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Pode um cientista ainda levar a sério o Milagre do Sol?
Virgem Maria

Pode um cientista
ainda levar a sério o Milagre do Sol?

Pode um cientista ainda levar a sério o Milagre do Sol?

Em razão do número e da variedade de testemunhas oculares, além do choque político e eclesial que se seguiu ao evento, tudo o que sobre ele sabemos aponta para um milagre público extraordinário e com altíssimo grau de credibilidade.

Pe. Andrew PinsentTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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A pergunta na chamada implica que a resposta esperada é: não; mas, como antigo físico de partículas, a minha resposta é: por que não? Contra o preconceito comum, uma perspectiva científica não descarta milagres, e o evento de Fátima é, na visão de muitos, particularmente crível.

Com relação a milagres em geral, o preconceito de costume contra eles assume uma de duas formas. A primeira alega que um ponto de vista científico exclui milagres, erroneamente definidos como um rompimento das forças da natureza ou, especificamente, com a física. Este preconceito repousa num mal-entendido sobre o alcance das leis científicas, que descrevem de forma simplificada como sistemas ideais, tomados isoladamente, se comportam. Essas leis nos permitem realizar feitos extraordinários, como a viagem final que a espaçonave Cassini empreendeu em 2017 através dos anéis de Saturno.

Mas essa leis nada nos dizem sobre o que acontece quando um sistema não é isolado, muito menos quando um agente pessoal e livre nele intervém. Para dar um exemplo: se eu jogar uma maçã no ar, a sua trajetória será semelhante a uma parábola que pode ser prevista a partir da posição inicial e impulso da maçã; mas essa previsão nada diz sobre o que eu decido fazer ou não com a maçã. Ora, se eu posso intervir para mudar a trajetória de uma maçã, então (presumivelmente) Deus todo-poderoso pode fazer o mesmo. E muito mais. Portanto, não existem problemas reais em relação aos milagres do ângulo das leis científicas, uma vez que descrever como um sistema se comporta na ausência de interferências externas não diz nada sobre se uma intervenção pode ocorrer ou ocorre de fato.

Uma segunda forma de preconceito alega que uma combinação de causas naturais pode e deve ser encontrada para explicar o que aparenta ser milagroso, reduzindo o extraordinário ao previsível. Para dar apenas um exemplo: não é incomum entre padres e professores já de certa idade, que acham milagres embaraçosos, a ideia de que Jesus, na multiplicação dos pães, teria alimentado cinco mil pessoas dividindo a comida que elas mesmas trouxeram consigo. Seria um símbolo de “partilha”. 

Explicações como estas dificilmente quadram com as contas reais, menos ainda com a reação das testemunhas. Além disso, não são explicações necessárias ou úteis. Obviamente, nós devemos ter senso crítico na hora de avaliar relatos de milagres particulares, que deveriam ser sinais excepcionais num mundo de seres criados com as suas próprias potências naturais. Mas determinar, antes de considerar quaisquer evidências, que milagres são impossíveis ou nunca acontecem é contra o espírito de investigação crítica, além de uma declaração de desespero. Afinal de contas, se nenhum milagre acontece, é porque estamos presos num mundo de potências naturais, inadequados para a nossa felicidade e condenados à decadência e à morte individual e, finalmente, cósmica.

Pessoas presentes na Cova da Iria, em 13 de outubro de 1917, olhando para o Sol.

Como então avaliar o milagre de Fátima, especialmente o Milagre do Sol, de 13 de outubro de 1917? Este evento acompanhou a última de seis aparições de Nossa Senhora à Beata Lúcia Santos, de 10 anos, e seus primos, os santos Jacinta e Francisco Marto. Houve uma multidão de testemunhas, contadas em dezenas de milhares, sem contar o testemunho de professores universitários e repórteres, compilados mais tardes no livro de John Haffert Meet the Witnesses of the Miracle of the Sun (“Conheça as testemunhas do Milagre do Sol”). Por exemplo, Avelino de Almeida, de O Século (um jornal anticlerical do governo), que anteriormente zombava das crianças, escreveu que o Sol fazia movimentos súbitos e incríveis, “fora de todas as leis cósmicas”.

Hoje, a Igreja não exige que aceitemos o milagre, mas afirma apenas que as aparições de Nossa Senhora são dignas de fé [1]. No entanto, em razão do número e da variedade de testemunhas oculares, além do choque político e eclesial em Portugal que se seguiu ao evento, tudo o que sobre ele sabemos aponta para um milagre público extraordinário e com altíssimo grau de credibilidade.

As aparições da Virgem ocorreram quatro séculos após o início da Reforma Protestante, em 1517, e dois séculos depois da fundação da primeira Grande Loja maçônica, em Londres, no ano de 1717, marcos da apostasia das nações do catolicismo para o indiferentismo religioso. No dia mesmo do Milagre do Sol, em 1917, os sovietes assumiram o controle militar da Rússia, preparando o caminho para que o comunismo ateu começasse a ruinosa dominação de grande parte do mundo, perseguindo a Igreja e levando a mortes cruéis dezenas de milhões de pessoas.

Não surpreende, pois, que Deus nos tenha concedido um milagre espetacular, com avisos severos de arrependimento e penitência, para aprendermos a responder ao dom de sua graça, para a salvação de nossas almas e do mundo.

Notas

  1. A revelações privadas como a de Fátima não estão obrigados a prestar assentimento de fé divina os fiéis a quem elas não foram imediata e certamente dirigidas, embora convenha prestar-lhes assentimento de fé humana, na medida em que a autoridade da Igreja prudencialmente as reconhece como autênticas, isto é, livres de todo indício razoável de fraude, engano, manipulação etc. e de quaisquer elementos que contradigam o conteúdo da Revelação pública. Por isso, não peca contra a fé quem não crê, v.gr., nas revelações de Fátima ou em outras aparições marianas particulares, embora nisto possa haver certa indocilidade culposa ao Magistério eclesiástico, quando ele mesmo reconhece a autenticidade destas manifestações e as propõe aos fiéis, especialmente pela Liturgia, como dignas de fé e conformes à doutrina cristã (Nota da Equipe CNP).

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Por que a Virgem de Fátima apareceu no dia 13 de cada mês?
Virgem Maria

Por que a Virgem de Fátima
apareceu no dia 13 de cada mês?

Por que a Virgem de Fátima apareceu no dia 13 de cada mês?

É claro que houve um significado no fato de Nossa Senhora ter aparecido no dia 13 em Portugal. Por ora, podemos não conhecer todas as razões, mas há importantes conexões entre esse número e a história de Fátima.

Joseph PronechenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Comecemos com um simples fato. Nas principais aparições em Fátima, nossa Mãe Santíssima apareceu no dia 13 de cada mês, menos em agosto, quando as crianças foram levadas à cadeia de Ourém por um administrador ateu, que estava determinado a impedir que elas fossem até a Cova da Iria.

Depois que as crianças foram soltas, Nossa Senhora lhes apareceu no dia 15 de agosto, festa da Assunção. 

Houve algum significado no fato de Nossa Senhora ter aparecido no dia 13 dos outros cinco meses? Claro que sim. O Céu não faz coisas sem propósito. Por ora, podemos não conhecer todas as razões, mas há importantes conexões entre esse número e a história de Fátima, e elas podem, até o momento, ser consideradas mais um modo de enriquecer seu significado.

Primeiro, tenhamos em mente que certos números possuem grande significado e simbolismo para os judeus e para nós. É algo claramente bíblico. No Antigo Testamento, determinados números são associados a significados místicos e a certa sacralidade. Isso continuou no Novo Testamento e foi mantido pelos Padres da Igreja.

Consideremos os seguintes números: 3 (a Trindade, por exemplo); 7 (o sétimo dia da semana, quando Deus descansou); 12 (as doze tribos de Israel, os doze Apóstolos). Obviamente, isso não tem nada a ver com superstição.  

Antes de voltarmos ao 12, lembremos mais uma conexão. Os Padres da Igreja consideravam Ester, do Antigo Testamento, uma prefiguração da Santíssima Virgem. Trata-se de uma importante relação. Você se lembra da história dessa rainha, contada no Livro de Ester?

Em resumo, Ester estava entre os judeus exilados na Pérsia. Seu tio, Mardoqueu, cuidava dela e ao mesmo tempo era um diligente servo do rei. Ela era reverenciada por todos: “Ela ganhava as boas graças de todos os que a viam” (Et 2, 15). Quando o rei Assuero precisou escolher uma rainha entre as possíveis candidatas, “preferiu-a a todas as outras mulheres, e ganhou ela as graças e o favor real mais que todas as demais jovens. Tanto que o rei colocou sobre sua cabeça o diadema real e a fez rainha no lugar de Vasti” (Et 2, 17). Ele não sabia que ela era judia.

Entra em cena o vilão, que tinha ciúmes de seu tio e da posição que ele ocupava, porque ele mesmo queria ser o braço direito do rei, com todo o poder que a posição oferecia. Ele conseguiu isso imediatamente, ao armar uma trapaça contra Mardoqueu. Então, para manter-se no poder, escreveu e baixou um decreto no dia 13 do primeiro mês, determinando que, dentro de alguns meses, todos os judeus no reino — homens, mulheres e crianças — deveriam ser exterminados à espada. A execução em massa seria realizada no 13.º dia do mês de Adar do calendário judaico

Pediram a Ester que intercedesse junto ao rei. Ela o fez, mesmo que isso lhe pudesse ter custado a vida, pois ela apareceu diante dele sem pedir a permissão necessária para vê-lo — um aviso vindo dele mesmo autorizando-lhe a presença. Ela se dirigiu ao rei para fazer o pedido.

Ester revelou ao rei que o vilão havia ordenado em nome do rei a morte dos judeus, e usou o selo dele para determinar que aquilo fosse feito no dia 13 de Adar. Além disso, ela revelou que também era judia. O rei Assuero, que a amava afetuosamente, ficou indignado com tal vileza, condenou o vilão à morte e ordenou que os judeus fossem salvos.

“Ester diante de Assuero”, pintura de Guercino.

“No duodécimo mês, que é o de Adar, no dia treze do mês, data em que entrava em vigor a ordem e o edito do rei, no mesmo dia em que os inimigos dos judeus contavam fazer-lhes mal, aconteceu tudo ao contrário e os judeus dominaram seus inimigos”, diz-nos o livro (Et 9, 1). 

Ester salvou seu povo. Os judeus sobreviveram.

Em Fátima, Nossa Senhora apareceu para salvar seu povo mostrando-lhe o caminho correto a ser seguido.

Como um “extra”, a Enciclopédia Católica lembra que o nome Ester vem do hebraico e significa “estrela”, “felicidade”. Isso também reforça a conexão entre Ester e a aparição e mensagem de Nossa Senhora de Fátima.

Ela sempre tinha uma estrela em seu manto”, disse a Ir. Lúcia ao padre dominicano Thomas McGlynn, quando ele perguntou qual era a aparência de Nossa Senhora. A estrela era amarela. Mais uma vez, o Céu estabelecia uma conexão para nos dizer que Maria estava indo a Fátima também para salvar do mal seu povo e a Igreja.  

Ester era uma rainha. Nossa Senhora é uma Rainha infinitamente superior — que foi coroada, contemplamos no quinto mistério do Rosário, “como Rainha do Céu e da terra”. 

Por falar no Rosário, todas as vezes que apareceu em Fátima, Nossa Senhora nos pediu que o rezássemos (do dia 12 de maio ao dia 13 de outubro). Na aparição do dia 13 de outubro, ela se apresentou como Nossa Senhora do Rosário, e outubro é o mês dedicado ao Santo Rosário. 

Isso nos leva a outro 13. Foi no séc. XIII que Nossa Senhora deu o Rosário a São Domingos. E foi também nesse século que ela deu a São Simão Stock o escapulário marrom. No dia 13 de outubro, Nossa Senhora apareceu com três títulos — um deles foi o de Nossa Senhora do Carmo, dando-nos uma lição silenciosa sobre o escapulário. Alguns anos depois, quando frades carmelitas lhe perguntaram sobre o escapulário, Lúcia lhes disse que “o escapulário e o Rosário são inseparáveis. O escapulário é um sinal de consagração a Nossa Senhora”. 

Naturalmente, Nossa Senhora apareceu em Fátima para nos aproximar de Jesus. Um dos caminhos foi a recepção da Sagrada Eucaristia, que é a parte mais importante da devoção dos cinco primeiros sábados. Isso nos leva a outra conexão com o número 13. 13 de maio, data da primeira aparição, era o dia original da festa de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento. Com certeza essa data não foi escolhida a esmo; ela apontava propositalmente para a Sagrada Eucaristia.

Durante a primeira aparição, no dia 13 de maio, as crianças perceberam que a luz que saía das mãos abertas de Maria era a luz de Deus; então, ajoelharam-se e começaram a rezar: “Ó Santíssima Trindade, eu vos adoro! Meu Deus, meu Deus, amo-vos no Santíssimo Sacramento”.

É claro que essa oração tem uma conexão com o Espírito Santo. Lembremos que Nossa Senhora e os Apóstolos somavam 13 pessoas no Cenáculo, onde o Espírito Santo desceu em Pentecostes.

Além dos doze Apóstolos juntos com Maria, podemos retroceder no tempo e mencionar as doze tribos de Israel e assim o 13 aparecerá novamente. Certo rabino especialista no tema mostrou que as doze tribos, dos doze filhos de Jacó, as quais se tornaram Israel, “estão unidas a seu pai Israel [Jacó]. Israel é o 13.º. O sentido do número treze é a união de muitos em um só”.

O rabino também observou que, na língua hebraica, toda letra possui um valor numérico, e a palavra hebraica ahava (que significa amor, como no Novo Testamento, na Bíblia) está ligada a Deus e ao valor numérico de treze.  

Em Fátima, Maria veio com amor para nos unir todos no amor de Deus, desde que sigamos suas instruções, que em última instância vieram de Deus — o qual, como nos diz São João, é Amor (cf. 1Jo 4, 8) —, para a única família de Deus que se dirige ao Céu.  

Portanto, o número 13 está, de fato, relacionado com Fátima de diversas formas, direta ou indiretamente. Trata-se de mais um dos muitos e diferentes modos que nos ampliam a mensagem e o significado de Fátima.

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São Francisco, o Sultão e o desejo de ser mártir
Santos & Mártires

São Francisco, o Sultão
e o desejo de ser mártir

São Francisco, o Sultão e o desejo de ser mártir

Quem poderia descrever o amor ardente que abrasava Francisco? O incêndio de amor que o devorava, criava nele uma santa inveja do triunfo glorioso dos santos mártires, a quem ninguém conseguiu apagar a chama da caridade, nem abater a coragem.

São Boaventura9 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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Quem poderia descrever o amor ardente que abrasava Francisco, esse amigo do Esposo? Como um carvão a arder, parecia inteiramente devorado pela chama do amor de Deus. Mal ouvia falar do amor do Senhor, ficava excitado, comovido, inflamado, como se esse som exterior lhe fizesse vibrar lá dentro as cordas do coração. Segundo ele, era uma prodigalidade principesca oferecer, em troco da esmola, o precioso patrimônio do amor de Deus; e dar-lhe menos apreço do que ao dinheiro era tolice rematada, porquanto essa moeda inapreciável do amor divino é a única com que se pode comprar o reino dos Céus, e é um dever natural pagar amor com amor.

A intensidade desse amor sem limites que o impelia para Deus, fez com que também aumentasse a ternura afetuosa para com os que com ele participavam da natureza e da graça. Os sentimentos naturais do seu coração bastavam para o transformar num irmão de todas as criaturas. Não é de admirar, portanto, que o seu amor a Cristo, o tenha tornado ainda mais irmão daqueles que são a imagem do Criador e foram resgatados pelo seu sangue. Não se considerava amigo de Cristo, se não se preocupava com as almas que Ele resgatara. “Nada se devia antepor à salvação das almas”, dizia. E apresentava como prova o fato de o Filho Unigênito de Deus se ter dignado morrer na cruz por amor das almas. Isso explica a sua veemência na oração, a atividade incessante da pregação, e os excessos quando se tratava de dar exemplo. Se lhe censuravam certos exageros de austeridade, respondia que tinha sido dado aos outros como exemplo. Se bem que a sua carne inocente, já sem relutância submetida ao espírito, não merecesse qualquer castigo pelas próprias faltas, no entanto, para dar exemplo, impunha-lhe novos castigos e novos sofrimentos, calcorreando, por amor dos outros, caminhos duros. Ainda que eu falasse, dizia, as línguas dos homens e dos anjos, se não tivesse caridade e não desse exemplo de virtude, isso de nada me serviria a mim, e muito pouco aproveitaria aos outros.

“São Francisco de Assis em êxtase”, pintura do séc. XVII.

O incêndio de amor que o devorava, criava nele uma santa inveja do triunfo glorioso dos santos mártires, a quem ninguém conseguiu apagar a chama da caridade, nem abater a coragem. Também ele, abrasado no mesmo santo amor que rejeita todo o medo, queria oferecer-se ao Senhor como hóstia viva, imolada pelo martírio, para retribuir a Cristo a morte que ele sofreu por nós e incentivar os homens ao amor de Deus. 

Seis anos após a conversão, ardendo em desejos de martírio, resolveu dirigir-se para as bandas da Síria, a pregar a fé cristã e a penitência aos sarracenos e outros infiéis. Mas o navio em que embarcara foi arrastado por ventos contrários para as costas da Eslavônia, onde teve de aportar. Aí se viu forçado a ficar algum tempo, sem conseguir nenhum barco que o transportasse mais além. Percebendo que o seu desejo não seria o do Senhor, e vendo uns marinheiros prestes a desamarrar para Ancona, pediu-lhes que o levassem — mas teria de ser por amor de Deus, pois ele nada tinha com que pagar. Por mais que insistisse, os homenzinhos fizeram ouvidos de mercador. Então o homem de Deus, num extremo de confiança na bondade do Senhor, esgueirou-se sub-repticiamente para o navio, ele e o companheiro. Entre os passageiros encontrava-se um, sem sombra de dúvida enviado por Deus em favor do seu pobrezinho, que levava mantimentos em abundância, e chamando à parte um membro da tripulação que lhe pareceu mais temente a Deus, recomendou-lhe: “Guarda bem estas provisões para uns Irmãos pobrezinhos que vão aqui escondidos no navio, e dá-lhas quando eles precisarem”. Ora aconteceu que os ventos sopraram com tanta violência, que os dias se passavam sem que pudessem aportar em parte alguma. Os marinheiros já não tinham provisões; só restava aquela esmola graciosamente concedida pelo céu ao pobre Francisco. Era muito pouco, não havia dúvida; mas o poder de Deus fez com que esse pouco se transformasse em tanto, que apesar do atraso provocado pela tempestade, o alimento chegou e sobrou para todos até ao porto de Ancona. Os marinheiros, vendo-se libertos dum perigo de morte por intermédio do servo de Deus, imitaram os do Salmo, que depois de terem sentido os perigos horrendos do oceano, testemunharam as obras do Senhor no alto mar; deram graças a Deus todo-poderoso, que se mostra sempre tão amável e tão admirável para com os seus amigos e servidores. 

Começou então a percorrer essa província, semeando a boa semente da salvação e colhendo frutos copiosos. Mas como o fruto mais apetecido era o do martírio, e mais desejava a morte por Cristo do que todos os méritos duma vida virtuosa, partiu em direção a Marrocos, com a intenção de anunciar o Evangelho de Cristo ao Miramolim e ao seu povo: podia ser que assim alcançasse a desejada palma do martírio. E era de tal ordem o seu entusiasmo, que sendo embora franzino de corpo, andava sempre à frente do companheiro de viagem, e deslumbrado na ânsia de concretizar o seu sonho, parecia que queria voar. Já tinha chegado à Espanha. Mas a disposição divina reservava-lhe outras incumbências. Sobreveio-lhe uma doença muito grave, que o impediu de realizar o que tanto desejava. Apesar do lucro que para ele representava a morte, compreendeu que a sua vida corporal era imprescindível para a família que gerara. E voltou, para apascentar as ovelhas confiadas aos seus cuidados.

Mas o fervor da caridade continuava a aguilhoá-lo em ânsias de martírio. Uma terceira vez tentou passar a terras de infiéis, para com efusão do sangue favorecer a expansão da fé na Santíssima Trindade. No ano décimo terceiro da sua conversão partiu para o Oriente, exposto constantemente a inúmeros perigos, no intuito de poder contatar pessoalmente com o Sultão de Babilônia. Travava-se então uma guerra implacável entre cristãos e sarracenos. Os dois exércitos encontravam-se frente a frente no campo de batalha. Tentar passar dum lado para o outro era um risco de morte. Além disso, o Sultão publicara um édito cruel prometendo um talento de ouro a quem lhe trouxesse a cabeça dum cristão. Pois, apesar de tudo isso, Francisco, o intrépido cavaleiro de Cristo, na esperança de obter sem mais delongas aquilo por que tanto suspirava, meteu-se a caminho: longe de temer a morte, sentia-se atraído por ela. Depois de fervorosa oração, confortado pelo Senhor, começou a cantar cheio de confiança aquele verso do profeta: Nem que eu tenha de andar no meio da sombra da morte, não terei medo nenhum porque tu estás comigo

Tomando por companheiro Frei Iluminado, um Irmão de fato iluminado no sentido de inteligente, e também corajoso, puseram-se a caminho, quando imediatamente depararam com duas ovelhinhas. Entusiasmado com este encontro, comentou para o companheiro: “Confia no Senhor, meu Irmão. Está-se a realizar em nós aquele aviso do Evangelho: Envio-vos como ovelhas para o meio de lobos…”. 

“São Francisco diante do Sultão do Egito, Malik-al-Kamil”, de Zacarías González Velázquez.

Um bocado mais adiante foram interceptados pelos guardas avançados dos sarracenos. Como lobos em busca de ovelhas lançaram-se brutalmente a eles, agarraram-nos com ódio e crueldade, cumularam-nos de injúrias, espancaram-nos e agrilhoaram-nos. Por fim, depois de maltratados e vexados de mil maneiras, levaram-nos — segundo os desejos do Santo e as disposições da Providência — à presença do Sultão. Quis ele saber quem é que os tinha mandado, com que fim; em que condições, e como é que tinham chegado ali. Com todo o sangue-frio, o servo de Cristo esclareceu que tinha sido enviado de além dos mares, não por qualquer homem mas pelo Deus Altíssimo; que vinha indicar-lhe, a ele e ao seu povo, o caminho da salvação e anunciar-lhe o Evangelho da verdade. Depois pregou ao Sultão os mistérios da Trindade e da Redenção. E fê-lo com tal fervor e entusiasmo, que bem parecia realizar-se nele aquilo do Evangelho: Hei-de pôr-vos na boca uma tal sabedoria, que nenhum dos vossos adversários conseguirá resistir-lhe nem pôr-lhe objeções

Espantado com semelhante entusiasmo e coragem, o Sultão parecia gostar de o ouvir, sugerindo-lhe mesmo que ficasse por ali mais algum tempo com ele. Porém o servo de Cristo, instruído por uma indicação do céu, avançou: “Se de fato queres converter-te a Cristo, tu e o teu povo, eu com todo o prazer, e por amor dele, ficarei convosco. Mas vejo que te sentes indeciso em trocar a lei de Maomé pela de Cristo… Pois bem: manda acender uma grande fogueira, e eu desafio os teus sacerdotes a avançarem comigo para o meio do fogo. Dessa forma se poderão dissipar as dúvidas, acerca de qual das crenças é a mais santa e a mais certa”. “Duvido muito — replicou o Sultão — que algum dos meus sacerdotes se quisesse expor ao fogo ou suportar qualquer tormento em defesa da sua fé…”. De fato não lhe tinha passado despercebido que um dos seus sacerdotes, aliás sincero e venerável, ao ouvir o desafio de Francisco, se esgueirara sem que ele mais o visse. 

O Santo mais se encheu de coragem: “Se quiseres prometer-me, em teu nome pessoal e no do teu povo, que abraçareis a religião de Cristo no caso de eu sair ileso do fogo, eu irei para lá mesmo sozinho. Nota porém uma coisa: se eu me vier a queimar, isso será devido única e exclusivamente aos meus pecados! Pelo contrário, se o poder de Deus me proteger, é para que reconheçais por verdadeiro Deus, Senhor e Salvador de todos os homens, a Jesus Cristo, poder e sabedoria de Deus”. Não se atreveu o Sultão a aceitar o repto, por medo duma possível sublevação do povo. Preferiu oferecer-lhe numerosos e ricos presentes, que o homem de Deus rejeitou com desprezo: ele era ganancioso, é certo, mas não das riquezas do mundo, senão somente da salvação das almas. Esta atitude granjeou-lhe ainda maior estima por parte do Sultão, assombrado de ver um homem tão desprendido dos bens mundanos. Apesar de tudo, não quis, ou talvez melhor, não teve coragem de abraçar a fé cristã. Ainda assim, pediu ao servo de Cristo que aceitasse os presentes e os desse a cristãos necessitados ou igrejas pobres: esse gesto, pensava ele, era um passo no caminho da salvação. Mas o Santo, que por um lado tinha horror ao dinheiro, e por outro lado não descobria na alma do Sultão profundas raízes de verdadeira fé, recusou-se terminantemente a aceitar qualquer presente. 

Verificou também com tristeza que nada conseguia quanto à conversão dessa gente, nem tão-pouco pressentia poder realizar o seu desejo de martírio… Uma revelação divina, de resto, veio dissipar-lhe as dúvidas. E voltou novamente para terras de cristãos. O que Deus em sua bondade decretara e o Santo por sua generosidade merecera, era ter Francisco conseguido o martírio de desejo. Pelo grande amor que dedicava a Cristo, tinha-se exposto a morrer por Ele sem o conseguir: mas haveria de ser marcado mais tarde com um selo e um símbolo desse martírio. O fogo divino que lhe ardia cada vez mais em labaredas no coração havia de alastrar até à carne. Ditoso de verdade, aquele cuja carne, sem ser ferida pelo ferro de um tirano, não deixou de apresentar tão perfeita semelhança com o Cordeiro Imolado! Plenamente ditoso de verdade, aquele a quem “a espada do perseguidor não tirou a vida, sem, no entanto, perder a palma do martírio!”.

Notas

  • É de tal modo célebre esse episódio da vida de S. Francisco de Assis, que consta não só de sua Legenda maior, escrita por S. Boaventura, mas também de sua Legenda menor (c. 3, 9), de seus Fioretti (c. 24) e de sua Primeira vida (l. 1, c. 20, 57), escrita por Tomás de Celano.
  • Esse texto foi transcrito e levemente adaptado de: S. Boaventura. Legenda maior (c. 9, 1.4-9), trad. Frei José Maria da Fonseca Guimarães, OFM. Editorial Franciscana, pp. 80-88. As referências do original foram omitidas desta publicação, os grifos em negrito são nossos e os em itálico fazem alusão a trechos das Sagradas Escrituras.

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Por que a Igreja Católica usa incenso na sua liturgia?
Liturgia

Por que a Igreja Católica
usa incenso na sua liturgia?

Por que a Igreja Católica usa incenso na sua liturgia?

O incenso é um lembrete da presença odorífera de Nosso Senhor, e seu uso acrescenta à liturgia uma aura de solenidade. A imagem e o odor da fumaça reforçam a transcendência da Missa, que liga o Céu à terra e permite que entremos na presença de Deus.

Matthew D. HerreraTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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A palavra “incenso” vem do termo latino incendere, que significa “queimar”. Ela costuma ser utilizada como substantivo para designar tanto um substância aromática que, se queimada, libera uma fumaça perfumada quanto a fumaça em si. Também é usada como verbo para descrever o processo de incensação, ou seja, de espalhar a fumaça.

Na Antiguidade, o incenso era uma mercadoria muito valiosa. Presentear alguém com incenso era algo significativo. A comercialização de especiarias constituía a base econômica da famosa rota comercial do incenso no Oriente Médio, com 2414 km de extensão, que prosperou entre os sécs. III a.C.–II d.C. Percorriam essa rota caravanas de camelos que saíam do Iêmen, cruzavam a Arábia Saudita e a Jordânia e paravam no que hoje é o porto de Gaza israelense. Nesse porto eram despachados para a Europa incenso, especiarias e outros bens valiosos. A rota deu aos cidadãos do Império Romano a possibilidade de desfrutarem do perfume de incensos como olíbano e mirra, dos sabores de diferentes especiarias orientais exóticas e de sais fundamentais para o cozimento e a preservação de comida.  

O turíbulo, ou incensório.

O uso de incenso no culto religioso antecede o cristianismo em milhares de anos. Primeiro, no Oriente (por volta do ano 2000 a.C,. na China, com a queima de cássia, sândalo etc.) e depois, no Ocidente, o uso do incenso tem sido há tempos um elemento integral de muitas celebrações religiosas. Ele aparece no Talmud, e a Bíblia o menciona 170 vezes. O uso do incenso no culto judaico, no Templo, continuou por muito tempo, mesmo depois do surgimento do cristianismo, e certamente influenciou a Igreja Católica no uso do incenso nas celebrações litúrgicas.

A documentação mais antiga sobre o uso de incenso durante a liturgia sacrificial católica vem da Igreja oriental. Os rituais da Liturgia Divina de São Tiago e São Marcos, datados do séc. V, incluem o uso de incenso. Na Igreja ocidental, o Ordo Romanus VIII de S. Amândio, datado do séc. VII, menciona o uso de incenso durante a procissão do bispo em direção ao altar na Sexta-feira da Paixão. A história documentada do incensamento do Evangeliário (Livro dos Evangelhos) durante a Missa data do séc. XI. O uso de incenso na liturgia continuou a ser desenvolvido ao longo de muitos anos até chegar no que conhecemos hoje.  

Por que usamos o incenso?

No Antigo Testamento, Deus mandou seu povo queimar incenso (cf. Ex 30, 7; 40, 27, entre outras passagens). O incenso é um sacramental usado para a veneração, a bênção e a santificação. Sua fumaça expressa um senso de mistério e reverência. É um lembrete da presença odorífera de Nosso Senhor. Seu uso acrescenta à Missa uma aura de solenidade. A imagem e o odor da fumaça reforçam a transcendência da Missa, que liga o Céu à terra e permite que entremos na presença de Deus. A fumaça simboliza o zelo ardente da fé que deveria consumir todos os cristãos, ao passo que a fragrância simboliza a virtude cristã. 

O incensamento também pode ser entendido no contexto de um “holocausto” oferecido a Deus. No Antigo Testamento, as oferendas de animais eram parcial ou completamente consumidas pelo fogo. Em última análise, queimar uma coisa significava entregá-la a Deus.

Em sua monografia Os Sinais Sagrados, Monsenhor Romano Guardini (1885-1968), uma grande influência nos escritos do Papa Bento XVI, usou estas belas palavras para falar do uso do incenso: 

A queima de incenso é um rito generoso e belo. Os grãos luminosos de incenso são depositados sobre o carvão incandescente, o incensário é balançado e a fumaça perfumada sobe em nuvens. Há qualidade musical no ritmo e na doçura; e como no caso da música, há também a completa ausência de utilidade prática: trata-se de um desperdício pródigo de matéria preciosa. É uma torrente que brota do amor dado livremente.  

O incenso e a fumaça do incenso em chamas têm sido oferecidos como dons a Deus e a outros desde a Antiguidade. Num sentido visual e mais prático, a fumaça perfumada que sobe também simboliza nossas orações subindo ao Céu

A Instrução Geral do Missal Romano (IGMR) diz o seguinte sobre o uso do incenso:

§75. O pão e o vinho são depostos sobre o altar pelo sacerdote, acompanhados das fórmulas prescritas. O sacerdote pode incensar os dons colocados sobre o altar, depois a cruz e o próprio altar. Deste modo se pretende significar que a oblação e oração da Igreja se elevam, como fumo de incenso, à presença de Deus. Depois o sacerdote, por causa do sagrado ministério, e o povo, em razão da dignidade batismal, podem ser incensados pelo diácono ou por outro ministro.

Mons. Guardini fez também essa bela reflexão sobre o uso de incenso na Missa:

O uso de incenso é semelhante à unção de Jesus por Maria em Betânia. É tão livre e sem finalidade quanto a beleza. É queimado e consumido como o amor que dura depois da morte. E a alma árida ainda se manifesta e faz a mesma pergunta: Que há de bom nisso? É o oferecimento de um doce sabor, que, segundo as Escrituras, equivale às orações dos santos. O incenso é o símbolo da oração. Como a oração em estado puro, não tem em vista nenhum objeto próprio; não pede nada para si. Ergue-se como o Glória no fim de um salmo de adoração e ação de graças a Deus por sua imensa glória (Os Sinais Sagrados).

A fumaça do incenso purifica de modo simbólico tudo o que toca. Isso é muito bem ilustrado pela prática, rica em símbolos, do rito caldeu da Igreja Católica. Aqueles que se preparam para receber a Sagrada Comunhão durante o santo Qurbono (o santo sacrifício no rito caldeu) primeiro purificam suas mãos, posicionando-as sobre a fumaça que sai do vaso com incenso incandescente. De modo semelhante, no rito maronita da Igreja Católica os vasos sagrados — cálice, patena e a pala — são invertidos e posicionados sobre o incenso incandescente durante sua purificação, a fim de que possam capturar a fumaça perfumada.   

Como o incenso é usado na Missa? 

A IGMR fornece as seguintes instruções para o uso de incenso durante a celebração da Missa:

§277. O sacerdote, ao pôr o incenso no turíbulo, benze-o com um sinal da cruz, sem dizer nada.

Antes e depois da incensação, faz-se uma inclinação profunda para a pessoa ou coisa incensada, exceto ao altar e às oblatas para o sacrifício da Missa.

Incensam-se com três ductos do turíbulo: o Santíssimo Sacramento, as relíquias da santa Cruz e as imagens do Senhor expostas à veneração pública, as oblatas para o sacrifício da Missa, a cruz do altar, o Evangeliário, o círio pascal, o sacerdote e o povo.

Com dois ductos incensam-se as relíquias e imagens dos Santos expostas à veneração pública, e só no início da celebração, quando se incensa o altar.

A incensação do altar faz-se com simples ictus do seguinte modo: a) se o altar está separado da parede, o sacerdote incensa-o em toda a volta; b) se o altar não está separado da parede, o sacerdote incensa-o primeiro do lado direito e depois do lado esquerdo.

Se a cruz está sobre o altar ou junto dele, é incensada antes da incensação do altar; aliás, é incensada quando o sacerdote passa diante dela.

O sacerdote incensa as oblatas com três ductos do turíbulo, antes de incensar a cruz e o altar, ou fazendo, com o turíbulo, o sinal da cruz sobre as oblatas.

Onde o incenso é usado na Missa?

De modo semelhante, o parágrafo 276 da IGMR permite o uso do incenso nos seguintes momentos durante a celebração da Missa:

O queimar incenso ou a incensação exprime reverência e oração, como vem significado na Sagrada Escritura (cf. Sl 140, 2; Ap 8, 3).

Pode usar-se o incenso em qualquer forma de celebração da Missa: a) durante a procissão de entrada; b) no princípio da Missa, para incensar a cruz e o altar; c) na procissão e proclamação do Evangelho; d) depois de colocados o pão e o cálice sobre o altar, para incensar as oblatas, a cruz, o altar, o sacerdote e o povo; e) à ostensão da hóstia e do cálice, depois da consagração.

O incenso também é usado na Quinta-feira Santa, durante a procissão com o Santíssimo Sacramento até o altar da reposição.

Na Vigília Pascal, cinco unidades de incenso encapsulado (muitas vezes feito para que se pareça com um prego vermelho) são afixadas no círio pascal. Essas cinco unidades representam as cinco chagas de Cristo — uma em cada mão, uma em cada pé e o lado perfurado pela lança.

Em Missas de defuntos, os restos mortais do falecido e o caixão podem ser incensados, bem como o local do sepultamento.

Uso do incenso fora da Missa

O incenso é usado pela Igreja em muitas situações fora da Missa. Por volta do final do séc. IV, a peregrina Etéria (Silvia) testemunhou o uso do incenso na vigília do Ofício de Domingo em Jerusalém. Hoje, muitos indivíduos, clérigos e leigos, incluem a queima de incenso como parte da récita da Liturgia das Horas ou durante orações privadas por eles formuladas. Os livros rituais dos sécs. VII–XIV documentam o uso de incenso na leitura do Evangelho, no Ofertório e na bênção do Santíssimo Sacramento.

O incenso é usado em várias procissões solenes, funerais, dedicação de novas igrejas, cemitérios e elementos como novos altares, sinos, vasos sagrados e novas cópias dos Evangelhos. O incenso também é usado no rito de consagração do crisma e na bênção dos óleos sagrados, durante o canto do Evangelho, nas orações solenes da manhã e da noite do Ofício Divino.

Grãos de incenso são colocados no sepulcro de novos altares consagrados junto com relíquias de santos, para representar o funeral dos antigos mártires e simbolizar as orações do santo a quem pertencem as relíquias.

Ele é queimado sobre novos altares durante seu processo de consagração antes do primeiro uso.

Finalmente, o olíbano e a mirra muitas vezes são abençoados na Missa da Epifania para comemorar a visita dos Reis Magos ao Menino Jesus. O incenso é distribuído aos participantes, que poderão usá-lo em seus próprios altares familiares e também na Páscoa, em preparação de suas velas pascais caseiras.

A fé católica é litúrgica. Utiliza todos os cinco sentidos: visão, audição, olfato, paladar e tato. Sem dúvida, trata-se de algo intencional, pois cada sentido é um instrumento que permite nos beneficiarmos da graça salvífica que flui do santo sacrifício da Missa. É justamente por isso que deveríamos nos esforçar ao máximo para empregar, sempre que possível, todos os nossos sentidos durante a celebração da sagrada liturgia. Em resumo, “os odores e os sinos” certamente importam.

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