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A relíquia do cinto de Nossa Senhora
Virgem Maria

A relíquia do cinto de Nossa Senhora

A relíquia do cinto de Nossa Senhora

Depois de ser elevada aos céus de corpo e alma, reza uma piedosa e antiga tradição que a Virgem Maria teria deixado um presente ao apóstolo São Tomé.

Mariana Arráiz de Morazzani,  Arautos do Evangelho3 de Julho de 2018
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Quem, saindo de Florença, percorre vin­te quilômetros em direção ao noroeste, encontra às margens do rio Bisenzio uma cidade industrial cu­jas fábricas lhe valeram a alcunha de “Manchester da Itá­lia”. Trata-se de Prato. Essa cida­de, apesar da feiúra de suas indústrias e da simplicidade de seu nome, além de ter sido um pólo ar­tístico mui­to afamado da his­tó­ria da Tos­ca­na, abriga, em seu cen­tro velho, uma das relíquias mais tocantes da Mãe de Deus.

É bem conhecida a história de São Tomé, um dos doze Apóstolos, que por estar ausente quando da aparição do Senhor após a Res­surreição, não quis nela acreditar, apesar do testemunho de seus com­panheiros. Só oito dias mais tarde, quando Jesus lhes apa­receu novamente, Tomé pôde constatar a verdade, colocando seus dedos na chaga do Salvador. Aí, sim, acreditou.

Passaram-se os anos e Tomé tor­nou-se um dos Apóstolos mais intrépidos, levando o Evangelho até os confins da Pérsia e da Índia. Segundo a bela tradição que chegou até nós [1], encontrava-se ele numa dessas longínquas regiões quando recebeu um recado de São Pedro, de que retornasse sem demora a Jerusalém, pois Maria, a Mãe do Senhor, iria deixá-los e desejava antes despedir-se de todos. Empreendeu Tomé a sua volta e mais uma vez chegou atrasado. A Mãe de Deus já havia su­bi­do aos céus [2].

São Tomé, mais uma vez levado pelo ceticismo, relutou em acreditar na Assunção da Santíssima Vir­gem e pediu a São Pedro que abris­se o sepulcro, para poder comprovar com os seus próprios olhos o ocorrido. Atendido o seu pedido, constatou que no túmulo vazio en­contravam-se apenas muitos lírios e rosas. Nesse mesmo momento, ao levantar suas vistas aos céus, Tomé viu Nossa Senhora na Glória, que, sorridente, desatou o cinto e lançou-o em suas mãos, co­mo símbolo de maternal bênção e proteção.

“O Sagrado Cinto”, representado na Catedral de Prato.

Este cinto é a relíquia que se ve­nera na Catedral de Prato. Chegou de Jerusalém no ano de 1141, trazido por Michele Dagomari, ha­bitante da cidade que estivera na Terra Santa. No começo, nin­guém deu muita importância àque­la re­lí­quia de autenticidade não comprovada. Mas em 1173 a Providência valeu-se de um fato extraor­di­nário para que todos a reconhe­ces­sem como verdadeira.

No dia de Santo Estêvão, o pa­droeiro da cidade, era costume co­locarem-se todas as relíquias em ci­ma do altar para com elas aben­çoar os doentes e endemoniados. Na ocasião, foi exposta também a caixa contendo o cinto de Nossa Senhora. Aproximaram então uma possessa que, no momento em que tocou a caixa começou a afirmar com insistência que esse cinto era da Santíssima Virgem, e no mesmo instante viu-se liberada de seu mal.

Iniciou-se então o culto público à sagrada relíquia. O próprio São Francisco de Assis, em 1212, este­ve com seus primeiros frades em Prato para venerá-la. Porém, se esse culto já conta com mais de oito séculos de história, a devoção ao santo cinto de Nossa Senhora é ainda muito mais antiga: foi instituída por Santo Agostinho, que de­terminou a constituição de uma Confraria do Santo Cinto, até hoje existente entre os agostinianos.

A relíquia é exposta à venera­ção pública cinco vezes ao ano: na Páscoa, nos dias 1.º de maio, 15 de agosto, 8 de dezembro e no Natal. Nessas ocasiões, ela é colocada no púlpito externo, à direita da Catedral, defronte à bonita pra­ça medieval da cidade.

Essa devoção faz com que Prato seja até hoje um dos lugares de peregrinação mariana mais frequentados da Itália.

Se você, leitor, algum dia passar por Prato, não deixe de entrar na Catedral — aliás, uma linda rea­lização do estilo gótico toscano — e procure do lado esquerdo a Capella del Sacro Cingolo, onde poderá venerar tão extraordinária relíquia. Peça à Santíssima Vir­gem as graças de que necessita e não deixe de admirar os maravi­lhosos afrescos onde estão retra­tados, além da entrega do cinto a São Tomé, outros episódios da vida de Nossa Senhora.

Maria, mãe das misericórdias ini­magináveis, quis mostrar a São Tomé e a todos nós que, mesmo sendo teimosos em acreditar, e ainda que estejamos imersos em nossas misérias, Ela sempre esta­rá dis­posta a fazer milagres portentosos para nos confirmar na Fé e atar-nos a Ela com seu Cinto, protegendo-nos com sua maternal ter­nura.

Referências

  • Texto publicado originalmente na Revista Arautos do Evangelho, Junho/2002, n. 6, pp. 15-17.

Notas

  1. A história da ausência de São Tomé à Assunção de Maria, bem como do milagre que se seguiu à sua “segunda incredulidade”, é uma tradição cuja veracidade é contestada, por exemplo, por São Jerônimo (cf. Tiago de Varazze, Legenda áurea: vidas de santos, São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 663). Não é nem necessário lembrar, portanto, que o conteúdo dessa revelação não pertence ao depósito da fé. Os católicos, nessas circunstâncias, são chamados a prestar atenção aos sinais de confiabilidade dessa devoção, livres para aceitá-la ou não. O culto litúrgico de longa data a essa relíquia, no entanto, constitui sem sombra de dúvidas um fortíssimo argumento em sua defesa (Nota da Equipe CNP).
  2. Por outro lado, como se sabe, a Assunção de Nossa Senhora aos céus é de fé católica, como confirmado pelo Venerável Papa Pio XII na Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, de 1950 (Nota da Equipe CNP).

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O nosso sangue e o Sangue de Cristo
Espiritualidade

O nosso sangue e o Sangue de Cristo

O nosso sangue e o Sangue de Cristo

Cristo remiu-nos “não com sangue dos bodes ou bezerros, mas com o seu próprio sangue”: grandiosa realidade que, se fosse deveras compreendida, seria mais que suficiente para fazer de nós autênticos santos.

Pe. Gabriel de S. M.ª Madalena2 de Julho de 2018
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Ó Jesus que me remistes com o Vosso Sangue, fazei que o Vosso Sangue produza em mim todo o Seu fruto.

Na liturgia de hoje [1] sobressai a majestosa figura de Jesus, como a de um rei que se apresenta ao povo no esplendor do seu manto real: “Quem é este — canta o Ofício do dia — que vem… com vestidos tingidos, esplendoroso na sua túnica?” (Breviário Romano). Mas o manto envergado por Cristo não é resplandecente pelo bisso ou pela púrpura, mas pelo sangue, pelo Seu Sangue, derramado pelos nossos pecados: “Está vestido com uma veste manchada de Sangue, e chama-se o Verbo de Deus” (ib.).

Aquele Sangue que o Verbo, ao incarnar, tomou da nossa natureza humana, todo no-lo devolveu como preço do nosso resgate. Não o fez obrigado por ninguém, mas livremente, porque quis, porque nos amou: “Cristo amou-nos e lavou-nos dos nossos pecados no seu sangue” (Ap 1, 5). Todos os mistérios da nossa redenção são mistérios de amor e todos, por isso, nos incitam ao amor; mas aquele que hoje meditamos tem uma nota particularmente comovedora, porquanto nos leva a considerar a Redenção sob o seu aspecto mais cruento: a efusão do Sangue de Jesus, que corre do Calvário tingindo de púrpura o mundo inteiro, rociando todas as almas.

Cristo remiu-nos “não com sangue dos bodes ou bezerros — exclama S. Paulo na Epístola (Hb 9, 11-15) — mas com o seu próprio sangue”: grandiosa realidade, realidade que se fosse deveras compreendida, seria mais que suficiente para fazer de nós autênticos santos. Devemos ter o “sentido” do Sangue de Cristo, do Sangue que Ele derramou por nós até à última gota, Sangue que, por meio dos sacramentos — da confissão, em particular — jorra continuamente para rociar as nossas almas, para as lavar, purificar e enriquecer com os méritos infinitos do Redentor. “Banhai-vos no Sangue, mergulhai no Sangue, revesti-vos do Sangue de Cristo”, era o grito incessante de Santa Catarina de Sena.

No Ofício do dia, S. Paulo convida-nos com ardor a correspondermos ao dom de Cristo: “Jesus, para santificar o povo com o seu sangue padeceu fora da porta [de Jerusalém]. Saiamos pois ao seu encontro… levando o seu opróbrio”. Se queremos que o Sangue de Cristo produza em nós todo o seu fruto, devemos unir-lhe o nosso. Somente o Seu é preciosíssimo, tão precioso que uma só gota era suficiente para salvar todo o mundo. Todavia Jesus quer, como sempre, que lhe juntemos a nossa parte, o nosso contributo de sofrimento, de sacrifício, “levando o seu opróbrio”.

Se formos sinceros temos de reconhecer que procuramos fugir quanto podemos aos opróbrios de Cristo; se às vezes uma falta de delicadeza, uma pequena ofensa ou uma palavrita mordaz basta para nos irritar, como poderemos dizer que somos capazes de partilhar as humilhações do Mestre divino? Ei-lO tratado como um malfeitor, arrastado pela soldadesca, entre escárnios grosseiros, para fora da porta de Jerusalém e aí crucificado no meio de dois ladrões. E nós, que parte tomamos na Sua Paixão? De que modo partilhamos os Seus opróbrios?

Foi para nos redimir que “Jesus sofreu a cruz sem fazer caso da ignomínia… E vós — censura S. Paulo — ainda não resististes até ao sangue, combatendo contra o pecado” (Hb 12, 2 e 4). Poderemos dizer que somos capazes de lutar “até ao sangue” para vencer os nossos defeitos, o nosso orgulho, o nosso amor próprio? Oh! quão fracos e covardes somos na luta, quão indulgentes e compassivos para conosco, sobretudo para com o nosso orgulho! Jesus, inocentíssimo, castigou em Si mesmo os nossos pecados, a ponto de padecer uma morte sangrenta e ignominiosa; e nós, que somos culpados, não sabemos puni-los em nós mesmos, não digo até ao sangue, mas nem sequer até ao sacrifício do nosso amor próprio.

Eis o sangue que Jesus nos pede para juntar ao Seu: o sangue que brota da negação plena e sincera do nosso eu, da aceitação humilde e generosa de tudo o que mortifica, quebra e destrói o nosso orgulho. O Sangue preciosíssimo de Jesus dar-nos-á para isso a força “porque a alma que se inebria e se submerge no Sangue de Cristo, veste-se de verdadeiras e reais virtudes” (Santa Catarina de Sena).

Colóquio — “Ó Jesus, dulcíssimo amor, para fortalecerdes a minha alma e a libertardes da fraqueza em que havia caído pelo pecado, cercaste-a com um muro tendo amassado a cal com a abundância do Vosso Sangue, deste Sangue que une e confirma a alma na doce vontade e caridade de Deus! E como para unir as pedras se põe cal amassada com água, assim Vós, meu Deus, pusestes, entre Vós e as criaturas o Sangue do Vosso Unigênito Filho, amassado com a cal viva do fogo duma ardentíssima caridade; por isso não há Sangue sem fogo nem fogo sem Sangue. O Vosso Sangue, ó Cristo, foi derramado com o fogo do amor” (Sta. Catarina de Sena).

“Eu vos adoro, ó Sangue preciosíssimo de Jesus, flor da criação, fruto da virgindade, instrumento inefável do Espírito Santo, e exulto pensando que, provindo das gotas do sangue virginal, ao qual imprimiu movimento o eterno amor, fostes assumido pelo Verbo e deificado na Sua pessoa. Enterneço-me profundamente pensando que do Coração da Virgem passastes ao Coração do Verbo, e animado pelo sopro da divindade, vos tornastes digno de adoração por serdes Sangue de um Deus.

Eu vos adoro encerrado nas veias de Jesus, conservado na Sua Humanidade como o maná na arca de ouro, memorial da Redenção eterna, por Ele operada nos dias da Sua vida mortal. Adoro-vos, Sangue do Novo e eterno Testamento, irrompendo das veias de Jesus no Getsêmani, das Suas carnes flageladas no Pretório, das mãos e pés trespassados e do lado aberto no Gólgota. Adoro-vos nos sacramentos; adoro-vos na Eucaristia, onde sei que estais substancialmente contido…

Em vós deposito a minha confiança, ó adorável Sangue, nosso preço e nosso banho. Caí gota a gota, suavemente, nos corações transviados e abrandai a sua dureza. Limpai, ó Sangue adorável de Jesus, limpai as nossas manchas, salvai-nos da ira do anjo exterminador. Regai a Igreja: fecundai-a de taumaturgos e de apóstolos, enriquecei-a de almas santas, puras e radiantes de beleza divina” (S. Alberto Magno).

Referências

  • Extraído e levemente adaptado de “Intimidade Divina: Meditações sobre a Vida Interior para Todos os Dias do Ano”, 2.ª ed., Porto: Edições Carmelitanas, 1967, pp. 1456-1459.

Notas

  1. No calendário litúrgico antigo, a Igreja reservava para o dia 1.º de julho uma festa especial em honra do Preciosíssimo Sangue de Cristo. Infelizmente, no Novus Ordo, essa festa não existe mais, mas resta ainda aos sacerdotes, à medida que o permitirem as rubricas, a possibilidade de rezar Missas votivas em honra ao Preciosíssimo Sangue.

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O Papa é infalível em tudo o que diz ou faz?
Doutrina

O Papa é infalível
em tudo o que diz ou faz?

O Papa é infalível em tudo o que diz ou faz?

Muita gente tem sobre a infalibilidade do Papa uma noção que a Igreja nunca, e em parte alguma, ensinou. Neste texto, confira uma resposta às principais objeções que as pessoas têm a esse dogma.

Dom Tihamer Toth29 de Junho de 2018
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Sinto, meus irmãos, que alguns gostariam de fazer certas objeções — objeções que ouviram, ou leram, contra a infalibilidade do Papa. Não se pode imaginar quanta ideia errônea circula por aí a respeito desse dogma e quanta gente há que levanta contra ele objeções, porque tem sobre a infalibilidade do Papa uma noção que a Igreja nunca, e em parte alguma, ensinou.

Ouçamos o que alguns dizem sobre essa questão.

1. “Tudo o que ouvimos até agora é certo. É preciso que seja assim. Não duvido. Mas que o Papa seja infalível em tudo, não posso crê-lo.”

Mas onde é que a Igreja ensina semelhante coisa, meus irmãos? Onde é que ela ensina que o Papa é infalível em tudo? É unicamente nas questões de fé e de moral, e, ainda, somente quando ele não se pronuncia como doutor particular [1], mas quando, oficialmente, como chefe da Igreja, proclama uma decisão que atinge toda a Igreja. É só então — e não noutros casos.

Suponhamos, por exemplo, que seja eleito Papa alguém que antes era um grande matemático. E eis que se apresenta a ele um professor de matemática e lhe diz: “Santíssimo Padre, há anos que lido com um problema, e agora consegui resolvê-lo. Vede se a solução está exata.” O Papa examina-a. “Está exata” — diz ele enfim. E agora a solução está certamente exata porque o “Papa infalível” assim a achou? De modo algum. Por quê? Porque Cristo não lhe deu a infalibilidade para isso. E por que não? Porque isso não interessa à salvação dos homens, e a infalibilidade não é necessária nesse caso.

Tomemos outro exemplo. O Papa Pio XI, antes do seu pontificado, era o sábio bibliotecário da biblioteca Ambrosiana em Milão. Suponhamos que um historiador fosse ter com ele, levando um velho manuscrito, e lhe dissesse: “Santíssimo Padre, descobri um manuscrito extremamente importante, mas não posso decidir se não é falsificado.” O Papa examina-o e responde: “O documento é autêntico.” É ele agora seguramente autêntico porque o “Papa infalível” o disse? Absolutamente não. E por quê? Porque Cristo não lhe deu a infalibilidade para isso.

Se o Papa calcula mal, ou engana-se em História, isso não interessa à salvação eterna dos fiéis. Mas quando decide em matéria de fé e de moral, não pode enganar-se. Porém, mesmo aqui, somente se ele toma uma decisão aplicável à Igreja universal, e na qualidade de chefe de toda a Igreja.

Interior da Basílica de São Paulo Extramuros, em Roma. Detalhe das pinturas dos últimos Papas.

2. Outros apresentam outra objeção. Consideram inconveniente que o Papa, em virtude da infalibilidade, “seja elevado a uma glória sobre-humana”, como se “deixasse de ser mortal”, e até mesmo que esteja seguro da sua salvação eterna, visto como — dizem eles —, se ele é infalível, “então não pode mais pecar”.

Precisarei, irmãos, dizer-vos que absolutamente não se trata disto?

a) “O Papa está circundado de glória sobre-humana”? Quando o Papa é coroado, é conduzido solenemente em procissão à Basílica de São Pedro. Mas o mestre de cerimônias faz parar a procissão e, acendendo um punhado de estopa, diz ao Papa: Beatissime Pater, sic transit gloria mundi, que quer dizer: “Santo Padre, assim passa a glória do mundo”. A vossa também passará — mas sois infalível, porque as duas coisas são independentes.

b) “O Papa deixa de ser um mortal”? Na terça-feira gorda tem lugar o célebre carnaval italiano. Mas, no dia seguinte, as igrejas estão cheias de fiéis para receber as cinzas. Na capela do Vaticano um velho sacerdote, vestido de branco, está ajoelhado diante do altar; outro sacerdote desce do altar e, enquanto impõe as cinzas na fronte do Papa e o Papa inclina a cabeça branca, a Igreja pronuncia sobre ele a mesma fórmula que sobre os milhões de fiéis nesse dia: Memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris, “Lembra-te, homem, de que és pó e ao pó hás de tornar”. Também vós, Santíssimo Padre, volvereis ao pó — mas sois infalível, porque, as duas coisas são independentes.

c) “E o Papa não pode mais pecar”? A infalibilidade não significa isso. Ele não pode enganar-se em questões de fé e de moral, mas pode enganar-se na sua própria vida moral. As fraquezas da natureza humana subsistem no Papa, ele também pode cometer pecados e — ai! — a história narra tristes quedas morais relativamente a alguns. Cristo, que suportou até mesmo um Judas entre seus Apóstolos, não escolheu os Papas unicamente dentre os santos.

Sim, tem havido entre eles mais santos e personagens virtuosos do que em qualquer família reinante; mas houve também — infelizmente — um Alexandre VI. E não há Papa que ouse aproximar-se do altar sem recitar, nas orações ao pé do altar, o que todo padre recita: Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa, “Por minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa”.

Uma tarde em cada semana, quando os derradeiros raios do sol poente iluminam as janelas do Vaticano, por trás de uma dessas janelas, um sacerdote de vestes brancas levanta-se da mesa de trabalho, percorre um corredor silencioso e bate a uma porta. Um simples padre levanta-se para lhe atender ao chamado. “Queria confessar-me”, e o Papa ajoelha-se no confessionário. Ao cabo de alguns minutos, sobre o Papa ajoelhado, sobre o Papa que se confessou, descem as palavras da absolvição: Ego te absolvo, “Eu te absolvo”. Então o Papa se confessa? Certamente. O Papa infalível também pode pecar? Sim, pode, pois as duas coisas são independentes.

Nós não fazemos, pois, do Papa “um ente sobrenatural”; o Papa não deixa de ser “um homem mortal, frágil e suscetível de cair”, apesar do que cremos e confessamos a seu respeito.

Referências

  • Extraído e levemente adaptado de A Igreja Católica. Rio de Janeiro: José Olympio, 1942, pp. 92-96.

Notas

  1. “O Papa se pronuncia ex cathedra, ou infalivelmente, quando ele fala: (1) como Doutor Universal; (2) em nome e com a autoridade dos Apóstolos; (3) em um ponto de fé e moral; (4) com o propósito de obrigar cada membro da Igreja a aceitar e acreditar em sua decisão.” (Cardeal John Henry Newman, The True Notion of Papal Infallibility)

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Pelas almas do Purgatório, Missas e mais Missas!
Espiritualidade

Pelas almas do Purgatório,
Missas e mais Missas!

Pelas almas do Purgatório, Missas e mais Missas!

De tudo o que podemos fazer pelas almas que estão no Purgatório, não há absolutamente nada mais precioso do que oferecer por elas o santo sacrifício da Missa.

Pe. François Xavier SchouppeTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Junho de 2018
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De tudo o que podemos fazer pelas almas que estão no Purgatório, não há absolutamente nada mais precioso do que a imolação de nosso Divino Salvador sobre o altar. Além de ser doutrina expressa da Igreja, manifesta em seus Concílios, muitos fatos milagrosos, devidamente autenticados, não deixam margem alguma de dúvida a esse respeito.

Entre os discípulos de São Bernardo, que perfumavam o celebrado vale de Claraval com o odor de sua santidade, havia um cuja negligência contrastava tristemente com o fervor de seus irmãos. Não obstante a sua dupla função de padre e de religioso, ele se permitia cair em um deplorável estado de tibieza.

O momento da morte chegou e ele compareceu diante de Deus sem demonstrar o mínimo sinal de emenda. Enquanto a Missa de Réquiem era celebrada, um religioso venerável e de virtude incomum recebeu uma iluminação interior e descobriu que, embora o falecido não se tivesse perdido eternamente, sua alma se encontrava em uma condição das mais miseráveis.

Na noite seguinte, apareceu-lhe a alma do seu irmão de comunidade, em um estado infeliz e lastimável. “Ontem”, ele disse, “descobriste qual foi o meu deplorável destino. Observa agora as torturas às quais sou condenado, em punição por minha culpável tibieza.”

Ele então conduziu o velho homem à beira de um grande poço, de cujas profundezas, repletas de chamas ardentes de fogo, saía nuvens de fumaça. “Contempla o lugar”, ele disse, “onde os ministros da Divina Justiça cumprem ordens de me atormentar; eles não cessam de me lançar dentro desse abismo, e só me tiram para me precipitar aí novamente, sem que me seja dado um só momento de descanso.”

Na manhã seguinte, o religioso se dirigiu a São Bernardo para lhe dar a conhecer a visão que tivera. O santo Abade, que havia sido agraciado com uma aparição similar, recebeu tudo isso como um alerta do Céu para sua comunidade. Convocou então um capítulo e, com lágrimas nos olhos, relatou a todos as duas visões, exortando seus religiosos a socorrer com sufrágios generosos esse pobre irmão falecido, bem como a aprender com seu triste exemplo a conservar o próprio fervor, evitando a mínima negligência no serviço de Deus.

O santo Abade e seus fervorosos discípulos apressaram-se em oferecer orações, jejuns e Missas pelo pobre irmão falecido. Este foi rapidamente libertado e apareceu, cheio de gratidão, a um religioso mais velho da comunidade que havia se dedicado particularmente à sua causa. Perguntado sobre o sufrágio que lhe havia sido mais proveitoso, ele, ao invés de responder, tomou o velho homem pela mão e, conduzindo-o a uma igreja onde estava sendo celebrada a Santa Missa, disse, apontando para o altar: “Observa o grande poder redentor que me rompeu as cadeias, contempla o preço de meu resgate: é a Hóstia consagrada, que tira os pecados do mundo!”

Eis outro incidente, relatado pelo historiador Fernando de Castela, e citado pelo Padre Rosignoli. Havia em Colônia, entre os estudantes das classes mais avançadas da universidade, dois religiosos dominicanos de notável talento, sendo um deles o bem-aventurado Henrique Suso. Os mesmos estudos, o mesmo estilo de vida e, acima de tudo, o mesmo desejo pela santidade, fizeram com que os dois dessem início a uma amizade íntima, partilhando mutuamente os favores que recebiam do Céu.

Quando terminaram seus estudos, vendo que estavam prestes a se separar e retornar cada um para o próprio convento, os dois amigos consentiram e prometeram um ao outro que o primeiro dos dois que morresse deveria ser assistido pelo outro durante um ano inteiro com a celebração de duas Missas por semana, uma de Réquiem na segunda, como era costume, e uma na sexta-feira, à medida que as rubricas o permitissem. Eles assim combinaram, deram um no outro o ósculo da paz e deixaram Colônia.

Por muitos anos ambos continuaram servindo a Deus com o mais edificante fervor. O irmão cujo nome não é mencionado foi o primeiro a ser chamado por Deus, e Henrique recebeu as notícias com os mais perfeitos sentimentos de resignação à vontade divina. O tempo acabou fazendo com que o beato se esquecesse, no entanto, do contrato que eles haviam feito. Ele rezou muito pelo amigo, fez penitências e muitas outras boas obras por ele, sem se lembrar, porém, de oferecer as Missas que lhe prometera.

Uma manhã, enquanto meditava recolhido na capela, o beato viu aparecer de repente diante dele a alma de seu amigo falecido, a qual, olhando para ele com ternura, reprovou-o por ser infiel à própria palavra dada, e na qual ele tinha todo o direito de confiar. Henrique, surpreso, quis desculpar seu esquecimento enumerando as orações e mortificações que ele havia oferecido, e que continuava a oferecer, por seu amigo, cuja salvação lhe era tão cara. “Será possível, meu caro irmão”, ele acrescentou, “que tantas orações e boas obras que ofereci a Deus não lhe sejam ainda suficientes?

“Não, meu irmão”, replicou a alma sofredora, “isso não é suficiente. Só o Sangue de Jesus Cristo poderá extinguir as chamas pelas quais sou consumido; é o santo sacrifício da Missa que me libertará desses pavorosos tormentos. Imploro-te que mantenhas tua palavra e que não me recuses o que justamente me deves.” O bem-aventurado apressou-se em atender ao apelo da alma sofredora e, para reparar sua falta, celebrou e fez com que se celebrassem mais Missas ainda do que havia prometido.

No dia seguinte, a pedido de Henrique, vários padres se uniram a ele no oferecimento do santo sacrifício da Missa pelos falecidos, repetindo esse ato de caridade por vários dias. Depois de algum tempo o amigo do beato novamente lhe apareceu, mas agora em uma condição bem diferente: seu semblante era de alegria, e ele estava cercado de uma luz maravilhosa. “Muito obrigado, meu fiel amigo”, ele disse. “Vê, pelo Sangue do meu Salvador eu sou libertado de meus sofrimentos. Agora estou indo para o Céu a fim de contemplar Aquele que tão frequentemente nós adorávamos juntos sob o véu do Sacramento.”

Henrique Suso se prostrou para agradecer a Deus, que é todo misericordioso, e entendeu mais do que nunca o valor inestimável do santíssimo sacrifício do altar.

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