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O que pensar da separação entre Igreja e Estado?
Política

O que pensar
da separação entre Igreja e Estado?

O que pensar da separação entre Igreja e Estado?

O que pensar das nossas sociedades plurais e seculares? As leis e os costumes do Estado, afinal, devem ou não refletir e incorporar a doutrina católica?

Peter Kwasniewski,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Setembro de 2018
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Em vista das incontáveis e incessantes polêmicas envolvendo hoje tantos poderes e figuras políticas, a impressão que fica é de que a maioria maciça das sociedades modernas, ao menos no ocidente, já não tem a mais mínima ideia de qual seja a finalidade do governo civil. Ora, o seu fim é ajudar os cidadãos a desenvolver as virtudes naturais (das quais dependem muitos e grandes bens, como a amizade, a família e o bem comum de todo o povo) e alcançar o mais facilmente possível a felicidade, que consiste em conhecer e amar a Deus.

Isso não é ideia minha, mas ensinamento do Papa Leão XIII: 

Como, pois, a sociedade civil foi estabelecida para a utilidade de todos, deve, favorecendo a prosperidade pública, prover ao bem dos cidadãos de modo não somente a não opor qualquer obstáculo, mas a assegurar todas as facilidades possíveis à procura e à aquisição desse bem supremo e imutável ao qual eles próprios aspiram [1]. 

Daí surge, no entanto, um problema: devem ou não as leis e os costumes do Estado refletir e incorporar a doutrina católica?

A resposta é sim, contrariamente a essa “mania” moderna de afirmar que o Estado deve ser sempre neutro em matéria religiosa e desatender-se de toda e qualquer questão sobrenatural. A razão disso foi explicada por dois eminentes Papas do passado que enfrentaram com a verdade perene do Evangelho os desvios do pensamento político moderno.

Numa encíclica de 1892 endereçada ao clero e aos fiéis franceses, o Papa Leão XIII ensinou que “o princípio de separação entre Igreja e Estado […] equivale à separação entre a legislação humana e as leis cristãs e divinas” [2]. E acrescentou: 

O Estado, tão-logo se recusa a tributar a Deus o que lhe é devido, nega também, por natural consequência, aos cidadãos aquilo a que, como homens, eles têm direito; porquanto — queira-se ou não admiti-lo — os direitos do homem nascem de seus deveres para com Deus. Donde se segue que o Estado, ao perder assim o objetivo principal de sua instituição, torna-se, ao fim e ao cabo, falso em si mesmo, na medida em que nega aquilo que constitui a razão última de sua própria existência. Essas verdades supremas são proclamadas com tanta claridade pela voz mesma da razão natural que chegam a impor-se aos que não se deixam cegar pela força das paixões. Eis porque os católicos devem tomar todas as cautelas para defender-se da ideia de uma tal “separação” [3].

Sucessor de Leão XIII, o Papa S. Pio X escreveu em 1906, também à igreja francesa, logo após a promulgação em 1905 da “Loi de séparation” entre Igreja e Estado:

Que seja preciso separar o Estado da Igreja, é esta uma tese absolutamente falsa, um erro perniciosíssimo. Com efeito, baseada nesse princípio de que o Estado não deve reconhecer nenhum culto religioso, ela é, em primeiro lugar, em alto grau injuriosa para com Deus; porquanto o Criador do homem também é o fundador das sociedades humanas, e conserva-as na existência como nos sustenta nelas. Devemos-lhe, pois, não somente um culto privado, mas um culto público e social para honrá-lo.

Além disto, essa tese é a negação claríssima da ordem sobrenatural. De fato, ela limita a ação do Estado à simples demanda da prosperidade pública durante esta vida, a qual não passa da razão próxima das sociedades políticas; e, como que lhe sendo estranha, de maneira alguma se ocupa da razão última delas, que é a beatitude eterna proposta ao homem quando esta vida, tão curta, houver findado. E, no entanto, achando-se a ordem presente das coisas, que se desenrola no tempo, subordinada à conquista desse bem supremo e absoluto, não somente o poder civil não deve obstar a essa conquista, mas deve ainda ajudar-nos nela [4].

Ambos os Papas dirigiam-se a uma nação que por longo tempo fora católica e ainda o era em grande parte quando da publicação dos documentos citados e que, portanto, reconhecia suas obrigações públicas e solenes para com a religião verdadeira. Mas o que pensar das nossas sociedades plurais e seculares: também elas têm o dever de reger-se por um governo explicitamente cristão e católico? 

Pensemos um pouco. Quando a fé é vivida de forma intensa e corajosa (e mesmo que as coisas já não sejam mais assim, não custa lembrar que elas já o foram e podem voltar a sê-lo no futuro), é não só possível, mas bastante provável que os governantes, de um modo ou de outro, se deixem imbuir desta mesma fé. Isso, como resultado, os influenciará de forma positiva tanto em seus julgamentos práticos como em seu estilo de vida. Um político verdadeiramente católico não deixará nunca sua fé de lado na hora de tomar uma decisão; ele olhará para as realidade temporais da perspectiva eterna e divina da Verdade revelada. 

Se aceitarmos a definição tomista de “razão” como participação da lei eterna — ou seja, da eterna sabedoria, da inteligência do próprio Criador —, então tudo o que as autoridades civis têm de fazer, mesmo para julgar em conformidade com a lei natural, é aplicar às realidades humanas os critérios da sabedoria divina. E falhar nisso não é cometer um erro mais ou menos marginal; trata-se, pelo contrário, do fracasso completo da prudência política. Um governante não é sequer digno deste nome se a sua intenção não for a de julgar e legislar sempre os assuntos temporais de acordo com princípios imutáveis. 

O que a doutrina católica ensina é que tais princípios podem e devem englobar princípios de ordem tanto natural como sobrenatural. O catolicismo rechaça toda e qualquer compreensão da política que pretenda excluir ou relativizar a lei natural, fazendo da vontade, quer majoritária, quer do ditador, a fonte primeira do direito. E, de fato, a deriva liberal tem arrastado a Alemanha, a França atual, o Canadá e os Estados Unidos — e também o Brasil — nesta direção: todos esses países estão deixando que a vontade autônoma do homem decida o que é bom e o que é mau. 

Já sabemos muito bem onde isso vai parar: nos gulags, nos campos de concentração, na indústria do aborto, na anticultura do “tanto faz”. Se quisermos chegar a melhor porto e, no fim, à glória do céu, temos de repensar, a partir do zero, para que fim existe o governo, por que normas transcendentes ele se há de guiar e como irá justificar-se antes os olhos de Deus e dos homens.

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Por que a Igreja Católica é contra os métodos anticoncepcionais?
Doutrina

Por que a Igreja Católica é
contra os métodos anticoncepcionais?

Por que a Igreja Católica é contra os métodos anticoncepcionais?

A partir de 1930, praticamente todas as denominações protestantes passaram a aceitar a contracepção. A Igreja Católica, no entanto, até hoje permanece firme em ensinar o que sempre ensinaram os cristãos.

Chastity ProjectTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Setembro de 2018
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A contracepção não é novidade; a história nos relata os vários métodos contraceptivos empregados milhares de anos atrás. Povos antigos ingeriam certas substâncias para causar esterilidade temporária; usavam peças de linho, lã ou couro animal como “barreiras” físicas; fumegavam o útero com veneno para torná-lo inóspito. Os romanos praticavam a contracepção; os primeiros cristãos destacaram-se da cultura pagã justamente por opor-se a praticá-la [1].

A Sagrada Escritura a condena (cf. Gn 38, 8-10), assim como todas as denominações cristãs até pelo menos a década de 1930. Foi naquela época que, pela primeira vez, a Igreja Anglicana decidiu permitir a contracepção em algumas circunstâncias. Os anglicanos logo cederam de vez e, pouco depois, praticamente todas as denominações protestantes passaram a aceitá-la sem restrição. A Igreja Católica, no entanto, permanece firme em ensinar o que sempre ensinaram os cristãos. Mas por quê? Por que a Igreja não se “atualiza”?

O mundo moderno tem um sério problema em compreender a postura da Igreja com respeito à contracepção, porque o mundo não sabe qual é a finalidade do sexo.

O escritor Frank Sheed disse certa feita que “o homem moderno quase nunca pensa sobre sexo”. Ele sonha, deseja-o, imagina-o, baba diante dele; mas, na verdade, nunca pára para pensar no que ele realmente consiste. Sheed acrescenta: “O nosso típico homem moderno, quando se concentra ao máximo, não consegue ver no sexo mais do que uma coisa que temos muita sorte de possuir; e vê todos os problemas que a ele concernem reduzidos a uma só e grande questão: como obter tanto prazer quanto possível” [2].

Mas deveríamos ir um pouco mais a fundo. Quem inventou o sexo? O que é o sexo? Para que serve ele? Qual é o seu valor? Para início de conversa, foi Deus quem o criou. E, já que Ele é o seu Criador, tem o poder de determinar-lhe seu fim e sentido. Ora, Deus revelou que a finalidade do sexo é a procriação e a união entre os esposos, de forma que o ato sexual pode ser entendido como se os votos e promessas matrimoniais “se tornassem carne” (cf. Mt 10, 8). No dia do casamento, os noivos prometem que o seu amor será livre, fiel, total e aberto à vida. Todo ato conjugal deveria, pois, ser uma renovação desse juramento.

Alguns casais dizem que serão, sim, abertos à vida, mas que usarão contraceptivos entre um nascimento e outro. Noutras palavras, eles pretendem ser “completamente” abertos à vida, mas só às vezes, quando decidirem não esterilizar alguns “atos de amor”. Que seria do seu casamento se eles pensassem assim também das outras promessas feitas ao pé do altar?

Acaso uma esposa pode alegar ser fiel, exceto quando tem um “caso”? Pode ela afirmar que a sua entrega ao marido é total, desde que ele continue rico? Pode um esposo dizer que seus atos conjugais são livres, menos nos casos em que “precisa” recorrer à força? Ora, tudo isso é absurdo, e no entanto os casais contraceptivos, ao se fecharem ao dom da vida, renegam seus próprios votos de maneira parecida. No fundo, eles sabem, mas têm medo do que o sexo significa.

O sexo, porém, é muito mais do que votos matrimoniais feitos carne. Ele é ainda um reflexo da fecundidade de amor da Santíssima Trindade. “Na Bíblia, a união entre o homem e a mulher tem em vista não só a preservação da espécie, como no caso dos outros animais: na medida em que está chamada a ser imagem e semelhança de Deus, ela expressa, de uma forma física e tangível, o rosto de Deus, que é Amor (cf. 1Jo 4, 8)” [3].

O projeto de Deus é que nos amemos como Ele mesmo ama, e isso deve estar radicado no nosso próprio ser. De maneira que, em matéria de moral sexual, a única e verdadeira pergunta que nos deveríamos fazer é: “Estou expressando através do meu corpo o amor de Deus?” O casal que o faz torna-se aquilo que realmente é, imagem do amor trinitário, e por meio de sua união revela o amor de Deus ao mundo. O ato de dar a vida por amor entre um homem e sua esposa deve ainda ser um reflexo do amor de Cristo pela Igreja. Devemos, por isso, perguntar-nos: “Se tivermos em conta a relação entre Cristo e sua Igreja, onde entra ali a contracepção? O que há de ‘contraceptivo’ no amor de Cristo?

Além dessas implicações teológicas, consideremos os efeitos da contracepção na sociedade. Quando a contracepção começou a difundir-se entre os cristãos, a Igreja Católica alertou-os das graves consequências que a prática acarretaria para os relacionamentos.

As taxas de infidelidade conjugal cresceriam, já que os esposos poderiam ser infiéis sem o perigo de uma gravidez indesejada. Uma vez que a contracepção abre um caminho fácil para evitar as consequências naturais da lei moral, haveria uma queda geral da moralidade pública. A Igreja receava ainda que “o homem, habituando-se ao uso das práticas anticoncepcionais, acabasse por perder o respeito pela mulher e, sem se preocupar mais com o equilíbrio físico e psicológico dela, chegasse a considerá-la como simples instrumento de prazer egoísta, e não mais como a sua companheira, respeitada e amada” [4].

Ademais, se as pessoas pudessem separar o ato conjugal do ato de transmitir a vida, por que se haveriam de proibir, afinal, todas aquelas práticas que são em si mesmas incapazes de gerar uma nova vida (mastrubação, atos homossexuais etc.)? À medida que a contracepção se tornasse mais comum, seria cada vez mais difícil ver a sexualidade como um sinal do amor divino.

Há quem alegue que a Igreja estaria “restringindo” a liberdade das mulheres ao rejeitar a contracepção. No entanto, o fruto podre da “liberação” contraceptiva deixa-se ver da maneira mais clara, não pelos argumentos, mas na vida mesma dos que aceitam esta falsa ideia de “liberdade”.

Veja-se, por exemplo, o que uma certa jovem escreveu à revista Dear Abby: “Sou uma mulher livre e independente de 23 anos e tenho tomado pílula pelos últimos dois anos. Como está ficando muito caro comprar o remédio, acho que o meu namorado deveria dividir os custos comigo. O problema é que eu ainda não o conheço muito bem para poder falar com ele de dinheiro” [5]. Nas palavras de Christopher West, “se há algum problema por trás da opressão das mulheres, é o fracasso dos homens em tratá-las decentemente, como pessoas. A contracepção é, sem dúvida, uma forma de mantê-las presas às suas cadeias” [6].

As primeiras feministas opunham-se à contracepção por esta mesma razão, e algumas feministas modernas ainda se dão conta de que a contracepção é o inimigo da liberação feminina [7]. Também os antropólogos que estudam a origem e a decadência das civilizações perceberam que as sociedades que não orientam suas energias sexuais para o bem do casamento e da família começam a desmoronar [8].

A Igreja, portanto, não hesita em apontar para as enormes consequências da contracepção. É o amor entre marido e mulher que mantém o casal unido. É um casamento forte que mantém a família unida. E são famílias fortes que mantêm a sociedade unida, e é sobre estas bases que uma civilização fica de pé ou desaba. “O futuro da humanidade passa pela família!” [9].

Se tivermos bem claro que a contracepção prejudica a intimidade dos esposos, dá lugar ao egoísmo nos atos conjugais e abre as portas para esse grande mal que é a infidelidade, então é forçoso reconhecer que a contracepção é um câncer para toda a civilização.

Referências

  1. Agostinho, Marriage and Concupiscence 1:15:17 (a.d. 419), João Crisóstomo, Homilies on Romans 24 (a.d. 391), e outros, em: Contraception and Sterilization.
  2. Frank Sheed, Society and Sanity (New York: Sheed and Ward, 1953), 107.
  3. Carlo Martini, On the Body (New York: Crossroad Publishing Co., 2000), 49.
  4. Paulo VI, Humanae Vitae 17 (Boston: Pauline Books & Media, 1997).
  5. Abigail Van Buren, The Best of Dear Abby (New York: Andrews and McMeel, 1981), 242, apud Donald DeMarco, New Perspectives on Contraception (Dayton, Ohio: One More Soul, 1999), 42.
  6. Christopher West, Good News About Sex and Marriage (Ann Arbor, Michigan: Servant Publications, 2000), 122.
  7. Donald DeMarco, “Contraception and the Trivialization of Sex”.
  8. DeMarco, New Perspectives on Contraception, 89.
  9. João Paulo II, Familiaris Consortio 86 (Boston: Pauline Books & Media, 1981).

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Os fariseus do século XXI
Sociedade

Os fariseus do século XXI

Os fariseus do século XXI

Se, como ensina Jesus, os fariseus são aqueles que abandonaram “o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens”, nossa época está cheia deles. E nem é preciso procurar muito.

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Setembro de 2018
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No Evangelho deste domingo, Nosso Senhor repreende com dureza os fariseus:

Bem profetizou Isaías a vosso respeito, hipócritas, como está escrito: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim. De nada adianta o culto que me prestam, pois as doutrinas que ensinam são preceitos humanos” (Is 29, 13). Vós abandonais o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens (Mc 7, 6-8).

Nessa passagem, Jesus põe em contraste o “mandamento” de Deus e a “tradição” dos homens. À luz da história da salvação, porém, nós sabemos que se trata de duas tradições (já que traditio vem do verbo latino trado, “transmitir, entregar”): os Mandamentos são uma tradição divina, pois tem como origem o próprio Deus. Foi o próprio Senhor que entregou a Moisés as tábuas da Antiga Lei. Por isso, desde o início, a tradição judaico-cristã é não uma tradição como outra qualquer, mas a Tradição por excelência.

Nas religiões naturais, são os homens que repassam aos outros o que pensam e acreditam a respeito da divindade, num plano meramente horizontal. No judaísmo e no cristianismo, ao contrário, é Deus mesmo que vem ao encontro do homem. Deixar essa tradição, portanto — a Tradição —, é renunciar ao relacionamento com Deus, que é vertical, reduzindo tudo às coisas deste mundo.

Sobre esse abandono do sobrenatural, o Venerável Fulton Sheen se pronunciou certa vez nos termos seguintes:

Antigamente, vivia o homem em um universo tridimensional onde, de uma terra que ele habitava com seus vizinhos, avistava acima o céu e abaixo o inferno. Esquecendo Deus, a sua visão do homem ficou ultimamente reduzida a uma só dimensão. Acha agora que sua atividade esteja limitada à superfície da terra: um plano sobre o qual se move, não subindo para Deus ou descendo para Satanás, mas somente para a direita ou para a esquerda. A velha divisão teológica dos que se acham no estado de graça e dos que não estão deu lugar à separação política entre direitistas e esquerdistas. A alma moderna limitou definitivamente seus horizontes [1].

Embora faça menção explícita a uma “separação política”, Fulton Sheen está falando aqui de um problema fundamentalmente de : o homem moderno deixou de acreditar na Igreja, em Cristo e, em última instância, até no próprio Deus. Com isso, e porque o homem é um ser essencialmente religioso, ele passou a acreditar em outras coisas — ou até, como dizia Chesterton, em qualquer coisa. A imagem bíblica dos salvos e condenados, a distinção agostiniana entre “cidade de Deus” e “cidade dos homens” foi deixada de lado, dando lugar às mais variadas distinções: direita e esquerda, ricos e pobres, homens e mulheres, brancos e negros etc. Não sem razão nossa época vive em conflitos constantes e intermináveis.

Mas a falta de fé de nosso século está atrelada principalmente a um problema de natureza moral. Chesterton já havia “profetizado”, por assim dizer, que a “próxima grande heresia” seria “um ataque à moralidade, especialmente à moral sexual” [2]. Como as duas coisas se conectam é muito fácil entender:

A transgressão contínua e culpável da lei de Deus (desonestidades, negócios sujos etc.) produz na alma do pecador um desassossego cada vez maior contra a lei de Deus, que o proíbe de entregar-se com tranquilidade a suas desordens. Essa situação psicológica deve desembocar logicamente, mais cedo ou mais tarde, em uma destas duas soluções: o abandono do pecado ou o abandono da fé. Se a isso acrescentamos que Deus vai retirando cada vez mais suas graças e suas luzes como castigo pelos pecados cometidos, não é de se maravilhar que o desgraçado pecador acabe apostatando da fé.

Não há dúvida: a imoralidade desenfreada que reina no mundo de hoje é uma das causas principalíssimas — a mais importante depois da propaganda materialista e ateia — da descristianização cada vez maior da sociedade moderna. O mesmo Cristo nos avisa no Evangelho que “todo o que pratica o mal odeia a luz” (Jo 3, 20). Não há nada que cegue tanto como a obstinação no pecado. [3]

Em suma, nossa época abandonou a Tradição e a prática dos Mandamentos porque deixou o seu coração corromper-se com o que Jesus fala ainda no Evangelho dos fariseus: “as más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, ambições desmedidas, maldades, fraudes, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo” (Mc 7, 21-22).

Como consequência dessa falta de fé, a modernidade criou seus próprios “sistemas” morais; assim como os fariseus da época de Jesus, também nossos contemporâneos possuem as suas “tradições”. Por não viverem de acordo com aquilo em que acreditavam, passaram a acreditar no modo como vivem. Eles abandonaram a doutrina católica pelo “politicamente correto”: pecado, agora, é não aceitar o aborto, o “casamento” entre pessoas do mesmo sexo, as relações pré-matrimoniais e tudo o que o mundo apoia, aplaude e incentiva.

O farisaísmo de nossa época é este: a despeito da Palavra de Deus, que é muito clara a respeito do “salário do pecado” (Rm 6, 23) — e do que seja pecado! —, que mui claramente afirma que “nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os devassos, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os assaltantes possuirão o Reino de Deus” (1Cor 6, 9-10), nós estamos convencidos de que o inferno não existe e, se existe, está vazio e não precisamos nos preocupar com ele; nós deixamos de falar do Céu para concentrar nossos esforços na “construção de um mundo melhor”; e também, como consequência disso, não falamos mais de pecado e a única coisa que tememos agora é, quando muito, o juízo dos homens.

De onde quer que nossos contemporâneos tenham tirado todas essas coisas, uma coisa nós sabemos: dos Mandamentos e da Tradição é que não foi. Quem folhear todas as páginas das Escrituras, dos Santos Padres e dos Concílios não achará uma linha sequer em defesa de suas teses mirabolantes — porque, afinal, é disso que se trata: ideias fabricadas, “fábulas” inventadas tão-somente para o prazer daqueles que escutam. Estamos no período profetizado pelo Apóstolo: “tempo em que os homens já não suportarão a sã doutrina da salvação” e, “levados pelas próprias paixões e pelo prurido de escutar novidades, ajustarão mestres para si, apartarão os ouvidos da verdade e se atirarão às fábulas” (2Tm 4, 3-4).

Foi a estas pessoas que Jesus chamou “hipócritas”: as que abandonam “o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens”. São os fariseus do século XXI.

Referências

  1. Fulton Sheen, A paz da alma (trad. de Oscar Mendes), São Paulo: Molokai, 2015, p. 9.
  2. G. K. Chesterton. The Next Heresy. In: The Chesterton Review 26 (3), p. 295-298 (2000).
  3. Antonio Royo Marín, Teología moral para seglares, v. 1, 4.ª ed., Madri: BAC, 1973, p. 253.

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O que todo católico precisa saber antes de comungar
Doutrina

O que todo católico precisa
saber antes de comungar

O que todo católico precisa saber antes de comungar

Conheça as quatro condições necessárias, estabelecidas pelo próprio Magistério da Igreja, para receber com frequência e fruto a Sagrada Comunhão.

Peter Kwasniewski,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Setembro de 2018
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Existe hoje um grande problema entre os católicos que ainda participam da Missa: a recepção coletiva e indiscriminada da Sagrada Comunhão, mesmo por quem não se encontra bem preparado e disposto para receber com fruto o Corpo do Senhor. Trata-se de um problema grave, denunciado com palavras claras e diretas pelos últimos dois Papas:

Algumas vezes, ou, melhor dito, em casos bastante numerosos, todos os participantes na assembleia eucarística se apresentam à Comunhão; mas, certas vezes, como confirmam pastores avisados, não houve a devida preocupação de aproximar-se do sacramento da Penitência para purificar a própria consciência. [1]

Este trecho poderia até ganhar o prêmio de “melhor eufemismo”, mas o seu sentido, em todo caso, é indiscutível: purificar a própria consciência por meio da confissão sacramental frequente — sobretudo quando se cometeu algum pecado mortal — é o único meio de garantir a reverência devida a Nosso Senhor Jesus, o Santo de Israel, realmente presente no Santíssimo Sacramento como viático para esta nossa peregrinação rumo ao céu.

Como ensina a Igreja, a Eucaristia não é um remédio para os que estão espiritualmente mortos, mas alimento para os que, já estando vivos, precisam ser fortalecidos na caridade. Podemos passar um dia inteiro dando de comer a um cadáver, mas esse alimento de nada servirá.

Na vida espiritual, a situação é ainda pior: quando um homem espiritualmente morto come do pão da vida, sua culpa agrava-se. Entregar tão sagrado alimento a pecadores públicos e impenitentes (como fazem, por exemplo, alguns padres e bispos que dão a Comunhão a políticos favoráveis ao aborto) é como amontoar brasas vivas sobre a cabeça tanto de quem administra como de quem recebe a Eucaristia (cf. Rm 12, 20). Não há meio termo; este é o ensinamento unânime dos Padres, Doutores e Papas, guardiões da fé católica.

O Papa Bento XVI fez notar numa entrevista o quanto o escandalizava ver multidões se aproximarem para comungar durante grandes eventos no Vaticano, situações em que, obviamente, os participantes são em grande parte apenas turistas e visitantes, ou católicos sem as disposições requeridas para comungar (pela falta de jejum eucarístico, por exemplo). Por isso, o Pontífice reintroduziu o costume do genuflexório e da comunhão na língua, para que as pessoas assim se lembrassem de que a Comunhão é um ritual sagrado, que envolve ninguém menos do que o Santíssimo:

Justamente nas celebrações de massa, como aquelas na Basílica de São Pedro ou na Praça, o perigo da banalização é grande. Ouvi falar de pessoas que colocam a Comunhão na bolsa, levando-a quase como se fosse um souvenir qualquer. Num contexto semelhante, no qual se pensa que é óbvio receber a Comunhão — da série: todos vão lá na frente, então também faço o mesmo —, queria apresentar um sinal forte, isto deve ficar claro: “É algo particular! Aqui está ele, diante dele é que caímos de joelhos. Prestem atenção! Não se trata de um rito social qualquer, do qual se pode participar ou não”. [2]

Os motivos dessa preocupação são, no fundo, bastante simples. O Concílio de Trento os expressa com brevidade e clareza incomparável:

Se não convém aproximar-se de nenhuma função sagrada a não ser santamente, por certo, quanto mais o cristão descobre a santidade e a divindade deste sacramento celeste, tanto mais cuidará diligentemente de aproximar-se dele só com grande reverência e santidade, principalmente quando lemos no Apóstolo aquelas palavras terríveis: “Quem come e bebe indignamente, come e bebe a própria condenação, não distinguindo o corpo do Senhor” (1Cor 11, 29). Por isso, a quem quiser comungar se deve lembrar o preceito: “Que o homem se examine a si mesmo” (1Cor 11, 28). [3]

À vista disso, os católicos precisam saber o que significa ter o cuidado de não se aproximar do Eucaristia “sem grande reverência e santidade”. Quais são, pois, as condições necessárias à recepção frutuosa e frequente do Santíssimo Sacramento?

A resposta a essa pergunta foi dada de forma autoritativa em 1905 pelo decreto Sacra Tridentina Synodus, um reflexo da mente e da vontade do Papa S. Pio X. Em resposta a insistentes formas de jansenismo que dissuadiam os fiéis de aproximar-se do altar, S. Pio X reduziu a idade mínima da primeira comunhão e encorajou o costume da comunhão eucarística frequente. As condições requeridas são as seguintes:

Em primeiro lugar, quem quiser aceder ao sagrado banquete deve estar em estado de graça, ou seja, não pode estar consciente de nenhum pecado mortal ainda não perdoado no sacramento da Confissão.

Em segundo, deve-se ter “intenção reta e piedosa”. O decreto assim define essa condição: “A reta intenção consiste nisto, que quem acede à sagrada mesa não o faça por costume, vaidade ou por razões humanas, mas queira satisfazer o desejo de Deus, bem como unir-se mais estreitamente a Ele pela caridade e socorrer suas enfermidades e defeitos com o remédio divino”.

Noutras palavras, a comungante deve estar consciente do que está fazendo, de Quem irá receber (logo, sem espírito de rotina) e de que o faz para satisfazer o desejo de Deus e santificar a própria alma mediante uma mais estreita união com Ele, e não pelo que os outros podem estar pensando (logo, sem vaidade e não por razões humanas).

Em terceiro lugar, “embora seja sumamente conveniente que os que comungam todos os dias estejam livres de pecados veniais, ao menos dos completamente voluntários, nem estejam inclinados a eles, todavia é suficiente que não tenham pecado mortal e o propósito de no futuro não mais pecar”.

É particularmente importante ressaltar este ponto hoje em dia, dada a grande confusão que existe entre os fiéis. Um católico que não tem a intenção de abandonar a vida de pecado, cooperando em uma ação objetivamente pecaminosa (como, por exemplo, unir-se civilmente a outra pessoa enquanto o legítimo cônjuge ainda vive) talvez nunca possa receber a Santa Comunhão, já que lhe falta “o propósito de no futuro não mais pecar”.

Por fim, embora não seja absolutamente necessário que o comungante preceda à santa comunhão com uma longa e cuidadosa preparação nem que reserve depois algum tempo à ação de graças, ambas as coisas — preparação e ação de graçassão vitais para que se colham com abundância os frutos da Sagrada Eucaristia, pois, como diz o Decreto, “este Sacramento […] produz tanto mais efeito quanto maiores e mais proporcionadas são as disposições de quem o recebe”.

Sem levar em conta os secretos desígnios de Deus, que pode elevar umas almas mais do que outras, é (no que a nós diz respeito) o exercício de uma fé viva e o ardor da devoção atual com que se aproxima do altar e se comunga o Corpo de Cristo o que diferencia os que, pela comunhão diária, se tornam santos daqueles que parecem não sair do lugar mesmo com o toque diário do Senhor.

Em resumo, as quatro condições necessárias para aceder com frequência e fruto à Sagrada Comunhão são: 1) estar em estado de graça; 2) ter uma intenção reta e piedosa; 3) não estar apegado ao pecado, no sentido de ter o propósito de não mais pecar no futuro; e 4) preparar-se antes e dar graças depois.

Que resultado teremos se observarmos os sábios conselhos da Santa Madre Igreja? É o mesmo Decreto que responde: “Por meio da Comunhão freqüente ou diária se estreita a união com Cristo, robustece-se a vida espiritual, enriquece-se a alma com maior tesouro de virtudes e assegura-se melhor a vida eterna”.

Que grande privilégio! E que grande desafio é viver de tal modo que possamos crescer em graça e pureza, fé e devoção!

Referências

  1. Papa S. João Paulo II, Carta Dominicae Cenae (24 de fevereiro de 1980), n. 11.
  2. Papa Bento XVI, Luz do Mundo: o Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos (trad. bras. de Paulo F. Valério), São Paulo: Paulinas, 2011, p. 191.
  3. Concílio de Trento, Decreto sobre o sacramento da Eucaristia, sessão XIII, c. 7 (DH 1646).

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