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Como São José pode ajudar a salvar o nosso século?
Santos & Mártires

Como São José pode ajudar
a salvar o nosso século?

Como São José pode ajudar a salvar o nosso século?

Oxalá abríssemos os nossos olhos e compreendêssemos, como São José entendeu, que sempre o mais urgente a fazer é orar!

Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Março de 2017Tempo de leitura: 6 minutos
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Há algum tempo traduzimos uma matéria mostrando como São Bento de Núrsia podia ajudar a salvar o nosso século. Desta vez, aproveitando a proximidade da festa de São José, o maior de todos os santos depois da Virgem Maria [1], é hora de mostrar o que ele, pai nutrício de Jesus, tem a ensinar especialmente a tempos difíceis como os nossos.

Antes de qualquer coisa, é preciso admitir a gravidade das circunstâncias por que estamos passando, se fizermos uma análise objetiva das coisas sub specie aeternitatis, ou seja, com olhar sobrenatural. Os homens não querem saber de Deus, vivem tranquilamente na lama do pecado mortal e vão se afundando cada vez mais em vícios terríveis. Tudo com o silêncio trágico dos pastores, cuja conivência obriga até as pedras a gritarem, e com a chancela das autoridades civis, que dia após dia sancionam leis e mais leis contrárias ao direito natural.

E antes que alguém nos acuse de sermos "profetas da desgraça" ou aves de mau agouro, examinemos um pouco como começa um dos mais importantes documentos da Igreja sobre a figura de São José, a encíclica Quamquam Pluries, do Papa Leão XIII, escrita ainda em 1889 (ou seja, mais de 125 anos atrás):

"Ora, veneráveis irmãos, vós conheceis as adversidades do nosso tempo, que é bem mais prejudicial para a religião cristã do que aqueles que passaram. Vemos como num grandíssimo número de fiéis desaba a fé, fundamento de todas as virtudes cristãs; resfria-se a caridade; a juventude cresce na depravação dos costumes e das idéias; a Igreja de Cristo é assaltada por todo lado com a violência e a fraude; faz-se uma guerra feroz ao pontificado; com ousadia crescente correm-se os próprios fundamentos da religião. Não é preciso demonstrar, por ser demasiado conhecido, até que ponto se chegou a esta descida, nos ultimíssimos tempos, e o que se quer fazer de pior ainda."

"Numa situação tão triste e difícil só podemos pedir o remédio ao poder divino, pois os remédios humanos são inadequados aos males." [2]
Sua Santidade, o Papa Leão XIII.

Repitamos a data destas linhas, para que fique bem claro: Papa Leão XIII as escreveu em 15 de agosto de 1889. A sua denúncia é muitíssimo séria, une-se a um coro inumerável de manifestações magisteriais do mesmo gênero [3] e não pode passar em branco, principalmente agora, mais de um século depois, quando esse quadro pintado por Sua Santidade só parece ter piorado ainda mais.

Mas por que dar atenção a palavras como essas, aparentemente tão sombrias e "pessimistas"?

Bem, por uma razão bem simples: só enxergando com clareza a nossa situação péssima de miséria (que não é "exagero retórico", mas simplesmente a realidade) podemos entender a "boa notícia" — ou melhor, a excelente notícia — que é o Evangelho. A profecia de Isaías, que se proclama todos os anos no Natal, diz que "o povo que andava nas trevas viu uma grande luz" (Is 9, 2): essa luz que brilha é Cristo, mas ela brilha na escuridão. E isso para quê, senão "para iluminar a quantos jazem entre as trevas e na sombra da morte estão sentados" (Lc 1, 79)? Não é verdade que Jesus veio para nós, os pecadores?

É justamente isso o que indica o Papa Leão XIII quando diz que "numa situação tão triste e difícil só podemos pedir o remédio ao poder divino". Entender a verdade de nossa condição é importante, portanto, para que desesperemos de uma vez de encontrar soluções humanas para os nossos problemas. É só Deus quem pode nos salvar: foi por isso mesmo que Ele "se fez carne e habitou entre nós" (Jo 1, 14), e é também por isso que, ao longo da história, Ele vem em nosso auxílio enviando-nos a sua graça, para continuarmos a Encarnação do Verbo em cada geração humana.

Mas onde entra a missão de São José nessa história toda?

Em primeiro lugar, no fato de que devemos contar, para isso, com a sua poderosa intercessão. O Papa Leão XIII menciona em sua encíclica, por exemplo, o importante título que São José possui de padroeiro da Igreja, assim como foi guardião da família de Nazaré [4]. É da pena de Santa Teresa d'Ávila, no entanto, que vem um dos mais preciosos motivos para recorrermos sempre às orações do pai adotivo de Jesus:

"Não me lembro de até hoje lhe ter pedido alguma coisa que não ma tenha concedido, nem posso pensar sem admiração nas graças que Deus me tem concedido por sua intercessão e nos perigos de que me tem livrado, tanto para a alma como para o corpo. Parece-me que Deus concede aos outros santos a graça de nos auxiliar nesta ou naquela necessidade, mas sei por experiência que São José nos socorre em todas, como se Nosso Senhor quisesse fazer-nos compreender que, assim como Ele lhe era submisso na terra, porque estava no lugar de pai e como tal era chamado, também no céu não pode recusar-lhe nada." [5]

Em segundo lugar, a importância de São José está no fato de que devemos imitar as suas virtudes. Dentre as inúmeras de que poderíamos falar nesta matéria — desde a sua pureza, tão necessária para os nossos tempos, até a sua diligência no trabalho —, queremos destacar uma só, por agora: a virtude da religião.

São José era justo, como nos diz o Evangelho (cf. Mt 1, 19), não só no trato com os homens, mas principal e primeiramente no relacionamento com Deus, prestando-lhe o culto devido. Em meio à conturbação de seus contemporâneos, ante a expectativa de se cumprirem as profecias e finalmente vir a Israel o Messias esperado, a sua justiça brilhava com ainda mais força, como nos relata Michel Gasnier:

"Em José, sobretudo, essa expectativa era ardente e fazia o seu coração palpitar com imensa esperança. Enquanto muitos se agitavam e se entregavam a uma efervescência político-religiosa na expectativa dessa misteriosa revelação, ele considerava que o mais urgente era orar. Com a alma repleta de fervor, implorava ao Senhor e fazia subir aos céus a sua oração, pedindo a Deus que fizesse enfim soar a hora e enviasse Aquele que havia de trazer ao mundo a luz e a salvação." [6]

Também em nossa época, é grande a "efervescência político-religiosa" que inquieta os corações dos homens — e não só dos que estão no mundo, mas de muitos que fazem parte da Igreja. É grande a preocupação com qual será o destino de nossos políticos corruptos, com qual será o próximo chefe de Estado brasileiro, com o que o atual disse ou deixou de dizer, com quais são as últimas notícias do meio eclesiástico etc. Mas e quantas são as orações? Rezamos na mesma medida em que nos preocupamos? Somos Maria com a mesma intensidade com que somos Marta? Estamos dispostos a colocar-nos aos pés do Senhor com a mesma assiduidade com que visitamos os canais de notícias, as páginas de Facebook e as conversas intermináveis de WhatsApp?

Esse é um exame de consciência necessário a todos nós. Oxalá abríssemos os nossos olhos e compreendêssemos, como São José entendeu, que sempre o mais urgente a fazer é orar! Se as primeiras horas do nosso dia (ou as outras, que sejam) forem gastas na presença de Deus, então todo o nosso dia terá valido a pena.

Se aprendermos isso com o pai de Jesus, já teremos adquirido grande coisa. E com certeza estaremos contribuindo do melhor modo para remediar os males do nosso tempo — os quais só se consertarão, como dizia Leão XIII, se pedirmos a salvação ao poder divino. E é nisso que consiste a oração cristã.

Referências

  1. Cf. Michel Gasnier. José, o silencioso. São Paulo: Quadrante, 1995, p. 149.
  2. Papa Leão XIII, Carta Encíclica Quamquam Pluries, 15 de agosto de 1889, n. 3-4. In: Documentos de Leão XIII, São Paulo, Paulus, 2005, pp. 373-374.
  3. Basta consultar os textos papais que perpassam praticamente todo o século XX. Nem os mais otimistas, como São João XXIII e o Beato Paulo VI, deixaram de manifestar a sua preocupação com o estado lastimável a que chegou a humanidade em nossos dias (cf., v.g., Papa João XXIII, Humanae Salutis, n. 3; Papa Paulo VI, Homilia de 29 de junho de 1972).
  4. Cf. Quamquam Pluries, n. 14.
  5. Livro da Vida, VI, 6.
  6. Michel Gasnier. José, o silencioso. São Paulo: Quadrante, 1995, p. 34.

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Medo certo, medo errado
Espiritualidade

Medo certo, medo errado

Medo certo, medo errado

O pânico quase mundial sobre o coronavírus, reconhecidamente sério, parece estar fora de proporção com a ameaça real que ele representa. Parece que perdemos a coragem. Muitos querem esperar por um mundo que não existe: um no qual todas as ameaças se foram.

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Julho de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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As leituras da Terça-feira da 13.ª Semana do Tempo Comum, ano par, falam sobre os tipos certo e errado de medo. O errado é ilustrado no texto do Evangelho:

Subiu ele a uma barca com seus discípulos. De repente, desencadeou-se sobre o mar uma tempestade tão grande, que as ondas cobriam a barca. Ele, no entanto, dormia. Os discípulos achegaram-se a ele e o acordaram, dizendo: “Senhor, salva-nos, nós perecemos!” E Jesus perguntou: “Por que este medo, gente de pouca fé?” Então, levantando-se, deu ordens aos ventos e ao mar, e fez-se uma grande calmaria. Admirados, diziam: “Quem é este homem a quem até os ventos e o mar obedecem?” (Mt 8, 23-27).

O mundo em que vivemos está cheio de perigos. Alguns vêm da natureza: inundações, fomes, terremotos, pragas e assim por diante. Também existem perigos em termos de finanças, reputação e segurança física. Muitas vezes temos medo dessas coisas, mas Jesus disse: “Por que este medo, gente de pouca fé?

Sim, o mundo é perigoso, mas em algum momento, de qualquer maneira, temos de vestir nossas “calças de gente grande”, sair por aí e viver nossas vidas. A pior coisa que este mundo pode fazer é matá-lo. Se você morrer fiel, será elevado deste mundo louco para um lugar de alegrias indizíveis e glórias incontáveis.

Ainda assim, nós nos acomodamos e preocupamos com tantas coisas. A COVID-19 não apenas testou nossos corpos; também pôs em teste nossas almas. O número de mortos tem sido alto, mas não tão alto quanto o de outras pragas ou mesmo em causas comuns de morte, como doenças cardíacas e câncer. E, por certo, não foi tão alto quanto o número de abortos. Dos que pegam o vírus, menos de 1% morrerá, e um pouco mais ficará gravemente doente; a maioria, no entanto, ficará apenas moderadamente doente e não precisará de hospitalização. O pânico quase mundial sobre esse vírus, reconhecidamente sério, parece estar fora de proporção com a ameaça real que ele representa. Parece que perdemos a coragem; muitos querem esperar por um mundo que não existe: um mundo no qual todas as ameaças se foram. Mesmo que um tratamento satisfatório para a COVID-19 venha a ser desenvolvido, ainda existem muitos outros vírus e bactérias ao nosso redor. “Não temas, pequeno rebanho; foi do agrado do Pai nos dar um sistema imunológico que funciona muito bem na maioria das vezes, mas não o tempo todo”. Um mundo livre de ameaças não existe.

Voltemos à pergunta do Senhor: “Por que este medo?” Na pior (e menos provável) das hipóteses, você morre; mas, para um cristão, a morte tem um sentido e “morrer é lucro” (Fl 1, 21). Será que nos preocupamos tanto por nossas almas quanto por nossos corpos?

Agora, vejamos o tipo “certo” de medo, discutido na primeira leitura de terça-feira. Amós adverte as pessoas quanto à chegada do dia do julgamento, que devem temer e se preparar com reverência. Infelizmente, havia muitos pecadores impenitentes em sua época que não se preocupavam com o estado de suas almas. Eles não seriam capazes de suportar o julgamento vindouro e o encontro com Deus:

Ouvi, israelitas, o oráculo que o Senhor pronunciou contra vós, […] vos castigarei por todas as vossas iniquidades. […] Rugirá por acaso o leão na floresta, sem que tenha achado alguma presa? […] Tocará o alarme na cidade sem que o povo se assuste? […] O leão ruge, quem não temerá! O Senhor Javé fala: quem não profetizará! […] Causei no meio de vós uma confusão semelhante ao cataclismo divino de Sodoma e de Gomorra; ficastes como um tição que se tira do fogo, mas não vos voltastes para mim — oráculo do Senhor. Por isso, Israel, eis o que te infligirei; e porque te farei isso, prepara-te, Israel, para sair ao encontro de teu Deus (Am 3, 1–8; 4, 11–12).

Israel estava perdido em sua riqueza e injustiça, apegando-se teimosamente ao pecado. Profeta após profeta alertaram para a ruína, mas foram ignorados, perseguidos e até mortos. Em 721 a.C., o tempo finalmente acabou e a balança da justiça pendeu para o desastre. O reino de Israel caiu sob os assírios, e dez das doze tribos de Israel foram praticamente perdidas nas brumas das história.

Eis uma coisa apropriada a se temer: o pecado e o que ele faz conosco, individual e coletivamente. Por enquanto, Deus nos envia profetas, graças, sacramentos, a sua Palavra e outros avisos, quando a sua voz ecoa em nossas consciências. Chegará o dia em que a pergunta será feita: “Você quer meu reino e seus valores, ou não?” Sim, este é um medo adequado: a proximidade do dia de nosso julgamento. Prepare-se para encontrar seu Deus, ó pecador.

Muitos não prestam atenção nisso. Correm para os negócios e vivem despreocupados sobre onde passarão a eternidade. Temem perder a saúde, a ruína financeira e o envelhecimento, coisas sobre as quais o Senhor diz: “Não temas”. Preocupam-se com seus corpos, mas não com suas almas. E deixam de temer a única coisa que deveriam: a proximidade do dia do juízo.

Depois, no Evangelho segundo S. Mateus, Jesus disse: “Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena” (Mt 10, 28). “Aquele”, é claro, é o próprio Jesus, pois o Pai não julga ninguém, mas entregou todo o julgamento ao Filho para que o mundo o reverencie (cf. Jo 5, 22). Reverenciar Jesus significa tributar-lhe honra e santo temor.

À medida que amadurecemos na fé, esse temor por Jesus deve passar a ser um medo amoroso, pelo qual O temos em grande estima, em vez de nos encolhermos com pavor da punição. Mas se o temor servil é tudo o que você tem, vá em frente, pois este é muito melhor do que a presunção tola que muitas pessoas têm hoje.

Essas leituras da liturgia fornecem ótimas instruções sobre os tipos certo e errado de medo. O que você mais teme? A quem você mais teme? Seja honesto consigo mesmo ao responder a essas perguntas. Peça ao Senhor que o ajude a colocar o seu medo no lugar certo e no Único certo, a saber, Aquele a quem até os ventos e o mar obedecem!

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Contra o racismo, mas contra o marxismo também
Sociedade

Contra o racismo,
mas contra o marxismo também

Contra o racismo, mas contra o marxismo também

O marxismo é muito pior do que qualquer racismo, escravidão ou injustiça, pois procura servir-se dos menos favorecidos, incitando-lhes as paixões a fim de que massacrem os seus opressores, enquanto os marxistas obtêm mais e mais poder político.

Timothy FlandersTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Julho de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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A primeira heresia que ameaçou a Igreja tinha a ver com raça. Ela ficou conhecida como “judaizante”. Tratava-se do cristão batizado que havia nascido judeu e observava todos os mandamentos da Lei de Moisés (além da de outros rabinos), mas procurava impô-la aos gentios convertidos à fé e não circuncidados.

O impulso era natural. A Sagrada Escritura menciona que, no dia de Pentecostes, junto do grupo de judeus de diversos lugares do mundo romano, estavam também alguns prosélitos (At 2, 11): eram circuncidados e seguidores da Lei de Moisés. Os judaizantes, portanto, davam continuidade a uma prática já existente antes da vinda de Cristo. Contudo, os que nasciam judeus — isto é, os que pertenciam à raça judaica — defendiam que todos os homens deveriam conformar-se às suas leis, inclusive as modificações corporais prescritas por Deus no Antigo Testamento (v.gr., a circuncisão).

Mas Nosso Senhor já havia predito por meio de uma imagem que, no Novo Testamento, haveria uma grande mudança, que alteraria a relação entre Deus e o homem. Num famoso episódio em que o nosso Rei se dirige a uma mulher da odiada raça dos samaritanos — com quem a maioria dos judeus se recusava a conversar —, encontramos o seguinte:

“Senhor” — disse-lhe a mulher —, “vejo que és profeta! Nossos pais adoraram neste monte, mas vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar”. Jesus respondeu: “Mulher, acredi­ta-me, vem a hora em que não adorareis o Pai, nem neste monte nem em Jerusalém. Vós adorais o que não conheceis, nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade, e são esses adoradores que o Pai deseja. Deus é espírito, e os seus adoradores devem adorá-lo em espírito e verdade”. Respondeu a mulher: “Sei que deve vir o Messias (que se chama Cristo); quando, pois, vier, ele nos fará conhecer todas as coisas”. Disse-lhe Jesus: “Sou eu, quem fala contigo” (Jo 4, 19–26).

Jesus finalmente se revela como o Rei prometido; mas, surpreendentemente, afirma que o seu Reino abraçará também a odiada raça dos samaritanos — e, de fato, o mundo inteiro. Por isso, o culto devido a Deus em seu Reino, não estará circunscrito a este ou àquele lugar, mas se há de estender a todos os lugares, pois o seu Reino estará em todos os lugares. Em seu comentário a essa passagem, o famoso exegeta Cornélio a Lápide († 1637) explica a fala de Nosso Senhor da seguinte maneira:

Chegou o tempo da minha lei evangélica, na qual os verdadeiros adoradores, isto é, os cristãos, provenham eles quer dos judeus, quer dos samaritanos, hão de adorar a Deus não neste monte nem apenas em Jerusalém, com sacrifícios de animais, como fazem os judeus e os samaritanos, mas em todos os lugares, em espírito e verdade [1].

De acordo com os Padres da Igreja, “espírito e verdade” diz respeito, em primeiro lugar, ao Espírito Santo e ao Filho, que é a Verdade; em segundo lugar, ao culto ortodoxo em vez do herético; e, em terceiro lugar, ao entendimento “espiritual” em lugar do “entendimento carnal” dos judeus. Esse último contraste entre carne e espírito viria a ser distorcido mais tarde pelos hereges protestantes para fazê-lo servir aos seus propósitos. No contexto, porém, dos SS. Padres, essa dicotomia se refere particularmente à heresia judaizante. Retornarei a esse ponto em breve.

“Pentecostes”, do frei Juan Bautista Maíno.

O Novo Testamento estabelecido pelo Espírito Santo em Pentecostes, após a Ascensão de nosso Rei ao seu trono, não se basearia em uma característica física dos corpos — circuncisão, nascimento ou raça. No dia de Pentecostes, o Espírito Santo deu aos Apóstolos o poder de falarem em línguas, para que três mil homens ouvissem o Evangelho em sua própria língua e se convertessem (cf. At 2, 41). Isso é sinal da universalidade do Reino de Deus, que acabara de ser fundado.

Eles não eram circuncidados, contra o que fariam os judaizantes, mas eram batizados e integrados ao Corpo de Cristo. Como rito, o Batismo não modifica o corpo da pessoa; ele é antes adoração em espírito e verdade. Em espírito, porque purifica a alma por meio do corpo, modificando-lhe o coração, diferentemente dos antigos ritos externos, que apenas purificavam a carne (cf. Hb 9, 13). Em verdade, porque tampouco despreza o corpo — como os hereges protestantes fariam mais tarde —, mas o utiliza para produzir uma verdadeira mudança espiritual: a expulsão do pecado original e a incorporação do batizado ao Corpo místico de Cristo. Nenhum homem precisa modificar o corpo para se tornar cristão. Nem sequer é necessário mudar de língua, fundamento de toda cultura. Seu idioma e seu corpo permanecem intactos. Logo, sua raça e sua cultura são, como tais, aceitas, mas batizadas. Por isso, tudo o que nelas for contrário a Deus deve ser abandonado; mas isso não inclui a raça e a cultura como tais.

Em sua maior carta contra a heresia judaizante, S. Paulo apresentou o princípio fundamental da natureza sacramental e espiritual do Novo Testamento: “Todos vós que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo. Já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3, 27-28). E noutro lugar: “Aí não haverá mais grego nem judeu, nem bárbaro nem cita, nem escravo nem livre, mas somente Cristo, que será tudo em todos” (Gl 3, 11). Aqui, S. Paulo se refere às divisões de raça e etnia, classe e sexo, de sua época. Por meio do Batismo, todos, homens e mulheres, de todas as raças e línguas, recebem a plena dignidade de herdeiros da vida eterna (cf. Gl 3, 29) [2].

Vemos, assim, a primeira verdade importante a respeito da pessoa humana e o Novo Testamento: a dignidade da vocação para a vida eterna e a pregação do Evangelho não se restringem à raça ou ao nascimento. Deste modo, é pecado de racismo afirmar que qualquer pessoa nascida de mulher (cf. 14, 1) não deveria ser batizada ou é de algum modo subumana. Ao contrário, o mandamento é batizar todas as nações (cf. Mt 28, 19).

A conversão da sociedade ao Evangelho. — A história do cristianismo é a história da luta para batizar todas as raças e assim conformar a sociedade ao Reino de Cristo. Isso significa que a verdade sobre a identidade batismal de todas as nações, vista na máxima de São Paulo, deve perpassar toda a sociedade. Os erros que exacerbavam a animosidade entre classes e raças foram abolidos na mensagem evangélica pela força da verdade, que foi transformando pouco a pouco essas tensões violentas em relações de direitos e deveres hierárquicos, impregnados de caridade cristã. A maior conquista da cristandade no âmbito das etnias foi a formação de uma cultura a partir de diversos idiomas e raças que compartilhavam a mesma dignidade no Batismo. Essa cultura ainda não havia alcançado os seus ideais — embora estivesse progredindo em direção a eles — quando um novo ódio racial surgiu como consequência do colonialismo.

A história do colonialismo levou a novas terras a luta de Cristo Rei. A ela se opuseram alguns dos homens mais brutais e iníquos da sociedade cristã — inventores de um novo racismo, meio de justificar o seu cruel comércio de escravos —, contra os inúmeros pregadores do Evangelho que protegeram da injustiça a índios e africanos. Foi necessária uma guerra civil multissecular no seio da cristandade para que enfim caísse a ficha sobre a verdade do Evangelho na sociedade. 

Foi por isso que o Papa Eugênio condenou a nova escravidão colonial em 1435, embora os seus sucessores hesitassem aqui e ali em relação ao assunto. Foi por isso que a Nova Espanha discutiu os direitos dos índios na década de 1550, e S. Pedro Claver batizou milhares de africanos. Foi por isso que os jesuítas defenderam os índios durante séculos, até serem traídos pelo Papa [3]. Foi por isso que, mesmo enquanto o novo racismo seduzia as elites hispânicas de sangue puro na Nova Espanha (fazendo-as crer que eram superiores por causa de sua origem), uma nova raça de mestiços e crioulos surgiu dentro dela. Apesar de tantos abusos e crimes motivados pela questão racial, o Batismo deu origem a uma nova identidade comum. Dessa forma, o casamento interracial se tornou a norma cultural. O primeiro matrimônio cristão conhecido e registrado nos Estados Unidos continentais (então Nova Espanha) foi entre um espanhol de sangue puro, Miguel Rodríguez, e uma africana, Luísa de Abrego — na Flórida católica, em 1565. 

Os erros da Rússia. — A tragédia é que a civilização verdadeiramente cristã não conquistou o domínio cultural no mundo. Ao invés, os vendedores de escravos, agiotas e barões migraram da escravidão racial para a escravidão salarial no séc. XIX. Em reação a essas injustiças, surgiu uma força que destruiria tudo o que tocasse: o marxismo. Como debati em outro lugar, essa força procurou apossar-se de uma verdadeira injustiça para manipular as pessoas, levando-as a cometer atos violentos e carnificinas para conquistar poder político. O marxismo era muito pior do que qualquer racismo, escravidão ou injustiça, porque procurava usar os pobres, os africanos e os índios, incitando-lhes as paixões para massacrarem os seus opressores, enquanto os marxistas obtinham mais e mais poder político.

O marxismo tenta provocar as vítimas do ódio racial, levando-as a odiarem os seus opressores. Existe na história da humanidade alguma força mais nefasta do essa, que usa e abusa das pessoas em benefício das elites? A própria Mãe de Deus desceu do céu para se opor aos “erros da Rússia”

A personagem fundamental do marxismo americano explicou a tática num livro dedicado a Lúcifer e elogiado por inúmeros políticos. Sua 13.ª regra descreve como incitar o ódio do grupo oprimido por meio da identificação de um inimigo a ser culpado: “Escolha o alvo, concentre-se nele, personalize-o e polarize-o” [4]. Dessa forma, o marxista não deseja libertar os oprimidos por meio da justiça. Pelo contrário, ele encoraja as vítimas de injustiça a cometer uma injustiça ainda maior. Isso acontece porque, para o marxista, o fim justifica os meios, de maneira que o marxista “organizador de comunidades” pode surrupiar doações e até convencer a si mesmo de que é um salvador. O marxista usa os pobres para atingir seus próprios fins, enquanto se disfarça de altruísta. É como Satanás disfarçado de anjo de luz (cf. 2Cor 11, 14).

A cura para a manipulação marxista do racismo não está em negar a existência do próprio racismo — ele é tão velho quanto a Bíblia. Está no esforço por proclamar o Evangelho a todas as nações e convertê-las, praticando a misericórdia com os pobres e a virtude da justiça, duas coisas que S. Pedro exortou o maior dos Apóstolos a fazer (cf. Gl 2, 9–10). Isso silenciará o marxista que afirma falsamente que a Igreja é “opressora”. Afirmação ridícula. Os milhares de orfanatos, hospitais e ministérios dedicados a todos os tipos de pessoas oprimidas ao longo da história refutam, silenciosamente, tamanha ignorância. Isso deixará o marxista desarmado, já que o seu poder reside na manipulação das vítimas de injustiça para que recorram à violência. Por fim, isso converterá o marxista, já que ele será confrontado com aquilo que mais odeia: a realidade.

Façamos sem cansar atos de caridade com os pobres e contra o racismo, e proclamemos sem medo que só há um Nome pelo qual somos salvos: o de nosso Rei e Senhor, Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro.

Notas

  1. Cornélio a Lapide, Commentaria in S. Scripturam. Lugduni, 1839, vol. 8, p. 929b, v. 23.
  2. O que não destrói a natureza de cada pessoa, já que a graça a aperfeiçoa. Permanece, porém, uma determinada hierarquia — particularmente entre homem e mulher —, a qual se vê transformada em uma relação de caridade cristã.
  3. O autor do texto se refere aqui, certamente, à supressão da Companhia de Jesus em fins do século XVIII, por ato do Papa Clemente XIV. O juízo histórico do autor reflete, em grande parte, as opiniões dos mais abalizados autores de História da Igreja. Sobre esse difícil e intrincado episódio histórico, cf., em português, Prof. Felipe Aquino, História da Igreja: A Supressão da Companhia de Jesus, e Henri Daniel-Rops, A Igreja dos templos clássicos, v. II, trad. de Henrique Ruas, São Paulo: Quadrante, 2001, pp. 248–258. Cf. ainda, em inglês, John Hungerford Pollen, The Supression of the Jesuits, de cujo texto uma citação atribuída a S. Afonso de Ligório pode ajudar-nos a pensar: “Pobre Papa! Que mais poderia ele ter feito nas circunstâncias em que foi colocado, com todos os soberanos conspirando por exigir essa supressão? Quanto a nós, importa manter silêncio, respeitar os juízos ocultos de Deus e conservar-nos em paz” (Nota da Equipe CNP).
  4. Saul Alinsky, Rules for Radicals. Random House, 1971, p. 130.

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Por que coube a São Tomé evangelizar o Brasil?
Sociedade

Por que
coube a São Tomé
evangelizar o Brasil?

Por que coube a São Tomé evangelizar o Brasil?

“Os outros Apóstolos, que foram menos culpados na incredulidade, vão pregar” aos outros povos; “mas Tomé, que teve a maior culpa, vá pregar aos Gentios do Brasil, e pague a dureza de sua incredulidade com ensinar à gente mais bárbara e mais dura”.

Pe. António Vieira3 de Julho de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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A forma com que Cristo mandou pelo mundo a Seus Discípulos, diz o Evangelista São Marcos que foi esta: Exprobavit incredulitatem eorum, et duritiam cordis, quia iis, qui viderant eum resurrexisse, non crediderunt, et dixit illis: Euntes in mundum universum, praedicate Evangelium omni creaturae (Mc 16, 14s). Repreendeu Cristo aos Discípulos da incredulidade e dureza de coração, com que não tinham dado crédito aos que O viram ressuscitado, e sobre esta repreensão os mandou que fossem pregar por todo o mundo. A São Pedro coube-lhe Roma e Itália; a São João, a Ásia Menor; a São Tiago, Espanha; a São Mateus, Etiópia; a São Simão, Mesopotâmia; a São Judas Tadeu, o Egito; aos outros, outras províncias, e finalmente a Santo Tomé esta parte da América em que estamos, a que vulgar e indignamente chamaram Brasil. Agora pergunto eu: e por que nesta repartição coube o Brasil a Santo Tomé e não a outro Apóstolo? Ouvi a razão.

Notam alguns Autores modernos que notificou Cristo aos Apóstolos a pregação da Fé pelo mundo, depois de os repreender da culpa da incredulidade, para que os trabalhos que haviam de padecer na pregação da Fé fossem também em satisfação e como em penitência da mesma incredulidade e dureza de coração que tiveram em não quererem crer: Exprobavit incredulitatem eorum, et duritiam cordis, et dixit illis: Euntes in mundum universum. E como Santo Tomé, entre todos os Apóstolos, foi o mais culpado da incredulidade, por isso a Santo Tomé lhe coube, na repartição do mundo, a missão do Brasil, porque, onde fora maior a culpa, era justo que fosse mais pesada a penitência. Como se dissera o Senhor: os outros Apóstolos, que foram menos culpados na incredulidade, vão pregar aos Gregos, vão pregar aos Romanos, vão pregar aos Etíopes, aos Árabes, aos Armênios, aos Sármatas, aos Citas; mas Tomé, que teve a maior culpa, vá pregar aos Gentios do Brasil, e pague a dureza de sua incredulidade com ensinar à gente mais bárbara e mais dura.

Bem o mostrou o efeito. Quando os Portugueses descobriram o Brasil, acharam as pegadas de Santo Tomé estampadas em uma pedra, que hoje se vê nas praias da Bahia; mas rasto, nem memória da Fé que pregou Santo Tomé, nenhum acharam nos homens. Não se podia melhor provar e encarecer a barbaria da gente. Nas pedras, acharam-se rastos do Pregador, na gente não se achou rasto da pregação; as pedras conservaram memórias do Apóstolo, os corações não conservaram memória da doutrina.

A causa por que as não conservaram, diremos logo, mas é necessário satisfazer primeiro a uma grande dúvida, que contra o que imos dizendo se oferece. Não há Gentios no mundo que menos repugnem à doutrina da Fé, e mais facilmente a aceitem e recebam, que os Brasis; como dizemos logo, que foi pena da incredulidade de Santo Tomé o vir pregar a esta gente? Assim foi (e quando menos assim pode ser) e não porque os Brasis não creiam com muita facilidade, mas porque essa mesma facilidade com que crêem faz que o seu crer, em certo modo, seja como o não crer. Outros Gentios são incrédulos até crer; os Brasis, ainda depois de crer, são incrédulos. Em outros Gentios a incredulidade é incredulidade, e a Fé é Fé; nos Brasis a mesma Fé ou é, ou parece incredulidade. 

“A Incredulidade de São Tomé”, de Mattia Preti.

São os Brasis como o pai daquele Lunático do Evangelho, que padecia na Fé os mesmos acidentes que o filho no juízo. Disse-lhe Cristo: Omnia possibilia sunt credenti (Mc 9, 22): “Que tudo é possível a quem crê”. E eles respondeu: Credo, Domine, adjuva incredulitatem meam: “Creio, Senhor, ajudai minha incredulidade”. Reparam muito os santos nos termos desta proposição, e verdadeiramente é muito para reparar. Quem diz: creio, crê e tem Fé; quem diz: ajudai minha incredulidade, não crê e não tem Fé. Pois como era isto? Cria este homem, e não cria; tinha Fé, e não tinha Fé juntamente? Sim, diz o Venerável Beda: Uno eodemque tempore is, qui nondum perfecte crediderat, simul et credebat, et incredulus erat: “No mesmo tempo cria e não cria este homem, porque era tão imperfeita a Fé com que cria, que por uma parte parecia e era Fé, e por outra parecia e era incredulidade”: Uno eodemque tempore, et credebat, et incredulus erat. Tal é a Fé dos Brasis: é fé que parece incredulidade, e é incredulidade que parece Fé; é Fé, porque crêem sem dúvida e confessam sem repugnância tudo o que lhes ensinam, e parece incredulidade, porque, com a mesma facilidade com que aprenderam, desaprendem, e com a mesma facilidade, com que creram, descrêem.

Assim lhe aconteceu a Santo Tomé com ele. Por que vos parece que passou Santo Tomé tão brevemente pelo Brasil, sendo uma região tão dilatada e umas terras tão vastas? É que receberam os naturais a Fé que o Santo lhes pregou com tanta facilidade e tão sem resistência nem impedimento, que não foi necessário gastar mais tempo com ele. Mas tanto que o Santo Apóstolo pôs os pés no mar (que este, dizem, foi o caminho por onde passou à Índia) tanto que o Santo Apóstolo (digamo-lo assim) virou as costas, no mesmo ponto se esqueceram os Brasis de tudo quanto lhes tinha ensinado, e começaram a descrer ou a não fazer caso de quanto tinham crido, que é gênero de incredulidade mais irracional, que se nunca creram. Pelo contrário, na Índia pregou Santo Tomé àquelas Gentilidades, como fizera às do Brasil: chegaram também lá os Portugueses dali a mil e quinhentos anos, e que acharam? Não só acharam a sepultura e as relíquias do Santo Apóstolo, e os instrumentos de seu martírio, mas o seu nome vivo na memória dos naturais, e o que é mais, a Fé de Cristo, que lhes pregara, chamando-se cristãos de Santo Tomé todos os que se estendem pela grande Costa de Coromandel, onde o Santo está sepultado.

E qual seria a razão por que nas Gentilidades da Índia se conservou a Fé de Santo Tomé, e nas do Brasil não? Se as do Brasil ficaram desassistidas do Santo Apóstolo pela sua ausência, as da Índia também ficaram desassistidas dele pela sua morte. Pois, se naquelas nações se conservou a Fé por tantos centos de anos, nestas por que se não conservou? Porque esta é a diferença que há de umas nações a outras. Nas da Índia, muitas são capazes de conservarem a Fé sem assistência dos Pregadores; mas nas do Brasil nenhuma há que tenha esta capacidade. Esta é uma das maiores dificuldades que tem aqui a conversão. Há-se de estar sempre ensinando o que já está aprendido, e há-se de estar sempre plantando o que já está nascido, sob pena de se perder o trabalho e mais o fruto

A Estrela que apareceu no Oriente aos Magos guiou-os até o presépio, e não apareceu mais. Por quê? Porque muitos Gentios do Oriente, e doutras partes do mundo, são capazes de que os pregadores, depois de lhes mostrarem a Cristo, se apartem dele e os deixem. Assim o fez São Filipe ao Eunuco da rainha Candace, de Etiópia: explicou-lhe a Escritura de Isaías, deu-lhe notícia da Fé e divindade de Cristo, batizou-o no rio de Gaza, por onde passavam, e tanto que esteve batizado, diz o texto que arrebatou um anjo a São Filipe, e que o não viu mais o Eunuco: Cum autem ascendissent de aqua, Spiritus Domini rapuit Philippum, et amplius non vidit eum eunuchus (At 8, 39). Desapareceu a Estrela, e permaneceu a Fé nos Magos; desapareceu São Filipe, e permaneceu a Fé no Eunuco; mas esta capacidade, que se acha nos Gentios do Oriente, e ainda nos de Etiópia, não se acha nos do Brasil. A Estrela que os alumiar não há de desaparecer, sob pena de se apagar a luz da doutrina; o Apóstolo que os batizar, não se há de ausentar, sob pena de se perder o fruto do Batismo. É necessário, nesta vinha, que esteja sempre a cana da doutrina arrimada ao pé da cepa, e atada à vide, para que se logre o fruto e o trabalho [...].

Estátua do Pe. Vieira em Lisboa, a mesma que foi alvo recente de vândalos “antifascistas”.

Hão-se de haver os Pregadores Evangélicos na formação desta parte do mundo, como Deus se houve ou se há na criação e conservação de todo. Criou Deus todas as criaturas no princípio do mundo em seis dias, e, depois de as criar, que fez e que faz até hoje? Cristo o disse: Pater meus usque modo operatur et ego operor (Jo 5, 17). Desde o princípio do mundo até hoje não levantou Deus mão da obra, nem por um só instante; e com a mesma ação com que criou o mundo, o esteve sempre, e está, e estará conservando até o fim deles. E se Deus o não fizer assim, se desistir, se abrir mão da obra por um só momento, no mesmo momento perecerá o mundo, e se perderá tudo o que em tantos anos se tem obrado. 

Tal é no espiritual a condição desta nova parte do mundo, e tal o empenho dos que têm à sua conta a conversão e reformação dela. Para criar, basta que trabalhem poucos dias; mas para conservar, é necessário que assistam, e continuem, e trabalhem, não só muitos dias e muitos anos, mas sempre. E já pode ser que esse fosse o mistério com que Cristo disse aos Apóstolos: Praedicate omni creaturae (Mc 16, 15). Não disse: “Ide pregar aos que remi”, senão: “Ide pregar aos que criei”, porque o remir foi obra de um dia, o criar é obra de todos os dias. Cristo remiu uma só vez, e não está sempre remindo; Deus criou uma vez, e está sempre criando. 

Assim se há de fazer nestas nações: há-se lhes de aplicar o preço da Redenção, mas não pelo modo com que foram remidas, senão pelo modo com que foram criadas. Assim como Deus está sempre criando o criado, assim os Mestres e Pregadores hão de estar sempre ensinando o ensinado, e convertendo o convertido, e fazendo o feito: o feito para que se não desfaça; o convertido, para que se não perverta; o ensinado, para que se não esqueça; e, finalmente, ajudando a incredulidade não incrédula, para que a Fé seja Fé não infiel: Credo, Domine: adjuva incredulitatem meam (Mc 9, 23).

Referências

  • Cf. Pe. Antônio Vieira, Sermão do Espírito Santo, pregado em São Luís do Maranhão, na Igreja da Companhia de Jesus, § III. In: Obra Completa. Dir. por João E. Franco e Pedro Calafate. São Paulo: Loyola, 2015, vol. 5/I, pp. 249-254. Excerto adaptado aqui e ali para esta publicação.

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São Tomé, Apóstolo do Brasil e das Américas
Santos & Mártires

São Tomé, Apóstolo
do Brasil e das Américas

São Tomé, Apóstolo do Brasil e das Américas

Alguns relatos históricos e numerosos indícios materiais, quase desconhecidos do grande público, atestam a passagem do Apóstolo São Tomé, no início de nossa era, entre os índios brasileiros e de norte a sul do continente.

Carlos Sodré Lanna3 de Julho de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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“Ide e ensinai a todos os povos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28, 19). Esse o preceito de Nosso Senhor Jesus Cristo aos Apóstolos, que assumiram a missão de percorrer o mundo pregando o Evangelho a todos os povos.

Admite-se, como hipótese muito provável, que São Tomé teria pregado aos índios do Ocidente, logo no início da era cristã.

Isto explicaria as cruzes encontradas com diversos grupos indígenas em toda a América, e certas pegadas gravadas nas pedras em vários lugares do Brasil e outros países, além de tradições orais nesse sentido, existentes entre os indígenas.

Presume-se — dizem alguns cronistas — que São Tomé teria vindo primeiramente para o continente americano, passando pela Ásia. Outros discordam, afirmando haver passado antes pelo Oriente.

“A Incredulidade de São Tomé”, de Caravaggio.

O certo é que esse Apóstolo pregou sempre os Evangelhos em terras longínquas, desconhecidas e inóspitas, tendo atingido a Etiópia, a antiga Pérsia (hoje Irã), indo depois para a Índia, o Tibet e chegando à China.

Em todos os lugares por onde pregou a Fé cristã, realizou sempre milagres extraordinários, deixando sinais que perduram até nossos dias.

Percorrendo São Tomé grande parte do mundo conhecido de então, criou-se em torno dele uma legenda universal. Por todas as partes onde esteve, mas principalmente nas Américas, e em particular no Brasil, foi deixando gravadas, em certas pedras do caminho, as impressões de seus pés como testemunhas de seu trânsito por esses lugares, além de cruzes.

As pegadas de São Tomé no Brasil. — Em nosso país, a legenda e vestígios de São Tomé encontram-se espalhados por muitos lugares.

Com base em informações dadas pelos índios à época do Descobrimento, os portugueses recém-chegados constataram a existência das impressões dos pés de São Tomé no litoral e mesmo no interior.

“A Nova Gazeta da Terra do Brasil” publicava, em 1514, tradições orais dos índios brasileiros quanto à existência no país das pegadas de São Tomé, bem como recordações que conservavam dele.

Ao mostrarem tais pegadas aos portugueses, os índios indicavam também cruzes existentes terra adentro. E quando falavam do Apóstolo, chamavam-no de deus pequeno, pois havia outro Deus maior.

É tradição antiga entre os índios que aquele Apóstolo, a quem chamavam Sumé, veio ao Brasil e lhes forneceu a planta da mandioca e da banana, ajudando-os a cultivar a terra. Pregou o bem àqueles indígenas, ensinando-os a adorar e servir a Deus e não ao demônio, a não terem mais de uma mulher e não comerem carne humana.

Outra informação histórica da existência das pegadas no Brasil foi-nos transmitida pelo padre Manoel da Nóbrega — dos primeiros missionários jesuítas vindos de Portugal após o Descobrimento ˆ em suas “Cartas do Brasil”.

Poucos dias após sua chegada aqui, em março de 1549, escrevia: “Também me contou pessoa fidedigna que as raízes de que cá se faz pão, que São Tomé as deu, porque cá não tinham pão”. E, em data posterior, acrescenta: 

Dizem os índios que São Tomé passou por aqui e isto lhes foi dito por seus antepassados e que suas pisadas estão sinaladas junto de um rio, as quais eu fui ver, por mais certeza da verdade, e vi com os próprios olhos quatro pisadas sinaladas com seus dedos. Dizem que quando deixou estas pisadas ia fugindo dos índios que o queriam flechar, e chegando ali se abrira o rio e passara por meio dele a outra parte sem se molhar. Contam que, quando queriam o flechar os índios, as flechas se tornavam para eles e os matos lhe faziam caminho para onde passasse.

Constata-se nesse relato do padre Manoel da Nóbrega a intenção missionária de São Tomé, espalhando por estas plagas brasílicas a palavra de Deus, e deixando visíveis as marcas de sua passagem em vários lugares conhecidos.

Desde o Rio Grande do Sul, passando por São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Paraíba, Ceará e Maranhão, encontramos pegadas atribuídas a São Tomé, que, pela tradição dos índios, vêm de remotas eras, anteriores ao Descobrimento, em 1500.

Além destas, e das cruzes mostradas pelos índios, há várias outras marcas e fatos pitorescos ocorridos em nosso território.

Perto da cidade de Cabo Frio, no estado do Rio de Janeiro, por exemplo, existe um grande penedo que parece ter levado várias bordoadas. Estas estão impressas na pedra como se o bordão tivesse golpeado com força em cera branda. E é tradição dos índios terem sido as bordoadas impressas pelo bordão de São Tomé, numa ocasião em que eles haviam resistido à doutrina pregada pelo Apóstolo.

Na Bahia, em São Tomé do Peripé, há uma fonte perene de água doce, que brota de um penedo junto a certas pegadas. É tradição que por ali desceu São Tomé. A esta fonte o povo deu o nome de São Tomé milagroso, porque a água nasce de pedra viva.

Pegadas e cruzes nas Américas. — Em diversos países americanos podemos encontrar marcas atribuídas a São Tomé, segundo tradições antigas dos silvícolas.

Elas estão espalhadas por todos os países da América do Sul.

Há ainda sinais análogos em Cuba e no Haiti. A eles se referiram os antigos maias na América Central, o mesmo acontecendo no México, Estados Unidos e Canadá.

Como no Brasil, também em outras nações aparecem cruzes: no Peru, os incas possuíam uma de mármore muito famosa, que, segundo a tradição de seus antepassados, lhes fora presenteada por São Tomé. Em Carabuco, porto costeiro do lado norte do lago Titicaca (Bolívia), havia uma cruz que os indígenas da região, de acordo com tradição muito antiga, asseguravam ter sido deixada por São Tomé a seus ancestrais. Venera-se hoje, na cúpula do altar-mor da catedral de Sucre, uma cruz confeccionada com a madeira negra da aludida cruz de São Tomé.

Fernão Cortez, quando chegou ao México, achou um muro de pedra quadrada, e no meio uma cruz de dez palmos de altura, venerada pelos aztecas, implantada pelo Apóstolo.

Também no Canadá os índios da parte oriental do país conheciam a cruz cristã, quando lá chegaram os primeiros desbravadores.

O padre Antonio Ruiz de Montoya, missionário no Paraguai, conta um episódio interessante em seu livro, escrito em 1639, quando de sua chegada a uma aldeia indígena daquele país, ostentando uma cruz.

Foi recebido com demonstração de amor, danças e júbilo. As mulheres foram recebê-lo com as crianças ao colo; os habitantes lhe ofereciam comida, coisa que nunca antes havia ocorrido. Os índios contaram-lhe então uma tradição antiquíssima recebida dos antepassados. Quando São Tomé, que chamavam de Pai Zumé, fez sua passagem por aquelas terras, dissera-lhes estas palavras: “A doutrina que eu agora vos prego, perdê-la-eis com o tempo. Mas, quando depois de muito tempo, vierem uns sacerdotes sucessores meus, que trouxerem cruzes como eu trago, ouvirão os vossos descendentes esta mesma doutrina que vos ensino”.

Foi essa tradição que os levou a dar ao missionário tão boa acolhida. Ali foi fundada uma povoação, início de muitas outras.

De volta dessa longa peregrinação pelo mundo, São Tomé, segundo a tradição, foi martirizado em Meleapor, na Índia, transpassado por uma lança. Dois séculos mais tarde, o imperador romano Alexandre Severo mandou buscar o corpo do Apóstolo, ordenando seu sepultamento em Edessa, hoje Urfa, na Turquia asiática.

A legenda de São Tomé desabrochou para os índios com a chegada dos novos missionários trazidos pelos descobrimentos dos séculos XV–XVI.

Tais missionários acabariam por se constituir nos verdadeiros herdeiros do ancestral mítico, enviado por Deus a nosso continente como primeiro propagador da Fé.

Hoje uma verdadeira campanha, bem orquestrada, procura denegrir a ação desses missionários.

Que São Tomé esmague uma vez mais as argúcias satânicas nestas plagas que ele tanto quis converter para Nosso Senhor Jesus Cristo por meio de Maria, Medianeira de todas as graças.

Referências

  • Pe. Antônio Ruiz de Montoya, Conquista Espiritual feita pelos religiosos da Companhia de Jesus nas Províncias do Paraguai, Paraná, Uruguai e Tape, Martins Livreiro Editora Ltda, 1.ª edição. Porto Alegre, 1985.
  • Maxime Haubert, Índios e Jesuitas no tempo das Missões, Editora Schwarcz Ltda, 1.ª edição. São Paulo, 1990.
  • Francisco Adolfo de Varnhagen, História do Brasil. Edições Melhoramentos, 5.ª edição. São Paulo. 1956.
  • Alberto Silva, A cidade de Salvador: Aspectos seculares, Prefeitura Municipal, Salvador. 1957.
  • Fray Diego de Ocaña. Un viaje fascinante por la America Hispana del siglo XVI, Studium Ediciones, Madri, 1969.

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