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Atirei o pau no Papa
Igreja Católica

Atirei o pau no Papa

Atirei o pau no Papa

Não é de hoje essa bobagem de que “a Igreja mandou exterminar gatos na Idade Média”. Mas um ator da Rede Globo resolveu repetir a mesma conversa, a fim de entreter o povo em casa. O resultado não poderia ter sido pior.

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Maio de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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O pecado original não perturbou apenas a relação entre o homem e a mulher. Pensando bem, os gatos também saíram perdendo nessa história. Quem aqui nunca testemunhou o prazer psicótico com que um menininho esfola o bichano da irmã mais velha? Há bem pouco tempo, aliás, a molecada se divertia, aqui e acolá, cantarolando sobre o berro do gato que sobreviveu a uma paulada na moleira. Felizmente, algum pedagogo de bom senso fez o serviço de educar esses meninos, salvando muitos felinos de estalos na cauda ou de irem parar no microondas.

Mas pau que não bate em Chico, serve para bater em Francisco. Na verdade, em Gregório IX. De fato, mais comum do que moleques endiabrados maltratando gatos é artista falando bobagens a respeito da Igreja. E, nesse caso em particular, há, infelizmente, bem poucos pedagogos interessados na solução do problema. Com toda franqueza, é bem provável que eles sejam a causa da querela, dadas as aulas absurdas sobre o quão terrível e obscura teria sido a tal da “Idade das Trevas”. Por isso, qualquer pedaço de pau serve para bater na Igreja, como dizia Chesterton, inclusive acusá-la de ter mandado exterminar gatos.

Papa Gregório IX, por Thomas Hudson Jones (Capitólio, EUA).

Quem embarcou nessa canoa furada ultimamente foi o ator global Miguel Falabella. Conhecido por seus programas humorísticos, o artista resolveu falar “sério” nos últimos dias, com o nobilíssimo objetivo de “informar” os pobres brasileiros, presos em casa por conta do coronavírus. O resultado, no entanto, foi uma tragédia grega. Segundo Falabella, a culpada pelo surto de Peste Negra na Europa, durante o século XIV, teria sido a Igreja Católica, porque, em 1232, o Papa Gregório IX teria ordenado a matança de todos os gatos, por considerá-los — atenção! — “animais demoníacos”. E sem um predador natural, concluiu Falabella, os ratos tomaram conta da Europa, espalhando a bactéria da peste bubônica por toda parte.

Antes de tudo, já é uma grande piada achar que os gatos, por si só, impediriam o surto de Peste Negra. Primeiro, porque eles também poderiam ser infectados pela doença e transmiti-la aos demais. Além disso, gatos não são os únicos predadores naturais de roedores; nessa lista também se incluem os cachorros, as doninhas, as cobras e certos pássaros. Portanto, as causas da epidemia foram muito mais profundas do que uma suposta “carência criminosa” de felinos caçadores. Na verdade, estudos mais recentes indicam que foram os piolhos dos humanos, e não as pulgas dos roedores, os responsáveis pela transmissão da doença.

Mas onde há uma vergonha, há sempre um desavisado querendo passá-la. Não é de hoje que essa história divulgada por Falabella circula por aí, embora não passe de puro delírio. O decreto de Gregório IX a que costumam aludir para acusar a Igreja é o Vox in Rama, endereçado primeiramente ao rei Henrique VII da Germânia e ao arcebispo de Mainz, Siegfried III. Acontece que nesse documento o Papa não fala absolutamente nada (nem uma vírgula) sobre matar gatos ou quaisquer outros animais. A única menção ao bicho está na descrição de um ritual herético em que havia uma estátua de gato preto, cujas nádegas deviam oscular os participantes de tão macabra liturgia.

Ilustração de um manuscrito produzido na Bretanha, no século XV, retrata caçadores com cães atirando flechas em um gato selvagem.

Obviamente, o Santo Padre estava preocupado com o crescimento dessa seita satânica e, em razão disso, pediu às autoridades uma posição firme… Mas não os mandou dizimar gatos. Também não há registro algum de que alguém, em toda a Europa, tenha interpretado essa carta papal, especificamente, como uma ordem de extermínio. Até porque aquele era o tempo medieval, não é mesmo?, e, por isso, não havia comunicação em massa como nos dias de hoje. Portanto, a carta do Papa não corria o risco de cair num Vatileaks. Ela era reservada a um círculo bem pequeno de pessoas, porque a preocupação do Santo Padre dizia respeito a uma região particular da Germânia. Tudo indica que ninguém fora dali soube do assunto.

Mais ainda, é preciso ressaltar que o documento também cita a presença de outros animais em rituais macabros, como sapos, por exemplo. Se a simples menção aos gatos pudesse ser interpretada como ordem para matá-los, o mesmo teria de valer para os demais, por pura lógica. Mas nenhum arquivo registra, em toda a história da Europa, um genocídio batráquico incentivado pela Igreja.

O que se sabe, de fato, é que em certas regiões da Europa havia, sim, um festival bastante estranho, em que as pessoas jogavam gatos na fogueira. Daí podem ter vindo as pinturas do assassinato deles. É precisamente nessa festividade, aliás, que a cidade de Ypres, na Bélgica, se inspira para realizar o Kattenstoet, que significa “Festival do Gato”, uma espécie de reparação ao que acontecia antigamente. Também em 1730 (depois da Idade Média, portanto) houve um incidente na França, envolvendo tipógrafos aprendizes que, por vingança, recolheram os gatos de seus mestres e os mataram, sob o pretexto de que eram utilizados para bruxaria. Esse crime foi narrado pelo escritor Robert Darnton, no livro The Great Cat Massacre and Other Episodes, que se tornou muito popular em 1984.

Outra fonte muito citada pelos detratores da Igreja é o Classical Cats: The Rise and Fall of Sacred Cat, escrito pelo historiador americano Donald Engels. No epílogo do livro, Engels afirma que os cristãos odiavam gatos e os relacionavam a criaturas do demônio. O problema é que o autor, como de praxe, não apresenta qualquer evidência concreta e incontrastável para tamanha afirmação, mas apenas a sua interpretação pessoal de casos particulares e documentos pontifícios, como o Vox in Rama. O historiador Spencer Alexander McDaniel, da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, dá mais detalhes sobre o embuste num artigo de seu site, de onde tiramos boa parte das informações para este texto. Vale a pena conferir.

Houve, sim, matança de gatos aqui e ali na Idade Média como também em outras épocas. Mas nada disso jamais aconteceu por ordens de um Papa. Tratou-se apenas de episódios, entre tantos outros, da brutalidade humana, como sói acontecer em toda a história. Até hoje há quem queira atirar o pau no gato só para vê-lo berrar. Mas há também quem queira atirar o pau no Papa, só para culpá-lo do berro do gato…

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De avião ou a pé? Com ou sem sacramentos?
Doutrina

De avião ou a pé?
Com ou sem sacramentos?

De avião ou a pé? Com ou sem sacramentos?

Contra uma teologia moderna que praticamente “protestantiza” a Igreja, é preciso dizer que os sete sacramentos são necessários, sim, e a ausência deles, na vida diária, custa muito a todo coração que se queira chamar de católico.

Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Maio de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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A situação atípica em que nos encontramos, devido à pandemia do novo coronavírus, nos deve fazer refletir sobre a importância e a necessidade dos sacramentos, quando tantos dentro da Igreja os relativizam, e não é de hoje. 

Referindo-se a Nosso Senhor, o Catecismo diz que “a obra salvífica de sua humanidade santa e santificante é o sacramento da salvação que se manifesta e age nos sacramentos da Igreja” (n. 774); isto é, depois de ter subido aos céus, Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, “age agora pelos sacramentos, instituídos por Ele para comunicar sua graça” (n. 1084).

Isso significa bem concretamente que, onde quer que uma criança esteja sendo batizada, onde quer que um sacerdote esteja rezando Missa ou absolvendo alguém de seus pecados, ali está sendo fincada uma verdadeira “escada” que une o Céu à terra, por onde Jesus ressuscitado comunica individualmente a salvação que Ele operou dois mil anos atrás, por toda a humanidade. Os sacramentos são os meios de tomarmos parte na Redenção que Cristo realizou de uma vez por todas na Cruz, dois mil anos atrás. Não nos basta confessar, com o Credo niceno, que o Filho de Deus desceu dos céus propter nos homines (“por nós, homens”); é preciso que descubramos também, com o Prólogo de São João, que Ele é a luz que ilumina omnem hominem (“todo homem”, cf. Jo 1, 9). Noutras palavras, Jesus não morreu por uma massa amorfa de gente, mas por cada um de nós em particular.

Essas noções, que podem parecer óbvias a quem recebeu uma boa catequese, infelizmente estão “fora de moda” em muitos institutos de teologia. Ao invés de seguir as balizas do que a Igreja sempre ensinou nessa matéria, e de forma dogmática, muitos hoje em dia têm imitado os reformadores protestantes e ensinado um conceito bastante problemático de sacramento: este não passaria de um “ritual simbólico”, feito para evocar uma ideia religiosa, lembrar o que Jesus fez, avivar a nossa confiança em Deus, mas de modo algum ele produziria realmente a graça divina.

Isso explica, em parte, a crise de fé na presença real de Jesus na Eucaristia, a prática disseminada das comunhões sacrílegas e a dificuldade que tantos católicos já tinham de encontrar sacerdotes disponíveis para a Confissão (muito antes de o coronavírus nos visitar). Sem uma fé correta a respeito da ação própria dos sacramentos em nossa alma, fica realmente difícil dar-lhes a devida importância, e não surpreende que tantas vozes surjam, agora, chamando de “desnecessários” aquilo que dois mil anos de Igreja sempre ensinaram ser os meios ordinários de recebermos os favores do Céu.

Mas, contra essa teologia moderna que praticamente “protestantiza” a Igreja Católica, é preciso dizer que os sete sacramentos são necessários, sim, e a ausência deles, na vida diária, custa muito (ou pelo menos deveria custar) a todo coração que se queira chamar de católico. É claro que

os sacramentos não são necessários com necessidade absoluta, como é necessário que Deus exista, já que foram instituídos em razão da pura bondade divina; mas o são com necessidade hipotética, isto é, suposto o fim <para o qual foram instituídos>. Não porque Deus não possa, sem eles, salvar o homem, pois não fez depender dos sacramentos o seu poder, como se diz na Letra: “Como o alimento é necessário à vida”, mas porque pelos sacramentos se realiza de modo mais conveniente a salvação do homem, assim como o cavalo se diz necessário à viagem, quer dizer, porque a cavalo se viaja mais facilmente (Santo Tomás de Aquino, In IV Sent., d. 1, q. 1, a. 2, qc. 1, grifos nossos).

Ou seja, o Deus que instituiu os sacramentos evidentemente não tem a sua ação limitada por eles; Ele pode distribuir a sua graça salvadora aos homens como bem quiser. O Deus dos sacramentos é maior que os sacramentos de Deus, poderíamos dizer.

Essa verdade é uma fonte de grande consolação para nós, especialmente nesses dias em que nos encontramos privados da Missa e afastados, mais ou menos, dos demais sacramentos. Não existe apenas a graça ex opere operato; há também a graça ex opere operantis. Ou seja, além da graça que nos visita nesses sinais sensíveis da Igreja, há também o Deus que nos visita no silêncio de nossa oração íntima, em nossos atos de fé, de esperança e de caridade, nas mortificações que fazemos por amor a Ele. Agora é o momento de redescobrir e colocar em prática tudo isso. Muitos santos se santificaram assim, em situações em que o acesso aos sacramentos era muito mais difícil que agora.

Só que, também, não podemos cair no risco de subestimar o poder desses sete auxílios que Deus nos deu. A comparação que Santo Tomás de Aquino faz com um cavalo “necessário à viagem” deveria fazer-nos pensar. Qual foi a viagem mais longa que já fizemos? Talvez já tenhamos visitado o exterior, de avião. Talvez tenhamos percorrido longas distâncias dentro de nosso próprio país, de carro ou de ônibus. Seja como for, uma rápida pesquisa no Google Maps poderia dar-nos uma ideia de quão demorada seria a viagem que fizemos com esses meios de transportes caso decidíssemos fazê-la a pé, correndo ou até nadando.

E então, o que separa este mundo e o Céu? O que nos separa da eternidade? A jornada rumo à vida eterna não só é mais longa como muito mais árdua, e seria loucura, sem dúvida, prescindir dos instrumentos ordinários que Deus colocou à nossa disposição para que nos aproximássemos dele. Assim como certamente morreríamos insolados subindo do sul do Brasil ao nordeste, ou afogados tentando chegar a nado na Europa, é um perigo tremendo percorrer as vias tortuosas dessa vida sem o auxílio dos sacramentos.

Além disso, a Igreja ensina que há sacramentos mais necessários que outros para a salvação. É o caso do Batismo e da Penitência. Nosso Senhor mesmo incutiu a necessidade de que renascêssemos da água e do Espírito (cf. Jo 3, 5); e também falou do ramo que, separado da videira, só servia para ser lançado ao fogo (cf. Jo 15, 6) — ou seja, se nos apartamos de Cristo pelo pecado mortal, precisamos ser de novo “enxertados” por Ele.

Essa é a fé da Igreja. E é por isso que ela manda aos pais que procurem o quanto antes batizar os filhos recém-nascidos; e aos que estão no pecado que procurem o quanto antes um confessor, para se acusarem e receberem a absolvição de seus pecados. É certo que Deus pode muito bem salvar de outro modo, seja os infantes não batizados, seja os pecadores arrependidos “não confessados”; todavia, se está em nossas mãos salvar a estes com um ou dois minutos para ouvir-lhes os pecados [1] e àqueles com um simples copo d’água (que inclusive, em situações extremas, qualquer um pode derramar), seremos cobrados se não o fizermos

Afinal, Deus quis precisar” dos homens para salvá-los! E é precisamente esse o mistério por trás não só dos sacramentos, mas de toda a missão da Igreja.

Notas

  1. É tal a importância desses sacramentos que alguns moralistas chegam a defender que, “ainda que com perigo para a própria vida ou sob outros grandes incômodos temporais, o pastor de almas deve administrar os sacramentos aos fiéis que se encontram em extrema necessidade espiritual. Deve, por exemplo, em tempo de peste ou de outra doença contagiosa, administrar os sacramentos do Batismo e da Penitência mesmo com risco de vida, de acordo com o que diz Jo 10, 11: ‘O bom pastor dá a vida por suas ovelhas’. O mesmo se aplica ao sacramento da Extrema Unção, quando há a certeza de que o enfermo não é capaz de receber o sacramento da Penitência (Pe. Dominic M. Prümmer, Manual de Teologia Moral, v. III, n. 72ss).

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Dez maneiras de não se preocupar durante a pandemia
Espiritualidade

Dez maneiras
de não se preocupar durante a pandemia

Dez maneiras de não se preocupar durante a pandemia

Nós e os que amamos ficaremos doentes? O sistema de saúde entrará em colapso? Como ficará a economia? É natural que essas e outras inquietações nos atinjam. O que podemos fazer, então, para não nos preocuparmos além da medida?

Pe. Dwight LongeneckerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Maio de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Este texto não foi escrito pelo Pe. Paulo Ricardo; trata-se de uma tradução, feita por nossa equipe, de um texto do Pe. Dwight Longenecker, sacerdote americano. Portanto, os sentimentos e preocupações expressas no início deste texto são pessoais e não necessariamente manifestam o sentir e o parecer do padre e de nossa equipe.

De todo modo, os dez conselhos oferecidos abaixo por esse sacerdote, para que enfrentemos esse tempo de pandemia, são muitíssimo apropriados. Daí a oportunidade da tradução. 

Para conferir as reflexões do próprio Pe. Paulo Ricardo a respeito da atual crise do coronavírus, recomendamos a nossos leitores que assistam a todos os episódios do programa COVID-19 e aos últimos dos programas Ao vivo com Pe. Paulo e Homilia Dominical.


A vida da maioria das pessoas se tornou uma confusão por causa da pandemia. Não foi diferente com a minha. A suspensão completa dos sacramentos me deixou muito preocupado. Consigo entender a interrupção dos serviços públicos oferecidos pela Igreja, mas a suspensão de todos os sacramentos — inclusive das visitas aos lares e das confissões individuais — parece-me algo draconiano. No entanto, com tanta incerteza em relação ao vírus, entendo que todos os líderes prefiram pecar por excesso de cuidado. Inicialmente, a maioria das pessoas negaram que houvesse um problema sério. Isso é natural. Também reagi assim. Ainda temos de verificar qual é a exata dimensão do problema, mas é melhor prevenir do que remediar.

O fato de o mundo ter virado do avesso por causa da pandemia deixa muitas pessoas preocupadas. Preocupamo-nos com nossa saúde. Ficaremos doentes? Será grave? Morreremos? A preocupação aumenta no caso dos idosos ou daqueles que já possuem outras doenças. Também nos preocupamos com aqueles que amamos. Se temos amigos ou parentes mais velhos, preocupamo-nos com eles. Além disso, existe uma preocupação numa dimensão mais abrangente. O sistema de saúde entrará em colapso? E se a situação durar mais do que o esperado e provocar um colapso social? O que acontecerá se a infraestrutura e os sistemas começarem a ruir? E se a economia colapsar integralmente?    

É natural que essas e outras inquietações nos atinjam. Então, o que podemos fazer para não nos preocupar? Eis algumas ideias:

1. Pare de ver notícias ruins. — Quando há uma colisão entre veículos, todos nós gostamos de xeretar. É difícil não parar e ficar observando. Pelo amor de Deus, não verifique o noticiário a cada cinco minutos. As notícias ruins estão lá. O mundo inteiro está confinado por causa de uma pandemia. As pessoas estão preocupadas e doentes; algumas estão morrendo. Sabemos disso, e não há muito o que fazer em relação aos grandes problemas. Portanto, veja o noticiário de manhã e de noite. Compense as notícias ruins com as boas. A situação é ruim, mas muitas pessoas estão trabalhando para cuidar dos enfermos e encontrar novas formas de combater a doença. Não estou dizendo que você deva ignorar a realidade e adotar algum tipo de otimismo artificial. Seja realista, mas não fique refém da agitação causada por notícias negativas.   

2. Ponha as notícias nas intenções de suas orações. — Depois de se atualizar com as notícias, apresente-as ao Senhor na oração. Depois de verificar as notícias da manhã, faça as orações da manhã. Faça o mesmo com as orações da noite. De que modo a oração pode ajudar? Ela desencadeia o poder de Deus no mundo. Suas orações ajudarão a fortalecer aqueles que estão trabalhando no combate à doença. Fortalecerão e ajudarão as pessoas que a contraíram. Auxiliarão os que estão de luto, os que sofrem de ansiedade e de depressão. Também ajudarão você ficar em paz, a se concentrar e a confiar em Deus.

3. Desenvolva um novo hobby. — Se estiver em confinamento, dedique algum tempo para ler os livros que sempre quis ler ou invista nos estudos ou interesses específicos aos quais sempre quis se dedicar. Faça mais exercícios físicos. Leia novos livros. Pinte ou desenhe. Pegue um livro de receitas e faça refeições magníficas. Faça pães. Isso não é somente uma coisa boa em si, mas ajudará você a não se preocupar.

4. Leia os Salmos. — São antigos poemas que muitas vezes foram compostos por pessoas em apuros. Os salmos 27 (26), 62 (61) e 91 (90) são bons para períodos de ansiedade. Eles enfatizam a necessidade de confiarmos em Deus.

5. Viva um dia de cada vez. — Lembre-se do ensinamento de Jesus: “Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado” (Mt 6, 34). Agradeça a Deus se hoje você estiver bem e se tiver aquilo de que precisa. Se amanhã você ou as pessoas que ama adoecerem, Deus estará ao seu lado para ajudar a superar a situação. “Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois estais comigo. Vosso bordão e vosso báculo são o meu amparo” (Sl 23 [22]). 

6. Entre em contato com outras pessoas. — Por telefone e e-mail, permaneça em contato com amigos, familiares e paroquianos que talvez estejam sozinhos ou com medo. Um breve telefonema tem muito significado para as pessoas e também ajudará a não se preocupar. 

7. Memorize frases que ajudem a minimizar a preocupação. — Decore algum versículo da Bíblia ou alguma citação memorável que auxilie a diminuir a preocupação. Por exemplo: “A preocupação não mudará as coisas ruins, mas fará com que você não enxergue as boas”, “Não se preocupe. Reze”, “O mundo inteiro está nas mãos dEle” ou “Não se preocupe com o dia de amanhã. A cada dia basta o seu cuidado.”

8. Lembre-se do panorama global. — A humanidade já passou por isso. Trabalhamos juntos para superar pragas, guerras, escassez de alimentos e todos os tipos de desastres terríveis. Nossos pais e avós enfrentaram crises econômicas e guerras nas quais todos os dias foram dominados por temores horríveis, preocupações e prejuízos reais. As pessoas se mobilizam. Nós sobreviveremos. 

9. Apoiemo-nos mutuamente. — Fale de forma aberta; manifeste seus medos e preocupações; escute outras pessoas. A preocupação fica pior quando se transforma em medo interior e passa a nos corroer. Exponha sua inquietação e fale sobre ela. Quando compartilhamos uma preocupação, ela é reduzida pela metade.

10. Faça um ato de abandono. — O ato de abandono é uma oração por meio da qual depositamos nossa confiança e fé apenas em Deus. É possível fazer este outro ato de fé simples: “Senhor Jesus Cristo, Filho do Deus vivo, em tuas mãos eu entrego o meu espírito”. É impressionante ver como a preocupação simplesmente desaparece quando nos entregamos a Deus de modo verdadeiro, integral e simples. Permanecemos em Cristo Jesus e reivindicamos a promessa de São Paulo aos Romanos (Rm 8, 35-39): 

Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada? Realmente, está escrito: ‘Por amor de ti somos entregues à morte o dia inteiro; somos tratados como gado destinado ao matadouro’ (Sl 43,23). Mas, em todas essas coisas, somos mais que vencedores pela virtude daquele que nos amou. Pois estou persuadido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem as alturas, nem os abismos, nem outra qualquer criatura nos poderá apartar do amor que Deus nos testemunha em Cristo Jesus, Nosso Senhor.

Finalmente, que o Senhor possa usar este período para fortalecer a fé, a esperança e a caridade em nossos corações. Que possamos dedicar um tempo para repensar nossas prioridades e compreender que a vida é breve e instável. Não estamos num ensaio geral. Agradeçamos a Deus pelo bem que temos e desfrutemos dessas bênçãos. Usemos o tempo com sabedoria e, antes que seja tarde, peçamos para o nosso coração a graça de amar a Deus e ao próximo como devemos.

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A Igreja é como a Arca de Noé
Doutrina

A Igreja é como a Arca de Noé

A Igreja é como a Arca de Noé

É promessa de Nosso Senhor, a Igreja não perecerá. Seu destino, fixado por seu divino Fundador, é ser “Arca de Noé”, segura, firme e inabalável como uma rocha. Ainda que muitos trabalhem por sua destruição.

Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Maio de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Em tempos de confusão como os nossos, o trabalho dos católicos é difícil, sim, mas é ao mesmo tempo muito simples: se permanecermos aferrados àquilo que a Igreja sempre ensinou, se permanecermos fiéis à doutrina católica de dois mil anos, então ficaremos de pé, resistiremos ao relativismo reinante, nos salvaremos do “tsunami” que arrasta e leva à morte.

A meta é sobrevivermos e, também, fazer sobreviver conosco o maior número de pessoas possível. Não sem razão a imagem que o próprio Catecismo (n. 845) evoca para simbolizar a Igreja é a da Arca de Noé: dentro dela se acha a salvação, e dentro dela; fora, só o que há é a devastação. 

Mas, será que ainda cremos nisso? 

Nossos leitores terão de nos perdoar a insistência nesse tema da , mas ele não pode passar batido, porque foi o próprio Senhor quem manifestou a sua necessidade e imprescindibilidade: “Quem crer será salvo, quem não crer está condenado” (cf. Mc 16, 16; Jo 3, 18). A falta de fé é, já neste mundo, um sinal de reprovação eterna! Quem o diz é Jesus Cristo, manso e humilde de Coração, a própria Misericórdia que se fez carne, o mesmo que curou pobres e enfermos e passou por este mundo fazendo o bem… O Evangelho não fala de “dois Cristos”. É um só o que fala da salvação e da condenação; um só o que fala do Céu e do Inferno; um só o que fala de Deus, e do demônio.

E, no entanto, que visão temos mantido em nosso modo de pensar e de agir? Tratamos a salvação, a graça e a vida eterna como um “presente barato”, que em qualquer fundo de quintal se pode achar, que em qualquer religião se pode ganhar, que com qualquer tipo de vida se pode alcançar… 

Sim, os tempos são maus, e as pessoas estão perdidas num indiferentismo religioso assustador. Mas a nós cabe remar contra a correnteza. Não nos conformarmos com este mundo (cf. Rm 12, 2). Não aceitar que a fé católica seja tratada como mais uma entre tantas outras. Permanecer na segurança da fé perene da Igreja. E por quê? Porque:

O mundo foi criado em vista da Igreja”, diziam os cristãos dos primeiros tempos. Deus criou o mundo em vista da comunhão com sua vida divina, comunhão esta que se realiza pela “convocação” dos homens em Cristo, e esta “convocação” é a Igreja. A Igreja é a finalidade de todas as coisas, e as próprias vicissitudes dolorosas, como a queda dos anjos e o pecado do homem, só foram permitidas por Deus como ocasião e meio para desdobrar toda a força de seu braço, toda a medida de amor que Ele queria dar ao mundo: “Assim como a vontade de Deus é um ato e se chama mundo, assim também sua intenção é a salvação dos homens e se chama Igreja” (Catecismo da Igreja Católica, n. 760).

Atentemo-nos bem ao que vai escrito no Catecismo e respondamos com muita sinceridade se muitos hoje (muitos de nós até!) não teriam vergonha de proclamar frases como estas: “O mundo foi criado em vista da Igreja”, ou: “A Igreja é a finalidade de todas as coisas” (ou, ainda, o velho axioma de que “fora da Igreja não há salvação”), quando o que está na moda é justamente abraçar o mundo, adotar a linguagem e os modos do mundo, diluir a Igreja no mundo. Fica a impressão, na verdade, de que é a Igreja que “foi criada em vista do mundo”, e que “todas as coisas são a finalidade da Igreja”, menos aquilo para o que ela realmente foi fundada: converter os homens e levá-los ao Céu.

De fato, como repetirá essas sentenças dos primeiros cristãos (o Catecismo atribui algumas delas a Hermas e a São Clemente de Alexandria) um bando de católicos apóstatas, que substituiu a religião sobrenatural fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo por uma religião natural qualquer, sem Batismo, sem missão, sem conversão? Como falaremos das belezas da Igreja estando tão preocupados, entusiasmados ou até hipnotizados com as coisas do mundo

Tomando a imagem da Arca do Antigo Testamento, é como se Noé e os demais tripulantes da embarcação decidissem pôr abaixo o instrumento que os está salvando para se afogarem todos juntos no dilúvio. Ora, se cremos (mas nós cremos?) que a salvação está dentro da Igreja, na fé em Cristo e na recepção assídua dos sacramentos, não seria o caso de salvarmos as pessoas do caos, “pescando-as” das águas turbulentas em que se encontram para trazê-las à segurança da Arca? 

Note-se bem que não estamos falando de simplesmente “fechar-nos” na Arca e deixar, literalmente, que os outros se danem. Essa postura não tem nada a ver com o cristianismo e com o mandato de Nosso Senhor de evangelizar todos os povos. Tampouco se trata de querer separar o joio e o trigo antes do tempo previsto pelo único e verdadeiro Juiz… É claro que também dos que foram pescados Nosso Senhor fará uma separação dos bons e dos maus. Mas não é por isso que deixaremos de lançar as redes e pescar! O que não significa, também, entregar-se ao mundo, tornar-se “amigo do mundo” (à custa de nossa amizade com Deus, inclusive, cf. Tg 4, 4), pois querer salvar os que estão no mundo não é ser suicida, tampouco menosprezar a segurança do barco em que, por graça de Deus, nos encontramos.

Nesse sentido, outro Catecismo, o de São Pio X, começa com uma pergunta sobre a qual faríamos bem em refletir nesses dias. Ele pergunta: “Sois cristão?”, e responde: “Sim, sou cristão pela graça de Deus!” (n. 1). Ou seja, ser de Cristo, pertencer ao seu Corpo místico, que é a Igreja por Ele fundada, é uma grande graça, “um dom de Deus, que nós não podemos merecer” (n. 2). Mas, se é assim, se ser cristão é uma graça, não sê-lo é uma desgraça; e por isso todos deveríamos trabalhar com afinco para que nossos irmãos, familiares e amigos deixassem a desgraça de sua condição para se fazerem cristãos, membros da Igreja, tripulantes da Arca mais salutífera que a de Noé. 

Isso, porém, é o que deveria acontecer logicamente dentro de uma comunidade que crê, que ama a Arca na qual Deus a colocou, que é capaz de cantar com o coração o Salmo 83: “Quão amável, ó Senhor, é vossa casa, quanto a amo, Senhor Deus do universo! Minha alma desfalece de saudades e anseia pelos átrios do Senhor! [...] Na verdade, um só dia em vosso templo vale mais do que milhares fora dele! Prefiro estar no limiar de vossa casa, a hospedar-me na mansão dos pecadores!” Mas onde está essa alegria visível de pertencer à Igreja, de estar nos átrios do Senhor? Os arquitetos, no interior, parecem ter-se esquecido quem é o Senhor da Arca. Talvez eles a considerem até “antiquada” demais. Seria preciso deixar entrar um pouco de água aqui e acolá… até nos tornarmos, talvez, um Titanic.

Esse é o projeto que alguns, soberbamente, gostariam de pôr em prática. Mas os corações que crêem e amam a casa de Deus existem, e eles sustentam a barca da Igreja com suas orações e penitências. Além do mais, “as portas do inferno não prevalecerão” (Mt 16, 18). É promessa de Nosso Senhor, a Igreja não perecerá. Seu destino, fixado por seu divino Fundador, é ser Arca segura, firme e inabalável como uma rocha — ainda que muitos nela trabalhem, conscientemente ou não, para que ela soçobre.

Por isso, permaneçamos firmes na esperança. Os tempos são difíceis, é verdade, o mar tempestuoso ameaça cobrir a barca da Igreja e o Senhor parece dormir (cf. Mt 8, 24); as notícias não são nada alvissareiras e a tentação é desesperar. No meio de tudo isso, porém, não nos esqueçamos: a Igreja Católica não é um Titanic, idealizado e construído por um simples homem. Não. Ela é objeto de nossa fé, pois foi querida e moldada pelo próprio Jesus Cristo. Não só isso: o mundo foi criado em vista dela, ela é a finalidade de todas as coisas

Se tivermos isso em mente, nosso coração pulsará de modo diferente ao nos levantarmos domingo e declararmos, com voz forte: “Creio na santa Igreja Católica”. Sim, nós cremos na Igreja una, santa, católica e apostólica (in unam, sanctam, catholicam et apostolicam Ecclesiam), e nessa fé queremos viver, morrer… e viver para sempre.

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