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Hóstia sangra e se transforma em tecido de “origem humana” na Polônia
Fé e Razão

Hóstia sangra e se transforma em
tecido de “origem humana” na Polônia

Hóstia sangra e se transforma em tecido de “origem humana” na Polônia

Novo milagre eucarístico na Polônia: exames identificaram “partes fragmentadas de músculo” em uma Hóstia consagrada e estudos genéticos indicam “a origem humana do tecido”.

Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Maio de 2016Tempo de leitura: 4 minutos
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A terra do Papa São João Paulo II acaba de ser agraciada com um grande milagre eucarístico. Foi o que reconheceu o bispo da cidade polonesa de Legnica, Zibigniev Kiernikovski, em carta assinada de próprio punho no último dia 17 de abril.

No documento, o bispo conta como, na Solenidade de Natal de 2013, em uma paróquia de Legnica, "durante a distribuição da Sagrada Comunhão, uma Hóstia consagrada caiu ao chão e foi logo recolhida e depositada em um recipiente cheio de água", chamado de vasculum. "Pouco depois, apareceram manchas de cor vermelha". O então bispo do lugar "estabeleceu uma comissão para analisar o fenômeno", e esta "mandou recolher amostras a fim de que exames minuciosos fossem conduzidos por importantes institutos de pesquisa". A conclusão do caso, emitida pelo Departamento de Medicina Forense, foi a seguinte:

"Na imagem histopatológica verificou-se que os fragmentos de tecidos contêm partes fragmentadas de músculo estriado transversal. (...) O conjunto (...) se assemelha ao músculo cardíaco ao sofrer alterações que aparecem com frequência durante a agonia. Os estudos genéticos indicam a origem humana do tecido."

Neste ínterim, "um pequeno fragmento vermelho da Hóstia" já havia sido separado e colocado em um corporal. O bispo polonês também conta que já apresentou a questão ao Vaticano e, agora, "conforme recomendado pela Santa Sé", já está providenciando um local adequado para a exposição da milagrosa relíquia, "a fim de que os fiéis possam dar-lhe a devida adoração".

Este é o segundo milagre eucarístico que acontece em anos recentes na Polônia. O outro se deu em 2008, na cidadezinha de Sokólka, no nordeste do país.

Para saber mais sobre este assunto, leia também a nossa matéria especial sobre a origem e a causa dos milagres eucarísticos.

No momento, é preciso que nos detenhamos neste sinal divino (mais um) confirmando a fé católica na transubstanciação; na doutrina de que, pelas palavras ditas por Jesus Cristo na Última Ceia e repetidas por um sacerdote validamente ordenado, o pão e o cálice de vinho que ele tem em suas mãos já não são mais pão, já não são mais vinho — transformam-se os dois no Corpo e Sangue do próprio Deus encarnado.

Alguém poderia perguntar como um acontecimento desse tipo poderia relacionar-se com os Evangelhos. Os protestantes, por exemplo, têm uma grande dificuldade em enxergar a ação de Deus nessas realidades sensíveis usadas pela Igreja: relíquias de santos, milagres eucarísticos, ícones e esculturas, todas essas coisas parecem desnecessárias e, muitas vezes, são acusadas até de "empecilhos" para prestar a Deus a verdadeira adoração que só a Ele compete. Pessoas de natureza mais ativa, por sua vez, poderiam ver algum problema nessa devoção dos católicos à Eucaristia, nessa preocupação excessiva com a oração e com a espiritualidade. Talvez pensassem que seria mais útil dar comida aos pobres, vestir os nus, ou qualquer coisa do gênero. Se pudessem, convidariam o próprio Deus para oferecer os seus conselhos e sugerir os próximos milagres que Ele deveria fazer.

Eventos como esses, no entanto, mostram o equilíbrio sadio que existe na doutrina católica, ao mesmo tempo sobrenatural e sensível, espiritual e visível, transcendente e material. Justamente porque o homem não é "um espírito preso dentro de um corpo", mas unidade de corpo e alma, convinha que Deus nos elevasse às verdades celestes através das coisas materiais que existem no mundo. Os sacramentos são uma conjugação dessas duas realidades: através de um sinal sensível, é infundida nas almas a graça invisível de Deus. Essa infusão acontece porque os sacramentos são instrumentos da humanidade de Cristo: assim como Jesus operava milagres com as palavras que saíam de Sua boca e com o toque de Sua carne, Ele perdoa os pecados pela boca dos Seus sacerdotes e alimenta espiritualmente as almas com a Eucaristia. Compreender o que significa isso é essencial para entender, por exemplo, por que a Igreja venera as relíquias dos santos ou por que permite o culto das imagens sacras.

Mergulhe fundo nessas questões assistindo ao nosso curso exclusivo "Por que não sou protestante".

Quanto às pessoas mais ativas e mais "práticas", por assim dizer, é preciso responder com o episódio de Marta e Maria: de nada adianta preocupar-se e ficar agitado com muitas coisas, se deixamos de lado "a melhor parte", que é a nossa relação de comunhão e intimidade com Deus (cf. Lc 10, 38-42). Esse é, na verdade, o grande motor da própria caridade cristã: os seguidores de Cristo só dão pão a quem tem fome, água a quem tem sede e abrigo a quem não tem porque enxergam no próximo que sofre o próprio Jesus sofredor: "Então o Rei lhes responderá: 'Em verdade, vos digo: todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes" (Mt 25, 40).

Por isso, em tudo o que existe na Igreja Católica — sacramentos, relíquias, esculturas de santos, obras de caridade —, absolutamente tudo se refere a Cristo, e tudo nos convida à comunhão com Ele. Não sem razão o sacramento da Eucaristia, o maior de todos os sacramentos, também é chamado de "Comunhão". O que aconteceu há pouco tempo na Polônia toca a todos os homens, portanto, porque ninguém está excluído da boa nova da salvação, do anúncio do Evangelho, da verdade de que Deus nos ama e quer que nós entremos em comunhão de amor com Ele. É para levar as pessoas a essa comunhão que Cristo instituiu uma religião. A Igreja vive da Eucaristia e para a Eucaristia.

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Associação Americana de Pediatras fulmina ideologia de gênero
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Associação Americana de Pediatras
fulmina ideologia de gênero

Associação Americana de Pediatras fulmina ideologia de gênero

Grupo de médicos dos EUA emite declaração explicando, cientificamente, por que ideologia de gênero é nociva para as crianças.

Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Maio de 2016Tempo de leitura: 4 minutos
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Uma associação de pediatras dos Estados Unidos declarou, no último dia 21 de março, através de seu site na Internet, que "a ideologia de gênero é nociva às crianças" e que "todos nascemos com um sexo biológico", sendo os fatos, e não uma ideologia, que determinam a realidade.

A declaração da American College of Pediatricians expõe 8 razões para os "educadores e legisladores rejeitarem todas as políticas que condicionem as crianças a aceitarem" a teoria de gênero. A iniciativa dos médicos se soma a inúmeras outras, provindas das mais diversas áreas de informação, para conter o que o Papa Francisco chamou de "colonização ideológica". Em 2010, por exemplo, um importante documentário conseguiu desmontar, pelo menos em parte, a estrutura universitária que financiava essa ideologia na Noruega. O programa trouxe o parecer de vários especialistas, dos mais diversos campos científicos, que expuseram a farsa da teoria de gênero.

Agora, a medicina vem respaldar mais uma vez a verdade sobre a família.

A íntegra da nota escrita pelos pediatras norte-americanos pode ser lida a seguir.

A Associação Americana de Pediatras urge educadores e legisladores a rejeitarem todas as políticas que condicionem as crianças a aceitarem como normal uma vida de personificação química e cirúrgica do sexo oposto. Fatos, não ideologia, determinam a realidade.

1. A sexualidade humana é um traço biológico binário objetivo: "XY" e "XX" são marcadores genéticos de saúde, não de um distúrbio. A norma para o design humano é ser concebido ou como macho ou como fêmea. A sexualidade humana é binária por design, com o óbvio propósito da reprodução e florescimento de nossa espécie. Esse princípio é auto-evidente. Os transtornos extremamente raros de diferenciação sexual (DDSs) — inclusive, mas não apenas, a feminização testicular e hiperplasia adrenal congênita — são todos desvios medicamente identificáveis da norma binária sexual, e são justamente reconhecidos como distúrbios do design humano. Indivíduos com DDSs não constituem um terceiro sexo.

2. Ninguém nasce com um gênero. Todos nascem com um sexo biológico. Gênero (uma consciência e percepção de si mesmo como homem ou mulher) é um conceito sociológico e psicológico, não um conceito biológico objetivo. Ninguém nasce com uma consciência de si mesmo como masculino ou feminino; essa consciência se desenvolve ao longo do tempo e, como todos os processos de desenvolvimento, pode ser descarrilada por percepções subjetivas, relacionamentos e experiências adversas da criança, desde a infância. Pessoas que se identificam como "se sentindo do sexo oposto" ou "em algum lugar entre os dois sexos" não compreendem um terceiro sexo. Elas permanecem homens biológicos ou mulheres biológicas.

3. A crença de uma pessoa, que ele ou ela é algo que não é, trata-se, na melhor das hipóteses, de um sinal de pensamento confuso. Quando um menino biologicamente saudável acredita que é uma menina, ou uma menina biologicamente saudável acredita que é um menino, um problema psicológico objetivo existe, que está na mente, não no corpo, e deve ser tratado como tal. Essas crianças sofrem de disforia de gênero (DG). Disforia de gênero, anteriormente chamada de transtorno de identidade de gênero (TIG), é um transtorno mental reconhecido pela mais recente edição do Manual de Diagnóstico e Estatística da Associação Psiquiátrica Americana (DSM-V). As teorias psicodinâmicas e sociais de DG/TIG nunca foram refutadas.

4. A puberdade não é uma doença e hormônios que bloqueiam a puberdade podem ser perigosos. Reversíveis ou não, hormônios que bloqueiam a puberdade induzem a um estado doentio — a ausência de puberdade — e inibem o crescimento e a fertilidade em uma criança até então biologicamente saudável.

5. De acordo com o DSM-V, cerca de 98% de meninos e 88% de meninas confusas com o próprio gênero aceitam seu sexo biológico depois de passarem naturalmente pela puberdade.

6. Crianças que usam bloqueadores da puberdade para personificar o sexo oposto vão requerer hormônios do outro sexo no fim da adolescência. Esses hormônios (testosterona e estrogênio) estão associados com riscos à saúde, inclusive, mas não apenas, aumento da pressão arterial, formação de coágulos sanguíneos, acidente vascular cerebral e câncer.

7. Taxas de suicídio são vinte vezes maiores entre adultos que usam hormônios do sexo oposto e se submetem à cirurgia de mudança de sexo, mesmo na Suécia, que está entre os países mais afirmativos em relação aos LGBQT. Que pessoa compassiva e razoável seria capaz de condenar jovens crianças a este destino, sabendo que após a puberdade cerca de 88% das meninas e 98% dos meninos vão acabar aceitando a realidade e atingindo um estado de saúde física e mental?

8. Condicionar crianças a acreditar que uma vida inteira de personificação química e cirúrgica do sexo oposto é normal e saudável, é abuso infantil. Endossar discordância de gênero como normal através da rede pública de educação e de políticas legais irá confundir as crianças e os pais, levando mais crianças a serem apresentadas às "clínicas de gênero", onde lhes serão dados medicamentos bloqueadores da puberdade. Isso, por sua vez, praticamente garante que eles vão "escolher" uma vida inteira de hormônios cancerígenos e tóxicos do sexo oposto, além de levar em conta a possibilidade da mutilação cirúrgica desnecessária de partes saudáveis do seu corpo quando forem jovens adultos.

Michelle A. Cretella, M.D.
Presidente da Associação Americana de Pediatras

Quentin Van Meter, M.D.
Vice-Presidente da Associação Americana de Pediatras
Endocrinologista Pediátrico

Paul McHugh, M.D.
Professor Universitário de Psiquiatria da Universidade Johns Hopkins Medical School, detentor de medalha de distinguidos serviços prestados e ex-psiquiatra-chefe do Johns Hopkins Hospital

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Multados porque estavam rezando o Rosário
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Multados porque
estavam rezando o Rosário

Multados porque estavam rezando o Rosário

Eles só estavam rezando o Terço em frente a um edifício, no centro de Camberra, na Austrália, quando foram abordados por policiais federais.

LifeSiteNews.comTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Maio de 2016Tempo de leitura: 2 minutos
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Ele foi multado pela polícia australiana, mas diz que não vai pagar e está disposto a levar o seu caso aos tribunais, se for preciso.

No dia 15 de abril, Kerry Mellor, de 75 anos, foi autuado no Território da Capital Australiana (uma das subdivisões do país, onde está a capital Camberra), por supostamente violar a "zona de segurança" (buffer zone) da clínica de aborto local. (Em países onde o aborto é legalizado, o governo cria zonas de proteção às clínicas e às pessoas que realizam o procedimento, para que grupos pró-vida não se aproximem e não dêem lugar a conflitos.)

Acontece que o senhor, bem como os outros 7 católicos que foram notificados pela polícia no centro de Camberra, não carregavam nem símbolos nem panfletos dirigidos a mulheres grávidas. O seu único "crime" foi rezar 15 dezenas do Rosário, contendo 150 Ave-Marias e 15 Pai-Nossos intercalados com meditações das vidas de Jesus e Maria.

De acordo com Catholic Voice, o jornal oficial da Arquidiocese de Camberra, os outros deixaram o lugar quando avisados pela polícia, mas Mellor decidiu ficar. "Nós não achamos que estamos protestando", disse Mellor ao jornal. "Nós estamos rezando, e nos dirigimos exclusivamente a Deus todo-poderoso e à Sua bem-aventurada mãe. Não se trata de um protesto, mas de uma petição, para que Deus aja para mudar os corações e as mentes dessas pessoas."

Senhora é multada por policial em frente a clínica de aborto de Camberra, no dia 15 de abril (Matthew Biddle / Catholic Voice).

Uma nova lei na Austrália fala de multas entre $750 e $3750 dólares australianos por atividades passivas, como portar símbolos religiosos ou panfletos pró-vida, e entre $1500 e $7500 por atividades agressivas, como tirar fotos ou gravar vídeos seja dos clientes seja da equipe das clínicas.

Mas Mellor insiste que ele e seus companheiros não estavam nem protestando, nem obstruindo a passagem, nem dirigindo nenhum tipo de mensagem a ninguém, senão a Deus. "Também é uma antiga tradição rezar pelos mortos, incluindo os inocentes mortos aqui. Nós rezamos pelas suas almas e fazemos um pequeno ato de reparação por esse horror cometido em nosso meio, em nossa comunidade."

Mellor disse a Catholic Voice que ele "fez um pedido formal para que a cobrança fosse retirada, levando em conta que nossa oração silenciosa não pode sob nenhum aspecto ser interpretada como qualquer tipo de 'conduta proibida' na legislação. Estou aguardando o resultado."

Grupos favoráveis ao aborto reclamam que a presença pró-vida deixa os clientes da clínica se sentindo "envergonhados e culpados". Mas vigílias pró-vida já acontecem há 17 anos em Camberra, sem que sejam feitas quaisquer acusações de perturbação do sossego.

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“Game of Thrones” e a mulher medieval
Sociedade

“Game of Thrones” e a mulher medieval

“Game of Thrones” e a mulher medieval

O seriado de maior sucesso no mundo hoje está cheio de estupros e mortes violentas. A justificativa do autor para a barbárie é esta: o programa se passa na Idade Média. Mas será que as coisas eram mesmo assim nesse período da história?

Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Maio de 2016Tempo de leitura: 5 minutos
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Game of Thrones iniciou sua sexta temporada na noite deste domingo (24) com os fãs em polvorosa. A série da HBO, baseada nos livros de George R. R. Martin, deu continuidade à disputa medieval para ver que família teria direitos sobre o Trono de Ferro. Apesar dos bons índices de audiência, no entanto, a aguardada estreia também foi acompanhada por polêmicas. No ano passado, uma cena de estupro causou estardalhaço na opinião pública, levando os produtores a repensarem alguns capítulos. Agora, um abaixo assinado pede um boicote ao programa, rebatizado por seus críticos de Shame of Throne ("Vergonha do Trono", em tradução livre), por tornar a violência sexual um "entretenimento de massa".

Na época em que a cena foi levada ao ar, o escritor George R. R. Martin tentou justificar o trágico desfecho de uma das suas personagens, estuprada pelo vilão da história, dizendo que o contexto social de Game of Thrones é a Idade Média. "Não era um tempo de igualdade sexual. Era muito classista, e as pessoas eram divididas em três classes. Eles tinham ideias firmes sobre o papel da mulher", enfatizou Martin.

A fala do escritor traduz uma mentalidade comum acerca da Idade Média e do lugar que a figura feminina ocupava na sociedade daquela época: para o cidadão médio, a mulher medieval não teria sido nada mais que um objeto do homem.

Mas poderíamos, de fato, fazer um juízo tão temerário assim? Vamos às fontes.

A historiadora Régine Pernoud nos alerta, em primeiro lugar, que pouquíssimos estudos foram consagrados à mulher medieval — "pode-se mesmo dizer que se os poderia contar pelos dedos", enfatiza —, e que, por isso, grande parte das opiniões acerca desse período não passam de "mitos" e "tolices". De concreto, temos, sim, a História Eclesiástica, na qual vemos mulheres aparecerem com a mesma dignidade de um rei, bispo ou abade, e a História do Direito, pela qual podemos compreender o processo que levou à desvalorização feminina nos séculos XVII e seguintes.

É na Idade Média que encontramos a figura das grandes rainhas que, por ocasião de suas coroações, tinham as mesmas honras de um rei, incluindo a bênção e a imposição da coroa pelas mãos do arcebispo, como era de praxe. Recorde-se também que os casamentos arranjados eram tanto para os rapazes quanto para as moças. Pernoud ainda acrescenta este paralelo interessante entre o período medieval e o moderno:

Enquanto uma Eleonora de Aquitânia, uma Branca de Castela dominam realmente seus séculos, exercem poder sem contestação no caso de ausência do rei, doente ou morto, e têm suas chancelarias, suas alfândegas, seus campos de atividade pessoal (que poderia ser reivindicado como um fecundo exemplo para os movimentos feministas de nosso tempo), a mulher, nos tempos clássicos, foi relegada a um segundo plano; exerce influência só na clandestinidade e se encontra notoriamente excluída de toda função política ou administrativa. Ela é mesmo tida como incapaz de reinar, de suceder no feudo ou no domínio, principalmente nos países latinos e, finalmente, em nosso Código, de exercer qualquer direito sobre seus bens pessoais.

O processo de decadência que se observou no papel da mulher na sociedade, e que teve seu cume no século XIX, segundo o exame de nossa historiadora, deve-se, entre outras coisas, à forte influência do direito romano na elaboração dos costumes, a partir do século XVI. O direito romano, conforme explica Pernoud, favorece uma mentalidade autoritária e centralizadora, a qual ignora a importância da esposa e dos filhos na vida do homem. "É o direito do [...] chefe da família com poderes sagrados, sem limites no que concerne a seus filhos; tem sobre eles direito de vida e de morte — e da mesma forma sobre sua mulher, apesar das limitações, tardiamente introduzidas sob o Baixo Império", explica. Não deixa de ser curioso notar que foi sob a batuta de Napoleão Bonaparte — ícone máximo da Revolução Francesa, cujo lema era "liberdade, igualdade e fraternidade" — que se consolidou o novo código moral da mulher.

É óbvio que todo sistema social possui defeitos — graves, na maior parte —, e a Idade Média não se eximiu deles. Mas para daí concluir que o período esteve associado a apenas obscuridades e que a mulher não passava de um meio de satisfação sexual do homem é um tanto quanto injusto, além de ser contrário à história. Vejamos mais alguns exemplos citados por Régine Pernoud:

Certas abadessas eram senhoras feudais cujo poder era respeitado do mesmo modo que o de outros senhores; algumas usavam o báculo como os bispos; administravam, muitas vezes, vastos territórios com cidades e paróquias... Um exemplo, entre mil outros: no meio do século XII, cartulários nos permitem seguir a formação do mosteiro de Paraclet, cuja superiora é Heloisa; basta percorrê-los para constatar que a vida de uma abadessa, na época, comporta todo um aspecto administrativo: as doações que se acumulam, que permitiam perceber ora o dízimo de um vinhedo, ora o direito às taxas sobre o feno e o trigo, aqui o direito de usufruir uma granja, e lá o direito de pastagem na floresta... Sua atividade é, também, a de um usufruidor, ou seja, a de um senhor. Quer dizer que, a par de suas funções religiosas, algumas mulheres exerciam, mesmo na vida laica, um poder que muitos homens invejariam no presente.

Vê-se logo que Game of Thrones está longe de justificar-se pelas suas barbáries televisivas com o argumento de que a Idade Média seria uma época hostil à mulher e as seus direitos. Aliás, quem imaginaria na Idade Média um público de mais de 10 milhões de espectadores assistindo a cenas apelativas de assassinato e violência sexual? "Ah, muitos fãs criticaram", responderiam alguns. Sim! Mas a audiência do programa continua a ser uma das maiores do gênero. Isso acaso não demonstra a aprovação de grande parte do público? Os tempos que tal atitude evoca, sejamos sinceros, não são os da Idade Média, mas os de Roma, com sua política do "pão e circo" e seus jogos de gladiadores. A Idade Média de Game of Thrones não passa de uma ficção. E das grandes.

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