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Teu anjo é teu amigo, não teu cúmplice
Espiritualidade

Teu anjo é teu amigo, não teu cúmplice

Teu anjo é teu amigo, não teu cúmplice

Será terrível vermos, apontadas por nosso mais íntimo companheiro celeste, as omissões e negligências que permitimos ou que diminuíssem a nossa glória no Céu ou que, ai de nós, nos condenassem ao fogo eterno.

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Outubro de 2019
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O mês de outubro, além de ser dedicado ao Santo Rosário, pede também uma meditação especial sobre os Santos Anjos, pois no último dia 2 celebrou-se a memória dos Santos Anjos da Guarda, e hoje, dia 24, o calendário litúrgico antigo prevê uma festa em honra de São Rafael Arcanjo (agora transferida, juntamente com a memória de São Gabriel, para 29 de setembro).

Mas a reflexão sobre a existência e o ministério desses espíritos é atemporal; e ela é importante, sobretudo, para desfazer a imagem distorcida a seu respeito que, em tempos de confusão doutrinal como os nossos, tantas pessoas acabam criando. Muitas vezes, na literatura a respeito desses grandes amigos que Deus colocou ao nosso lado, falta consistência, justamente porque falta a fé da Igreja. Os anjos, então, desconectados de uma tradição cristã de dois mil anos, ou se tornam uma fábula, porque se deixa de acreditar neles, ou são tidos como “criaturas de estimação”, “anjinhos” que “domesticamos” com um nome e podemos até transformar numa espécie de “cúmplices” de nossas misérias e desleixos (falaremos melhor disso a seguir).

Contra essas imagens equivocadas, é urgente recorrer à doutrina da Igreja e a uma boa teologia. Para este texto específico, contentemo-nos com estas breves linhas do Pe. Royo Marín, reproduzindo uma lição do Doutor Angélico, Santo Tomás de Aquino:

Os anjos são chamados a juízo por causa dos pecados dos homens, não como réus — pois não têm culpa alguma dos pecados de seus protegidos —, mas como testemunhas, para convencer os homens de sua própria culpa e negligência [1].

Comecemos por nos imaginarmos, diante do tribunal de Deus, tendo a nosso santo anjo custódio por “testemunha”. Normalmente, nos tribunais humanos, quando uma pessoa é chamada a ser testemunha, ela o é ou da parte autora ou da parte ré, a fim de convencer o juiz ou da culpa do réu ou de sua inocência. No tribunal divino, porém, não acontece assim. Primeiro, porque a sentença já estará definida. Deus é o Juiz sumamente justo, a própria Justiça, e o seu julgamento é plenamente conforme à verdade. Não há o que mudar, nem matéria de que apelar. Deus não precisa ser “convencido” da inocência ou da culpa de ninguém. Antes, é a nós que será mostrado, em minúcias, o que fizemos ou deixamos de fazer nesta vida que acarretou ou a nossa salvação ou a nossa condenação eterna. Seremos nós os “convencidos” da sentença justíssima a ser aplicada, ou contra nós ou a nosso favor.

Os santos anjos deporão, portanto, pela verdade. Estarão ao nosso lado, sim, se tivermos sido fiéis a ela; mas estarão contra nós, também, se a tivermos traído. 

Assim, se tivermos a graça de nos salvar, eles nos mostrarão todas as vezes que procuraram nos iluminar com suas santas inspirações (e que nós pensávamos ser ideias nossas!) e como isso foi providencial para a nossa salvação. O Pe. Royo Marín, refletindo sobre essa iluminação que os santos anjos exercem continuamente sobre os homens, escreve: “Quantas vezes o homem não se surpreende com rajadas de luz divina sobre as coisas que deve crer e fazer, sem advertir que elas lhe advêm de seu anjo custódio, que permanece sempre ao seu lado!” [2]. 

Se viermos a nos condenar, todavia, eles também nos mostrarão a nossa maxima culpa, a nossa resistência às suas inspirações e a nossa ignavia

Queremos dar uma especial atenção à ideia transmitida por essa palavra, usada por Santo Tomás, e que os tradutores portugueses normalmente vertem para “negligência”, por ser uma expressão mais conhecida (embora a palavra “ignávia” também exista em nossa língua). As duas traduções são boas, mas, para os fins desta meditação, talvez fosse interessante recorrer a um sinônimo mais próximo de nossa linguagem litúrgica: o termo “omissões”, que foi acrescentado recentemente à oração do Confiteor, rezada no ato penitencial da Santa Missa: “Confesso… que pequei muitas vezes, por pensamentos e palavras, atos e omissões”. 

Com esse feliz acréscimo realizado pela reforma litúrgica pós-conciliar, a Igreja colocou-nos diante dos olhos uma realidade à qual não costumamos dar muita atenção. Os exames de consciência para Confissão geralmente não falam das omissões. Não estamos habituados a pensar que podemos nos condenar por causa delas. Na verdade, associamos a omissão normalmente à salvação: se nos salvarmos, será por não termos roubado, por não termos matado, por não termos cometido pecados mortais… Entretanto, se nos atentarmos ao Evangelho, veremos que esse é um modo muito míope de enxergar a nossa vida moral.

Para demonstrar o mal e o perigo terrível que há nas omissões, Nosso Senhor amaldiçoou a figueira estéril (cf. Mt 21, 18–22), ilustrando como, se não dermos frutos de caridade, nossa fé será morta (cf. Tg 2, 26). Ao contar a parábola dos talentos (cf. Mt 25, 14–30), Ele chamou de “mau e preguiçoso” o servo que enterrou o seu talento, e condenou-o às trevas exteriores justamente por não ter feito nada. Narrando como será o Juízo Final, Ele disse ainda que porá os cabritos à sua esquerda, e os condenará ao Inferno não por algo que tenham feito, mas pelo que deixaram de fazer: “Tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber; era peregrino e não me acolhestes; nu e não me vestistes; enfermo e na prisão e não me visitastes” (Mt 25, 42–43).

Ou seja, há uma obra a ser realizada para que cheguemos ao Céu. Deus não nos deu a sua graça, os sacramentos, a pertença à Igreja, para que ficássemos ociosos. Não recebemos os “talentos” de suas mãos — que são as graças com que Ele nos cumula ao longo da vida — para os colocarmos debaixo da terra. Não podemos ficar preocupados só com a parte negativa dos Mandamentos; precisam mover-nos também os seus preceitos de ação, os deveres positivos de nosso estado de vida, os conselhos evangélicos, que devemos procurar seguir ao menos em espírito

Tome-se como exemplo o terceiro mandamento: “Guardar domingos e festas de guarda”. Complementando esse preceito, a Igreja nos ordena ir à Missa aos domingos, sob pena de cometermos pecado mortal. Nosso Senhor em lugar algum dos Evangelhos falou disso, é verdade, mas Ele disse aos Apóstolos: “Quem vos ouve, a mim ouve” (Lc 10, 16), e ainda: “Tudo o que ligardes na terra, será ligado no céu, e o que desligardes na terra, será desligado no céu” (Mt 18, 18). Ou seja, Ele deu à Igreja o poder de fazer suas vezes aqui, fazendo leis e mandando que as cumpramos. Portanto, com o poder das chaves, está definido: deixar de ir à Santa Missa no domingo é coisa grave que, cometida com plena advertência e consentimento, leva ao Inferno. (A menos que haja um motivo razoável para essa ausência [3], para estar de novo em comunhão com Deus e com a Igreja é preciso confessar-se. Do contrário, não podemos aproximar-nos da Sagrada Comunhão.)

A esse respeito, mui concretamente, o que nos será mostrado no juízo por nossos santos anjos? 

Eles nos convencerão, diz o Aquinate, da nossa ignávia, da nossa preguiça, do nosso desleixo. Por um lado, veremos como eles nos colocavam, a nós e a nossas famílias, sob a sombra de suas asas, conduzindo-nos toda semana à casa do Senhor; veremos também como tantos obstáculos para cumprirmos esse dever eram justamente as ocasiões que precisávamos vencer para mantermos de pé a nossa casa… Por outro lado, os anjos também nos mostrarão como tiveram sua missão frustrada por causa de nossa soberba, quando passamos a dar ouvidos aos demônios e fomos pouco a pouco abandonando a Igreja, com argumentos sutis como: “Religião não salva ninguém”, ou: “Deus não vai me condenar porque eu não vou à igreja” (como se quem deixasse um mandamento também não fosse, lenta e gradualmente, descumprindo os outros…).

Mas a ausência na Missa dominical é apenas um exemplo das omissões que condenam. Com que remorsos pais e sacerdotes não verão no Céu as suas negligências, causas que foram da condenação de seus filhos biológicos e espirituais! Com que tristeza não verão como a falta de correção, a falta de atenção e cuidados, a falta de catequese, a falta de oração, levaram suas famílias e paróquias à falta de fé e à ruína do Inferno! Com que horror os preguiçosos não verão como a perda de tempo, a ociosidade e a inércia foram, pouco a pouco, conduzindo-os aos pecados mais graves até afastá-los definitivamente da graça! 

Não pensemos, todavia, só nas negligências graves, mas também nas outras tantas que nos conduzirão a um Purgatório mais ou menos prolongado. Pensemos em todas as brincadeiras torpes que fizemos e deixamos que se fizessem ao nosso redor, não nos atentando à palavra de Nosso Senhor: “No dia do juízo os homens prestarão contas de toda palavra vã que tiverem proferido” (Mt 12, 34). Pensemos na grande omissão de não termos corrigido com cuidado nossos próprios defeitos e “malandragens”, na negligência terrível de não termos correspondido ao amor heroico que Deus queria de nós...

Pensemos nisso tudo e convençamo-nos: nosso anjo deporá contra nós no último dia. Neste dia final, acabam-se as desculpas, não há “jeitinho brasileiro” nem forma de ocultar a nossa vergonha. Ali tudo será exposto, e não só nossas omissões, mas também nossos pensamentos, palavras e atos. Porque nosso anjo da guarda, fiel e justo, foi colocado ao nosso lado para ser nosso amigo, e não nosso “cúmplice”

“Parceiro no crime” é o demônio. Mas quem o tiver por companheiro aqui, infelizmente, tê-lo-á presente do outro lado. Porque é certo que, no justíssimo juízo de Deus, diferentemente do que acontece nos tribunais humanos, os que foram parceiros no crime, também o serão na pena.

Se isso vier a acontecer, nossos anjos da guarda permanecerão no Céu, contemplando a Deus face a face por toda a eternidade; nós, porém, pereceremos. É o que confirma o jesuíta Pe. Augusto Ferretti, em seu excelente livro sobre Os Santos Anjos da Guarda (pp. 26-27): 

Se nós mesmos não cooperamos com Deus e os seus santos e anjos, de nada nos servirá que estejam a nosso dispor, no Céu, inumeráveis exércitos de espíritos bem-aventurados. [...] O regime e o governo dos anjos, sobre nós, têm portanto que se conformar com a nossa natureza de seres livres. Eles cooperam conosco, dão-nos a mão, facilitando o caminho, quando pelo bom caminho é que queremos andar. Os anjos da guarda são como executores da Divina Providência com respeito aos homens, diz S. Tomás: Custodia Angeli est quaedam executio divinae Providentiae, circa homines facta (STh I, 113, 6 c.). Donde se segue que, assim como a Divina Providência não exclui o exercício do livre-arbítrio, nem nos necessita fisicamente a evitar o pecado, assim também não é tal coisa que havemos de esperar do ministério dos anjos junto de nós. É portanto inescusável desídia a de quem, sabendo que vive constantemente lado a lado com um anjo de Deus, vive e morre em pecado. O mesmo anjo que lhe devia ser auxílio, luz, proteção, torna-se-lhe testemunha e acusador no tribunal de Deus.

“Muito bem, agora só falta falar das coisas boas que os anjos testemunharão em favor dos justos…”. É verdade, mas o leitor terá de me perdoar esta omissão, que faço questão de manter. Pois este texto é um convite, feito a pecadores, para um exame de consciência. E a pecadores como nós o que cabe é a penitência, o arrependimento, as lágrimas e a preocupação. 

Faz muito bem, sim, pensar na alegria de ser recebido no Céu e reinar eternamente com os anjos. Mas também é muitíssimo salutar pensar no Purgatório e no Inferno, e em como será terrível vermos, apontadas por nosso mais íntimo companheiro celeste, as omissões e negligências que, por nossa culpa, permitimos ou que diminuíssem a nossa glória no Céu ou que, ai de nós, nos condenassem ao fogo eterno.

É para agirmos, é para despertarmos do nosso sono letárgico que precisamos escutar todas essas coisas. Nossos anjos custódios nos querem junto de si! Mas, se não tivermos Deus, a quem eles amam mais do que tudo, seremos separados desses nossos amigos para sempre... Pois só podem ter o mesmo destino os que amam as mesmas coisas.

Referências

  1. Pe. Antonio Royo Marín, Dios y su obra, Madri: BAC, 1963, p. 411; cf. STh I 113, 7 ad 4.
  2. Pe. Antonio Royo Marín, op. cit., p. 405.
  3. Cf., a esse respeito, Pe. Antonio Royo Marín, Teología moral para seglares, v. 1, Madri: BAC, 1996, p. 392.

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O Santo Rosário e por que ele é necessário
Espiritualidade

O Santo Rosário
e por que ele é necessário

O Santo Rosário e por que ele é necessário

Muitos santos atestam: o Rosário é a oração privada mais frutuosa e agradável que podemos oferecer a Deus. E essa é uma verdade permanente para todos os cristãos, seja qual for o estado de vida em que se encontrem.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Outubro de 2019
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Neste mês de outubro, dedicado especialmente à bem-aventurada Virgem Maria sob o título de Rainha do Santíssimo Rosário, é com gratidão que renovamos nosso compromisso de rezar essa admirável oração, tão amada por um sem-número de santos, tão louvada pelos Papas, tão enriquecida de indulgências, tão simples e reconfortante, e tão eficaz no combate contra os poderes do mal, sejam os visíveis sejam os invisíveis. 

Muitos santos atestam: o Rosário é a oração privada mais frutuosa e agradável que podemos oferecer a Deus — e essa é uma verdade permanente para todos os cristãos, seja qual for o estado de vida em que se encontrem. 

Mas qual é, nas palavras de São Luís Maria Grignion de Montfort, “o segredo do Rosário”? É a humildade e a confiança de espírito com que nos colocamos diante da toda santa Mãe de Deus, suplicando a proteção desta que é, dentre todas as criaturas, a mais agradável a Jesus Cristo e a que maior poder de intercessão possui junto dEle. Como nas bodas de Caná, Ele escuta as orações dela. Como aos pés da Cruz, Ele confia a ela o seu “discípulo amado”, e ela a ele. Nós todos, se quisermos ser verdadeiros discípulos do Mestre Jesus, devemos ser também filhos e herdeiros de Maria, e sondar o coração de sua oração predileta é penetrar as profundezas de sua preciosa alma, contemplando a glória de Deus que aí vai refletida como num espelho.

O Rosário possui três características que fazem dele um instrumento particularmente adequado aos cristãos que militam no mundo: ele é vocal, repetitivo e meditativo

1. Como oração vocal, ele dá continuidade a uma nobre tradição, que vai desde o cântico de Moisés e os salmos de Davi até os ditados dos Macabeus e o cântico de Simeão no Templo. 

No Primeiro Livro de Samuel, lê-se que Ana “multiplicava suas preces diante do Senhor”, de tal modo que o sumo sacerdote Heli “observava o movimento dos seus lábios” (1, 12). Isabel, a prima de Maria, “exclamou em alta voz: ‘Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre’”, ao que Nossa Senhora respondeu, dando início a seu cântico de louvor: “Por isso, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso” (Lc 1, 42.48–49). 

Cristo, Nosso Senhor, manda que entremos em nossos quartos e rezemos com fervor a Deus, oferecendo-nos como modelo a humildade do publicano que, de cabeça baixa e batendo no peito, diz: “Tende piedade de mim, que sou um pecador” (cf. Mt 6, 6; Lc 18, 13). Em outra ocasião Ele nos dá o exemplo da viúva insistente que, em sua angústia, não cessa jamais de incomodar o juiz clamando por justiça (cf. Lc 18, 2–5). O filho pródigo da parábola cai aos pés de seu pai e confessa a sua culpa; o homem cego na estrada para Jericó grita continuamente: “Filho de Davi, tem piedade de mim” (cf. Lc 15, 21; Lc 18, 38). 

Pelo Apóstolo, enfim, somos exortados a orar sem cessar (cf. 1Ts 5, 17), a perseverar na oração (cf. Rm 12, 12), e a trazer hinos e louvores contínuos em nossos lábios (cf. Ef 5, 19; Cl 3, 16). 

Com exemplos como esses e centenas de outros em mãos, deveria ser evidente que a oração vocal não é medíocre ou insignificante, como têm defendido “especialistas” equivocados — protestantes e católicos liberais, principalmente. Bem ao contrário disso, a oração vocal é um meio tradicional, altamente favorável e eficaz para cultivar a presença de Deus e voltar-se para Ele com confiança e esperança. Trata-se de um meio de santificar a linguagem e o coração, “porque a boca fala do que lhe transborda do coração” (Mt 12, 34). 

2. A repetitividade do Rosário, por sua vez, longe de constituir um impedimento para a concentração ou um costume medieval fora de moda, está ligada a dois importantes aspectos da oração: a natureza da mente humana e o modo adequado de se acercar ao Todo-poderoso. 

Ao voltarmos repetidamente aos mesmos temas elevados, nós estamos nos adequando ao nosso modo imperfeito de conhecer as coisas (que exige, de nossa parte, que fixemos muitas vezes olhares amorosos em objetos determinados e familiares, a fim de os conhecermos mais perfeitamente) e também aprendendo como nos apresentarmos diante de Deus com súplicas incansáveis, humildes, simples, básicas e naturais. Nós vamos aprendendo novas lições a partir de coisas familiares à medida que crescemos no amor a Nosso Senhor e sua Mãe Santíssima. 

Ao trazermos sempre as mesmas palavras nos lábios, nós vamos transformando nossos hábitos de pensamento e de linguagem. Ao nos demorarmos sobre os mesmos mistérios, nós vamos nos tornando crianças que nunca se cansam de ouvir uma bela história, ou amantes que nunca se cansam de demonstrar sinais de afeição mútua. Até mesmo os serafins diante do trono de Deus cantam eternamente um hino de louvor a Ele: “Santo, santo, santo é o Senhor, Deus dos exércitos; o céu e a terra estão cheios de sua glória” (Is 6, 3; Ap 4, 8).

3. Esse método simples e propositalmente repetitivo de oração, que nos faz pronunciar várias vezes a Oração do Senhor, a Saudação Angélica (que é a Ave-Maria) e a doxologia menor (que é o “Glória ao Pai”), encoraja ainda a meditação sobre os mistérios da nossa fé. Mas não como uma análise exaustiva, uma representação pitoresca ou uma imersão no ambiente deles, com o desejo de absorver-lhes a realidade. Nas palavras de João Paulo II: 

O Santo Rosário é um memorial contínuo da Redenção, em seus acontecimentos mais importantes: a Encarnação do Verbo, sua Paixão e Morte por nós, a Páscoa que Ele inaugurou e que será completada eternamente no céu... De fato, quando consideramos os elementos contemplativos do Rosário, isto é, os mistérios em torno dos quais a oração vocal se desdobra, nós somos capazes de compreender melhor por que essa coroa de saudações angélicas foi denominada “o Saltério da Virgem”. Assim como os Salmos lembravam o povo de Israel das maravilhas do Êxodo e da salvação operada por Deus, chamando-o constantemente de volta à fidelidade para com a aliança feita no Sinai, assim também o Rosário recorda continuamente o povo da Nova Aliança dos prodígios de misericórdia que Deus realizou pela humanidade em Cristo Jesus, chamando-o de volta à fidelidade para com as promessas feitas no Batismo. Nós somos seu povo e Ele é nosso Deus (L’Osservatore Romano, 11 out. 1983).

“Como os desejos devem ser ordenados”, diz Santo Tomás de Aquino, “assim também a oração, já que ela é expressão do desejo.” E quem poderá encontrar três orações mais sinceras, mais transparentes, mais consoladoras ou mais profundas que o Pai-Nosso, a Ave-Maria e o Glória

Demorar-se nas frases do Pai-Nosso é colocar-se sob a tutela do mais sublime dos mestres, Jesus Cristo, Sabedoria eterna e encarnada, que ensinou essa oração a seus discípulos. Não é no mínimo surpreendente que tanto o Catecismo do Concílio de Trento quanto o atual organizam suas seções sobre a oração em torno da Oração Dominical.

A Ave-Maria, por sua vez, é uma oração cheia de vida: cada linha, cada palavra contém o silêncio do mistério, o eco da profecia, a promessa da redenção. Seu conteúdo carrega diversos mistérios e eventos sagrados ao mesmo tempo: a Anunciação, a Encarnação, a Visitação, o Santíssimo Nome de Jesus, a plenitude de graça em Maria, sua intercessão por nós no Céu, os Novíssimos. De fato, a Ave-Maria é um compêndio de toda a fé católica.

Sem digressões teológicas, sem desperdiçar uma palavra sequer, o Glória invoca com grandeza a Santíssima Trindade, Alfa e Ômega de todas as coisas, e insere o ato infinitesimal de nossa oração na majestade infinita de Deus.

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Temperamento não é muleta!
Cursos

Temperamento não é muleta!

Temperamento não é muleta!

Não é porque você nasceu com esta ou aquela tendência que precisa ceder à sua natureza e levar a vida de qualquer modo. Temperamento não é muleta, nem licença para ser um mau caráter!

Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Setembro de 2019
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Nós, seres humanos, estamos sempre arrumando uma desculpa, um “jeitinho” para justificar nossos defeitos e permanecer na cômoda mesmice de nossos maus hábitos…

Pois bem, se há algo em que nosso novo curso sobre “Os Quatro Temperamentos” quer ajudar você, é justamente a mudar isso. Assim como o Apóstolo disse: “Não vos conformeis com este mundo” (Rm 12, 2), este curso é para dizer a você: Não se conforme com seu temperamento! Não se conforme às más inclinações com que você nasceu! Lute — com a graça de Deus, é claro, mas lute — para transformar a própria têmpera!

Dizendo de modo mais claro e concreto: 

  • não é porque você nasceu mais propenso à cólera que pode ser mal educado e sair por aí dando coice nos outros; 
  • não é porque nasceu mais dado à melancolia que precisa ficar “chorando as pitangas” todo dia; 
  • não é porque nasceu mais inclinado à preguiça que não precisa “pegar no batente”; 
  • não é porque tende à inconstância que está fadado a sempre começar as coisas e nunca terminá-las… 

Porque temperamento não é muleta, nem licença para ser um mau caráter, e é essa a mensagem do novo teaser que estamos enviando a você, com mais trechos inéditos de nossas aulas. Assista:

Se você gostou e quer saber melhor como esse assunto é tratado dentro do sadio equilíbrio da espiritualidade cristã, inscreva-se agora mesmo em nossa lista exclusiva para este curso e receba todas as atualizações a respeito! “Porque é a partir desse conhecimento, do que é a minha tendência biológica, que eu vou construir o meu caráter”.

E anote em sua agenda: nosso lançamento será no dia 15 de outubro, memória de Santa Teresa de Jesus.

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Marido e mulher, vocês não pertencem a si mesmos!
Família

Marido e mulher,
vocês não pertencem a si mesmos!

Marido e mulher, vocês não pertencem a si mesmos!

Embora o sacramento do Matrimônio não imprima caráter em sentido estrito, o casal muda verdadeiramente: o alicerce deixa de ser o próprio eu e passar a ser o outro, deixa de ser o isolamento para ser a comunhão.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Setembro de 2019
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A linguagem tradicional de “direitos” ou “débitos” no Matrimônio foi muito criticada  antes e durante a realização do Concílio Vaticano II, e quase desapareceu do vocabulário católico. No entanto, é necessário analisá-la novamente. Porque é importante reconhecer, especialmente numa época de confusão a respeito da indissolubilidade matrimonial, que no momento em que nasce o vínculo conjugal algo de cada um dos cônjuges pertence, por direito, ao outro, e não apenas a si mesmo.

Vejamos os votos contraídos no Matrimônio: “Eu, N., recebo-te por minha esposa (meu esposo) a ti, N., e prometo ser-te fiel...”. A troca de consentimentos não é um contrato limitado e revogável: ao contrário, ele é livre, irrevogável e desinteressado, pois um se entrega ao cuidado do outro. Eu deixo de ser “dono do meu nariz”, pois agora pertenço à outra pessoa. Em certo sentido, torno-me propriedade do meu cônjuge. Os esposos podem reivindicar coisas um do outro, porque cada um deles tem um direito verdadeiro e definitivo sobre o outro. Esse é precisamente o significado do voto, diferentemente de acordos, contratos, pactos, parcerias ou “casos”.

Vale a pena fazer uma comparação com os votos religiosos. A mulher que entra para a vida religiosa, como costumamos dizer, faz um voto irrevogável e incondicional de se casar espiritualmente com Nosso Senhor Jesus Cristo. Por sua vez, o homem que entra para a vida religiosa promete pôr-se plenamente à disposição e a serviço dEle. Não se trata de um mero passatempo, mas da consagração de toda a vida a outra pessoa.

Por isso, tanto o Matrimônio como a vida religiosa exigem uma preparação séria, um propósito lúcido, esforço e oração constantes para que haja perseverança e um desejo pleno de aceitar o fardo do outro “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”, nas épocas de esplendor e nas noites escuras. 

Você não pertence a si mesmo” — é esse o clamor que sai da boca do Apóstolo (1Cor 6, 19). Marido e mulher, vocês não pertencem a si mesmos, pertencem um ao outro e, portanto, devem tudo um ao outro. Esse débito se estende de forma natural, espontânea e apropriada aos filhos, por quem os pais são responsáveis e de quem recebem as bênçãos da alegria, do apoio e do sofrimento, ou seja, trata-se de uma verdadeira participação no mistério pascal de Cristo. De modos distintos, os membros da família pertencem uns aos outros. Nenhum deles pertence a si mesmo. 

Você não pertence a si mesmo. Contraímos uma dívida eterna com Deus pelo simples fato de termos sido criados do nada por sua vontade benéfica e sábia. Devemos a Ele nosso próprio ser, porque Ele nos fez para ser, Ele nos dá o “ato de ser”, a fonte de nossa personalidade, a energia dinâmica que nos transforma em seres reais, e não meramente possíveis. Como se isso não bastasse, Ele nos salva: “Fostes comprados por um alto preço” (1Cor 6, 20).   

O Matrimônio é análogo à Criação e Redenção. Deus remodela os esposos como marido e mulher através dos votos feitos livremente por eles e, num mistério que envolve o uno e o múltiplo, o passado e a eternidade, o exercício da vontade individual de cada um dá origem à união amorosa de duas vidas. Por meio dos votos o relacionamento (ou seja, sua mútua dependência) vai da possibilidade à realidade: ele se torna algo real, e não apenas uma ideia ou desejo. 

Embora o sacramento do Matrimônio não imprima caráter em sentido estrito, o casal muda verdadeiramente: o alicerce deixa de ser o próprio eu e passar a ser o outro, deixa de ser o isolamento para ser a comunhão. Os cônjuges estabelecem uma nova relação, enraizada na razão e na vontade, e por meio da qual são novamente criados no Reino de Deus e neste mundo. Essa relação é tão íntima que somente a morte (literalmente, o desaparecimento de um dos esposos) lhe pode estabelecer um limite temporal. Na medida, porém, em que a alma santificada de uma pessoa leva consigo tudo o que ela fez em sua vocação para a glória de Deus, o vínculo entre os esposos pode continuar no céu, não da forma como existe na terra (cf. Mc 12, 25), mas num estado transfigurado de perfeita e elevada união, que foi imperfeitamente alcançado nesta vida. 

O que foi dito acima ajuda a explicar por que a união física entre homem e mulher só faz sentido no contexto matrimonial. Ela é tradicionalmente chamada “ato conjugal” (ou nupcial) por ser o ato por que se paga, de modo simbólico e real, a dívida espiritual dos votos. É imagem passageira de um compromisso duradouro, evidência momentânea da intenção de amar e servir por toda a vida. 

Esse ato perde o sentido quando não há comunhão de almas alicerçada num voto. Fora do casamento, o ato se autodestrói, pois ignora sua elevada finalidade e se torna ou um ritual niilista, do qual se cansam até as pessoas mais inteligentes e artísticas, ou um ato animal sem qualquer valor pessoal. Isso acontece porque a união física digna de duas pessoas humanas só pode ocorrer se for realizada primeiro no campo espiritual por meio de votos solenes, pelos quais homem e mulher se concedem mutuamente o direito exclusivo que um pode exercer sobre o outro. É assim que se entregam um ao outro. Qualquer outra coisa além disso é autocontraditória, medíocre mesmo, algo a que Nietzsche chamou “meio a meio”.

Nietzsche também dizia que o coração do homem e da mulher tem um profundo desejo de eternidade. Nossos corações desejam o Todo, e não descansarão até obtê-lo. O Matrimônio é um todo espiritual, um bem comum feito de partes intrínsecas: marido e mulher. Se o todo for removido, as partes se dissolvem, assim como a mão perde sua essência quando separada do corpo, pois em tal circunstância ela só pode ser chamada “mão” de modo equívoco. Se o todo for danificado ou eliminado, as partes perecerão, assim como o homem morre quando cortado ao meio ou o corpo se corrompe quando dele se separa a alma. 

O voto nupcial representa a união de dois espíritos, cuja graça, paz, alegria e caridade podem ser reforçadas pela união física. A beleza do ato interno (duas pessoas unidas por um voto) redunda na beleza do externo (duas pessoas numa só carne); a veracidade do ato interno contém e aprofunda a veracidade do externo; a bondade do ato interno purifica e ilumina o externo. Essa é outra forma verdadeira de dizer: “O que Deus uniu o homem não separe”.

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