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Novena pelas almas do Purgatório
Oração

Novena pelas almas do Purgatório

Novena pelas almas do Purgatório

Nesta novena escrita por Santo Afonso de Ligório, supliquemos a Deus, em nosso favor, a graça da salvação e, em favor das almas do Purgatório, a graça de serem admitidas o mais depressa possível à presença de Deus.

Santo Afonso Maria de Ligório5 de Novembro de 2018Tempo de leitura: 12 minutos
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Orações iniciais para todos os dias da novena

Ato de contrição. — Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, Criador e Redentor meu, em quem firmemente creio e espero e a Quem amo mais que a mim mesmo, mais do que todas as coisas, pesa-me, Senhor, de todo o meu coração por vos ter ofendido, por serdes Vós quem sois, tão bom, santo, amável e adorável; pesa-me também, porque com os meus pecados tenho merecido as penas do Purgatório, e, quem sabe, se também os tormentos eternos do Inferno.

Proponho, ajudado com a Vossa graça, nunca mais pecar, fugir de todas as ocasiões de ofender-Vos, confessar-me, corrigir e emendar os meus erros e perseverar até à morte na Vossa amizade. Peço-vos, meu Deus, esta graça, pelo amor que tendes às benditas almas do Purgatório, pelos méritos da Vossa paixão e pelas dores da Vossa aflitíssima Mãe. Amém.

Oração inicial. — Ó Pai Eterno, amoroso e misericordioso, que impelido pela Vossa infinita misericórdia, tanto amastes o mundo, a ponto de lhe dardes o vosso Filho Unigênito, para que aqueles que n’Ele crerem não pereçam, mas vivam eternamente, permitireis acaso, ó Senhor, que sofram ainda por muito tempo no Purgatório essas almas queridas, filhas Vossas e esposas de Jesus Cristo, que as comprou com o preço infinito do Seu Sangue?

Tende piedade dessas aflitas prisioneiras e livrai-as das suas penas e tormentos. Tende também compaixão da minha pobre alma, livrando-a do abismo do pecado. E se a Vossa justiça, não satisfeita ainda, exige maior reparação pelas faltas que cometeram, ofereço-vos os atos de virtudes que praticar durante esta novena.

Nada, ou muito pouco, valem todos eles, é verdade; mas eu vo-los ofereço unidos aos merecimentos de Jesus Cristo, às dores de Sua Mãe Santíssima e às virtudes heroicas de todas as almas justas que até hoje têm vivido no mundo. Compadecei-vos dos vivos e dos defuntos e concedei-nos a todos a graça de cantarmos um dia no Céu os triunfos da Vossa misericórdia. Amém.

Meditar o dia da novena e depois fazer as orações finais.


Primeiro dia

São muitas as penas que sofrem as benditas almas do Purgatório; mas a maior de todas é o pensamento de que foram elas próprias a causa dos seus sofrimentos pelos pecados que cometeram em vida.

Ó Jesus, Salvador meu! Eu, que tantas vezes tenho merecido o Inferno, que pena não experimentaria agora, se me visse condenado, ao pensar que eu próprio fora a causa da minha condenação? Dou-Vos infinitas graças pela paciência que tendes tido em me suportar.

Amo-vos, meu Deus, sobre todas as coisas, porque sois a Bondade Infinita; arrependo-me de todo o meu coração de vos ter ofendido e antes quero morrer, do que tornar a ofender-vos. Concedei-me a graça da perseverança; tende piedade de mim e das benditas almas que sofrem no ardente fogo do Purgatório. E Vós, Maria, Mãe de Deus, socorrei-as com as vossas poderosas súplicas. Amém.

5 Pai-Nossos e 5 Ave-Marias pelas almas que mais sofrem.

Propósito. — Formar a generosa resolução de rezar todos os dias da novena em sufrágio das benditas almas.

Fazer as orações finais (mais abaixo).

Segundo dia

A pena que em segundo lugar atormenta excessivamente as benditas almas é a recordação do tempo que perderam durante a sua vida, durante o qual teriam podido adquirir maiores méritos para o Céu; e a lembrança de que esta perda é para sempre irreparável, pois que com a vida termina o tempo de merecer.

Infeliz de mim, Senhor! Que, por espaço de tanto anos, tenho vivido sobre a terra, durante os quais só tenho merecido os castigos do Inferno.

Dou-vos infinitas graças por me concederdes ainda tempo para remediar o mal que tenho feito. Arrependo-me, meu Deus, de vos ter ofendido, a Vós que sois infinitamente bom. Auxiliai-me para que, daqui até o fim da minha vida, empregue todos os momentos unicamente em servir-vos e amar-vos. Tende piedade de mim e dessas almas benditas que sofrem no Purgatório. E Vós, Maria, Mãe de Deus, socorrei-as com as vossas poderosas súplicas. Amém.

5 Pai-Nossos e 5 Ave-Marias pelas almas que mais sofrem.

Propósito. — Assistir pela manhã, e sempre que se possa, ao Santo Sacrifício da Missa, em sufrágio das almas do Purgatório.

Terceiro dia

Outra pena das maiores, que afligem as benditas almas do Purgatório, é a consideração dos pecados que estão expiados. Na vida presente não se conhece bem a fealdade dos pecados, mas compreende-se claramente na outra, e esta é uma das mais vivas dores que sofrem as almas no Purgatório.

Ó meu Deus! Amo-vos sobre todas as coisas porque sois a Bondade Infinita; pesa-me de todo o meu coração de vos ter ofendido; antes quero morrer que tornar a ofender-vos; concedei-me a graça da santa perseverança; tende piedade de mim e das almas santas que estão ainda a purificar-se naquele fogo abrasador.

E Vós, Maria, Mãe de Deus, socorrei-as com vossas poderosas súplicas, e rogai também por nós, que estamos ainda em perigo de nos condenarmos. Amém.

5 Pai-Nossos e 5 Ave-Marias pelas almas que mais sofrem.

Propósito. — Pela manhã procuraremos sofrer com paciência os trabalhos que Deus nos enviar e as ofensas do nosso próximo, em sufrágio das benditas almas.

Quarto dia

Uma outra pena que muito aflige no Purgatório as almas, esposas de Jesus Cristo, é o pensamento de que, durante a vida, desgostaram com suas culpas aquele Deus a quem tanto amam. Têm-se visto penitentes morrer de dor, ao meditar que ofenderam um Deus tão bom. Muito melhor que nós, conhecem as almas do Purgatório quão amável é Deus, e por conseguinte amam-No com todas as forças do seu coração, e, ao meditar que o desgostaram nesta vida, experimentam uma dor superior a qualquer outra.

Ó meu Deus! Porque sois a infinita bondade, arrependo-me de todo o meu coração de vos ter ofendido, antes quero morrer do que tornar a ofender-vos. Concedei-me a graça da santa perseverança; tende piedade de mim e daquelas santas almas que sofrem ainda no fogo do Purgatório e que vos amam de todo o seu coração. E Vós, Maria, Mãe de Deus, socorrei-as com vossas poderosas súplicas. Amém.

5 Pai-Nossos e 5 Ave-Marias pelas almas que mais sofrem.

Propósito. — Formemos o propósito de beijar pela manhã três vezes a terra, em sufrágio das benditas almas, e em satisfação das palavras altivas que dissermos; e, se quisermos humilhar-nos mais, poderemos fazer com a língua uma pequena cruz no chão.

Quinto dia

Outra pena que tortura horrivelmente as benditas almas do Purgatório é o terem de sofrer os ardores de um fogo abrasador sem saber quando terão fim os seus tormentos. É verdade que têm certeza de ver-se um dia livres deles; mas é um tormento gravíssimo para elas a incerteza do tempo em que hão de acabar.

Ó Senhor! Que grande desgraça seria a minha, se me tivésseis precipitado no Inferno, nesse lugar de tormentos donde com certeza nunca mais tornaria a sair! Amo-vos sobre todas as coisas, Bondade Infinita, e arrependo-me de vos ter ofendido; antes quero morrer que tornar a ofender-vos. Concedei-me a graça por intermédio das santas almas que estão ainda a acabar de purificar-se no fogo do Purgatório. E Vós, Maria, Mãe de Deus, socorrei-as com vossas poderosas súplicas. Amém.

5 Pai-Nossos e 5 Ave-Marias pelas almas que mais sofrem.

Propósito. — Não comer nada fora das horas costumadas, ou fazer alguma mortificação corporal em sufrágio das almas do Purgatório.

Sexto dia

Quanto maior é a consolação que as benditas almas do Purgatório sentem, proporcionada pela recordação da Paixão de Jesus Cristo, por cujos méritos se salvaram, e do Santíssimo Sacramento do Altar, que tantas graças lhes dispensou e dispensa ainda, por meio de Missas e comunhões por elas aplicadas, tanto mais as atormenta o pensamento de não terem correspondido durante a vida a estes dois grandes benefícios do amor de Jesus Cristo.

Ó meu Senhor Jesus Cristo! Vós morrestes também por mim e tendes vos dado muitas vezes a mim na Sagrada Comunhão; e eu sempre vos tenho correspondido com negra ingratidão; mas agora amo-vos sobre todas as coisas, meu sumo Bem. Arrependo-me de todo o coração de vos ter ofendido e prefiro antes a morte que tornar a ofender-vos. Concedei-me a graça da santa perseverança e tende piedade de mim e das almas que ainda sofrem no Purgatório. E Vós, Maria, Mãe de Deus, socorrei-as com vossas poderosas súplicas. Amém.

5 Pai-Nossos e 5 Ave-Marias pelas almas que mais sofrem.

Propósito. — Aplicar em sufrágio das almas do Purgatório uma indulgência parcial que se pode lucrar por cada vez que se disser devotamente: “Jesus, Maria e José, eu vos dou meu coração e minha alma”.

Sétimo dia

Aumenta também o sofrimento das benditas almas do Purgatório a lembrança dos benefícios particulares que receberam de Deus, como o ter nascido em país católico, ter recebido o Batismo e haver Deus esperado que fizessem penitência de seus pecados para conseguirem o perdão dos mesmos; porque todos estes favores lhes fazem conhecer agora melhor a ingratidão com que corresponderam a Deus.

Ó meu Deus! Quem tem sido, mais ingrato do que eu? Vós tendes me esperado com tanta paciência, tendes-me tantas vezes e com tanto amor perdoado os meus crimes, e eu, depois de tantas promessas, tenho voltado a ofender-vos novamente.

Oh! Não me precipiteis no Inferno. Ó Bondade Infinita! Arrependo-me sinceramente de vos ter ofendido e antes quero morrer, do que tornar a ofender-vos. Concedei-me a graça da santa perseverança e compadecei-vos de mim e das almas que gemem ainda no fogo do Purgatório. E Vós, Maria, Mãe de Deus, socorrei-as com vossas poderosas súplicas. Amém.

5 Pai-Nossos e 5 Ave-Marias pelas almas que mais sofrem.

Propósito. — Dar uma esmola em sufrágio das almas do Purgatório.

Oitavo dia

Outra pena que muito tortura as benditas almas do Purgatório, é o pensamento de que, durante a sua vida, Deus usou para com elas de muitas misericórdias especiais que não dispensou a muitas outras; e a lembrança também de que com os seus pecados O obrigaram muitas vezes a retirar-lhes a sua amizade e a condená-las ao Inferno, ainda que depois lhes tenha concedido o perdão e a graça da salvação.

Senhor, eu sou um desses ingratos que, depois de ter recebido de Vós tantas graças, tenho desprezado o vosso amor e vos obriguei a condenar-me ao Inferno. Mas agora, ó Bondade Infinita, prometo que vos amarei sempre sobre todas as coisas; arrependo-me, de toda a minha alma, de vos ter ofendido e antes quero morrer, que tornar a ofender-vos.

Concedei-me a graça da santa perseverança, e tende piedade de mim e das almas do Purgatório. E Vós, Maria, Mãe de Deus, socorrei-as com vossas poderosas súplicas. Amém.

5 Pai-Nossos e 5 Ave-Marias pelas almas que mais sofrem.

Propósito. — O maior sufrágio que de nós reclama as benditas almas, e o mais importante para nós e agradável a Deus, é fazermos por elas uma boa confissão, não calando pecado algum, e com verdadeira dor e arrependimento.

Nono dia

São grandes todas as penas que sofrem as almas no Purgatório; o fogo, o tédio, a escuridão, a incerteza do tempo em que hão de ver-se livres de todos estes tormentos; mas a maior de todas é o verem-se separadas do seu divino Esposo e privadas dos prazeres da sua companhia.

Ó meu Deus! Como tenho eu podido viver tantos anos longe de Vós e privado de vossa graça? Ó Bondade Infinita, amo-vos sobre todas as coisas; arrependo-me, de todo o meu coração, de vos ter ofendido e antes quero morrer do que tornar a ofender-vos. Concedei-me a graça da santa perseverança, e não permitais que torne a cair outra vez no vosso desagrado.

Peço-vos que tenhais compaixão das santas almas do Purgatório, as alivieis nos seus tormentos e abrevieis o tempo do seu desterro, admitindo-as o mais depressa possível à graça de vos amarem para sempre no Céu. E Vós, Maria, Mãe de Deus, socorrei-as com vossas poderosas súplicas, e rogai também por nós, que estamos ainda em perigo de nos condenarmos. Amém.

5 Pai-Nossos e 5 Ave-Marias pelas almas que mais sofrem.

Propósito. — Formemos uma firme resolução de oferecer todas as nossas obras satisfatórias em sufrágio das necessitadas almas do Purgatório.


Orações finais

Encomendamos agora a Jesus Cristo e à sua Santíssima Mãe todas as almas do Purgatório e, em especial, as dos nossos parentes, benfeitores, amigos e inimigos e, sobretudo, as daqueles por quem temos obrigação de pedir.

Súplicas a Nosso Senhor Jesus Cristo, para que, pelas dores da sua Paixão, Se compadeça das almas do Purgatório:

  • Ó dulcíssimo Jesus, pelo suor de sangue que derramastes no Horto do Getsêmani, tende piedade das almas do Purgatório.
  • Ó dulcíssimo Jesus, pelas dores da Vossa crudelíssima flagelação, tende piedade das almas do Purgatório.
  • Ó dulcíssimo Jesus, pelas dores da Vossa coroação de espinhos, tende piedade das almas do Purgatório.
  • Ó dulcíssimo Jesus, pelas dores que sofrestes levando a Cruz, tende piedade das almas do Purgatório.
  • Ó dulcíssimo Jesus, pela imensa dor que sofrestes ao separar-se a Vossa alma do Vosso sacratíssimo Corpo, tende piedade das almas do Purgatório.

Encomendemo-nos a todas as almas do Purgatório, dizendo:

Ó almas benditas, já que pedimos a Deus por vós, que tão amadas sois do Senhor, e tendes a certeza de nunca mais O perder, pedi-lhe por nós também, que estamos ainda em perigo de condenar-nos e perder a Deus para sempre. Amém.

V. Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno.
R. E a luz perpétua os ilumine.
V. Descansem em paz.
R. Amém.
V. Senhor, ouvi a minha súplica.
R. E eleve-se até Vós o meu clamor.

Oração. — Ó Deus, Criador e Redentor de todos os homens, concedei às almas de vossos servos e servas (e, em especial, à alma de…) a remissão de todos os seus pecados, a fim de que, por nossas humildes súplicas, obtenham da Vossa misericórdia o perdão que sempre desejaram. Vós, que viveis e reinais pelos séculos dos séculos. Amém.

Oração às benditas almas, livres do Purgatório pelos nossos sufrágios (para o último dia da novena). — Ó felizes e bem-aventuradas almas, que tivestes a graça de entrar na pátria celestial! Felicitamo-vos com toda a efusão do nosso coração e em nome de toda a Igreja vos damos mil felicitações. Alegramo-nos convosco; unimos nossa alegria à dos Santos e Bem-aventurados; juntamos nossos louvores aos que vós rendeis ao Criador por tão imenso favor. Sim, almas ditosas, regozijai-vos.

Já não há para vós tristezas nem angústias; acabaram-se já os perigos e as tentações. Agora tendes a paz, a felicidade, a alegria, o gozo, a consolação e o eterno descanso dos bem-aventurados. Que glória para vós se com os nossos sufrágios antecipamos a vossa eterna felicidade! Triunfai, pois, reinai e gozai do Céu, mas não esqueçais de nós, que ainda combatemos sobre a terra; olhai-nos com compaixão, porque estamos rodeados de numerosos e terríveis inimigos.

Já que sois tão poderosas perante Deus, rogai pelos vossos devotos, para que sejamos fiéis e constantes no serviço de Deus e possamos também louvá-Lo e bendizê-Lo um dia convosco eternamente na glória celeste. Amém.

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A coisa mais cruel que Jesus já disse
Doutrina

A coisa mais cruel que Jesus já disse

A coisa mais cruel que Jesus já disse

“Quanto a esses inimigos, trazei-os aqui e matai-os na minha frente”: o final da parábola das minas tem um final tão chocante que, quando o li na Missa alguns anos atrás, uma criança disse em voz alta para a mãe: “Uau, isso é maldade!”

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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O Evangelho da Missa de quarta-feira da última semana (a 33.ª do Tempo Comum) é conhecido como a parábola das minas (cf. Lc 19, 11-27). Ele tem um final tão chocante que, quando o li na Missa alguns anos atrás, uma criança disse em voz alta para a mãe: “Uau, isso é maldade!”

Eu gostaria de olhar para o Evangelho e refletir sobre esse final chocante. A parábola é como a dos talentos, de Mateus, mas com algumas diferenças significativas. Na de Lucas, dez pessoas recebem uma moeda de ouro cada uma. Ouvimos apenas o relato de três deles (como em Mateus): dois que dão lucro e um que não o dá.

Outra diferença é o entrelaçamento de outra parábola (vamos chamá-la de “parábola do rei rejeitado”) dentro da mesma história. Aqui está uma versão abreviada, incluindo o final chocante:

Um homem nobre partiu para um país distante, a fim de ser coroado rei e depois voltar… Seus concidadãos, porém, o odiavam, e enviaram uma embaixada atrás dele, dizendo: “Nós não queremos que esse homem reine sobre nós”... Mas o homem foi coroado rei e, quando voltou..., [disse]: “E quanto a esses inimigos, que não queriam que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui e matai-os na minha frente” (Lc 19, 12.14.15a.27).

Ao analisar um texto como este, devo dizer que fiquei desapontado com o silêncio que a maioria dos comentários guarda a respeito desse final. A frase chocante: “matai-os na minha frente” (“massacrai-os na minha presença”, na tradução da Ave-Maria) passa quase despercebida.

Os Padres da Igreja parecem falar pouco sobre isso. Consegui, no entanto, encontrar duas referências na Catena Aurea, de S. Tomás de Aquino. Sobre este versículo, S. Agostinho ressalta a impiedade dos judeus, que se recusaram a se converter a Jesus. Teófilo escreveu: “A esses, ele os entregará à morte, lançando-os no fogo exterior; mas, neste mundo, eles foram mortos de modo lastimável pelo exército romano”.

Consequentemente, ambos os Padres consideram o versículo ao pé da letra, declarando-o historicamente cumprido na destruição de Jerusalém, em 70 d.C. Flávio Josefo relatou em sua obra que 1,2 milhão de judeus foram mortos naquela guerra terrível.

Cumprido historicamente ou não, o tom triunfal e vingativo de Jesus ainda me intriga. Se este versículo se refere à destruição de 70 d.C., como explicar o tom de Jesus aqui, sendo que apenas alguns versículos mais tarde Ele irá chorar por Jerusalém (cf. Lc 19, 41)?

Quando Jesus se aproximou de Jerusalém e viu a cidade, ele chorou e disse:

Se tu também compreendesses hoje o que te pode trazer a paz! Agora, porém, isso está escondido aos teus olhos! Dias virão em que os inimigos farão trincheiras contra ti e te cercarão de todos os lados. Eles esmagarão a ti e a teus filhos. E não deixarão em ti pedra sobre pedra. Porque tu não reconheceste o tempo em que foste visitada (Lc 19, 41-44).

De fato, uma variedade de emoções pode abater até mesmo Jesus, Deus feito homem [1]; deixe-me, porém, sugerir algumas considerações contextuais e culturais relacionadas com as palavras surpreendentes e “maldosas” de Jesus: “Quanto a esses inimigos, que não queriam que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui e matai-os na minha frente” (Lc 19, 27).

“Jesus purificando o Templo”, de Carl Bloch.

1. Jesus estava falando na tradição profética. — Os profetas frequentemente falavam dessa forma, usando imagens e caracterizações surpreendentes e, muitas vezes, mordazes. Embora muitos hoje tentem “amordaçar” Jesus, o verdadeiro Jesus falou com vivacidade, na tradição profética. Ele costumava usar imagens chocantes e paradoxais. Falava sem rodeios, como faziam os profetas, chamando seus interlocutores hostis de hipócritas, víboras, filhos do diabo, sepulcros caiados, maus, tolos, guias cegos e filhos daqueles que assassinaram os profetas. Ele os advertiu de que seriam condenados ao inferno, a menos que se arrependessem, e os expôs por sua contradição e dureza de coração. É assim que os profetas falavam.

Ao falar dessa maneira “rude”, Jesus seguia firmemente a tradição dos profetas, que falavam de maneira semelhante. Assim, para compreender as palavras duras de Jesus, não podemos ignorar o contexto profético. Suas palavras, que nos parecem iradas e até vingativas, eram esperadas na tradição profética na qual Ele falou; elas foram intencionalmente chocantes. Seu objetivo era provocar uma resposta.

Os profetas usaram hipérboles e palavras chocantes para transmitir e sublinhar seu chamado ao arrependimento. E embora não devamos descartar as palavras de Jesus como “exageradas”, não devemos deixar de vê-las no contexto tradicional do discurso profético.

Portanto, as palavras de Jesus não eram sinal de vingança em seu coração, mas antes uma profecia dirigida àqueles que se recusavam a se arrepender: “Morrereis no vosso pecado” (Jo 8, 21.24). Na verdade, a recusa deles em se reconciliar com Deus e seus vizinhos (neste caso, os romanos) levou a uma guerra terrível na qual foram mortos.

2. A cultura e a linguagem judaicas costumavam ser hiperbólicas. — Mesmo fora da tradição profética, os antigos judeus costumavam usar a linguagem do “tudo ou nada”. Embora eu não seja um estudioso do hebraico, aprendi que a língua hebraica contém muito menos palavras comparativas (por exemplo, “mais”, “menos”, “maior”, “menor” etc.) do que as línguas modernas. Se perguntassem a um judeu antigo se ele gostava mais de chocolate ou sorvete de baunilha, ele responderia: “Gosto de chocolate e odeio baunilha”. Com isso, o que ele realmente quis dizer foi: “Gosto mais de chocolate que de baunilha”. Quando Jesus disse em outro lugar que devemos amá-lo e odiar nossos pais, cônjuge e filhos (cf. Lc 14, 26), Ele não quis dizer que devamos odiá-los em sentido forte. Era uma maneira judaica de dizer que devemos amá-lo mais do que a eles.

Esse pano de fundo explica a antiga tendência judaica de usar hipérboles. Não é que eles não compreendessem as nuances; eles apenas não falavam dessa maneira, permitindo que o contexto explicitasse que “ódio” não significava ódio em sentido literal.

Essa contextualização linguística ajuda a entender como os elementos mais extremistas da linguagem profética tomam forma.

Devemos ter cuidado, entretanto, para não descartar as coisas como se fossem simples hipérboles. Nós, modernos, podemos adorar que nosso idioma permita maiores nuances; mas, às vezes, temos tantas nuances em nossa fala, que acabamos dizendo menos do que o devido. Há momentos em que é preciso dizer sim ou não; em que é preciso estar com Deus ou contra Ele. No final (mesmo que haja o Purgatório), só se pode ir para o Céu ou para o Inferno.

A antiga maneira judaica de falar, um pouco ao modo do “tudo ou nada”, não era primitiva em si. Era uma forma diferente e honesta de insistir que é preciso decidir estar contra Deus ou ao seu lado, é preciso decidir-se pelo que é certo e justo.

Portanto, embora as palavras de Jesus sejam duras, elas tocam num ponto importante: porque ou escolhemos a Deus e vivemos, ou escolhemos o pecado e morremos espiritualmente. “Porque o salário do pecado é a morte, enquanto o dom de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6, 23).

3. Jesus estava falando a pecadores endurecidos. — Os ouvintes aqui também são importantes. Ao se aproximar de Jerusalém, Jesus entrava em território hostil. Os pecadores e incrédulos que Ele encontrou eram muito rígidos e tinham endurecido seus corações contra Ele. As palavras de Jesus, portanto, devem ser entendidas como um forte remédio.

Pode-se imaginar um médico dizer a um paciente teimoso: “Se você não mudar de hábitos, morrerá em breve e eu o verei no seu funeral”. Embora alguns possam considerar isso uma atitude inadequada para com um doente, há pacientes para os quais essa linguagem é apropriada e necessária.

Jesus falou sem rodeios porque estava lidando com pecadores empedernidos. Eles estavam indo para a morte e o Inferno, e Ele disse isso abertamente.

Talvez nós, que vivemos nestes tempos “delicados”, que nos ofendemos tão facilmente e temos tanto medo de ofender, possamos aprender algo com essa abordagem. Há quem precise ouvir de padres, pais e outros: “Se você não mudar de caminho, não vejo como você possa evitar sua condenação ao Inferno”.

4. Um pensamento final (uma teoria, na verdade) sustentado por alguns. — De acordo com uma teoria, Jesus estava se referindo a um incidente histórico real, do qual se serviu para desiludir os ouvintes de suas vãs expectativas por um novo rei. Após a morte de Herodes, o Grande, seu filho Arquelau foi a Roma para solicitar o título de rei. Um grupo de judeus também compareceu perante César Augusto, opondo-se ao pedido de Arquelau. Embora não tenha recebido o título, Arquelau foi nomeado governante da Judeia e da Samaria; mais tarde, ele mandou matar os judeus que se opuseram a ele.

Os reis frequentemente são tiranos. — Como os judeus pensavam que o Messias (quando viesse) seria um rei, alguns esperavam que Jesus estivesse viajando para Jerusalém a fim de assumir o papel de monarca terreno. Segundo essa teoria, como o povo ansiava por um rei, Jesus usou essa parábola assustadora como um lembrete de que os reis terrenos geralmente são tiranos. Jesus, portanto, os estava tentando desiludir da ideia de que Ele ou qualquer outra pessoa deveria ser seu rei terreno.

Embora essa teoria seja aceitável, especialmente quanto aos precedentes históricos, parece improvável que o texto do Evangelho aponte para um evento historicamente tão localizado. Jesus não estava apenas falando às pessoas daquela época e lugar; Ele também está falando conosco. Mesmo que esse trecho se enquadre em um contexto histórico parcial, o significado precisa ser estendido para além de um incidente antigo.

Portanto, Jesus está sendo mau aqui? Não. Ele está sendo direto e dolorosamente claro? Sim. E, francamente, muitos de nós precisamos disso. Nestes tempos difíceis, podemos nos irritar com esse tipo de conversa, mas esse problema é nosso. A honestidade e um diagnóstico claro são muito mais importantes do que nossos “preciosos” sentimentos.

Notas

  1. A rigor, a tristeza vivida por Cristo foi o que alguns teólogos (entre eles, S. Tomás de Aquino) costumam chamar de “pro-paixão”, um movimento inicial do apetite concupiscível que não o extrapola, mas se mantém sob o controle da racionalidade. Quanto à paixão da ira, é certo que Cristo a experimentou de fato, não como apetite desordenado de vingança, mas como desejo de impor ao culpado o castigo devido; trata-se de uma ira justa e louvável, que Cristo mantinha perfeitamente subordinada à reta razão. O “abatimento” de que fala o autor do artigo deve entender-se em referência à intensidade dessas paixões (Cristo chorou de tristeza; por ira, disse palavras duras e justíssimas etc.), mas não em referência ao descontrole e insubordinação à razão que, em nós, elas costumam provocar (Nota da Equipe CNP).

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Não, Carlo Acutis não era um jovem comum!
Santos & Mártires

Não, Carlo Acutis
não era um jovem comum!

Não, Carlo Acutis não era um jovem comum!

Carlo, não obstante os jeans, os tênis e os videogames, não era um jovem comum. Enquanto alguns só amadurecem aos 20 ou 30, com apenas 15 ele já estava pronto: pronto para o sacrifício de sua vida, pronto para o seu holocausto de amor a Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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A beatificação do jovem Carlo Acutis chamou a atenção dos católicos no mundo inteiro. Na internet, há alguns meses, não se falava de outra coisa. O túmulo do beato, em Assis, recebeu a visita de mais de 40 mil pessoas só na primeira quinzena de outubro, mesmo em meio a severas restrições devido à pandemia do novo coronavírus. 

Infelizmente, porém, como acontece com seja qual for a devoção, a seja qual for o santo, poucas pessoas procurarão ir a fundo na história desse menino e fazer-se realmente devotas dele, imitando-lhe a vida e as virtudes.

O que é uma pena, pois a primeira biografia a seu respeito, escrita pelo italiano Nicola Gori, encontra-se facilmente à disposição em língua portuguesa no site Cultor de Livros, e todos os jovens católicos brasileiros fariam um bem enorme a si, a seus amigos, a seus familiares, a seus grupos de oração, a todos que os rodeiam, enfim, se procurassem ler e estudar a vida do agora beato Carlo.

Os santos não se improvisam!

Sim, pois não basta nutrir, com relação a ele, o entusiasmo superficial de quem se identifica com sua camisa polo, com seu tênis de marca, com seu amor por videogames ou com sua aptidão geral para as novas tecnologias. Todos esses aspectos contemporâneos do Carlo são, sem dúvida, um estímulo para nós, mas não devemos parar neles, pois a essência da santidade está em outras coisas, não nestas. A esse respeito, o escritor Peter Kwasniewski teceu algumas considerações muito relevantes, justamente ao escrever sobre os santos mais novos da Igreja:

No que tange aos santos que viveram sob a nova barbárie cultural de nossos tempos, devemos tomar o cuidado de não “canonizar”, junto com a santidade deles, algo incidental a respeito de suas vidas modernas. Isso vai acontecer com bastante frequência de agora em diante. “Ah, o Beato Betinho gostava tanto de música pop! Não é maravilhoso? A música pop agora faz parte da santidade! Não importa o que você escuta ou dança!”, ou: “A Santa Carol amava sair por aí de moletom e com camiseta rosa fluorescente! Acredito que não importa mais como você se veste quando o assunto é ser santo”. É possível imaginar todos os tipos de cenários e falsas inferências como essas.

O modo de contornar esse problema — que, para ser justo, tem paralelos em toda época da Igreja; por exemplo, os santos da Idade Média tinham notavelmente uma má higiene, mas ninguém, ao meu conhecimento, sugere que os devamos imitar nesse aspecto — é lembrar a relação, e a distinção, entre fé e razão, natureza e graça. Um homem notável por sua santidade pode não o ser nos argumentos que apresenta de teologia; uma mulher de santidade indiscutível pode não ter bom gosto em matéria de arte. Como discípulos do Doutor Comum da Igreja, Santo Tomás de Aquino, precisamos ser capazes de fazer distinções e imitar o que merece ser imitado, desculpando, ao mesmo tempo, o que pode ser desculpado, ou ignorando o que é melhor que seja ignorado.

Considere o seguinte: se fosse necessário escolher, melhor seria dedicar-se à oração e ouvir música medíocre, ou vestir-se de modo medíocre, do que ser um egoísta mentiroso com gosto impecável em abotoaduras e gravatas-borboleta; mas o melhor é ser, ao mesmo tempo, santo e bem educado, piedoso e inteligente, porque isso representa uma perfeição mais completa da humanidade tal como Deus a pensou. Graças sejam dadas a Ele por podermos alcançar a bem-aventurança apesar de certos defeitos nossos, mas nem por isso eles se tornam admiráveis ou dignos de imitação.

Trocando em miúdos: se o menino Carlo Acutis vier a ser canonizado, não será porque ele “manjava” de informática ou de jogos virtuais. Isso é acidental à santidade. (A propósito, se o quiséssemos imitar inclusive nesses aspectos, valeria a pena considerar também que, como penitência, Carlo não despendia em seu PlayStation 2 mais do que uma hora por semana — um tempo certamente bem inferior àquele com o qual estão acostumados nossos jovens. A santidade não se resume a isso, é certo, mas o exemplo é válido para reforçar a ideia: se vamos imitar o beato, que seja no que ele fazia de beatificante, e não só no que nos parece mais agradável ou atrativo!)

A pureza de Carlo

Comecemos a desenhar um retrato da santidade de Carlo a partir da pureza, que ele viveu com grande fidelidade, mesmo em meio aos inúmeros perigos que nossa época apresenta para a vivência dessa virtude. A mãe do menino e um rapaz que trabalhava em sua casa testemunham: ele “tapava os olhos com as mãos se passasse algum programa ou propaganda escandalosos na televisão” [1]. Os registros do computador que ele utilizava atestam a mesma delicadeza de consciência: nenhum vestígio de acesso a algum site da internet que fosse menos decente. 

No relacionamento com as meninas, seu comportamento era o apropriado para um rapaz de sua idade (lembrando que Carlo morreu com apenas 15 anos): nada de “namoricos” indevidos, nem de interesses precoces. O menino chegaria a declarar, com a maturidade própria de quem compreendeu o que significa amar a Deus de modo esponsal: “Nossa Senhora é a única mulher da minha vida!” [2].

Carlo Acutis, quando criança.

Esses fatos não estão muito além do que se deve esperar de um discípulo de Cristo, sim, mas precisam ser recordados a uma época como a nossa, que tanto avançou na degradação da sexualidade e que corrompeu a sua juventude praticamente sem deixar sobreviventes. O acesso à pornografia, por exemplo, nunca foi tão fácil como agora, e as crianças e adolescentes estão tendo contato com esse tipo de conteúdo cada vez mais cedo, com consequências seriíssimas para sua saúde mental, física e espiritual. 

Se quisermos ser verdadeiros devotos do beato Carlo Acutis, precisamos “correr atrás do prejuízo”, se já fomos manchados de alguma forma nessa matéria, procurando imitá-lo na penitência, já que perdemos a nossa primeira inocência [3]. Mesmo os que foram preservados, no entanto, não devem dormir jamais: quando o assunto são os pecados contra a castidade, confirma-se com ainda mais força que o nosso adversário “ronda como um leão a rugir, procurando a quem devorar” (1Pd 5, 8).

Os que já servem a Deus, enfim, seja na vocação do Matrimônio, seja no celibato ou na vida consagrada, podem aprender com Carlo a experiência do coração indiviso, que ele viveu como uma graça extraordinária desde a mais tenra idade. Será que nós temos real dimensão do que é um menino proclamar, de coração, que a Santíssima Virgem é a “única mulher” da sua vida? 

Deixemos que essa declaração íntima de amor, de uma criança a sua Mãe celeste, nos impressione e examine a consciência, elevando nossos corações ao alto, purificando nossa relação com Deus, ordenando, enfim, nossos amores nesta terra. Afinal de contas, a que outra pessoa nos uniremos por toda a eternidade, sem morte alguma que nos venha a separar, senão a Deus, Nosso Senhor?

Carlo já vivia aqui, nesta vida, o que ele agora experimenta no Céu.

Carlo e a eternidade

E como pensava no Céu o pequeno Carlo, como o queria, como ansiava por ele! Seu contato com tudo quanto era livro de espiritualidade, vida dos santos, revelações privadas, não tinha como motor uma simples curiosidade malsã e desordenada; não, era um desejo da vida eterna que o impulsionava

  • Quando lia sobre os milagres eucarísticos, era para aumentar seu fervor na participação da Santa Missa — à qual ele assistia todos os dias. 
  • Quando lia relatos extraordinários sobre o Purgatório, era para rezar mais pelas almas, para buscar mais intensamente o Céu e para se estimular no combate aos próprios vícios — dos quais, ele mesmo dizia, a gula e a preguiça eram os principais [4]. 
  • Quando lia sobre as mais diversas devoções que o tesouro de dois mil anos da Igreja lhe oferecia — fosse a devoção ao Sagrado Coração, à Divina Misericórdia, à Virgem de Fátima ou à de Lourdes —, era para crescer cada vez mais em amor a Jesus e Maria. 

Justamente porque tinha os olhos voltados para o alto, era visível em Carlo uma conformidade profunda com a vontade de Deus. Um colega de escola que passou anos ao seu lado conta: “Um aspecto dele que me tocou muito era que, além de uma fé que vi em poucos, tinha um senso de satisfação e de felicidade por cada momento da vida, fosse feliz ou triste: sempre encontrei em seu rosto um sorriso sem limites” [5]. 

Numa sociedade que se preocupa continuamente com o número crescente de suicídios entre seus jovens, não deixa de ser significativa mais essa característica do pequeno Carlo Acutis. Seu segredo, porém, não pode ser buscado neste mundo. Esse “senso de satisfação” que brilhava em seu rosto é um dom que recebem todos os que amam a Deus: para estes, de fato, tudo concorre para o bem (cf. Rm 8, 28); os santos sempre estão felizes, porque querem o que Deus quer. Quando são contrariados, homens da estirpe de Carlo Acutis — movidos, é claro, pela graça divina — não lamentam, nem reclamam: maduros que são, o que eles fazem é oferecer, doar-se.

Foi o que ele fez nos últimos dias de sua vida. Como viveu, Carlo morreu. Preparado por Deus ao longo de sua breve vida, a notícia da leucemia não foi um “baque” para ele, nem seus sofrimentos finais foram capazes de perturbá-lo e tirar-lhe a paz da alma. De fato, antes de ser internado em definitivo no hospital, com prontidão de espírito aquele jovem declarou (percebam como ele não perdia de vista a eternidade, como ele a desejava!...): “Ofereço todo o sofrimento que deverei padecer no Senhor pelo Papa e pela Igreja, para não ir ao purgatório e entrar direto no céu” [6].

“Ofereço”, ele dizia. Eis aí uma palavra forte, que as pessoas não costumam esperar da boca de um adolescente. 

Mas Carlo, não obstante os jeans, os tênis e os videogames, não era um jovem comum. Os que conviviam com ele já diziam: “Parecia ser mais velho do que era” [7]. Enquanto uns só amadurecem aos 20 ou 30, com apenas 15 anos Carlo já estava pronto: pronto para o sacrifício de sua vida, pronto para o seu holocausto de amor a Deus. No hospital, se lhe perguntavam como estava, ele dizia: “Como sempre, bem!”. Nas palavras de uma enfermeira, “Carlo era uma daquelas pessoas que, quando alguém lhe oferece a mão, segura-a com amor e transmite serenidade, uma serenidade maior do que a que eu deveria lhe oferecer” [8].

Foi assim, aceitando plenamente os desígnios de Deus para si e fazendo-se tudo para os outros, que morreu, no dia 12 de outubro de 2006, o jovem Carlo Acutis.

Aos olhos do mundo, seu falecimento aos 15 anos pareceu, desde então, uma perda irreparável. Muitos dos que o conheceram não podiam se conformar com o fato de aquele menino, precoce em tudo, ser precoce também para morrer. Uma religiosa de clausura, porém, que conheceu Carlo, e que o viu receber precocemente a primeira Eucaristia o sacramento da Crisma, encontrou na Sagrada Escritura [9] o motivo para Deus levar tão cedo deste mundo aquele jovem rapaz: “Sua alma era agradável ao Senhor, e é por isso que ele o retirou depressa do meio da perversidade” (Sb 4, 13-14).

Notas

  1. Nicola Gori. Eucaristia, minha estrada para o Céu. São Paulo: Cultor de Livros, 2020, p. 42.
  2. Ibid., p. 81.
  3. Esse conhecido jogo de palavras encontra-se na oração que a liturgia da Igreja propõe para a memória de São Luís Gonzaga, padroeiro da juventude.
  4. Nicola Gori, op. cit., p. 102.
  5. Ibid., 44.
  6. Ibid., p. 131.
  7. Ibid., p. 35.
  8. Ibid., pp. 133s.
  9. Ibid., p. 99.

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Se Maria é imaculada, por que precisou se purificar?
Virgem Maria

Se Maria é imaculada,
por que precisou se purificar?

Se Maria é imaculada, por que precisou se purificar?

Se Nossa Senhora é imaculada, pura de toda mancha de pecado, por que então ela precisou ser purificada no Templo, segundo a Lei de Moisés? Que sentido teve aquela purificação?

Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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Recebemos no suporte do site a seguinte pergunta: “Se Nossa Senhora é imaculada, por que ela precisou ser purificada? Qual o sentido desta purificação?”

Resposta: A resposta é simples e direta. O preceito mosaico de purificação das puérperas (isto é, das mulheres que acabaram de dar à luz) não tinha por finalidade purificá-las nem do pecado original (do qual, como sabemos, Maria foi preservada em sua concepção) nem de qualquer pecado atual (que ela, igualmente, jamais cometeu), mas de uma impureza legal, equiparada por Moisés à do período de menstruação (cf. Lv 12, 2), durante o qual era proibido aos judeus ter relações sexuais. Quanto ao período pós-parto, o que a Lei mandava era o seguinte:

Quando uma mulher der à luz um menino, será impura durante sete dias, como nos dias de sua mens­truação. No oitavo dia, o menino será circuncidado. Ela ficará ainda trinta e três dias no sangue de sua purificação. Não tocará coisa alguma santa, e não irá ao santuário até que se acabem os dias de sua purificação. Se ela der à luz uma menina, será impura durante duas semanas, como nos dias de sua menstruação, e ficará sessenta e seis dias no sangue de sua purificação (Lv 12, 2-5).

A Virgem Maria, por conseguinte, observou a lei de purificação não para ser purificada de algum pecado, mas porque a Lei judaica considerava impuras (para certas atividades, como tocar objetos consagrados, ir ao Templo etc.) as mulheres durante 40 (no caso de nascer um menino) ou 80 dias (no caso de nascer uma menina) depois do parto. Por isso falamos de impureza legal, e não propriamente moral, já que se trata de uma condição em que a mulher se encontrava em virtude de uma prescrição da Lei. Também se consideravam legalmente impuros, por exemplo, os que passassem sem querer em cima de um sepulcro (cf. Nm 19, 16).

Há que notar, não obstante, que Maria Santíssima observou a Lei por humildade e obediência aos preceitos da justiça geral, embora não estivesse obrigado a alguns deles, como no caso do mandamento de purificação. Por quê? Porque ela, sendo Mãe de Deus puríssima e imaculada, concebeu milagrosamente por obra do Espírito Santo, razão por que também o seu parto foi extraordinário, imune de toda impureza (legal), corrupção (corporal) e sofrimento (físico) [1], como nos recorda um autor espiritual:

No quadragésimo dia após o nascimento de Cristo, por uma dupla causa subiu Maria, Mãe de Deus, ao Templo de Jerusalém, a fim de satisfazer dois mandamentos da Lei: dos quais o primeiro se refere ao oferecimento dos primogênitos (cf. Ex 13) e o outro, ao rito de purgação da puérpera (cf. Lv 12); e, de fato, a nenhuma destas leis estava obrigada a Virgem Mãe, que por elas era claramente eximida. Porque, com efeito, deviam oferecer-se os primogênitos que tivessem aberto o claustro materno; ora, Cristo, tendo saído do útero da Mãe, conservou-lhe intacto o claustro da virgindade. Além disso, deviam purgar-se as puérperas que tivessem concebido por sêmen; mas a Virgem castíssima concebera do Espírito Santo sem ajuda de varão. Quis, no entanto, cumprir ambos os mandamentos, submetendo-se à lei comum das mulheres, para que a humílima Virgem, sem dar sinais de nada singular, brilhasse para todos como exemplo de humildade [2].

Afinal, se cremos que ninguém menos que o Filho de Deus encarnado, a própria Santidade, se submeteu ao rito da circuncisão [3], apresentando-se publicamente como pecador — necessitado, portanto, da purificação do pecado, da justificação da fé (cf. Rm 4, 11) e da mortificação da carne [4] —, para nos dar um exemplo extraordinário de humildade e sujeição, que dificuldade teríamos em crer que sua Mãe, preservada por Ele da mancha do pecado, também se teria submetido livremente aos ritos da religião judaica, em sinal de humildade e santa obediência

E assim como Jesus, ao ser circuncidado, deu início aos olhos de Deus a seu ofício de Redentor, obrigando-se ao cumprimento de toda a Lei e derramando as primícias de seu Sangue, como se ainda Menino quisesse nos dar um penhor de tudo o que por nós verteria na cruz, também Maria, ao ser purificada, deu início aos olhos de Deus a seu ofício de Corredentora, recebendo por ocasião de um tão sublime exemplo a notícia e como que uma antecipação das dores que, dali a 33 anos, lhe afogariam o Imaculado Coração: “Uma espada transpas­sa­rá a tua alma” (Lc 2, 35).

Notas

  1. Cf. Pe. Gabriel M.ª Roschini, OSM, Mariologia. 2.ª ed., Roma: Angelus Belardetti, 1948, vol. 2, p. 259s.
  2. Pe. Frans de Costere, SJ, em: A. J. Haehnlein (ed.), Mariologia. Wirceburgi, sumptibus Stahelianis, 1859, p. 90s.
  3. O Angélico identifica sete razões de conveniência pelas quais Cristo, embora acima da Lei, devia ser circuncidado segundo a Lei (cf. STh III 37, 1c.): 1) para mostrar a verdade de sua carne humana; 2) para aprovar a circuncisão, instituída outrora por Deus; 3) para certificar que pertencia à descendência de Abraão, que recebera o mandamento da circuncisão em sinal da fé que tivera no Messias; 4) para não dar aos judeus motivo de o rejeitarem como a um incircunciso; 5) para nos dar um exemplo de obediência; 6) porque, tendo assumido uma carne de pecado (isto é, passível), não devia rejeitar o remédio pelo qual era costume purificar a carne do pecado; 7) para que, suportando em si mesmo o peso da Lei, livrasse a outros do jugo dela, como diz S. Paulo: “Deus enviou seu Filho, […] submetido a uma Lei, a fim de remir os que estavam sob a Lei” (Gl 4, 4s).
  4. Pe. H. Simón, CSSR, Prælectiones Biblicæ. Novum Testamentum. 4.ª ed., iterum recognita a J. Prado. Marietti, 1930, vol. 1, p. 165s, n. 111: “A circuncisão externa do corpo”, para os judeus, “era símbolo e sinal da mortificação interna da concupiscência, além de um sacramento da Antiga Lei por força do qual, e em atenção à fé no futuro Messias, os membros do povo de Deus eram purificados do pecado original”.

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Purgatório: um grande ato de misericórdia
Doutrina

Purgatório:
um grande ato de misericórdia

Purgatório: um grande ato de misericórdia

Que imensa graça é o Purgatório! A mancha de pecado numa alma — mesmo em estado de graça — impede-a de estar na presença de Deus; mas Ele nos dá o Purgatório como remédio. Não nos esqueçamos dessa grande misericórdia.

Eric SammonsTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Celebramos recentemente o Dia de Finados, ao longo do qual rezamos para que todos os fiéis defuntos sejam libertos do Purgatório e levados à presença de Deus no Céu. Porém, nas últimas décadas, a crença no Purgatório tem passado por momentos difíceis. É claro que os protestantes rejeitam a doutrina, mas também muitos católicos (a maioria?) manifestam uma descrença prática. Afinal de contas, na maior parte dos funerais católicos o defunto é canonizado, pois se pressupõe que ele já está feliz no Céu, “olhando-nos lá de cima”, apesar do provável período que a maioria das pessoas mortas em estado de graça terão de passar no Purgatório.

Por que os católicos esqueceram o Purgatório? Porque minimizamos duas coisas: a gravidade de nossos pecados e a santidade de Deus. 

Um único pecado venial não perdoado ou qualquer pecado não reparado impede que a alma compareça à presença do Deus santíssimo. Quando Isaías viu a Deus em seu trono no Céu, exclamou imediatamente: “Ai de mim — gritava eu. Estou perdido porque sou um homem de lábios impuros, e habito com um povo (também) de lábios impuros e, entretanto, meus olhos viram o rei, o Senhor dos exércitos!” (Is 6, 5). Isaías compreendeu como que por instinto que um pecador não é digno de estar na presença de Deus. Por quê? Porque, como ouviu os anjos cantar: “Santo, santo, santo é o Senhor Deus dos exércitos!” (Is 6, 3), Deus é santo, o que quer dizer que Ele está separado da humanidade pecadora.

Então, que imensa graça é o Purgatório! A mancha de pecado numa alma — mesmo em estado de graça — impede-a de estar na presença de Deus; mas Ele nos dá o Purgatório como remédio. 

Como é o Purgatório? É aí que nossa santa, Catarina de Gênova, entra na história. As declarações oficiais da Igreja sobre o Purgatório são muito pontuais. Em suma, a Igreja diz duas coisas sobre o Purgatório:  

  • “As almas dos justos que no instante da morte ainda estão marcadas por pecados veniais ou por penas temporais devidas pelo pecado vão para o Purgatório” [1];
  • “Os fiéis vivos podem ajudar as almas do Purgatório por meio de suas intercessões (sufrágios)” [2].

Portanto, o Purgatório existe e nós podemos ajudar com nossas orações as almas que lá estão. Segundo a Igreja, isso é tudo o que sabemos com certeza. Duas coisas ainda estão abertas à especulação: o que é o Purgatório e quanto tempo as pessoas passarão nele. 

No entanto, Santa Catarina de Gênova nos dá uma ideia, pois ela teve visões do Purgatório para que pudéssemos saber mais a respeito desse misterioso estado em que entram tantas almas.

De acordo com Santa Catarina, o Purgatório é um lugar onde há mais alegria e mais sofrimento do que tudo o que conhecemos neste mundo. Essa descrição é incompreensível para nós; nesta terra, é difícil conceber algo que nos cause alegria e sofrimento — talvez o mais próximo disso seja o que a mãe sente durante o nascimento de um filho. Normalmente, pensamos na alegria como a ausência de sofrimento, mas no Purgatório os dois estados estão de algum modo integrados.

Essa combinação de alegria e sofrimento revela a essência do Purgatório nas visões de Santa Catarina de Gênova. As santas almas desejam ardentemente ver a Deus. Estão dispostas a suportar qualquer sofrimento necessário para isso. São Paulo nos diz em sua Primeira Carta aos Coríntios por que elas devem sofrer:

Agora, se alguém edifica sobre este fundamento, com ouro, ou com prata, ou com pedras preciosas, com madeira, ou com feno, ou com palha,  a obra de cada um aparecerá. O dia (do julgamento) irá demonstrá-lo. Será descoberto pelo fogo; o fogo provará o que vale o trabalho de cada um. Se a construção resistir, o cons­trutor receberá a recompensa. Se pegar fogo, arcará com os danos. Ele será salvo, porém passando de alguma maneira através do fogo (1Cor 3, 12-15).

As dores do Purgatório são comparadas ao fogo. Não é, porém, o fogo do inferno [3]; é o “fogo devorador” do próprio Deus (Hb 12, 29). De acordo com Santa Catarina, o fogo devorador refina o interior da alma no Purgatório, queimando as impurezas que se acumularam ao longo de uma vida de serviço irresoluto a Deus. Mas esse mesmo processo traz imensa alegria, pois a alma sabe que está se aproximando da completa união com Deus. Como diz Santa Catarina: “Novamente a alma percebe a tristeza de ser impedida de ver a luz divina; ao ser atraída por aquele olhar unificador, a alma instintivamente também deseja com ardor ficar livre” (Tratado sobre o Purgatório, c. 9).

Como a Sagrada Escritura, a razão e Santa Catarina deixam claro, o Purgatório é um grande ato de misericórdia. É o processo pelo qual nos tornamos aquilo que fomos criados para ser: imagens de Deus sem qualquer apego ou impureza oriunda do pecado. Não nos esqueçamos dessa imensa misericórdia, rezando pelas almas do Purgatório e começando a tarefa de nos desapegarmos do pecado nesta vida.

Notas

  1. Ludwig Ott, Manual de teología dogmática. 7. ed. Barcelona: Herder, 1969, p. 707. 
  2. Ludwig Ott, op. cit., p. 481.
  3. Não é esta, porém, a opinião de S. Tomás, a qual, a bem da verdade, ele reputa apenas provável e mais conforme à doutrina dos santos e a revelações feitas a muitos. Para o Angélico, o purgatório seria um lugar inferior, de algum modo unido ao inferno, de maneira que o mesmo fogo que pune os réprobos purgaria os justos (cf. Quaestio de purgatorio, a. 2 c.) (Nota da Equipe CNP).

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