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Matrimônio, “um duelo até a morte”
Espiritualidade

Matrimônio, “um duelo até a morte”

Matrimônio, “um duelo até a morte”

O casamento por toda a vida é um ato de desafio contra todas as dificuldades da vida, das catástrofes às imoralidades. Trata-se de um “duelo até a morte”, não contra a pessoa amada, mas por causa dela.

Nathanael BlakeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Dezembro de 2018Tempo de leitura: 9 minutos
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O matrimônio é um duelo até a morte, do qual nenhum homem honrado deveria fugir”. Como muitos dos aforismos de G. K. Chesterton, essa linha ilumina… e surpreende. É uma bela fala de um personagem da obra Manalive, e muitos leitores sentirão que ela tem algo de verdadeiro.

Ainda assim, com um pouco mais de reflexão, ela não deixa de ser confusa. Quem são os duelistas? Se são marido e mulher, então o ditado torna-se sombrio de uma forma decididamente não-chestertoniana: não é possível que ele quisesse louvar os conflitos desagradáveis que tornam miseráveis tantos casamentos. E mesmo se a expressão quisesse referir-se tão-somente a uma “disputa romântica”, ainda assim ela seria exagerada e míope. Os cônjuges podem competir graciosamente às vezes, mas o casamento também está repleto de trabalhos terrenos — lavar roupas, agendar consultas médicas, lavar a louça etc. Descrever esse esforço comum na vida como um duelo seria entendê-lo da maneira errada. Além disso, Chesterton certamente não quis dizer com essa frase que os homens não-casados, inclusive os padres de sua própria fé católica, são todos desonrosos.

Mas a linha de Chesterton, nesse conto fantástico de sua autoria, soa como uma frase belamente articulada e de modo algum é destituída de sentido. Para os homens, o casamento é deveras um duelo até a morte, não contra a própria esposa, mas por causa dela. Os votos de nosso matrimônio tradicional são quase tão românticos quanto quaisquer juramentos que o cavaleiro de um livro de histórias já tenha feito. Na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença, renunciando a todas as outras pessoas, até que a morte nos separe — tais promessas são um desafio contra o mundo inteiro, se for necessário. O duelo não é contra a própria esposa, mas contra tudo e contra todos em potencial, inclusive contra si mesmo. A busca por viver fielmente os próprios votos é ora difícil, ora alegre, mas a medida não se distribui igualmente. Aderir a essas promessas pode acarretar um sofrimento terrível.

Tal é o risco do amor.

Como nos lembra C. S. Lewis, “amar plenamente é ser vulnerável”. Amar outra pessoa significa tornar-se refém seja da sorte, seja de uma vontade alheia. Os votos do matrimônio cristão tradicional são explícitos nesse ponto: a pessoa promete permanecer casada estando na pior situação, na pobreza e na doença, se for o caso. A prudência pode mitigar alguns dos riscos; mas, apesar de tudo, o casamento continua a ser uma aceitação de vulnerabilidade por toda a vida, se esses votos forem levados a sério. Para citar Chesterton (mais uma vez em Manalive): “Matrimônios imprudentes!... Onde no céu ou na terra existiram quaisquer matrimônios prudentes? Poder-se-ia falar igualmente de suicídios prudentes.” Um compromisso até a morte não é prudente, se uma pessoa está olhando apenas para si mesma.

E o casamento é uma morte de si, porque estabelece, no lugar do “eu” solitário do indivíduo, um “nós” por toda a vida. A união física do casamento, que a Bíblia descreve como “uma só carne”, é apenas uma parte da fusão que é o casamento, na qual o próprio eu, embora não seja abolido, volta-se de modo irrevogável para a outra pessoa. Ceder o controle sobre a própria vida dessa forma pode ser apavorante, e muitos se recusarão a fazê-lo. Pense-se, por exemplo, no eminente filósofo Jean-Jacques Rousseau, que ao longo de toda a vida procurou um meio de ter amor sem vulnerabilidade. Isso simplesmente não é possível nesta vida.

É possível ter prazer ao mesmo tempo em que se tem controle e segurança, mas amor não. E o prazer sem amor se esvai. Por isso, Lewis concluiu seus comentários sobre a vulnerabilidade do amor com um alerta: “O único lugar, fora o Céu, onde você pode ficar perfeitamente a salvo de todos os perigos e perturbações do amor, é o Inferno.” Aqueles que não arriscam seus corações acabarão fazendo de si mesmos pessoas sem coração. É por isso que os tradicionais votos matrimoniais admitem a possibilidade de corações partidos, pois, se os corações não endurecerem ao longo dos anos, ao menos um deles se partirá quando a morte fizer a sua parte.

Ainda assim, aqueles que amam continuam casados, não apenas por um costume social ou pelos benefícios que a estabilidade do romance e da família proporcionam à sociedade, mas porque o amor os impele a agir assim. Há algo a respeito do amor que nos induz a fazer promessas de fidelidade eterna, como se soubéssemos que tal fidelidade oferece um modo de vida melhor, sejam lá quais forem os riscos que se corram. É uma aliança o que permite que um relacionamento se mova da potência ao ato. O eu que sacrifica sua autonomia sobre o altar do matrimônio se verá mais plenamente realizado nesse relacionamento. Só quando eliminamos as outras opções do que nos poderíamos tornar é que podemos entrar no negócio de nos tornarmos alguma coisa; só renunciando a todas as outras pessoas é que poderemos realizar plenamente nosso relacionamento com uma única pessoa.

Mas, nessa matéria, há uma heresia em potencial que ronda nossa cultura: a da “alma gêmea” (da “tampa da panela”, da “metade da laranja”, ou seja lá como se queira chamá-la). Trata-se de uma noção quase espiritual: existe uma pessoa com a qual você nasceu para estar e, se você se casar com essa pessoa, você será feliz no casamento. Essa visão, abraçada por alguns cristãos, é como um bálsamo para as preocupações relativas aos riscos de se fazer uma aliança, mas ao mesmo tempo torna as coisas piores. A ideia passa a ilusão de que o romance e o casamento com a alma gêmea serão fáceis, mas essa garantia de conforto serve como uma desculpa, tanto para a preguiça (a moral e a outra) em um relacionamento, quanto para o abandono do casamento quando os problemas inevitavelmente aparecem. Além disso, a pessoa que parece ser a alma gêmea de alguém aos 20, 25 ou 30 anos pode se tornar um “encosto” mais tarde. O “par perfeito” para um ego imaturo impedir-lhe-á o amadurecimento, não deixará espaço para que ele se desenvolva. Assim, a ideia da alma gêmea, vinda da cultura pop, deixa de levar em conta o dinamismo e o desenvolvimento necessários para sustentar um relacionamento por toda a vida.

A noção da alma gêmea também ignora as realidades do livre-arbítrio e da pecaminosidade humana, que podem corromper e destruir inclusive relacionamentos entre almas gêmeas, se elas existissem na forma como são concebidas pela imaginação popular. Assim, a recusa de reconhecer a fragilidade de todos os pares humanos faz com que a noção da alma gêmea se transforme em um ídolo que nos afasta de nossos votos matrimoniais. J. R. R. Tolkien observou os perigos dessa falsa ideia das almas gêmeas em uma carta ao seu filho Michael. Eis o seu alerta:

Quando o glamour se vai, ou simplesmente diminui, as pessoas acham que cometeram um erro, e que a verdadeira alma gêmea ainda está por ser encontrada. A verdadeira alma gêmea se revelará, com muita probabilidade, como a primeira pessoa sexualmente atrativa que aparecer. Alguém com quem, de fato, elas deveriam ter-se casado, com muito proveito para si mesmas, se pelo menos… Daí o divórcio, a fim de providenciar o “se pelo menos”. E, é claro, via de regra elas até que estão certas: elas cometeram de fato um erro. Só uma pessoa muito sábia poderia, ao fim de sua vida, fazer um julgamento sadio de com quem, entre todas as alternativas possíveis, ela deveria ter-se casado com mais proveito!... Mas a “verdadeira alma gêmea” é a pessoa com a qual você se encontra casado de fato.

É necessário escolher cuidadosamente a própria companheira de vida, é claro, mas não devemos supor que encontraremos apenas conforto e compatibilidade perfeita se encontrarmos a pessoa certa. Ademais, nós poderíamos acrescentar ao conselho de Tolkien o seguinte: mesmo se houvesse uma pessoa perfeita preparada para você, o que faria você pensar que a merece? Ou que você gostaria mesmo de uma alma gêmea perfeita? Talvez o que você procura em uma alma gêmea é bem diferente do que aquilo de que você precisa. Uma pessoa realmente perfeita para você, ao invés de o deixar correr solto, o que gostaria era de que você se tornasse uma pessoa melhor, e muitos de nós não acolheremos essa correção, não importando o quão docilmente estejamos orientados para melhorar.

A tolice das almas gêmeas não dá nenhuma resposta para a vulnerabilidade do amor e para os riscos de uma aliança matrimonial por toda a vida. O que há é apenas uma escolha inicial (tomada com prudência, assim se espera) e então a tentativa, que durará a vida inteira, de ser fiel aos próprios votos, não obstante as tragédias, os sofrimentos ou mesmo o agradável tédio de uma vida comum levada em meio à prosperidade do mundo moderno. Embora esteja na moda menosprezar como chato e sem graça um homem e uma mulher comuns partilhando a vida no casamento, normalmente um casal assim se compromete a uma missão muito mais desafiadora e romântica do que qualquer coisa a ser tentada por um boêmio libertino.

O casamento por toda a vida é um ato de desafio contra todas as dificuldades da vida, das catástrofes às imoralidades. No casamento, homens e mulheres se prometem uns aos outros e mandam o destino às favas. As tradicionais promessas que tornam solene um matrimônio constituem uma das mais dignas e importantes atividades humanas. Nossa liberdade não se concretiza na possibilidade de fazermos algo, mas, sim, em fazer aquilo que demos a nossa palavra que faríamos. A liberdade humana se consuma na autolimitação voluntária da promessa feita e cumprida. No ato de fazer e manter promessas, nós nos posicionamos frente ao mundo e ao futuro como agentes ativos, e não como seres meramente passivos reagindo às circunstâncias. A força dos juramentos na ficção, na literatura e no direito deve-se à prova que eles fazem da vontade humana livre dentro do cosmos.

Como observava Hannah Arendt, é o ato de fazer e manter promessas, bem como o de perdoar, que põe fim às reações impulsivas e permite-nos começar alguma coisa nova. Vistos sob essa perspectiva, os votos matrimoniais não são um fim a inaugurar um estado imóvel, mas um começo a permitir o florescimento de algo novo. Ao viver nossos votos matrimoniais, renovamos nossa liberdade e nossa dignidade como agentes, ao mesmo tempo que unimos as duas metades da raça humana em uma união a dar-lhe continuidade.

E, para os cristãos, isso permite entrever um pouco como o matrimônio é uma fonte de graça e uma imagem de Cristo e sua Igreja. Jesus Cristo passou a vida em humilde serviço para estabelecer sua Igreja, até finalmente morrer por ela. Nada do que Ele nos pede, a fim de mantermos nossos votos no matrimônio, será mais difícil de suportar do que aquilo por que Ele já passou por nossa causa.

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Ladainha do Sagrado Coração de Jesus
Oração

Ladainha do Sagrado Coração de Jesus

Ladainha do Sagrado Coração de Jesus

Nas 33 invocações desta litania em honra ao Sagrado Coração de Jesus, uma para cada ano de sua santíssima vida na terra, temos um verdadeiro guia de meditação para este mês de junho e, no fundo, para toda a nossa vida cristã.

Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Junho de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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Em 1899, o Papa Leão XIII aprovou esta Ladainha do Sagrado Coração de Jesus para uso público. Sua estrutura constitui, na verdade, uma síntese de várias outras litanias que remontam ao século XVII. A versão final delas, aprovada pela Sagrada Congregação para os Ritos, perfaz um total de 33 invocações ao Coração divino de Nosso Senhor, um para cada ano de sua santíssima vida.

Quem recita devotamente esta oração lucra indulgências parciais (cf. Enchr. Indulg., conc. 22). Para acessar a versão latina da ladainha, clique aqui.


Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.

Pai celeste, que sois Deus, tende piedade de nós.
Filho, Redentor do mundo, que sois Deus, tende piedade de nós.
Espírito Santo, que sois Deus, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.

Coração de Jesus, Filho do Pai eterno, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, formado pelo Espírito Santo no seio da Virgem Mãe, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, unido substancialmente ao Verbo de Deus, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, de majestade infinita, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, templo santo de Deus, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, tabernáculo do Altíssimo, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, casa de Deus e porta do Céu, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, fornalha ardente de caridade, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, receptáculo de justiça e de amor, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, cheio de bondade e de amor, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, abismo de todas as virtudes, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, digníssimo de todo o louvor, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, Rei e centro de todos os corações, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, no qual estão todos os tesouros da sabedoria e ciência, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, no qual habita toda a plenitude da divindade, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, no qual o Pai põe todas as suas complacências, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, de cuja plenitude todos nós participamos, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, desejado das colinas eternas, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, paciente e de muita misericórdia, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, rico para todos que vos invocam, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, fonte de vida e santidade, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, propiciação por nossos pecados, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, saturado de opróbrios, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, esmagado de dor por causa dos nossos pecados, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, feito obediente até a morte, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, transpassado pela lança, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, fonte de toda consolação, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, nossa vida e ressurreição, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, nossa paz e reconciliação, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, vítima dos pecadores, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, salvação dos que em vós esperam, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, esperança dos que morrem em vós, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, delícias de todos os santos, tende piedade de nós.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, ouvi-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós, Senhor.

V. Jesus, manso e humilde de coração,
R. Fazei o nosso coração semelhante ao vosso.

Oremos:
Deus eterno e todo-poderoso, olhai para o Coração do vosso diletíssimo Filho e para os louvores e satisfações que Ele, em nome dos pecadores, vos tem tributado; e, deixando-vos aplacar, perdoai aos que imploram a vossa misericórdia, em nome de vosso mesmo Filho, Jesus Cristo, que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo. Amém.

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Santa Joana d’Arc: um guia para todas as épocas
Santos & Mártires

Santa Joana d’Arc:
um guia para todas as épocas

Santa Joana d’Arc: um guia para todas as épocas

Que uma grande santa tenha feito tanto na defesa de seu povo deveria fazer-nos pensar… Talvez as aspirações de um império mundial não façam parte do plano divino. Ao contrário, é no nosso pedacinho de terra que devemos ficar e salvar as nossas almas.

Christopher CheckTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Maio de 2020Tempo de leitura: 10 minutos
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Mark Twain considerava a biografia de Santa Joana d’Arc, cuja festa celebramos hoje, a sua melhor obra. Ele dizia que a Donzela de Orleans era “facilmente e de longe a pessoa mais extraordinária já produzida pela espécie humana”. A história de Santa Joana é bastante conhecida por católicos e não católicos, e também isso não deixa de surpreender: talvez não haja uma personagem medieval com a vida tão bem documentada quanto ela.

A história de sua vida e de como ela libertou a França do domínio inglês sobrevivera por séculos como uma espécie de mito nacional francês, mas, de fato, foi somente durante a adolescência de Twain que o historiador e arqueólogo francês Jules Étienne Quicherat reuniu documentos oficiais do julgamento e da reabilitação e os apresentou em cinco volumes de um “francês moderno lúcido e compreensível”. Não podemos deixar de pensar na repercussão gerada entre os medievalistas e os fiéis franceses quando esses documentos confirmaram para o mundo moderno o mito que havia inflamado os corações dos franceses por gerações.

Os volumes de Quicherat fornecem várias camadas de confirmação dos notáveis acontecimentos de sua breve vida. Como Twain observa, tudo foi apresentado sob juramento. Ele insiste que não há nenhuma outra vida “daquele período remoto” que seja “conhecida com a certeza ou a exatidão com que conhecemos a vida dela”. Ou os detalhes da vida de Joana são verdadeiros, ou a história dela é uma conspiração multissecular para criar uma heroína nacional sem par em toda a história.

Santa Joana cativou a imaginação de novelistas, dramaturgos, historiadores e cineastas, com alguns se aproximando mais da verdade que outros.

Há também as flagrantes distorções. Alguns enxergam em Joana uma feminista, interpretação que ignora, entre outras coisas, o desejo que ela tinha de consagrar a própria virgindade. G. K. Chesterton disse dela o seguinte: “O tipo de pessoa que sabia por que mulheres usavam saia — como Joana d’Arc — era justamente o que mais justificativas tinha para não usá-la.”

Sua intenção jamais foi se destacar num mundo masculino. Na verdade, ela tentou recusar a missão que recebera. Tão logo o Delfim fora coroado, ela tentou retomar a sua vida em Domrémy. Sua infância foi completamente feminina, dedicada à prática da arte de construir um lar: “Na costura e na tecelagem não temo mulher alguma”, disse ela em seu julgamento.

Santa Joana d’Arc, retratada por Hermann Anton Stilke.

Joana não era apenas claramente doméstica, como também não tinha nada da licenciosidade de uma feminista. O testemunho dos soldados e oficiais que lhe foram próximos descreve uma mulher cuja modéstia teve influência decisiva no comportamento deles. Quando ingressou no exército francês, um de seus primeiros atos foi expulsar as prostitutas do acampamento militar com uma espada. George Bernard Shaw disse que foi uma atitude puritana; é uma acusação comum em quartéis, onde o voto de virgindade não é compreendido. Porém, os soldados de Joana compreenderam a atitude, e a virtude heroica dela inspirou-os a amá-la e a segui-la

Joana como protoprotestante, outra distorção de Bernard Shaw, não está de acordo com o depoimento. Ela amava a Igreja e os sacramentos. Um de seus primeiros atos como comandante foi a implementação da assistência à Missa e a recepção frequente dos sacramentos pelos soldados. Não há nada em seu depoimento que contradiga a doutrina da Igreja, e ao longo de todo o julgamento ela defendeu a autoridade do Papa, tendo solicitado mais de uma vez ser submetida ao julgamento dele. Além disso, é possível que Joana tenha ditado uma carta para os hussitas da Boêmia, condenando-os por seu utraquismo, comparando-os aos “sarracenos” e alertando-os sobre o terrível juízo de Deus para os hereges.  

Há outros erros a respeito de Joana: ela teria sido nacionalista e heroína da classe trabalhadora, uma revolucionária precoce que queria derrubar a antiga ordem feudal. Mas, se essas foram realmente as motivações de Joana, por que ela praticamente arrastou o Delfim para a coroação? Por que ela teria desejado tanto abandonar o mundo político da corte de Carlos e voltar para a vida de camponesa? 

É uma ideia difundida a de que a Igreja reverencia Joana como mártir. Mas ela não foi propriamente uma. Sua santidade vem antes da piedade, da devoção, da caridade e, acima de tudo, como observa o padre Thurston, de seu desejo de imitar a Santíssima Virgem, aceitando a vontade de Deus e não deixando que nada se interpusesse a ela, por improvável que parecesse.

Naturalmente, nada podia ser mais improvável que uma camponesa adolescente e sem treinamento militar liderando um exército. Mas as vitórias dela no campo de batalha e, mais que isso, seu papel central numa campanha que mudou os rumos da Guerra dos Cem Anos, são fatos indiscutíveis. Ela fez tudo isso aos dezenove anos; foi a pessoa mais jovem a comandar o exército de uma nação, e não como mera testa-de-ferro ou líder de torcida, mas como verdadeira comandante de batalha, que assumiu as estratégias e as táticas de sua força militar. Ela levou a cabo o que provavelmente constitui o papel mais importante de um líder: restaurou o moral do exército francês e o manteve elevado, insistindo sobretudo em que seus soldados se portassem como cristãos e posicionando-se na vanguarda do ataque.

Mas Joana fez mais que isso. De acordo com o depoimento dos capitães que serviram junto com ela, Joana foi perita em tática. Em sua reabilitação, um capitão de Chartres disse o seguinte dela: 

Exceto em assuntos de guerra, ela era simples e inocente. Mas quando montava e liderava um exército para a batalha e quando discursava para os soldados, ela se comportava como o mais experiente capitão do mundo, como alguém que possuía a experiência de uma vida inteira.

O Duque de Alençon confirma esse depoimento:

Ela era extremamente habilidosa na condução da guerra: tanto ao portar a lança como ao dispor a artilharia e o exército para ordem de batalha. E todos ficavam impressionados com o fato de ela agir com tanta prudência e lucidez em assuntos militares, com a inteligência de um grande capitão com vinte ou trinta anos de experiência; e particularmente na disposição da artilharia, pois nesse quesito ela desempenhou-se com magnificência.  

A habilidade extraordinária de Joana como comandante não se limitava à sua habilidade tática. Ela também entendia de estratégia política. Depois de intensificar o cerco a Orleans, o Delfim e seus conselheiros foram favoráveis à invasão da Normandia. Joana convenceu-os de que abrir caminho até Reims e sagrar Carlos como rei desmoralizaria os ingleses e fortaleceria a vontade dos franceses para que permanecessem no combate. Seu plano levou à vitória final da França.

Até hoje, no entanto, alguns dizem que as ações dela não foram decisivas para o fim da guerra. A questão parece razoável. Afinal de contas, os franceses obtiveram a vitória mais de trinta anos depois da morte de Joana. Apesar disso, para os cristãos, a questão parece quase impertinente. Deus enviou Joana para livrar a França do domínio inglês. O plano da Providência não é o mesmo que o da humanidade. O fato de Deus ter decidido esperar por três décadas até fazer com que a obra de Joana desse frutos diz respeito somente a Ele. 

Céticos, cínicos, desmistificadores e outros descrentes procuram outras causas para a conclusão da guerra. É verdade que a Inglaterra de fato retomou muito do que perdeu durante a revitalização liderada por Joana. Além disso, a perda de receita da Inglaterra por causa da crise agrícola e do declínio no comércio marítimo reduziram sua capacidade de travar guerras.

Édouard Perruy, cuja história da Guerra dos Cem Anos é amplamente tida por confiável, parece ter dúvidas sobre a questão. A certa altura ele diz: “Portanto, o sacrifício da Donzela, embora tenha anunciado a vitória decisiva, só o fez remotamente. Ela de fato exerceu a influência essencial no decurso dos eventos que sempre lhe foi atribuída? É possível questionar isso”. Na mesma obra, porém, ele escreve:  

Só o que a heroína deixou para trás foram suas ações. Mas foram ações cujas marcas não poderiam ser apagadas por nenhuma condenação. Houve o fato militar de que pela primeira vez os exércitos de Lancaster foram detidos no caminho para a vitória. Houve o fato político de que o rei… recebeu o prestígio da coroação. Nesse sentido, a intervenção de Joana d’Arc e a página escrita por ela na história da França (contra toda expectativa) merecem ser lembradas como fatos preciosos.    

O historiador e general J. F. C. Fuller, ele mesmo um descrente, considera o papel de Joana claramente decisivo, ressaltando o efeito que a intensificação no cerco a Orleans teve na confiança dos franceses. Os invencíveis ingleses foram detidos.

“Joana d’Arc em batalha”, também por Hermann Anton Stilke.

Outro efeito da vitória em Orleans foi a união dos nobres franceses, que estavam indecisos em relação a apoiar ou não o Delfim. Eles então se apresentaram e apoiaram a causa de Valois. Um deles, o duque da Bretanha, enviou uma carta a Joana declarando sua aliança com Carlos. Joana escreveu-lhe uma resposta repreendendo-o por ter demorado tanto a fazê-lo.

Poderíamos ainda avaliar em que medida Joana foi responsável por uma derradeira vitória da França ao estimar até que ponto ela foi responsável por suscitar uma resolução para a guerra civil francesa entre Armagnacs e Borguinhões — questão, até onde eu sei, ainda inexplorada pelos historiadores. Nós sabemos que Joana escreveu uma carta ao Duque de Borgonha à época da coroação em Rheims. Embora ele não tenha estado presente, não é despropositado supor que Borgonha pode ter decidido depositar suas melhores riquezas numa França cada vez mais unida sob o mito patriótico de Santa Joana.

Hoje, revisionistas desmancha-prazeres adoram fazer estardalhaço conjecturando se a batalha do Álamo foi decisiva, ou se a travessia de George Washington em Trenton foi decisiva. Questões como essas são maçantes. Os mitos das batalhas de Álamo e Trenton, assim como os mitos das batalhas de Lepanto e Termópilas, incendeiam a alma de uma nação. “O inspirador comando da jovem aldeã de Lorena”, como monsenhor Philip Hughes o descreve, foi decisivo e, em muitos aspectos, não pode ser necessariamente medido por um número de baixas. Santa Joana é o maior mito da França, e pelo menos um dos maiores da cristandade. Acontece que esse mito é também verdadeiro.

O que a história de Joana tem a nos ensinar? Sua biografia decerto deixa claros os méritos da obediência, da confiança em Deus, da fortaleza, da perseverança etc.

Mas há também uma verdade facilmente esquecida pelas nações modernas onde a volubilidade é celebrada, onde a falta de raízes é a norma e onde terra significa pouco mais que uma hipoteca numa esfera de consumo. E a verdade é esta: Deus ama lugares específicos, como a França, e pessoas específicas, como os franceses. Ele também ama Lorena e Domrémy, e quer que estejamos vinculados à porção singular que nos cabe do mundo, onde quer que ela seja. Esse tipo de vínculo é o verdadeiro patriotismo, e contrasta com o falso globalismo que caracteriza tanto do discurso político moderno.

Há uma mensagem para nós no fato de uma grande santa ter feito tanto na defesa de um povo único, de sua terra e de seu sangue. Talvez as aspirações revolucionárias de um império universal não façam parte do plano divino. Em vez disso, o pedacinho de terra em que vivemos é o lugar que nos foi designado para nele cuidarmos de nossa salvação. Quando imagens do planeta Terra tiradas do espaço e a intensidade das comunicações eletrônicas modernas fazem nossos vilarejos parecer insignificantes, podemos refletir sobre aquilo pelo que Santa Joana lutou e deu sua vida, e dar graças a Deus por nosso sangue e nosso solo.

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“Nudes”: a intimidade que não nos pertence
Sociedade

“Nudes”:
a intimidade que não nos pertence

“Nudes”: a intimidade que não nos pertence

Até pouco tempo atrás, ninguém saía por aí revelando seus segredos a qualquer um, muito menos as partes mais escondidas do corpo. Mas, com o surgimento das redes sociais, nada parece mais tão óbvio assim...

Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Maio de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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Há até pouco tempo, quando as pessoas ainda tinham um pingo de juízo (e amor-próprio), havia certo cuidado com a preservação da intimidade. Ninguém saía por aí revelando seus segredos a qualquer um, muito menos as partes mais escondidas do corpo, por razões óbvias.

Mas, com o surgimento das redes sociais, nada parece mais tão óbvio assim, e o que antes era reservado às relações entre quatro paredes agora virou de domínio público. Por exemplo, ninguém mais precisa recorrer a um filme indecente ou comprar revistas “adultas” para satisfazer a curiosidade malsã sobre o corpo alheio. Hoje, tanto as ditas “celebridades” quanto as pessoas comuns aderiram à cultura da nudez (ou dos nudes, como chamam), de modo que é quase impossível navegar pela internet sem deparar, aqui e ali, com algum seio despido ou coisa do gênero.

Os chamados “especialistas” deram a esse tipo de relacionamento o nome de sexting (sex + texting), ou seja, relacionar-se sexualmente por mensagens no celular. Mas, pontificam eles, não são só os parceiros sexuais que trocam fotos íntimas. Também amigos podem se “conhecer melhor”, com a diferença de que o objetivo, nesse caso, seria apenas uma “brincadeira” ou uma piada no meio de uma conversa séria; em outras palavras, um frexting (friend [amigo] + sexting).

Há ainda os que buscam alguma forma de libertação do corpo. Esses julgam que, postando fotos nuas na internet, sem qualquer edição, estão reivindicando respeito às suas formas e quebrando padrões de beleza. Trata-se talvez de uma “Marcha das Vadias” online.

Seja como for, a cultura dos nudes ganhou mais força nestes tempos de pandemia, inclusive com o respaldo de autoridades. A prefeitura de Nova Iorque, entre tantas outras, aconselhou os cidadãos da sua cidade a se masturbarem e procurarem “encontros por vídeo, sexting ou salas de bate-papo”. Para justificar a medida, os especialistas (sempre eles...) a defenderam como uma forma de “aliviar a tensão”, num movimento “natural” da sexualidade humana. Disse uma sexóloga numa entrevista: “A sexualidade é uma fonte de prazer importante para a vida humana e você pode obtê-lo sozinho, não precisa do outro. Num momento como esse, de isolamento, usar as ferramentas de tecnologia para essa busca é comum” (grifos nossos).

O fato é que essa moda tem causado sérias mudanças no comportamento sexual humano. Quando se interessam por alguém, os pretendentes não pensam mais em convidar o outro para sair ou em enviar flores e chocolates. O romance, o cavalheirismo, a delicadeza e a conquista saíram de cena. Afinal, se o que desejam unicamente é sexo, sexo é o que devem mostrar. E, graças à internet, essa relação nem precisa ser real: o que importa é conseguir prazer.

Em princípio, parece estranho que o ato humano que melhor expressa o vínculo de amor entre um homem e uma mulher seja reduzido a uma recreação virtual e egocêntrica. Mas, pensando em termos históricos, essa visão deturpada da sexualidade nada mais é do que a consumação de um movimento iniciado lá atrás, no Renascimento, quando o homem, assustado pela Peste Negra, descobriu no seu corpo um meio de autossatisfação. É o que relata o historiador Roland Mousnier: “A arte toma um caráter novo, o assunto principal é o homem, e no homem o belo corpo humano... Beleza do corpo humano, triunfo do homem em sua radiante força, horror ao sofrimento, à compaixão e à resignação” [1].

O Renascimento foi, em termos culturais, uma retomada da mentalidade pagã, na qual o ser humano é valorizado não pela sua pessoa, como na Idade Média, mas por suas glórias externas. Daí o surgimento da arte pornográfica como fuga das tensões e meio para exaltação do corpo. Com isso, os renascentistas julgavam fazer uma afirmação de si mesmos, colocando-se no centro das atenções, inaugurando uma nova religião: o humanismo. E assim saímos do Decamerão, de Boccaccio, para chegar ao sexting das redes sociais. Mutatis mutandis, o que há de comum entre uma coisa e outra é justamente a busca do prazer e a fuga da dor, ou seja, a valorização do homem pelo que lhe é exterior e, em consequência, o empobrecimento da capacidade humana de amar.

Esses efeitos negativos saltam aos olhos de qualquer um que esteja disposto a enxergar a verdade. Retratamos aqui há pouco tempo como a obsessão pela nudez, em nome de uma suposta arte, já causou estragos terríveis na vida de tantos artistas. “Depois de passar nove horas filmando cenas de sexo, fiquei tremendo, as lágrimas escorriam pelo meu rosto”, declarou Sienna Miller a respeito de sua atuação para o filme A lei da noite, de 2017. Mais recentemente, aliás, a atriz Dakota Johnson e o ator Jamie Dornan, protagonistas do filme Cinquenta tons de cinza, confessaram como era entediante gravar tantas cenas de sexo. Sim, porque nessas cenas, por mais “quentes” que elas pudessem parecer, não havia qualquer sentimento de amor, reciprocidade ou empatia envolvidos. E, sem isso, só resta mesmo o tédio.

O sexo, por si mesmo, para citar uma frase atribuída a Lord Chesterfield, resume-se a isto: “O prazer é momentâneo, a posição é ridícula e as despesas são exorbitantes”. Sem um sentido transcendente, sem os laços espirituais, a sexualidade acaba se convertendo num passatempo que, cedo ou tarde, perderá a graça como qualquer outro joguinho. Portanto, as pessoas podem até aliviar momentaneamente suas tensões com nudes, sextings ou frextings. Mas a única coisa que realmente obterão, no fim das contas, é uma exposição ridícula na internet e uma despesa exorbitante de tédio e frustração na alma.

Não é novidade que esse tipo de prática acabe envolvendo coisas ainda mais grotescas, que vão desde enviar uma imagem indecente para um programa de TV, causando a demissão de um apresentador, à divulgação de nudes não autorizados, seja de famosos, seja de anônimos, seja de menores de idade. O tédio gerado por relações sem amor só consegue produzir mais perversidade.

O problema de fundo é a velha doença da filáucia, o amor doentio de si mesmo, que leva ao desprezo de Deus e à construção da Babilônia. Buscando uma falsa felicidade, procurando aliviar suas tensões, os homens consentem em atos desonestos, tomando como elemento principal de sua natureza justamente os seus corpos e as suas paixões, aquilo que São Paulo chama de homem exterior. “Por onde”, ensina Santo Tomás, “não se conhecendo bem a si mesmos, a si mesmos não se amam verdadeiramente, mas amam-se pelo que se julgam ser” (STh II-II 25, 7). E se os homens se julgam apenas feras de carne e osso, animais selvagens que precisam saciar todos os seus impulsos, então a única coisa que poderão oferecer e receber é o amor de uma fera. Só aceitamos o amor que julgamos merecer.

O corpo (e, consequentemente, a sua sexualidade), por outro lado, é apenas um elemento do “composto” humano. A natureza espiritual é a dimensão mais importante, isto é, o homem interior. Nesse sentido, explica Santo Tomás, “os bons amam-se a si mesmos no concernente ao homem interior, por quererem conservá-lo na sua integridade. E lhe desejam os bens próprios dele, que são os espirituais; e também se esforçam para que os consiga” (loc. cit.). Nessa ordem, o Doutor Angélico esclarece que o corpo humano, porque foi criado por Deus, deve também ser amado com amor de caridade, pondo-o a serviço da virtude, conforme nos manda a Sagrada Escritura: “Oferecei os vossos membros a Deus como instrumento da justiça” (Rm 6, 13).

Mas se essa ordem é invertida, e o corpo se torna o objeto primeiro do amor humano, então, na verdade, não é a si mesmo que o homem ama, mas as suas paixões vergonhosas, que serão alimentadas pelos pecados. E esse amor carnal facilmente o conduzirá à morte, porque, como diz o salmista, “quem ama a iniquidade odeia a sua alma” (Sl 10, 6).

Basta pensar na quantidade imensa de sujeitos que, literalmente, se matam nas academias, enchendo os corpos de anabolizantes, ou em clínicas de cirurgia plástica, donde saem mais deformados que formosos, para vermos como esse ensinamento tradicional da Igreja não tem nada de moralismo ultrapassado. Trata-se, pelo contrário, da mais pura verdade sobre o ser humano.

Quando amamos alguma coisa de verdade e a valorizamos imensamente, quando temos um tesouro, por exemplo, nós costumamos guardá-lo a sete chaves, num cofre bem seguro ao qual só pessoas especiais têm acesso. E mesmo as joias caras, quando estão expostas, requerem todo cuidado, com segurança e iluminação especial. Apenas objetos de pouco valor são expostos em qualquer vitrine, sem nenhuma cerimônia ou deferência, para que qualquer um veja. Por isso, é impossível que da prática dos nudes, sexting, frexting et caterva alguém tire algo de bom para a própria dignidade, para a verdadeira realização de suas almas, porque não há amor ou respeito algum nisso. O que há, na verdade, é um profundo desprezo por Deus e um amor doentio pelo pecado. E o salário do pecado é um só: a morte.

É preciso pensar bem em tudo isso antes de sair por aí trocando nudes. Outro especialista [2] dizia que, no fundo, essa nova moda se deve a “um desejo de ser desejado, amado, confortado em tempos de incerteza e solidão que nos fragiliza e faz sentir mais vulneráveis, inclusive em termos afetivos”. Vemo-nos, portanto, na mesma encruzilhada dos tempos de Santo Agostinho: entre construir a Cidade de Deus, a Jerusalém celeste, ou a cidade dos homens exteriores, Babilônia. Já sabemos que tipo de amor cada uma tem a oferecer. Dependerá da nossa escolha a sorte da civilização pós-pandemia.

Notas

  1. Roland Mousnier. Le XVI et XVII siécles, Historie generale des civilizations. P.U.F., 1954, p. 30 (trad. de Gustavo Corção).
  2. As informações e citações deste artigo foram, em boa parte, retiradas dos jornais El País, G1 e UOL. Por conterem imagens e expressões bastante vulgares, no entanto, preferimos não apresentar diretamente os textos aqui.

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Um bispo no espírito do Concílio de Trento
Santos & Mártires

Um bispo
no espírito do Concílio de Trento

Um bispo no espírito do Concílio de Trento

Bispo modelo segundo as reformas do Concílio de Trento, com os olhos ardentes de fé e o rosto escavado por jejuns, São Carlos Borromeu foi uma resposta viva às teses protestantes sobre a utilidade das obras e o valor indispensável dos sacramentos.

Cristina SiccardiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Maio de 2020Tempo de leitura: 10 minutos
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Legislador, administrador, pastor e asceta, São Carlos Borromeu conduziu várias existências em uma só vida. Há séculos ele tem sido um lustre para a Igreja e uma demonstração do poder que tem um único homem para reerguer a sorte das dioceses, ontem, assim como hoje, tremendamente ameaçadas por erros. As obras deste santo constituem um verdadeiro curso de teologia pastoral, e para tornar acessíveis aos contemporâneos as reformas que ele levou a cabo, bem como para lhe imortalizar a memória, contribuíram fundamentalmente a sua caridade, a sua dedicação e o seu espírito sacerdotal.

A personalidade do arcebispo de Milão — o bispo modelo segundo o espírito do Concílio de Trento, com os olhos ardente de fé e o rosto escavado por jejuns — impôs-se em toda a Europa em questão de pouca décadas, com um vigor hoje difícil de imaginar para personalidades eclesiásticas. Em uma Igreja em ebulição, atormentada pela questão da salvação, o seu zelo apostólico e a sua generosidade representaram uma manifestação excepcional do despertar espiritual e pastoral de uma cristandade dividida pela heresia de Martinho Lutero. O santo foi uma resposta viva às teses protestantes sobre a utilidade das obras e o valor indispensável dos sacramentos e dos ritos litúrgicos.

Nenhum santo na Europa foi objeto de tantos retratos quanto São Carlos Borromeu, antes mesmo de sua canonização, que aconteceria em 1610, sob o pontificado do Papa Paulo V, a apenas 26 anos de sua morte. Inúmeras capelas e igrejas tomaram-lhe o nome.

Filho de Gilberto Borromeu, de nobre família milanesa com vasta propriedade territorial ao redor do Lago Maior, ele era, por parte da mãe, Margherita de Medici, sobrinho do Cardeal de Medici. Nasceu em 2 de outubro de 1538, em Arona. Em 1559, tinha apenas 21 anos quando o seu tio, apenas eleito ao sólio pontifício com o nome de Pio IV, chamou-o a Roma, promovendo-o ao cargo de protonotário apostólico, referendário da Signatura Apostólica, secretário de Estado, membro de várias congregações e administrador da arquidiocese de Milão. O tio ainda o criou cardeal. Graças a todas essas atribuições, ele veio a tornar-se um dos homens mais ricos do Sacro Colégio.

Desde criança Carlos tivera uma educação piedosa e, destinado à carreira eclesiástica, recebeu a tonsura com 8 anos, tornou-se abade aos 12 e continuou os estudos na Universidade de Direito em Pavia. Para apreciar a qualidade do cardeal de 22 anos, deve-se observar a paciência, diplomacia e persistência que empregou para convencer os príncipes e outros prelados da Igreja da necessidade de reabrir o Concílio de Trento, interrompido devido à impopularidade do Papa Paulo IV. Atuando como agente de negociações, estudando todos os detalhes das questões, como era de costume, ele superou os obstáculos levantados pela França e pela Espanha, eliminando-lhes as objeções à convocação do Concílio. 

“Sessão de abertura do Concílio de Trento em 1545”, por Nicolò Dorigati.

Finalmente, em 18 de janeiro de 1562, uma centena de bispos veio reunir-se na cidade de Trento, dando abertura à XVII sessão da assembleia. Carlos Borromeu, permanecendo oculto em Roma, manteve-se informado de todos os avanços nas oito sessões que se seguiram até o fechamento do Concílio, em 3 de dezembro de 1563, intervindo discretamente e organizando tratativas em busca de um justo equilíbrio. O seu senso de dedicação e a sua competência contribuíram de modo determinante para o sucesso das sessões. Foi sobretudo no término do Concílio, todavia, que começou a sua prodigiosa missão: os bispos haviam estabelecido os princípios, mas agora era preciso criar as condições práticas e o quadro institucional em que a reforma havia de ser posta em prática.

Justamente durante o evento verificou-se um fato que mudou drasticamente o curso de sua vida: morreu-lhe o irmão mais velho, Frederico. O luto o pôs diante de uma encruzilhada: deveria continuar a ser quem era ou, assumindo a função de cabeça da família, deixar o hábito eclesiástico? Escreveu a um parente: “Essa perda tem-me feito progredir na graça do Senhor. Esse fato, mais do que qualquer outra coisa, tem-me feito tocar na carne a nossa miséria e a verdadeira felicidade da glória eterna”. Até então ele havia recebido apenas o diaconato, e seu tio poderia muito bem conceder-lhe a dispensa para retornar ao estado secular… Mas ele não só rejeitou esse caminho como tomou a decisão de tornar-se sacerdote.

Preparou-se sob a direção espiritual dos jesuítas, seguindo os Exercícios de Santo Inácio. A ordenação sacerdotal aconteceu em segredo e, em 15 de agosto de 1563, ele celebrou a sua primeira Santa Missa; mais tarde, em 7 de dezembro, foi nomeado bispo de Milão na capela Sistina.

O pensamento da morte, a espiritualidade de Santo Inácio e a direção do padre jesuíta Ribera exerceram uma grande influência sobre ele. Deu início a uma vida de penitência, buscando a perfeição cristã, e estabeleceu laços com São Filipe Néri, com quem compartilhava o zelo reformador. Seu exemplo fez escola: o próprio Papa moderou o padrão da vida da Casa Pontifícia, recomendando modéstia ao próprio séquito. O comportamento de São Carlos suscitava admiração; escreveu, por exemplo, o legado veneziano em 1565: “A todos ele dá um exemplo de tal modo sublime, que com razão se pode dizer que ele sozinho faz mais bem à corte de Roma que todos os decretos tridentinos juntos”.

Uma das primeiras medidas [tomadas por ele] foi a criação de uma comissão encarregada de fundar um seminário romano. Borromeu pediu então aos jesuítas que o enviassem a Milão, onde eles abriram um seminário próprio em 10 de dezembro de 1564, antes mesmo do de Roma. Ocupou-se ele das cerimônias litúrgicas, cujo decoro e respeito aos ritos ele controlava, porque até então, muito frequentemente, o culto divino era tratado com muita desorganização e ignorância. Foram revistos a Bíblia e o Breviário, assim como a composição do Missal, completada sob o pontificado de São Pio V. Surgiu, enfim, a necessidade de redigir um sumário da doutrina cristã, e Carlos Borromeu tomou parte na elaboração do Catecismo, publicado em 1566.

Entrou em Milão como arcebispo em 23 de setembro de 1565. Mas na noite entre os dias 8 e 9 de dezembro estava ele novamente em Roma a fim de assistir o Papa moribundo. As portas do conclave fecharam-se em 19 de dezembro e, em 7 de janeiro, os cardeais escolheram como sucessor de Pio IV um defensor da reforma tridentina, o Cardeal Ghislieri, que tomou o nome de Pio V.

Em Milão, por vinte anos, sob os pontificados de São Pio V e de Gregório XIII, desenvolveu um imenso trabalho de reorganização, renovação e santificação, dando ele mesmo o exemplo, submetendo-se a penitências severas e elevando em virtude o padrão de vida do episcopado. “De muito pouco serviria emanar decretos de reforma se, depois, nós mesmos não os observássemos”, escreveu ao duque de Mântua.

“São Carlos Borromeu”, por Orazio Borgianni.

A diocese de Milão contava com 740 paróquias, quase 200 conventos e mosteiros e cerca de 3.350 padres para uma população de 560 mil pessoas. Há 80 anos não havia bispo residente na diocese (que se estendia para muito além da zona de Milão, chegando até Verona e os três vales suíços do cantão do Ticino), e a degradação doutrinal e moral era evidente. Justamente por essa razão, São Carlos levou a cabo suas infatigáveis visitas pastorais, visitando as paróquias e reorganizando toda a administração da província eclesiástica. Criou ao mesmo tempo um imenso arquivo, onde recolheu todas as informações possíveis, divididas por assunto, sobre as paróquias e seus sacerdotes. Um preciosíssimo trabalho de estatística eclesiástica, completamente novo até então, que devia ser continuamente atualizado; a boa ordem dos registros paroquiais, ademais, era mantida sob controle. As reuniões dos conselhos provinciais e dos sínodos diocesanos eram assaz úteis ao arcebispo, a fim de que seguisse de perto o bom andamento do plano de reforma. O conjunto de todas essas medidas foi recolhido nos Acta Ecclesiae Mediolanensis (“Atas da Igreja de Milão”).

Todo esse trabalho pelo Reino de Deus na terra é combatido por aqueles eclesiásticos e religiosos que não querem a santidade na Igreja. O clima se agita a tal ponto que, em 26 de outubro de 1569, enquanto São Carlos prega em sua capela, disparam contra ele com um arcabuz, perfurando-lhe o roquete e a sotaina, relíquias hoje conservadas na Catedral de Bordeaux. Mas a bala não o atinge. O autor do atentado é um tal de Farina, pertencente aos humiliati, religiosos que, depois de terem recebido a ordem de respeitar as reformas e levar uma vida mais virtuosa, tentaram assassiná-lo. 

Durante as suas viagens pastorais São Carlos consagra igrejas, estuda a fundação de um seminário ou de uma Ordem religiosa, verifica a competência e a moralidade dos padres, examina os catecismos e, para uso dos párocos, publica a “Instrução para a pregação da palavra de Deus”, um tratado no qual vêm definidos os deveres dos pastores e os meios disponíveis para cumprir melhor essa missão; depois põe em circulação a “Admonição para os confessores”.

A fundação e a organização de seminários tornou-se pedra fundante da restauração católica. Como o primeiro seminário foi o dos jesuítas, a maioria dos seminaristas escolhia o hábito da Companhia de Jesus. Para remediar o problema, o arcebispo tratou de fundar os Oblatos de Santo Ambrósio, uma congregação de sacerdotes diocesanos que viviam em comunidade e à qual ele confiou, a partir de 1578, o encargo de administrar os seminários e dedicar-se, sob a sua guia, ao cuidado das almas.

Também foram preocupação sua a educação e a assistência ao próximo. Mas esse homem de ação era, ainda, homem de profunda contemplação. Era capaz de meditar por oito horas seguidas, durante a noite, sobre um tema determinado. Recitava o Breviário com os joelhos sobre o chão duro e dormia apenas quatro ou cinco horas sobre um velho palete. Era proverbial a frugalidade de suas refeições: desde 1571, nutria-se tão-somente uma vez ao dia com pão, água e um pouco de verduras. No seu quarto só havia o palete para dormir e uma poltrona, sem nem uma lareira sequer. Seus amigos, os médicos e o próprio Papa se preocupavam com a negligência que ele demonstrava por sua saúde.

São Carlos tinha muita devoção a Jesus na Eucaristia, que ele demonstrava em plenitude durante a adoração ao Santíssimo Sacramento e a solene celebração de Corpus Christi. Era também um homem apaixonado pela Paixão de Nosso Senhor. Recomendava aos sacerdotes e bispos a prática dos Exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola, tornando-a obrigatória aos seus ordenandos; e aos padres impôs a prática cotidiana do exame de consciência.

Fervor, piedade, abnegação intensa. Ele organizava orações públicas e procissões e encorajava as peregrinações e visitas à Basílica. Foram memoráveis suas peregrinações para venerar o Santo Sudário em Turim, e a Roma, por ocasião do Jubileu de 1575. Impressionante a quantidade de energia que despendeu durante a peste de Milão, que explodiu no outono de 1576. Por um momento, havia o temor de que até o arcebispo permanecesse contagiado pela doença, mas ele se recuperou e prosseguiu o trabalho percorrendo sem descanso as ruas da cidade e de toda a região.

Três semanas antes de morrer, a um frade capuchinho que lhe suplicava que cuidasse de sua saúde, respondeu: “Para iluminar os outros uma candeia deve se consumir”. Em 2 de novembro de 1584, regressando de uma peregrinação a Turim, ele parou em Ascona, no cantão do Ticino (Suíça), onde queria abrir um seminário; mas foi assaltado por uma febre, retornou a Arona e daí, moribundo, foi transportado a Milão. Veio a falecer entre os dias 2 e 3 de novembro, aos 46 anos de idade.

A Igreja da Contrarreforma deve muito a São Carlos Borromeu. Para todas as dioceses da Europa, os Acta Ecclesiae Mediolanensis representaram um monumento da tradição pastoral e um modelo a ser imitado. O santo Cardeal Roberto Belarmino recomendou a leitura da vida de São Carlos Borromeu, e Bossuet e São Vicente de Paulo serviram-se em suas homilias dos tratados e argumentações dele. São Francisco de Sales foi influenciado pelo método de São Carlos e, além disso, tinha o hábito de fazer ler à mesa as histórias de sua vida, publicadas pelo Venerável Carlo Maria Bascapé em 1602. Com o Papa Pio IV, pode-se verdadeiramente afirmar que o arcebispo Carlos de Milão “transformou o episcopado europeu”.

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