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As mentiras da TV, as profecias da Igreja e as almas de nossos filhos
Sociedade

As mentiras da TV,
as profecias da Igreja
e as almas de nossos filhos

As mentiras da TV, as profecias da Igreja e as almas de nossos filhos

As telas das TVs e dos smartphones estão acesas e prontas para contar um monte de mentiras a você e à sua família… E você, vai fazer algo, ou ficar de braços cruzados?

Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Agosto de 2019Tempo de leitura: 11 minutos
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Continuemos a falar da verdadeira hipnose que exercem sobre nossas mentes os programas de TV, as novelas, os filmes e séries da Netflix e entretenimentos do gênero. É um tema grave, urgente, inesgotável e que merece, mais do que nunca, a nossa consideração.

Como já dito, não se trata de condenar esses espetáculos como imorais per se, pois não o são; deve-se reconhecer todavia que, “infelizmente, no atual estado de coisas, é geralmente para o mal que o cinema exerce sua influência” (Vigilanti cura, 26) — palavras do Papa Pio XI, numa das primeiras manifestações magisteriais sobre os meios de comunicação, no longínquo ano de 1936. 

Vinte anos mais tarde, seria a vez de Pio XII prenunciar “gravíssimos danos individuais e sociais” como consequência do mau uso da recém-chegada televisão (cf. Miranda prorsus, 144). Quase na mesma época, outro Pio, o santo de Pietrelcina, reagia igualmente desconfiado à chegada da TV aos lares católicos. Conta-se que, quando surgiu o aparelho, ele “ficou furioso”, e “a quem lhe dizia que se tratava de uma magnífica invenção, ele respondia: ‘Verá que uso farão dela!’”. 

É a previsão de três homens do século passado, que hoje podemos muito bem tachar de “ultrapassada”, mas que, por se ter baseado em uma visão correta da natureza humana, demonstrou-se plenamente acertada. O que esses piedosos homens disseram do cinema e da TV foi uma verdadeira profecia.

Mas o que eles disseram mesmo? Entre outras coisas, que: 

  • estavam se apresentando “falsas normas de vida ao espírito impressionável e facilmente excitado da mocidade” (Vigilanti cura, 11);
  • os maus filmes produzem “um mal enorme” nas almas: “por glorificarem o vício e as paixões, são ocasiões de pecado; desviam a mocidade do caminho da virtude; revelam a vida debaixo de um falso prisma; ofuscam e enfraquecem o ideal da perfeição; destroem o amor puro, o respeito devido ao casamento, as íntimas relações do convívio doméstico” (Vigilanti cura, 21); e que
  • se devia evitar no cinema “aquelas atitudes tendenciosas e parciais que poderiam favorecer no público conceitos errôneos da vida e do comportamento humano” (Miranda prorsus, 48).

Perceba-se a insistência com que os Papas falam aqui de “erro” e “falsidade”. Esqueça-se por um instante o enorme tempo que as pessoas da nossa época perdem com a TV, as novelas, os filmes e os seriados. O principal alerta do Magistério da Igreja quanto a esses programas, desde o princípio, são justamente as “falsas normas de vida”, a vida apresentada “debaixo de um falso prisma”, os “conceitos errôneos da vida e do comportamento humano”: em resumo, os meios de comunicação mentem.

Se mentem, é porque há uma verdade

Aqui é preciso lembrar uma coisa: a Igreja Católica, em sua missão de ensinar, não se limita a apresentar uma “visão de mundo” qualquer às pessoas, com e sem a qual a vida delas continua a mesma. Não é que, na escola da vida, ela seja uma criança de sala de aula com uma resposta a oferecer às perguntas que fazem os homens, e aqui e ali encontraremos respostas tão boas ou até melhores que a dela, como se o “catolicismo romano” fosse uma religião, ou um credo a mais no mundo… Não! Quem investigar as fontes da Revelação e os próprios documentos do Magistério verá que a pretensão da Igreja é muito maior do que essa: ela clama para si o título de “mãe e mestra”; a Escritura chama-lhe “coluna e sustentáculo da verdade” (1Tm 3, 15); os Santos Padres não lhe economizam elogios; e o Papa Paulo VI, em tempos recentes, disse a seu respeito que era rerum humanarum peritissima, isto é, “peritíssima em humanidade” (Populorum Progressio, 13). 

É claro que, se qualquer pessoa ou instituição simplesmente dissesse isso de si mesma, sem mais nem menos, a coisa mais natural do mundo seria perguntarmos com que credenciais, afinal de contas, tal pessoa ou tal instituição se arroga tais títulos. 

No caso, se perguntarmos isso à Igreja, ela dirá simplesmente, como disse seu Fundador dois mil anos atrás: “Minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou” (Jo 7, 16). Ela dirá: “Não ensino a verdade porque a tenha inventado, mas porque a recebi. E recebi-a não de um líder qualquer, mas do próprio Deus feito homem, Jesus Cristo”.

Se a Igreja dissesse, portanto, confrontando as inúmeras mentiras propagadas pela mídia: “Essa é a minha opinião”, “Nós temos um ‘ponto de vista’”, “Eu acho que isso está errado”, essa postura seria, por si só, a sua destruição. A Igreja, em matéria de fé e moral, não tem uma “contribuição” a dar: ela tem, isso sim, a verdade a ensinar, o remédio infalível a entregar aos homens, sem os quais eles inevitavelmente perecerão. Se a Igreja se limitasse a levantar a mão e apresentar, “como quem não quer nada”, uma respostinha qualquer na sala das religiões, só com isso ela já estaria se condenando a si mesma, traindo a missão que lhe confiou o seu Fundador.

Mas não, a Igreja sabe que estão sendo apresentadas nos meios de comunicação “falsas normas de vida”, que a vida dos homens ali é apresentada “debaixo de um falso prisma” e que estão sendo propagados aos quatro ventos, por áudio e imagem, “conceitos errôneos da vida e do comportamento humano”; e ela o sabe justamente por saber quais são as verdadeiras normas de vida: sabe sob qual prisma deve ser enxergada a realidade, sabe quais são os conceitos certos da vida e do comportamento humano e sabe não porque tenha, meio que às apalpadelas, descoberto o “caminho das pedras”, mas sim porque recebeu de Jesus Cristo, Deus feito homem, todo o necessário para que o homem seja feliz neste mundo e no que há de vir

É importante repetir isso porque essa é a base para darmos ouvidos ao que diz a Igreja. Sem essa convicção de fé, de que ela é custodiadora da Revelação divina, trataremos a Igreja justamente como quem trata um programa de TV, uma série ou um filme da Netflix

A que mentiras nos referimos?

Mas de que “falsas normas de vida”, afinal, estamos falando? 

São inúmeras e elas abrangem todo o espectro das coisas humanas, mas, como Pio XI falava especificamente das “ocasiões de pecado”, da destruição do “amor puro, o respeito devido ao casamento, as íntimas relações do convívio doméstico”, tratemos logo desse espinhoso assunto: os meios de comunicação travam uma batalha contra a castidade, contra o sexto e o nono mandamentos, contra a sexualidade tal como ela foi criada e ordenada por Deus.

E a nós, católicos, não é muito difícil percebê-lo. Quem já não sentiu a dificuldade de procurar um bom filme a que assistir em família, sem ter a preocupação de ser bombardeado por cenas de nudez ou sexo gratuitas? 

Mas se o problema fosse esse, bastaria dar uma olhada na classificação indicativa dos espetáculos, e pronto. Hoje, porém, mesmo quando um filme ou uma série não exiba gratuitamente cenas indevidas (pornográficas, sejamos claros), as ideias pornográficas ainda estão lá — e tanto mais perigosas quanto mais sutis e passíveis de circular livremente, como se material inofensivo fosse... Os personagens que, sejam os homens “galinhas” ou as mulheres de vida fácil, em diálogo e em toda a sua vida só o que fazem é pensar em obter prazer sexual, ou o máximo de parceiros sexuais que conseguir… estão ensinando pornografia aos casais que se sentam em frente à televisão. (E de quebra aos seus filhos também.) Os casais que se traem e se divorciam como quem troca de roupa estão ensinando a tratar o casamento como algo descartável… e a endeusar o sexo e o prazer como o máximo dos valores, exatamente como os sites pornográficos fazem.

“Mas eu assisto e nada disso me afeta”. A quem diz esse tipo de coisa seria importante lembrar que os primeiros a declará-lo, colocando-se de modo deliberado na ocasião de pecar, são justamente os primeiros a cair. Além do mais, dizer que o que entra por nossos sentidos, dia após dia, talvez por horas a fio, em nada nos afetará a vida, é no mínimo ingenuidade e, na pior das hipóteses, autoengano. Será que deveríamos lembrar a essas pessoas o combate constante, intenso, imparável, entre carne e espírito que se trava dentro de nós? E que se facilitarmos, perderemos? E que o que está em jogo não é dinheiro (antes fosse), não é só o tempo que perdemos, mas a nossa própria alma e salvação eterna?

“Nada disso me afeta”, diz o homem e a mulher “fortes” diante da tela, mas eles não se dão conta de que os personagens ateus e perversos dos programas a que assistem vão pouco a pouco moldando seu modo de vida. O ator da novela ou da sua série favorita não reza; daí a pouco o pai de família tampouco se entrega à oração. A atriz da novela ou do filme só o que faz é correr atrás mais da própria aparência que das virtudes; daí a pouco a mãe de família está fazendo o mesmo, sem sequer perceber. A ficção do mundo vai pouco a pouco entrando na cabeça das famílias... e então é questão de tempo para que a fé da família seja “minada”, e são os dogmas da Igreja, os Mandamentos e a vida de oração que terminam se transformando em ficção. Tudo porque gastamos o tempo integral de nossa vida real presos a uma tela de smartphone, de TV ou de seja lá o que for.

Um combate que começa na família

O que fazer, concretamente? 

É possível começar limitando o tempo diante das telas, é possível fazer muitas coisas. Mas uma medida que decididamente deveríamos tomar é esta: “abster-se de ver filmes que ofendam a verdade e a moral cristã” (Vigilanti cura, n. 34). Porque — sejamos humildes, e não condescendentes com nossas fraquezas — nós somos os primeiros a precisar de conversão; nós somos os primeiros a ter necessidade de olhar para bons exemplos e modelos em que nos inspirarmos; e além disso, ai de nós, com quem nossos filhos estão aprendendo a ser adultos? Será que não estamos destruindo a vida — ou pior, a alma — de nossos filhos com nossa negligência nesta matéria?

O Papa Pio XII se horrorizava decênios atrás “pensando que, por meio da televisão, se poderá introduzir até dentro das paredes domésticas aquela atmosfera envenenada de materialismo, de fatuidade, e de hedonismo, que infelizmente tantas vezes se respira em muitas salas de cinema” (Miranda prorsus, 66). Ora, por que o que só em pensamento o horrorizava, hoje em dia, passando-se bem diante dos nossos olhos, em nada nos comove? Com nossa total despreocupação quanto aos “amigos que introduzimos no santuário da família” (cf. Miranda prorsus, 115), não nos teríamos tornado insensíveis ao mal? 

A vigilância prudente e avisada de quem recebe em sua casa a transmissão é insubstituível. A moderação no uso da televisão, a admissão prudente dos filhos a presenciar programas segundo a sua idade, a formação do caráter e do reto juízo acerca dos espetáculos vistos e, finalmente, o afastá-los dos programas inconvenientes, incumbem, como grave dever de consciência, aos pais e aos educadores.

Bem sabemos que especialmente este último ponto poderá criar situações delicadas e difíceis, e o sentido pedagógico muitas vezes exigirá dos pais darem bom exemplo também com o sacrifício pessoal em renunciarem a determinados programas. Mas seria porventura demasiado pedir aos pais um sacrifício, quando está em jogo o bem supremo dos filhos? (Miranda prorsus, 150-151)

Ah, os nossos filhos…! Se andamos tão despreocupados com nossas almas a ponto de deixar que nossos sentidos acessem qualquer lixo que se passa em uma rede de TV aberta ou em uma Netflix, que pelo menos nos preocupe, que pelo menos nos intimide, que pelo menos nos acorde de nossa letargia pensar nas almas dos nossos filhos, a quem amamos (ou deveríamos amar) mais do que a tudo o que possuímos nesta vida! “Seria porventura demasiado pedir aos pais um sacrifício” de evitar um programa menos puro, uma série demoníaca, um filme cheio de ideias pornográficas, “quando está em jogo o bem supremo dos filhos?”

Mas se para você já não existem, ou já não fazem sentido, as distinções entre “bem” e “mal”, “verdade” e “mentira”, “pureza” e “indecência”; se você decretou, em sua suprema indiferença, que “não pode julgar” o que deve e o que não deve entrar em sua cabeça, ou mesmo em sua casa… só o que resta é clamar a misericórdia de Deus por você. Essa atitude demonstra que você já deixou de crer no que crê e ensina a Santa Igreja Católica. Por isso, qualquer “norma de vida” que a TV lhe apresenta já o seduz, já o envolve, já o fascina. Você deixou de acreditar no Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó (porque desprezou os Mandamentos); deixou de acreditar no Deus de Jesus Cristo (porque acha que “vale tudo” em matéria religiosa); deixou de acreditar no Deus dos santos e santas da Igreja... e, como consequência, você passou a acreditar em qualquer coisa.

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Por que a pobreza, a castidade e a obediência também são para os casados
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Não menos do que aqueles “mortos para o mundo”, os cristãos que “vivem no mundo” também devem ser pobres em espírito, puros de coração e obedientes à palavra de Deus e à da Igreja.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere (adaptado)15 de Agosto de 2019Tempo de leitura: 5 minutos
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Na Idade Média, todos os membros da cristandade viviam sob uma lei comum: a do Evangelho, tal como ensinado pela Igreja. Não havia dois mundos e padrões, o sagrado e o profano, mas um só, que todas as coisas unia aos pés da Cruz. Tratava-se de uma sociedade hierárquica, sim, mas não “clericalista”. O “clericalismo” é a esclerose da hierarquia e se dá quando esta deixa de ser um princípio interno e vital de coesão, reconhecido como porta-voz de um cristianismo compartilhado por todos, para se tornar, ao invés, uma imposição externa.

Se considerarmos a teologia de Santo Tomás de Aquino sobre o Matrimônio, bem representativa da época em que ele vivia, podemos dizer que a vida matrimonial não era vista de modo “tão mundano” a ponto de excluir as exigências do sagrado, e tampouco a vida sacerdotal e religiosa eram vistas de modo “tão sagrado” a ponto de excluírem as necessidades deste mundo. Ao contrário, ambas as realidades eram percebidas como sagradas, pertencentes à Igreja, e como expressões da vida católica; e ambas existiam para dar frutos para o Reino dos céus: o Matrimônio ajudando os cônjuges a gerar e educar cidadãos do céu; o sacerdócio e a vida religiosa fazendo as pessoas procurarem primeiro o Reino dos céus, em sua oração litúrgica, e depois ensinando e alimentando os fiéis com bens espirituais (e, não raro, também com bens materiais). O Matrimônio como tal deixará de existir no Reino celeste; mas, com exceção de Adão e Eva, que foram criados diretamente por Deus, todos os que estão no Reino são frutos agradáveis deste sacramento, e é precisamente esta a sua grande dignidade: ser sinal vivo e humilde serva da derradeira alegria celeste, qual uma “parteira” indispensável para dar à luz a gloriosa Cidade de Deus.

Assim, entendia-se o Matrimônio na cristandade dentro da lógica do Evangelho. Não se tratava de um affair mundano de autodeterminação e prazer sem limites, mas de algo que exigia penitência e autocontrole, exigências não muito diferentes das da vida sacerdotal e religiosa. Na Idade Média, por exemplo, se esperava que os cônjuges católicos se abstivessem frequentemente das relações sexuais, e isso várias vezes ao longo do ano, inclusive durante todo o tempo da Quaresma. Ao que parece, essa renúncia ao “uso matrimonial”, se não era obrigatória, era ao menos esperada durante boa parte do ano. Esse autodomínio sexual consistia numa rotina ascética de continência periódica, e não temos visto nada semelhante a isso há centenas de anos. E pode ser que nesta perda se encontre uma das causas da grande ruína espiritual de tantos casamentos (cf. 1Cor 7, 5.35). 

A questão aqui é a seguinte: outrora, reconhecia-se o Matrimônio como verdadeira via crucis, uma forma de carregar a própria cruz, dia após dia, no seguimento de Cristo. Apesar de suas diferenças, o estado matrimonial, o religioso e o sacerdotal gozavam de profunda unidade — a unidade das virtudes cristãs, sendo a mãe e rainha de todas elas a caridade. O amor entre homem e mulher e o amor deles por seus filhos tinham de ser um amor de caridade, e não mera afeição terrena. Todas as exigências da caridade sobrenatural, a começar por sua primazia sobre os demais aspectos da vida humana, deviam ser vividas plenamente na “igreja doméstica”.

Não importa, porém, o quanto essa bela face da cristandade se tenha desfigurado com as guerras, pestes e revoluções dos últimos 500 anos: a primazia da caridade permanece verdadeira ainda hoje, já que não mudaram nem a natureza do matrimônio sacramental nem os seus elevados fins e exigências.

Uma importante consequência disso foi vista com clareza por Santo Tomás de Aquino em seu tratado Sobre a perfeição da vida espiritual, a saber: mesmo que só uma pequena parte dos cristãos abrace os conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência, imitando ao máximo a vida de nosso Redentor sobre a terra, todos os cristãos são chamados a viver o que em tais conselhos é essencial. Não menos do que aqueles “mortos para o mundo”, os cristãos que “vivem no mundo” também devem ser pobres em espírito, puros de coração e obedientes à palavra de Deus e à da Igreja. De modo mais específico, devem lutar pela frugalidade nos bens terrenos, pela prontidão em viver a continência corporal e pela obediência no seio da estrutura familiar. 

Em outras palavras, os conselhos evangélicos hão de ser vividos, tanto em espírito quanto na carne, por todos os cristãos, independentemente do estado de vida e das necessidades e exigências que dele decorrem.

Os casais unidos em santo Matrimônio sabem-no por experiência: circunstâncias como enfermidade, acidentes, gravidez, viagem ou trabalho requerem — e o simples fato de o casal envelhecer torna inevitável — a abstinência. Requer-se virtude moral da parte dos esposos, para que aceitem esses períodos com um espírito generoso de caridade e abnegação, transformando-os em continência temporária e meritória para o Reino. Isso também é verdade quanto ao uso das riquezas e à necessidade de abandonar aquelas atividades independentes fora do lar que são incompatíveis com o bem comum da família.

É uma tragédia que grande parte do que ensina a Sagrada Escritura sobre a família, assim como boa parte da sábia tradição patrística e medieval, tenham sido descartadas devido a um simples constrangimento ou, pior, a uma visão modernista para a qual os ditames morais da Escritura são culturalmente limitados e, portanto, passíveis de ser substituídos pelo código de conduta supostamente mais “iluminado” dos homens e mulheres do Ocidente moderno. É preciso resistir à tentação de seguir o zeitgeist, isto é, o “espírito dos tempos”, em lugar do Espírito Santo. Felizmente, fomos agraciados com um patrimônio sólido e cheio de riquezas, que guia os fiéis no caminho certo, mesmo quando homens de Igreja, em um momento concreto da história, encontram-se confusos por sua própria culpa.

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O que os filmes e a TV fazem com nossa alma?
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O entretenimento popular de nossa época trava uma guerra contra a ordem criada e contra nosso “castelo interior”. A agitação constante das imagens e dos ruídos mundanos distraem-nos da busca da única coisa que realmente importa.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Agosto de 2019Tempo de leitura: 8 minutos
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Em sua Carta às Famílias Gratissimam Sane, de 1994, o Papa João Paulo II escreveu:

Conhecendo bem a ampla e profunda incidência dos meios de comunicação social, a Igreja não se cansa de acautelar os operadores da comunicação para os perigos de manipulação da verdade. De fato, que verdade poderá haver em filmes, espetáculos, programas rádio-televisivos onde prevalecem a pornografia e a violência? Será este um bom serviço à verdade do homem?

Essa é uma questão muito importante. As nossas atividades recreativas não nos deveriam restaurar, nossos lazeres não nos deveriam conduzir para a verdade mais profunda das coisas? Seria um mal se a mídia à qual damos a nossa atenção nos desviasse, de modos óbvios ou sutis, da virtude moral e intelectual, do amor à beleza e da verdade última para a qual fomos criados.

O Pe. Dominic Legge, dominicano, explica o porquê: 

Quando nós assistimos a atos de luxúria ou crueldade, nós tendemos a nos tornar mais luxuriosos e cruéis. O que você vê com os olhos, você acolhe na sua alma. Quanto do material de nossa época dito de “entretenimento” se enquadra nessa categoria? 

Com essa consideração, esse sacerdote está simplesmente seguindo os passos do Doutor Angélico, o qual escreve na Suma (STh II-II 167, 2 ad 2): 

O que torna perniciosa a assistência aos espetáculos é que, nas suas apresentações, eles inclinam o homem ao vício da lascívia ou da crueldade. Por isso, diz Crisóstomo, “esses espetáculos fazem os adúlteros e os impudicos”.

Outra consequência de se assistir a luxúria e crueldade exibidas explicitamente é que quem o faz torna-se indiferente ou até mesmo insensível a essas coisas, ficando entorpecido para o mal moral objetivo, e preguiçoso em reagir com o devido desgosto e arrependimento. Se eu assisto a estrelas de cinema fornicando ou assassinando, terei uma das três seguintes reações: ou sentirei simpatia pelo que elas estão fazendo — o que é algo pecaminoso para mim —, ou serei indiferente — o que também é pecaminoso —, ou sentirei repugnância. Este último sentimento é correto, mas nós não deveríamos sair por aí voluntariamente procurando por coisas repugnantes.

Além disso, já existe uma razão para se ter cautela e autocontrole com o quanto nós assistimos a essas coisas, e ela diz respeito à natureza dos meios de comunicação modernos. Os filmes, em particular, exercem um tipo de “mágica poderosa” porque preenchem nossa alma com imagens em alta definição, excessivamente atraentes (a que Aristóteles e S. Tomás chamavam “fantasmas”). A alma é incapaz de resistir a esse influxo e é modelada por sua influência. 

As telas de TV e cinema tendem a um estímulo excessivo das faculdades de um animal racional: vão muito para o animal e pouco para o racional. Elas apelam primeiramente aos sentidos da carne, induzindo assim a uma primazia prática da matéria sobre a mente. Nossa memória e imaginação tornam-se saturados com aquilo que vemos e ouvimos.

O Pe. A.-G. Sertillanges, em A vida intelectual, nota com precisão que a nós cabe prezar e proteger a pureza e a quietude interiores. É difícil para criaturas decaídas como nós permanecer sem mácula no meio de uma geração corrompida e manter nossas mentes fixas nas coisas do alto, como nos manda fazer a Escritura. Mais difícil ainda é adquirir o silêncio interior e o recolhimento necessários à oração. 

Imagine só, então, o que os grandes místicos diriam a respeito da televisão e dos filmes que nelas são exibidos. Pense em uma Santa Teresa de Jesus, em um São João da Cruz, em uma Santa Teresinha do Menino Jesus, ou em uma Santa Elisabete da Trindade: esses homens e mulheres não considerariam muito daquilo a que assistimos hoje, na melhor das hipóteses, uma colossal perda de tempo e, na pior delas, uma poluição da alma?

“Formando esse plano, terei usado de leviandade? Ou são puramente humanas as resoluções que tomo, de modo que haja em mim o ‘sim’ e depois o ‘não’? Deus é testemunha de que, quando vos dirijo a palavra, não existe um ‘sim’ e depois um ‘não’” (2Cor 1, 17-18).

“Quanto à fornicação, à impureza, sob qualquer forma, ou à avareza, que disto nem se faça menção entre vós, como convém a santos. Nada de obscenidades, de conversas tolas ou levianas, porque tais coisas não convêm; em vez disso, ação de graças” (Ef 5, 3-4). 

Se nós precisamos de argumentos sofisticados e oblíquos para justificar algo que estamos vendo ou ouvindo (ou, nesta matéria, lendo), nós muito provavelmente somos culpados de tentar dizer “sim” e “não” a Cristo. Como um cristão leva sua vida, como ele gasta o seu tempo, onde ele coloca a sua mente e o seu coração, devem ser coisas completamente consistentes com a fé que ele professa.

A mais forte das exortações nesse sentido encontra-se na Carta aos Filipenses (4, 8): “Tudo o que é verdadeiro, tudo o que é nobre, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, tudo o que é virtuoso e louvável, eis o que deve ocupar vossos pensamentos”. Aqui está implícito um alerta: não penseis, muito menos vos demoreis e mergulheis, no contrário dessas coisas, pois isso tornará vossas almas menos cristãs e menos plenamente humanas. Aqui se combate a falsa ideia de que o modo de se tornar “mais plenamente” alguém é ser “exposto” a um punhado de mal, ao menos indiretamente, a fim de que ele seja melhor entendido e combatido — o argumento fraco ao qual os defensores da mídia moderna recorrem com tanta frequência. 

Esse argumento tem uma certa força quando usado para retratos literários do mal, se eles forem de bom gosto, porque a potência de seu conteúdo é filtrada por meio do intelecto do leitor, o qual deve primeiro entender as palavras e os conceitos antes de poder, em alguma medida, recriar a cena em sua imaginação. O meio permite que o impacto visceral do mal seja mediado por um processo espiritual. Com um filme, no entanto, a imagem é captada diretamente pelos olhos, assim como os diálogos e a trilha sonora o são pelos ouvidos; há uma imediação que não filtra nem interpreta o conteúdo no ato de recebê-lo

Tampouco as consequências se limitam à esfera moral; elas se estendem também à esfera intelectual. Uma pessoa assiste a um filme “sem esforço” — e é exatamente esse o problema. Quantas pessoas hoje sabem entreter-se através do uso de suas próprias inteligências e imaginações? Por que somos tão passivos, dependentes de uma indústria gigante de fazer dinheiro que domina a cultura, ao invés de produzirmos, nós mesmos, belas coisas a nível local, ou ao menos assimilarmos ativamente uma obra de arte? 

Os filmes fazem o que é irreal parecer real — com o efeito gradual, talvez, de fazer o que é real parecer irreal. Os filmes e a vida terminam se misturando em uma fantasmagoria bruxuleante sem quaisquer consequências morais ou eternas

Nos cinemas, dezenas, centenas, milhares de pessoas ficam entorpecidas diante das telas bem à nossa frente: a vida é barata, e a violência é um bom entretenimento. Deveria nos surpreender que os homens de nossa época estejam preparados para descartar as vidas dos não-nascidos ou dos mais velhos? 

Conteúdo sexual explícito é uma excitação inegociável, e, em geral, o mal é tratado como um tempero da receita. Deveriam nos surpreender a promiscuidade, a baixeza e a excentricidade do comportamento sexual moderno, quando imagens disso são regularmente impressas nas imaginações de milhões de pessoas? Com nosso entretenimento, nós estamos descendo a um barbarismo pior que aquele dos antigos pagãos, porque eles, pelo menos, não tinham o benefício do cristianismo para os curar e elevar.

O que dizer diante disso? “Nunca assista a filmes ou à TV”? Não. Existem algumas excelentes produções artísticas, de fato, que não cedem ao mal gratuito. Mas a Palavra de Deus nos exorta à vigilância, ao discernimento cuidadoso, e uma santa intransigência com nossa própria tendência a sermos mesquinhos, arranjarmos desculpas e relaxarmos nossa conduta. Devemos adotar para todos os meios de comunicação a sábia atitude de São Basílio Magno para com os autores pagãos. Ele diz: 

Quando eles contam as palavras e os atos dos bons homens, vós deveis ao mesmo tempo amá-los e imitá-los, emulando fervorosamente tais condutas. Mas quando eles exibem condutas vis, deveis apartar-vos deles e tampar vossos ouvidos, como Ulisses fugiu do canto das sereias, pois a familiaridade com os maus escritos pavimenta o caminho para as más ações. A alma deve ser preservada, portanto, com grande cuidado, a fim de que pelo amor às letras não termine recebendo uma contaminação inconsciente, como o homem que toma veneno misturado com mel.

Se isso é verdade a respeito das letras — isto é, da literatura —, não é mil vezes mais verdade com relação aos filmes, à TV e a muitas outras modalidades do entretenimento popular de hoje em dia? 

Como cristãos, nós precisamos nos esforçar para juntar nossas energias e faculdades dispersas, focando-as na Santíssima Trindade que habita em nossa alma e que se mostra externamente na beleza da Criação. A modernidade em geral, e o entretenimento popular de modo particular, trava uma guerra contra a ordem criada e contra nossa interioridade, nosso “castelo interior”. A agitação constante das imagens e dos ruídos mundanos distraem-nos da busca do unum necessarium, a única coisa que realmente importa.

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A Igreja deve estar sujeita à autoridade civil?
Doutrina

A Igreja deve estar
sujeita à autoridade civil?

A Igreja deve estar sujeita à autoridade civil?

“Desde quando uma sentença da Igreja tem de receber autoridade do imperador?… São Paulo teve amigos entre os da casa de César, mas não os admitiu como companheiros de suas decisões.”

Ignacio Riudor, SJTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere (adaptado)6 de Agosto de 2019Tempo de leitura: 8 minutos
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I. O problema. — Não será necessário recordar aqui que a Igreja que Cristo fundou é uma verdadeira sociedade, ao mesmo tempo divina e humana, sobrenatural e existente na terra, e cujo fim é a salvação ou felicidade eterna de seus membros.

Em filosofia do direito, distinguem-se duas classes de sociedade: uma perfeita, cujo fim é o bem humano, supremo em seu gênero e que conta com os meios suficientes para consegui-lo ou que, pelo menos, tem direito a exigi-los; outra imperfeita, se carece de algumas destas qualidades. Esta última, como consequência de sua imperfeição, formará parte de outra sociedade de ordem superior, que lhe proporcionará os meios necessários para conseguir o seu fim. Na ordem natural, sabemos que o Estado é uma sociedade perfeita, e toda outra sociedade de ordem familiar, comercial, artística, recreativa etc. são sociedades imperfeitas, dentro do Estado e subordinadas a ele.

Contudo, não se devem confundir os conceitos de sociedade perfeita e imperfeita, de um lado, com os de sociedade completa e incompleta, de outro. Com efeito, chama-se completa a sociedade que procura diretamente o bem total do homem, tanto espiritual como temporal; ao passo que se chama incompleta a sociedade que atende só a um destes aspectos. A família, por exemplo, é uma sociedade completa, embora imperfeita; o Estado, por sua vez, é uma sociedade perfeita, mas incompleta, já que, diretamente, procura apenas o bem material de seus membros. 

Toda sociedade perfeita, por sua própria definição, é uma sociedade independente e exclui, portanto, toda subordinação direta, isto é, aquela subordinação que se dá quando uma sociedade é regida por outra dentro da esfera própria de seu fim. Por ter tal subordinação direta, um município ou uma família não são sociedades independentes dentro do Estado.

Supostas essas noções básicas, indispensáveis para compreender o problema que nos propusemos, cabe agora perguntar: é a Igreja uma sociedade perfeita e absolutamente independente?

II. Orientação histórica.1) Doutrinas errôneas. — A quem se lembra de qual é o fim altíssimo da Igreja (de que falamos noutro artigo), superior evidentemente a qualquer fim terreno, parecerá óbvio dar uma resposta afirmativa à pergunta que nos fizemos acima. No entanto, poucas verdades terão sido negadas com tanta frequência ao longo da história como esta. Primeiramente, quiseram na prática fazer caso omisso dela aqueles imperadores cristãos que, herdeiros dos antigos imperadores pagãos, chefes absolutos tanto no campo civil como no religioso, continuavam intervindo nos assuntos religiosos e tentavam subordinar a Igreja ao Estado. 

Assim agiram muitos imperadores bizantinos no Oriente, e no Ocidente, desde a Idade Média, alguns dos novos imperadores e reis cristãos. Preparado assim o ambiente, Marsílio de Pádua formulou a doutrina segundo a qual o imperador estaria acima do Papa: “Tudo o que na Igreja é temporal está submetido ao imperador, e este pode tomá-lo como coisa sua. Ao imperador, pois, cabe corrigir o Papa, investi-lo do pontificado, destituí-lo e castigá-lo. Toda a Igreja em conjunto não pode, por conseguinte, castigar um homem com pena coativa, se não lhe concede este poder o imperador” (cf. D 595-500). Estas proposições, condenadas pelo Papa João XXII em 1327, foram extraídas do livro Defensor pacis, verdadeira carta magna da doutrina que afirma a hegemonia do Estado sobre a Igreja, e na qual irão se inspirar todos os erros que, através dos séculos, forem surgindo nesta matéria.

Assim pensaram também os protestantes alemães do séc. XVI, com o seu célebre axioma: “Cuius regio, eius et religio” (quer dizer, a religião da cada território há-de ser a do seu senhor); o anglicanismo, com aquele artigo de fé anglicana, vigente desde 1552: “O rei de Inglaterra é a suprema cabeça da Igreja Anglicana depois de Cristo”; o regalismo e o galicanismo, que, apesar de terem surgido antes mesmo de Marsílio de Pádua nas lutas de Felipe, o Belo, contra Bonifácio VIII, chegaram ao apogeu com Edmundo Richer (1560-1631) e depois, em maior ou menor grau, influenciaram grandes homens do clero francês, como Bossuet, e deram origem aos artigos do clero galicano, declarados nulos por Alexandre VIII (cf. D 1322-1326). 

As teorias galicanas sobre a sujeição mais ou menos total da Igreja ao Estado se renovaram na Alemanha e na Áustria algum tempo depois com o febronianismo, sistema propugnado no livro De Statu Ecclesiae, que Nicolás Hontheim publicou sob o pseudônimo de Justino Febrônio, e o josefinismo, nome proveniente de José II, imperador da Áustria, que quis intervir em todos os assuntos da Igreja, coisa que lhe valeu o título de “o imperador sacristão”. 

Em nossos dias, ideias errôneas sobre a sujeição da Igreja ao Estado foram ressuscitadas nos sistemas totalitários do séc. XX, o nacional-socialismo e o comunismo, contra os quais o Papa Pio XI escreveu duas encíclicas: Mit brennender Sorge (de 14 de março de 1937) e Divini Redemptoris (de 19 de março de 1937).

2) Doutrina católica. — À medida que foram aparecendo as diversas doutrinas que atacam a independência da Igreja e querem sujeitá-la ao Estado, os Sumos Pontífices tiveram o bom cuidado de fazer resplandecer toda a verdade nesta matéria. Assim, Bonifácio VIII, na bula Unam Sanctam, define que “é necessário para a salvação de toda criatura humana submeter-se ao Romano Pontífice” (D 469). E João XXII condenou, como vimos, as teorias de Marsílio de Pádua (cf. D 495-497).

O Concílio de Trento definiu a plena independência da hierarquia eclesiástica de qualquer potestade humana (cf. D 960.967). Pio VI condenou os erros do falso Sínodo de Pistóia, que limitavam o poder da Igreja (cf. D 1504).

Mais recentemente, Pio IX levantou sua voz vigilante contra as teorias liberais e laicistas que propugnam a subordinação da Igreja ao Estado ou as que defendem como ideal a completa separação entre as duas potestades. No Syllabus, encontramos uma longa lista de proposições condenadas sobre este ponto em particular (cf. D 1719.20.28.39.41-45.51-55). Leão XIII escreveu diversas encíclicas sobre esta matéria, sendo a mais importante delas a Immortale Dei.

Pio XII, na encíclica Mystici Corporis, chamou também à Igreja sociedade perfeita e pronunciou dois discursos de grande transcendência para enfocar o difícil problema das relações entre Igreja e Estado, tendo em conta o estado atual das coisas.

III. Valoração teológica. — Deve-se considerar como, no mínimo, teologicamente certo que a Igreja é uma sociedade perfeita e absolutamente independente. 

1) Ensinamento bíblico. — De toda a doutrina evangélica, consta claramente que:

  1. A Igreja tem como fim a salvação sobrenatural dos homens. Recordem-se, por exemplo, os textos do Novo Testamento com que demonstramos noutra ocasião que o fim da Igreja é dar continuidade à missão de Cristo, e que a missão de Cristo é, pois, a salvação dos homens. Ora, este fim é evidentemente o mais perfeito e supremo que pode haver, superior a qualquer outro fim e, portanto, de tal natureza que todos os outros fins devem estar subordinados a ele, e a nenhum outro.
  2. Para conseguir este fim, Cristo deu à sua Igreja todos os meios necessários nos plenos poderes de ensinar, reger e santificar. Ensinar a lei evangélica, lei da mais alta perfeição (recordem-se, por exemplo, os capítulos 5 a 7 de S. Mateus) e, portanto, a mais apta para chegar ao fim sobrenatural de unir o homem a Deus; e isto com a absoluta garantia de ensinar a verdade, graças à prerrogativa da infalibilidade (cf. Mt 28, 20; Mc 16, 16; Jo 14, 13.16s. etc.). Reger, de modo que tudo o que a Igreja ou sua autoridade suprema atar ou desatar na terra ficará atado ou desatado, isto é, plenamente ratificado no céu (cf. Mt 16, 18; 18, 18). Santificar por meio dos sacramentos, que dão ou aumentam o penhor seguro da vida eterna, quer dizer, a graça santificante (cf. Jo 3, 5; 6, 48-59; 20, 22s.).

Pois bem, tais meios são suficientíssimos, por si mesmos, para conseguir o fim sobrenatural da salvação eterna, e se algo impede de fato que os homens cheguem à consecução deste fim, isto não é certamente devido a algo que falta à Igreja, provida da assistência divina até o fim do mundo, mas à deficiência do homem, que com sua liberdade põe obstáculos à ação salvífica da Igreja. 

A Igreja, além disso, é absolutamente independente, porque a sua autoridade suprema, nem por razão de seu fim nem por razão de um fim mais alto que fosse necessário alcançar, não está subordinada a nenhuma outra autoridade, como é evidente, suposto o que dissemos antes a respeito do fim sobrenatural da Igreja. Ademais, Jesus Cristo, ao fundar a Igreja como sociedade, a constituiu com completa independência de toda outra sociedade humana, como se vê claramente no modo como Ele escolheu os Apóstolos e a S. Pedro, constituindo-os hierarcas de sua Igreja, dando-lhes sua autoridade divina: “Como meu Pai me enviou, assim também eu vos envio a vós” (Jo 20, 21); “Todo poder me foi dado no céu e na terra. Ide, pois, e fazei discípulos a todos os povos” (Mt 28, 29), e profetizando-lhes repetidas vezes que eles encontrariam nos poderes civis apenas oposição e perseguições: “Entregar-vos-ão aos sinedritas e em suas sinagogas vos açoitarão; sereis levados por minha causa diante de governantes e reis, para que sirva de testemunho a eles e aos gentios” (Mt 10, 17s.); “Se me perseguiram a mim, também a vós hão-de perseguir” (Jo 15, 20).

Depois da Ascensão de Cristo aos céus, os Apóstolos, ao estenderem a Igreja por todo o mundo, o fazem com plena independência das potestades civis; mais ainda, com oposição aberta das mesmas: “Julgai-o vós mesmos”, diziam os Apóstolos às autoridades judaicas de Jerusalém, “se é justo diante de Deus obedecermos a vós mais do que a Deus. Não podemos deixar de falar das coisas que temos visto e ouvido” (At 4, 19s.; cf. 4, 5-31; 5, 17-42; 12, 1-24).

2) A voz da Tradição. — A perfeita independência da Igreja ante toda intromissão da autoridade civil é defendida acerrimamente por ela ao longo de toda a sua existência, de tal maneira que a história deste ponto em particular coincide com a história de todas as perseguições que a Igreja vem sofrendo, desde os tempos do Império Romano até os nossos dias. Contentemo-nos agora com somente alguns textos de dois grandes campeões da fé e da independência da Igreja, um do Oriente e outro do Ocidente. Escreve S. Atanásio: “Desde quando uma sentença da Igreja tem de receber autoridade do imperador?… São Paulo teve amigos entre os da casa de César, mas não os admitiu como companheiros de suas decisões” (História dos arianos, 52: PG 25, 726). E Ósio de Córdoba escreveu a Constâncio Augusto: “A ti confiou Deus o império; a nós, as coisas da Igreja: nem a nós é lícito ter poder na terra, nem a ti, imperador, tê-la sobre o que é sagrado” (A Constâncio Augusto: PL 8, 1327-29).

Notas

  • Este artigo é uma tradução levemente adaptada de F. de Vizmanos e I. Riudor, Teología fundamental para seglares. Madrid: BAC, 1963, pp. 828-832, nn. 673-680. 

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