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Mosteiro destruído por ISIS na Síria abrigava relíquias dos primeiros séculos da Igreja
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Mosteiro destruído por ISIS na Síria abrigava relíquias dos primeiros séculos da Igreja

Mosteiro destruído por ISIS na Síria abrigava relíquias dos primeiros séculos da Igreja

O mosteiro católico de Santo Elias foi devastado pelo Estado Islâmico em 2015, mas só agora, com o território provisoriamente retomado, está sendo possível avaliar os estragos causados pelos terroristas.

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Abril de 2016Tempo de leitura: 3 minutos
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Os ossos de um mártir foram encontrados entre as ruínas do Mosteiro de Santo Elias, na cidade síria de Al-Qaryatain, retomada das mãos do Estado Islâmico no último domingo (3). Fotos tiradas no local mostram um sarcófago destruído contendo ossos e um crânio.

As imagens, tiradas por uma repórter britânica, mostram as relíquias amontoadas no chão em meio aos destroços. Acredita-se que elas pertençam justamente ao santo que deu nome ao convento: o médico Elias, natural de Emessa (atual cidade de Homs), que foi martirizado em 284 d.C. por se recusar a negar a própria fé. A história diz que o santo foi cruelmente torturado e morto pelo próprio pai, que era um oficial romano.

Partes do Mosteiro de Santo Elias tinham 1.500 anos e, por hospedar os restos mortais de um santo, o local já foi destino de muitas peregrinações. No último dia 20 de agosto de 2015, porém, o lugar sagrado foi devastado por tropas do ISIS.

Capturado três meses antes pelos jihadistas, o padre Tiago Murad, então prior do convento, considerou um verdadeiro "milagre" ter sobrevivido e escapado das mãos de seus perseguidores:

Ainda que os cristãos no Oriente Médio nunca tenham experimentado tempos tão difíceis, a jihad islâmica contra os seguidores de Cristo existe desde os tempos de Maomé. O Islã chama os territórios em que ainda não vigora a lei da xariá dar al-harab, isto é, "casa da guerra": o combate dura até que os "infiéis" se convertam, paguem um imposto religioso ou pereçam pelo fio da espada.

O mosteiro católico de Al-Qaryatain, na Síria, não foi o único a ser destruído pelos terroristas do Estado Islâmico. No Iraque, uma comunidade antiquíssima, de mesmo nome, foi devastada na cidade de Mosul, em 2014. O crime só foi detectado por imagens de satélite.

É digno de nota que o monastério em cujas ruínas foram encontradas as supostas relíquias de Santo Elias esteja construído sobre o exato lugar em que ele provavelmente ofereceu a sua vida a Deus. A terra que recebeu o sangue dos primeiros mártires da Igreja continua testemunhando o escândalo da nossa fé. Ainda que as circunstâncias sejam outras e os perseguidores sejam diversos, o sangue que se derrama sobre o Oriente Médio é o mesmo que Tertuliano chamou de "semente de novos cristãos". O que pode explicar, afinal, tantas conversões de muçulmanos a Cristo na Europa, quando nem os próprios europeus sabem mais o que significa ser cristão?

À luz do mistério do Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja, podemos ir além e dizer que o sangue dos mártires feitos pelo ISIS realmente atualiza e continua o sacrifício redentor da Cruz. Nós sabemos, pela fé na comunhão dos santos, que os sofrimentos desses homens e mulheres de Deus não são em vão, mas redundam em benefício de todas as pessoas unidas pelos laços da fé e da caridade fraterna. A exemplo de São Paulo, elas completam em sua carne o que falta à paixão de Cristo (cf. Cl 1, 24).

Do mesmo modo, as relíquias de Santo Elias de Emessa têm um valor inegável. Agora, elas estão misturadas aos destroços de um mosteiro que talvez nunca mais venha a existir. Pela fé, no entanto, nós sabemos que o dono desses ossos ressuscitará dos mortos, e esses mesmos restos que hoje são profanados sobre o pó da terra serão transformados e elevados à glória do Céu — viverão para sempre! As relíquias preciosas que hoje beijamos e veneramos participarão, no fim dos tempos, da bem-aventurança eterna!

Rezemos, pois, para que cesse de vez a profanação das relíquias e dos lugares santos no Oriente. Que o respeito que os muçulmanos têm pela Virgem Santíssima os conduza ao seu divino Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, em quem reside toda a razão da nossa esperança.

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Cinco razões para acreditar nos santos incorruptos da Igreja Católica
Santos & Mártires

Cinco razões para acreditar nos
santos incorruptos da Igreja Católica

Cinco razões para acreditar nos santos incorruptos da Igreja Católica

Esses santos morreram e suas almas foram ao encontro de Deus, mas os seus corpos estão intactos e desafiam a ciência até os dias de hoje.

Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Abril de 2016Tempo de leitura: 9 minutos
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Hoje em dia, a humanidade conhece muitas técnicas de preservação de corpos, mas a mais famosa de todas começou a ser empregada ainda no Egito Antigo, mais de 5 mil anos atrás. No método chamado de mumificação, os órgãos internos dos faraós eram cuidadosamente removidos, as cavidades do corpo preenchidas com ervas e outros materiais naturais e, depois, os corpos eram banhados em óleos e envoltos em faixas. Tutancâmon, a mais famosa múmia do Egito, por exemplo, foi encontrada por arqueologistas em 1922 e já contava com mais de 3 mil anos de história.

Trata-se, sem dúvida, de um fato impressionante, mas muito distante de um milagre, pelo menos no sentido sobrenatural do termo. Santo Tomás de Aquino, ao explicar o que são milagres ( miracula), lembra a sua semelhança com a palavra mirabilis, de onde vem o nosso adjetivo "admirável" [1]. Assim, qualquer coisa que cause espanto e admiração entre as pessoas pode ser considerada, genericamente, um milagre.

As múmias egípcias, no entanto, eram preservadas intencionalmente. O processo de embalsamamento era complexo e levava em torno de dois meses. Os sacerdotes politeístas e reencarnacionistas procediam assim para manter a identidade dos cadáveres em sua "jornada para o outro mundo". Nesses casos, há uma explicação natural bem clara para o fenômeno. Não se pode falar de intervenção divina nos sarcófagos antigos.

Muito menos se pode chamar de sobrenaturais os episódios de preservação acidental que a literatura moderna reporta acontecer aos montes, em diferentes lugares do mundo. Também esses casos têm uma explicação natural muito simples: ou foram (parcial ou integralmente) isolados de seus agentes decompositores, ou receberam substâncias químicas que os preservaram da decomposição. Em 1865, por exemplo, os habitantes da cidade de Guanajuato, no México, ficaram assustados quando exumaram os corpos de seus conterrâneos e descobriram que eles ainda não tinham sido totalmente consumidos pela terra! A explicação, porém, não se encontrava em nenhum poder mágico, mas simplesmente no solo salgado e seco do cemitério em que os defuntos tinham sido enterrados.

Coisa bem diferente, todavia, é o que acontece com os chamados "santos incorruptos" da Igreja Católica: são santos, porque amaram a Deus de modo extraordinário durante suas vidas; incorruptos, porque seus corpos foram achados espantosamente preservados, sem a intervenção de quaisquer agentes naturais; e diz-se que são especificamente da Igreja Católica, porque em nenhuma outra religião do mundo são achados de modo tão numeroso e constante quanto na Igreja fundada por Cristo. Por isso, esse fenômeno pode muito bem ser considerado como que um "selo" divino da autenticidade da fé católica — ainda que nenhum fiel batizado deva fazer depender desses milagres a sua fé na Revelação cristã.

De qualquer modo, se são autênticos e vieram realmente de Deus, não há por que desprezar essas manifestações sobrenaturais. O problema é que, muitas vezes, as pessoas simplesmente não sabem o que significa esse fenômeno, nem entendem por que eles são um milagre. Por isso, resumimos aqui para você pelo menos cinco motivos para acreditar nos corpos incorruptos dos santos da Igreja:

1. Eles tinham tudo para se decomporem

Cadáveres preservados de modo natural são rapidamente isolados do contato com a umidade, com o calor ou com outros agentes externos.

Com os santos incorruptos, porém, não foi assim.

Só para começar a conversa, muitos deles levaram vários dias para serem enterrados, devido à resistência dos fiéis em se separarem do objeto de sua veneração. Tome-se como exemplo São Bernardino de Siena, que ficou exposto para o culto dos fiéis por 26 dias, ou Santa Ângela Merici, cujo corpo ficou exposto para veneração pelo período de um mês.

Outros tantos foram preservados mesmo em condições extremamente adversas de umidade. Santa Catarina de Gênova permaneceu no túmulo por 18 meses, mas foi achada intacta apesar de sua mortalha estar úmida e deteriorada. Santa Maria Madalena de Pazzi foi desenterrada um ano depois de sua morte e, embora seu hábito estivesse encharcado, seu corpo permaneceu exatamente o mesmo. Nove meses após a sua morte, Santa Teresa de Ávila foi encontrada coberta de terra devido ao rompimento da tampa de seu caixão e, mesmo vestida com pedaços de tecido sujos e decompostos, o seu corpo não se encontrava apenas fresco, mas perfeitamente intacto e ainda exalando uma curiosa fragrância. A mesma resistência à umidade pôde ser verificada nos corpos de São Carlos Borromeu, Santa Catarina de Bolonha, Santa Catarina Labouré e São Charbel Makhlouf.

Outros corpos ainda, como os de São Colmano e São Josafá, resistiram ao ar e à água: o primeiro ficou suspenso por tanto tempo na árvore em que foi enforcado, que todos os habitantes da região se maravilharam com a sua preservação; o segundo, por sua vez, foi lançado em um rio, onde permaneceu por cerca de uma semana, sem sofrer nenhum dano.

São Francisco Xavier, São João da Cruz e São Pascoal Bailão resistiram de modo ainda mais impressionante a substâncias corrosivas que foram lançadas sobre eles. Também eles tinham tudo para se decomporem, mas resistiram milagrosamente.

2. Eles exalam perfumes extraordinários

Esse fenômeno é tão antigo entre os santos da Igreja que a literatura eclesiástica já consagrou a expressão "morrer em odor de santidade". Embora seja usada normalmente em sentido figurado, indicando as boas virtudes com que morreram os homens e mulheres de Deus, essa frase está fundada em um fato: o de que muitos santos realmente exalaram perfumes extraordinários depois de mortos.

Os casos históricos mais notáveis desse fenômeno são os de Santa Liduína, Santa Catarina de Ricci, São Felipe Néri, São Geraldo Majella, São João da Cruz, São Francisco de Paula, Santa Rosa de Viterbo, Santa Gema Galgani e São José de Cupertino.

As testemunhas desse fato extraordinário sempre evitaram quaisquer analogias e semelhanças para descrever a suavidade e a fragrância do odor que perceberam com o olfato. Um especialista foi enviado, certa vez, ao convento da beata e mártir Maria dos Anjos (Espanha, † 1936) para tentar identificar a natureza do perfume que exalava o corpo dessa serva de Deus. Ele teve que confessar que não se parecia com nenhum dos perfumes desta terra. As religiosas, suas companheiras, costumavam chamá-lo "odor de paraíso ou de santidade".

Dos muitos eventos ligados à incorrupção dos corpos, este é sem dúvida um dos mais impressionantes e inexplicáveis. É conhecido o parecer do Papa Bento XIV, na famosa obra que ele escreveu sobre a beatificação dos servos de Deus:

"Que o corpo humano possa naturalmente não cheirar mal, é muito possível; mas que cheire bem está acima de suas forças naturais, como ensina a experiência. Por conseguinte, se o corpo humano, corrompido ou incorrupto, em putrefação ou sem ela [...], exala um odor suave, persistente, que não incomoda a ninguém, mas que parece agradável a todos, deve-se atribui-lo a uma causa superior e deve pensar-se em um milagre." [2]

3. Eles permanecem macios e flexíveis por longos anos

Corpo incorrupto de Santa Bernadette Soubirous, em Nevers, na França.

Múmias preservadas naturalmente trazem consigo um aspecto duro e rígido, comumente chamado de rigor mortis. A maioria dos santos incorruptos, ao contrário, nunca experimentou rigidez cadavérica — muitos permaneceram flexíveis anos após a sua morte, alguns atravessando séculos. Santa Catarina de Bolonha, por exemplo, tinha o corpo tão maleável 12 anos após a sua morte que foi colocado na posição em que se encontra até o dia presente: sentado.

Quem olha para as urnas de alguns santos, principalmente os mais antigos, pode ser tentado a duvidar da sua incorrupção. Na Índia, por exemplo, depois de quase 500 anos, restam praticamente apenas os ossos de São Francisco Xavier. No caso de Santa Bernadette Soubirous, embora o seu corpo esteja intacto desde 1879, já foi aplicada uma camada de cera ao seu rosto. Outros tantos exemplos poderiam evocar dúvidas a respeito da confiabilidade desses milagres. Afinal, a Igreja estaria tentando "maquiar" os seus santos?

Na verdade, o fenômeno da incorrupção não significa incorruptibilidade. A demora de algumas santas relíquias em se corromperem não significa que elas nunca se decomporão — e a Igreja nunca ensinou isso. Um corpo incorrupto não é um corpo indestrutível! Incorruptíveis e gloriosos, só os corpos ressuscitados de Jesus e Maria, que estão no Céu. Os outros — dos santos e servos de Deus — só o serão na ressurreição dos mortos, no fim dos tempos.

Essas observações também são importantes para lembrar o fim com que Deus realiza esses prodígios: conduzir as pessoas à fé em Jesus Ressuscitado. Os santos cujos corpos experimentaram o fenômeno da incorrupção não são "deuses". Eles são membros do Corpo Místico de Cristo e recordam que, assim como Ele não se corrompeu e vive para sempre, aqueles que levam uma existência pura e livre dos vícios nesta terra estão destinados para uma herança eterna e incorruptível no Céu.

4. Eles transpiram sangue e óleos preciosos

Além dos perfumes misteriosos sobre os quais já falamos, outro fenômeno muito comum entre os santos incorruptos é a transpiração de líquidos especiais.

Consta que esse milagre tenha acontecido — para mencionar apenas alguns nomes — com Santa Maria Madalena de Pazzi, Santa Júlia Billiart, Santo Hugo de Avalon, Santa Inês de Montepulciano, Santa Teresa d'Ávila, São Camilo de Lelis e São Pascoal Bailão. O óleo que fluiu várias vezes do corpo da beata clarissa Mattia Nazzarei, que morreu em 1320, continua jorrando sem parar de suas mãos e de seus pés, até os dias de hoje.

Outro caso impressionante é o do religioso libanês Charbel Makhlouf, cujo corpo foi depositado em um túmulo sem caixão, como previa a regra maronita. Exumado quatro meses depois de sua morte, tempo suficiente para a destruição parcial do corpo, São Charbel estava coberto de lama, mas seu aspecto permaneceu natural e flexível por longos anos, emitindo constantemente sangue e água, à semelhança do lado aberto do Redentor. Mais admirável que o fluxo, porém, é a quantidade de líquido que o seu corpo já exsudou, número que supera (e muito) a quantidade normal de qualquer ser humano vivo.

5. Eles foram visitados por luzes sobrenaturais

Ainda que não contribuam em nada para preservar essas relíquias, a aparição de luzes sobre os corpos e as tumbas de alguns desses santos atestam, de certo modo, a sua vocação divina.

A santidade de São Guthlac, por exemplo, foi confirmada por muitas testemunhas, que viram a casa onde ele morreu ser coberta por uma luz brilhante, que saía de lá em direção ao Céu. O perfume que provinha da boca de São Luís Beltrão em seu leito de morte era acompanhado de uma luz intensa que clareou a sua humilde cela por muitos minutos. Vários outros santos foram favorecidos com essa iluminação, incluindo São João da Cruz, Santo Antônio de Stroncone e Santa Joana de Lestonnac.

Mas talvez a mais impressionante manifestação tenha ocorrido, novamente, na tumba de São Charbel Makhlouf. A luz que brilhou intensamente por 45 noites em seu túmulo foi testemunhada por vários habitantes do vilarejo e eventualmente resultou na exumação do seu corpo, revelando os fenômenos que se observam até hoje.

Evidentemente, a Igreja não dá crédito a todo e qualquer caso de incorrupção que é alegado pelas pessoas. As autoridades eclesiásticas preferem trilhar o caminho da prudência, emitindo um parecer definitivo só depois que os fatos apresentados ao seu juízo se mostrem inexplicáveis à ciência humana.

A mesma posição de cautela deve ser recomendada a todos os fiéis. Sem se deixarem contaminar pelo ceticismo doentio do mundo, lembrem-se sempre do fim com que Deus opera essas grandes maravilhas: levar as pessoas à fé em Seu divino Filho e em Sua Santa Igreja. É para Ele, Jesus Cristo, que apontam todos os santos e santas da Igreja, principalmente os que, por um dom de Deus, receberam em seus corpos mortais a dádiva da incorrupção.

Referências

  1. Suma contra os gentios, III, 101.
  2. De servorum Dei beatificatione, XXXI, 24.

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A paixão de Madre Angélica
Testemunhos

A paixão de Madre Angélica

A paixão de Madre Angélica

A religiosa e fundadora da EWTN viveu dores “excruciantes” nos dias anteriores à sua morte, de acordo com o capelão do grupo, padre Joseph Wolfe.

Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Abril de 2016Tempo de leitura: 5 minutos
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Um jargão muito usado pelos defensores da eutanásia é o chamado direito de "morrer com dignidade". Para eles, a vida só vale a pena quando é isenta de qualquer tipo de fadiga ou incômodo, e, portanto, se padecemos de alguma doença grave ou incurável, é nosso direito recorrer ao suicídio — embora não usem essa palavra — a fim de evitarmos o sofrimento.

É claro que essa mentalidade materialista, que infelizmente contaminou alguns cristãos mundo afora, nada tem que ver com o cristianismo e a verdadeira dignidade humana. Trata-se, antes, de uma atitude egoísta e anti-humana, em nome da qual muitas injustiças já foram cometidas ao longo da história: eugenia, campos de concentração, esterilização em massa etc. A vida humana encontra sua dignidade justamente quando está aberta ao amor, este dom que se expressa sobretudo na capacidade de sofrer pelos irmãos, em especial, pelos mais indefesos. Isso é que nos torna humanos e dignos de viver.

Ademais, os sofrimentos podem adquirir uma dimensão humana ainda mais especial se vistos com os olhos da fé. Vejamos o exemplo de Madre Angélica. Mesmo nos instantes finais de sua vida, ela continuou a ensinar o catolicismo com o mesmo vigor pelo qual se tornou conhecida, mas desta vez, através do significado redentor do sofrimento. Como descreveu padre Joseph Wolfe, capelão da EWTN, durante um sermão em memória da fundadora da mesma TV católica, cujo falecimento noticiamos aqui, Madre Angélica viveu instantes de profunda agonia até o Domingo de Páscoa.

"Era Sexta-feira Santa… Madre Angélica começou a chorar compulsivamente logo pela manhã por causa das dores que estava vivendo… Era possível ouvi-la pelos corredores", contou o sacerdote. De acordo com padre Wolfe, Madre Angélica havia dado instruções aos seus cuidadores para que não lhe dessem qualquer tipo de analgésico, pois ela queria oferecer suas dores finais a Jesus. "A maioria de nós não pensaria desse jeito. Nós pensaríamos: 'Tire-me daqui…'. O que se vê nesta imagem [de Madre Angélica] é o amor de Deus", enfatizou.

A atitude de Madre Angélica está em profunda sintonia com os ensinamentos de São Paulo, cuja pregação sempre viu nos sofrimentos um meio pelo qual os cristãos poderiam participar com Cristo em Sua ação redentora. Lemos isso claramente neste trecho da carta do apóstolo aos fiéis de Colossas: "Completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja" (1, 24). Neste sentido, os católicos lidam com as contrariedades da vida não somente como algo a ser pacientemente suportado, mas como algo que, quando amorosamente unido a Cristo, ajuda a salvar o mundo. Como se pode notar, o modo de sofrer dos cristãos é diametralmente oposto ao dos masoquistas, que se automutilam simplesmente por prazer desordenado, ao passo que os cristãos aceitam o sofrimento por amor ao próximo.

Madre Angélica morreu com 92 anos após um longo período de doença, incluindo dois derrames em 2001, que tornaram difícil para ela falar e forçaram-na a usar um tapa olho sobre seu olho esquerdo. Ela também experimentou o sofrimento em sua juventude quando um acidente envolvendo uma máquina industrial deixou-a usando muletas. Em seu sermão, Padre Wolfe explicou que Madre Angélica queria que cada dia fosse "um ato a mais de sofrimento por Deus". "Este é o grande poder na Terra, o amor a Deus que vem a nós em Nosso Senhor Jesus Cristo. Isto foi algo que Madre Angélica entendeu. Ela queria amá-lO de volta. Isso foi sua vida toda", esclareceu o capelão da EWTN. Pouco antes de morrer, contou padre Wolfe, Madre Angélica viveu dores excruciantes, isto é, próprias da cruz.

Os relatos de Padre Joseph Wolfe sobre as horas finais de Madre Angélica podem trazer à memória de muitos a morte de São João Paulo II. Por causa de seu ofício público, todos foram testemunhas da grande dor pelo qual o santo pontífice teve de passar antes do fatídico 2 de abril de 2005. Na verdade, tanto Madre Angélica como São João Paulo II, aproveitando o que disse um de seus amigos mais íntimos, deram um testemunho para o mundo do que é verdadeiramente "morrer com dignidade". Aliás, é da pena do Papa Wojtyla estas palavras cortantes sobre o valor salvífico do sofrimento [1]:

Ainda que São Paulo tenha escrito na Carta aos Romanos que "toda a criação tem gemido e sofrido as dores do parto, até ao presente", e ainda que os sofrimentos do mundo dos animais sejam bem conhecidos e estejam próximos ao homem, aquilo que nós exprimimos com a palavra "sofrimento" parece entender particularmente algo essencial à natureza humana. É algo tão profundo como o homem, precisamente porque manifesta a seu modo aquela profundidade que é própria do homem e, a seu modo, a supera. O sofrimento parece pertencer à transcendência do homem; é um daqueles pontos em que o homem está, em certo sentido, "destinado" a superar-se a si mesmo; e é chamado de modo misterioso a fazê-lo.

O Papa é muito claro: o sofrimento é algo essencial à natureza humana. Isso não significa, atenção, que devamos nos conformar com as dificuldades, numa atitude de passividade e indiferença. Como o próprio São João Paulo II afirma, a existência do sofrimento em nossas vidas é um chamado à "transcendência", ou seja, a buscar caminhos de superação pessoal como também comunitária, encontrando no sofrimento que faz parte da vida um significado para além das circunstâncias pessoais e sociais do momento, como fez, por exemplo, o psicólogo Viktor Frankl, durante seu exílio no campo de concentração. Foi através da dor terrível que viveu naquele lugar que Frankl pôde descobrir o "sentido da vida", por assim dizer, e desenvolver uma belíssima abordagem psicológica para a compreensão do ser humano: a Logoterapia. Se Frankl fosse um adepto da "eutanásia", não teria nos agraciado com sua grande descoberta.

Na doutrina cristã, ainda mais, o sofrimento é a porta de acesso ao grande amor de Deus por nós. É a via da cruz, a via da nossa salvação. Imitemos, portanto, o testemunho de Madre Angélica e de tantos santos que, abraçando suas cruzes e vivendo a paixão de Cristo em suas vidas, corredimiram a humanidade, unidos ao inesgotável amor de Jesus.

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Holanda “arrependida” com legalização da maconha e da prostituição
Sociedade

Holanda “arrependida” com legalização
da maconha e da prostituição

Holanda “arrependida” com legalização da maconha e da prostituição

A Holanda está custando para aprender que a liberdade, mesmo constituindo um bem em si mesmo, de nada serve quando não há preocupação em buscar a verdade e fazer o que é correto.

Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Abril de 2016Tempo de leitura: 4 minutos
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A Holanda é, reconhecidamente, um dos países mais liberais do mundo. Contudo, dois itens de sua cartilha progressista estão sendo pouco a pouco questionados e revistos por sua população: trata-se da descriminalização do uso da maconha, que aconteceu em 1976, e do reconhecimento da prostituição como profissão legalizada, em 2000.

Está comprovado que ambos os comércios movimentam muito a economia do país. Os coffee shops que vendem maconha e os chamados "distritos de luz vermelha" — assim chamados pela forte presença de casas de prostituição —, trazem todos os anos 2,5 bilhões de euros para a economia nacional. Cálculos oficiais apresentados pela agência Reuters estimam que as duas indústrias representam 0,4% do produto interno bruto, um número "levemente menor que o consumo total de pão e provavelmente um pouco maior que o consumo total de queijo", de acordo com um instituto de estatísticas.

A situação de um país, no entanto, não se resume a índices econômicos. Diferentemente do que pensavam Karl Marx e pensadores com uma visão da antropologia e da história notoriamente reducionistas, "não só de pão vive o homem". O ser humano não se reduz "ao ventre, ao sexo e ao dinheiro". Ainda que movimente o turismo e a economia, as consequências humanas da legalização das drogas e da prostituição estão fazendo com que as autoridades e a população da Holanda repensem seriamente suas políticas sociais.

Para entender o porquê dessa reviravolta, é preciso compreender os efeitos negativos das decisões que esse país tomou em seus "anos rebeldes". Em uma reportagem de 2008, intitulada "Mudanças na vitrine", a revista Veja pinta um retrato interessante dos Países Baixos em meados da última década, do qual vale a pena fazer alguns recortes.

Em relação às drogas, o jornalista Thomaz Favaro explica que:

"A tolerância em relação à maconha, iniciada nos anos 70, criou dois paradoxos. O primeiro decorre do fato de que os bares podem vender até 5 gramas de maconha por consumidor, mas o plantio e a importação da droga continuam proibidos. Ou seja, foi um incentivo ao narcotráfico. O objetivo da descriminalização da maconha era diminuir o consumo de drogas pesadas. [...] O problema é que Amsterdã, com seus coffee shops, atrai 'turistas da droga' dispostos a consumir de tudo, não apenas maconha. Isso fez proliferar o narcotráfico nas ruas do bairro boêmio. O preço da cocaína, da heroína e do ecstasy na capital holandesa está entre os mais baixos da Europa."

Como resultado, entre 2002 e 2006, as prisões por posse ou comércio de drogas ilegais cresceram 21% na Holanda. Além disso, de acordo com The Washington Post, "a ausência de meios legais para que os coffee shops obtenham Cannabis tem sublinhado a sua associação com o crime organizado".

Quanto à prostituição, Amsterdã tem uma relação de 14 prostitutas para cada 1000 habitantes, quatro vezes mais que em Paris, e o tráfico de mulheres aumentou 260% nos primeiros três anos da legalização dos bordéis. Ainda de acordo com a reportagem de Veja,

"Nos últimos vinte anos, a gerência dos prostíbulos saiu das mãos de velhas cafetinas holandesas para as de obscuras figuras do Leste Europeu, envolvidas em lavagem de dinheiro e tráfico de mulheres. Boa parte dos problemas é conseqüência do excesso de liberalidade. O objetivo da legalização da prostituição foi dar maior segurança às mulheres. Como efeito colateral houve a explosão no número de bordéis e o aumento na demanda por prostitutas. Elas passaram a ser trazidas — nem sempre voluntariamente — das regiões mais pobres, como a África, a América Latina e o Leste Europeu."

O que pretendia "dar maior segurança às mulheres", portanto, acabou se revelando um verdadeiro prejuízo para elas. "Ao invés de confinar os bordéis a uma discreta (e evitável) parte da cidade, a indústria do sexo se espalhou por toda a Amsterdã, incluindo o meio da rua", escreve Julie Bindel para o The Spectator. "Ao invés de receberem direitos no 'ambiente de trabalho', as prostitutas descobriram que os cafetões são tão brutais como sempre foram."

Está ruindo, enfim, a "permanente Woodstock" que algumas pessoas se iludiam tentando construir. Os Países Baixos aprenderam via ardua que, definitivamente, não se melhora uma sociedade simplesmente aumentando — ou estendendo indevidamente — a liberdade de seus cidadãos. Embora constitua um bem em si mesmo, o valor liberdade de nada serve quando não há preocupação em buscar a verdade e fazer o que é correto. O homem é tragicamente livre até para abusar dos bens que Deus lhe deu.

É evidente que o problema da Holanda não está nem nas drogas nem no sexo — sem eles, não haveria nem farmácias para curar as enfermidades nem famílias para repor a população do mundo —, mas no que as pessoas estão fazendo delas. Corruptio optimorum pessima: quando satisfazem tão somente os seus instintos mais baixos, esquecendo que foram dotados de inteligência e vontade e criados para a grandeza do Céu, os seres humanos descem mais baixo do que os animais. Que a Holanda — e com ela todo o mundo — acorde finalmente para o grande pecado em que está atolada e transforme as profundezas de seu inferno em profundidade de penitência: "Das profundezas eu clamo a vós, Senhor, escutai a minha voz..." (Sl 129, 1-2).

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