbon-Parma, que compartilhava o mesmo amor à vida familiar e ao ar livre. Depois do casamento, Carlos disse-lhe: “Agora, devemos nos ajudar um ao outro a chegar ao céu”. O casal foi abençoado com oito filhos durante os dez anos de uma vida matrimonial feliz e exemplar.

Cinco anos depois, Carlos liderou a grande procissão fúnebre da Catedral de Santo Estêvão até a Cripta Imperial de Viena (ou Cripta dos Capuchinhos), onde os membros da Casa de Habsburgo eram colocados para o repouso. O arcebispo de Viena, juntamente com outros quatro cardeais, vinte bispos e quarenta e oito padres, celebrou a Missa de exéquias de Francisco José. Milhares se enfileiraram nas ruas de Viena, observando a procissão passar, prestando homenagens e demonstrando afeto pelo velho imperador. O reinado de Francisco José, que tinha sessenta e oito anos, fez dele um símbolo de estabilidade e continuidade. Com a morte dele, um novo período da história da Áustria-Hungria começou, e seu futuro agora estava nas mãos do inexperiente sobrinho-neto de 26 anos.

A época em que Carlos ascendeu ao trono não era feliz. A terrível Grande Guerra assolara a Europa por dois anos. Ele herdou um império internamente multiétnico, dilacerado pelo fanatismo nacionalista e em necessidade desesperada de reformas políticas e sociais, sofrendo com a miséria e a pobreza generalizadas, agravadas ainda com a guerra.

Desde o início, Carlos concebeu seu ofício “como um serviço sagrado ao seu povo”, e sua principal preocupação era “seguir a vocação cristã à santidade”. O arcebispo de Budapeste, que coroou Carlos como rei da Hungria, recordou que “não era a ornamentação nem a pompa que lhe interessava, era apenas o dever que cumpria perante Deus, perante a nação e perante a Igreja. Ele desejava ser digno daquilo para o qual fôra escolhido”. Diante do altar-mor da magnífica igreja de Matias Corvino, em Budapeste, Carlos comprometeu-se a trabalhar incansavelmente pela paz e justiça em seu reino.

Em sua primeira declaração, sublinhou seu compromisso com este dever sagrado, declarando que faria “tudo para banir, no menor tempo possível, os horrores e sacrifícios da guerra e para reconquistar para meu povo a bênção perdida da paz”.

Em seu compromisso com a paz, seguiu os esforços do Papa Bento XV. O Santo Padre pediu uma paz sem vencedores. Mas a proposta da Santa Sé encontrou ouvidos moucos em todos os lugares, exceto em Viena. Entre os estadistas europeus, Carlos ficou sozinho.

A guerra começou com a animada partida das tropas, certas de uma vitória rápida. Em 1916, um número incontável de filhos da Europa havia caído na implacável Guerra de Trincheiras. A tragédia que desencadeou a cadeia de eventos que levaram à eclosão da desastrosa guerra foi o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando e sua esposa, Sofia, em Sarajevo, por um terrorista sérvio. Por ironia, Francisco Ferdinando era particularmente simpático aos eslavos do sul e à busca por uma Iugoslávia unida. Além disso, seus planos inovadores para a reforma imperial prometiam às nações menores dentro do império um grau sem precedentes de independência e autonomia.

Carlos também reconheceu a necessidade de reorganização interna e previu sabiamente o futuro da monarquia de acordo com os princípios federalistas. Após sua ascensão, ele iniciou uma série de reformas sociais criticamente necessárias e preparou o caminho para uma federação de nações, unidas por sua lealdade à Casa de Habsburgo com base no reconhecimento de benefício e interesse mútuos. Essa constituição tradicional serviria tanto às nações menores quanto ao império e, assim, proporcionaria o equilíbrio de poder europeu. A identidade e cultura de cada nação seriam devidamente reconhecidas e respeitadas em uma verdadeira unidade na diversidade.

No entanto, a política genuinamente europeia da Casa de Habsburgo entrou em conflito com visões menos judiciosas e rivais de uma nova ordem europeia. O jovem e ambicioso Império Alemão e seu imperador, Guilherme II, marcharam por um lugar ao Sol à frente de uma Europa Central germânica. Embora as democracias ocidentais favorecessem a ideia de um Estado-nação organizado de acordo com a forma republicana de governo, elas não procuraram quebrar o Império Austro-Húngaro, ao menos de início. Quando os Estados Unidos entraram na guerra ao lado da Entente, seguindo a retórica poderosa de Woodrow Wilson, as potências ocidentais perseguiram rigorosamente a visão de uma Europa do pós-guerra sem monarquias nem impérios. A Guerra para acabar com todas as guerras chegaria ao clímax de uma paz permanente, com a realização de uma Europa de repúblicas democráticas baseada no princípio progressivo da autodeterminação nacional.

Nos primeiros meses de 1917, Carlos deu os primeiros passos concretos para a realização de uma paz sem vencedores. Ele ofereceu concessões de longo alcance. Infelizmente, para a Europa e para o mundo, os poderes da Entente não podiam ser influenciados. No final, a ideia mal concebida de autodeterminação nacional, juntamente com o desprezo por políticas antigas apresentadas na conferência de paz de Versalhes, apenas preparou o solo para a próxima catástrofe.

A política de paz de Carlos teria sido a escolha mais prudente. Na época, porém, seu desejo de paz não foi correspondido. A Alemanha embotou seus esforços. A Entente recusou suas ofertas. A paz, aquele “belo dom de Deus, cujo nome […] é a palavra mais doce aos nossos ouvidos e a melhor e mais desejável posse” (Bento XV, 1920), Carlos não a alcançou.

E no entanto, mesmo os seus inimigos republicanos, compatriotas, se lembram dele como o Friedenskaiser, o Imperador da Paz. Ao meditar sobre a vida do bem-aventurado imperador Carlos, temos um exemplo encorajador de fé. Lembramos que a justa medida está profundamente ancorada na fé. Lembramos que só podemos ordenar bem a nós mesmos e ao mundo à nossa volta quando unimos nossa vontade à do Pai do céu e, assim, abandonamos toda a inimizade entre Deus e nós. Somente quando nos reconciliarmos com Deus e lutarmos para permanecer em paz com Ele poderemos lutar genuinamente pela paz na terra. Como imperador e rei, Carlos sempre procurou imitar Jesus, o verdadeiro Salomão, o verdadeiro portador da paz, e por isso pode ser chamado um filho de Deus.

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As festas judaicas foram abolidas pela Igreja?
Doutrina

As festas judaicas
foram abolidas pela Igreja?

As festas judaicas foram abolidas pela Igreja?

Seria errado dizer que nós, como cristãos, não observamos de forma alguma as solenes festas judaicas. Na verdade, mais do que observá-las, nós lhes damos pleno cumprimento. Essas festas do Antigo Testamento apontavam para Cristo e são levadas por Ele à perfeição.

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Março de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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[Esta matéria é de autoria do Mons. Charles Pope.]

À medida que se aproxima a Páscoa, é útil refletir sobre o que realmente fazemos nesses dias. Uma pergunta que recebi de um leitor de minha coluna no Our Sunday Visitor ajudará a estruturar a discussão e responder a algumas perguntas.

Minha família e eu estamos fazendo um estudo bíblico online com outras pessoas. Enquanto os livros de Êxodo e Levítico eram lidos, havia várias referências aos dias de festa judaica, como a Páscoa, o Pentecostes e o Yom Kippur, nos quais o próprio Senhor explicava, com detalhes muito exatos, como essas festas deveriam ser celebradas. Em muitos casos, o Senhor disse estas palavras ou algo parecido: “Guardareis aquele dia de geração em geração: é uma instituição perpétua” (Ex 12, 17). Eu sei que Jesus introduziu a Nova Aliança, que substituiu a Antiga, mas as palavras de Deus aqui parecem inequívocas. Deus não quis dizer o que disse aqui? — Nome, local omitido.

Seria errado dizer que nós, como cristãos, não observamos de forma alguma as solenes festas judaicas. Fazemos mais do que observá-las, nós lhes damos pleno cumprimento. Essas festas do Antigo Testamento apontavam para Cristo e são cumpridas por Ele.

O exemplo mais claro disso é a Páscoa. Cristo Jesus é o nosso Cordeiro pascal. Em cada Páscoa, celebramos solenemente que Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi sacrificado de uma vez por todas. Somos libertos da morte e fazemos nosso êxodo da escravidão do pecado para a liberdade gloriosa dos filhos de Deus.

Portanto, nós fazemos mais do que celebrar a Páscoa; em Cristo, nós a cumprimos, ou seja, participamos plenamente de tudo o que a Páscoa significa. Em certo sentido, nós a celebramos todos os domingos, que são uma “mini-Páscoa”.

Quanto à festa judaica de Pentecostes (também chamada Festa das Semanas, das Colheitas ou Shavuot), nós continuamos a celebrá-la também. Embora fosse essencialmente uma festa para celebrar o fim da colheita do trigo, ela também comemorava a entrega das Tábuas da Lei. Como cristãos, cumprimos essa festa porque celebramos a Lei inscrita em nossos corações (não somente em tábuas de pedra) pelo Espírito Santo, e o chamado da Igreja para sair e produzir uma grande colheita.

Outra grande festa judaica é o Yom Kippur, o Dia da Expiação. Aqui também o que eles esperavam e ansiavam foi cumprido (não deixado de lado) em Cristo, que expia os nossos pecados, não apenas uma vez por ano, mas de uma vez por todas, e essa misericórdia está à nossa disposição todos os dias.

Santo Irineu de Lião fala desses prenúncios e de seu cumprimento em Cristo:

Deus continuou chamando-os para o que era primário por meio do que era secundário, isto é, através de prenúncios da realidade: das coisas do tempo para as coisas da eternidade, das coisas da carne para as coisas do espírito, das coisas terrenas para as coisas celestes. Como ele disse a Moisés: “Cuida para que se execute esse trabalho segundo o modelo que te mostrei no monte” (Ex 25, 40).

Por quarenta dias, Moisés se ocupou em lembrar as palavras de Deus, os padrões celestiais, as imagens espirituais, os prenúncios do que estava por vir. S. Paulo diz: eles beberam da rocha que os seguia, e a rocha era Cristo (cf. 1Cor 10, 4). Depois de falar das coisas que estão na Lei, continua: “Todas essas desgraças lhes aconteceram para nosso exemplo; foram escritas para advertência nossa, para nós, que tocamos o final dos tempos” (1Cor 10, 11).

Por meio de prenúncios, eles aprenderam a reverência a Deus e a perseverança em seu serviço. A Lei era, portanto, uma norma de vida para eles e uma profecia do que estava por vir (Adversus Haereses, IV 14, 2-3; 15, 1).

E devemos lembrar também o ensino de S. Paulo: “Ninguém, pois, vos critique por causa de comida ou bebida, ou espécies de festas ou de luas novas ou de sábados. Tudo isso não é mais que sombra do que devia vir. A realidade é Cristo” (Col 2, 16-17). Ele diz algo semelhante em Rm 14.

“São João Batista apontando para o Cristo”, de Murillo.

O leitor também me apresenta uma citação que trata da perpetuidade desses ritos antigos: “Guardareis aquele dia de geração em geração: é uma instituição perpétua” (Ex 12, 17). No entanto, a palavra hebraica para “perpétuo” é olam, que admite muitas nuances de significado. Pode significar “perpetuamente”, mas também pode significar “muito tempo ou duração”. Portanto, o significado não é tão inequívoco quanto se poderia pensar.

Por fim, não devemos esquecer que os Apóstolos receberam autoridade de Cristo para ligar e desligar. Portanto, no concílio de Jerusalém (cf. At 15), os Apóstolos e sacerdotes reunidos determinaram que toda a lei cerimonial judaica e as observâncias tradicionais não se aplicavam aos convertidos gentios. Jesus já havia estabelecido alguns precedentes a esse respeito quando declarou puros todos os alimentos (cf. Mc 7, 19) e desconsiderou algumas das regras mais rígidas sobre o trabalho no sábado.

Portanto, temos um triplo ensino. Primeiro, estamos fazendo mais do que observar as antigas festas; nós estamos dando-lhes pleno cumprimento em Cristo. Em segundo lugar, a palavra olam não significa necessariamente “para sempre”. E terceiro, a Igreja, que agora inclui os gentios, tem autoridade para regular tais observâncias e discernir, com Cristo, o que, do Antigo Testamento, é vinculante e o que não se aplica mais, ou o que é cumprido de maneira mais rica.

Em breve estaremos na Páscoa do Senhor. Jesus é o Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo! Em breve, a batalha que Ele travou por nós se fará presente mais uma vez.

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Por que Deus é comparado ao fogo?
Espiritualidade

Por que Deus
é comparado ao fogo?

Por que Deus é comparado ao fogo?

Todos nós certamente já ouvimos alguma vaga menção ao fogo e à luz em matéria religiosa… Mas qual é, afinal, o simbolismo profundo do fogo? Por que razões o próprio Deus, em várias passagens da Escritura, é comparado a esse elemento da natureza?

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Março de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Como leigo no banco da igreja, vira e mexe me pergunto por que os clérigos não pregam mais vezes sobre o sentido simbólico dos ritos, gestos e objetos da Liturgia, para não falar dos textos (especialmente dos Próprios da Missa — para os lugares afortunados em que ainda se utilizam os Próprios). Ora, já que a Liturgia é o objeto mais óbvio e comum de percepção e meditação para todos os presentes, parece útil e adequado pregar de tal modo, que os fiéis alcancem pouco a pouco uma compreensão mais profunda do que estão vendo e fazendo. É verdade que isso pode tornar-se pesado e excessivamente didático; mas, pelo menos, permite abordar o conteúdo de uma dada celebração — não me refiro aqui às leituras, que são o centro de atenção, mas aos outros elementos da Liturgia que se desenvolvem em torno das leituras. Um sinal de que isso é oportuno pode ser visto na incrível quantidade de pregações patrísticas e medievais dedicadas a desvelar o sentido da Liturgia aos fiéis.

Uma boa oportunidade está se aproximando rapidamente: refiro-me à grande Vigília de Páscoa, quando se acende e ilumina com fogo novo o Círio Pascal. Todos nós, é provável, já ouvimos alguma menção em homilias ao fogo e à luz, mas tudo envolto em aparentes generalidades, o que tem a eficácia de clichês. Por que não seguir os passos de S. Tomás de Aquino e meditar o simbolismo profundo do fogo — em concreto, quais são as razões por que Deus mesmo é comparado ao fogo? Em seus comentários à Escritura, o Doutor Angélico comenta várias vezes por que Deus e sua ação são comparados ao fogo.

  • Em Super Isaiam 33, dá três razões: o fogo purifica, põe outras coisas em chamas e condena;
  • Em Super Hebraeos 12, l. 5, onde se diz que o fogo, entre as coisas sensíveis, é a mais nobre, a mais brilhante, a mais ativa, a de maior altura e a de maior poder de purificar e consumir;
  • Em Super Isaiam 30, dá cincos razões para simbolizar a caridade como fogo: ela ilumina, faz ferver o coração (exestuat), atrai as coisas para si, torna a pessoa pronta para agir e leva para o alto;
  • Super Ieremiam 5 dá cinco razões pelas quais a palavra do Senhor é como fogo: ela ilumina, põe em chamas, penetra, derrete e consome o desobediente.

Tais descrições do fogo guardam quase sempre um paralelo com a doutrina de S. Tomás sobre os efeitos do amor. Por exemplo, tanto em In III Sent., dist. 27, q. 1, a. 1 ad 4 quanto em STh I-II 28, 5, S. Tomás explica como um amor intenso causa fervor ou ardor, como ele derrete ou “liquefaz” o coração e como ele faz o amante penetrar no mais íntimo do amado. É por isso, com efeito, que o êxtase (para S. Tomás, um dos vários efeitos do amor) é com muita propriedade comparado ao fogo, o qual parece estar sempre a elevar-se sobre si mesmo e a desaparecer no ar, tendendo sempre para fora e para cima. S. Tomás nota com delicadeza que é próprio dos que se amam não ser capazes de manter o seu amor em segredo: ele se expande porque suas chamas não podem ser contidas dentro do peito [1]. E noutra passagem: “O fervor procede, com efeito, da abundância do calor, daí que se chame ‘fervor de espírito’, porque, devido à abundância do amor divino, o homem todo arde por Deus” [2].

O comentário mais amplo sobre o simbolismo do fogo aplicado a Deus está no comentário de S. Tomás a Isaías, capítulo 10:

Nota sobre aquela palavra, e a luz de Israel se tornará um fogo (Is 10, 17), que nosso Deus se diz fogo: primeiro, porque é sutil; e quanto a isso, diz-se sutil, [primeiro], quanto à substância, porque se diz espírito: “Deus é espírito” (Jo 4, 24); segundo, quanto à ciência, porque é penetrante: “A Palavra de Deus é viva, eficaz, mais penetrante do que uma espada de dois gumes” (Hb 4, 12); (c) terceiro, quanto à aparência, porque é invisível: “Mas a [sua] sabedoria onde se encontra” ( 28, 12), e abaixo, o mesmo: “Um véu a oculta de todos os viventes” ( 28, 21), ou: “Todos os homens [a contemplam, mas cada um a considera de longe]” ( 36, 25).

Segundo, porque é lúcido. O que porém seja lúcido, é evidente, primeiro, porque manifesta [outras coisas], quanto ao intelecto: “É na vossa luz que vemos a luz” (Sl 35, 10); segundo, porque agrada quanto ao afeto: “Que felicidade posso eu ter ainda? Estou nas trevas, sem poder ver a luz do céu?” (Tb 5, 12); terceiro, porque dirige quanto ao ato. Abaixo, c. 60: “As nações se encaminharão à tua luz, e os reis, ao brilho de tua aurora” (Is 60, 3).

Terceiro, porque é cálido; e isto, primeiro, porque vivifica: “Deixa-os aquecer sobre a areia” ( 39, 14); “Até aos meus ossos lançou ele do alto um fogo que os devora” (Lm 1, 13); segundo, porque purga: “O vapor do fogo cresta as suas carnes, e ele aguenta-se contra o calor da frágua” (Eclo 38, 29); terceiro, porque devasta: “Acendeu-se o fogo da minha cólera, e arderá até ao fundo da habitação dos mortos” (Dt 32, 22).

Quarto, porque é leve; e isto, primeiro, por causa do movimento [isto é, da finalidade], porque “tudo fez o Senhor para [glória de] si mesmo” (Pr 16, 4); segundo, por causa do lugar, porque “está sentado nas alturas” (Sl 112, 5); terceiro, por causa do modo impermisto: “[A sabedoria é mais ágil que todo o movimento], tudo atravessa e penetra por causa da sua pureza. Ela é um sopro do poder de Deus, [uma pura emanação da glória do Onipotente: por isso não se pode encontrar nela a menor impureza]” (Sb 7, 24s).

É bom lembrar mais uma vez, por meio de textos tão brilhantes como esse, que demonstram uma maestria agostiniana de exegese e nos brindam com abundantes referências cruzadas que se iluminam mutuamente, que o Doutor Angélico era e via-se a si mesmo, antes de tudo, como um comentador da Escritura, um Magister Sacrae Paginae, um professor de página sacra. O restante de suas eminentes atividades intelectuais fluíam de uma sistematizada lectio divina das escolas. Isso pode sugerir ainda uma espécie de reconciliação entre pregar sobre o Lecionário e pregar sobre os ritos e símbolos litúrgicos. Ao fim e ao cabo, tais ritos e símbolos estão em si mesmos radicados na Escritura, e a Escritura, por sua vez, é poderosamente ilustrada e atualizada por eles. Expor o sentido da Liturgia não é, por conseguinte, contrário à reflexão sobre as leituras, mas o contexto essencial para ela.

Referências

  1. Super Rom. 8, l. 7: “Esta é, com efeito, a condição dos que se amam: que não podem ocultar seu amor sob o silêncio, senão que o declaram e revelam a seus familiares e queridos, e não podem conter-lhe as chamas debaixo do peito. Recontam-no frequentemente, para que na assiduidade mesma com que falam dele encontrem consolo e refresquem seu imenso ardor”.
  2. Em STh I 108, 5, S. Tomás dá como primeira razão pela qual os serafins são denominados a partir do fogo: “Primeiro, pelo movimento, que é ascensional, e que é contínuo. Pelo que se significa que indeclinavelmente se movem em direção a Deus”.

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Rezando a Via Sacra com Santo Afonso de Ligório
Oração

Rezando a Via Sacra
com Santo Afonso de Ligório

Rezando a Via Sacra com Santo Afonso de Ligório

Com estas orações compostas por Santo Afonso Maria de Ligório, refaça conosco o mesmo caminho que Nosso Senhor percorreu com a Cruz às costas, desde o pretório de Pilatos até o monte Calvário.

Equipe Christo Nihil Praeponere26 de Março de 2021Tempo de leitura: 16 minutos
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A Via Sacra é uma das mais antigas formas de se meditar a Paixão de Cristo. A expressão vem do latim e significa “caminho sagrado”: literalmente falando, nada mais é que o trajeto percorrido por Nosso Senhor com a Cruz às costas, desde o pretório de Pilatos, onde foi condenado à morte, até o Calvário, onde foi crucificado. 

Segundo uma piedosa tradição, ninguém menos que a Virgem Maria teria dado início a este santo exercício: após a morte de seu divino Filho, seja sozinha, seja em companhia das santas mulheres, ela teria refeito constantemente a via crucis, isto é, o “caminho da Cruz”.

Seguindo o exemplo de Nossa Senhora, os fiéis da Palestina — e, no correr dos anos, numerosos peregrinos de todos os lugares do mundo — procuraram visitar aqueles santos lugares, cobertos pelo suor e pelo sangue de Jesus Cristo; e a Igreja, a fim de encorajar-lhes a piedade, abriu a esses peregrinos seus tesouros de bênçãos espirituais. 

Como, porém, nem todos podem ir à Terra Santa, a Santa Sé autorizou que fossem erigidas, nas igrejas e nas capelas de todo o mundo, cruzes, pinturas ou baixos-relevos representando as tocantes cenas que se passaram na estrada verdadeira ao Calvário, em Jerusalém.

Ao permitir a construção dessas “estações”, como são chamadas — e que tradicionalmente são em número de 14 —, os Pontífices Romanos, que compreendiam toda a excelência e eficácia desta devoção, se dignaram também enriquecê-las de todas as indulgências que advinham de uma visita de verdade à Terra Santa. 

Ainda hoje, segundo o Manual das Indulgências, “concede-se indulgência plenária ao fiel que fizer o exercício da via-sacra, piedosamente”, levando-se em conta o seguinte (conc. 63): 

  1. “O piedoso exercício deve-se realizar diante das estações da via-sacra, legitimamente eretas. 
  2. Requerem-se catorze cruzes para erigir a via-sacra; junto com as cruzes, costuma-se colocar outras tantas imagens ou quadros que representam as estações de Jerusalém. 
  3. Conforme o costume mais comum, o piedoso exercício consta de catorze leituras devotas, a que se acrescentam algumas orações vocais. Requer-se piedosa meditação só da Paixão e Morte do Senhor, sem ser necessária a consideração do mistério de cada estação. 
  4. Exige-se o movimento de uma para a outra estação. Mas, se a via-sacra se faz publicamente e não se pode fazer o movimento de todos os presentes ordenadamente, basta que o dirigente se mova para cada uma das estações, enquanto os outros ficam em seus lugares.”

Essa indulgência pode, ainda, ser lucrada todos os dias do ano e aplicar-se aos defuntos como sufrágio. 

Se sempre devemos meditar os sofrimentos de nosso Redentor, a Quaresma, porém, é um tempo ainda mais propício para isso, especialmente nas suas duas últimas semanas, tradicionalmente denominadas de “Tempo da Paixão”.

Por isso, publicamos a seguir o texto de uma Via Sacra com meditações compostas por S. Afonso Maria de Ligório. Encontramos essa preciosidade no site Preces Latinae (onde é possível rezar com essas reflexões em latim) e a tradução portuguesa abaixo é de nossa equipe. (Há também uma versão dessa oração em italiano aqui.)

De uma estação a outra, é recomendável que se entoe algum canto piedoso, como o Stabat mater. Em língua portuguesa, talvez o hino A morrer crucificado seja o mais conhecido para essa finalidade. Por isso, acrescentamos os seus versos após cada uma das meditações de Santo Afonso (embora eles não sejam de autoria do santo). Também adicionamos, no final da Via Sacra, duas orações tradicionais que normalmente a acompanham: uma a Jesus crucificado e outra a Nossa Senhora das Dores (mas tampouco elas são da pena de Santo Afonso).

As imagens das estações, a seguir, se encontram na Igreja de São Bonifácio, na cidade de Leeuwarden, Holanda.


Oração inicial. — Senhor Jesus Cristo, vós com tanto amor entrastes nesta via para morrerdes por mim; eu porém tantas vezes vos desprezei! Agora, de toda a minha alma vos amo e, porque vos amo, arrependo-me do fundo do coração de ter-vos ofendido. Perdoai-me e permiti que vos acompanhe nesta via. Vós, por amor a mim, caminhais para o lugar em que por mim haveis de morrer, e eu também, por amor a vós, desejo acompanhar-vos para convosco morrer, amantíssimo Redentor. Ó meu Jesus, desejo convosco viver e morrer!

1.ª Estação — Jesus é condenado à morte

℣. Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos.
℟. Porque, por vossa santa Cruz, redimistes o mundo.

Contemplemos como Jesus Cristo, já flagelado e coroado de espinhos, foi por fim injustamente condenado à morte por Pilatos.

Oração. — Ó Jesus adorável, não foi Pilatos, mas minha vida iníqua que vos condenou à morte. Pelo mérito deste tão penoso itinerário, no qual entrais rumo ao monte Calvário, peço-vos que benignamente me acompanheis no caminho pelo qual minha alma se dirige à eternidade. Amo-vos, ó Jesus, meu Amor, mais do que a mim mesmo, e do fundo do coração me arrependo de ter-vos ofendido. Não permitais que eu novamente me separe de vós. Dai-me amor perpétuo a vós e fazei de mim o que quiserdes. O que vos for agradável também o será para mim.

Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

A morrer crucificado,
Teu Jesus é condenado
Por teus crimes, pecador.
Pela Virgem dolorosa,
Vossa Mãe tão piedosa,
Perdoai-me, meu Jesus.

2.ª Estação — Jesus carrega a Cruz

℣. Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos.
℟. Porque, por vossa santa Cruz, redimistes o mundo.

Contemplemos como Jesus Cristo, levando a Cruz aos ombros, lembrava-se no caminho de oferecer por nós ao Pai eterno a morte que havia de sofrer.

Oração. — Ó amabilíssimo Jesus, abraço todas as adversidades que, por vossa vontade, hei de tolerar até a morte e, pelo duro sofrimento que suportastes carregando a Cruz, peço-vos que me deis forças para que também eu possa carregar, com ânimo forte e paciente, minha própria cruz. Amo-vos, ó Jesus, meu Amor, e arrependo-me de ter-vos ofendido. Não permitais que novamente me separe de ti. Dai-me amor perpétuo a vós e fazei de mim o que quiserdes.

Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

Com a Cruz é carregado,
E do peso acabrunhado,
Vai morrer por teu amor.
Pela Virgem dolorosa,
Vossa Mãe tão piedosa,
Perdoai-me, meu Jesus.

3.ª Estação — Jesus cai pela primeira vez

℣. Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos.
℟. Porque, por vossa santa Cruz, redimistes o mundo.

Contemplemos a primeira queda de Jesus sob o peso da Cruz. Tinha Ele a carne, por causa da cruenta flagelação, ferida de muitos modos e a cabeça coroada de espinhos; derramara ainda tanto sangue, que mal podia mover os pés por falta de forças. E porque era oprimido pelo grave peso da Cruz e açulado sem clemência pelos soldados, por isso aconteceu-lhe de cair muitas vezes por terra ao longo do caminho.

Oração. — Ó meu Jesus, não é o peso da Cruz, mas o dos meus pecados que de tantas dores vos cobre. Rogo-vos, por esta vossa primeira queda, que me protejais de toda queda em pecado. Amo-vos, ó Jesus, de todo o meu coração; arrependo-me de ter-vos ofendido. Não me permitais novamente cair em pecado. Dai-me amor perpétuo a vós e fazei de mim o que quiserdes.

Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

Pela Cruz tão oprimido,
Cai Jesus, desfalecido,
Pela tua salvação.
Pela Virgem dolorosa,
Vossa Mãe tão piedosa,
Perdoai-me, meu Jesus.

4.ª Estação — Jesus se encontra com sua Mãe dolorosa

℣. Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos.
℟. Porque, por vossa santa Cruz, redimistes o mundo.

Contemplemos como deve ter sido o encontro, neste caminho, do Filho e da Mãe. Jesus e Maria se olharam entre si, e os olhares mudos que trocaram foram outras tantas setas a atravessar o coração amante de ambos.

Oração. — Ó amantíssimo Jesus, pela dor acerba que experimentastes neste encontro, tornai-me, eu vos peço, verdadeiramente devoto de vossa Mãe santíssima. E vós, ó minha dolorosa Rainha, intercedei por mim e alcançai-me uma tal memória dos suplícios de vosso Filho, que minha mente esteja para sempre detida na piedosa contemplação deles. Amo-vos, ó Jesus, meu Amor; arrependo-me de ter-vos ofendido. Não me permitais novamente pecar contra vós. Dai-me amor perpétuo a vós e fazei de mim o que quiserdes.

Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

De Maria lacrimosa,
No encontro lastimosa,
Vê a imensa compaixão.
Pela Virgem dolorosa,
Vossa Mãe tão piedosa,
Perdoai-me, meu Jesus.

5.ª Estação — O Cirineu ajuda Jesus a carregar a Cruz

℣. Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos.
℟. Porque, por vossa santa Cruz, redimistes o mundo.

Contemplemos como os judeus obrigaram Simão de Cirene a carregar a Cruz atrás do Senhor, vendo Jesus quase expirar a cada passo devido ao cansaço e temendo, por outra parte, que morresse no caminho aquele que queriam ver pregado à Cruz.

Oração. — Ó dulcíssimo Jesus, não quero, como o Cirineu, repudiar a Cruz. De bom grado a abraço e tomo sobre mim; abraço especialmente a morte que para mim estabelecestes, com todas as dores que ela trará consigo. Uno minha morte à vossa e, assim unida, ofereço-a a vós em sacrifício. Vós morrestes por amor a mim; quero também eu morrer por amor a vós, com a intenção de vos agradar. Vós, porém, ajudai-me com a vossa graça. Amo-vos, ó Jesus, meu Amor, e arrependo-me de ter-vos ofendido. Não permitais que eu novamente vos ofenda. Dai-me amor perpétuo a vós e fazei de mim o que quiserdes.

Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

Em extremo desmaiado,
Teve auxílio, tão cansado,
Recebendo o Cireneu.
Pela Virgem dolorosa,
Vossa Mãe tão piedosa,
Perdoai-me, meu Jesus.

6.ª Estação — Verônica limpa com um sudário o rosto de Jesus

℣. Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos.
℟. Porque, por vossa santa Cruz, redimistes o mundo.

Contemplemos como aquela santa mulher Verônica, vendo Jesus abatido pelas dores, com o rosto banhado em suor e sangue, estendeu-lhe um pano em que, purificada a face, Ele deixou impressa sua imagem.

Oração. — Ó meu Jesus, formosa era antes a vossa face; mas agora não aparece assim, tão deformada está por feridas e sangue! Ai de mim, como era formosa também minha alma, quando recebi a vossa graça pelo Batismo: mas, pecando, tornei-a disforme. Vós somente, meu Redentor, lhe podeis restituir a antiga beleza. Para que o façais, rogo-vos pelo mérito de vossa Paixão. Amo-vos, ó Jesus, meu Amor; arrependo-me de ter-vos ofendido. Não permitais que eu novamente vos ofenda. Dai-me amor perpétuo a vós e fazei de mim o que quiserdes.

Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

O seu rosto ensanguentado,
Por Verônica enxugado,
Eis, no pano, apareceu.
Pela Virgem dolorosa,
Vossa Mãe tão piedosa,
Perdoai-me, meu Jesus.

7.ª Estação — Jesus cai pela segunda vez

℣. Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos.
℟. Porque, por vossa santa Cruz, redimistes o mundo.

Contemplemos a segunda queda de Jesus sob o peso da Cruz, na qual se lhe aprofundam todas as chagas da venerável cabeça e de todo o corpo, e se renovam todas as angústias do doloroso Senhor.

Oração. — Ó mansíssimo Jesus, quantas vezes me concedestes o perdão! Eu, porém, recaí nos mesmos pecados e renovei minhas ofensas contra vós. Pelo mérito desta vossa nova queda, ajudai-me a perseverar em vossa graça até a morte. Fazei, em todas as tentações que avançarão contra mim, que em vós sempre me refugie. Amo-vos de todo o meu coração, ó Jesus, meu Amor; arrependo-me de ter-vos ofendido. Não permitais que eu novamente vos ofenda. Dai-me amor perpétuo a vós e fazei de mim o que quiserdes.

Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

Outra vez desfalecido,
Pelas dores abatido,
Cai por terra o Salvador.
Pela Virgem dolorosa,
Vossa Mãe tão piedosa,
Perdoai-me, meu Jesus.

8.ª Estação — Jesus fala às mulheres de Jerusalém

℣. Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos.
℟. Porque, por vossa santa Cruz, redimistes o mundo.

Contemplemos como estas mulheres, vendo Jesus morto de cansaço e coberto de sangue, são tocadas de comiseração e choram copiosamente. Mas, voltando-se a elas, Ele diz: “Não choreis por mim; antes, chorai por vós mesmas e por vossos filhos”.

Oração. — Ó doloroso Jesus, choro os pecados que cometi contra vós, não só pelas penas de que me fizeram digno, mas sobretudo pela tristeza que vos causaram a vós, que tanto me amastes. Ao choro me move menos o inferno que o amor a vós. Ó meu Jesus, amo-vos mais do que a mim mesmo; arrependo-me de ter-vos ofendido. Não permitais que eu novamente vos ofenda. Dai-me amor perpétuo a vós e fazei de mim o que quiserdes.

Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

Das mulheres piedosas,
De Sião filhas chorosas,
É Jesus consolador.
Pela Virgem dolorosa,
Vossa Mãe tão piedosa,
Perdoai-me, meu Jesus.

9.ª Estação — Jesus cai pela terceira vez

℣. Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos.
℟. Porque, por vossa santa Cruz, redimistes o mundo.

Contemplemos a terceira queda de Cristo sob o peso da Cruz. Caiu porque era demasiada a sua fraqueza e excessiva a crueldade dos algozes, que lhe queriam acelerar a marcha, embora Ele mal pudesse dar um passo.

Oração. — Ó Jesus tão maltratado, pelo mérito desta falta de forças que quisestes padecer no caminho do Calvário, confortai-me, eu vos peço, com tanto vigor, que já não tenha respeito algum às opiniões dos homens e domine minha natureza viciosa: porque ambas as coisas foram a causa por que desprezei outrora a vossa amizade. Amo-vos, ó Jesus, meu Amor, de todo o meu coração; arrependo-me de ter-vos ofendido. Não permitais que eu novamente vos ofenda. Dai-me amor perpétuo a vós e fazei de mim o que quiserdes.

Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

Cai, terceira vez, prostrado,
Pelo peso redobrado
Dos pecados e da Cruz.
Pela Virgem dolorosa,
Vossa Mãe tão piedosa,
Perdoai-me, meu Jesus.

10.ª Estação — Jesus é espoliado de suas vestes

℣. Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos.
℟. Porque, por vossa santa Cruz, redimistes o mundo.

Contemplemos com que violência arrancaram as vestes a Cristo. Como o traje interior estivesse muito pegado à carne, aberta pelos flagelos, os carnífices, ao puxarem-lha, rasgaram-lhe também a pele. Tenhamos compaixão de Nosso Senhor e lhe falemos assim:

Oração. — Ó inocentíssimo Jesus, pelo mérito da dor que padecestes nesta espoliação, ajudai-me, eu vos peço, a despir-me de todo afeto às coisas criadas e, com toda a inclinação de minha vontade, converter-me somente a vós, que sois tão digno do meu amor. Amo-vos de todo o meu coração; arrependo-me de ter-vos ofendido. Não permitais que eu novamente vos ofenda. Dai-me amor perpétuo a vós e fazei de mim o que quiserdes.

Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

Dos vestidos despojado,
Por algozes maltratado,
Eu vos vejo, meu Jesus.
Pela Virgem dolorosa,
Vossa Mãe tão piedosa,
Perdoai-me, meu Jesus.

11.ª Estação — Jesus é pregado à Cruz

℣. Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos.
℟. Porque, por vossa santa Cruz, redimistes o mundo.

Contemplemos como Jesus é arremessado sobre a Cruz e, de braços estendidos, oferece sua vida ao Pai eterno em sacrifício pela nossa salvação. Os carnífices o pregam à Cruz e, depois de erguerem esta, deixam-no levantado num infame patíbulo, abandonado a uma morte cruel.

Oração. — Ó Jesus tão desprezado, pregai meu coração aos vossos pés, para que, com vínculo de amor, eu permaneça sempre a vós ligado e jamais seja de vós separado. Amo-vos mais do que a mim mesmo, arrependo-me de ter-vos ofendido. Não permitais que eu novamente vos ofenda. Dai-me amor perpétuo a vós e fazei de mim o que quiserdes.

Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

Sois por mim na Cruz pregado,
Insultado, blasfemado,
Com cegueira e com furor.
Pela Virgem dolorosa,
Vossa Mãe tão piedosa,
Perdoai-me, meu Jesus.

12.ª Estação — Jesus morre na Cruz

℣. Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos.
℟. Porque, por vossa santa Cruz, redimistes o mundo.

Contemplemos Jesus preso à nossa Cruz. Após três horas de luta, consumido enfim pelas dores, Ele deu o corpo à morte e, de cabeça inclinada, entregou o espírito.

Oração. — Ó Jesus morto, movido por íntimos afetos de piedade, beijo esta Cruz em que vós, por minha causa, cumpristes o curso de vossa vida. Pelos pecados cometidos, mereci uma morte infeliz; mas vossa morte é minha esperança. Pelos méritos de vossa morte, concedei-me, peço-vos, que, abraçado aos vossos pés e abrasado de amor por vós, eu entregue um dia meu espírito. Amo-vos de todo o meu coração; arrependo-me de ter-vos ofendido. Não permitais que eu novamente vos ofenda. Dai-me amor perpétuo a vós e fazei de mim o que quiserdes.

Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

Por meus crimes padecestes,
Meu Jesus, por mim morrestes,
Oh, quão grande é minha dor!
Pela Virgem dolorosa,
Vossa Mãe tão piedosa,
Perdoai-me, meu Jesus.

13.ª Estação — Jesus é descido da Cruz

℣. Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos.
℟. Porque, por vossa santa Cruz, redimistes o mundo.

Contemplemos como dois dos discípulos de Jesus, José e Nicodemos, o tiram exânime da Cruz e o colocam nos braços de sua Mãe dolorosa, que recebe o Filho morto com grande amor e o abraça ternamente.

Oração. — Ó Mãe das Dores, pelo amor com que amais o vosso Filho, recebei-me como servo vosso e rogai a Ele por mim. E vós, ó meu Redentor, porque por mim morrestes, fazei, benignamente, com que eu vos ame; a vós somente desejo nem quero nada fora de vós. Amo-vos, ó Jesus, meu Amor, e arrependo-me de ter-vos ofendido. Não permitais que eu novamente vos ofenda. Dai-me amor perpétuo a vós e fazei de mim o que quiserdes.

Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

Do madeiro vos tiraram
E à Mãe vos entregaram
Com que dor e compaixão!
Pela Virgem dolorosa,
Vossa Mãe tão piedosa,
Perdoai-me, meu Jesus.

14.ª Estação — Jesus é sepultado

℣. Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos.
℟. Porque, por vossa santa Cruz, redimistes o mundo.

Contemplemos como os discípulos levam Jesus exânime ao lugar da sepultura. Triste, a Mãe os acompanha e com as próprias mãos acomoda o corpo do Filho à sepultura. Fecha-se este, enfim, e todos vão-se embora.

Oração. — Ó Jesus sepultado, beijo esta pedra que vos acolheu; mas, após três dias, haveis de ressurgir! Por vossa ressurreição, fazei-me, eu vos peço, ressurgir glorioso convosco no último dia e ir para o Céu, onde, unido a vós para sempre, vos hei de louvar e amar por toda a eternidade. Amo-vos e arrependo-me de ter-vos ofendido. Não permitais que eu novamente vos ofenda. Dai-me amor perpétuo a vós e fazei de mim o que quiserdes.

Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

No sepulcro vos deixaram,
Sepultado, vos choraram,
Magoado o coração.
Meu Jesus, por vossos passos,
Recebei em vossos braços
A mim, pobre pecador.


Oração final a Jesus crucificado. — Eis-me aqui, ó meu bom e dulcíssimo Jesus! Humildemente prostrado de joelhos em vossa presença, peço e suplico-vos, com todo o fervor de minha alma, que vos digneis gravar em meu coração os mais vivos sentimentos de fé, esperança e caridade, de verdadeiro arrependimento de meus pecados, e um firme propósito de emendar-me, enquanto vou considerando, com vivo afeto e dor, as vossas cinco chagas, tendo presentes as palavras que já o profeta Davi punha em vossa boca, ó bom Jesus: “Transpassaram minhas mãos e os meus pés e contaram todos os meus ossos” (Sl 21, 17).

A Nossa Senhora das Dores. — Ó Mãe das Dores, Rainha dos mártires, que tanto chorastes vosso Filho, morto para me salvar, alcançai-me uma verdadeira contrição dos meus pecados e uma sincera mudança de vida. Mãe, pela dor que experimentastes quando vosso divino Filho, no meio de tantos tormentos, inclinando a cabeça expirou à vossa vista sobre a cruz, eu vos suplico que me alcanceis uma boa morte. Por piedade, ó advogada dos pecadores, não deixeis de amparar a minha alma na aflição e no combate da terrível passagem desta vida à eternidade. E, como é possível que, neste momento, a palavra e a voz me faltem para pronunciar o vosso nome e o de Jesus, rogo-vos, desde já, a vós e a vosso divino Filho, que me socorrais nessa hora extrema, e assim direi: Jesus e Maria, entrego-vos a minha alma. Amém.

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