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Um câncer, dois caminhos
Sociedade

Um câncer, dois caminhos

Um câncer, dois caminhos

Seminarista responde a jovem que recorreu à morte assistida: “Eu sinto por ela e entendo sua difícil situação, mas nenhum diagnóstico justifica o suicídio.”

Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Novembro de 2014Tempo de leitura: 5 minutos
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No último mês, a história da norte-americana Brittany Maynard ganhou as manchetes e os noticiários do mundo inteiro. Diagnosticada com um glioblastoma multiforme – a forma mais agressiva e letal de câncer de cérebro –, a jovem de 29 anos de idade publicou um vídeo na Internet, anunciando a sua decisão de morrer [1]. Para conseguir o “direito" de fazê-lo, Brittany se mudou da Califórnia para o Oregon, onde o “suicídio assistido" é permitido para pacientes terminais.

Mesmo afirmando que a sua escolha poderia ser adiada, no último dia 1º de novembro, Brittany pôs fim à própria vida. “Adeus a todos os meus queridos amigos e parentes que amo", escreveu ela no Facebook, horas antes de morrer. “Hoje é o dia que escolhi partir com dignidade diante de minha doença terminal, este terrível câncer cerebral que tirou tanto de mim... mas que poderia ter tirado muito mais". Os últimos dias da vida de Brittany foram dedicados a uma campanha pela legalização do “suicídio assistido", chamado eufemisticamente de “morte com dignidade".

Em inglês, a expressão utilizada pelos veículos de comunicação e pelos adeptos da campanha é “death-with-dignity". Deste modo, a modernidade tenta abrandar, com palavras bonitas, aquilo que é intrinsecamente mau e condenável – como se a alteração das palavras pudesse mudar a substância das coisas. O “suicídio assistido", por mais que se queira pintá-lo com novos nomes, é o que é: um suicídio, “o mal extremo e absoluto; a recusa de interessar-se pela existência; a recusa de fazer um juramento de lealdade à vida". Como bem escreve Chesterton, “o homem que mata um homem, mata um homem", mas “o homem que se mata, mata todos os homens; no que lhe diz respeito, ele elimina o mundo" [2].

Quando se condena com veemência a atitude de Brittany, não se pretende ignorar ou menosprezar o sofrimento pelo qual a jovem passou após descobrir o tumor no seu cérebro. As pessoas e famílias que lidam dia a dia com o drama do câncer – e de qualquer outra enfermidade – sabem que não é nada fácil enfrentar a doença e, principalmente, as suas consequências espirituais, que tocam as profundezas da existência humana. A opção da jovem norte-americana, no entanto, mais do que um “não" ao sofrimento, trata-se de um “não" à própria existência e à dignidade humana. E o pior é que tudo isso recebe o amparo do Estado, como se a liberdade humana fosse onipotente e intocável, até mesmo quando destrói e degrada a si mesma.

A Igreja, ao assumir o papel profético de defesa da vida, não fica à margem do mistério da dor e da morte. O Papa São João Paulo II, em 1984, por meio da carta apostólica Salvifici Doloris, procurou perscrutar o “sentido do sofrimento", que ele classificava como uma experiência “quase inseparável da existência terrena do homem". Na ocasião, o Papa afirmava que, pela Cruz, “o homem está (...) 'destinado' a superar-se a si mesmo" e que “o Amor é ainda a fonte mais plena para a resposta à pergunta acerca do sentido do sofrimento" [3]. De fato, nos anos finais de seu pontificado, após a entrada no terceiro milênio, ele mesmo enfrentaria com coragem a cruz de uma doença, a qual, vivida com amor e entrega a Deus, elevá-lo-ia à honra dos altares.

A santificação do sofrimento, no entanto, não é uma obra restrita ao Papa ou a um ou outro membro do clero, mas um chamado pessoal a todos os cristãos. Quando Brittany prenunciou ao mundo o seu suicídio, em outubro, o jovem Philip Johnson, seminarista da Diocese de Raleigh, na Carolina do Norte, respondeu à sua iniciativa com um bonito artigo, publicado na Internet [4]. A sua história, muito parecida com a de Brittany nos detalhes – também ele foi diagnosticado com um câncer terminal no cérebro, com apenas 24 anos de idade –, tem, todavia, um final bem diferente.

O seminarista Philip Gerard Johnson.

Quando descobriu o câncer, Philip servia como oficial da marinha norte-americana no Golfo Pérsico. “Recordo o momento em que vi as imagens computadorizadas dos scanners cerebrais. Fui à capela da base e caí no chão chorando. Perguntei a Deus: 'Por que eu?'". Depois de consultar os médicos, ele foi informado de que perderia gradualmente o controle de suas funções corporais – “desde paralisia até incontinência" – e que muito provavelmente também as suas faculdades mentais desapareceriam.

Ele conta, porém, que nada disso o faria procurar o chamado “suicídio assistido". “Eu acho que ninguém quer morrer dessa maneira", declara. “A minha vida significa algo para mim, para Deus e para a minha família e amigos, e, salvo uma recuperação milagrosa, continuará significando muito, mesmo depois de paralisado em uma cama de hospital".

O seminarista reconhece a tentação de Brittany de acabar com a sua vida “por seus próprios termos", mas não pode aceitar a sua decisão. “Eu concordo que o seu estado é duro, mas a sua decisão é tudo, menos corajosa", afirma. “Eu sinto por ela e entendo sua difícil situação, mas nenhum diagnóstico justifica o suicídio".

Philip também assegura que, com sua doença, pôde experimentar “incontáveis milagres". Ele aprendeu, sobretudo, que “o sofrimento e a dor de coração, que fazem parte da condição humana, não devem ser desperdiçados ou interrompidos por medo ou procurando controle em uma situação aparentemente incontrolável". “Não procuramos a dor em si mesma – explica Philip –, mas o nosso sofrimento pode ter grande significado se tentamos uni-lo à Paixão de Cristo e oferecê-lo pela conversão ou intenções dos outros".

Mesmo passando por momentos de grande dificuldade, Johnson mantém a confiança em Deus e segue em seus estudos para tornar-se padre. “Ainda fico triste, ainda choro", escreve. “Ainda peço a Deus que mostre a Sua vontade através de todo este sofrimento e me permita ser Seu sacerdote (...), mas sei que não estou sozinho no meu sofrimento".

Eis o exemplo de quem se configurou à redenção de Cristo e, com isso, deu sentido ao próprio sofrimento. Que Deus tenha misericórdia da alma de Brittany Maynard. E que todos os que sofrem ouçam, com esperança, o apelo de Nosso Senhor: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei. Tomai meu jugo sobre vós (...), porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas. Porque meu jugo é suave e meu peso é leve." [5]

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Eu recebi o que vos transmiti
Espiritualidade

Eu recebi o que vos transmiti

Eu recebi o que vos transmiti

Em nossas palavras e obras, ou deixamos transparecer o Deus verdadeiro, ou exibimos um simulacro, moldado impiedosamente por nossas próprias mãos.

Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Outubro de 2014Tempo de leitura: 3 minutos
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Em qualquer tradição, a fidelidade à mensagem recebida é fundamental, seja em reverência àquele que anuncia a mensagem – e não quer vê-la distorcida ou modificada –, seja em respeito a quem ouve a palavra – e não quer, obviamente, ser enganado. Se não se procede assim, tudo se torna uma brincadeira de “telefone sem fio" e, no final, ao invés de comunicação, edifica-se uma torre de Babel, repleta de erros e confusão.

Ora, tudo isso é muito mais verdadeiro quando se trata da revelação de Deus, “o qual não pode enganar-se nem enganar" [1]. Alguém duvida da grande responsabilidade dos Apóstolos, que receberam de Cristo o encargo de “fazer discípulos entre todas as nações" e ensinar-lhes “a observar tudo o que vos tenho ordenado" ( Mt 27, 19. 20), sabendo que de sua fidelidade dependia, por assim dizer, a eficácia da visita de Deus ao mundo? Qual também não é o tamanho da missão confiada a todos os cristãos, chamados a “ordenar segundo Deus as realidades temporais e impregnar o mundo com a força do Evangelho" [2]? Em nossas palavras e obras, ou deixamos transparecer o Deus verdadeiro ou exibimos um simulacro, moldado impiedosamente por nossas próprias mãos.

Por isso, hoje, mais do que nunca, as palavras do Apóstolo são importantes: “ Ego enim accepi a Domino quod et tradidi vobis – Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti" (1 Cor 11, 23). O Papa Bento XVI comenta que, mesmo para São Paulo, “originariamente chamado por Cristo com uma vocação pessoal, (...) conta sobretudo a fidelidade a quanto recebeu. Ele não queria 'inventar' um novo cristianismo, por assim dizer 'paulino'" [3], mas tão somente transmitir aquilo que ele mesmo tinha encontrado. É essa atitude que nos dá “a garantia de que cremos na mensagem originária de Cristo, transmitida pelos Apóstolos" [4].

Este ponto é particularmente importante: da integridade e autenticidade da mensagem passada depende a própria salvação eterna das almas, que encontram em perigo de perder-se por conta de mensageiros infiéis.

Foi com coragem que o Papa Paulo VI denunciou a cultura de morte na encíclica Humanae Vitae, enfrentando uma dura oposição do mundo e de prelados em conluio com o mundo. A sua resposta aos que pretendiam atenuar a doutrina moral da Igreja em favor de certa “abertura" era bem clara: “Não minimizar em nada a doutrina salutar de Cristo é forma de caridade eminente para com as almas" [5].

O santo Papa Pio X também enfrentou dificuldades quando decidiu combater com pulso firme a heresia modernista. Mesmo depois da encíclica Pascendi e da instituição do juramento antimodernista, grande foi a resistência das pessoas, às vezes dentro da própria Igreja.

Um fato significativo com relação a um padre, de nome João Semeria, merece nota. Esse sacerdote, “antes e depois da 'Pascendi', mantinha estreita relação com os mais insignes modernistas" e a sua obra “deixava entrever que no seu afecto ao modernismo talvez houvesse uma parte de convicção pessoal". Conta-se que “Pio X censurou-o um dia, porque 'tendo recebido tantos dons de Deus para fazer o bem, os empregava em escrever livros não conformes com os ensinamentos da Igreja'. Semeria respondeu que o fazia para pôr a religião ao alcance de todos. O Papa acrescentou: – Alargais as portas para que entrem os que estão de fora, mas entretanto obrigais a sair os que estão dentro" [6].

Não importa que o número de fiéis pareça pequeno, mas que se ensine a verdadeira fé e se evangelize com destemor. Sem proselitismo, pois não se pode trair a Nosso Senhor, trocando-O pelos aplausos do mundo ou por alguns trocados, como fez Judas. Não foi o próprio Cristo quem comparou o Reino dos céus a um “grão de mostarda" (cf. Mt 13, 31-32)?

Além disso, não só o Deus Todo-Poderoso não se engana e não engana a ninguém, como não pode ser enganado. Quando alguém escuta a palavra do Evangelho mas prefere modificá-la e adaptá-la aos seus próprios gostos antes de passá-la adiante, não só está enganando as pessoas, como tentando enganar o próprio Deus. E d'Ele – lembra São Paulo – não se zomba: Deus non irridetur (Gl 6, 7). Um dia, todos prestaremos contas a Deus do que fizemos com a mensagem que d'Ele mesmo recebemos.

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Santificado seja o Vosso Nome
Espiritualidade

Santificado seja o Vosso Nome

Santificado seja o Vosso Nome

Pior do que feministas que invadem catedrais são católicos que banalizam o próprio pecado em nome da misericórdia de Deus

Padre Paulo Ricardo27 de Outubro de 2014Tempo de leitura: 4 minutos
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Na oração do Pai-nosso, após manifestar seu afeto filial, Jesus faz um primeiro pedido a Deus-Pai: Santificado seja o vosso nome. Esse pedido remete diretamente para o segundo preceito do Decálogo. Trata-se de honrar a Revelação de Deus ao homem. Ora, informar o nome a alguém significa tornar-se acessível. Antes da Revelação, os pagãos utilizavam-se dos nomes das divindades de forma deliberada. Acreditavam que os deuses estavam submetidos à vontade do homem; eram-lhes subordinados. Por outro lado, Deus, quando se revela, obriga a humanidade a contentar-se com esta afirmação: “Eu sou aquele que sou" (Ex 3, 14). Deus é desde sempre e para a eternidade. Não está submetido à vontade humana.

Na encarnação de Cristo, porém, o nome de Deus é manifestado mais diretamente, de maneira que já é possível instrumentalizá-lO. O nome de Jesus pode ser usado para justificar atrocidades e extorsões. É justamente o que comenta Bento XVI na primeira parte do famoso livro Jesus de Nazaré: “Agora o nome de Deus pode ser abusado e Deus ser desonrado. O nome de Deus pode ser instrumentalizado para nossos objetivos e assim deformada a sua imagem" [1]. Como não pensar no uso indiscriminado do nome de Deus para justificar atos terroristas, contrários à vida e à dignidade da pessoa humana?

A honra ao nome do pai expressa de maneira concreta o amor filial. Nada é mais gratificante a um filho que um elogio a seus pais. A blasfêmia, não obstante, é o típico pecado do Diabo. Basta lembrar que, por serem criaturas puramente espirituais, os anjos não podem fornicar. Por isso, o ataque demoníaco a Deus faz-se pelo orgulho. Dizia Santo Tomás de Aquino: “O orgulho é por natureza o pior de todos os pecados, mais grave que a infidelidade, o desespero, o homicídio, a luxúria etc" [2]. A blasfêmia, por conseguinte, nada mais é do que um meio para Satanás desonrar a essência divina, parodiando-a impunemente, a fim de que o homem tenha de Deus somente uma caricatura. Foi pensando nisso que, certa vez, Santa Teresinha pediu permissão a Jesus para amá-lO no inferno [3]:

[...] Uma tarde não sabendo como dizer a Jesus que o amava e quanto desejava que Ele fosse por toda parte amado e glorificado, eu pensava com dor que Ele nunca poderia receber no inferno um só ato de amor, então disse a Deus que para lhe dar prazer eu consentiria em ver-me aí mergulhada, a fim de que Ele seja amado eternamente nesse lugar de blasfêmia.

A blasfêmia significa um esquecimento da filiação divina e um esquecimento de si mesmo. É um atentado ao próprio homem. Tamanha é a gravidade desse pecado, que o Cura d'Ars perguntava-se espantado: “Não é um milagre extraordinário que a casa onde se acha um blasfemo não seja destruída por um raio ou cumulada com toda sorte de desgraças?" [4]. Em síntese, a agressão ao nome de Deus esconde em seu seio uma revolta contra o plano divino. Desse modo, o pecado contra o segundo mandamento não se traduz somente em ridicularizações hediondas - embora sejam elas as mais comuns, como se costuma apresentar em programas humorísticos, filmes, revistas, etc - às vezes, trata-se de algo muito mais sutil e, por essa razão, muito mais nocivo.

Em nome de um falso conceito de “misericórdia", inúmeras pessoas têm caído na presunção da tibieza, recusando-se a buscar a santidade pessoal. Essa é, sem dúvida, a pior de todas as blasfêmias, pois nessa atitude não só se espezinha o conteúdo das Tábuas da Lei, a pretexto de uma época que segue a regra materialista do laissez faire, laissez passer, le monde va de lui même (deixe fazer, deixe passar, o mundo vai por si mesmo), como também se deturpa a natureza do nome de Deus ao utilizá-lO para justificar posições morais claramente pecaminosas. É como dizer que a crucifixão de Cristo não teve nenhum valor. Não significou a purificação de nossos pecados. Ora, Jesus verteu sangue do alto do madeiro justamente para assumir a nossa culpa. Com efeito, quando a misericórdia é utilizada para a banalização do mal, aí já não há mais misericórdia. Pior do que feministas que invadem catedrais são católicos que banalizam o próprio pecado em nome da misericórdia de Deus.

Sobre essa tendência pouco cristã de se aceitar somente a face misericordiosa de Cristo, criticava o então Cardeal Joseph Ratzinger, na Via-Sacra de 2005 [5]:

Apesar de todas as nossas palavras de horror à vista do mal e dos sofrimentos dos inocentes, não somos nós porventura demasiado inclinados a banalizar o mistério do mal? Da imagem de Deus e de Jesus, no fim de contas, admitimos apenas o aspecto terno e amável, enquanto tranquilamente cancelamos o aspecto do juízo? Como poderia Deus fazer-Se um drama com a nossa fragilidade — pensamos cá conosco —, não passamos de simples homens?! Mas, fixando os sofrimentos do Filho, vemos toda a seriedade do pecado, vemos como tem de ser expiado até ao fim para poder ser superado. Não se pode continuar a banalizar o mal, quando vemos a imagem do Senhor que sofre. Também a nós, diz Ele: Não choreis por Mim, chorai por vós próprios... porque se tratam assim o madeiro verde, que será do madeiro seco?

“Toda a santidade, toda a perfeição de nossa alma consiste em amar a Jesus Cristo nosso Deus, nosso Sumo Bem e Salvador" [6]. Por esta sentença, Santo Afonso de Ligório introduzia seus discípulos à escola de perfeição cristã. Essa perfeição é atingida no louvor ao nome de Nosso Senhor, tornando-O conhecido entre todos os povos e nações. Ainda mais: traduz-se no amor àqueles que são queridos por Deus, a saber, a Virgem Maria e os santos. A forma mais eficaz de santificar o nome de Deus, por conseguinte, é fazendo que cada vez mais pessoas aproximem-se d'Ele com devoção e piedade. Nisto consiste o amor cristão.

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O diálogo pode substituir a missão?
Bento XVI

O diálogo pode substituir a missão?

O diálogo pode substituir a missão?

O diálogo pode substituir a missão? Em discurso a universitários de Roma, o Papa emérito Bento XVI reafirma a importância do anúncio do Evangelho.

Kath.netTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Outubro de 2014Tempo de leitura: 8 minutos
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Em Aula Magna para inaugurar o ano acadêmico da Pontifícia Universidade Urbaniana, de Roma, o Papa Bento XVI enfrentou o espinhoso problema da evangelização. O discurso do Pontífice emérito, lido por seu secretário pessoal, Georg Gänswein, no dia 21 de outubro de 2014, responde se, afinal, “o diálogo pode substituir a missão" e se, ao invés de anunciar a verdade do Evangelho, “não seria mais apropriado encontrar-se no diálogo entre as religiões e servir juntos à causa da paz no mundo". O texto italiano, na íntegra, está no site Kath.net. Segue, abaixo, uma boa tradução da leitura para os católicos de língua portuguesa.

“Católica": esta definição da Igreja, que pertence à profissão de fé desde os tempos mais antigos, carrega consigo alguma coisa de Pentecostes. Recorda-nos que a Igreja de Jesus Cristo nunca visou um só povo ou uma só cultura, mas, desde o início, era destinada à humanidade. As últimas palavras que Jesus disse a seus discípulos foram: “Ide e fazei meus discípulos todos os povos" (Mt 28, 19). E no momento de Pentecostes os Apóstolos falaram em todas as línguas, manifestando, pela força do Espírito Santo, toda a amplitude de sua fé.

Desde então, a Igreja tem crescido realmente em todos os continentes. (...) O profeta Zacarias anunciou um reino messiânico que se estenderiade mar a mar e seria um reino de paz (cf. Zc 9, 9s). Com efeito, onde é celebrada a Eucaristia e os homens, a partir do Senhor, se convertem emum só corpo, faz-se presente algo daquela paz que Jesus Cristo prometeu dar a seus discípulos.

(...)

O Senhor Ressuscitado encarregou os seus Apóstolos e, através deles, os discípulos de todos os tempos, de levarem sua palavra aos confins da terra e de fazer os homens seus discípulos. O Concílio Vaticano II, retomando no decreto Ad Gentes uma tradição constante, trouxe à luz as profundas razões desse encargo missionário e confiou-o com força renovada à Igreja de hoje.

Mas, será que serve? – muitos se perguntam, hoje, dentro e fora da Igreja – A missão ainda é, de fato, algo da atualidade? Não seria mais apropriado encontrar-se no diálogo entre as religiões e servir juntos à causa da paz no mundo? A “contra pergunta" é: o diálogo pode substituir a missão? Com efeito, hoje, muitos são da ideia de que as religiões deveriam respeitar-se e, no diálogo entre elas, fazer um esforço comum pela paz. Nesse modo de pensar, na maioria das vezes se pressupõe que as diversas religiões sejam variações de uma única e mesma realidade; que “religião" seja um gênero comum, que assume formas diferentes segundo as diferentes culturas, mas expressa uma mesma realidade. A questão da verdade, essa que na origem moveu os cristãos mais do que ninguém, vem posta entre parênteses. Pressupõe-se que a autêntica verdade de Deus, em última análise, é inatingível e que, no máximo, se pode tornar presente o que é inefável somente com uma variedade de símbolos. Essa renúncia à verdade parece realista e útil para a paz entre as religiões no mundo.

Todavia, segue sendo letal para a fé. De fato, a fé perde o seu caráter vinculante e a sua seriedade, se tudo se reduz a símbolos no fundo intercambiáveis, capazes de adiar só de longe o inacessível mistério do divino.

(...)

A opinião comum é que as religiões estão, por assim dizer, uma junto à outra, como os continentes e os países no mapa geográfico. Todavia, isso não é exato. As religiões estão em movimento a nível histórico, assim como estão em movimento os povos e as culturas. Existem religiões à espera. As religiões tribais são desse tipo: têm seu momento histórico e, todavia, estão à espera de um encontro maior que as conduza à plenitude.

Nós, como cristãos, estamos convencidos de que, no silêncio, elas esperam o encontro com Jesus Cristo, a luz que vem d'Ele, a única que pode conduzi-las completamente à sua verdade. E Cristo as espera. O encontro com ele não é a irrupção de um estranho que destrói sua própria cultura ou sua própria história. É, ao invés, o ingresso em algo maior, de que eles estão a caminho. Por isso, esse encontro é sempre, ao mesmo tempo, purificação e maturação. Por outro lado, o encontro é sempre recíproco. Cristo espera a sua história, a sua sabedoria, a sua visão das coisas.

Hoje vemos cada vez mais nitidamente outro aspecto: enquanto nos países de sua grande história, o cristianismo se converteu em algo cansado e alguns ramos da grande árvore nascida do grão de mostarda do Evangelho se tornaram secas e caíram na terra, do encontro entre Cristo e as religiões em espera brota nova vida. Onde antes só havia cansaço, manifestam-se e levam alegria as novas dimensões da fé.

As religiões, em si mesmas, não são um fenômeno unitário. Nelas, sempre vão distintas dimensões. De um lado está a grandeza do tender, mais além do mundo, para o Deus eterno. Mas, de outro, encontram-se nela elementos surgidos da história dos homens e da prática das religiões, de onde podem vir, sem dúvida, coisas belas e nobres, mas também coisas baixas e destrutivas, aí onde o egoísmo do homem se apoderou da religião e, em vez de uma abertura, ela se transformou em um fechamento no próprio espaço.

Por isso, a religião nunca é simplesmente um fenômeno só positivo ou só negativo: nela um e outro aspecto se mesclam. Em seus inícios, a missão cristã percebeu de modo muito forte sobretudo os elementos negativos das religiões pagãs que encontrou. Por essa razão, o anúncio cristão foi em um primeiro momento extremamente crítico das religiões. Apenas superando suas tradições que em parte considerava também demoníacas, a fé pôde desenvolver sua força renovadora. Com base em elementos desse tipo, o teólogo evangélico Karl Barth colocou em contraposição religião e fé, julgando a primeira de modo absolutamente negativo, como comportamento arbitrário do homem que tenta, a partir de si mesmo, apoderar-se de Deus. Dietrich Bonhoeffer retomou essa definição pronunciando-se a favor de um cristianismo “sem religião". Trata-se, sem dúvida, de uma visão unilateral que não se pode aceitar. E todavia é correto afirmar que cada religião, para permanecer em seu devido lugar, ao mesmo tempo deve ser sempre crítica da religião. Isso vale, claramente, desde suas origens e com base em sua natureza, para a fé cristã, que, por um lado, olha com profundo respeito para a profunda espera e a profunda riqueza das religiões, mas, por outro, vê de modo crítico também o que é negativo. Sem dizer que a fé cristã deve sempre desenvolver de novo essa força crítica com relação à sua própria história religiosa.

Para nós, cristãos, Jesus Cristo é o Logos de Deus, a luz que nos ajuda a distinguir entre a natureza das religiões e a sua distorção.
Em nosso tempo se faz cada vez mais forte a voz dos que querem convencer-nos de que a religião como tal está superada. Só a razão crítica deveria orientar o agir do homem. Por trás de semelhantes concepções, está a convicção de que, com o pensamento positivista, a razão em toda a sua pureza adquiriu definitivamente o domínio. Na realidade, também esse modo de pensar e de viver está historicamente condicionado e ligado a determinadas culturas históricas. Considerá-lo como o único válido diminuiria o homem, subtraindo dele dimensões essenciais de sua existência. O homem se torna menor, não maior, quando não há espaço para um ethos que, com base em sua autêntica natureza, vá para além do pragmatismo, quando não há espaço para o olhar dirigido a Deus. O lugar próprio da razão positivista está nos grandes campos da ação da técnica e da economia, e todavia esta não encerra toda a humanidade. Assim, cabe a nós abrir de novo as portas que, além da mera técnica e do puro pragmatismo, conduzem a toda a grandeza de nossa existência, ao encontro com o Deus vivo.

Essas reflexões, ainda que um pouco difíceis, deveriam mostrar que hoje, em um mundo profundamente mudado, continua sendo razoável o encargo de comunicar aos outros o Evangelho de Jesus Cristo.
Há, todavia, um segundo modo, mais simples, para justificar hoje essa tarefa. A alegria exige ser comunicada. O amor exige ser comunicado. A verdade exige ser comunicada. Quem recebeu uma grande alegria, não pode guardá-la apenas para si mesmo, deve transmiti-la. O mesmo vale para o dom do amor, para o dom do reconhecimento da verdade que se manifesta.

Quando André encontrou Cristo, não pôde senão dizer a seu irmão: “Encontramos o Messias" (Jo 1, 41). E Felipe, ao qual foi dado o dom do mesmo encontro, não pôde senão dizer a Natanael que havia encontrado aquele sobre o qual tinham escrito Moisés e os profetas (cf. Jo 1, 45). Anunciamos Jesus Cristo não para procurar para a nossa comunidade o maior número de membros possíveis; e tanto menos pelo poder. Falamos d'Ele porque sentimos o dever de transmitir a alegria que nos foi doada.

Seremos anunciadores credíveis de Jesus Cristo quando o tivermos encontrado realmente no profundo da nossa existência, quando, através do encontro com Ele, nos for doada a grande experiência da verdade, do amor e da alegria.
Faz parte da natureza da religião a profunda tensão entre a oferta mística a Deus, na qual nos entregamos totalmente a Ele, e a responsabilidade pelo próximo e pelo mundo por Ele criado. Marta e Maria são sempre inseparáveis, ainda que, de vez em quando, a ênfase possa recair sobre uma ou sobre a outra. O ponto de encontro entre os dois polos é o amor no qual tocamos ao mesmo tempo Deus e as suas criaturas. “Conhecemos e cremos no amor" (1 Jo 4, 16): essa frase exprime a autêntica natureza do cristianismo. O amor, que se realiza e se reflete de modo multiforme nos santos de todos os tempos, é a autêntica prova da verdade do cristianismo.

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