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O crucificado que nos trouxe Deus
Igreja Católica

O crucificado que nos trouxe Deus

O crucificado que nos trouxe Deus

Somente na fé católica a crucificação de Cristo tem sentido, pois nela é que se encontra o verdadeiro "Jesus histórico"

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Fevereiro de 2014Tempo de leitura: 4 minutos
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Desde que Rudolf Bultmann decretou que não se pode crer na ressurreição depois da lâmpada elétrica, o número de interpretações malucas que surgiram sobre a Pessoa de Cristo é algo que não está no gibi[1]. Imagina-se de tudo: Jesus marxista, Jesus operário, hippie, camarada e tutti quanti. Nessa brincadeira, só não há espaço para uma única interpretação: a que está no Magistério da Igreja.

Essa tendência mais ou menos crítica de se desconfigurar o rosto tradicional de Jesus acentuou-se, segundo o Papa Bento XVI, a partir dos anos 50. Trata-se de uma cisão entre o "Jesus histórico" e o "Cristo da fé". Haveria um abismo enorme entre um personagem e outro. Cristo seria apenas uma invenção da comunidade primitiva, não tendo nada que ver com a salvação e a remissão dos pecados. Jesus, em tese, seria apenas um revolucionário à sua maneira, um reformador social. Alguém que viera contestar o status quo, abrindo caminho para as futuras revoluções do povo judeu e, por conseguinte, do "Povo de Deus". Todavia, bem observa o Papa Emérito, "quem lê várias destas reconstruções, umas ao lado das outras, pode rapidamente verificar que elas são muito mais fotografias dos autores e dos seus ideais do que reposição de um ícone, entretanto tornado confuso"[2].

Não é de se admirar que vários desses teólogos que propõem uma tal interpretação cristológica padeçam do mesmo complexo antirromano de Lutero. Por fim, quem começa negando a Igreja termina negando Deus. A bem da verdade, são homens que perderam a fé e que, cada vez mais, se submetem ao dogma do mundo moderno, no qual Deus não tem importância nem espaço. Eles se renderam à proposta racionalista, à pompa do criticismo e, em última análise, à sedução do Anticristo que, na expressão de Soloviev, é doutor honoris causa em teologia[3]. Satanás, mais do que ninguém, é o primeiro a usar a bíblia para tentar o Senhor: "Se és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se transformem em pão" (Mt 4, 3). Nesse desafio, esconde-se a hipocrisia de quem, querendo assumir o lugar de Deus, põe-se a derrubá-Lo de Seu trono, como uma pedra de tropeço, "um estorvo", "porque os teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens" (Cf. Mt 16, 22). Assim, Jesus torna-se uma figura "pouco plausível, remota, obscura e esquisita, alguém que falava numa língua estranha e que morreu há muito tempo"[4], não tendo mais nada a nos dizer ou ensinar.

E é óbvio que uma figura dessa estirpe não merece o nosso culto. O Cristo desenhado por esses teólogos inspira pouquíssima devoção. n'Ele não se encontra a beleza do transcendente, mas a máscara das ideologias, que, em última análise, não passam de sistemas derivados de programas destrutivos. Quem olha para este Jesus não olha para o Pai, como atestam as Escrituras. Pelo contrário, é o rosto sombrio da mentira o que se enxerga. E se Cristo deixa de ser divino para ser tão somente político, também o seu culto deixa de ser a participação no seu Sacríficio da Cruz - em que o fiel presta sua adoração, contrição e ação de graças - para se converter num passatempo ou, pior ainda, numa convenção de facções ideológicas.

Com efeito, a crítica que muito se faz à liturgia da Igreja é, na verdade, um ataque ao coração de Deus. Na base de tudo encontra-se um ateísmo politizado que transforma a teologia em um campo de ação: não há motivo para se cultuar Deus, para prestar-lhe nossa devoção; o homem deve ser o seu princípio, meio e fim, o homem deve se autocultuar. Trata-se, então, da mesma repulsa de Pedro diante do mistério da cruz. Não se quer a dor, não se quer o sacrifício, somente o bem-estar, o conforto material. "Se és o Filho de Deus…", repete-se o desafio. Por outro lado, quando lançamos um olhar sincero sobre essa mentalidade, percebemos que tudo se encaminha para muito longe do paraíso: "Ela julgava poder transformar pedras em pão, mas gerou pedras em vez de pão".[5]

Esse progressismo adolescente, ao qual o Papa Francisco já lançou duras condenações, transgride a fidelidade; "essa gente, movida pelo espírito do mundo, negociou a própria identidade, negociou a pertença a um povo, um povo que Deus ama tanto, que Deus quer como seu povo"[6]. Ser fiel ao ministério de Jesus tal como está descrito no Evangelho e, obviamente, no Magistério da Igreja não significa acreditar em "algo mítico, que pode ao mesmo tempo significar tudo e nada"[7]; é precisamente o contrário, é lançar-se com firmeza à única certeza que dá sentido à nossa existência, significa olhar para o crucificado, no qual encontramos "a própria bondade de Deus, que se dá nas nossas mãos, que se entrega a nós e que, por assim dizer, suporta conosco todo o horror da história."[8] Cristo, portanto, mais do que nos dar bem-estar, conforto e paz, veio fazer algo muito maior: Ele veio nos trazer Deus!

"Somente por causa da dureza de nosso coração é que pensamos que isso seja pouco"[9]

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A ponta do iceberg
Sociedade

A ponta do iceberg

A ponta do iceberg

Todos fariam um grande favor a si mesmos, às suas famílias e ao Brasil se, na hora da novela, desligassem seus televisores, acendessem uma vela e rezassem o Terço.

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Fevereiro de 2014Tempo de leitura: 3 minutos
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Recentemente, duas pesquisas científicas comprovaram a ligação direta que existe entre a audiência das novelas da Rede Globo, as crescentes taxas de divórcio e a queda da natalidade nas famílias brasileiras[1]. Aquilo de que já se suspeitava há muito tempo foi confirmado: as telenovelas globais exercem uma grande influência no comportamento das pessoas.

Na semana passada, mais uma telenovela serviu de palco para "forçar limites morais", como escreveu um jornalista, na Folha de São Paulo[2]. Pelos comentários de vários telespectadores nas redes sociais, parece que, infelizmente, a armadilha funcionou, mais uma vez. Após o entusiasmo com a trama de uma dupla de homossexuais que, entre outras coisas, recorreu à inseminação artificial para "produzir" um filho, o pedido para ver um "beijo gay" no final da última novela das oito foi reiterado por inúmeras pessoas. E, mesmo depois de alcançado o seu intento, muitos não se contentaram com o que viram, alegando que o beijo teria sido "morno demais".

Sem dúvida, a melhor forma de filtrar essas coisas está na mão de cada família: chama-se controle remoto. As pessoas são livres para escolher ao que querem ou não assistir na televisão. No entanto, comprovada a relação entre as telenovelas e as mudanças sociais no Brasil, ninguém pode ignorar que aquilo que é exibido nas telas da TV não ficará, simplesmente, na televisão. Aquilo que a Globo exibe para muitas pessoas ou famílias desatentas irá refletir, de algum modo, nas opiniões que elas possuem, nas conversas que elas mantêm e nos ambientes que elas frequentam. E isso afetará toda a sociedade, na qual estão incluídas até mesmo as pessoas que louvavelmente se recusam a dar audiência às novelas globais.

É mesmo preciso dizer o que estava por trás do "beijo gay"? Diante da oposição de boa parte da população brasileira não só ao chamado "casamento homoafetivo" como ao próprio ato homossexual, a novela "Amor à Vida" foi uma tentativa clara de minar essa resistência. Apelando a recursos sentimentais, os produtores da trama – não temendo a condenação do profeta que lamenta "aqueles que ao mal chamam bem" e "tornam doce o que é amargo" (Is 5, 20) – recorreram à mesma estratégia que facilitou a legalização do divórcio no Brasil, há 40 anos: trocar o verdadeiro amor à pessoa humana pela aceitação de uma conduta imoral; transformar a preocupação com o pecador em um perigoso conformismo com o pecado.

A confusão que resulta dessa mentalidade é evidente: quando uma pessoa prefere "rótulos" referentes à sua conduta sexual àquilo que ela realmente é – ser humano, filha de Deus –, a sua verdadeira dignidade é escondida e dá lugar a uma desfiguração:

"A pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus, não pode definir-se cabalmente por uma simples e redutiva referência à sua orientação sexual. Toda e qualquer pessoa que vive sobre a face da terra conhece problemas e dificuldades pessoais, mas possui também oportunidades de crescimento, recursos, talentos e dons próprios. A Igreja oferece ao atendimento da pessoa humana aquele contexto de que hoje se sente a exigência extrema, e o faz exatamente quando se recusa a considerar a pessoa meramente como um 'heterossexual' ou um 'homossexual', sublinhando que todos têm uma mesma identidade fundamental: ser criatura e, pela graça, filho de Deus, herdeiro da vida eterna."[3]

É lamentável que muitos católicos, enganados por esse pensamento reducionista, se tenham prestado ao papel patético não só de dar ibope à novela, como de pedir ou aprovar o "beijo gay", ignorando – ou fingindo ignorar – que essa é apenas a ponta de um iceberg. Desse modo, fazem lembrar a condenação do Apóstolo que, reprovando as práticas homossexuais, lamentou a atitude daqueles que "não somente as praticam, como também aplaudem os que as cometem" (Rm 1, 32).

Mas, ainda que "Amor à Vida" não tivesse mostrado nenhum "beijo gay", ainda que não tivesse reforçado a difusão do lobby homossexual: ainda assim, teria sido um tremendo desamor à vida e à família assisti-la. As telenovelas estão, a todo momento, "forçando limites morais", especialmente quando exibem, de modo constante, cenas de sexo mais ou menos explícitas. Com isso, elas tiram o sexo da intimidade conjugal dos esposos e dizem às pessoas que é normal ter sexo com qualquer um, a qualquer hora e em qualquer lugar, estimulando, assim, uma lenta, porém eficaz, "pornografização" da sociedade[4].

Voltemos ao controle remoto: todos fariam um grande favor a si mesmos, às suas famílias e ao Brasil se, na hora da novela, apagassem seus televisores, acendessem uma vela e rezassem o Terço em família, rogando a Nossa Senhora Aparecida que tenha misericórdia desta Terra de Santa Cruz.

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A obra da redenção de Cristo na Igreja
EspiritualidadeIgreja Católica

A obra da redenção de Cristo na Igreja

A obra da redenção de Cristo na Igreja

Participamos da obra da redenção de Cristo à medida que nos deixamos tocar pela mediação da Igreja.

Equipe Christo Nihil Praeponere31 de Janeiro de 2014Tempo de leitura: 5 minutos
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O Verbo de Deus se fez carne para, rasgando o "véu do templo (...) em duas partes de alto a baixo" (Cf. Mt 27, 51), "abrir os olhos aos cegos, para tirar do cárcere os prisioneiros e da prisão aqueles que vivem nas trevas" (Cf. Is 42, 7).

A promessa divina ao Povo de Israel falava de um novo Moisés, um profeta que, a exemplo do primeiro, fosse capaz de falar "face a face" com o Senhor. Mas, de maneira bastante singular, esse novo Moisés não só veria o rosto de Deus verdadeiramente, como também viveria na mais perfeita relação filial. Se, portanto, no primeiro se encontrava apenas a sombra do Altíssimo - uma vez que de Deus pôde ver somente as costas (Cf. Ex 33, 23) -, no segundo, revela-se o rosto bondoso do Pai. Em Cristo, Deus já não é mais um estranho; é um amigo que, entregando-se completamente na cruz, arranca o homem das trevas e o introduz no mistério do amor. No sacrifício do madeiro, derrama-se o sangue da redenção, cuja única gota "faz salvar todo o mundo e apagar todo o pecado"[1]. Cristo veio à Terra para trazer Deus: "Ele trouxe aos povos da terra o Deus cujo rosto lentamente tinha antes desvelado desde Abraão passando por Moisés e pelos profetas"[2].

Foi inspirado por isso que Santo Tomás de Aquino escreveu na Suma Teológica aquele belíssimo texto, cantado na liturgia do Sábado Santo, durante a bênção do círio pascal: "Ó feliz culpa, que mereceu tal e tão grande Redentor". Eis a graça do Senhor que faz dos abismos da humanidade caminhos para a salvação. Vendo a condição de sua criatura, escravizada pelas correntes do mal, não a abandonou à própria sorte, mas - amando-a de tal maneira - enviou seu próprio Filho "para que todo o que n'Ele crer não pereça, mas tenha a vida eterna" (Cf. Jo 3, 16). O pecado, ao mesmo tempo em que rompe a relação de amizade com Deus, suscita a busca misericordiosa do Pai. Ele parte atrás do filho que se machucou, desce até mesmo aos infernos, "vai procurar Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida.": "Quer ir visitar todos os que se assentaram nas trevas e à sombra da morte. Vai libertar de suas dores aqueles dos quais é filho e para os quais é Deus: Adão acorrentado e Eva com ele cativa"[3].

Com efeito, a obra da redenção de Cristo começa desde a manjedoura. Para que pudesse redimir a humanidade, era necessário que Ele experimentasse todo o drama do homem, bem como suas angústias e alegrias, seus medos e suas esperanças. Jesus toca toda a nossa existência. E, por isso, faz-se igual a nós em tudo, exceto no pecado. Chora perante a dor de uma perda - como na morte de Lázaro -, enfurece-se diante da hipocrisia dos homens - empunhando o chicote para bater nos vendilhões do templo -, sente fome no deserto, unindo-se ao desespero de tantos que ainda hoje vivem essa mesma miséria. Enfim, Cristo consagra-se a si mesmo: "Eu consagro-me por eles, para eles serem também consagrados na verdade" (Cf. Jo 17, 19). Em virtude disso, cada cristão é chamado a contribuir nesta mesma obra, completando em sua própria carne as dores que faltaram na paixão de Jesus. E esta obra redentora de Cristo -- lembrava o Papa João Paulo II -- " deve ser participada pelo mundo pela mediação da Igreja"[4].

A missão da Igreja é anunciar Cristo, fazer-se portadora da sua mensagem, em meio as tantas dificuldades que o mundo de hoje apresenta. Essa missão obedece uma ordem: "O pão é importante, a liberdade é mais importante, mas o mais importante é a adoração"[5]. Precisamente por isso que ela não pode rebaixar a sua ação pastoral à de uma "ong piedosa"[6]. Em primeiro lugar deve estar o anúncio, a entrega da Palavra de Deus. Cristo e Igreja somam um único Corpo, e é somente neste corpo que o homem pode encontrar sossego, pode encontrar a salvação, "porque nos fizeste para ti, e nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em ti descanso."[7] Parece absurdo que a Igreja tenha que se preocupar primeiro com a mensagem, depois com alimento. Diante de uma criança faminta que pede esmola na rua, pode representar até mesmo certa crueldade. Mas é justamente o contrário; é por se preocupar com a fome que a Igreja presta o devido culto a Deus, pois "onde esta ordem dos bens não for respeitada, mas invertida, não haverá nenhuma justiça, não haverá mais cuidado com os homens que sofrem; mas precisamente aí o domínio dos bens materiais será desorganizado e destruído"[8]. A verdadeira caridade nasce do alto da cruz, nasce do sacrifício - a Palavra de Deus é o verdadeiro alimento, "o pão descido do céu" (Cf. Jo 6, 51). O roubo, por sua vez, nasce justamente da inversão desses valores, transformando Deus em um objeto secundário. A esse respeito, ensinava Bento XVI:

[...] Trata-se do primado de Deus. Trata-se de O reconhecer como realidade, como a realidade sem a qual nada mais pode ser bom. A história não pode ser regulada longe de Deus por estruturas simplesmente materiais. Se o coração do homem não for bom, então nada pode tornar-se bom. E a bondade do coração só pode, em última instância, vir daquele que é bom, que é o bem em si mesmo[9].

O exemplo de São Francisco de Assis, Dom Bosco e Madre Teresa de Calcutá nos dá essa certeza. Estes homens e mulheres santos só fizeram o que fizeram pelos pobres porque antes se entregaram totalmente a Deus, passando horas a fio à frente do sacrário. Quanto nos penaliza, portanto, "que muitos participem tão friamente na obra da Redenção de Cristo"[10]. Há-de se lamentar, obviamente, da "sujeira" que há na Igreja, do modo como "se abusa do Santíssimo Sacramento", de como se abusa "da sua presença", a "traição dos discípulos, a recepção indigna do seu Corpo e do seu Sangue é certamente o maior sofrimento do Redentor, o que Lhe trespassa o coração"[11]. Quando a Igreja, por alguma razão, deixa de anunciar Jesus, ela se converte em um instrumento do Anticristo, "confessa o mundanismo do diabo", "o mundanismo do demônio"[12]. Deveríamos pensar muito bem nisso antes de reclamarmos da riqueza da liturgia, da sua beleza e ornamentação. Judas terminou numa forca, trocando Cristo por algumas moedas de prata e reclamando do perfume que havia sido usado para lavar os Seus pés: "Por que não se vendeu este bálsamo por trezentos denários e não se deu aos pobres" (Cf. Jo 12, 5). Não é mero acaso que as experiências revolucionárias dos dois últimos séculos tenham também terminado em grandes forcas: "Dizia isso não porque ele se interessasse pelos pobres, mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, furtava o que nela lançavam" (Cf. Jo 12, 6).

A Igreja, seguindo os passos de Cristo, existe para frear o avanço do inferno na Terra. Quem está nela está em Cristo. E somente quem está em Cristo pode enxergar a face bondosa do Pai, na qual se revela Sua obra redentora, a loucura do seu amor: a vitória da cruz!

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Quem vai pedir explicações à ONU?
Igreja Católica

Quem vai pedir explicações à ONU?

Quem vai pedir explicações à ONU?

As organizações que atacam a Igreja por causa do crime da pedofilia são as mesmas que defendem a chamada "educação sexual".

Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Janeiro de 2014Tempo de leitura: 5 minutos
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Os jornais publicam pomposamente: "ONU cobra explicações do Vaticano sobre casos de pedofilia". A acusação é a mesma de sempre. Segundo a investigadora que integra o Comitê de Direitos da Criança da Organização das Nações Unidas (ONU), a Santa Sé estaria dificultando os trabalhos de investigação, pondo o interesse do clero acima do das vítimas. A declaração foi feita durante a sabatina com um representante da Igreja, monsenhor Silvano Tomasi, na quinta-feira passada (16), em Genebra, na Suíça. Do lado de fora, em frente ao quartel-general do Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU, onde acontecia o encontro, um senhor empunhava um cartaz em tom de protesto: "Vaticano protege pedófilos".

As manchetes não surpreendem. Desde que a chaga da pedofilia se insurgiu dentro da Igreja, a mídia tem feito do caso o seu cavalo de batalha predileto. A técnica é a mesma usada em épocas passadas, quando da criação da imprensa[1]. Trata-se de desacreditar a moral cristã através de uma campanha ostensiva de calúnias, em que se publica qualquer assunto referente a um escândalo ou corrupção eclesiásticos, ao mesmo tempo em que se faz silêncio mórbido quanto aos esclarecimentos e à verdade dos fatos. A regra é uma só: acusação em letras garrafais; resposta da Igreja em notas de rodapé. Não importa tanto a veracidade da notícia, tampouco a reputação e o interesse dos envolvidos. Desde que isso contribua para o achincalhamento público da fé católica, vale tudo. Foi assim que se criou a lenda negra da Inquisição Espanhola[2], a ideia segundo a qual a Igreja seria contra a ciência, o mito sobre Galileu Galilei[3], a mentira sobre a relação de Pio XII com o nazismo[4] e outras estultices repetidas ad nauseam por professores universitários e outros desavisados que creem cegamente em tudo o que sai nos jornais.

É claro que não se está a negar os crimes de pedofilia e outros tantos erros cometidos por maus cristãos nestes dois mil anos de história. De fato, a sucessão de Judas Iscariotes ainda vigora entre as fileiras dos discípulos de Cristo. Os escândalos são inevitáveis -- diz o evangelista --, "mas ai do homem que os causa" (Cf. Mt 18, 7). Os casos de abuso de menores por padres, sem sombra de dúvida, "causaram grande sofrimento e prejudicaram o testemunho da Igreja"[5]. "Estes agravos" -- advertiu Bento XVI, durante a Jornada Mundial da Juventude de Sidney -- "que constituem tão grave traição da confiança, devem ser condenados de modo inequívoco."[6] Exatamente por isso que o Vaticano mantém uma página em seu site chamada "Abuso de menores: a resposta da Igreja", na qual se encontra um calhamaço de documentos e informações acerca do que a Santa Sé tem feito para combater esse crime hediondo[7]. Ainda esta semana, o respeitado site italiano VaticanInsider informava que, sob as ordens do então Papa Bento XVI, mais de 400 clérigos envolvidos em escândalos sexuais haviam sido removidos de suas funções entre os anos de 2008 e 2012[8]. A Igreja Católica sabe muito bem que não se pode "servir a dois senhores" (Cf. Mt 6, 24). É preciso dizer "sim" ao que "sim" e "não" ao que é "não" (Cf. Mt 5, 37). Todavia, há-de se concordar que "se não se é permitido calar-se diante do mal na Igreja, tampouco se deve silenciar o rastro luminoso de bondade e pureza que a fé cristã traçou no decurso dos séculos."[9]

Não se julga a história da arquitetura pelos prédios que caíram. A Igreja Católica, a bem da verdade, é o berço de todo o patrimônio cultural e moral do Ocidente1[10]. Deve-se a ela a ideia de direitos humanos, a noção de caridade, o desenvolvimento da ciência moderna, a construção das universidades, a grandiosidade da arquitetura de Bernini e a beleza da pintura de Michelangelo. Negar esses fatos equivale a amputar a própria identidade. Os franciscanos estavam socorrendo os mendigos enquanto as guilhotinas de Robispierre ceifavam vidas. Retire a Igreja Católica do mundo e o que nos resta é a violência da Revolução Francesa. Não nos custa lembrar a acertada repreensão de Santo Agostinho àqueles tantos filósofos e políticos que criticavam a presença cristã entre a sociedade[11]:

"Os que dizem que a doutrina de Cristo é contrária ao bem do Estado dêem-nos um exército de soldados tais como os faz a doutrina de Cristo, dêem-nos tais governadores de províncias, tais maridos, tais esposas, tais pais, tais filhos, tais mestres, tais servos, tais reis, tais juízes, tais contribuintes, enfim, e agentes do fisco tais como os quer a doutrina cristã! E então ousem ainda dizer que ela é contrária ao Estado! Muito antes, porém, não hesitem em confessar que ela é uma grande salvaguarda para o Estado quando é seguida"

O crime de pedofilia dentro da Igreja, por conseguinte, não é mais ou menos pior do que o que acontece lá fora, no mundo laico. Ambos padecem da mesma gravidade. Ademais, como demonstrou o respeitado sociólogo italiano Massimo Introvigne, o número de sacerdotes envolvidos em abusos de menores é baixíssimo se comparado com o de outras comunidades[12]. A título de exemplo, vejam-se estes dois casos: na Itália, entre um período de várias décadas, o número de sacerdotes denunciados e condenados pelo crime de pedofilia foi de apenas cem, ao passo que seis mil professores de Educação Física receberam a mesma condenação. A Alemanha, por sua vez, amargou 210 mil denúncias de abusos, desde 1995, sendo que deste número, apenas 300 eram relacionados ao clero, o que equivale a menos de 0,2%.

Certamente, isso não nos dá conforto. Seria absurdo pensar que a pedofilia dentro da Igreja pudesse ser justificada pelo que ocorre no meio secular. Ora, a Igreja é mais uma das vítimas! Mas é curioso perceber o interesse da imprensa pelo que ela chama de "pedofilia epidêmica" do clero; enquanto ela silencia sobre outros casos comprovadamente maiores em termos estatísticos. Isso nos leva a suspeitar de nossos interlocutores, sobretudo quando estes mesmos indivíduos, que julgam-se os paladinos dos direitos das crianças, não têm o mínimo pudor de expô-las a programas "infantis" apresentados por moças em trajes de banho ou de se omitir durante anos a fio diante da pedofilia de suas estrelas[13]. Ainda mais, a própria ONU, com suas cartilhas de (des)educação sexual[14] -- na qual se ensina impunemente a masturbação e o sexo pré-matrimonial como saudáveis -- carece de credibilidade para acusar a Igreja de pouca transparência. E os escândalos de "exploração sexual infantil" no Congo, em 2006, envolvendo os soldados da missão de paz da organização, não nos deixam mentir[15].

A ONU pede explicações à Igreja, mas quem vai pedir explicações à ONU?

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