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Os sacrifícios de um rei em meio à guerra
Santos & Mártires

Os sacrifícios
de um rei em meio à guerra

Os sacrifícios de um rei em meio à guerra

Os sacrifícios que teve de fazer, em meio à guerra, o Beato Carlos da Áustria, último rei do Império Austro-Húngaro, iluminam as cruzes que aparecem em nossa vida… sem as procurarmos.

Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Abril de 2019
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A memória litúrgica do Beato Carlos da Áustria é celebrada no dia 21 de outubro, mas o dia de seu nascimento para o Céu (que a Igreja chama de dies natalis) é hoje, 1.º de abril. Morria neste mesmo dia, portanto, em 1922, o último monarca do Império Austro-Húngaro.

Mencionamos este fato porque entender em que condições se deu a morte deste grande servo de Deus é fundamental para entender também a sua santidade.

Comecemos por observar que, embora havendo nascido em território austríaco, Carlos morreu exilado na Ilha da Madeira, território português. Seu desterro, no entanto, foi apenas o “coroamento” de um punhado de sacrifícios que as circunstâncias históricas exigiram que ele fizesse:

Na época em que o Beato Imperador Carlos foi exilado para a Ilha da Madeira, sua vida já era uma vida feita de sacrifícios pelos outros. Ele perdera sua pátria, seu Império e seu trono. Seu próprio povo confiscou-lhe a fortuna privada e suas propriedades. Sem dinheiro, sem amigos e sem condições de ganhar a vida, tinha para sustentar a esposa, sete filhos e um outro ainda por nascer. Foi forçado a viver, sob a vigilância estrangeira, numa ilha distante, numa casa desagradavelmente úmida que não tinha condições de ser habitada [1].

De sua terra natal, portanto, ao estrangeiro; do palácio imperial a um casebre inóspito; da abundância à carestia: eis as drásticas mudanças enfrentadas pelo imperador e por sua família.

O Beato Carlos da Áustria.

Mas — deixemos claro desde o princípio — é evidente que não foi o fato de o Beato Carlos ter perdido o que perdeu, o que fez dele um santo. Afinal de contas, quantos homens e quantas famílias não perdem suas casas, seus bens, tudo o que têm, enfim, e não são beatificados? Se a privação das coisas deste mundo fosse uma virtude em si mesma, poderíamos canonizar todos os materialmente pobres e condenar sem mais ao inferno os ricos e abastados...

Mas não, o Evangelho é muito claro ao dizer que são “bem-aventurados os pobres em espírito” (beati pauperes spiritu) e é a eles que pertence o Reino dos céus (Mt 5, 3). Não basta, portanto, perder; tudo depende do modo como recebemos as perdas das mãos de Deus. Não basta, pois, ser pobre, não possuir coisas materiais; o que importa sobretudo é viver o desapego, “o que importa — nas palavras do Apóstolo — é que os que têm mulher vivam como se a não tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que se alegram, como se não se alegrassem; os que compram, como se não possuíssem; os que usam deste mundo, como se dele não usassem” (1Cor 7, 29-31). E por quê? “Porque a figura deste mundo passa”.

Ah, caro leitor, se existe uma verdade que deve entrar em nossa mente e coração é esta: a figura deste mundo passa.

Estamos falando da morte. Pois bem, lembremo-nos que, com a morte tudo se acaba, tudo se perde. O bem-aventurado Carlos, por exemplo: a pátria de que ele foi exilado, o Império que ele viu dissolver-se, o trono que ele teve de abandonar, as propriedades que lhe foram tomadas… tudo isso ele já teria de deixar ao partir deste mundo. A grande graça recebida por ele — mas que para o mundo é desgraça — foi desapegar-se de tudo isso antes de morrer: ao perder o que tinha com o coração unido ao de Cristo, o imperador aprendeu a viver aquela pobreza de espírito de que fala o Evangelho — e que é também, no dizer de Santo Afonso de Ligório, uma espécie de morte: “Bem-aventurados os que, ao morrer, já se acham mortos para as afeições terrenas. Estes não temem a morte, antes a desejam e abraçam alegremente. Em vez de separá-los dos bens que amam, une-os ao Sumo Bem, que é o único objeto digno de amor e que os tornará eternamente felizes” [2].

Para dar um exemplo de como o Beato Carlos enfrentou bem todas as suas perdas, consideremos o relato seguinte, de uma testemunha chamada Maria Lackner, e que passou a última virada de ano do imperador em sua casa, na Ilha da Madeira (nesta altura, o rei já havia perdido tudo e, dentro de três meses, viria a óbito):

À tarde, como devoção de encerramento do ano, houve na capela da casa uma solene Bênção Eucarística. Estávamos apenas o Imperador, a Imperatriz e nós. Também foi rezado o Te Deum. Atrás de nós, ficava um ano que tinha sido o mais duro da vida do Servo de Deus. Ele encontrava-se longe da pátria, no exílio; na mais drástica necessidade material; estava separado de seus filhos e não sabia o que o dia seguinte haveria de lhe trazer de mal. Durante o Te Deum, nós, um após o outro, fomos nos silenciando, porque a dor nos fazia fugir a voz. Somente o Servo de Deus manteve-se firme e entoou forte e claramente o cântico ambrosiano até o fim, acentuando cada palavra. (...) Olhei-o com admiração. Percebia-se com toda evidência que para ele, naquele momento, existia apenas Deus — ninguém mais — e que aquele Te Deum era um íntimo diálogo entre Deus e o seu mais fiel servidor. Na época, ele não sabia se tornaria a ver seus filhos, não sabia o que o dia seguinte haveria de lhe trazer, e contudo, rezou com muito fervor aquela oração de ação de graças [3].

“Para ele, naquele momento, existia apenas Deus — ninguém mais”. O Beato Carlos havia aprendido o sentido de seu reinado: entregar tudo Àquele de quem ele tudo havia recebido. Tanto que, ao final de sua vida, ele dirá à sua esposa: “Deus deu-me a graça de que, sobre a terra, não exista mais nada que eu não esteja pronto a sacrificar por seu amor, para o bem da Santa Igreja” [4].

Para se medir como era radical a sua vivência da pobreza, basta ter em mente que era “seu guarda-roupa de tal modo exíguo, que foi preciso pedir de volta um casaco que, algum tempo atrás, o Rei tinha dado a um de seus criados, para que fosse sepultado com ele” [5]. Foi tão grande o desapego deste monarca que nem uma roupa para lhe servir de mortalha!

Seu exemplo pode nos deixar espantados e poderíamos até nos perguntar, em nosso íntimo, se não seria exagerado demais chegar a esse ponto, ainda mais um rei, com um nome a zelar e uma dignidade a manter…

Mas seria suficiente para acabar com nosso escândalo lembrar que o Rei de todo o universo, o próprio Deus, Senhor do céu e da terra, morreu como um criminoso, despojado de suas vestes e sem ter sequer onde reclinar a cabeça. Queremos porventura exemplo de pobreza maior do que esse? De que perdas teríamos nós a reclamar sobre essa terra, se o próprio Tudo não se apegou ciosamente do ser igual a Deus, mas fez-se em tudo aos homens semelhante e morreu obedecendo até à morte, e morte ignominiosa numa cruz (cf. Fl 2, 7-8)? Que pobrezas haveremos de lamentar, se o nosso Deus nasceu pobre numa manjedoura, foi mais pobre ainda em sua vida e morreu paupérrimo [6], nada lhe restando “a não ser um madeiro” [7]?

Aprendamos, pois, com os exemplos de Nosso Senhor e do Beato Carlos da Áustria o que significa “amar a Deus sobre todas as coisas”: a nós, se não for pedido a pobreza absoluta, é preciso ao menos estarmos dispostos a sacrificar tudo o mais por causa dEle. Talvez não nos seja necessário sequer ir atrás de perdas e mortificações… Os acontecimentos da vida podem estar exigindo de nós, hic et nunc, aqui e agora, o sacrifício de um hábito qualquer, o sacrifício de um bem que possuímos, o sacrifício de uma pessoa de que gostamos… E nós, em nosso egoísmo, talvez ainda estejamos resistindo interiormente à vontade de Deus, recusando-nos a entregar aquilo que Ele manifestamente nos pede!

Nesses casos, caro leitor, em que “a Cruz aparece sem a procurarmos”, estejamos atentos: “é Cristo que pergunta por nós. E se por acaso, perante essa Cruz inesperada, e talvez por isso mais escura, o coração manifesta repugnância”, sigamos o conselho de São Josemaría Escrivá: sem darmos consolos a nosso coração, digamos-lhe “como em confidência: “Coração: coração na Cruz, coração na Cruz!” [8].

Referências

  1. Novena pedindo a intercessão e canonização do Beato Imperador Carlos da Áustria, 2.º dia.
  2. Preparação para a morte, II, 3.
  3. Giovanna Brizi, A vida religiosa do Beato Carlos da Áustria, 2.ª ed., Rio de Janeiro, Edições Lumen Christi, 2014, pp. 11-12.
  4. Ibid., p. 67.
  5. Ibid., p. 72.
  6. Pauper in nativitate, pauperior in vita et pauperrimus in cruce”, em: Tratado da Paixão do Senhor, II, 3 (PL 184, 639).
  7. São Josemaría Escrivá, Via Sacra, n. 10.
  8. Ibid., n. 5.

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Os olhos arregalados de quem viu o Invisível
Espiritualidade

Os olhos arregalados
de quem viu o Invisível

Os olhos arregalados de quem viu o Invisível

Se não podemos ver o Invisível com os olhos físicos, como Santa Joana d’Arc teve a graça de ver, que O vejamos ao menos com os olhos da fé, na oração!

Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Março de 2019
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É famosa na arte sacra a cena de Santa Joana d’Arc recebendo a visita de figuras celestiais. Os retratos são inspirados na biografia da santa, que com 13 anos teria visto e ouvido pela primeira vez São Miguel Arcanjo, príncipe da milícia celeste.

Mas o que esse santo anjo lhe disse ou deixou de lhe dizer, deixemos para outra hora. O que nos importa agora é usar como matéria para nossa meditação uma dessas obras fabulosas: “Joana d’Arc escutando as vozes”, óleo sobre tela, de Eugene Thirion.

Essa pintura é como um “chacoalhão”, pois desperta-nos do sono de tibieza em que tantas vezes nos encontramos, desanimados com as coisas espirituais e sem vontade de cumprir com nossos deveres de oração. Ela mostra uma Joana d’Arc com os olhos arregalados — não de pavor como quem vê uma assombração, mas de maravilhamento, como quem depara com um mistério, com uma realidade nobre e elevada, diante da qual tudo o mais que está ao seu redor se esvanece e parece um nada.

O arcanjo São Miguel, por sua vez, com a boca entreaberta bem atrás da santa, transmite-lhe uma mensagem bem ao pé do ouvido, como se só ela a devesse escutar, e mais ninguém. A missão que ela teria de levar a cabo nos anos seguintes seria pública e conhecida de todos, sua armadura seria vista e seguida por muitíssimos franceses… mas a origem divina de seu chamado devia permanecer, pelo menos a princípio, calada bem no fundo de seu coração, como um segredo.

O que isso tem a ver conosco que, via de regra, não recebemos a mesma graça que foi concedida a Joana? O que essa imagem transmite a nós, que temos de nos virar com a dura realidade ao nosso redor e com um Deus escondido, inacessível, distante e que tantos em nossa época chegam a dizer que não existe?

Em primeiro lugar, o que precisamos entender — não só para não cairmos no ateísmo, mas até para que tenhamos uma experiência religiosa autêntica — é que Deus quer falar ao coração de todos os seres humanos. Essa comunicação acontece conosco, muitas vezes, por uma desgraça que nos acontece, por uma pregação que ouvimos, e também deixa fortes efeitos em nossos sentidos, podendo levar-nos tanto aos arrepios quanto às lágrimas. Mas a iluminação divina que gera tudo isso dá-se primeira e fundamentalmente na alma; os olhos que se arregalam diante de Deus são, antes de tudo, os do nosso espírito; como exclama Santo Agostinho em suas Confissões: “Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora” (X, 38).

Os olhos arregalados de Santa Joana d’Arc impressionam-nos, portanto, por ser uma experiência que todos nós já fizemos, em alguma medida, na nossa vida de oração. É aquele momento em que se acende uma luz dentro de nós; em que Deus mostra uma verdade à nossa inteligência e convida a nossa vontade a rezar… E nós, de nossa parte, se aceitamos esse “convite” de Deus, se lhe abrimos a porta do nosso coração e permitimos que Ele venha “cear” conosco (cf. Ap 3, 20), saímos desse encontro alimentados por suas graças, numa verdadeira “refeição espiritual”.

A analogia com um alimento é muito apropriada, pois esse contato frequente e contínuo com Deus precisa tornar-se realmente “o pão nosso de cada dia”, sem o qual definharemos e… viremos a óbito espiritual.

Precisamos de exemplos de como isso acontece? Não conseguimos enxergar, em nossa própria alma, os efeitos da falta de oração? Ó, miseráveis de nós, que não nos amarguramos por estar distantes de Deus! Miseráveis de nós, cegos, que não percebemos a necessidade profunda e vital que temos do Senhor! Miseráveis de nós, pois Deus está conosco, mas nós não estamos com Ele (cf. Confissões, X, 38)!

Mas olhemos também ao nosso redor: quantas pessoas que tinham fé, que iam à igreja, que recebiam os sacramentos e que buscavam uma vida relativamente católica… quantas dessas pessoas nós já não vimos se afastarem do caminho, pessoas que hoje estão entregues ao mundo e nem católicas se dizem mais! Por que essas coisas acontecem? Deus por acaso as abandonou? O que faz tantos à nossa volta deixarem de perseverar? Que erro essas pessoas cometeram, e que nós precisamos evitar custe o que custar?

Joana d’Arc escutando suas vozes”, de Léon-François Bénouville.

Ah, olhando para a imagem de Santa Joana d’Arc, fica fácil perceber o erro que aqui se esconde: o que acontece a tantos de nós é que deixamos de “arregalar” os olhos da alma na oração! Tornamo-nos insensíveis à voz e às visitas de Deus! Seduzidos por aquilo que nos dão os sentidos do corpo, abandonamos o contato com as realidades sobrenaturais!

Pedimos atenção para que ninguém se confunda, achando que estamos a tratar de uma experiência sensorial… Não, nós não estamos atrás de sensações gostosas, lágrimas de emoção e arrepios na nuca! O que precisamos é de um alimento que fortifique a nossa alma e que nos faça viver como Santo Moisés, que “caminhava com tanta segurança como se estivesse vendo o invisível” (Hb 11, 27).

“Com tanta segurança como se estivesse vendo o invisível”: eis aqui o segredo! Estamos o tempo todo em contato com o que vemos, com o que ouvimos, com o que tocamos… Pois bem! Nosso esforço deve ser justamente no sentido contrário: aumentar o contato com o que não vemos, com o que não podemos ouvir, com o que não podemos tocar. E a única maneira de fazer isso é através da oração, que é o exercício da . Precisamos da oração para nos desvencilharmos das ilusões do mundo e ficarmos atentos às coisas que realmente importam — as únicas que importam!

Portanto, se não podemos ver o Invisível com os olhos físicos, como Santa Joana d’Arc teve a graça de ver, que O vejamos ao menos com os olhos da fé! E trabalhemos neste ofício com todo o empenho de nossa alma. Lembremo-nos do que “São Camilo de Lélis, ao aproximar-se de alguma sepultura”, costumava se perguntar: “Se estes mortos voltassem ao mundo, que não fariam pela vida eterna? E eu, que disponho de tempo, que faço por minha alma?” (S. Afonso M.ª de Ligório, Preparação para a morte, I, 3).

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Um protestante pergunta sobre a transubstanciação
Doutrina

Um protestante
pergunta sobre a transubstanciação

Um protestante pergunta sobre a transubstanciação

A Igreja Católica inventou a transubstanciação? Jesus Cristo está realmente presente na Eucaristia ou Ele usou o sentido figurado quando disse: “Isto é o meu corpo”?

Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Março de 2019
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Um protestante entrou em contato conosco há alguns dias, demonstrando sinceridade e vontade de aprender algumas coisas acerca da Eucaristia. Por considerarmos que a resposta às suas indagações poderá ser de grande utilidade para todos os nossos leitores, decidimos torná-la pública.

Comecemos pelas questões que ele coloca, por ordem:

  1. ele questiona o termo transubstanciação, com o qual a Igreja procurou descrever o mistério que se dá neste sacramento; depois,
  2. ele argumenta, “baseando-se nas escrituras sagradas”, “que a Igreja primitiva não tinha problema algum de chamar os elementos pão e vinho ao invés de corpo e sangue”, e pergunta: “se de fato fosse corpo e sangue, por que não evidenciar isso no decorrer dos textos?”;
  3. ele cita o trecho de Jo 6, 53-55, no qual Jesus fala de sua carne como “verdadeira comida” e de seu sangue como “verdadeira bebida”, e admite: “Esse texto poderia corroborar para a questão de realmente haver o milagre da transubstanciação”, não fosse Jo 6, 63 explicar que “o Espírito é que dá vida, a carne de nada aproveita”, com o que, ele supõe, a doutrina da transubstanciação fica comprometida;
  4. ele diz que o uso da expressão “Isto é o meu corpo”, presente nos Evangelhos e em 1Cor 11, 24, “não é algo tão explícito para comprovar a questão de que é de fato o corpo de Cristo”; e, por fim,
  5. ele argumenta que “milagres não são por si só provas”, certamente se referindo ao fenômeno dos milagres eucarísticos acontecidos na Igreja Católica, dos quais existem inúmeros exemplos ao redor do mundo.

Considerando que as questões, embora sejam cinco, lidam com três aspectos do problema, dividimos nossa resposta em três grupos de observações: primeiro, quanto à linguagem (1 e 2); segundo, quanto à interpretação das passagens relativas à Eucaristia (3 e 4); e, por fim, quanto aos milagres (5).

O problema da linguagem. — É evidente que na Igreja nascente não existia o termo “transubstanciação”. O Manual de Teologia Dogmática de Ludwig Ott fala de sua origem no século XII, ou seja, mais de um milênio após a morte de Cristo [1].

“Pronto”, o protestante mais afoito responderá, dando por encerrada a questão, “a Igreja Católica inventou a transubstanciação”.

Ora, não é porque a palavra transubstanciação passou a constar nos documentos da Igreja só a partir do segundo milênio que a realidade a que ela faz referência não existia já antes. Na verdade, foi justamente para proteger o que os cristãos desde o princípio acreditavam a respeito da Eucaristia que a Igreja passou a adotar esse termo em seus ensinamentos. É que barreiras de proteção normalmente só são necessárias diante de perigos e ameaças. São Pedro Apóstolo, ao dizer a Jesus: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”, estava claramente confessando a divindade de Cristo. Mas, quando alguns começaram a negar essa verdade, a Igreja no Concílio de Niceia se viu obrigada a incrementar a profissão de fé apostólica: Jesus Cristo passou a ser crido como o Filho “gerado, não criado, consubstancial ao Pai, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, Luz da Luz”. Não que Ele já não o fosse antes. Mas diante da ameaça dos arianos, que diziam ser Ele uma simples “criatura” do Pai, foi necessário ser mais específico, enfático e explícito.

Ora, o primeiro milênio praticamente não viu surgirem heresias eucarísticas. Daí o “menor cuidado”, por assim dizer, com as formulações a respeito desse sacramento. Mas se esse cuidado ainda não se via tão claramente no campo da linguagem, o zelo dos primeiros cristãos com a liturgia revestia-se de uma piedade verdadeiramente exemplar: havia clara consciência de se estar diante de um mistério tão grandioso, tão excelso, tão superior, que precisava ser velado de algum modo, escondido do olhar dos curiosos, preservado da incredulidade pagã. Era a chamada “disciplina do arcano” (disciplina arcani), que levou os cristãos a celebrarem secretamente a Eucaristia, para preservá-la.

A consciência do mistério traduz-se com muita simplicidade nos escritos dos Santos Padres. Notem todos que, mesmo não havendo ainda o termo “transubstanciação”, os elementos a que faz referência essa expressão já estavam todos presentes [2]: sabia-se que na consagração do pão e do vinho acontecia (i) a conversão de um e de outro no Corpo e Sangue de Cristo, (ii) operada por força das palavras do Senhor, (iii) ao mesmo tempo que se mantinham, por outro lado, certos aspectos do pão e do vinho — isto é, os seus “acidentes”.

O Papa Paulo VI faz uma ótima compilação dessas passagens em sua encíclica Mysterium Fidei (n. 50-53):

Assim instruído e acreditando com a maior certeza que aquilo que parece pão não é pão, apesar do sabor que tem, mas sim o Corpo de Cristo; e que o que parece vinho não é vinho, apesar de assim parecer ao gosto, mas sim o Sangue de Cristo... tu fortalece o teu coração, comendo aquele pão como coisa espiritual, e alegra a face da tua alma (São Cirilo de Jerusalém, Catech. 22, 9: PG 33, 1103).

Quem faz que as coisas oferecidas se tornem o Corpo e o Sangue de Cristo não é o homem, é Cristo que foi crucificado por nós. Como representante, pronuncia o sacerdote as palavras rituais; a eficácia e a graça vêm de Deus. Diz ‘isto é o meu Corpo’: esta palavra transforma as coisas oferecidas (São João Crisóstomo, De prodit. Iudae, Homil. 1, 6: PG 49, 380).

(Cristo) afirmou de maneira categórica ‘isto é o meu Corpo e isto é o meu Sangue’. Não vás tu julgar que as realidades visíveis são figura, mas fiques sabendo que Deus Onipotente transforma, de modo misterioso, algumas das coisas oferecidas, no Corpo e no Sangue de Cristo; quando destes participamos, recebemos a força vivificante e santificadora de Cristo (São Cirilo de Alexandria, In Matth. 26, 27: PG 72, 451).

Persuadamo-nos que já não temos o que a natureza formou, mas o que a bênção consagrou; e que a força da bênção é maior que a força da natureza, porque a bênção muda até a natureza [...]. A palavra de Cristo, que pode fazer do nada aquilo que não existia, não poderá mudar as coisas que existem naquilo que não eram? Criar coisas não é menos que mudá-las (Santo Ambrósio, De myster. 9, 50-52: PL 16, 422-424).

Esses testemunhos servem para nos mostrar como as doutrinas definidas pelo Magistério da Igreja não surgem por “geração espontânea”. Não é que, do dia para a noite, um sínodo ou um Concílio ecumênico tenha decidido “decretar” o dogma da transubstanciação. Não. Com o passar dos anos, vai crescendo na mente dos Doutores e no coração dos fiéis a compreensão das verdades de fé e, assim, quando surge no século XI um Berengário de Tours ousando ensinar que a Eucaristia não passa de um “símbolo”, o que faz a Igreja? Simplesmente o obriga a retratar-se, com uma fórmula já repleta de cuidados:

Eu, Berengário, creio [...] que o pão e o vinho que são postos sobre o altar, em virtude do mistério da santa oração e das palavras de nosso Redentor, são transformados, quanto à substância [substantialiter converti], na verdadeira e própria vivificante carne e sangue de nosso Senhor Jesus Cristo; e que, depois da consagração, são o verdadeiro corpo de Cristo [verum Christi corpus], que nasceu da Virgem e para a salvação do mundo foi pendurado na cruz e está sentado à direita do Pai, e o verdadeiro sangue de Cristo [verum sanguinem Christi], que foi derramado do seu flanco (Profissão de Fé de Berengário de Tours, 11 fev. 1079: DH 700).

Por que agiu assim a Igreja? Porque ela tinha um mistério a guardar! A Eucaristia é um mistério do qual o Papa e os bispos em comunhão com ele são apenas depositários e, por isso, eles não tinham (e não têm) o direito de “manipular” essa realidade com qualquer linguagem, se isso significasse pôr em risco o ensinamento de Cristo e o que os cristãos sempre haviam entendido, desde o começo, como sendo o ensinamento de Cristo.

Mas o que os cristãos receberam de Cristo, afinal? Com essa pergunta, entramos em nosso segundo problema: a interpretação do texto bíblico.

O problema da interpretação bíblica. — Discutir exegese bíblica com protestantes é sempre um desafio, porque, não estando eles dispostos a aceitar a autoridade da Igreja Católica — a única estabelecida por Cristo Jesus —, só o que resta é o “livre exame”, ou a criação artificiosa de alguma autoridade humana para resolver as controvérsias que inevitavelmente surgem da leitura das Escrituras.

O trecho citado por nosso amigo protestante é, de fato, o mais forte de toda a Bíblia a respeito da Eucaristia: em Jo 6, 53-55, Jesus fala de sua carne como “verdadeira comida” e de seu sangue como “verdadeira bebida”, dizendo ainda que seria necessário τρώγειν (lit., “roer, mastigar, comer”) o seu corpo para ter a vida eterna.

Ora, palavras tão contundentes assim, de cuja literalidade Jesus fez questão de não “arredar o pé” em momento algum… “anuladas” por uma referência ao Espírito que dá vida e à carne que de nada aproveita?

Bom, se o leitor está disposto a se servir de qualquer versículo que seja para negar a transubstanciação… então aí está a oportunidade! Mas Santo Tomás de Aquino, a partir de São João Crisóstomo e de Santo Agostinho, dá ao versículo 63 uma interpretação muito mais em harmonia não só com o restante do discurso do pão da vida, mas com tudo o que a Igreja sempre creu a esse respeito:

Deve-se saber […] que as palavras de Cristo podem entender-se num duplo sentido: (a) em sentido espiritual e (b) em sentido corporal. E por isso diz: “O espírito é que vivifica”, isto é, “se entenderdes as palavras que vos disse segundo o espírito”, ou seja, segundo o seu sentido espiritual, “minhas palavras vos vivificarão”; “a carne de nada serve”, isto é, “se as entenderdes em sentido carnal, elas de nada vos aproveitarão: antes, vos farão mal”. Porque, como se diz em Rm 8, 12, “se viverdes segundo a carne, haveis de morrer”.

Pois bem, as palavras do Senhor a respeito de sua carne dada como comida entendem-se carnalmente quando se interpretam tal como as palavras soam externamente, e referidas à natureza da carne; e era deste modo que eles as entendiam [...]. Mas o Senhor dizia que se lhes havia de dar como alimento espiritual, não porque no sacramento do altar não esteja presente a verdadeira carne de Cristo, mas porque ela é consumida de um certo modo espiritual e divino. Assim, portanto, o sentido adequado destas palavras não é carnal, mas espiritual. Eis porque acrescenta: “As palavras que vos tenho dito”, a saber, acerca de minha carne dada como comida, “são espírito e vida”, ou seja, têm um sentido espiritual e, assim entendidas, dão vida. E não é estranho que tenham um sentido espiritual, porque são palavras vindas do Espírito Santo: “Fala coisas misteriosas, sob a ação do Espírito” (1Cor 14, 2). E é por isso que os mistérios de Cristo vivificam: “Jamais esquecerei vossos preceitos, porque por eles é que me dais a vida” (Sl 118, 93).

Mas, de acordo com Agostinho, essa passagem se explica de outro modo, pois isto que o Senhor disse: “a carne de nada serve”, refere-se à carne de Cristo. É evidente, com efeito, que a carne de Cristo, enquanto unida ao Verbo e ao Espírito, traz muito proveito e de todas as maneiras: do contrário, em vão o Verbo se teria feito carne, em vão o Pai o teria manifestado na carne [...]. E por isso se deve dizer que a carne de Cristo, considerada em si mesma, de nada serve, e não tem efeito mais benéfico que o de outra carne. De fato, se a carne de Cristo é separada, idealmente, da divindade e do Espírito Santo, não tem mais virtude do que outra carne; mas, se está unida ao Espírito e à divindade, é de proveito para muitos, porque faz os que a comem permanecerem em Cristo. Com efeito, é pelo Espírito de caridade que o homem permanece em Deus: “Nisso é que conhecemos que estamos nele e Ele em nós, por Ele nos ter dado o seu Espírito” (1Jo 4, 13). Eis porque diz o Senhor: este efeito (ou seja, o da vida eterna) que eu vos prometo, não deveis atribuí-lo à carne considerada em si mesma, pois a carne assim considerada de nada serve; mas, se o atribuirdes ao Espírito, e à divindade unida à carne, assim é que ela dá a vida eterna: “Se vivemos pelo Espírito, andemos também de acordo com o Espírito” (Gl 5, 25). E é por isso que acrescenta: “As palavras que vos tenho dito são espírito e vida”, isto é, devem ser referidas ao Espírito unido à carne; e, assim entendidas, são vida, a saber: vida da alma. Pois assim como o corpo vive com vida corporal graças ao espírito corporal, assim também a alma vive com vida espiritual graças ao Espírito Santo: “Enviai o vosso Espírito, e tudo será criado” (Sl 103, 5) (Comentário ao Evangelho de São João, VI, l. 8, n. 992-993, destaques nossos).

Riquíssimos de espiritualidade são esses comentários, e mais belo ainda é ver como eles se articulam com outros mistérios de nossa fé, como a união hipostática. Nosso Senhor, sendo o próprio Deus feito homem, dá-nos de sua carne justamente para nos fazer participantes de sua natureza divina (cf. 2Pd 1, 4). Assim, nós, católicos, quando comungamos (com fé e em estado de graça, é claro), tomamos parte na vida do próprio Deus, recebemos nesse banquete toda a força necessária para lutarmos contra o pecado e nos elevarmos acima de nossa condição decaída… É a Redenção que atua diretamente em nossa vida, transformando-nos nos santos que Deus quer que sejamos.

Quanto a “Isto é o meu corpo” ser expressão insuficiente para se defender a presença real de Cristo na Eucaristia, respondemos com Ludwig Ott que, aqui, vários fatores exigem a interpretação literal dessas palavras:

a) O texto das palavras. Não existe nada no texto que possa servir de fundamento para uma interpretação figurada, pois o pão e o vinho não são, nem por natureza nem por uso geral linguístico, símbolos do corpo e do sangue. A interpretação literal não encerra em si contradição alguma, uma vez que pressupõe, desde já, a fé na divindade de Cristo.

b) As circunstâncias. Cristo tinha de acomodar-se à mentalidade dos Apóstolos, que entenderam suas palavras tal como foram pronunciadas. Se não queria induzir ao erro toda a humanidade, tinha de servir-se de uma linguagem que não se prestasse a falsas interpretações, sobretudo naquela ocasião, quando ia instituir um sacramento e um ato de culto tão sublime, quando ia fundar a Nova Aliança e legar-nos seu testamento.

c) As conclusões práticas que deduz o apóstolo São Paulo das palavras da instituição. Diz o Apóstolo que quem recebe indignamente a Eucaristia peca contra o corpo e o sangue do Senhor; e quem a recebe dignamente faz-se participante do corpo e do sangue de Cristo (cf. 1Cor 10, 16; 11, 27ss) [...].

d) A insuficiência dos argumentos apresentados pelos adversários. Se é verdade que o verbo “é” tem em vários lugares da Escritura (v.g. Mt 13, 38: “o campo é o mundo”; cf. Jo 10, 7a; 15, 1; 1Cor 10, 4) um significado equivalente a “simboliza” ou “representa”, não é menos certo também que em tais casos o sentido figurado dessas passagens deduz-se sem dificuldade da natureza mesma do assunto (v.g., quando se trata de uma parábola ou alegoria) ou pelo uso geral da linguagem. Mas no relato sobre a instituição da Eucaristia não ocorre nenhuma dessas coisas [3].

O problema dos milagres. — É claro que, para quem não está disposto a crer, nem mil provas serão suficientes: pode-se-lhe mostrar a Bíblia, os testemunhos da Tradição, as manifestações do Magistério perene da Igreja e até os milagres eucarísticos ao longo dos séculos, verdadeiros “carimbos” de Deus para confirmar a autenticidade da fé católica na Eucaristia… mas será tudo em vão. Enquanto não estivermos dispostos a aceitar a autoridade do Deus revelante, que não se engana nem nos pode enganar, e que instituiu a Igreja Católica para guardar o depositum fidei…  serão em vão todas e quaisquer argumentações.

O que precisamos, no fundo, para aceitar a transubstanciação, é simplesmente de um ato de fé, como este: “Eu acredito que no Sacramento da Eucaristia está verdadeiramente presente Jesus Cristo, porque Ele mesmo o disse, e assim no-lo ensina a Santa Igreja” (Catecismo de S. Pio X, 596). Nada mais.

Isso pode parecer pouca coisa, caro leitor, mas é o passo decisivo… e, no momento extraordinário em que ele for dado, tenha a certeza de que Nosso Senhor, dos céus, estará lhe dirigindo as mesmas palavras que, um dia, ele pronunciou a São Pedro: “Bem-aventurado és”, meu filho, “porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus” (Mt 16, 17).

Referências

  1. Ludwig Ott, Manual de Teología Dogmática. 7.ª ed., Barcelona: Herder, 1969, p. 562.
  2. Cf. Id., p. 563, onde se fala dos elementos que compõem a noção “transubstanciação”.
  3. Cf. Id., pp. 557-558.

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Jesus Cristo, o rosto humano de Deus
Doutrina

Jesus Cristo, o rosto humano de Deus

Jesus Cristo, o rosto humano de Deus

Se alguém nos perguntar com quem Deus se parece, como Ele é, nossa resposta deve ser uma só: Jesus Cristo, o mesmo que disse no Evangelho: “Quem vê a mim, vê o Pai”.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Março de 2019
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No último dia 25 de março, os católicos no mundo inteiro celebraram a festa do mais sublime mistério já acontecido no universo criado: a Encarnação do Filho de Deus no seio da Virgem Maria. Tudo o que Deus fez por Adão depois de sua queda, pelos patriarcas e profetas, foi em vista da realização desse mistério; tudo o que acontece no tempo depois desse acontecimento remete de volta a ele, seja para o bem, seja para o mal. A Encarnação é o eixo em torno do qual gira toda a realidade.

É por isso que a civilização cristã sempre organizou os seus calendários com os termos a.C., “antes de Cristo”, e d.C., “depois de Cristo”, contando os anos a partir da entrada de Cristo neste mundo, a fim de libertar-nos da escravidão do pecado e da morte. (E é por isso que os cristãos devem resistir, o máximo que puderem, ao uso das abreviaturas A.E.C., “antes da Era Cronológica”, e E.C., “Era Cronológica”, que não passam de terminologia politicamente correta e sem sentido.)

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1, 14): com essas majestosas palavras a proclamação do Prólogo do Evangelho de São João atingia o seu cume ao fim de todas as Missas, desde a Idade Média, a partir do Missal de São Pio V em 1570, até a sua infeliz abolição, em 1965. E no entanto, não importa o quanto os homens do mundo (e até os de igreja) resistam à desconfortável proclamação deste incompreensível mistério — que faz a razão humana orgulhosa se prostrar e os nossos joelhos se dobrarem em adoração —, o mistério se afirma cada vez mais como a fonte irreprimível da fé cristã, assim como temos visto o último Evangelho retornar a nossas igrejas com a difusão crescente da Missa latina tradicional.

Na Encarnação, assim como na Santa Eucaristia, que é o seu eco incessante através dos séculos, o Deus invisível tornou-se visível a nós, o eterno entrou no tempo, o inacessível fez-se próximo, o infinito assumiu limites — sem deixar de ser infinito, inacessível, eterno e invisível. Deus, que é puro espírito, tem em Jesus Cristo um coração humano, um rosto humano. O Filho que nasceu do Pai antes de todos os séculos, nasceu no tempo da Virgem Maria.

Dessa forma, Deus responde ao desejo que o ser humano tem de ver e ouvir o próprio amigo, a pessoa amada. Deus sabia que, para o homem decaído, Ele encontrava-se distante demais, inalcançável demais — ainda que, na realidade, Ele esteja mais próximos de nós do que nós mesmos, mais próximo que a nossa respiração e que o pulsar de nosso coração. Se alguém nos perguntar com quem Deus se parece, como Ele é, nossa resposta deve ser uma só: Jesus Cristo, que disse a seu apóstolo Felipe: “Quem vê a mim, vê o Pai” (Jo 14, 9). Cristo é o rosto humano de Deus.

Essa é, pois, a razão básica (há outras) pela qual todos os cristãos que guardam a fé que receberam dos Apóstolos — não apenas os cristãos orientais ou bizantinos, mas também os latinos e ocidentais — fazem uso das imagens de Cristo, de sua Mãe e dos santos em suas liturgias. O Verbo que se fez carne em Jesus deu-nos uma realidade física a retratar, e por meio dessa representação nós expressamos nossa adoração ou veneração ao original, assim como, quando beijamos uma foto de alguém, não estamos a demonstrar afeto por um pedaço de papel, senão pela pessoa que nele está fotografada. Os cristãos também fazem uma distinção clara entre adoração, que é devida somente a Deus, e veneração, que é justamente devida a todos os amigos de Deus, os santos anjos e os santos homens e mulheres. Se nós nos recusamos a adorar Cristo retratado em um ícone, nós pecamos contra Ele e, se nos recusamos a venerar-lhe os amigos, ofendemos a Ele também.

São tão essenciais ao cristianismo as imagens e os ícones, encontrados ao longo de toda a história da Igreja, desde tempos os mais antigos, que negá-los equivale a negar a Encarnação e, assim, a própria essência do cristianismo. É indiscutível que estaríamos lidando, então, com uma forma de docetismo. O docetismo é a heresia segundo a qual a humanidade de Cristo teria sido apenas uma aparência, e não uma realidade; Deus não teria se encarnado de fato (isto é, não teria se feito homem), mas tão-somente projetado a si mesmo como um holograma, que “fez” e “disse” várias coisas para nossa instrução.

Mas essa não é a fé ortodoxa. Os verdadeiros cristãos adoram o Deus feito carne, o Verbo encarnado; eles adoram sua presença corporal na Santíssima Eucaristia, na qual Ele permanece entre nós, glorioso, até o fim dos tempos, sob o véu do pão e do vinho; eles adoram sua Sagrada Face, seu Sagrado Coração, suas Santas Chagas, o templo perfeito de Deus que é a sua humanidade santíssima (cf. Jo 2, 21), através das imagens que o representam. Precisamente porque a imagem é uma imagem — isto é, uma representação de algo mais, que existe de forma real e corpórea e que, nessa forma, exige nossa adoração (cf. Mt 2, 11; 8, 2; 9, 18; 14, 33; 15, 25; 20, 20; 28, 17 etc., e especialmente Jo 20, 28) —, nós não estamos jamais em risco de pecar por idolatria; como diz uma sentença célebre de São Basílio Magno: “A honra prestada a uma imagem remonta a seu protótipo (isto é, ao modelo original)” (cf. Catecismo da Igreja Católica, § 2132). A relutância em se curvar diante de um retrato de Cristo (contanto, naturalmente, que possamos reconhecê-lo) seria como dizer que não acreditamos de fato em sua divindade ou em sua verdadeira humanidade. De modo similar, a relutância em venerar as imagens da toda santa Mãe de Deus e sempre Virgem Maria, ou dos anjos e dos santos, seria um desrespeito não só a eles, mas também a seu Deus e Senhor.

Justamente porque a fé católica é “encarnada”, as verdades de nosso credo devem estar em profunda conexão com nossas vidas diárias. E esse entrelaçamento do transcendente e do terrestre é ajudado, em grande medida, por lembretes concretos e tangíveis de Deus em todos os lugares, em nossos lares, nas escolas, nas esquinas de nossas ruas e nos mais diversos espaços públicos. Todos esses símbolos — pinturas, esculturas, santuários ou quaisquer outras coisas — têm o propósito de tornar as realidades divinas próximas de nós, a fim de termos sempre em mente nossa identidade e nosso propósito nesta vida. A multidão e variedade desses lembretes são como “alarmes”, feitos para nos acordar de nosso sono terreno, e o fato de eles serem acessíveis a nossos sentidos é o que garante que a mensagem não passará despercebida. Quando consideramos o quanto a cegueira de nossa mente, a fraqueza de nossa vontade e as preocupações da vida tornam difícil para nós permanecer por muito tempo nas coisas espirituais e celestes, é então que vemos o quanto é importante cercar-nos de ícones e imagens, de placas de sinalização orientando-nos na estrada e levando-nos à nossa eterna felicidade.

Tais reflexões deixam-nos ideias não muito animadoras a respeito do estado de alma dos iconoclastas ao longo da história da Igreja — sejam os iconoclastas originais do Império Bizantino, sejam os protestantes quebradores de imagens e relíquias no tumultuado período da Reforma, seja a “Gestapo” pós-conciliar que confiscou e destruiu livros, altares, paramentos, vasos sagrados, decorações e quaisquer outros itens católicos tradicionais nos quais eles pudessem pôr as mãos. Em uma época tão cheia de iconoclasmo como tem sido a nossa, todo católico deveria nadar contra a corrente, promovendo a criação, a restauração e o culto das imagens sacras com o maior zelo possível, sob o risco de vermos escondido ou silenciado o mistério fundamental de nossa fé: a Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo.

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