História, lendas e relíquias da Vera Cruz
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História, lendas e relíquias da Vera Cruz
História da Igreja

História, lendas
e relíquias da Vera Cruz

História, lendas e relíquias da Vera Cruz

O lenho “do qual pendeu a salvação do mundo” tem uma história, lendas ricas em simbolismo foram escritas a seu respeito e, desde a sua descoberta, no século IV, seus fragmentos estão dispersos pelo mundo inteiro.

Sandra MieselTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Setembro de 2021Tempo de leitura: 10 minutos
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Ecce lignum Crucis in quo salus mundi pependit — “Eis o lenho da Cruz, do qual pendeu a salvação do mundo”. 

Dulce lignum, dulces clavos, dulce pondus sustinet — “Doce lenho e doces cravos, que tão doce peso sustentastes” (Hino de Sexta-feira Santa).

Os seguidores de Nosso Senhor sempre prezaram pelas relíquias da Paixão. A Vera Cruz, o lenho real no qual Jesus foi crucificado, tem chamado a atenção de modo especial desde o reinado do Imperador Constantino. Depois de ter legalizado a religião cristã em 313, sua devota mãe, Helena, viajou até a Terra Santa para visitar lugares bíblicos e construir igrejas. 

Em 326, ela encontrou em Jerusalém o que julgavam ser a Cruz original, fonte de todas as relíquias de madeira do mundo. Estava enterrada profundamente sob um templo de Vênus/Afrodite, que o imperador pagão Adriano havia construído sobre o Gólgota dois séculos antes, depois da segunda rebelião dos judeus. Para homenagear o local, em 333 Constantino terminou a primeira Igreja do Santo Sepulcro, uma estrutura que abarcava a rocha do Calvário e o túmulo onde Jesus ressuscitou.

Não há nenhum registro de testemunhas oculares da escavação de Santa Helena. Eusébio, historiador da Igreja, diz apenas que Constantino ordenou que o bispo de Jerusalém procurasse a Cruz e que Santa Helena visitou o local em 326. As referências mais antigas a respeito do papel da imperatriz na escavação datam da última década do séc. IV. São elas a História Eclesiástica de Gelásio de Cesareia e a oração fúnebre para o Imperador Teodósio I, de 395.

Santa Helena, no entanto, levou para seu palácio em Roma algumas de suas descobertas. Parte desse complexo imperial tornou-se a Igreja da Santa Cruz em Jerusalém, uma das sete igrejas estacionais antigas da Igreja. Ainda há nela um letreiro de madeira que é considerado o titulus pregado acima da cabeça do Salvador crucificado. 

Alguns anos após o retorno de Santa Helena, surgiram relatos de que as relíquias da Vera Cruz estariam se espalhando pelo Império. As catequeses escritas antes de 350 por Cirilo, bispo de Jerusalém, declararam: “O mundo inteiro já está cheio de fragmentos da Cruz”. Uma mulher chamada Egéria, que fez uma peregrinação da Espanha até o Oriente Próximo (382–84), descreve os rituais solenes em Jerusalém em honra do Lenho Sagrado na Sexta-feira da Paixão e no aniversário de sua descoberta (3 de maio).

À medida que se espalhavam pela cristandade, as relíquias da Vera Cruz serviram de inspiração. Quando, em 569, o imperador bizantino enviou uma dessas relíquias ao convento de Santa Radegunda em Poitiers, o capelão do local, São Venâncio Fortunato, escreveu dois grandes hinos: Vexilla regis prodeunt e Pange, lingua, gloriosi lauream certaminis, cantados até hoje nas liturgias da Sexta-feira da Paixão. O primeiro deles foi também a canção de marcha dos cruzados medievais. Tais presentes encantavam os governantes piedosos. O rei Alfredo, o Grande, recebeu uma relíquia da Vera Cruz do Papa Martinho I, em 884. Isso pode ter levado um poeta anglo-saxão anônimo a escrever O sonho da Cruz, uma maravilhosa reconstrução da Paixão de Cristo na linguagem heroica do Norte.

O Tríptico de Stavelot.

As relíquias da Vera Cruz passaram então a precisar de relicários dignos de sua singularidade. Um glorioso exemplo é o Tríptico de Stavelot, feito no vale do rio Mosa por volta do ano de 1150, hoje propriedade valiosa da Biblioteca e Museu Morgan, na cidade de Nova Iorque. Ele mostra um pedaço do Madeiro Santo em forma de cruz, em um painel dourado decorado com gemas, prata e requintados medalhões esmaltados narrando a conversão de Constantino e a descoberta de Santa Helena. Constantino, considerado santo em Bizâncio, e Santa Helena também figuram abaixo da relíquia como as usuais imagens de Maria e São João nas cenas da crucifixão. A Cruz foi e continua a ser o emblema de Santa Helena na arte religiosa, tanto no Ocidente quanto no Oriente.

Surgiram lendas ricas em simbolismo em torno da descoberta de Santa Helena. Há uma versão recheadíssima e confusa na Legenda Áurea, de Tiago de Voragine (1260), o livro mais popular de vidas de santos e grande deleite na Idade Média. Sua principal fonte é um texto apócrifo do séc. V conhecido como Atos de Judas Ciríaco. (Algumas ilustrações dos episódios podem ser encontradas nas Horas de Catarina de Cleves, manuscrito de meados do séc. XV, atualmente na Biblioteca e Museu Morgan.)

Enquanto Adão jazia moribundo, seu virtuoso filho Set voltou ao portão do Paraíso para implorar a São Miguel Arcanjo um remédio para o pai. Miguel deu-lhe um galho da Árvore da Misericórdia (outras fontes dizem que era a Árvore do Conhecimento pela qual Adão e Eva vieram a pecar). O anjo prometeu que Adão seria curado no dia em que uma árvore nascida desse ramo frutificasse.

Mas Adão já estava morto quando Set voltou para casa, de modo que ele plantou o ramo maravilhoso na sepultura do pai. O ramo cresceu e deu origem a uma árvore esplêndida que ainda florescia milhares de anos depois, no reinado de Salomão. (Algo que está implícito aqui, mas explícito alhures, é que Adão foi sepultado sob o lugar em que posteriormente a Cruz de Cristo seria erguida, de forma que o sangue do Redentor lhe pudesse embeber os ossos. É por isso que a iconografia tradicional coloca o esqueleto de Adão aos pés da Cruz no Calvário/Gólgota, que significa “lugar da caveira”.)

Salomão queria usar a madeira da árvore na construção de seu Templo. Mas sua madeira nunca se mostrou apropriada: as tábuas ou se encolhiam ou encompridavam antes de as colocarem no lugar. Frustrado, o rei lançou a madeira sobre uma lagoa para servir de ponte. Quando a Rainha de Sabá visitou Jerusalém, teve uma visão do futuro salvífico daquele lenho e se recusou a pisá-lo. A rainha explicou a Salomão que um dia um homem penderia desse lenho e daria fim ao reino dos judeus, e o rei fez com que a madeira fosse enterrada bem fundo na terra.

Mas surgiu nesse lugar uma nascente, que alimentou a piscina de Betesda, onde curas milagrosas ocorriam uma vez ou outra, quando um anjo agitava as águas. Nesse mesmo lugar, Jesus curou um paralítico e perdoou-lhe os pecados (cf. Jo 5, 2-18). Pouco tempo depois, a madeira enterrada emergiu até a superfície da piscina. Depois de ser empregada na confecção da Cruz em que Jesus foi crucificado, ela se perdeu por três séculos.

Quando Constantino enviou Santa Helena a Jerusalém para procurar a Cruz, ninguém sabia onde ela estava, com exceção de um judeu chamado Judas. Esse homem dizia ser neto de Zaqueu e sobrinho de Santo Estevão, mas recusou-se a esclarecer a imperatriz, até ser aprisionado num poço seco e mantido ali sem comida por sete dias.

“O Sonho de Santa Helena”, por Paolo Veronese.

Quando Judas finalmente concordou em mostrar o lugar do Gólgota, uma doce fragrância encheu o ar. Depois que Santa Helena tirou o obscuro templo de Adriano do caminho, o próprio Judas cavou vinte pés abaixo e encontrou três cruzes enterradas. A Vera Cruz foi distinguida das outras duas porque, a seu toque, um jovem ressuscitou dos mortos ou ainda porque o bispo Macário de Jerusalém usou-a para curar uma nobre doente. Intimidado pelo que se passou, Judas aclamou Cristo como Salvador do mundo. Ao ser batizado, escolheu para si o nome Ciríaco e sucedeu Macário quando este morreu. 

A pedido de Santa Helena, Judas voltou ao Gólgota em busca dos cravos da crucifixão. A oração dele fez com que os cravos brotassem “como ouro da terra”. Ela colocou dois dos quatro Cravos Sagrados numa rédea para o cavalo de guerra de Constantino, pôs outro em uma estátua do imperador em Roma e jogou o último no mar Adriático para acalmar as águas. Segundo outras lendas, os Cravos teriam sido colocados no freio do cavalo de Constantino e em seu elmo. O quarto cravo supõe-se ter sido incorporado à Coroa de Ferro, outrora usada para fazer os imperadores do Sacro Império Romano reis da Itália, mas a suposta tira de ferro é, na verdade, de prata.

O bispo Ciríaco, o “anti-Judas”, foi mais tarde martirizado no reinado do sucessor de Constantino, Juliano, o Apóstata, que em vão tentou reverter o triunfo da cristandade.

Como as piedosas fantasias sobre a Vera Cruz se encaixam na história?

“Cristo na Cruz com S. João e Maria Madalena”, de um seguidor de Jacques Stella.

A crucifixão era o modo mais terrível de punir criminosos entre os romanos, até que Constantino baniu o costume. Ao contrário do que figura no imaginário tradicional, o condenado carregava apenas a trave mestra (patibulum), não a estrutura inteira, pois a estaca vertical já ficava no lugar da execução. Ele geralmente trazia uma placa (titulus) pendurada no pescoço informando seu crime, a qual era pregada no topo da cruz. A vítima desnuda era pregada pelos pulsos, não pelas mãos. Os pés eram pregados individualmente, não sobrepostos. Havia uma cavilha de apoio (sedile) sob as pernas. Se necessário, colocavam-se cordas ao redor do corpo por segurança.

A pintura mais antiga de Cristo a que tivemos acesso é um grafite feio de um homem crucificado com cabeça de asno, desenhado no muro de uma tenda militar em Roma. Data de quase um século antes da escavação de Santa Helena. Uma placa de marfim entalhada por volta de 420, que hoje está no Museu Britânico, é a mais antiga imagem cristã da crucifixão de que se tem notícia. Ela mostra Jesus vestindo uma tanga, pregado pelas mãos e apoiado em uma plataforma (suppedaneum). Mas esse objeto devocional não pode ser tomado como representação precisa do fato.

Embora houvesse um túmulo novo reservado para o corpo de Nosso Senhor, Ele não morreu em uma Cruz feita pouco antes de sua crucifixão. Antes dele, outros haviam padecido naquele lenho e ali outros padeceram depois dele. As execuções não podiam acontecer dentro da cidade, e pararam de ser feitas no Calvário depois que o rei judeu Herodes Agripa I expandiu os muros de Jerusalém para além dali, nos anos 41-42. Uma homilia escrita por São João Crisóstomo em 398 sugere que cristãos da região viram o que fora feito às cruzes descartadas e, mais tarde, as esconderam.

No livro The Quest for the True Cross [“A Busca pela Vera Cruz”], de 2000, Carsten Peter Thiede e Matthew d’Ancona sustentam que os cristãos preservaram na memória o lugar em que o Lenho Sagrado havia sido enterrado, apesar das perseguições e de duas revoltas dos judeus. Por isso, o que Santa Helena encontrou em 326 pode ter sido a verdadeira Madeira da Cruz de Cristo. Independentemente dos méritos dessa teoria, cristãos de ontem e de hoje acreditam que as relíquias são autênticas.

No entanto, a história recorda o destino de parte da trave mestra, que foi enterrada em Jerusalém. Em 614, ela foi levada, durante a invasão persa, à Terra Santa. O imperador bizantino Heráclito conseguiu recuperá-la depois de derrotar o rei persa Cosroes II em 627. Depois de mantê-la em Constantinopla por dois anos, ele devolveu o Lenho precioso a Jerusalém, levando-a ele mesmo vestido de trajes penitenciais. Esse fato ainda é comemorado na Festa da Exaltação da Santa Cruz, em 14 de setembro.

Mas entre o roubo e a restituição da Cruz a Jerusalém, Maomé fez sua Hégira (fuga), dando início ao primeiro ano do calendário islâmico em 622. Uma fatigante guerra entre Bizâncio e a Pérsia deixou o Oriente Próximo vulnerável para a conquista islâmica na geração posterior. 

A relíquia da trave de Jerusalém foi escondida quando El Hakim, o louco califa do Egito, destruiu o Santo Sepulcro em 1009. Ela foi recuperada depois da reconquista da Cidade Santa na Primeira Cruzada, em 1099. Posteriormente, cruzados levaram essa parte da Cruz em batalha como um talismã de vitória, até que a perderam definitivamente quando Saladino aniquilou um exército cristão nos Cornos de Hatim, em 1187.

Apesar de todos os riscos do tempo, lascas honradas como fragmentos da Vera Cruz continuam a “encher o mundo todo”. Uma enorme estátua de Santa Helena segurando a Cruz jaz num nicho no pilar noroeste da Basílica de São Pedro, em Roma. Uma relíquia do Lenho Sagrado que ela encontrou há dezessete séculos se encontra bem acima dela.

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Santa Hildegarda: uma visionária para todas as eras
Santos & Mártires

Santa Hildegarda:
uma visionária para todas as eras

Santa Hildegarda: uma visionária para todas as eras

A vida e os escritos de Santa Hildegarda de Bingen colocam-nos uma dura pergunta: teria Deus falado por meio dessa mulher, não apenas para os contemporâneos dela, mas a toda a humanidade, em todas as épocas, ou ela não passou de uma mulher muito doente?

Brennan PurselTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Setembro de 2021Tempo de leitura: 9 minutos
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Santa Hildegarda de Bingen (1098–1179) é uma maravilha do passado, um fenômeno histórico por direito próprio, e um questionamento direto a todos que se preocupam em aprender sobre ela e com ela hoje, no século XXI. Em suma, a vida e os escritos dela colocam uma dura pergunta: teria Deus falado por meio dessa mulher, não apenas para os contemporâneos dela, mas a toda a humanidade, em todas as épocas, ou ela não passou de uma mulher muito doente?

Hildegarda passou quase toda a vida no vale do Reno, perto de onde o rio Meno nele deságua. O vale central da Renânia é uma das regiões mais férteis da Alemanha; possui um clima suave e temperado, onde pessoas viveram em comunidades por milênios. Desde suas origens, o Reno forma uma via rápida natural nas terras alpinas até sua foz no Canal da Mancha e no Mar do Norte. O paradoxo da vida de Hildegarda é que ela foi uma alma solitária e contemplativa que viveu numa importante via, por assim dizer, onde ela se tornou o centro das atenções.  

Hildegarda, talvez um dos dez filhos de um casal da nobreza local, provavelmente teve uma primeira infância bastante privilegiada e normal, exceto por sofrer de uma doença que a deixava acamada. Durante esses períodos de fraqueza e dor, ela começou a ver imagens incomuns, talvez a partir dos cinco anos de idade. Quando falou com as pessoas sobre suas visões, mandaram-na ficar calada. Quando tinha sete anos, seus pais decidiram que ela deveria entrar para vida religiosa, e assim a entregaram aos cuidados de Juta (Judite), uma anacoreta, enclausurada numa cela de pedra adjacente a um mosteiro beneditino. Lá Hildegarda viveu, estudou, trabalhou e rezou por trinta anos. Um número cada vez maior de moças foi viver com elas, até que Juta se tornou a superiora de um pequeno convento beneditino. Quando Juta morreu em 1136 (Hildegarda tinha 38 anos), a comunidade de mulheres religiosas a escolheu por unanimidade para liderá-las. Pouco se sabe dessas três décadas da vida de Hildegarda, com a exceção de que seus ataques de enfermidade e as visões continuaram. Ela só falou com Juta sobre as visões, mas esta informou a um monge, Volmar, cuja posição era supervisionar as religiosas e ministrar-lhes os sacramentos.

A vida de Hildegarda mudou radicalmente aos 42 anos. A essa altura, ela já tivera a sua visão mais poderosa, não apenas uma visão de luzes e imagens, mas de inspiração, de compreensão, uma infusão de conhecimento sobre o significado da Escritura e de todo o conteúdo da fé. Também recebeu a ordem de escrever o que havia aprendido. Sentindo-se aquém da tarefa, Hildegarda ficou gravemente doente. Volmar mandou que ela escrevesse, e o abade do mosteiro adjacente concordou. Sua doença arrefeceu, e ela começou a escrever o que vira em latim (que não aprendera muito bem), trabalhando com Volmar, que a ajudou durante os trinta anos seguintes. Sua primeira e maior obra, Scivias, discorre em três livros sobre Deus e toda a Criação, a Redenção, a Igreja, o demônio e, finalmente, sobre toda a história da salvação. O primeiro a ler trechos da obra foi o abade; depois, o arcebispo de Mainz; depois, São Bernardo de Claraval e o próprio Papa, Eugênio (1145–1153), que leu os escritos dela em voz alta aos participantes de um sínodo na cidade de Trier, na Alemanha. A notícia se espalhara. Uma verdadeira profetisa vivia no Reno. Ainda que limitada, chegara ao fim a solidão de Hildegarda.

Novas vocações afluíram ao convento dela. Talvez para separar as ovelhas dos bodes, ela transferiu sua comunidade para um vale inabitado e arborizado às margens do Reno, e começou a construir o novo convento. Mas o movimento não parou por aí. Em poucos anos, ela teve de fundar outro convento, desta vez na margem oposta do rio. Como abadessa, ela visitava aquele mosteiro uma ou duas vezes por semana. As pessoas afluíam para ouvi-la falar, para receber sua bênção e para obter tratamentos para suas enfermidades. Tempos depois, ela publicou um grande tratado sobre muitas doenças e o modo de curá-las com o uso de plantas, ervas, partes de animais e pedras preciosas. Trocou muitas correspondências com o mais alto escalão da sociedade medieval: imperadores, papas, reis, bispos e arcebispos, príncipes, abades e abadessas, além de muitos sacerdotes, religiosas e membros da nobreza. Existem hoje mais de trezentas cartas dela, e sem dúvida muitas outras foram escritas durante sua longeva vida.

Recorreram a ela para pedir conselhos, para saber o estado de alma das pessoas, para pedir explicações da Escritura, explicações teológicas dos mistérios divinos e conhecimento sobre o futuro. Ela foi convocada para se reunir com o sacro imperador romano e fazer previsões para ele, que depois as confirmou. Ela falava e escrevia sobre o que lhe chegava, fossem notícias boas ou ruins. Sua voz interior lhe disse muitas coisas de que se queixar. Ela não guardava nada para si quando se tratava de dilacerar clérigos e prelados corruptos por causa de seus abusos da Igreja, da venda de ofícios e por levarem vidas de pompa, luxo e repletas de prazeres sexuais. Quando um prior escreveu para ela, pedindo que rezasse por ele porque estava fazendo o mesmo por ela e porque queria um bom desfecho para seus negócios, ela o repreendeu sem rodeios por seu egoísmo e sua visão pagã de oração. Não temos como saber o número de pessoas que ficavam perplexas com ela.

“A visão da Igreja de Santa Hildegarda de Bingen”, por Giovani Gasparro.

Além das centenas de cartas, ela escreveu outro livro sobre a vida moral e seus méritos, uma obra visionária como Scivias, sobre como temos de viver para participar da paz e da glória celestes. Outro livro é dedicado à descrição das obras divinas. Além do tratado médico, ela escreveu livros para explicar como a natureza funciona de acordo com os preceitos misteriosos de Deus. Ela recebeu a revelação da ordem divina em todas as coisas e se esforçou por transmitir essa ordem a outras pessoas. Também compôs setenta canções e uma peça musical de moralidade sobre as virtudes. Seu estilo, em prosa e em verso, é sempre vívido, persuasivo e repleto de imagens proféticas; é o oposto da escrita acadêmica árida e técnica. Contudo, não é fácil diferenciar precisamente entre o que ela recebeu numa visão, o que aprendeu em outros livros e na tradição local e oral, e o que ela observava e pensava por si.           

Obviamente, tal proeminência (destituída de quaisquer credenciais formais ou poder bruto que lhe servisse de apoio) fez com que ela se metesse em alguns problemas. Foi necessário muito esforço para convencer o abade (sob cuja autoridade ela vivera com Juta) a permitir que ela transferisse suas monjas e seus dotes para a nova localidade no Reno. Suas exortações aos clérigos e leigos poderosos e pecaminosos aumentaram a sua lista de potenciais detratores e inimigos. Algumas pessoas disseram que ela era uma impostora egoísta, ou simplesmente louca. O conflito com seu bispo para impedir que sua protegida, a irmã Richardis, fosse liderar outro convento foi uma causa perdida, já que afinal o Papa interveio para a apoiar o bispo. O caso não fez com que ninguém mostrasse suas melhores qualidades. Por volta do fim de sua vida, Hildegarda permitiu que um homem excomungado fosse enterrado no solo sagrado de seu convento; ela disse que ele se havia reconciliado verdadeiramente com Deus logo antes de morrer. O bispo discordou e pôs seu convento sob interdito, negando a Hildegarda e suas freiras o acesso aos sacramentos, mas ela o cansou com orações e súplicas. Em poucos meses, o interdito foi suspenso, e o túmulo permaneceu intacto. Porém, esses conflitos foram antes a exceção do que a regra.

O fato de ela ter sido uma mulher vivendo no século XII não representou um obstáculo sério à sua missão de disseminar a palavra da revelação de Deus até o fim de sua vida. Começando com cerca de sessenta anos, ela realizou quatro longas viagens pela área rural local, pregando tanto para o clero como para os leigos, com a aprovação de ninguém menos que o Papa. Suas canções eram cantadas em locais tão distantes quanto Paris, e a palavra de sua sabedoria se espalhou por toda a cristandade. Depois de sua morte na idade venerável de 81 anos, iniciou-se imediatamente um culto dedicado a ela. Embora não haja nenhum registro de sua canonização oficial nos séculos XII e XIII, ela foi listada entre os santos do Martirológio Romano ainda no século XVI. Foi só recentemente que o Papa Bento XVI a inscreveu no catálogo dos santos (uma ação chamada de “canonização equivalente”), no dia 10 de maio de 2012; e em 7 de outubro do mesmo ano deu a ela o título de Doutor da Igreja, um reconhecimento concedido a somente 33 pessoas até então, três delas mulheres [1].

Mas, por estarmos no século XXI, muitas pessoas simplesmente não aceitam que Deus tenha comunicado nada, muito menos a verdade, por meio de Hildegarda. Alguns historiadores diagnosticaram seus sofrimentos contínuos como enxaquecas, mas todos falharam completamente em explicar a origem de suas visões em termos médicos. Não podemos negar que alguns de seus sintomas se assemelham aos da enxaqueca, mas o poder e a riqueza de suas visões, bem como a profundidade da compreensão que ela mesma tinha delas, têm uma fonte muito diferente.

Ela não é uma desconhecida na Alemanha contemporânea, mas a maioria das pessoas conhece seu nome pelo motivo errado. Há uma linha de produtos e um site de internet que levam seu nome e vendem elixires feitos de plantas, poções, cremes, pós, rochas e corantes, todos comercializados para a felicidade, o sentimento de liberdade e a independência das pessoas. Porém, a prioridade de Hildegarda era a santificação e a salvação dos outros. Alega-se que os produtos são baseados nos escritos dela, mas eles estão mais alinhados com o comercialismo da Nova Era. Mais séria e mais digna é a associação (Bund der Freunde Hildegards) que publica um periódico trimestral e possui uma rede de médicos, quiropráticos e pesquisadores da área médica, os quais realizam um verdadeiro esforço para aplicar seus remédios e metodologias aos problemas que as pessoas enfrentam hoje. Mas esse grupo quase não entende a mensagem religiosa de Hildegarda. Num nível mais popular, cineastas alemães lançaram um longa-metragem sobre ela em 2009: Vision: From the Life of Hildegard von Bingen (“Visão: Da Vida de Hildegarda de Bingen”). O filme a apresenta como religiosa, abadessa, escritora, compositora e médica, terminando com seus preparativos para uma viagem de pregação. Infelizmente, porém, a produção se concentra nos esforços dela para ser reconhecida pelos homens da Igreja, bem como para conseguir a independência em relação ao controle deles. O roteiro conta a história da luta de uma mulher pobre e oprimida do século XII para se tornar plenamente ela mesma diante de uma hierarquia eclesiástica medíocre, invejosa, sexista e masculina.       

Hildegard foi e é muito mais que isso. Dizendo de modo bem simples, ela foi uma grande santa. Sofreu e lutou terrivelmente. Amou a Deus acima de todas as coisas e sacrificou tudo para agradá-lo. Perseverou até o fim. Inspirou inúmeras pessoas. Disse a elas que deveriam parar de pecar e abraçar a santidade. Para chegar a conhecê-la, leia os seus escritos. Algumas imagens lhe parecerão exóticas ou bizarras, mas a sabedoria de seus preceitos morais e insights religiosos merece um sério exame e um grande respeito.

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A fada-madrinha “sem gênero” de Cinderela
Família

A fada-madrinha
“sem gênero” de Cinderela

A fada-madrinha “sem gênero” de Cinderela

Na nova Cinderela da Amazon, em vez da fada-madrinha idosa do clássico original da Disney, as crianças são apresentadas a um jovem gay com um vestido de baile, salto alto e uma varinha mágica na mão.

Anne HendershottTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Setembro de 2021Tempo de leitura: 7 minutos
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O texto a seguir não foi escrito pelo Padre Paulo Ricardo; é antes a tradução, feita por nossa equipe, de uma matéria a respeito do novo filme Cinderela, presente na plataforma Amazon Prime

Em vários trechos do artigo, a autora Anne Hendershott faz referência a fatos específicos dos Estados Unidos, mas não é novidade para ninguém que a agenda LGBT avança também em nosso país, e com a mesma estratégia do exterior — começando pelas crianças, para que se acostumem desde cedo à desnaturação da família.


Para a criança — e até para o adulto que sabe haver uma criança em todos nós —, os contos de fadas revelam verdades sobre nós mesmos e sobre o mundo. Como o psicólogo Bruno Bettelheim afirmou em seu extraordinário estudo The Uses of Enchantment (1976) [1], “as fantásticas, às vezes cruéis mas sempre profundamente significativas vertentes narrativas dos contos de fadas clássicos, podem ajudar na maior tarefa humana: encontrar um sentido para a vida”. As crianças familiarizadas com os contos de fadas compreendem que essas histórias usam a linguagem dos símbolos — não a da realidade da vida cotidiana.

As crianças sabem que as histórias de fadas não são “reais”, mas os acontecimentos reais de suas vidas tornam-se importantes graças ao sentido simbólico que se lhes atribui. Elas sabem que os eventos descritos nessas histórias aconteceram “muito tempo atrás”, num “reino muito distante daqui”. Os antigos castelos, as fadas mágicas e as florestas encantadas existem numa época única dos contos de fadas, descrita nas linhas iniciais de O Rei Sapo, dos irmãos Grimm, como um tempo muito, muito distante, “quando os desejos ainda podiam ser realizados”.

Os contos de fadas originais dos irmãos Grimm sempre tiveram uma lição moral, um aviso de que devemos ser virtuosos, ou então coisas horríveis acontecerão conosco. Os contos de fadas clássicos sempre terminavam com os ímpios punidos e o bem vencedor do mal. Embora a Disney já tenha distorcido alguns de nossos contos de fadas mais queridos — como em sua produção mais recente de A Bela Adormecida, marcada por uma personagem moralmente ambígua: Malévola —, a versão mais recente de Cinderela, da Sony, promete criar ainda mais caos na mente das crianças. Assim como num conto de fadas não deveria haver tons de cinza numa figura verdadeiramente maligna (como Malévola), será ainda mais difícil para as crianças entender como é possível que a fada-madrinha da nova Cinderela da Sony seja um homem “feroz e fabuloso” de vestido (assim o descrevem algumas resenhas).

Lançado na plataforma da Amazon Prime em 3 de setembro de 2021, o filme Cinderela da Sony apresenta Billy Porter como a fada-madrinha mágica e querida de Cinderela. Em vez da fada-madrinha idosa do clássico original da Disney, as crianças são apresentadas a um jovem gay com um vestido de baile, salto alto e uma varinha mágica na mão.

Alegando que “a magia não tem gênero”, o ator Billy Porter disse, em declaração à revista Out, que sua personagem também não tem gênero. Para os criadores da produção, chamada pelos críticos de Cinderela queer, “a próxima geração já está mais do que pronta para ver esse tipo de representação em sua mídia favorita”. “Você sabe que este é um conto de fadas clássico para uma nova geração, e eu acho que a nova geração está realmente pronta. Sabe, as crianças estão prontas. São os adultos que estão atrasando as coisas”, declarou Porter.

A parte mais triste de tudo isso é que Billy Porter está certo: muitas crianças estão realmente prontas. Para as que estão matriculadas em escolas públicas progressistas de todo o país, a fluidez de gênero vem sendo ensinada desde os primeiros dias no jardim de infância. Elas podem ter participado de uma Drag Queen Story Time [2] na biblioteca local, ou até mesmo recebido visitas de drag queens na escola.

A agenda LGBTQ faz parte do currículo das escolas públicas há quase uma década e, em alguns distritos escolares, os pais não podem mais optar por preservar os filhos da exposição a essa ideologia. Elas já leram que Heather has Two Mommies [3] e foram apresentadas à ideia de que também elas podem mudar de “gênero” a qualquer momento. Existem em muitos distritos escolares Gay-Straight Alliances para crianças, mesmo nos anos iniciais  do ensino fundamental [4], já que elas são incentivadas a abraçar qualquer “gênero” e “orientação sexual” que desejarem.

A partir de agora, a Sony tornará mais fácil para a comunidade LGBTQ alcançar um público ainda mais jovem — as crianças em idade pré-escolar. Embora Billy Porter tenha respondido bruscamente a um repórter de Page Six dizendo: “Se você não gosta, não assista!”, ao ser criticado por usar vestido em sua aparição no programa norte-americano Sesame Street, da PBS, é difícil ignorar o bombardeio constante da mídia contra crianças muito pequenas, até mesmo em idade pré-escolar [5]. Agora que a ideologia atingiu programas infantis e nossos contos de fadas mais queridos, é quase impossível evitá-la.

Isso é triste porque os contos de fadas são importantes. Eles falam diretamente à criança num momento em que o maior desafio dela é trazer alguma ordem ao caos interior de sua mente. Essas histórias ajudam as crianças a se entender melhor, condição necessária para alcançar alguma coerência entre suas percepções e o mundo externo. Confirmando suas experiências e pensamentos íntimos, os contos de fadas ajudam as crianças a se sentir aprovadas.

Na obra Ortodoxia, G. K. Chesterton escreve: “Minha primeira e última filosofia, aquela em que acredito com certeza inquebrantável, eu a aprendi na creche… As coisas em que mais acreditava naquela época, as coisas em que mais acredito agora, são as coisas chamadas de contos de fadas”. Chesterton está falando sobre a moralidade dos contos de fadas:

Há a lição cavalheiresca de Jack, o matador de Gigantes, segundo a qual os gigantes deveriam ser mortos porque são gigantescos. É uma revolta viril contra o orgulho… Há a lição de Cinderela, que é a mesma do Magnificatexaltavit humiles (Exaltou os humildes). Há a grande lição de A Bela e a Fera de que uma coisa deve ser amada antes de ser amável... Estou me referindo a certa maneira de ver a vida que foi criada em mim pelos contos de fadas.

Quando Chesterton diz que os contos de fadas são “coisas inteiramente razoáveis”, Bettelheim afirma que ele “está falando deles como experiências, como espelhos da experiência interior, não da realidade; e é assim que a criança os compreende”.

Embora sejam contos morais, os contos de fadas são mais do que “fábulas”. As fábulas nos dizem o que devemos fazer e, embora possam ser divertidas, exigem muito de nós. Elas são um apelo à ação. Em contrapartida, a mensagem do conto de fadas opera no inconsciente, oferecendo às crianças soluções para problemas que elas nem conseguem reconhecer por si mesmas. Os melhores deles — incluindo os clássicos dos irmãos Grimm ou de Hans Christian Andersen — abordam a situação existencial. Em The Uses of Enchantment, Bettelheim afirma: “O conto de fadas tranquiliza, dá esperança para o futuro e traz a promessa de um final feliz… É por isso que Lewis Carroll chamou ao conto de fadas um presente de amor”.

Essas histórias ainda são importantes hoje. Na verdade, são provavelmente mais importantes do que nunca, à medida que tentamos encontrar um significado em nossas vidas cada vez mais desoladas. É cada vez maior o número de crianças que não são criadas numa comunidade amorosa, na qual a Igreja ofereça uma fonte de significado. Os contos de fadas são “totalmente morais” porque o seu ouvinte compreende que a verdadeira felicidade e a paz dependem de certos preceitos ou condições morais. Quando estes são quebrados, não pode haver paz nem felicidade. 

Como disse um escritor: “A condição pode variar de acordo com o conto, mas os contos imitam o grande ensinamento do Gênesis ao declarar que Deus mesmo fez depender toda a felicidade futura de uma, e apenas uma, condição: tu podes comer de todas as outras árvores, mas desta não”. Quando Eva desprezou a condição, a morte entrou no mundo. Como nos lembra Chesterton, os melhores contos de fadas — como todas as grandes histórias — “documentam o imperativo moral de que existe uma condição e que, se a condição for quebrada, então o inferno pode muito bem acontecer”.

A Cinderela de Billy Porter está longe de ser o “presente de amor” de que fala Lewis Carroll. Porter e a comunidade LGBTQ sabem do poder do conto de fadas e é por isso que estão tentando remodelá-lo à sua própria imagem. Eles não podem permitir que as crianças aceitem a ideia de amor entre um homem e uma mulher como algo natural; não podem deixar as crianças verem que se apaixonar e se casar é “normal”. Billy Porter e a comunidade LGBTQ — entre os maiores apoiadores da Sony — sabem que é preciso distorcer um belo conto de fadas como Cinderela para promover a ideologia depravada e destrutiva segundo a qual é possível escolher um “gênero”, já que a sexualidade não seria um presente de Deus [6].

Notas

  1. Este livro foi traduzido no Brasil sob o título “A psicanálise dos contos de fadas” (N.T.).
  2. Drag Queen Story Time é uma iniciativa da agenda de gênero norte-americana travestida de programa de incentivo à leitura para crianças. Segundo a Wikipedia, “os eventos, geralmente preparados para crianças entre 3 e 11 anos de idade, são conduzidos por drag queens que leem livros infantis e participam de outras atividades de ensino em bibliotecas públicas” (N.T.).
  3. Em língua portuguesa, há um título muito parecido com este, produzido com a mesma finalidade e também vendido para o público infantil: Olívia tem dois papais (N.T.).
  4. Gay-Straight Alliances (GSAs), lit. “Alianças de Gays e Heterossexuais”, são clubes escolares liderados ou organizados por estudantes supostamente tendo em vista “criar um ambiente escolar seguro, acolhedor e aceitável para todos os jovens, independentemente de orientação sexual ou identidade de gênero” (N.T.).
  5. O programa Vila Sésamo, do Brasil, é uma coprodução do programa norte-americano Sesame Street. Salvo engano, não nos consta que a aparição de Billy Porter tenha chegado à versão brasileira do programa (N.T.).
  6. No original: to promote the deviant and destructive ideology that gender is a choice—not a gift from God. Assim como na língua inglesa, também no português o termo “gênero” é usado como sinônimo de “sexo”. Para evitar que os nossos leitores se confundam, no entanto, modificamos a frase, de modo a deixar bem clara a distinção entre a realidade e a ideologia (N.T.).

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O que eles tinham que está nos faltando?
Santos & Mártires

O que eles tinham
que está nos faltando?

O que eles tinham que está nos faltando?

“Os mártires olhavam as fogueiras, os ferros em brasa, as rodas e as espadas como flores e perfumes, porque eram devotos”. Mas como foi possível que eles amassem com tanta generosidade? O que tinham eles, e os santos de modo geral, que está nos faltando?

Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Setembro de 2021Tempo de leitura: 1 minutos
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São Francisco de Sales diz em sua Filoteia que “os mártires olhavam as fogueiras, os ferros em brasa, as rodas e as espadas como flores e perfumes, porque eram devotos”.

Tudo bem, mas… devotos? Fogueiras e ferros em brasa parecem combinar muito mais com coragem e fortaleza do que com devoção.

Calma, sua surpresa é perfeitamente compreensível. Em geral, usamos a palavra “devoção” num sentido genérico, para designar ou uma prática religiosa qualquer: “Eu faço a devoção dos cinco primeiros sábados…”, ou a nossa afeição a um santo determinado: “Eu tenho devoção a São José...”. 

São Francisco de Sales, porém, faz referência, aqui, a uma disposição interior bem específica: a de querer cumprir a vontade de Deus de modo imediato. Sem hesitar, reclamar ou procrastinar. Devoção, para ele, é sinônimo de “prontidão”.

Para ilustrar a ideia, talvez seja melhor recorrer a uma antítese, isto é, a um exemplo do contrário. Quando sua mãe, em casa, pede de você alguma tarefa, qual é sua reação? Se o seu normal é espreguiçar, demorar para levantar, caminhar como um “boi manso” e fazer tudo no seu tempo... devoção é uma coisa que, definitivamente, está faltando em sua vida.

Como sair disso, no entanto, para o grande testemunho que deram os mártires?

A resposta está no que vai dentro de nós, o nosso “homem interior”. Os mártires só deixavam seus corpos serem lançados às fogueiras por causa da “fogueira” ardente de caridade que já traziam em suas almas. Só aceitavam que os ferros em brasa marcassem suas peles porque seus próprios corações já estavam abrasados no amor a Deus.

No dia a dia, também temos as nossas “fogueiras” e “ferros”, “rodas” e “espadas”: são as nossas práticas de oração, os membros de nossa família, a quem devemos servir, e também os nossos instrumentos de trabalho. Porém, só seremos capazes de enxergar em tudo isso “flores e perfumes”, como fizeram os mártires, se os imitarmos no amor — se nos tornarmos, como eles, devotos, prontos, rápidos para servir.

Se você está inerte, dormente ou “morto” por dentro — é hora de acordar, “ressuscitar”, fazer queimar em seu interior uma chama que consome e faz agir. 

Comece pedindo a Deus esse fogo, e depois trabalhe incessantemente para não perdê-lo. Nisto consiste, em poucas palavras, a jornada da nossa vida

E é também este o objetivo de nosso curso “Direção Espiritual: a Jornada”. Conheça-o e inscreva-se!

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Novena ao Padre Pio
Oração

Novena ao Padre Pio

Novena ao Padre Pio

Junto com esta novena de orações ao extraordinário São Pio de Pietrelcina, reze também a coroinha do Sagrado Coração de Jesus, que o frade dos estigmas rezava “diariamente, na intenção de todos que se recomendavam a suas orações”.

Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Setembro de 2021Tempo de leitura: 7 minutos
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Esta novena ao Padre Pio pode ser rezada a qualquer tempo, mas é especialmente recomendada de 14 a 22 de setembro, nos nove dias que antecedem a memória litúrgica do santo de Pietrelcina (em 23 de setembro).

Os textos dos dias da novena — que mencionam fatos, devoções e frases do Padre Pio — foram retirados de vários lugares da internet, em língua inglesa e italiana, e devidamente adaptados para esta publicação. A coroinha do Sagrado Coração de Jesus foi extraída da obra Palavras de luz: florilégio do epistolário (São Paulo: Loyola, 2001, pp. 253-254), segundo a qual “Padre Pio rezava esta coroinha diariamente, na intenção de todos os que se recomendavam a suas orações”. A oração final, enfim, foi traduzida por nossa equipe a partir da oração Coleta em latim para a Missa própria do santo.

Quem conhece este santo do século XX, ainda que em linhas gerais, nem sequer precisa ser convencido da importância de seu culto e intercessão. Padre Pio foi um sacerdote extraordinário. Os milagres portentosos que, ainda em vida, Deus se dignou realizar por suas mãos, são um verdadeiro “tapa na cara” do homem moderno, tão cético, descrente e “cego” para as coisas do alto. 

Para os que ainda não sabem de sua história, no entanto, intercalamos as orações da novena com alguns vídeos do Padre Paulo Ricardo a seu respeito.


1.º dia

São Pio de Pietrelcina, que trouxestes em vosso corpo os sinais da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo e carregastes a cruz por todos nós, suportando os sofrimentos físicos e morais que vos flagelavam a alma e o corpo num martírio contínuo: intercedei junto a Deus, para que cada um de nós saiba aceitar as pequenas e as grandes cruzes da vida, transformando cada sofrimento num vínculo inabalável que nos una à vida eterna.

“Acostuma-te com os padecimentos que Jesus mandar. O Senhor, que sofre com tua aflição, virá para consolar-te, infundindo muitas graças em tua alma” (Padre Pio).

Rezar a Coroa do Sagrado Coração e a Oração final, abaixo.

2.º dia

São Pio de Pietrelcina, que junto a Nosso Senhor Jesus Cristo soubestes resistir às tentações do maligno e sofrestes os golpes e as vexações dos demônios que queriam levar-vos a abandonar vossa estrada de santidade: intercedei junto ao Altíssimo, para que também nós, com o vosso auxílio, encontremos a força necessária para renunciar ao pecado e conservar a fé até o dia de nossa morte.

“Na verdade, as tentações a que tenho sido sujeito são muitíssimas; porém, confio na divina Providência em que não cairei nos laços do enganador” (Padre Pio).

Rezar a Coroa do Sagrado Coração e a Oração final, abaixo.

3.º dia

São Pio de Pietrelcina, que amastes tanto a Mãe celeste, que dela recebestes diariamente graças e consolações: intercedei por nós junto à Virgem Santa, colocando em suas mãos os nossos pecados e as nossas tíbias orações, a fim de que, assim como em Caná da Galileia, o Filho diga sim à Mãe e o nosso nome seja escrito no livro da vida.

“Que Maria seja a estrela que vos aclare o caminho e mostre como ir com segurança ao Pai celeste; que ela seja como uma âncora à qual deveis sempre vos agarrar, sobretudo nos momentos de provação” (Padre Pio).

Rezar a Coroa do Sagrado Coração e a Oração final, abaixo.

4.º dia

São Pio de Pietrelcina, que tanto amastes vosso anjo da guarda, o qual foi vosso guia, defensor e mensageiro; a vós os seres angélicos levaram as preces de vossos filhos espirituais: intercedei junto ao Senhor, para que também nós aprendamos a invocar o nosso anjo da guarda, que durante toda a nossa vida está pronto para nos sugerir o caminho do bem e nos dissuadir de fazer o mal.

“Invoca o teu anjo da guarda, que te iluminará e conduzirá. O Senhor colocou-o perto de ti justamente para isso. Por isso, serve-te dele” (Padre Pio).

Rezar a Coroa do Sagrado Coração e a Oração final, abaixo.

(Recomendamos aos nossos alunos que assistam à aula 13 de nosso curso “Anjos e Demônios”, na qual Pe. Paulo Ricardo comenta uma carta escrita pelo Padre Pio a uma filha espiritual justamente sobre os anjos da guarda.)

5.º dia

São Pio de Pietrelcina, que nutristes uma grandíssima devoção às almas do purgatório, pelas quais vos oferecestes como vítima expiatória: rogai ao Senhor que infunda em nós o sentimento de compaixão e de amor que vós tínheis por essas almas, para que também nós consigamos reduzir-lhes o tempo de purgação, buscando, com sacrifícios e orações, ganhar para elas as santas indulgências de que necessitam.

“A vós, Senhor, suplico-vos que derrameis sobre mim os castigos reservados aos pecadores e às almas do purgatório; multiplicai-os em mim, contanto que convertam e salvem os pecadores e libertem em breve as almas do purgatório” (Padre Pio).

Rezar a Coroa do Sagrado Coração e a Oração final, abaixo.

6.º dia

São Pio de Pietrelcina, que amastes os enfermos mais do que a vós mesmo, vendo neles Jesus, e em nome do Senhor operastes milagres de curas no corpo, devolvendo a esperança de vida e a renovação no Espírito: rogai ao Senhor para que todos os enfermos, por intercessão de Maria Santíssima, possam experimentar vosso poderoso patrocínio e, por meio da cura física, possam colher vantagens espirituais que os levem a agradecer ao Senhor e a louvá-lo eternamente.

“Se, depois, eu sei que uma pessoa está aflita, seja na alma ou no corpo, o que eu não faria junto com o Senhor para vê-la livre de seus males? Com prazer carregaria sobre mim todas as suas aflições, para vê-la salva, oferecendo em seu favor os frutos de tais sofrimentos, se o Senhor assim me permitisse” (Padre Pio).

Rezar a Coroa do Sagrado Coração e a Oração final, abaixo.

7.º dia

São Pio de Pietrelcina, que aderistes ao projeto de salvação do Senhor, oferecendo vossos sofrimentos para libertar os pecadores dos armadilhas de Satanás: intercedei junto a Deus para que os que não creem tenham a fé e se convertam; os pecadores se arrependam do fundo do coração; os tíbios se afervorem na vida cristã; e os justos perseverem no caminho da salvação.

“Se o pobre mundo pudesse ver a beleza da alma na graça, todos os pecadores e todos os incrédulos se converteriam no mesmo instante” (Padre Pio).

Rezar a Coroa do Sagrado Coração e a Oração final, abaixo.

8.º dia

São Pio de Pietrelcina, que tanto amastes vossos filhos espirituais, muitos dos quais conquistastes para Cristo ao preço de vosso sangue: concedei também a nós, que não vos conhecemos pessoalmente, considerar-nos vossos filhos espirituais. Com a vossa paterna proteção, com a vossa santa guia e com a força que nos obtereis do Senhor, poderemos, no momento da morte, encontrar-vos às portas do Paraíso à espera de nossa chegada.

“Felizes aquelas almas inscritas no livro da vida eterna! Mil vezes felizes aquelas almas que em vida conseguem ser as filhas prediletas do divino Coração!” (Padre Pio).

Rezar a Coroa do Sagrado Coração e a Oração final, abaixo.

9.º dia

São Pio de Pietrelcina, que tanto amastes a Santa Mãe Igreja: intercedei junto ao Senhor para que mande operários para sua messe e dê a cada um deles a força e a inspiração dos filhos de Deus. Pedimos-vos também que intercedais junto à Virgem Maria para que ela faça retornar ao seio da verdadeira Igreja os que erram fora dela, abrigados por fim no único redil de Cristo, farol de salvação no mar tempestuoso desta vida.

“Permanece sempre agarrado à Santa Igreja Católica, porque só ela pode dar a verdadeira paz, pois só ela possui Jesus sacramentado, o verdadeiro Príncipe da Paz” (Padre Pio).

Rezar a Coroa do Sagrado Coração e a Oração final, abaixo.

Coroinha do Sagrado Coração de Jesus 

  1. Ó meu Jesus, que dissestes: “Em verdade vos digo, pedi e recebereis, buscai e encontrareis, batei e vos será aberto”, aqui estou batendo, buscando, pedindo a graça… Pai-nosso, Ave-Maria e Glória. Sagrado Coração de Jesus, eu confio e espero em Vós.
  2. Ó meu Jesus, que dissestes: “Em verdade vos digo, tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vos concederá”, ao vosso Pai, em vosso nome, eu peço a graça… Pai-nosso, Ave-Maria e Glória. Sagrado Coração de Jesus, eu confio e espero em Vós.
  3. Ó meu Jesus, que dissestes: “Em verdade vos digo, passarão o céu e a terra, mas as minhas palavras nunca”, apoiando-me na infalibilidade de vossas santas palavras, eu peço a graça… Pai-nosso, Ave-Maria e Glória. Sagrado Coração de Jesus, eu confio e espero em Vós.

Ó Sagrado Coração de Jesus, a quem é impossível não ter compaixão dos infelizes, tende piedade de nós, míseros pecadores, e concedei-nos as graças que vos pedimos por meio do Imaculado Coração de Maria, vossa e nossa terna Mãe.

São José, pai adotivo do Sagrado Coração de Jesus, rogai por nós! 

Salve Rainha, Mãe de misericórdia...

Oração final

Deus eterno e todo-poderoso, que destes a São Pio, presbítero, a graça singular de tomar parte na crucificação do vosso Filho, e que por seu ministério renovastes as maravilhas de vossa misericórdia, concedei-nos por sua intercessão que, associados continuamente aos sofrimentos de Cristo, sejamos com alegria conduzidos à glória da ressurreição. Pelo mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo. Amém.

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