Ecce lignum Crucis in quo salus mundi pependit — “Eis o lenho da Cruz, do qual pendeu a salvação do mundo”. 

Dulce lignum, dulces clavos, dulce pondus sustinet — “Doce lenho e doces cravos, que tão doce peso sustentastes” (Hino de Sexta-feira Santa).

Os seguidores de Nosso Senhor sempre prezaram pelas relíquias da Paixão. A Vera Cruz, o lenho real no qual Jesus foi crucificado, tem chamado a atenção de modo especial desde o reinado do Imperador Constantino. Depois de ter legalizado a religião cristã em 313, sua devota mãe, Helena, viajou até a Terra Santa para visitar lugares bíblicos e construir igrejas. 

Em 326, ela encontrou em Jerusalém o que julgavam ser a Cruz original, fonte de todas as relíquias de madeira do mundo. Estava enterrada profundamente sob um templo de Vênus/Afrodite, que o imperador pagão Adriano havia construído sobre o Gólgota dois séculos antes, depois da segunda rebelião dos judeus. Para homenagear o local, em 333 Constantino terminou a primeira Igreja do Santo Sepulcro, uma estrutura que abarcava a rocha do Calvário e o túmulo onde Jesus ressuscitou.

Não há nenhum registro de testemunhas oculares da escavação de Santa Helena. Eusébio, historiador da Igreja, diz apenas que Constantino ordenou que o bispo de Jerusalém procurasse a Cruz e que Santa Helena visitou o local em 326. As referências mais antigas a respeito do papel da imperatriz na escavação datam da última década do séc. IV. São elas a História Eclesiástica de Gelásio de Cesareia e a oração fúnebre para o Imperador Teodósio I, de 395.

Santa Helena, no entanto, levou para seu palácio em Roma algumas de suas descobertas. Parte desse complexo imperial tornou-se a Igreja da Santa Cruz em Jerusalém, uma das sete igrejas estacionais antigas da Igreja. Ainda há nela um letreiro de madeira que é considerado o titulus pregado acima da cabeça do Salvador crucificado. 

Alguns anos após o retorno de Santa Helena, surgiram relatos de que as relíquias da Vera Cruz estariam se espalhando pelo Império. As catequeses escritas antes de 350 por Cirilo, bispo de Jerusalém, declararam: “O mundo inteiro já está cheio de fragmentos da Cruz”. Uma mulher chamada Egéria, que fez uma peregrinação da Espanha até o Oriente Próximo (382–84), descreve os rituais solenes em Jerusalém em honra do Lenho Sagrado na Sexta-feira da Paixão e no aniversário de sua descoberta (3 de maio).

À medida que se espalhavam pela cristandade, as relíquias da Vera Cruz serviram de inspiração. Quando, em 569, o imperador bizantino enviou uma dessas relíquias ao convento de Santa Radegunda em Poitiers, o capelão do local, São Venâncio Fortunato, escreveu dois grandes hinos: Vexilla regis prodeunt e Pange, lingua, gloriosi lauream certaminis, cantados até hoje nas liturgias da Sexta-feira da Paixão. O primeiro deles foi também a canção de marcha dos cruzados medievais. Tais presentes encantavam os governantes piedosos. O rei Alfredo, o Grande, recebeu uma relíquia da Vera Cruz do Papa Martinho I, em 884. Isso pode ter levado um poeta anglo-saxão anônimo a escrever O sonho da Cruz, uma maravilhosa reconstrução da Paixão de Cristo na linguagem heroica do Norte.

O Tríptico de Stavelot.

As relíquias da Vera Cruz passaram então a precisar de relicários dignos de sua singularidade. Um glorioso exemplo é o Tríptico de Stavelot, feito no vale do rio Mosa por volta do ano de 1150, hoje propriedade valiosa da Biblioteca e Museu Morgan, na cidade de Nova Iorque. Ele mostra um pedaço do Madeiro Santo em forma de cruz, em um painel dourado decorado com gemas, prata e requintados medalhões esmaltados narrando a conversão de Constantino e a descoberta de Santa Helena. Constantino, considerado santo em Bizâncio, e Santa Helena também figuram abaixo da relíquia como as usuais imagens de Maria e São João nas cenas da crucifixão. A Cruz foi e continua a ser o emblema de Santa Helena na arte religiosa, tanto no Ocidente quanto no Oriente.

Surgiram lendas ricas em simbolismo em torno da descoberta de Santa Helena. Há uma versão recheadíssima e confusa na Legenda Áurea, de Tiago de Voragine (1260), o livro mais popular de vidas de santos e grande deleite na Idade Média. Sua principal fonte é um texto apócrifo do séc. V conhecido como Atos de Judas Ciríaco. (Algumas ilustrações dos episódios podem ser encontradas nas Horas de Catarina de Cleves, manuscrito de meados do séc. XV, atualmente na Biblioteca e Museu Morgan.)

Enquanto Adão jazia moribundo, seu virtuoso filho Set voltou ao portão do Paraíso para implorar a São Miguel Arcanjo um remédio para o pai. Miguel deu-lhe um galho da Árvore da Misericórdia (outras fontes dizem que era a Árvore do Conhecimento pela qual Adão e Eva vieram a pecar). O anjo prometeu que Adão seria curado no dia em que uma árvore nascida desse ramo frutificasse.

Mas Adão já estava morto quando Set voltou para casa, de modo que ele plantou o ramo maravilhoso na sepultura do pai. O ramo cresceu e deu origem a uma árvore esplêndida que ainda florescia milhares de anos depois, no reinado de Salomão. (Algo que está implícito aqui, mas explícito alhures, é que Adão foi sepultado sob o lugar em que posteriormente a Cruz de Cristo seria erguida, de forma que o sangue do Redentor lhe pudesse embeber os ossos. É por isso que a iconografia tradicional coloca o esqueleto de Adão aos pés da Cruz no Calvário/Gólgota, que significa “lugar da caveira”.)

Salomão queria usar a madeira da árvore na construção de seu Templo. Mas sua madeira nunca se mostrou apropriada: as tábuas ou se encolhiam ou encompridavam antes de as colocarem no lugar. Frustrado, o rei lançou a madeira sobre uma lagoa para servir de ponte. Quando a Rainha de Sabá visitou Jerusalém, teve uma visão do futuro salvífico daquele lenho e se recusou a pisá-lo. A rainha explicou a Salomão que um dia um homem penderia desse lenho e daria fim ao reino dos judeus, e o rei fez com que a madeira fosse enterrada bem fundo na terra.

Mas surgiu nesse lugar uma nascente, que alimentou a piscina de Betesda, onde curas milagrosas ocorriam uma vez ou outra, quando um anjo agitava as águas. Nesse mesmo lugar, Jesus curou um paralítico e perdoou-lhe os pecados (cf. Jo 5, 2-18). Pouco tempo depois, a madeira enterrada emergiu até a superfície da piscina. Depois de ser empregada na confecção da Cruz em que Jesus foi crucificado, ela se perdeu por três séculos.

Quando Constantino enviou Santa Helena a Jerusalém para procurar a Cruz, ninguém sabia onde ela estava, com exceção de um judeu chamado Judas. Esse homem dizia ser neto de Zaqueu e sobrinho de Santo Estevão, mas recusou-se a esclarecer a imperatriz, até ser aprisionado num poço seco e mantido ali sem comida por sete dias.

“O Sonho de Santa Helena”, por Paolo Veronese.

Quando Judas finalmente concordou em mostrar o lugar do Gólgota, uma doce fragrância encheu o ar. Depois que Santa Helena tirou o obscuro templo de Adriano do caminho, o próprio Judas cavou vinte pés abaixo e encontrou três cruzes enterradas. A Vera Cruz foi distinguida das outras duas porque, a seu toque, um jovem ressuscitou dos mortos ou ainda porque o bispo Macário de Jerusalém usou-a para curar uma nobre doente. Intimidado pelo que se passou, Judas aclamou Cristo como Salvador do mundo. Ao ser batizado, escolheu para si o nome Ciríaco e sucedeu Macário quando este morreu. 

A pedido de Santa Helena, Judas voltou ao Gólgota em busca dos cravos da crucifixão. A oração dele fez com que os cravos brotassem “como ouro da terra”. Ela colocou dois dos quatro Cravos Sagrados numa rédea para o cavalo de guerra de Constantino, pôs outro em uma estátua do imperador em Roma e jogou o último no mar Adriático para acalmar as águas. Segundo outras lendas, os Cravos teriam sido colocados no freio do cavalo de Constantino e em seu elmo. O quarto cravo supõe-se ter sido incorporado à Coroa de Ferro, outrora usada para fazer os imperadores do Sacro Império Romano reis da Itália, mas a suposta tira de ferro é, na verdade, de prata.

O bispo Ciríaco, o “anti-Judas”, foi mais tarde martirizado no reinado do sucessor de Constantino, Juliano, o Apóstata, que em vão tentou reverter o triunfo da cristandade.

Como as piedosas fantasias sobre a Vera Cruz se encaixam na história?

“Cristo na Cruz com S. João e Maria Madalena”, de um seguidor de Jacques Stella.

A crucifixão era o modo mais terrível de punir criminosos entre os romanos, até que Constantino baniu o costume. Ao contrário do que figura no imaginário tradicional, o condenado carregava apenas a trave mestra (patibulum), não a estrutura inteira, pois a estaca vertical já ficava no lugar da execução. Ele geralmente trazia uma placa (titulus) pendurada no pescoço informando seu crime, a qual era pregada no topo da cruz. A vítima desnuda era pregada pelos pulsos, não pelas mãos. Os pés eram pregados individualmente, não sobrepostos. Havia uma cavilha de apoio (sedile) sob as pernas. Se necessário, colocavam-se cordas ao redor do corpo por segurança.

A pintura mais antiga de Cristo a que tivemos acesso é um grafite feio de um homem crucificado com cabeça de asno, desenhado no muro de uma tenda militar em Roma. Data de quase um século antes da escavação de Santa Helena. Uma placa de marfim entalhada por volta de 420, que hoje está no Museu Britânico, é a mais antiga imagem cristã da crucifixão de que se tem notícia. Ela mostra Jesus vestindo uma tanga, pregado pelas mãos e apoiado em uma plataforma (suppedaneum). Mas esse objeto devocional não pode ser tomado como representação precisa do fato.

Embora houvesse um túmulo novo reservado para o corpo de Nosso Senhor, Ele não morreu em uma Cruz feita pouco antes de sua crucifixão. Antes dele, outros haviam padecido naquele lenho e ali outros padeceram depois dele. As execuções não podiam acontecer dentro da cidade, e pararam de ser feitas no Calvário depois que o rei judeu Herodes Agripa I expandiu os muros de Jerusalém para além dali, nos anos 41-42. Uma homilia escrita por São João Crisóstomo em 398 sugere que cristãos da região viram o que fora feito às cruzes descartadas e, mais tarde, as esconderam.

No livro The Quest for the True Cross [“A Busca pela Vera Cruz”], de 2000, Carsten Peter Thiede e Matthew d’Ancona sustentam que os cristãos preservaram na memória o lugar em que o Lenho Sagrado havia sido enterrado, apesar das perseguições e de duas revoltas dos judeus. Por isso, o que Santa Helena encontrou em 326 pode ter sido a verdadeira Madeira da Cruz de Cristo. Independentemente dos méritos dessa teoria, cristãos de ontem e de hoje acreditam que as relíquias são autênticas.

No entanto, a história recorda o destino de parte da trave mestra, que foi enterrada em Jerusalém. Em 614, ela foi levada, durante a invasão persa, à Terra Santa. O imperador bizantino Heráclito conseguiu recuperá-la depois de derrotar o rei persa Cosroes II em 627. Depois de mantê-la em Constantinopla por dois anos, ele devolveu o Lenho precioso a Jerusalém, levando-a ele mesmo vestido de trajes penitenciais. Esse fato ainda é comemorado na Festa da Exaltação da Santa Cruz, em 14 de setembro.

Mas entre o roubo e a restituição da Cruz a Jerusalém, Maomé fez sua Hégira (fuga), dando início ao primeiro ano do calendário islâmico em 622. Uma fatigante guerra entre Bizâncio e a Pérsia deixou o Oriente Próximo vulnerável para a conquista islâmica na geração posterior. 

A relíquia da trave de Jerusalém foi escondida quando El Hakim, o louco califa do Egito, destruiu o Santo Sepulcro em 1009. Ela foi recuperada depois da reconquista da Cidade Santa na Primeira Cruzada, em 1099. Posteriormente, cruzados levaram essa parte da Cruz em batalha como um talismã de vitória, até que a perderam definitivamente quando Saladino aniquilou um exército cristão nos Cornos de Hatim, em 1187.

Apesar de todos os riscos do tempo, lascas honradas como fragmentos da Vera Cruz continuam a “encher o mundo todo”. Uma enorme estátua de Santa Helena segurando a Cruz jaz num nicho no pilar noroeste da Basílica de São Pedro, em Roma. Uma relíquia do Lenho Sagrado que ela encontrou há dezessete séculos se encontra bem acima dela.