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Bernadette, a santinha “que não servia para nada”
Santos & MártiresVirgem Maria

Bernadette, a santinha
“que não servia para nada”

Bernadette, a santinha “que não servia para nada”

As aparições de Nossa Senhora a Santa Bernadette de Lourdes cumprem as palavras do Evangelho, de que Deus esconde as suas coisas aos sábios e entendidos para as revelar aos pequeninos.

Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Maio de 2016Tempo de leitura: 7 minutos
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"Vitoriosa contra todas as heresias". Era essa a expressão que Pio IX tinha em mente quando, a 8 de dezembro de 1854, numa Basílica de São Pedro ornamentada como há tempos não se via, proclamou solenemente o dogma da Imaculada Conceição. Com esse gesto, o Papa não queria somente exaltar o sublime privilégio da Mãe de Deus, pelo qual ela "foi preservada imune de toda mancha de pecado original" [1], mas fazer com que os corações dos católicos se voltassem àquela cuja intercessão se mostrava urgentemente necessária. A época era de grande confusão. E a Igreja se via assaltada por todos os lados. No plano político, os revolucionários atacavam os direitos da Santa Sé sem qualquer pudor ou decência, buscando ora excluí-la da vida pública, ora domesticá-la. No plano religioso, por sua vez, as coisas não eram melhores. Heresias e ameaças de cismas brotavam como erva daninha sobre os extensos jardins da Igreja, perturbando a fé de inúmeros católicos. A solução, pensava o Pontífice, não podia ser outra senão recorrer à Auxiliadora dos cristãos.

Pio IX era um profundo devoto da Santíssima Virgem. Conta-se que no dia da proclamação do Dogma, feita na presença de 200 bispos, 54 cardeais e uma multidão de fiéis, o Santo Padre teve de interromper a leitura da bula Ineffabilis Deus por três vezes, devido à sua enorme comoção. Um raio de luz teria iluminado sua fronte, fazendo-o contemplar a beleza celestial da Virgem. Quase morreu de emoção. "O canhão do Castelo de Sant'Angelo troou, e todos os sinos de Roma repicaram no momento em que o papa foi depor uma coroa de ouro na cabeça de uma imagem de Nossa Senhora na Piazza di Spagna", narra o sempre excelente Daniel-Rops [2]. Tratou-se de um dia de grande glória para a Igreja, uma manifestação contundente de fé e esperança em Deus que não tardaria em receber a resposta do Céu, resposta que viria quatro anos mais tarde, numa pobre gruta da cidade de Lourdes, na França, conhecida como Massabielle.

Naquela época, Lourdes era apenas um vilarejo francês, situado na região dos Médios Pirineus. Lá vivia com sua família a pequena Bernadette Soubirous, a primogênita de três filhos. Seus pais, Francisco Soubirous e Luísa Castèrot, sofriam gravemente para alimentá-los. Depois de uma série de empreendimentos fracassados, os Soubirous encontravam-se arruinados financeiramente. Para não morarem na rua, o casal teve de levar os filhos para uma antiga prisão abandonada, a única coisa que lhes restara como opção. Mas Bernadette não era somente pobre de bens materiais. A saúde também lhe faltava. Quando nasceu, foi acometida por uma cólera terrível que quase a matou. Mais tarde, já com dez anos de idade, contraiu asma devido às péssimas condições de vida às quais estava submetida. E que dizer dos estudos então? Mal sabia falar o francês e as lições do catecismo pareciam-lhe muito complicadas. Por pouco não recebeu a primeira comunhão.

A providência divina haveria de mudar o destino dessa pobre menina no dia 11 de fevereiro de 1858. Ao sair com sua irmã e uma amiga para buscar lenha, nas proximidades do rio Gave, onde também ficava a gruta abandonada de Massabielle, um velho e asqueroso lixão, Bernadette é obrigada a esperar no local sozinha, pois havia sido proibida pela mãe de atravessar as águas geladas do rio. A senhora Luísa temia que a filha pegasse um resfriado. De repente, um vento sopra levemente o rosto de Bernadette. A pequena olha para os lados surpreendida, mas nada vê. O vento sopra uma segunda vez, levando-a a olhar para um nicho onde lhe aparece uma belíssima senhorita vestida de branco, com uma faixa azul em torno da cintura e rosas amarelas sob seus pés. A senhorita fica em silêncio, sorri e mostra-lhe o Santo Terço, o qual Bernadette logo começa a fiar piedosamente, como se estivesse num êxtase espiritual. Terminada a oração, a senhorita lhe faz um pedido: "Querereis ter a bondade de vir aqui…" Esta seria apenas a primeira de uma série de aparições da Virgem, que mudariam a história de Bernadette e de toda a França.

É preciso lembrar que, antes de Lourdes, Nossa Senhora já havia visitado a França, no dia 27 de novembro de 1830. Foi a Santa Catarina Labouré, cujo corpo permanece ainda hoje incorrupto, que a Mãe de Deus entregou a famosa Medalha Milagrosa, que já proclamava, bem antes de Pio IX, a sua conceição imaculada. Em Lourdes, por sua vez, Maria resolveu renovar o chamado de Deus à conversão, escolhendo para ser sua porta-voz nada mais que uma menina triplamente miserável. Num tempo em que os pobres não tinham história, "Bernadette — como Maria — veio à luz para fazê-los ingressar na História, para que manifestem seu valor oculto, para restaurar a verdade ignorada do Evangelho" [3].

"Não lhe prometo a felicidade neste mundo, somente no próximo", diz Maria a Bernadette nas aparições seguintes, em que lhe pediria também oração e penitência pela conversão dos pecadores e reparação às ofensas cometidas contra Nosso Senhor Jesus Cristo — missão esta que a pobre menina cumpriu com grande zelo e heroísmo. Os testemunhos recolhidos posteriormente revelariam "em que condições estupendas, apesar de zombarias, de dúvidas e de oposições, a voz daquela menina, mensageira da Imaculada, se impôs ao mundo" [4].

No dia 25 de fevereiro de 1858, Nossa Senhora pede a Bernadette que beba da água da fonte, coma as ervas do chão e depois o beije. A princípio, a filha dos Soubirous pensa que a Dama se referia às águas do rio Gave. Errado. Maria queria que Bernadette cavasse a terra para desenterrar a fonte dos milagres. Aos incrédulos que lhe fazem objeções pelo estranho pedido de Maria — não concebiam que a Mãe de Deus a tivesse "obrigado" a comer capim como um animal — Bernadette responde: "Você se comporta como um animal quando come salada?" Mas a revelação grandiosa viria no dia 25 de março. Depois de muita insistência do pároco de Lourdes, Bernadette pede à senhorita que diga seu nome: " Que soy era Immaculada CouncepciouEu sou a Imaculada Conceição", responde a Virgem Santíssima para escândalo de todos. De fato, não era possível que Bernadette tivesse inventado aquilo, pois, uma menina que mal sabia o significado da Trindade, dificilmente também entenderia a dimensão das palavras "imaculada conceição". Como diria Pio XII anos mais tarde, "a própria bem-aventurada Virgem Maria quis confirmar por um prodígio a sentença que o vigário de seu divino Filho na terra acabava de proclamar com os aplausos da Igreja inteira" [5].

Após tão excelsos eventos, confirmados pela autoridade da Igreja, Lourdes se tornaria um dos maiores santuários marianos do mundo, recebendo visitas das mais distintas terras, todos em busca de paz, curas, amor e fé: "Os melhores são empolgados pelo atrativo de uma vida mais totalmente dada ao serviço de Deus e de seus irmãos; os menos fervorosos tomam consciência da sua tibieza e reencontram o caminho da oração" [6]. Os milagres da fonte de Lourdes ainda hoje intrigam cientistas do mundo todo.

A pequena Bernadette, porém, seguiu sua vida no escondimento, como se nada tivesse acontecido. Voltou a ser uma simples jovem. Sentindo a necessidade de afastar-se do mundo e das especulações de curiosos, decide-se pelos votos religiosos e entra para o convento das Irmãs da Caridade, em Nevers, França. Com uma saúde ainda mais frágil, é obrigada a passar pelas mais duras humilhações, a ponto de ter de ouvir dos lábios da superiora, e na frente do bispo, "que não servia para nada". Oferece tudo ao Coração de Jesus como consolo e reparação às ofensas dos homens.

Bernadette viveu seus últimos anos em oração e grande agonia. "Não lhe prometo a felicidade neste mundo, somente no próximo". As palavras que a Virgem lhe dirigira nas primeiras aparições cumpriram-se fatalmente. A santa entregou-se como holocausto pela conversão e salvação dos pecadores. Morreu no dia 16 de abril de 1879, aos 35 anos, devido a sérias complicações causadas pela tuberculose. Suas últimas palavras: "Ó minha senhora, eu vos amo. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por mim". Com o corpo incorrupto, a "que não servia para nada" foi elevada às glórias dos altares em 1933 pelo Papa Pio XI. A felicidade eterna a havia alcançado.


Fique sabendo:

  • Bento XVI nasceu no dia 16 de abril de 1927, festa litúrgica de Santa Bernadette, e anunciou sua renúncia no dia 11 de fevereiro de 2013, festa litúrgica de Nossa Senhora de Lourdes.
  • 4 filmes já foram gravados acerca das aparições de Lourdes. A canção de Bernadette, de 1943, venceu 4 Oscars. O longa mais fiel às verdades históricas, porém, é o Bernadette, de 1987, cuja atriz protagonista possui um semelhança espantosa com a nossa vidente.

Referências

  1. Papa Pio IX, Bula Ineffabilis Deus (8 de dezembro de 1854), n. 41.
  2. Henri Daniel-Rops. A Igreja das revoluções: diante de novos destinos (Trad. de Henrique Ruas). São Paulo: Quadrante, 2003, p. 401.
  3. René Laurentin. Bernadete (Trad. de Yvone Maria de Campos Teixeira da Silva). 6. ed. São Paulo: Paulinas, 2012, p. 6.
  4. Papa Pio XII, Carta Encíclica Le Pèlerinage de Lourdes (2 de julho de 1957), n. 5.
  5. Idem, n. 10.
  6. Idem, n. 14.

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Uma visita ilustre a um corpo incorrupto
Santos & Mártires

Uma visita ilustre a
um corpo incorrupto

Uma visita ilustre a um corpo incorrupto

Dentre os muitos fiéis que já visitaram o corpo de Santa Madalena de Pazzi, um nome especial ficou registrado nos anais do carmelo de Florença.

Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Maio de 2016Tempo de leitura: 4 minutos
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Santa Maria Madalena de Pazzi, cuja memória a Igreja universal celebra neste 25 de maio, viveu na passagem do século 16 para o século 17.

Enfrentando a resistência de uma família abastada, Madalena se fez carmelita com apenas 16 anos, em Florença. Passou em sua vida religiosa por inúmeros sofrimentos de ordem física e espiritual, pelos quais foi recompensada com experiências místicas e visões extraordinárias de Nosso Senhor, da Santíssima Virgem e de muitos outros santos.

Era uma mulher de muita oração e intimidade com a Palavra de Deus. Uma testemunha de seu processo de canonização conta que via Madalena passar horas meditando os Evangelhos:

"Eu me lembro, em particular, de que todos os sábados, tomando o livro dos evangelhos, ela pegava dois ou três pontos do evangelho do domingo seguinte, a sua escolha, e meditava sobre eles a semana inteira, gastando cerca de duas horas pela manhã e uma, à noite, nessa meditação." [1]

Depois de sua morte, no ano de 1607, o seu corpo foi um dos muitos na história da Igreja a experimentar o fenômeno da incorrupção:

"O corpo da santa foi cuidadosamente examinado durante as exumações de 1612 e 1625, e de novo em 1663 para o processo de canonização. A cada vez era atestado por todas as testemunhas que a preservação de seu corpo era de natureza miraculosa, 'já que ele não estava em nenhuma parte aberto ou embalsamado, nem nenhum artifício havia sido usado nele'." [2]

No momento de sua morte, as suas irmãs no convento afirmavam que seu corpo "não inspirava terror como os cadáveres geralmente fazem, mas, ao contrário, à morte daquela santa alma, seu rosto permaneceu alegre e todos os seus membros ficaram tão brancos quanto o marfim". Hoje, mais de 400 anos depois de sua morte, o "marfim" tomou uma cor amarelada, mas o seu rosto ainda sorri. Uma descrição recente de sua relíquia diz que Madalena "parece gentilmente dormir à espera da ressurreição" [3].

Visitante ilustre de seu corpo incorrupto foi a pequena Teresa de Lisieux, em 1887.

Teresa de Lisieux, aos 15 anos de idade.

O encontro entre essas duas santas mulheres se deu durante uma peregrinação da família Martin à Itália. Santa Teresinha, sua irmã Celina e seu pai Luís (também ele santo canonizado) voltavam de Roma, depois de uma tentativa frustrada de obter do Papa Leão XIII o ingresso prematuro de Teresa no carmelo. O breve episódio é relatado em seu famoso livro História de uma alma:

"Em Florença, fiquei contente de contemplar Santa Madalena de Pazzi no meio do coro das Carmelitas que nos abriram a grande grade. Não sabíamos deste privilégio, e como muitas pessoas queriam tocar seus terços no túmulo da Santa, só eu pude passar a mão pela grade que nos separava dele. Assim, todos me traziam os terços e eu estava toda orgulhosa com meu ofício... Achava sempre o meio de tocar em tudo." [4]

O primeiro dado notável desse encontro são as suas protagonistas: duas mulheres, veneradas como santas e mestras da vida interior pela Igreja Católica — a mesma que o feminismo moderno acusa de misoginia e de patriarcalismo. Ditas acusações se devem, em grande medida, a uma tremenda ignorância histórica. Desde o seu início, de fato, a religião cristã deu um tratamento especial às mulheres [5], a começar por Maria, escolhida por Deus para ser a própria mãe do Verbo encarnado:

"A mulher em si mesma [...] nunca foi tão exaltada como no cristianismo. Dir-se-ia até que o foi mais do que o homem, não só porque Jesus a encontrara mais aviltada, e a tomou de mais baixo, como também porque, pela apoteose incomparável de Maria Santíssima, colocou uma simples mulher em culminâncias inatingíveis a nenhuma outra criatura humana." [6]

A própria Santa Teresinha do Menino Jesus escreve que "elas [as mulheres] amam a Deus em número bem maior do que os homens, e durante a Paixão de Nosso Senhor, as mulheres tiveram mais coragem do que os Apóstolos, pois enfrentaram os insultos dos soldados e ousaram enxugar a Face adorável de Jesus" [7].

Assim, o sexo que acabou muitas vezes, após a queda do gênero humano, sucumbindo a uma dominação destruidora do sexo masculino (cf. Gn 3, 16), agora se encontra cumulado de inúmeros benefícios, a ponto de o Apóstolo dizer que, "em Cristo, não há nem judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher" (Gl 3, 28): independentemente do sexo com que nascem as pessoas, todas são chamadas à perfeição na caridade.

No encontro entre essas duas grandes almas, transparece, ao mesmo tempo, uma grande humanidade: Santa Teresinha não só contemplava Madalena, mas "achava sempre o meio de tocar em tudo". Olhando o modo como esta piedosa jovem tratou as relíquias de Santa Madalena de Pazzi, também nós aprendemos a venerar os restos mortais dos santos de Deus: embora não sejam "deuses", as suas almas já participam definitivamente da natureza divina (cf. 2 Pd 1, 4) no Céu.

Por isso, enquanto seus corpos parecem "gentilmente dormir à espera da ressurreição", nós, a exemplo de Santa Teresinha, achemos sempre o meio de tocar em suas santas relíquias, na esperança de que o mesmo repouso celestial de que eles gozam, nós também experimentemos um dia, por toda a eternidade.

Santa Maria Madalena de Pazzi,
rogai por nós!

Santa Teresinha do Menino Jesus,
rogai por nós!

Referências

  1. Chiara Vasciaveo. Maria Madalena de Pazzi, o tesouro escondido na Igreja. 30 Dias, n. 11 (2007).
  2. Joan Carroll Cruz. The Incorruptibles. Charlotte: TAN Books, 2012, p. 195.
  3. Ibid., p. 196.
  4. Manuscrito A, 66r. Obras completas: escritos e últimos colóquios. São Paulo: Paulus, 2002, p. 137.
  5. Cf. Rodney Stark. O crescimento do cristianismo: um sociólogo reconsidera a história. São Paulo: Paulinas, 2006.
  6. Dom Aquino Corrêa. Elevação da mulher (9 de dezembro de 1934). Discursos, v. 2, t. 2. Brasília, 1985, pp. 135-137.
  7. Manuscrito A, 66v. Obras completas: escritos e últimos colóquios. São Paulo: Paulus, 2002, p. 138.

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O que Chesterton diria sobre o “casamento gay”?
DoutrinaSociedade

O que Chesterton diria
sobre o “casamento gay”?

O que Chesterton diria sobre o “casamento gay”?

Embora a expressão “casamento gay” seja nova, as raízes dessa ideia são muito mais antigas — e Chesterton já havia alertado para o seu perigo.

Dale AhlquistTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Maio de 2016Tempo de leitura: 6 minutos
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Um dos temas prementes na época de Chesterton era o "controle de natalidade". Ele não fazia objeção apenas à ideia, mas ao próprio termo, porque significava o oposto do que queria dizer. Não significava nem natalidade, nem controle. Posso supor que ele teria as mesmas objeções contra o "casamento gay". Não só a ideia, como também o nome está errado: o "casamento gay" não é gay, no sentido original do termo [1], nem é casamento.

Chesterton era sempre sensato em seus pronunciamentos e profecias porque entendia que qualquer coisa que atacasse a família era ruim para a sociedade. Foi por isso que ele falou contra a eugenia e a contracepção, contra o divórcio e o "amor livre" (outro termo que ele rejeitava por sua falsidade), mas também contra a escravidão assalariada e a educação estatal compulsória, com mães contratando outras pessoas para fazer o que elas foram designadas para fazer por si mesmas. É seguro dizer que Chesterton se levantou contra toda moda e tendência que hoje nos aflige porque cada uma dessas modas e tendências minava a família. Um Estado intervencionista ( Big Government) tenta substituir a autoridade da família, e um Mercado dominador (Big Business) tenta substituir a sua autonomia. Há uma constante pressão comercial e cultural sobre o pai, a mãe e os filhos. Eles são minimizados, marginalizados e, sim, ridicularizados. Mas, como diz Chesterton, "esse triângulo de truísmos — pai, mãe e filho — não pode ser destruído; só se destroem as civilizações que o desprezam" [2].

A legalização das uniões homossexuais não é nem o último nem o pior ataque à família, mas tem um valor impressivo, apesar do processo de dessensibilização em que nos colocaram as indústrias de informação e entretenimento ao longo dos últimos anos. Quem tenta protestar contra a normalização do anormal é recebido "ou com ataques ou com o silêncio" — assim como Chesterton, quando ele tentou argumentar contra as novas filosofias promovidas pela maior parte dos jornais de sua época. Em 1926, ele alertou: "A próxima grande heresia será um ataque à moralidade, especialmente à moral sexual" [3]. Seu aviso passou desapercebido, enquanto a moral sexual decaía progressivamente. Mas vamos nos lembrar que tudo começou com o controle da natalidade, que é uma tentativa de viver o sexo por ele mesmo, transformando um ato de amor em um ato de egoísmo. A promoção e a aceitação do sexo sem vida, estéril e egoísta evoluiu, logicamente, para a homossexualidade.

G. K. Chesterton.

Chesterton mostra que o problema da homossexualidade como inimiga da civilização é bem antigo. Em O Homem Eterno, ele descreve que o culto à natureza e a "simples mitologia" produziram uma perversão entre os gregos. "Da mesma forma que eles se tornaram inaturais adorando a natureza, assim eles de fato se tornaram efeminados adorando o homem". Qualquer jovem, ele diz, "que teve a sorte de crescer de modo sensato e simples" sente um repúdio natural pela homossexualidade porque "ela não é verdadeira nem para a natureza humana, nem para o senso comum". Ele argumenta que, se tentarmos agir indiferentemente em relação a ela, estaremos nos enganando a nós mesmos. É "a ilusão da familiaridade" quando "uma perversão se torna uma convenção" [4].

Em Hereges, Chesterton quase faz uma profecia sobre o abuso da palavra "gay". Ele escreve sobre a "poderosa e infeliz filosofia de Oscar Wilde", "a religião do carpe diem". Carpe diem significa "aproveite o dia", faça o que quiser, sem pensar nas consequências, viva apenas pelo momento. "No entanto, a religião do carpe diem não é a religião das pessoas felizes, mas a das absolutamente infelizes" [5]. Há um desespero bem como um infortúnio ligado a isso. Quando o sexo é apenas um prazer momentâneo, quando não oferece nada além de si mesmo, ele não traz nenhuma satisfação. É literalmente sem vida. E, como Chesterton escreve em seu livro São Francisco de Assis, "no momento em que o sexo deixa de ser um servo, ele se torna um tirano" [6]. Essa é talvez a mais profunda análise do problema dos homossexuais: eles são escravos do sexo. Estão tentando "perverter o futuro e desfazer o passado". Eles precisam ser libertados.

O pecado tem consequências. Ainda assim, Chesterton sempre sustenta que devemos condenar o pecado, não o pecador. E ninguém mostra mais compaixão pelos decaídos do que ele. Sobre Oscar Wilde, que ele chama de "o chefe dos decadentes" [7], Chesterton diz que ele cometeu um "erro monstruoso", mas também sofreu monstruosamente por isso, indo para uma terrível prisão, onde ele foi esquecido por todas as pessoas que antes tinham brindado a sua rebeldia impulsiva. "A vida dele foi completa, naquele sentido inspirador em que a minha vida e a sua são incompletas, já que nós ainda não pagamos por nossos pecados. Nesse sentido, podemos chamar a vida dele de perfeita, assim como falamos de uma equação perfeita, que é neutralizada. De um lado, nós temos o saudável horror ao mal; de outro, o saudável horror à punição" [8].

Chesterton se referia ao comportamento homossexual de Wilde como um pecado "altamente civilizado", por ser uma das piores aflições entre as classes ricas e ilustradas. Era um pecado ao qual Chesterton nunca havia sido tentado, e ele diz que não é uma grande virtude nunca termos cometido um pecado ao qual não fomos tentados. Outra razão pela qual devemos tratar nossos irmãos e irmãs homossexuais com compaixão. Nós conhecemos nossos próprios pecados e fraquezas o suficiente. Fílon de Alexandria dizia: "Seja gentil, pois todos à sua volta estão lutando uma batalha terrível".

Compaixão, contudo, não significa jamais compromisso com o mal. Chesterton ressalta aquele equilíbrio pelo qual nossa verdade não deve ser desprovida de piedade, nem a nossa compaixão deve ser separada da verdade. A homossexualidade é uma desordem. É contrária à ordem. Os atos homossexuais são pecaminosos, ou seja, são contrários à ordem de Deus. Eles jamais poderão ser normais. Pior ainda, jamais sequer poderão ser vividos normalmente. Como diz o grande detetive Padre Brown: "Os homens até podem se manter em um nível razoável de bondade, mas ninguém jamais foi capaz de permanecer em um nível de maldade. Essa estrada conduz ao fundo do abismo" [9].

O matrimônio é entre um homem e uma mulher. Essa é a ordem. E a Igreja Católica ensina que essa é uma ordem sacramental, com implicações divinas. O mundo tem feito uma sátira do casamento que agora culminou com as uniões homossexuais. Mas foram os homens e as mulheres heterossexuais que pavimentaram o caminho para essa decadência. O divórcio, que é algo anormal, é agora tratado como normal. A contracepção, outra coisa anormal, é agora tratada como normal. O aborto ainda não é normal, ainda que seja legal [10]. Legalizar o "casamento" homossexual não o tornará normal, só vai aumentar ainda mais a confusão dos tempos e a decadência da nossa civilização. Mas a profecia de Chesterton permanece: não seremos capazes de destruir a família. Ao desprezá-la, o que vamos fazer é simplesmente destruir-nos a nós mesmos.

Referências

  1. Antes de significar "homossexual", a palavra inglesa gay remetia simplesmente à ideia de alegria e despreocupação.
  2. G. K. Chesterton. The Superstition of Divorce. London: Chatto & Windus, 1920, p. 63.
  3. ______. The Next Heresy. In: The Chesterton Review 26 (3), p. 295-298 (2000).
  4. ______. O Homem Eterno (trad. de Almiro Pisetta). São Paulo: Mundo Cristão, 2010, p. 164-165.
  5. ______. Hereges (trad. de Antônio Emílio Angueth de Araújo). 3. ed. Campinas: Ecclesiae, 2012, p. 119.
  6. ______. Saint Francis of Assisi. London: Hodder and Stoughton, 1923, p. 30.
  7. ______. The Victorian Age in Literature. London: Williams and Norgate, 1913, p. 226.
  8. ______. Oscar Wilde. In: On Lying in Bed and Other Essays. Calgary: Bayeux Arts, 2000, p. 248.
  9. ______. The Flying Stars. In: A Inocência do Padre Brown. Porto Alegre: L&PM, 2011.
  10. Nos Estados Unidos, o aborto é legalizado desde a famosa decisão Roe vs. Wade, de 1973.

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Ônibus se preparam para o Ramadã na Inglaterra
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Ônibus se preparam para
o Ramadã na Inglaterra

Ônibus se preparam para o Ramadã na Inglaterra

A mesma Inglaterra que censura o Pai Nosso nas telas de cinema durante o Natal, prepara os seus ônibus públicos para celebrar o Ramadã islâmico.

Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Maio de 2016Tempo de leitura: 1 minutos
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Processo de islamização da Europa quase completo. De acordo com a agência Independent:

"Centenas de ônibus britânicos irão portar propagandas exaltando Alá como parte de uma campanha, promovida pela maior organização filantrópica muçulmana do país, para ajudar vítimas da guerra civil na Síria.

A associação Islamic Relief espera que os pôsteres, com as palavras Subhan Allah, que significa 'Alá seja louvado' em árabe, ajudem a retratar de maneira positiva o Islã e a intervenção estrangeira no Oriente Médio.

Ônibus farão parte da campanha em Londres, Birmingham, Manchester, Leicester e Bradford."

A iniciativa, que coincide com a preparação para o Ramadã, a maior festa religiosa do islamismo, já havia sido anunciada antes mesmo da eleição do muçulmano Sadiq Khan ao cargo de prefeito de Londres, no último dia 9 de maio.

Até o momento, nenhum protesto de grande dimensão foi registrado no país em resposta a essa campanha. Em compensação, no último Natal, um simples comercial com pessoas rezando o Pai Nosso foi o suficiente para despertar a censura dos defensores do "Estado laico". Empresas de cinema barraram o vídeo das telas porque "ele poderia ofender as pessoas".

Aparentemente, o mesmo argumento não se aplica aos ônibus de Alá. A Inglaterra, outrora cristã, hoje se prepara para o Ramadã.

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