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Existem almas pelas quais nem adianta rezar?
Doutrina

Existem almas
pelas quais nem adianta rezar?

Existem almas pelas quais nem adianta rezar?

A fé nos ensina que todos os homens que morrem em estado de pecado mortal incorrem na danação eterna. Mas quem são de fato os que morrem nesse estado? Só Deus o sabe, Ele que reserva a si o julgamento dos vivos e dos mortos.

Pe. François Xavier SchouppeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Novembro de 2019Tempo de leitura: 4 minutos
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Já repassamos os recursos e os numerosos meios que a divina misericórdia colocou em nossas mãos a fim de darmos alívio às almas do Purgatório. Mas que almas se encontram nessas chamas expiatórias e a quais delas devemos prestar nossa assistência? Por que almas devemos rezar e oferecer sufrágios a Deus? 

A tais questões é preciso responder o seguinte: o nosso dever é rezar pelas almas de todos os fiéis falecidos, omnium fidelium defunctorum, de acordo com a expressão da Igreja. Ainda que a piedade filial nos imponha deveres especiais com relação a nossos pais e familiares, a caridade cristã manda-nos rezar pelos fiéis falecidos em geral, porque todos eles são nossos irmãos em Cristo Jesus, todos eles são nosso próximo, que devemos amar como a nós mesmos. Por estas palavras, “fiéis falecidos”, a Igreja se refere a todos que se encontram no Purgatório, ou seja, os que não estão no Inferno, mas também não se tornaram dignos ainda de ser admitidos à glória do Paraíso. 

Mas quem são essas almas? Acaso podemos conhecê-las? Deus reservou esse conhecimento a si mesmo e, a menos que Ele no-lo deseje revelar, é preciso que permaneçamos em ignorância completa a respeito do estado das almas na outra vida. É raro, de fato, que Ele nos dê a conhecer se uma alma está no Purgatório ou na glória do Céu, e mais raro ainda que Ele revele o destino de um réprobo. Por conta dessa incerteza, nós devemos rezar em geral, como faz a Igreja, por todos os falecidos, sem prejuízo das almas a que queremos prestar auxílio de modo particular.

Evidentemente, seria preciso restringir a intenção de nossas orações aos mortos que ainda se encontram em necessidade de nossa assistência, se Deus nos concedesse o privilégio dado a Santo André Avelino, de conhecer a condição das almas na outra vida. Quando com angélico fervor esse santo religioso da Ordem dos Teatinos rezava pelos falecidos, de acordo com seu piedoso costume, algumas vezes acontecia de ele experimentar em seu interior uma espécie de resistência, um sentimento de repulsa invencível, enquanto noutras vezes, pelo contrário, ele achava grande consolação e sentia uma particular inclinação à oração. 

Logo ele compreendeu o significado dessas diferentes impressões: a primeira queria dizer que sua oração seria inútil, porquanto a alma que ele desejava assistir era indigna da misericórdia de Deus e tinha se condenado ao fogo eterno; a segunda indicava que sua oração era eficaz para o alívio da alma no Purgatório. O mesmo se passava quando ele queria oferecer o Santo Sacrifício por alguém que morrera. Ele sentia, ao deixar a sacristia, como se fosse retido por uma mão irresistível, com o que entendia que aquela alma estava no Inferno; mas quando era inundado de alegria, iluminação e devoção, ele podia ficar certo de que contribuiria para a libertação de uma alma.

Esse generoso santo rezava, portanto, com o maior dos fervores pelos mortos que ele sabia estarem sofrendo, e não cessava de oferecer seus sufrágios até que as almas lhe viessem agradecer, dando-lhe a certeza de sua libertação.

O que nos cabe, a nós que não possuímos essas luzes sobrenaturais, é rezar por todos os falecidos, até mesmo pelo maior dos pecadores e pelo mais virtuoso dos cristãos. Santo Agostinho conhecia a grande virtude de sua mãe, Santa Mônica e, no entanto, não satisfeito por oferecer seus próprios sufrágios por ela a Deus, pedia a seus leitores que não deixassem de recomendar a alma dela à divina misericórdia.

No que diz respeito a grandes pecadores, que morrem sem se reconciliarem externamente com Deus, nós não devemos excluí-los de nossos sufrágios, porque não temos segurança de sua impenitência interior. A fé nos ensina que todos os homens que morrem em estado de pecado mortal incorrem na danação eterna; mas quem são de fato os que morrem nesse estado? Só Deus o sabe, Ele que reserva a si o julgamento dos vivos e dos mortos. Quanto a nós, só o que podemos fazer é tirar uma conclusão hipotética a partir de circunstâncias exteriores, mas mesmo disso nós devemos nos abster. 

É preciso admitir, contudo, que há muito o que temer por aqueles que morreram despreparados para a morte; e, para os que se recusam a receber os sacramentos, então, parece que se esvai toda esperança, dado terem deixado essa vida com sinais externos de réprobos. Apesar de tudo, devemos deixar o julgamento a Deus, pois é a Ele que pertence o juízo: Dei iudicium est (Dt 1, 17). 

Mais esperança existe para os que não foram positivamente hostis à religião, que foram benevolentes para com os pobres, que conservaram algumas práticas da piedade cristã ou que pelos menos aprovavam e favoreciam a piedade; há mais esperança para tais pessoas, eu digo, quando acontece de morrerem de repente, sem terem tido tempo de receber os últimos sacramentos da Igreja.

São Francisco de Sales não nos permite desesperar da conversão dos pecadores até o seu último suspiro, e mesmo depois da morte nos proíbe de julgar mal aqueles que levaram uma má vida. Com exceção daqueles pecadores cuja condenação é tornada manifesta pela Sagrada Escritura, nós não devemos concluir, ele diz, que uma pessoa se condenou; ao contrário, é preciso que respeitemos o segredo de Deus

A principal razão disso é que, assim como a primeira graça não se pode merecer, é gratuita, assim também é a graça da perseverança final, ou da boa morte. É por isso que devemos ter esperança por todos os falecidos, por mais lamentável que tenha sido sua morte, porque nossas conjecturas podem basear-se tão-somente no exterior, com base em que até mesmo os mais espertos podem se enganar.

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Como as indulgências ajudam as almas do Purgatório?
Doutrina

Como as indulgências
ajudam as almas do Purgatório?

Como as indulgências ajudam as almas do Purgatório?

As indulgências pro defunctis são como “uma mesa enorme, coberta de pilhas de prata, ouro, rubis, pérolas e diamantes”, à disposição de todos os fiéis, para aplicarem às almas de seus entes queridos que partiram na amizade de Deus.

Pe. François Xavier SchouppeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Novembro de 2019Tempo de leitura: 4 minutos
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Falemos agora das indulgências aplicáveis aos defuntos. Aqui, a divina misericórdia revela-se em sua liberalidade. Sabemos já que a indulgência consiste na remissão, fora do sacramento da Penitência, da pena temporal devida ao pecado, por força do poder das chaves. Em virtude desse poder, recebido diretamente de Jesus Cristo, a Igreja é capaz de livrar os fiéis de todos os obstáculos à sua entrada na glória celeste. A Igreja exerce tal poder no sacramento da Penitência, no qual somos absolvidos dos nossos pecados; mas ela também o exerce fora desse sacramento, ao nos perdoar a dívida temporal que permanece mesmo depois da absolvição sacramental. E é pelas indulgências que a Igreja atua neste segundo caso. 

A remissão da pena temporal por meio das indulgências está ao alcance dos fiéis apenas nesta vida. No entanto, a Igreja pode permitir aos fiéis, enquanto ainda vivem neste mundo, que transfiram a algum de seus entes queridos a remissão que, por este meio, poderiam angariar para si. É isto que faz uma indulgência aplicável às almas do Purgatório

Aplicar uma indulgência aos defuntos é o mesmo que oferecê-la a Deus, em nome da Igreja, para que Ele se digne empregá-la em benefício das almas padecentes. Ora, as satisfações oferecidas à divina justiça em nome de Jesus Cristo são sempre aceitas, e Deus as pode aplicar a uma alma em particular, ou a certas almas que Ele mesmo deseja beneficiar, ou ainda a todas em geral. 

As indulgências, além disso, podem ser ou plenárias ou parciais. É plenária a indulgência pela qual se redime toda a pena temporal devida diante de Deus. Suponhamos, por exemplo, que para satisfazermos tamanha dívida tivéssemos que fazer penitência durante cem anos ou sofrer por muito tempo no Purgatório. Em virtude de uma indulgência plenária adequadamente lucrada, toda essa pena é perdoada, de maneira que a alma já não ostenta, aos olhos de Deus, nem sequer uma sombra de pecado, que é justamente o que a impede de contemplar-lhe o rosto no céu.

A indulgência parcial, por outro lado, consiste na remissão de certo número de dias ou anos. Esses dias e anos, porém, não representam de forma alguma dias e anos de sofrimento no Purgatório. Eles devem ser entendidos, na verdade, como dias e anos de penitência canônica e pública, que consistem sobretudo em jejuns, como os que eram impostos outrora aos pecadores, conforme a antiga disciplina da Igreja. Nesse sentido, uma indulgência de “quarenta dias” ou de “sete anos” nada mais é do que a remissão que mereceríamos diante de Deus após quarenta dias ou sete anos de penitência canônica. Mas que proporção existe, afinal, entre esses dias de penitência e o período que duram as penas do Purgatório? Trata-se de um segredo que a Deus não aprouve revelar-nos

Seja como for, as indulgências são um tesouro espiritual que a Igreja franqueia a todos os fiéis. Todos, com efeito, têm permissão para extrair daí quanto for necessário à plena satisfação de suas dívidas ou das de outros. De fato, foi com essa imagem ou comparação que Deus revelou um dia a Santa Mariana de Jesús de Paredes o que eram as indulgências [1]. Um dia, arrebatada em êxtase, ela viu no centro de um amplo espaço uma mesa enorme, coberta de pilhas de prata, ouro, rubis, pérolas e diamantes. Ao mesmo tempo, ela escutou uma voz que lhe dizia: “Essas riquezas são propriedade pública: que cada um se aproxime e tome o que quiser”. E Deus lhe deu a entender que aquela visão era um símbolo das indulgências.

Eis por que é grande a nossa culpa se, diante de tanta abundância de bens, permanecemos pobres, privando-nos a nós mesmos e recusando-nos a ajudar a outros. Não! As almas do Purgatório padecem extrema necessidade, elas nos suplicam com lágrimas no meio de seus tormentos. E se temos meios para satisfazer, com indulgências, as dívidas que contraíram, por que nos esforçamos tão pouco para pagá-las?

Abrir esse tesouro por acaso é custoso ou exige dolorosíssimos esforços, como jejuns e privações insuportáveis à natureza? Ora, “ainda que fosse assim”, diz com razão o eloquente Pe. Segneri, “deveríamos estar dispostos a suportá-lo. De fato, não vemos como os homens, por amor ao ouro perecível, a fim de preservar uma obra de arte, para salvar parte de sua fortuna ou propriedade, se expõem às chamas e ao fogo? Não devíamos nós, portanto, esforçar-nos igualmente para salvar do fogo expiatório aquelas almas resgatadas pelo Sangue de Jesus Cristo?

A bondade divina não nos pede nada extremamente doloroso: o único que exige de nós são obras tão ordinárias e simples como um Terço, uma comunhão, uma visita ao SS. Sacramento, uma esmola ou uma aula de catequese sobre os rudimentos da fé aos órfãos. E no entanto descuidamos de lucrar bens tão preciosos, e por meios tão fáceis, que poderíamos facilmente aplicar, quem sabe, a um pobre parente falecido que geme hoje nas chamas do Purgatório!…

Notas

  1. Referida no original inglês simplesmente como Blessed Mary of Quito, Santa Mariana de Jesús de Paredes é a primeira equatoriana canonizada pela Igreja e sua festa litúrgica se celebra no dia 26 de maio (Nota da Equipe CNP).

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Como surgiu a Comemoração dos Fiéis Defuntos?
Liturgia

Como surgiu a
Comemoração dos Fiéis Defuntos?

Como surgiu a Comemoração dos Fiéis Defuntos?

A Igreja sempre rezou por seus filhos falecidos, mas foi apenas no século X que, sempre guiada pelo Espírito Santo, ela instituiu a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, como forma de estimular-nos a cumprir o grande dever que é rezar pelo mortos.

Pe. François Xavier SchouppeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Novembro de 2019Tempo de leitura: 3 minutos
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A Santa Igreja tem uma liturgia especialmente dedicada aos defuntos. Dela faz parte o ofício de Vésperas, Matinas e Laudes, além de uma Missa própria, comumente chamada “Missa de Requiem” [1]. Essa liturgia, tão tocante como sublime, por meio de prantos e lágrimas desvela aos olhos dos fiéis a luz consoladora da eternidade. A Igreja reza essa liturgia por ocasião do funeral de seus filhos e, de modo particular, no dia em que se celebra solenemente a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos. 

A Santa Missa ocupa aqui o lugar principal, como se fôra o centro divino ao redor do qual orbitam todas as outras orações e cerimônias. No dia seguinte à Festa de Todos os Santos, na grande solenidade de todas as almas benditas, todos os sacerdotes devem oferecer aos mortos o Santo Sacrifício, ao qual os fiéis, por sua vez, consideram um dever assistir [2], além de oferecer comunhões, orações e esmolas em sufrágio dos irmãos que sofrem no Purgatório. 

A celebração dos fiéis defuntos, porém, é de origem relativamente recente. A Igreja, desde as suas origens, sempre rezou por seus filhos falecidos, entoando salmos, recitando orações e oferecendo a Santa Missa pelo repouso de suas almas. Contudo, não houve no passado nenhuma celebração destinada particularmente a pedir a Deus o descanso dos fiéis defuntos em geral. Com efeito, foi apenas no séc. X que, sempre guiada pelo Espírito Santo, a Igreja instituiu a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, como forma de estimular-nos a cumprir o grande dever que é rezar pelo mortos, dever prescrito pela caridade cristã.

O berço em que nasceu esta comovedora solenidade foi a Abadia de Cluny. Santo Odilo, abade de finais do séc. X, com o exemplo de sua caridade fraterna edificou toda a França. Compadecido até mesmo dos mortos, ele não cessava de rezar pelas almas do Purgatório. Foi esta doce caridade que o inspirou a instituir, tanto na abadia como nos mosteiros dela dependentes, uma festa em comemoração das almas de todos os falecidos.

É de crer, escreve o historiador Berault, que Santo Odilo tenha sido levado a isso por uma revelação privada, já que Deus lhe manifestou milagrosamente como lhe era grata a sua devoção às almas do Purgatório.

Eis o que nos contam alguns biógrafos. Enquanto o santo abade governava o mosteiro francês, um piedoso eremita vivia numa pequenina ilha, na costa da Sicília. Um peregrino francês, devido a uma forte tempestade, se viu obrigado a desembarcar ali. Encontrando-se com o eremita, este lhe perguntou se conhecia o abade Odilo. “É claro”, respondeu o peregrino, “eu o conheço, e muito me alegro por isso. Mas como tu o conheces, e por que me perguntas isso?” “Já ouvi muitas vezes”, disse o eremita, “os espíritos malignos se queixarem de homens piedosos que, com preces e esmolas, aliviam a dor que têm de suportar na outra vida as almas santas; mas eles se queixam especialmente de Odilo, abade de Cluny, e de sua Ordem. Quando voltares ao teu país, eu te imploro, em nome de Deus, que exortes este santo abade e seus monges a redobrarem suas boas obras, em benefício das pobres almas do Purgatório”.

O peregrino, então, se recolheu no mosteiro de Cluny e fez o que lhe havia pedido o eremita. Logo em seguida, Santo Odilo ordenou que em todos os mosteiros da Ordem, após o Dia de Todos os Santos, se comemorassem todos os fiéis defuntos, com a récita das Vésperas no dia anterior. Na manhã da festa, durante as Matinas, deveriam soar todos os hinos, e uma Missa seria rezada pelo descanso eterno das almas benditas.

Esse decreto, válido para a abadia de Cluny e outros mosteiros, é observado até hoje. Uma prática tão piedosa, naturalmente, logo se estendeu a mais igrejas e, com o passar do tempo, tornou-se de observância universal em todo o orbe católico.

Notas

  1. A liturgia da Missa de Requiem foi sensivelmente alterada pela reforma litúrgica do Papa Paulo VI, mas ainda é possível ler como antífona de entrada a oração que lhe dá esse nome: “Requiem aeternam dona eis, Domine: et lux perpetua luceat eis. — Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno, e a luz perpétua os ilumine” (Nota da Equipe CNP).
  2. Os fiéis católicos “make it their duty”, isto é, “tomam como um dever” assistir à Missa de Comemoração dos Fiéis Defuntos, ainda que não se trate de um dia de preceito (Nota da Equipe CNP).

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A falta de fé, profetizada por São John Henry Newman
Igreja Católica

A falta de fé, profetizada
por São John Henry Newman

A falta de fé, profetizada por São John Henry Newman

O perigo especial de nossa época é a difusão da praga da falta de fé, que os Apóstolos e Nosso Senhor mesmo predisseram como a pior calamidade dos últimos tempos da Igreja.

São John Henry NewmanTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Novembro de 2019Tempo de leitura: 10 minutos
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A transmissão da verdade de uma geração à outra é, obviamente, a principal razão por que se instituem seminários destinados à educação do clero. 

O cristianismo é uma ideia religiosa. Sobre-humana em sua origem, ela difere de todas as outras religiões. Como o homem difere do quadrúpede, da ave ou do réptil, assim o cristianismo difere das superstições, heresias e filosofias ao seu redor. Ele possui uma teologia e um sistema ético próprios, que constituem sua indestrutível identidade. Como assegurar e perpetuar no mundo esse dom do alto? Como preservar para o povo cristão esse dom, tão especial, tão divino, e que tão facilmente se perde ou se esconde em meio às falsidades que se impõem e abundam no mundo? 

A providência divina é a seguinte. Cada círculo de cristãos tem o seu próprio sacerdote, que é o representante da mensagem divina para esse círculo, em seus aspectos teológicos e éticos. Ele ensina o povo, catequiza seus filhos, trazendo todos e cada um deles àquela forma de doutrina, que é a sua própria. 

Mas a Igreja é formada por vários desses círculos. Como assegurar que todos eles professem uma única e mesma doutrina? E que ela seja a dos Apóstolos? 

Da seguinte forma: pela regra de que seus respectivos sacerdotes devem todos ser ensinados por um único e mesmo centro, ou seja, por seu pai comum, o bispo da diocese. Eles são educados em uma escola, isto é, em um seminário; sob a regra, pela voz e o exemplo do único pastor de todos esses grupos ou círculos de cristãos, dos quais eles todos no futuro serão os professores. A doutrina católica, a moral católica, o culto e a disciplina católicas, o caráter, a vida e a conduta cristãs, tudo o que é necessário para ser um bom sacerdote, todos e cada um deles o aprendem nessa escola religiosa, que é a preparação designada para os ofícios ministeriais. 

Assim como os jovens são preparados para sua vocação secular por escolas e professores que lhes ensinem o que ela requer, como as escolas clássicas e as comerciais, os professores de cada profissão e os de várias artes e ciências, assim também os ministros sagrados da Igreja se tornam verdadeiros representantes de seu bispo quando são designados ao cuidado do povo cristão, porque eles provêm de um único centro de educação e da tutela de uma cabeça.

É por isso que Santo Inácio, o bispo mártir de Antioquia, no primeiro século da Igreja, falando da hierarquia eclesiástica e comparando a união das Ordens sacras com o bispo, refere-se a uma cítara em perfeita sintonia. Ele escreve em sua Epístola aos Efésios (n. 4): 

Segue daí, que vos convém avançar junto, de acordo com o pensamento do bispo, como aliás fazeis. Pois vosso presbitério digno de tão boa reputação, digno que é de Deus, sintoniza com o bispo como cordas com a cítara. Por isso, no acorde de vossos sentimentos e em vossa caridade harmoniosa, Jesus Cristo é que é cantado. Mas também, um por um, chegais a formar um coro, para cantardes juntos em harmonia; acertando o tom de Deus na unidade, cantais em uníssono por Jesus ao Pai, a fim de que vos escute.

E se, em todos os tempos, essa simples unidade, esse entendimento perfeito dos membros com a cabeça, é necessário para a ação salutar da Igreja, nestes tempos perigosos ela é especialmente necessária. Sei que todos os tempos são perigosos, e que, em cada época, mentes sérias e aflitas, vivamente atentas à honra de Deus e às necessidades do homem, são capazes de considerar que nenhuma época é tão perigosa quanto a sua. Em todos os tempos o inimigo das almas ataca com fúria a Igreja, que é verdadeira mãe delas, e, se não consegue lhe causar prejuízo, ao menos a ameaça e aterroriza. E todos os tempos têm suas provações especiais, que outros não têm. Vou ao ponto de admitir que havia certos perigos, específicos aos cristãos de outras épocas, que hoje não mais existem. 

Mesmo assim, considero que as provações que se nos afiguram são tais que assustariam e deixariam atordoados até mesmo corações corajosos como Santo Atanásio, São Gregório Magno ou São Gregório VII. E eles confessariam que, por mais obscura que várias vezes lhes parecesse a perspectiva de seu tempo, o nosso tem uma escuridão de um tipo diferente de qualquer outra que tenha existido antes.

O perigo especial do tempo que temos diante de nós é a difusão desta praga da falta de fé [1], que os Apóstolos e Nosso Senhor mesmo predisseram como a pior calamidade dos últimos tempos da Igreja. E está sobrevindo ao mundo uma sombra, pelo menos, uma imagem típica dos últimos tempos. Eu não pretendo presumir que estes tempos são os últimos; eles têm a má prerrogativa, no entanto, de se parecerem com aquele período mais terrível, do qual se diz que os próprios eleitos correrão o risco de se perderem [...].

Estou falando de males que, em sua intensidade e extensão, são peculiares destes tempos. Mas não falei ainda da raiz de todas essas falsidades — que sempre esteve escondida, mas nesta época foi deixada à vista e desavergonhadamente confessada —, ou seja, desse mesmo espírito de falta de fé, ao qual me referi como ao grande mal dos nossos tempos e do qual as objeções que nós constantemente ouvimos e ouviremos serem feitas ao cristianismo ganham sua plausibilidade [2].

A proposição elementar dessa nova filosofia, agora tão ameaçadora, é a seguinte: que em todas as coisas nós devemos ir pela razão, e em nada pela fé; que as coisas são conhecidas e devem ser recebidas à medida que puderem ser provadas. Todos os outros conhecimentos têm provas, dizem seus defensores, por que a religião deveria ser uma exceção? E o modo de prova é avançar do que sabemos para o que não sabemos, de fatos sensíveis e tangíveis para conclusões seguras. O mundo perseguiu o caminho da fé no que diz respeito à natureza física, e o que adveio disso? Até trezentos anos atrás eles acreditavam, porque era essa a tradição, que os corpos celestes estavam fixos em esferas cristalinas sólidas e se moviam ao redor da terra no curso de 24 horas! Por que aquele método que tanto fez no campo da física não poderia beneficiar também esse conhecimento superior que o mundo acredita ter ganhado através da revelação? Não há revelação alguma de cima. Não há exercício de fé algum. Ver e provar são a única base para crer. Eles vão adiante dizendo que, como a prova admite graus, dificilmente se pode ter uma demonstração fora da matemática; nós não podemos ter jamais um simples conhecimento que seja; as verdades são apenas probabilidades. Assim, a fé se torna um erro de duas formas: primeiro, porque usurpa o lugar da razão e, segundo, porque implica um assentimento absoluto a doutrinas, e isso é dogmático, e assentimento absoluto é irracional. Do mesmo modo você encontrará, certamente no futuro, mas — que digo? — mesmo agora, mesmo agora, que os escritores e pensadores do momento sequer acreditam que Deus existe. Eles não acreditam tampouco no objeto — um Deus pessoal, uma Providência e um Governador moral; e, em segundo lugar, aquilo em que eles acreditam, isto é, que há alguma causa primeira ou outra, eles não o sustentam com fé, absolutamente, mas como uma probabilidade.

Vós me direis que suas teorias têm estado no mundo e não são coisa nova. Não. Indivíduos já a tinham trazido à luz, mas elas não eram ideias correntes e populares. O cristianismo não teve jamais a experiência de um mundo simplesmente irreligioso. Talvez a China seja uma exceção. Nós não a conhecemos o suficiente para dizer, mas considerai o que era o mundo greco-romano quando o cristianismo apareceu. Ele era repleto de superstição, não de infidelidade. Havia bastante descrença em todos, quanto à mitologia, e em cada homem instruído, quanto ao castigo eterno. Mas não havia um expurgo da ideia de religião, nem de poderes invisíveis que governavam o mundo. Quando eles falavam do fado (do destino), mesmo aqui eles consideravam que havia uma grande regência moral do mundo, governada por leis inexoráveis. Seus primeiros princípios eram os mesmos que os nossos. Mesmo em meio aos céticos de Atenas, São Paulo podia apelar ao Deus desconhecido. Mesmo à população ignorante de Listra, ele podia falar do Deus vivo que do céu lhes fazia o bem. E, então, quando mais tarde vieram os bárbaros do norte, eles, em meio a todas as suas superstições, acreditavam numa Providência invisível e na lei moral. Nós, porém, estamos nos aproximando de uma época em que o mundo não reconhece nossos primeiros princípios [...].

Que a disciplina de um seminário seja exatamente o necessário para confrontar o atual estado das coisas, não é preciso que seja eu a sugeri-lo [...]. O seminário é a única verdadeira garantia da criação de um espírito eclesiástico. E é essa a primeira arma de verdade para confrontar a época, não a controvérsia. É claro que todo católico deve ter uma abordagem inteligente da própria religião, como diz São Pedro, mas ainda assim a controvérsia não é o instrumento por meio do qual se deve resistir ao mundo e vencê-lo. E isso nós podemos ver se estudarmos essa epístola, que traz consigo uma autoridade própria, por ter sido colocada pelo Espírito Santo na boca do chefe dos Apóstolos. O que ele diz a todos os cristãos, é especialmente conveniente aos sacerdotes. De fato, ele a escreveu em um tempo durante o qual os deveres tanto de uns quanto de outros, contra o mundo pagão, eram os mesmos. Em primeiro lugar, ele os recorda do que eles realmente eram enquanto cristãos, e com certeza nós devemos tomar essas palavras como especialmente dirigidas a nós, do clero. “Vós sois uma geração escolhida, um sacerdócio régio, uma nação santa, um povo adquirido para Deus…” (1Pd 2, 9). 

Nesse espírito eclesiástico, limitar-me-ei a mencionar um espírito de seriedade ou recolhimento. Nós devemos adquirir o hábito de sentir que estamos na presença de Deus, que Ele vê o que o estamos fazendo; e um gosto de que Ele o faça, um amor por esse conhecimento, um prazer nesta reflexão: “Vós, Senhor, me vedes”. Um sacerdote que sinta isso profundamente não se comportará mal em uma sociedade misturada. Isso o guardará da familiaridade excessiva com quaisquer do seu povo; o guardará das muitas palavras, do falatório néscio ou imprudente; o ensinará a ordenar os seus pensamentos. Será um princípio de desapego entre ele e até mesmo seu próprio povo; pois aquele que se habituou a confiar no Deus Invisível, jamais será capaz de se apegar realmente a qualquer de suas criaturas. E assim se criará uma elevação da mente, que é a verdadeira arma que ele deve empunhar contra a falta de fé do mundo (daí o que diz São Pedro em 1Pd 2, 12.15; 3, 16).

Eis o que eu considero ser a verdadeira arma com que a falta de fé do mundo deve ser combatida. 

E, por fim, mais importante na mesma guerra, e aqui também vereis como ela está ligada ao seminário, é um conhecimento sadio, correto e completo da teologia católica. Isso, ainda que não seja controverso, é a melhor arma (depois de uma vida santa) na controvérsia. Qualquer criança bem instruída no catecismo é, mesmo que não o pretenda, uma verdadeira missionária. E por quê? Porque o mundo está cheio de dúvidas e incertezas, e de doutrina inconsistente — e uma ideia claramente consistente da verdade revelada, pelo contrário, não pode ser encontrada fora da Igreja Católica. Consistência e plenitude são um ótimo argumento para persuadir da verdade de um sistema. Se não for consistente, ele não é verdadeiro. 

Referências

  • [São] John Henry Newman. The Infidelity of the Future (Opening of St. Bernard’s Seminary, 2nd October 1873). in: Faith and Prejudice and Other Unpublished Sermons. New York: Sheed & Ward, 1956, pp. 114-128.

Notas

  1. A expressão infidelity é central para este sermão, constando inclusive de seu título. Nesta tradução, achamos por bem vertê-la para “falta de fé”, ao invés de seu cognato “infidelidade”, porque a expressão traduz melhor a apostasia ilustrada por Newman (Nota da Equipe CNP).
  2. Aqui e em um outro trecho mais abaixo, fizemos algumas leves adaptações na tradução, com vistas à clareza e ao melhor entendimento do texto (Nota da Equipe CNP).

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