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A urgente atualidade de uma carta do futuro Papa João Paulo II
Doutrina

A urgente atualidade de
uma carta do futuro Papa João Paulo II

A urgente atualidade de uma carta do futuro Papa João Paulo II

“É impossível pensar que a moralidade conjugal ensinada na Humanae Vitae possa ser revogada, isto é, considerada falível”: eis o que escrevia ao Papa Paulo VI, em 1969, o Cardeal Karol Wojtyła.

David G. Bonagura Jr.Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Setembro de 2019
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No cinquentenário da encíclica Humanae Vitae, ano passado, veio à luz pela primeira vez uma carta particular do então Cardeal Karol Wojtyła ao Papa Paulo VI, na qual o arcebispo polonês agradece ao pontífice pela encíclica. Na carta, Wojtyła faz sugestões concretas para uma instrução pastoral “absolutamente necessária” do Vaticano com o fim de superar as “dúvidas existentes” quanto à proibição do controle de natalidade, à natureza da vida conjugal e à autoridade dos ensinamentos papais.

Além de sua fascinante e franca explicação das principais controvérsias em torno da encíclica, esta carta — na verdade, um ensaio em tamanho e estilo — nos permite vislumbrar o que, mais tarde, seriam os ensinamentos do magistério do Papa São João Paulo II.

Ao escrever em 1969, poucos meses após a publicação da Humanae Vitae, o Cardeal Wojtyła viu claramente que as críticas ao conteúdo e ao estilo da encíclica feriam profundamente a missão da Igreja: “Desafiar a doutrina moral da Igreja em um campo tão importante como o tratado na encíclica pode ser o pontapé inicial de um processo, muito mais amplo, de pôr em xeque outros elementos da fé e da vida cristã”. 

Hoje, décadas mais tarde, podemos constatar a verdade inegável de tal afirmação.

Primeiro, com relação à fé e à vida cristã em geral, Wojtyła ressaltou o poder da Igreja de ensinar com autoridade sobre questões de moral. Isso porque, logo após a publicação de Humanae Vitae, teólogos dissidentes foram a programas de rádio e às páginas dos jornais a fim de minar a autoridade da Igreja para ensinar de forma vinculante em questões morais.

Vinte e cinco anos depois, já eleito Papa, João Paulo II aprovou a publicação da instrução Donum Veritatis, sobre a vocação eclesial do teólogo, que buscava reorientar a teologia como vocação a serviço da Igreja, e não de ideologias mundanas.

De forma mais específica, Wojtyła mostrou-se resoluto, em sua carta de 1969, ao apresentar a Humanae Vitae como expressão da autoridade da Igreja em sua missão de ensinar: “A encíclica Humanae Vitae não é um documento solene que expressa uma doutrina ex cathedra; portanto, não contém nenhuma definição dogmática. No entanto, por ser um documento do ensino comum do Papa, tem caráter infalível e irrevogável. É impossível pensar que a moralidade conjugal ensinada na Humanae Vitae possa ser revogada, isto é, considerada falível”.

Essa ênfase na infalibilidade do Magistério ordinário — os ensinamentos constantes e universais do Papa e dos bispos unidos a ele — tornar-se-ia a abordagem preferida do Papa João Paulo II para tratar as questões doutrinárias mais sensíveis do seu pontificado.

Em vez de emitir definições solenes, João Paulo II apelou ao Magistério ordinário da Igreja para ensinar de forma infalível, por exemplo, sobre a imoralidade do aborto, na Evangelium Vitae (1995), e acerca da restrição do sacerdócio somente aos homens, na Ordinatio Sacerdotalis (1994). Usando este meio para ensinar com autoridade, João Paulo II mostrou que esses não eram apenas ensinamentos seus, mas da Igreja universal — mantidos sempre, em todos os lugares e por todos os fiéis.

Uma segunda grande preocupação enfatizada na carta de Wojtyła é “a consciência e sua relação com a lei moral”, uma vez que, após a publicação da Humanae Vitae, teólogos e pastores passaram a ensinar a muitos casais que era lícito usar o controle artificial da natalidade se suas consciências o considerassem aceitável.

Wojtyła condenou fortemente esse abuso da consciência, que não é “uma norma superior à lei moral”. E acrescentou: “Atribuir à consciência uma autonomia que lhe daria não apenas um papel normativo, mas também legislativo, seria contrário aos fundamentos tanto da lei natural quanto da lei divina. Essa autonomia seria equivalente a aceitar o subjetivismo e o relativismo nas questões morais”.

Cardeal Karol Wojtyla.

Essa compreensão distorcida da consciência tornou-se, desde então, moeda corrente e comum. Como Papa, o próprio João Paulo II assumiu a responsabilidade de levar a cabo o que havia sugerido a Paulo VI, e publicou, em 1993, sua encíclica sobre teologia moral, a Veritatis Splendor, que, sem dúvida, é um dos escritos mais importantes do seu pontificado. 

Nela João Paulo II mantém sua crítica aos que atribuem à consciência “a prerrogativa de determinar, de forma independente, os critérios do bem e do mal, para agir em função deles”. No cerne da encíclica, expôs a reta compreensão da consciência, que deve estar fundamentada na liberdade, na verdade e na lei natural (assuntos que ele já mencionara, mesmo que brevemente, na carta de 1969).

Em terceiro lugar, pode-se dizer que a carta de Wojtyła exortou Paulo VI a “expor a doutrina do matrimônio [...] com o fim de apresentar uma perspectiva correta e clara do tema do amor conjugal”. De modo particular, ele aludia à necessidade de “insistir no fato de que o casamento é uma vocação”.

Nesse contexto, o então cardeal descreveu o papel da fecundidade, da continência e do sofrimento no casamento. Ele bem sabia que assuntos tão essenciais não poderiam ser omitidos ou vistos como inadequados: “Portanto, cabe à mestra da moral e do ensino, que é a Igreja, compreender e destacar os limites que, na esfera dos valores sexuais, fazem a pessoa passar do ato dignamente vivido, para a atitude de usar e abusar do outro”.

Como Papa, João Paulo II não perdeu tempo em assumir essa postura: um ano após ser eleito, ele deu início a uma série de catequeses, hoje conhecidas como “Teologia do Corpo”, nas quais articulava o significado da sexualidade humana à luz da nossa dignidade como pessoas humanas, criadas à imagem de Deus. Além disso, em 1981, apresentou, na Familiaris Consortio, sua visão de como deve ser vivida a vocação ao matrimônio.

A carta de Wojtyła, por si só, é excelente e permanece muito relevante para nós, mesmo já passados cinquenta anos. Nela, enfatiza-se a necessidade urgente de agirmos em relação a essas questões — necessidade que, nos dias de hoje, permanece urgente. Como Papa, Wojtyła não chegou a abordar de uma só vez todas essas questões; mas, no decorrer do seu pontificado, contemplou-as, com profundidade e clareza, em vários ensinamentos.

A carta, enfim, deixa claro um fato crucial: os principais ensinamentos do pontificado de São João Paulo II foram forjados em resposta à crise da verdade, que encontrou sua expressão mais aguda na Revolução Sexual.

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A liturgia não é um grupo de estudos bíblicos
Liturgia

A liturgia não é
um grupo de estudos bíblicos

A liturgia não é um grupo de estudos bíblicos

“A verdadeira palavra da Missa não é a leitura das epístolas e do Evangelho. Estes são uma preparação e uma orientação para o mistério central. A verdadeira palavra da Missa é dita no momento da consagração.”

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Setembro de 2019
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Em algumas paróquias que celebram a Missa no rito de Paulo VI (às vezes chamado de rito ordinário ou Novus Ordo), a parte chamada de “Liturgia da Palavra”, composta de duas leituras, um salmo, um canto de aleluia, um evangelho, uma homilia que expõe as leituras, o Credo e a Oração dos Fiéis, se estende por um período consideravelmente mais longo do que a parte chamada “Liturgia Eucarística”, principalmente quando se escolhe a menor oração eucarística, a segunda.

Em geral, podemos dizer que esse estado de coisas é muito lamentável. Do ponto de vista prático, pode parecer que se esteja dizendo — de forma subliminar ou, talvez, até explicitamente — que a Missa é, fundamentalmente, para ouvir as Escrituras e sua explicação, e que a Santa Eucaristia consiste em um atrativo a mais, como um enfeite ou um “ponto de exclamação” para realçar a ação principal.

Quando isso acontece, presenciamos nada menos do que uma inversão total da ordem e proporção próprias das duas partes básicas da Missa. Não seria exagero chamar essa inversão de “protestantização”. Para os protestantes, a “Palavra de Deus” é um texto escrito em um livro sobre o qual eles se debruçam em suas “devoções”, trazem para a igreja, ouvem a leitura, ouvem pregações e levam para casa novamente, como se esse livro fosse o lugar exclusivo da Aliança de Deus. Mas isso não é o que Jesus realmente nos disse: “Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado por vós” (Lc 22, 20). Portanto, a Nova Aliança é algo que existe na forma de um banquete de sacrifício. É quando participamos do seu Corpo e Sangue que nos encontramos mais perfeitamente com o próprio Cristo, da maneira que Ele se nos deixou.

A Palavra de Deus não é, primária e principalmente, um livro — nem mesmo os Evangelhos. Ela é o próprio Jesus Cristo: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus [...]. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1, 1.14). A Liturgia da Palavra (escrita) existe em função da Liturgia Eucarística, na qual a Palavra Encarnada, “para nós homens e para nossa salvação”, entrega-se a nós, fazendo-nos participantes da sua divindade. A proclamação das Escrituras na Missa tem o propósito de preparar os adoradores para a comunhão com a Palavra encarnada, que é a fonte da palavra escrita, aquele de quem as Escrituras dão testemunho.

A liturgia — na Santa Missa, no Ofício Divino ou em qualquer outro rito sacramental — não consiste em um grupo de estudos bíblicos, não é uma oportunidade para folhear o Livro Sagrado e dar-lhe alguma atenção mais digna. A Escritura é proclamada para pregar “Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado” (1Cor 2, 2). É por isso que, em todos os santuários católicos adequadamente construídos, os olhos são atraídos para um crucifixo proeminente; e se a liturgia estiver bem ordenada, todos estaremos na mesma direção, voltados para o altar, o crucifixo, a abside e o Oriente, pois todos esses elementos simbolizam Cristo, que é o altar, a vítima, o Rei celestial, o norte de nossas vidas, aquele que foi, é e há de vir.

O objetivo de ler e pregar as Escrituras é acolher a Palavra, não a palavra escrita no papel, nem mesmo a palavra interior escrita no coração, mas, sim, Nosso Senhor Jesus Cristo, crucificado e ressuscitado, que é “o poder e a sabedoria de Deus” (cf. 1Cor 1, 24). Essa realidade, expressou-a muito bem Louis Evely, ao afirmar:

A palavra de Deus não só revela, mas também age, ilumina e transforma. Ela é sacramentalmente eficaz. Toda semana nos reunimos solenemente para participar da eficácia de uma palavra singular de Deus. A verdadeira palavra da Missa não é a leitura das epístolas e do Evangelho. Estes são uma preparação e uma orientação para o mistério central. A verdadeira palavra da Missa é dita no momento da consagração.

“Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado”: quando o sacrifício, único e superabundante, do Calvário se faz presente em nosso meio pela consagração do pão e do vinho sobre o altar, nesse momento a Palavra de Deus — concebida pela Virgem Maria, pelo poder do Espírito Santo — é “proclamada” em sua realidade mais completa: o Verbo feito carne, o pão dos anjos, crucificado pelos nossos pecados, e ressuscitado para a nossa salvação.

Na Missa, se a “Liturgia da Palavra” não estiver em plena continuidade com a “Liturgia Eucarística”; se as leituras e a homilia não estiverem implícita ou explicitamente ordenadas ao mistério transcendente da fé, renovado sobre o altar e compartilhado pelos fiéis em sua comunhão mística com o Senhor, é certo que, em algum nível, a natureza da liturgia e suas partes não foi compreendida ou, pior ainda, foi propositalmente distorcida por causa de uma teologia errônea.

Da perspectiva correta, a Liturgia da Palavra — ou como era chamada, e ainda deveria ser, a “Missa dos Catecúmenos”, daqueles que devem ser instruídos no caminho da vida cristã — é uma antessala, uma promessa, uma preparação, um cultivo do terreno, um chamado para estar desperto e atento à voz de Jesus Cristo, a fim de nos prepararmos para recebê-lo em seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade. “Eis o Cordeiro de Deus”: eis aquele que a Escritura proclama nos profetas e nos salmos, nas epístolas e nos evangelhos. É por isso que a segunda parte da Liturgia era tradicionalmente chamada de “Missa dos Fiéis”, ou seja, daqueles que já creem nas palavras da Verdade, que são batizados em Cristo e estão prontos, agora, para receber o mysterium fidei, o mistério da fé: o próprio Cristo, em Pessoa, em seu Corpo glorioso.

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Por que “padre e freira não casa” mesmo?
Doutrina

Por que “padre e freira não casa” mesmo?

Por que “padre e freira não casa” mesmo?

É tempo de recordar uma verdade de fé “inconveniente”, mal compreendida, mas nunca tão necessária como hoje: a vida consagrada é a “melhor parte”. E inclusive os que se casaram têm muito a aprender com isso.

Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Setembro de 2019
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Alguém poderia objetar, a respeito de um artigo recente sobre as “almas gêmeas”, que nem todos têm uma. “Sim, porque, se isso fosse para todo o mundo, o que seria dos celibatários e das pessoas de vida consagrada?”

Bom, não é que essas pessoas não tenham alma gêmea. Na verdade, elas já encontraram “outra alma”: a de Cristo, unidas com a qual elas de mais nada necessitam. É por isso que “os Santos Padres consideram esse vínculo de perfeita castidade como uma espécie de matrimônio espiritual da alma com Cristo”, com alguns chegando a “comparar com o adultério a violação dessa promessa de fidelidade” [1].

Mais correto, portanto, seria caminhar não na negação, como normalmente se faz (“padre não casa”, “freira não casa”), mas dizer, com o Evangelho, que é Jesus o esposo desses homens e mulheres (cf. Mt 9, 15), os quais “se fizeram eunucos por amor do Reino dos céus” (Mt 19, 12). E, como já dissemos em nossa matéria anterior, por mais que nesta vida tantos se casem e se dêem em casamento, a verdade é que todos, sem exceção, fomos feitos para esse outro “casamento”, que é nossa união com Deus na vida eterna. Por isso, São Cipriano louvava assim esse estado de vida: 

O que nós havemos de ser todos, já vós o começastes a ser. Possuís já neste mundo a glória da ressurreição; vós passais através do mundo sem as manchas do mundo. Enquanto perseverais castas e virgens, sois iguais aos anjos de Deus [2].

Uma verdade de fé…

Com base em tudo isso, avancemos um pouco mais e lembremos uma verdade de fé divina expressamente definida no Concílio de Trento: 

Se alguém disser que o estado conjugal deve ser preferido ao estado de virgindade ou celibato, e que não é melhor e mais valioso permanecer na virgindade ou celibato do que unir-se em matrimônio: seja anátema [3]. 

Dito pela boca do Apóstolo: 

Quisera ver-vos livres de toda preocupação. O solteiro cuida das coisas que são do Senhor, de como agradar ao Senhor. O casado preocupa-se com as coisas do mundo, procurando agradar à sua esposa. A mesma diferença existe com a mulher solteira ou a virgem. Aquela que não é casada cuida das coisas do Senhor, para ser santa no corpo e no espírito; mas a casada cuida das coisas do mundo, procurando agradar ao marido. Digo isto para vosso proveito, não para vos estender um laço, mas para vos ensinar o que melhor convém, o que vos poderá unir ao Senhor sem partilha. Se alguém julga que é inconveniente para a sua filha ultrapassar a idade de casar-se e que é seu dever casá-la, faça-o como quiser: não há falta alguma em fazê-la casar-se. Mas aquele que, sem nenhum constrangimento e com perfeita liberdade de escolha, tiver tomado no seu coração a decisão de guardar a sua filha virgem, procede bem. Em suma, aquele que casa a sua filha faz bem; e aquele que não a casa, faz ainda melhor (1Cor 7, 32-38). 

Explicado por Santo Tomás de Aquino: 

Como diz Jerônimo, errou Joviniano ao defender que a virgindade não deve ser preferida ao matrimônio. Seu erro, antes de mais nada, é refutado pelo exemplo de Cristo, que escolheu mãe virgem e que conservou, ele próprio, a virgindade. É rechaçado também pelo ensinamento do Apóstolo que aconselhou a virgindade como um bem superior. Mas a razão também rechaça esse erro. Em primeiro lugar, porque o bem divino é superior ao bem humano. Em segundo lugar, porque o bem da alma é mais excelente que o do corpo. Em terceiro lugar, porque o bem da vida contemplativa é preferível ao bem da vida ativa. Ora, a virgindade se ordena ao bem da alma na sua vida contemplativa, que é “pensar nas coisas de Deus”. O casamento, ao contrário, está voltado ao bem do corpo, que é a multiplicação corporal do gênero humano e pertence à vida ativa, dado que os casados devem “pensar nas coisas que são do mundo”, segundo o Apóstolo. Portanto, sem dúvida alguma, a virgindade é melhor que a continência conjugal [4].

Mesmo assim, apesar de estar no Concílio de Trento, nas Escrituras, na Suma Teológica e numa plêiade de escritos dos Santos Padres, já podemos prever contra-argumentos, reações negativas e “rasgação de vestes” ao que aqui vai dito. Foi assim, pelo menos, da última vez que tocamos nesse assunto. Procuremos então identificar o problema, e remediá-lo.

…“inconveniente”…

A começar pela “coceira” que nos dá, à nossa época, tão dada a luxúrias, ouvir falar da virgindade que ela tão tranquila e despreocupadamente perdeu e entregou ao mundo, como se nada valesse. É o primeiro dos nossos incômodos: ouvir falar da pureza que não temos

Mas, ao invés de nos irritarmos e esbravejarmos com a simples realidade das coisas, por que não colocar a mão na consciência, fazer penitência por nossos pecados e procurar resgatar, de hoje em diante, a pureza que perdemos? Foi o que fizeram Santa Maria Madalena e Santa Maria Egipcíaca, Santo Agostinho e São Jerônimo. Este último, por exemplo, que tantos louvores cantou à virgindade cristã, escreveu certa vez: “Se elevo a virgindade até os céus, não o faço por possuí-la, mas por admirar o que não tenho” [5]. Ou seja, uma coisa é ser miserável, outra é condescender com a própria miséria; uma é não ser perfeito, outra é desprezar a perfeição. 

Além desse problema moral, pode haver também um intelectual, de falta de fé. Aqui vale sempre lembrar: estamos nos dirigindo a católicos, dos quais se espera que tenham um mínimo de submissão filial à Igreja, ainda mais em se tratando de uma verdade de fides divina, “de fé divina”, que consta claramente nas próprias Sagradas Escrituras. 

Que tenhamos “dificuldades” com esse ensinamento, e que procuremos contorná-las com um bom exercício racional de teologia, é muito sadio e proveitoso; mas “dez mil dificuldades não fazem uma dúvida” [6]: a Revelação, ou nós a aceitamos por completo, ou estaremos rejeitando a sua própria fonte divina. (Nesse caso, uma igreja protestante qualquer pode muito bem servir para nós, até porque uma das primeiras coisas que Lutero jogou fora foi justamente o celibato e a virgindade consagrados.)

…mal compreendida…

Cuidemos de explicar, também, o que não estamos dizendo, para que não haja nenhum mal entendido.

Primeiro, ninguém está dizendo que o casamento seja algo ruim. O Apóstolo mesmo diz: “aquele que casa a sua filha faz bem”, “não há falta alguma em fazê-la casar-se”. E não só porque Deus criou o homem e a mulher, ainda no Gênesis, mas o casamento foi elevado por Nosso Senhor à dignidade de sacramento, tornando-se um verdadeiro caminho de santidade para aqueles que o recebem na fé. Ilustra-o uma história interessante, contada por João Paulo I em uma de suas (poucas) audiências gerais, sobre o (hoje beato) Frederico Ozanam: 

No século passado, viveu na França Frederico Ozanam, grande professor. Ele ensinava na Universidade de Sorbonne, era eloquente, ótima pessoa! Era seu amigo Lacordaire, que dizia: “É tão excelente, é tão bom, far-se-á sacerdote e este chegará a ser grande bispo!” Não foi assim. Encontrou uma jovem cheia de qualidades e casaram-se. Lacordaire não ficou satisfeito e disse: “Pobre Ozanam! Também ele caiu na armadilha!” Dois anos mais tarde, Lacordaire veio a Roma e foi recebido por Pio IX. “Venha cá, padre — disse-lhe — venha. Sempre ouvi dizer que Jesus instituiu sete sacramentos; agora vem o padre e muda as cartas na mesa: diz-me que instituiu seis sacramentos... e uma armadilha! Não, Padre, o matrimônio não é armadilha, é um grande sacramento!” [7].

Segundo, ninguém está dizendo que todos deveriam entrar na vida religiosa. Até porque, como haveria pessoas se consagrando inteiramente a Deus, sem antes serem geradas fisicamente e educadas religiosamente no seio de boas famílias católicas?

Aqui é importante voltar ao Apóstolo: “Quereria que todos fossem como eu; mas cada um tem de Deus um dom particular: uns este, outros aquele” (1Cor 7, 7). Ou seja, por excelente que seja o estado de vida religioso, nem todos são chamados a ele; para cada um Deus reservou uma vocação específica. E esse “problema”, como já fizemos questão de explicar noutro lugar, não se resolve com um ato de desistência e um dar de ombros como quem diz: “Farei o que eu quiser”. Se há um chamado de Deus para cada um, é preciso descobri-lo no silêncio da oração e por “uma vida cristã seriamente vivida”.

Pode ser, é verdade, que nem todos tenham trilhado o caminho melhor e mais santo para chegar ao lugar em que se encontram. Muitas vezes são as circunstâncias da vida, mais do que a busca de Deus e o impulso da graça, que levam as pessoas a definirem seu estado de vida. Mas mesmo nesses casos não se pode ignorar a misteriosa ação da Providência divina, que atua, senão querendo, ao menos permitindo tudo o que nos acontece. É por isso que, aos que já “se resolveram” na vida, o Apóstolo manda que “cada um tenha sua mulher, e cada mulher tenha seu marido” (1Cor 7, 2). Para os que ainda não o fizeram, no entanto, é o tempo de discernir com prudência e maturidade a vontade de Deus para suas vidas.

Terceiro, ninguém está dizendo que todos que estão na vida religiosa são santos nem que, por outro lado, todos os casados estão fadados a ter um “coração dividido” ou a levar uma vida medíocre. Contra isso estão o testemunho de numerosos santos e santas da Igreja que se santificaram no Matrimônio — Santa Isabel de Portugal, Santa Francisca Romana, São Luís e Santa Zélia Martin — e, ao mesmo tempo, o triste fato de que também as almas dos religiosos estão em risco de se perder eternamente, se eles não corresponderem às exigências de sua vocação. “Quando se compara o matrimônio com a virgindade — explica o Pe. Royo Marín — e se assinala a superioridade desta sobre aquele, não se estabelece a comparação entre as pessoas, mas só entre os estados” [8].

…mas nunca antes tão necessária

A objeção que muitas outras pessoas fazem, porém, é quanto à oportunidade de se falar essas coisas. Elas podem até aceitar que a vida consagrada seja superior à matrimonial, mas não concordam com que isso seja proclamado aos quatro cantos, “de cima dos telhados”, talvez porque imaginem que isso “desencoraja” de algum modo os casais, ou semea tentações em suas mentes, fazendo-os sonhar com um estado de vida que não é o seu e a deplorar a situação em que Deus os colocou… 

Bom, na verdade, para um homem e uma mulher mal resolvidos, qualquer coisa pode servir de pretexto para idealizar uma outra vida, com condições ideais de “temperatura e pressão”, e outras circunstâncias dentro das quais elas “com certeza” serviriam melhor a Deus e buscariam com mais afinco a santidade de vida... Mas tudo isso não passa de ilusão. Lembremo-nos nesse sentido de uma advertência de São Francisco de Sales: 

Não há vocação alguma que não tenha as suas contrariedades, as suas amarguras e os seus desgostos. Exceto aqueles que se resignam plenamente com a vontade de Deus, todos gostariam de trocar a própria condição com a dos outros. Aqueles que são bispos não desejariam sê-lo; os que são casados desejariam não o ser; e os que não o são, gostariam de o ser. Donde vem esta inquietação geral dos espíritos senão de certa alergia que nós sentimos perante a obrigação e de um espírito não bom, que nos faz supor que os outros estão melhor do que nós [9]?

“Alergias” à parte, falar da excelência da vida consagrada é lembrar o fim para o qual fomos criados. “A continência ‘por amor do reino dos Céus’ tem particular importância e particular eloquência para aqueles que vivem a vida conjugal” [10], ensina S. João Paulo II. Nenhum casal deveria se sentir desencorajado ou desanimado ao lembrar a dimensão sobrenatural do próprio sacramento que receberam (ou receberão). Se Deus deu à Igreja esse tesouro tão precioso que é a virgindade e o celibato por causa do Reino dos céus, é para lembrar inclusive às pessoas casadas que o casamento definitivo para o qual fomos feitos não é deste mundo, não acontecerá aqui; os esposos estão unidos em santo Matrimônio “até que a morte os separe”, mas a união para a qual todos fomos criados é outra.

É por isso que Nosso Senhor, em casa de Marta e Maria, depois de repreender o “ativismo” da primeira, disse: “Maria escolheu a melhor parte (optimam partem), e esta não lhe será tirada” (Lc 10, 42). Nossa época pode até ser “igualitarista”, mas Jesus não está minimamente preocupado com nossos queixumes politicamente corretos. A vida contemplativa é superior, ponto final

Mas vejam todos como a agitada Marta aprendeu bem a lição e veio a tornar-se Santa Marta. Ela olhou para o exemplo da irmã e, mesmo em meio às panelas da cozinha e demais afazeres da casa, aprendeu a viver para buscar o unum necessarium. Por isso, mesmo na correria do dia a dia — pois eles têm uma casa a prover e filhos a educar —, aprendam os homens e as mulheres casados a separar um tempo para se sentar aos pés do Senhor e ouvi-lo; não se deixem seduzir pelo frenesi do dinheiro a qualquer custo, pondo de lado o amor conjugal, o aconchego do lar ou até mesmo a existência e a salvação dos próprios filhos; aprendam a viver em espírito, enfim, aquilo a que os religiosos estão obrigados por voto. Porque, no fim das contas, estejamos casados ou vivendo só para Deus e sem nenhuma preocupação terrena, o que importa é amarmos e não tirarmos os olhos do Céu

Só não caiamos na tentação de menosprezar o que Deus mesmo fez questão de deixar como herança preciosa à sua Igreja. Os padres e as religiosas, ao renunciarem ao casamento terreno, são um testemunho vivo de que esta vida não é a última palavra. O hábito religioso e eclesiástico é uma voz que clama no deserto do nosso materialismo e diz: “Há outro mundo!”, “Existe vida sobrenatural!”, “Não fomos feitos para esta vida!”

Por isso, todo católico deveria sentir crescer o seu coração ao avistar, pelas ruas de sua cidade, uma irmã com sua veste gasta ou um sacerdote com sua “mortalha” preta. Se não nos entusiasmamos mais com a vocação sagrada, separada, desses homens e mulheres, é porque primeiro deixamos de nos entusiasmar pela vida eterna, e pelo matrimônio celeste que, um dia, todos celebraremos com Deus. Os errados e descompassados somos nós. E o que tem de mudar não são eles, tampouco a disciplina da Igreja... somos nós.

Referências

  1. Papa Pio XII, Carta Encíclica Sacra Virginitas, 25 mar. 1954, n. 16.
  2. São Cipriano, De habitu virginum, 22 (PL 4, 462), citado em Sacra Virginitas, n. 28.
  3. Concílio de Trento, 24.ª Sessão, Doutrina e cânones sobre o sacramento do Matrimônio, 11 nov. 1563, cân. 10 (DH 1810).
  4. Santo Tomás de Aquino, STh II-II, 152, 4 c.
  5. São Jerônimo, Epístola 48, 20 (PL 22, 509).
  6. John Henry Newman, Apologia pro vita sua ou História das minhas Opiniões Religiosas (trad. port. de F. Machado da Fonseca). São Paulo: Paulinas, 1963, p. 312.
  7. Papa João Paulo I, Audiência Geral, 13 set. 1978.
  8. Pe. Antonio Royo Marín. Teología moral para seglares, v. II: Los sacramentos. Madri: BAC, 1965, p. 533.
  9. São Francisco de Sales, Oeuvres, ed. Annecy, t. XII, 348-9, apud Papa João Paulo I, Discurso ao Clero Romano, 7 set. 1978.
  10. Papa S. João Paulo II, Audiência Geral, 14 abr. 1982, n. 2.

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Os católicos são canibais?
Doutrina

Os católicos são canibais?

Os católicos são canibais?

“Como pode este homem dar-nos de comer a sua carne?” A contestação que há dois mil anos fizeram os judeus incrédulos é repetida, hoje, pelos críticos que rejeitam a Eucaristia e acusam a nós, católicos, de canibalismo.

Tim StaplesTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Setembro de 2019
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O dicionário Merriam-Webster define o canibalismo como:

  1. O consumo, geralmente ritualístico, de carne humana por um ser humano;
  2. O consumo da carne de um animal por outro animal da mesma espécie.

Nesse sentido, o canibalismo — pelo menos se considerarmos a primeira definição — implica a mastigação, deglutição e assimilação da carne e do sangue, após ou durante o assassinato de um ser humano.

Na Eucaristia, os católicos não fazem nada disso. Embora Cristo esteja substancialmente presente — em Corpo, Sangue, Alma e Divindade — na Eucaristia, os acidentes do pão e do vinho permanecem. Neste ponto, é importante definir os termos. 

Quando a Igreja ensina que, na Missa, o pão e o vinho são transubstanciados no Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Cristo, precisamos entender o que isso significa. A palavra “transubstanciação” significa literalmente “transformação da substância”. Já o termo “substância” refere-se àquilo que torna uma coisa essencialmente o que ela é. Assim, “substância” e “essência” são sinônimos. Por exemplo, o homem é essencialmente composto de corpo, alma, inteligência e vontade. Se você remover qualquer um desses elementos, ele não será mais uma pessoa humana. Os acidentes ou propriedades acidentais seriam coisas como a cor do cabelo ou dos olhos, o tamanho, o peso etc. Pode-se alterar qualquer um desses acidentes sem que haja mudança na essência ou substância da pessoa.

Na Eucaristia, depois que o sacerdote consagra o pão e o vinho — que são transubstanciados no Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Cristo —, neste momento, Nosso Senhor está inteiramente presente. Nem pão nem vinho permanecem. No entanto, os acidentes do pão e do vinho (tamanho, peso, sabor, textura) permanecem. Portanto, a razão essencial pela qual nós, católicos, não podemos ser acusados de canibalismo é o fato de que não recebemos Nosso Senhor de forma canibal ou cruenta. Nós o recebemos na forma de pão e de vinho. As duas formas são qualitativamente diferentes.

Para aprofundar um pouco mais essa ideia, eu sugeriria ao menos seis razões por que a Eucaristia e o canibalismo são coisas qualitativamente ou, antes, essencialmente diferentes.

  1. No canibalismo, a pessoa cuja carne é consumida geralmente está morta. Jesus Cristo, porém, não está morto. Nós o recebemos em seu Corpo ressuscitado e, ao recebê-lo, em nada o afetamos ou diminuímos. De fato, Ele não é modificado nem um pouco; ao contrário, é Ele quem nos modifica! Isso está longe de ser canibalismo;
  2. No canibalismo, apenas parte da vítima é consumida. Os canibais não comem, por exemplo, os ossos e os tendões. Já na Eucaristia, consumimos cada pedaço de Nosso Senhor, seus olhos, cabelos, sangue, ossos etc. Mas enfatizo novamente que o comemos sob a aparência do pão e do vinho. Isso é essencialmente diferente do canibalismo, o que leva ao nosso próximo ponto;
  3. No canibalismo, os acidentes do sangue e da carne são consumidos. É preciso despedaçar a carne, beber o sangue etc. Já na Eucaristia, consumimos apenas os acidentes do pão e do vinho. Isso não é canibalismo;
  4. No canibalismo, apenas se consome um corpo, não uma pessoa. Na concepção dos canibais, a pessoa em si e a sua alma já teriam partido, ao passo que, na Eucaristia, consumimos toda a pessoa de Jesus Cristo: Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Não se pode separar o Corpo de Cristo de sua Pessoa divina. Assim, a Eucaristia é tanto uma comunhão espiritual quanto um consumo físico. Nesse sacramento, nós nos tornamos um com Cristo em um nível místico. Isso está longe de ser canibalismo;
  5. No canibalismo, só se recebe o alimento temporal, que é passageiro. Já na Eucaristia, recebemos a vida divina de Deus através da fé, e recebemos Nosso Senhor e suas bem-aventuranças, isto é, recebemos a vida eterna (cf. Jo 6, 52-55). Isso é essencialmente diferente do canibalismo;
  6. No canibalismo, uma vez que se come a carne da vítima, ela se foi para sempre. Na Eucaristia, podemos consumi-lo todos os dias e — como mencionado na primeira razão — não o modificamos em nada. Ele continua o mesmo.

Sempre é preciso ter cuidado ao aplicar termos e conceitos a Deus. Muitas pessoas se equivocam quanto à fé, porque cometem o erro de aplicar conceitos meramente humanos — e, portanto, finitos — a Deus, que é infinito.

Nós poderíamos falar dos mórmons, os quais afirmam que Deus Pai tem um corpo físico, porque as Escrituras falam das “costas” de Deus no Êxodo, ou “da mão do Senhor”, ou dos “olhos do Senhor” etc. Você provavelmente já ouviu uma clássica resposta a essas alegações dos mórmons: “O salmo 91 se refere às ‘penas e asas de Deus’. Então, isso significa que Deus é algum tipo de pássaro?”

O erro aqui, decerto, está enraizado na interpretação, em sentido estrito e literal, de textos que não foram escritos para ser compreendidos dessa maneira (por exemplo, a interpretação de que o termo “costas” tem de significar “costas”).

Quando se trata da Santíssima Trindade, alguns dos que negam essa verdade essencial da fé afirmam que os cristãos estão ensinando que Deus é “três seres”, porque dizemos que Deus é “três pessoas”.

No entanto, o termo “pessoa”, aplicado a Deus, não designa a existência de três seres. Há uma diferença essencial entre “pessoa” no que se refere a Deus e “pessoa” no que se refere aos homens e aos anjos.

Poderíamos citar uma lista de exemplos com problemas semelhantes de interpretação.

Indo ao que interessa, os críticos que rejeitam a Eucaristia e, mais especificamente, os que acusam a nós, católicos, de canibalismo — porque dizemos que “consumimos” o Senhor na Eucaristia, em Corpo, Sangue, Alma e Divindade — não conseguem entender o que realmente queremos dizer com “consumir o Senhor”. Eles acabam, assim, contestando como os judeus incrédulos do Evangelho de São João (6, 52), que disseram: “Como pode este homem dar-nos de comer a sua carne?

Se você está pensando em uma refeição canibal e cruenta, Ele, de fato, não pode; mas se você compreende, como Jesus disse: “O espírito é que vivifica, a carne de nada serve. As palavras que vos tenho dito são espírito e vida” (Jo 6, 63), então você entende. A Eucaristia representa um milagre operado pelo poder do Espírito Santo.

Deus pode, sim, fazer isso.

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