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Ladainha para pedir a graça de uma boa morte
Oração

Ladainha para pedir
a graça de uma boa morte

Ladainha para pedir a graça de uma boa morte

Esta ladainha de preparação para a morte foi aprovada por dois Papas. Mas sua composição é atribuída a uma moça que, convertida da heresia protestante à religião católica aos 15, morreu em odor de santidade com apenas 18 anos de idade.

Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Estas preces em forma de ladainha para pedir uma santa morte foram compostas, pelo que consta, por uma moça convertida da heresia protestante à religião católica com 15 anos e morta, em odor de santidade, aos 18 anos de idade. Pio VII as aprovou com um rescriptum de 12 mai. 1802 e Leão XII, com o decreto confirmativo “Urbis et Orbis”, de 11 ago. 1824.


Ato de abandono. — Senhor Jesus, Deus de bondade, pai de misericórdia, eis-me aqui, diante de Vós, de coração humilhado, contrito e confuso; encomendo-Vos a minha hora suprema e tudo o que depois dela vier.

1. Quando os meus pés imóveis me indicarem já estar consumada a minha passagem neste mundo, benigníssimo Jesus: tende piedade de mim

2. Quando as minhas mãos, cansadas e trêmulas, não puderem mais segurar Vossa imagem, ó Jesus crucificado, e quando, à minha revelia, elas caírem com a cruz sobre o meu leito de morte, benigníssimo Jesus: tende piedade de mim.

3. Quando os meus olhos, escurecidos e aterrorizados com o rosto da morte que se avizinha, se dirigem a Vós, tristes e a ponto de cerrar-se, benigníssimo Jesus: tende piedade de mim.

4. Quando os meus lábios, frios e trêmulos, pronunciarem pela última vez o Vosso santo nome, benigníssimo Jesus: tende piedade de mim.

5. Quando o meu rosto, pálido e lívido, inspirar compaixão e horror aos circunstantes, e quando os meus cabelos, eretos e a suarem o suor letal, anunciarem a proximidade do meu fim, benigníssimo Jesus: tende piedade de mim.

6. Quando as minhas orelhas, incapazes de atender à voz dos homens, se alçarem para escutar a sentença irrevogável, que irá determinar o que será de mim para sempre, benigníssimo Jesus: tende piedade de mim.

7. Quando a minha mente, agitada por tristes e horrendos pensamentos, estiver prostrada de abatimento; quando o meu espírito, turbado pela consideração de minhas iniquidades e pelo medo de Vossa justiça, lutar contra o príncipe das trevas, que, ocultando-me Vossas misericórdias, tentará levar-me ao desespero, benigníssimo Jesus: tende piedade de mim.

8. Quando o meu coração, débil, oprimido pela doença, trespassado pelos horrores da morte, se enfraquecer na luta contra os inimigos de minha salvação, benigníssimo Jesus: tende piedade de mim.

9. Quando receberdes, em sacrifício expiatório, minhas últimas lágrimas, a anunciarem a chegada da morte, a fim de que eu expire como vítima de penitência; neste momento terrível, benigníssimo Jesus: tende piedade de mim.

10. Quando os meus pais e amigos se puserem à minha volta, chorando pela minha sorte, e Vos invocarem em meu favor, benigníssimo Jesus: tende piedade de mim.

11. Quando eu for privado de todos os sentidos e vir passar diante de mim a figura deste mundo e, assim oprimido, chegar à hora da agonia, benigníssimo Jesus: tende piedade de mim.

12. Quando os últimos suspiros do meu coração instarem minha alma a que abandone o corpo, sejam-Vos eles um sinal de que quero desprender-me para estar convosco; benigníssimo Jesus: tende piedade de mim.

13. Quando a minha alma, então a fluir-me pelos lábios, disser adeus ao mundo para sempre e deixar-me o corpo pálido, rígido e exânime, recebei a destruição deste corpo em reconhecimento do Vosso supremo domínio; benigníssimo Jesus: tende piedade de mim.

14. Enfim, quando a minha alma comparecer diante de Vós e, pela primeira vez, contemplar o esplendor de Vossa majestade, não a lanceis para longe de vossa face, mas acolhei-me no seio de Vossa misericórdia, para que eu cante os Vossos louvores para sempre; benigníssimo Jesus: tende piedade de mim.

Oração. — Ó Deus, que para o nosso bem nos sentenciastes à morte, mas não quisestes que soubéssemos o dia nem a hora, dai-me a graça de viver justa e piedosamente todos os dias de minha vida, para que eu morra na vossa paz e no vosso amor. Por Nosso Senhor Jesus, Vosso Filho, que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo. Amém.


Ao final, podem acrescentar-se também as seguintes orações:

Três oblações em honra da SS. Trindade para impetrar a graça de bem morrer. I. A Vós, SS. Trindade, oferecemos os méritos de Jesus Cristo, em ação de graças por Ele ter derramado o seu Preciosíssimo Sangue por nós no Horto das Oliveiras; e Vos pedimos, por seus méritos, que nos perdoeis os nossos pecados. Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória. — II. A Vós, SS. Trindade, oferecemos os méritos de Jesus Cristo, em ação de graças por Ele ter-se entregado por nós à morte de Cruz; e Vos imploramos, por seus méritos, que nos perdoeis benignamente as penas devidas aos nossos pecados. Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória. — III. A Vós, SS. Trindade, oferecemos os méritos de Jesus Cristo, em ação de graças pela inefável caridade com que Ele desceu dos céus à terra, para assumir nossa carne, padecer e morrer por nós na Cruz; e Vos pedimos, por seus méritos, que nos concedais a graça de morrer santamente e que conduzais nossas almas à glória celeste. Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

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A religião que defende, praticamente sozinha, a razão
Sociedade

A religião que defende,
praticamente sozinha, a razão

A religião que defende, praticamente sozinha, a razão

O catolicismo defende praticamente sozinho a razão que é baseada na integridade da mente em relação ao que é. Somos os últimos a sustentar que o mundo nos foi dado, e não criado por nossa própria mente.

Pe. James V. SchallTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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O ponto central da Revelação, no sentido católico, é que o mundo existe, em si mesmo, como uma arena na qual pessoas individuais — cada uma com um nome próprio, em suas relações umas com as outras, seja qual for o tempo ou o lugar — trabalham tendo em vista a sua salvação. A salvação não corresponde à preservação de apenas alguns homens ao longo das eras deste mundo. Cedo ou tarde, a raça humana desaparecerá deste planeta. A salvação reconhece que a espécie humana tem se reproduzido, geração após geração, desde o seu início. O atual número de pessoas, sete ou oito bilhões, é o maior de que temos notícia na história. Os bens naturais do mundo foram postos nele a fim de que o homem aprendesse o que são e como deve usá-los. Os bens sub-humanos só adquirem propósito definitivo por meio desse propósito do homem. 

Essa dependência permanente em relação à riqueza natural existente no planeta era, ela mesma, uma função da inteligência e da capacidade criadora do homem. Depois de sua criação, o homem não recebeu tudo pronto. Ele foi criado, no dizer de Aristóteles, não com garras ou couraça, mas com “uma mente e uma mão” para que pudesse aprender a se sustentar. Esse poder implícito da mente foi a confiança inicial que Deus teve ao criar no mundo um ser racional.

Porém, este mundo não foi dado ao homem para que este dele cuidasse como seu fim último, senão para que, vivendo nele e tratando dele, ele pudesse alcançar a salvação pessoal de cada ser humano, que de modo concreto significa participar da vida trinitária interior de Deus. Isso sugere que não somente a existência de Deus é central para o que somos. Também as nossas mentes nos foram dadas, não apenas para que as possuíssemos, mas para que, por meio delas, pudéssemos conhecer a verdade das coisas. Ademais, esse Deus é trinitário, um único Deus com uma diversidade de pessoas, uma comunhão ou, se preferir, uma amizade.

O catolicismo alega ser verdadeiro, mas apenas com base na evidência, na razão e em testemunhos confiáveis. Essa alegação é, hoje, apenas uma cega veleidade. Se ele for apenas mais uma forma de humanitarismo inconclusivo que se dá bem com qualquer coisa por não se distinguir de nada, não vale a pena dar muita atenção a ele. Mas ele não é apenas mais uma forma de relativismo ou opinião sem fundamento. Por isso, não pode deixar de lidar com posicionamentos que o consideram falso. Escrevi um livro cujo título é justamente The Mind That Is Catholic [“A Mente Católica”, sem tradução portuguesa]. O catolicismo é uma religião intelectual. Se nenhum argumento puder ser feito em favor de sua validade, ele não será crível. Chesterton encerra seu livro Hereges, publicado em 1905, afirmando que os últimos defensores da razão no mundo moderno seriam os crentes naquela inconfundível Revelação que é a única que se dirige à razão.

Se a minha compreensão da mente moderna estiver correta, já atingimos o ponto que Chesterton anteviu há mais de cem anos. O catolicismo defende praticamente sozinho a razão que é baseada na integridade da mente em relação ao que é. Somos os últimos a sustentar que o mundo nos foi dado, e não criado por nossa própria mente. Porém, com essa mesma mente, nós descobrimos e articulamos o que é. Num mundo onde o relativismo é institucionalizado, qualquer reivindicação da verdade é repreendida como arrogante ou fanática. Os católicos parecem presunçosos metidos que duvidam dos preconceitos básicos da mente moderna — e de fato eles duvidam.

A reivindicação da verdade, tanto da razão como da Revelação, de fato enlouquece o mundo moderno. Como sugere o Evangelho de João, a verdade incita a perseguição que Cristo disse que seus discípulos deveriam esperar. As doutrinas mais razoáveis do catolicismo parecem loucura num mundo que nega qualquer ordem, na natureza ou no ser humano, que não tenha sido estabelecida pelo próprio homem. Também parece loucura para aqueles que se habituaram a considerar normais aberrações como o aborto, vícios oriundos da internet, divórcio e experimentos com fetos, só porque eles se tornaram frequentes. Mas até a palavra “loucura” perde o sentido quando não há nenhuma ordem ou nada normal que possa ser usado como termo de comparação.  

No Ofício Divino para o Domingo da Santíssima Trindade, Santo Atanásio (morto em 373) fala da vida interior da Divindade. Essa é a doutrina sobre a realidade que mais desafia nossa razão a ser, ela mesma, mais razoável. Atanásio nos aconselhou a estudar o antigo e tradicional ensinamento da Igreja Católica. Ele foi revelado pelo Senhor, proclamado pelos Apóstolos e protegido pelos Padres da Igreja. Se o abandonássemos (lapse from this teaching), não seríamos católicos “de fato nem de nome”. Sem dúvida, vivemos num mundo cheio de católicos não praticantes (lapsed Catholics), num mundo que costuma rejeitar qualquer proposição que inclusive alegue ser verdadeira.  

De algum modo, a rejeição da Revelação nos torna menos capazes de conhecer e enxergar o que é. Desde o início dos tempos foi-nos revelado o que precisávamos saber para a nossa salvação — em si mesmo, o propósito da Encarnação — a fim de que escutássemos, isto é, entendêssemos a Palavra que agora se tornou carne e assim pudéssemos aprender em nossa própria língua. Deus não foi negligente por não nos ter dito mais. Ele não revelou todos os outros detalhes para que não houvesse nada de que nos pudéssemos dar conta por nós mesmos. É difícil superestimar a importância desse fato. Ele nos deixou amplas lacunas a fim de que pudéssemos usar nossos próprios cérebros. Essa revelação sobre a vida interior de Deus foi dada a nós. Como consequência, nós também viemos a conhecer mais do que poderíamos saber sobre todo o resto.

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Por que me preocupar em voltar à Missa?
Igreja Católica

Por que me preocupar em voltar à Missa?

Por que me preocupar em voltar à Missa?

Após a pandemia, muitos cristãos que perderam o hábito de ir à igreja, tanto católicos como protestantes, provavelmente nem se darão ao trabalho de voltar. O fato não é muito difícil de prever, mas você… sabe dizer por que isso acontecerá?

Pe. Dwight LongeneckerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Certa vez, quando eu trabalhava como capelão numa escola católica, os pais de um rapaz do nono ano marcaram uma reunião comigo. João era um aluno inteligente, de boa aparência e popular. Vinha de uma respeitável família presbiteriana. Os pais chegaram pontualmente, estavam bem vestidos e eram educados. Depois de falarmos sobre algumas trivialidades, a mãe de João manifestou suas preocupações.

— Padre, estamos preocupados com João… — Nesse momento, ela olha para o marido em busca de apoio moral. — Estamos preocupados, não estamos, querido?

Obediente, o marido assentiu. 

— Entendi. Qual seria o problema? — perguntei. 

— Estamos preocupados com a vida espiritual dele e achamos que você poderia ajudar. João gosta do sr. e talvez o escute.

— Tudo bem. Farei o que puder. Poderiam me contar um pouco mais?

João declarou que não irá mais à igreja. — A mãe começou a fungar. 

— Vocês são presbiterianos, certo?

Isso mesmo, padre.

— Ele disse por que não quer mais ir à igreja?

Ele disse que pode ler a Bíblia e rezar da mesma forma em seu quarto em casa — respondeu o pai.

—Entendo. — Reflito por um momento, e então respondo: — Bem, João está certo, não?

Essa não foi a resposta que a mãe esperava. De repente, demonstrando interesse, o pai se aproximou.

— O que quer dizer, padre? — diz a mãe, nervosa.

— Quero dizer que João está certo. Ele pode ficar em casa, ler a Bíblia e rezar. Deixem-me perguntar uma coisa: a Igreja ensina que devemos ir à igreja para chegar ao céu?

— Bem, não, não exatamente — disse a mãe, hesitante.

— Fui criado numa religião como a de vocês e, pelo que me lembro, tudo o que temos a fazer é nos salvar, certo? Não precisamos ir à igreja — acrescentei.

— Sim, acho que isso está certo. Mas João realmente deveria ir à igreja conosco, não?

— Não me interpretem mal. Realmente acho que seria melhor que João fosse à igreja do que ficar em casa. Mas ele é um garoto inteligente, e acho que entendeu algo que é verdade. Nós católicos temos uma visão diferente disso. Gostariam de saber mais?

Agora o pai fica realmente interessado e a mãe relaxada, embora um tanto apreensiva. O pai respondeu: — Sim. Qual é a sua visão sobre isso?

— Dizemos que um católico deve ir à igreja todo domingo porque ele deveria aceitar o Senhor Jesus pela participação no Santo Sacrifício da Missa, e não é possível fazer isso em casa ou por conta própria. É necessário ter um sacerdote. No capítulo seis do Evangelho de João, Jesus diz: “Se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos” (Jo 6, 53). Portanto, para chegar ao céu temos de ir à igreja. Por isso os católicos têm uma regra que diz que devem ir à igreja.

O pai se inclina para frente: — Isso é muito interessante, padre. Quero saber mais.

Naquele momento, a mãe interrompe a conversa, agradecendo-me educadamente pela ajuda. Se não me falha a memória, João saiu da escola pouco tempo depois.

Conto essa história porque tem circulado um bom número de artigos sobre a Igreja e o período pós-pandemia. A maioria dos escritores previram que muitos cristãos, tanto católicos como protestantes, que perderam o hábito de ir à igreja provavelmente não voltarão. Acho que esses autores têm razão quanto a isso. A Covid-19 por si só terá dado origem à Igreja mais reduzida, menor e mais comprometida que Cardeal Ratzinger previu há algumas décadas.

Embora essa previsão me pareça correta, muitos comentadores não perceberam a razão por que está correta. Muitos cristãos, católicos e protestantes, farão a si mesmos a mesma pergunta que João se fez e já terão a resposta: “Igreja? Por que deveríamos nos preocupar?” 

Esse monstro que está debaixo da cama é um deísmo moralista e terapêutico. Por toda a América, ao longo das últimas cinco ou seis décadas, os líderes cristãos substituíram de forma sorrateira a religião revelada, sobrenatural e vital, isto é, o cristianismo autêntico, por uma religião “placebo”. Como outros já observaram, o cristianismo falsificado se resume a regras de respeitabilidade, a um código moral brando e à transformação do mundo em um “lugar melhor”

Como o cristianismo do século XXI foi transformado nesse algodão doce, uma multidão de Joões concluiu que “não precisa” ir à Missa nesse tipo de religião. Podem muito bem aprender como ser legal e respeitável em um clube. Podem tornar o mundo um lugar melhor se sentirem vontade de trabalhar como voluntários distribuindo sopão comunitário, ou podem se sentir espiritualizados em relação ao “grande Espírito no Céu”, talvez depois de acenderem uma vela perfumada ou de assistirem a um belo amanhecer. Por que deveríamos acordar cedo aos domingos para nos deslocar até um auditório monótono, a fim de cantar umas melodias bregas e artificiais sobre Jesus e, então, escutar um discurso motivacional e medíocre, proferido por um pastor obeso e idoso?

Eu estou com o João.

Atrás do possível (e talvez inevitável) colapso de participação na igreja pós-pandemia está uma catastrófica perda de fé. Não se trata apenas de um caso de perda individual da fé, mas da apostasia de toda uma igreja cristã e de uma nação por terem se apaixonado por um sucedâneo sentimentalista: clichês e lugares-comuns racionalistas que não só não são o cristianismo, mas nem sequer constituem uma religião.

Em todas as suas formas, a religião sempre esteve relacionada ao encontro do homem com o divino (em todas as épocas, lugares e povos). Os astecas que decapitavam suas vítimas, os monges budistas que meditam numa montanha sagrada, uma testemunha de Jeová que faz seu apostolado ou um ritual amazônico oferecido à Pachamama, todas essas coisas dizem respeito a um encontro com o “outro lado”. Os americanos deixarão de ir à igreja porque o que lhes foi apresentado não é mais uma religião, e as pessoas não querem receber falsas promessas. Elas não vão a uma churrascaria para comer hambúrguer de soja.

O elemento mais perturbador dessa má notícia é, pelo que me parece, a aceitação dessa falsa versão do cristianismo por parte da maioria dos católicos americanos. Pelo que pude observar na vida eclesial dos católicos — desde o lamentável nível de catequese até o modernismo obstinado do clero e dos acadêmicos —, o mesmo deísmo moralista e terapêutico se espalhou como um câncer nocivo por toda a Igreja. Seria interessante perguntar aos católicos americanos por que, exatamente, eles deveriam ir à igreja. Quantos diriam: “Porque só lá eu posso receber o Corpo e o Sangue salvadores do meu Senhor Jesus Cristo”? 

O que sobreviverá a esse desastre? Estou convencido de que o catolicismo da segunda metade do século XXI será místico, milagroso, ou não será nada. Irá sobreviver a religião autêntica. O culto tradicional irá sobreviver, mas não porque o sacerdote usa casula romana e barrete, ou porque as mulheres se cobrem com véu na igreja. Irá sobreviver porque os tradicionalistas creem no místico, no milagroso. A religião carismática da África e da Ásia também sobreviverá, mas não porque eles cantam em línguas, dançam ao som dos tambores da selva e escutam longos sermões. Sobreviverá porque eles creem no místico, no mitológico e no milagroso.

O que irá perecer? A igreja da mãe de João, com sua branda respeitabilidade e sua mensagem farisaica de justiça social. É essa a forma de “cristianismo” — católico e protestante — que está nos estertores. Que descanse em paz.

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Seja como for, a fé é sempre um dom de Deus
Espiritualidade

Seja como for,
a fé é sempre um dom de Deus

Seja como for, a fé é sempre um dom de Deus

“A fé vem pela pregação” e, não obstante isso, não obstante os grandes pregadores e anunciadores da fé católica que há, como São Gregório Magno e São Pio X, é preciso ter sempre em mente que só Deus dá o hábito da fé sobrenatural.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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No início de setembro, o calendário litúrgico da Igreja Católica Romana põe-nos diante dos olhos um enigma interessante. De 1955 a 1970, o dia 3 de setembro era festa de S. Pio X, enquanto o dia 12 de março continuava a ser festa de S. Gregório Magno (no calendário tridentino e entre os cristãos orientais o santo ainda é celebrado na data de sua morte). Em 1969, porém, a comissão que revisou o calendário litúrgico transferiu S. Gregório para 3 de setembro, data de sua sagração episcopal, e Pio X para 21 de agosto, que é o dia seguinte à sua morte. Deste modo, seja qual for o ângulo de que se olhe, esses dois Papas santos estão misteriosamente unidos um ao outro. E é apropriado que seja assim, já que Gregório estabeleceu a forma final do Cânon Romano, que é a oração principal da Missa em latim, e Pio X restabeleceu o primado do chamado canto gregoriano, que sempre foi a música central do rito romano.

Ambos os Pontífices viveram de modo heroico pela virtude teologal da ; ambos foram grandes pregadores e anunciadores da fé católica.

“São Gregório Magno, Papa”, por Francisco de Goya.

“A fé vem pela pregação”, diz S. Paulo, “e a pregação pela palavra de Cristo” (Rm 10, 17). Nós somos instruídos no Evangelho de Nosso Senhor por meio de seus ministros e defensores, nossos pais e padrinhos, nossos bispos e sacerdotes. Escutamos a beleza e a profundidade da palavra de Deus nas linhas sinuosas do canto gregoriano, e somos elevados ao Tabor espiritual no solene recolhimento do Cânon da Missa, de modo que ambos, música e silêncio, se tornam arautos dos santos mistérios. Os que entraram mais tarde em contato com a fé, foram introduzidos a ela, geralmente, por leigos católicos que pregam a verdade a tempo e fora de tempo (cf. 2Tm 4, 2). Sempre há uma palavra que se fala e um ouvido que se põe a escutá-la.

Seja qual for a forma através da qual as verdades do Evangelho nos alcançam e penetram nossos corações, é necessário para o nosso bem enquanto cristãos que recebamos reta instrução religiosa e iniciação sacramental. Essa dupla fonte da maturidade cristã — catequese moral e intelectual junto com a participação na vida divina através dos sacramentos — é belamente ilustrada por Nosso Senhor em seu diálogo com Nicodemos (cf. Jo 3, 1-21), quando Ele a um só tempo o instrui sobre o significado da Redenção e o conduz pela mão para mostrar a necessidade do Batismo. 

Sempre que os mestres da verdade católica espalham a palavra da salvação que foi semeada por Cristo, eles estão a imitar seu Mestre como Luz das nações (cf. Lc 2, 32). “A fé vem pela pregação”: é através da pregação e do ensino da fé católica que a virtude teologal da , que compreende os sublimes mistérios de Deus, é primeiro plantada nos corações dos que não crêem e depois robustecida naqueles que já acreditam.

Não obstante, é preciso ter em mente, acima de tudo, que apenas Deus dá o hábito da fé sobrenatural. É somente através de sua graça, e não por instrução ou iniciação humana, que passamos a crer a fim de receber a salvação (cf. Rm 1, 16), que nos tornamos capazes de professar o Credo com total adesão ao Deus que se revela a nós. Os cristãos aderem a essa verdade sobrenatural por meio da graça da fé infundida em suas almas (“recebei com mansidão a palavra enxertada em vós, a qual pode salvar as vossas almas” — Tg 1, 21), e não por argumentações ou pela capacidade de convencimento dos homens.

O cristão plenamente formado recebe três dons fundamentais da parte de Deus, chamados de “virtudes teologais”, as quais permeiam toda a sua vida espiritual: trata-se da fé, da esperança e da caridade (sendo a caridade não uma esmola medida em dinheiro, mas o amor a Deus por causa dele mesmo e ao próximo por causa de Deus).

A graça da é a base das outras, já que é impossível esperar o Céu ou ser amigo de Deus sem desde já sustentar com firmeza a doutrina revelada da fé (ao passo que é possível, como mostra S. Tomás de Aquino, ter uma fé “informe” mesmo na ausência de esperança e de caridade). Por exemplo, a alma em pecado mortal é inimiga de Deus e sabe que não pode alcançar o Céu por conta dessa separação, mas ela ainda crê na verdade do Evangelho, na Redenção e na remissão dos pecados. “Ninguém pode dizer ‘Jesus é Senhor’, senão pelo Espírito Santo” (1Cor 12, 3). “Nisto se conhece o Espírito de Deus: todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus” (1Jo 4, 2). Sem uma fé permanente em Deus, ninguém pode se voltar a Ele na Confissão

Para a alma cristã em cujo íntimo Deus habita, a graça da fé, que a prende ao invisível, é ladeada tanto pela graça da esperança, que nos impele a aspirar pela realização de nosso ser na visão face a face de Deus, e pela graça da caridade, que nos torna capazes de partilhar a vida e o amor próprios de Cristo, transformando em nosso o que é dele, “segundo a medida do dom de Cristo” (Ef 4, 7). 

A caridade é a rainha das virtudes teologais por pelo menos três razões: primeiro, ela é a amizade espiritual à qual fomos alçados pela misericórdia divina; segundo, ela nos permite realizar obras e suportar sofrimentos de modo agradável a Deus; e, terceiro, só ela permanece em seu pleno esplendor no Céu, onde a fé dá lugar à visão e a esperança, à posse eterna de Deus (cf. 1Cor 13, 8-13).

Deus é o único autor das virtudes teologais, que são sobrenaturais em essência, ou seja, está para além da capacidade humana produzi-las ou provocá-las. Nem por nossos sinceros esforços, nem recebendo a instrução de outrem, poderíamos ganhar ou obter as virtudes teologais. Deus escolhe (falamos como se Deus estivesse fazendo escolhas no tempo, quando Ele permanece imóvel por toda a eternidade) fazer crescer as sementes que outros plantaram e regaram. Em uma declaração admirável de humildade, o maior pregador que a religião cristã jamais conheceu disse: “Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é que deu o crescimento. De modo que não é nada nem o que planta, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento” (1Cor 3, 6-7).

O Senhor nos manda que imploremos a Ele, divino Jardineiro, o crescimento. “Aumenta-nos a fé” (Lc 17, 5). Como as virgens prudentes esperam a chegada do esposo na parábola (cf. Mt 25), ou como a amada aspira por seu amado no Cântico dos Cânticos, assim também devemos rezar e suplicar — esperando, mas sempre buscando o Todo-poderoso. 

Durante a noite no meu leito
busquei aquele a quem ama a minha alma;
busquei-o, e não o achei.
Levantar-me-ei, e rodearei a cidade;
buscarei pelas ruas e praças públicas
aquele a quem ama a minha alma (Ct 3, 1-2).

Em muitos de seus livros, Søren Kierkegaard insiste em lembrar o seu leitor de que “não temos pressa”. Tampouco a tem o homem que está à procura de Deus. É salutar que se espere pela luz, humildemente, e que se suspire pelo seu despontar — mas não podemos fazer o Sol nascer. Podemos viajar a pé, no frio da noite, rumo ao horizonte onde a luz aparecerá — ou seja, podemos abrir-nos à luz, capacitar-nos para recebê-la, dispor-nos à conversão pela graça de Deus. Podemos até, aparentemente, apressar a chegada do Sol, quando o que estamos fazendo é, simplesmente, aproximar-nos de onde ele primeiro desponta, a fim de o contemplar mais cedo. “Eu amo os que me amam, e os que vigiam desde manhã para me buscarem, achar-me-ão” (Pr 8, 17).

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