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“O Espírito Santo não toca em carne morta”
Espiritualidade

“O Espírito Santo
não toca em carne morta”

“O Espírito Santo não toca em carne morta”

“Desenganem-se os carnais, que a nenhum deles virá o Espírito Santo… O corvo come a carne morta, mas a pomba a detesta. A pomba é figura do Espírito, e o Espírito Santo não toca em carne morta.”

Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Junho de 2019
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Sem sombra de dúvida, um grande desafio a ser encarado por todas as pessoas que já estão (teoricamente) caminhando com Deus é o de viver não segundo a carne, mas segundo o Espírito Santo. Às vésperas que estamos da grande solenidade de Pentecostes, poucas reflexões são tão necessárias quanto essa.

É trágico, de fato, que haja tanta gente “de igreja”, batizada, indo à Missa e até confessando e comungando com frequência, mas sem que suas vidas tomem impulso, sem que seus corações sejam mudados, sem que se note algo de real e substancialmente diferente em suas conversas e condutas. Sem o Espírito Santo, os católicos são como sal que não salga, luz que não ilumina, e em nada parecem diferir dos demais homens.

Consideremos nestas linhas, por exemplo, como nada pode haver de mais deplorável do que estarmos na Igreja apenas “de corpo presente”, mas com a alma em pecado mortal — sem dúvida, a ilustração mais crua do que é viver segundo a carne. Sim, porque as pessoas nesse estado não só não vivem segundo o Espírito, como aborrecem esse mesmo Espírito, não o têm em suas almas. Em suas vidas, o que sobressai é justamente o oposto: o espírito maligno, o espírito das trevas. Nas palavras do Apóstolo:

Digo, pois: deixai-vos conduzir pelo Espírito, e não satisfareis os apetites da carne. Porque os desejos da carne se opõem aos do Espírito, e estes aos da carne; pois são contrários uns aos outros… Ora, as obras da carne são estas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, superstição, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdias, partidos, invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes. Dessas coisas vos previno, como já vos preveni: os que as praticarem não herdarão o Reino de Deus!... Pois os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as paixões e concupiscências. Se vivemos pelo Espírito, andemos também de acordo com o Espírito (Gl 5, 16-17.19-21.24-25).

São Paulo está dizendo com muita simplicidade: não é possível ser ao mesmo tempo de Deus e do demônio, e nesta matéria não há meio-termo. Ou se está com Cristo, ou se está longe dEle (cf. Mt 12, 30). Os pecados que ele enumera, de modo especial, têm uma característica em comum: são, em sua maioria, pecados externos, que realmente “separam” os cristãos, destroem a ilusão de que eles podem ser “como todo o mundo”, estabelecem uma espécie de “limite” que quem deseja ser de Cristo não deve ultrapassar. Trata-se de obras carnais as mais grosseiras, por assim dizer, e quem quer que as pratique não só não tem o Espírito Santo, adverte o Apóstolo, como não herdará o Reino de Deus

Como comentário a essa passagem tão contundente das Escrituras, atentemo-nos ao que diz São João d’Ávila em um de seus sermões:

Que quereis? O Espírito Santo? Pois sabei que Ele não é amigo da carne [...].

Desenganem-se os amancebados, desenganem-se os carnais, que a nenhum deles virá o Espírito Santo. A pomba que saiu da arca de Noé tomou um raminho de oliveira e não quis pôr o pé sobre corpo morto; voltou limpa à arca. O corvo come a carne morta; a pomba detesta-a. A pomba é figura do Espírito, e o Espírito Santo não toca em carne morta. Limpai, pois, vossos corações dos desejos carnais. Jejuai nesta semana os que tiverem forças para isso; pois, já que quer carne, seja a carne mortificada e com jejuns enfraquecida. E como alvíssara e favor vo-lo peço, varrei com muita devoção a vossa casa mediante a confissão, pois há de vir vosso Hóspede, e não convém que encontre suja a casa [1].

A mensagem deste Doutor da Igreja é muito clara, tão clara que dispensa maiores comentários. Se não fugirmos das obras da carne, será impossível receber o Espírito Santo. Sem isso, não haverá Pentecostes em nossas vidas.

Expliquemos, antes de mais nada, que é o próprio Espírito que inspira a alma a buscá-lo e a evitar o pecado, de modo que a inspiração mesma de procurar fazer a vontade divina só acontece por obra da graça. Deus busca a todos, não privando ninguém do auxílio necessário para a própria salvação. Mas na alma daquele que corresponde a esse chamado de Deus acontece uma união que não acontece na alma em que se extinguiu a chama da caridade. Nas palavras do Papa Leão XIII, explicando o mistério da inabitação trinitária: “Também no homem perverso podemos deparar reflexos do poder e sabedoria de Deus; mas só o justo participa do amor divino, característica do Espírito Santo” [2].

Concentremo-nos, porém, nestas palavras do santo: “Desenganem-se os carnais”. Se ele diz “desenganem-se”, é porque andam enganados os que vivem segundo a carne: estão como que com os olhos vendados, são incapazes de ver a realidade, encontram-se aprisionados longe da verdade. Talvez os seus pecados lhes tenham inclusive cegado a mente, como Santo Tomás de Aquino diz que sói acontecer com quem vive na carne, especialmente com quem se entrega aos pecados sexuais (cf. STh II-II, q. 15, a. 3).

Mas de que modo andam enganados os carnais? Com o que eles se enganam? Perguntando com mais propriedade: com o que tantos de nós mesmos nos enganamos?

Nossa falta de fé no que ensina a Igreja nos denuncia com muita facilidade: encontramo-nos iludidos com “novas” doutrinas que não a de Cristo, possuídos por um “espírito” que, ousaríamos dizer, de santo não tem nada.

Vejamos por exemplo como tantos hoje se dizem porta-vozes do Espírito Santo, ao mesmo tempo que se esquecem de uma verdade elementar: só se tem o Espírito de Cristo na medida em que se ama o Corpo de Cristo, que é a Igreja [3]; falam tanto do novo, mas se esquecem que “a novidade nunca foi por si mesma um critério de verdade, e só pode ser louvável quando confirma a verdade e leva à retidão e à virtude” [4]; falam tanto de “renovação” — pois, de fato, o Espírito vem renovar a face da terra (cf. Sl 103, 30) —, mas se esquecem do que disse Jesus antes de subir aos céus: “O Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome [...] vos recordará tudo o que vos tenho dito” (Jo 14, 26).

Ou seja, a terceira Pessoa da Santíssima Trindade não viria aos homens para lhes ensinar nada de diferente do que havia ensinado Nosso Senhor. (Era o que faltava, afinal, a Trindade contradizer a própria Trindade!) Se há um tal “espírito”, não é o Espírito Santo; está mais ou para um “espírito revolucionário”, que perverte a doutrina e mantém as pessoas no egoísmo de seus pecados, ou para um “espírito de confusão”, que obscurece a doutrina, mas cujo resultado prático é o mesmo.

Por que tantos se rendem a essas “novidades” não é difícil compreender: quem vive na carne e não quer deixar de viver segundo a carne, para justificar seus comportamentos, precisa recorrer a algum subterfúgio. “Quem não vive conforme aquilo em que acredita”, diz um velho adágio, “termina acreditando no modo como vive”.

O que aparece, então? A ilusão da “graça barata”, do Deus que tudo aceita, que com tudo condescende e que a todos salvará. O Espírito consolador do Evangelho é transformado, assim, em um ente abstrato que vem para afagar os nossos sentimentos, ao invés de nos chamar ao que realmente importa, e que constitui a essência da vida cristã: nossa conversão.

Nesse ponto pessoas até bem intencionadas terminam perdendo de vista o essencial. Até com o fim de não “causar problemas”, elas falam do Divino Espírito Santo exclusivamente como Doador de dons carismáticos extraordinários  — as graças chamadas gratis datae —, mas o mais importante, que é a vida de união com Deus, é solenemente ignorado.

Talvez lhes fosse necessário recordar que o Espírito Santo é o Espírito das profecias, é o Espírito das línguas, é o Espírito das curas, sim; mas é também — e principalmente — o Espírito da conversão e da mudança de vida. Porque, não nos esqueçamos, o máximo milagre de Deus é a justificação do pecador (muito mais do que falar línguas estranhas, operar curas físicas e profetizar). Como explica o Doutor Angélico (STh I-II, q. 111, a. 5):

O Apóstolo, depois de enumerar as graças gratis datas (cf. 1Cor 12, 4-11), acrescenta: “Vou mostrar-vos um caminho ainda mais perfeito”. E como fica claro pelo que segue, fala da caridade que se refere à graça que torna agradável a Deus. Portanto, a graça que torna agradável a Deus é superior à graça gratis data [...].

Uma virtude é tanto mais excelente na medida em que se ordena a um bem mais elevado. Pois sempre o fim está acima daquilo que é apenas um meio em vista do fim. Ora, a graça que torna agradável a Deus ordena o homem imediatamente à união com o fim último. As graças gratis datae, ao contrário, ordenam o homem ao que é uma preparação para o fim último. Assim, a profecia, o milagre e tudo o que é do mesmo gênero nos levam ao que une ao fim último. Eis por que a graça que torna agradável a Deus é bem superior à graça gratis data.

Dizendo bem claramente, nós, que temos pedido tanto a efusão do Espírito Santo com orações, canções e pedidos de carismas, em que medida temos procurado realmente viver segundo o Espírito, dando o primeiro passo de abandonar as obras da carne, que lhe são contrárias? Importa muito que o amor que certos grupos e movimentos dentro da Igreja mantêm ao Espírito Santo — ouçamos o conselho do Papa Leão XIII, muito próximo da Beata Elena Guerra — “não se limite a umas áridas noções teóricas e a uma homenagem puramente exterior, mas que se distinga pela pronta ação, principalmente pela fuga do pecado, o qual de modo muito particular ofende o Espírito Santo” [5].

Se acreditamos, pois, que o Espírito de Deus realmente intervém na história humana, que Ele realmente age na vida das pessoas, qual é o principal fim com que Ele atua, senão para nos levar à vida divina, à vida da graça, à vida sobrenatural? E como chegaremos aí se continuarmos afundados na lama do pecado mortal, sem fazer uma Confissão sincera, bem feita e com um propósito firme de emenda? Como o Espírito agirá em nós se continuarmos fingindo clamorosamente ser espirituais, enquanto, no fundo, vivemos na carne?

— Que quereis? O Espírito Santo? — pergunta-nos São João d’Ávila. — Pois sabei que Ele não é amigo da carne.

Nunca se insistirá o suficiente nisso. Nós, católicos, não somos protestantes, que nos acreditamos salvos por uma imputação jurídica, ainda que nosso coração esteja podre, apegado ao pecado e aferrado ao mal… Não, a graça realmente opera uma transformação em nossa alma e, a menos que procuremos com sinceridade conformar o nosso coração ao que Deus quer de nós (ao invés de tentarmos encaixar Deus em nossos esquemas humanos), não acontecerá em nós a salvação que o Espírito Santo quer operar em nossa alma.

Fujamos, pois, da tentação de um “espiritualismo” sem doutrina, autorreferencial, inventado por nós mesmos. Uma religião assim não salva verdadeiramente; só engana. Ser de fato guiado pelo Espírito Santo significa ser transformado profundamente por Ele, significa não se deixar arrastar pelo que enumera o Apóstolo: “fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, superstição, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdias, partidos, invejas, bebedeiras, orgias”. Se estivermos nessas coisas, ainda que clamemos mil vezes o Espírito Santo, ainda que cantemos, ainda que nos agitemos, não haverá Pentecostes em nossas almas.

Por isso, aproveitemos a solenidade que se aproxima e fujamos das obras da carne. Convertamo-nos. Desfaçamo-nos de nossa cegueira. “Se viverdes segundo a carne, haveis de morrer”, diz o Apóstolo, “mas, se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis, pois todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8, 13-14).

“Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus”. Mas quem não é conduzido pelo Espírito é simplesmente… carne morta. E à carne morta só o que resta é entregar aos corvos.

Não seja esse o nosso destino.

Referências

  1. Quem não tem o Espírito de Cristo não é de Cristo, Sermão no Domingo da infra-oitava da Ascensão, 29 de maio de 1552, in: Sermões do Espírito Santo, trad. Roberto Leal Ferreira, São Paulo: Molokai, 2018, pp. 57-58.
  2. Papa Leão XIII, Carta Encíclica Divinum Illud Munus (15 de maio de 1897), n. 16.
  3. Cf. Santo Agostinho, In Evangelium Ioannis, t. 26, 13 (PL 35): “Queres pois viver também tu do Espírito de Cristo? Faz-te, portanto, membro do Corpo de Cristo.”
  4. Papa Pio XII, Carta Encíclica Menti Nostrae (23 de setembro de 1950), n. 110.
  5. Papa Leão XIII, op. cit., n. 22.

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Temperamento não é muleta!
Cursos

Temperamento não é muleta!

Temperamento não é muleta!

Não é porque você nasceu com esta ou aquela tendência que precisa ceder à sua natureza e levar a vida de qualquer modo. Temperamento não é muleta, nem licença para ser um mau caráter!

Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Setembro de 2019
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Nós, seres humanos, estamos sempre arrumando uma desculpa, um “jeitinho” para justificar nossos defeitos e permanecer na cômoda mesmice de nossos maus hábitos…

Pois bem, se há algo em que nosso novo curso sobre “Os Quatro Temperamentos” quer ajudar você, é justamente a mudar isso. Assim como o Apóstolo disse: “Não vos conformeis com este mundo” (Rm 12, 2), este curso é para dizer a você: Não se conforme com seu temperamento! Não se conforme às más inclinações com que você nasceu! Lute — com a graça de Deus, é claro, mas lute — para transformar a própria têmpera!

Dizendo de modo mais claro e concreto: 

  • não é porque você nasceu mais propenso à cólera que pode ser mal educado e sair por aí dando coice nos outros; 
  • não é porque nasceu mais dado à melancolia que precisa ficar “chorando as pitangas” todo dia; 
  • não é porque nasceu mais inclinado à preguiça que não precisa “pegar no batente”; 
  • não é porque tende à inconstância que está fadado a sempre começar as coisas e nunca terminá-las… 

Porque temperamento não é muleta, nem licença para ser um mau caráter, e é essa a mensagem do novo teaser que estamos enviando a você, com mais trechos inéditos de nossas aulas. Assista:

Se você gostou e quer saber melhor como esse assunto é tratado dentro do sadio equilíbrio da espiritualidade cristã, inscreva-se agora mesmo em nossa lista exclusiva para este curso e receba todas as atualizações a respeito! “Porque é a partir desse conhecimento, do que é a minha tendência biológica, que eu vou construir o meu caráter”.

E anote em sua agenda: nosso lançamento será no dia 15 de outubro, memória de Santa Teresa de Jesus.

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Marido e mulher, vocês não pertencem a si mesmos!
Família

Marido e mulher,
vocês não pertencem a si mesmos!

Marido e mulher, vocês não pertencem a si mesmos!

Embora o sacramento do Matrimônio não imprima caráter em sentido estrito, o casal muda verdadeiramente: o alicerce deixa de ser o próprio eu e passar a ser o outro, deixa de ser o isolamento para ser a comunhão.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Setembro de 2019
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A linguagem tradicional de “direitos” ou “débitos” no Matrimônio foi muito criticada  antes e durante a realização do Concílio Vaticano II, e quase desapareceu do vocabulário católico. No entanto, é necessário analisá-la novamente. Porque é importante reconhecer, especialmente numa época de confusão a respeito da indissolubilidade matrimonial, que no momento em que nasce o vínculo conjugal algo de cada um dos cônjuges pertence, por direito, ao outro, e não apenas a si mesmo.

Vejamos os votos contraídos no Matrimônio: “Eu, N., recebo-te por minha esposa (meu esposo) a ti, N., e prometo ser-te fiel...”. A troca de consentimentos não é um contrato limitado e revogável: ao contrário, ele é livre, irrevogável e desinteressado, pois um se entrega ao cuidado do outro. Eu deixo de ser “dono do meu nariz”, pois agora pertenço à outra pessoa. Em certo sentido, torno-me propriedade do meu cônjuge. Os esposos podem reivindicar coisas um do outro, porque cada um deles tem um direito verdadeiro e definitivo sobre o outro. Esse é precisamente o significado do voto, diferentemente de acordos, contratos, pactos, parcerias ou “casos”.

Vale a pena fazer uma comparação com os votos religiosos. A mulher que entra para a vida religiosa, como costumamos dizer, faz um voto irrevogável e incondicional de se casar espiritualmente com Nosso Senhor Jesus Cristo. Por sua vez, o homem que entra para a vida religiosa promete pôr-se plenamente à disposição e a serviço dEle. Não se trata de um mero passatempo, mas da consagração de toda a vida a outra pessoa.

Por isso, tanto o Matrimônio como a vida religiosa exigem uma preparação séria, um propósito lúcido, esforço e oração constantes para que haja perseverança e um desejo pleno de aceitar o fardo do outro “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”, nas épocas de esplendor e nas noites escuras. 

Você não pertence a si mesmo” — é esse o clamor que sai da boca do Apóstolo (1Cor 6, 19). Marido e mulher, vocês não pertencem a si mesmos, pertencem um ao outro e, portanto, devem tudo um ao outro. Esse débito se estende de forma natural, espontânea e apropriada aos filhos, por quem os pais são responsáveis e de quem recebem as bênçãos da alegria, do apoio e do sofrimento, ou seja, trata-se de uma verdadeira participação no mistério pascal de Cristo. De modos distintos, os membros da família pertencem uns aos outros. Nenhum deles pertence a si mesmo. 

Você não pertence a si mesmo. Contraímos uma dívida eterna com Deus pelo simples fato de termos sido criados do nada por sua vontade benéfica e sábia. Devemos a Ele nosso próprio ser, porque Ele nos fez para ser, Ele nos dá o “ato de ser”, a fonte de nossa personalidade, a energia dinâmica que nos transforma em seres reais, e não meramente possíveis. Como se isso não bastasse, Ele nos salva: “Fostes comprados por um alto preço” (1Cor 6, 20).   

O Matrimônio é análogo à Criação e Redenção. Deus remodela os esposos como marido e mulher através dos votos feitos livremente por eles e, num mistério que envolve o uno e o múltiplo, o passado e a eternidade, o exercício da vontade individual de cada um dá origem à união amorosa de duas vidas. Por meio dos votos o relacionamento (ou seja, sua mútua dependência) vai da possibilidade à realidade: ele se torna algo real, e não apenas uma ideia ou desejo. 

Embora o sacramento do Matrimônio não imprima caráter em sentido estrito, o casal muda verdadeiramente: o alicerce deixa de ser o próprio eu e passar a ser o outro, deixa de ser o isolamento para ser a comunhão. Os cônjuges estabelecem uma nova relação, enraizada na razão e na vontade, e por meio da qual são novamente criados no Reino de Deus e neste mundo. Essa relação é tão íntima que somente a morte (literalmente, o desaparecimento de um dos esposos) lhe pode estabelecer um limite temporal. Na medida, porém, em que a alma santificada de uma pessoa leva consigo tudo o que ela fez em sua vocação para a glória de Deus, o vínculo entre os esposos pode continuar no céu, não da forma como existe na terra (cf. Mc 12, 25), mas num estado transfigurado de perfeita e elevada união, que foi imperfeitamente alcançado nesta vida. 

O que foi dito acima ajuda a explicar por que a união física entre homem e mulher só faz sentido no contexto matrimonial. Ela é tradicionalmente chamada “ato conjugal” (ou nupcial) por ser o ato por que se paga, de modo simbólico e real, a dívida espiritual dos votos. É imagem passageira de um compromisso duradouro, evidência momentânea da intenção de amar e servir por toda a vida. 

Esse ato perde o sentido quando não há comunhão de almas alicerçada num voto. Fora do casamento, o ato se autodestrói, pois ignora sua elevada finalidade e se torna ou um ritual niilista, do qual se cansam até as pessoas mais inteligentes e artísticas, ou um ato animal sem qualquer valor pessoal. Isso acontece porque a união física digna de duas pessoas humanas só pode ocorrer se for realizada primeiro no campo espiritual por meio de votos solenes, pelos quais homem e mulher se concedem mutuamente o direito exclusivo que um pode exercer sobre o outro. É assim que se entregam um ao outro. Qualquer outra coisa além disso é autocontraditória, medíocre mesmo, algo a que Nietzsche chamou “meio a meio”.

Nietzsche também dizia que o coração do homem e da mulher tem um profundo desejo de eternidade. Nossos corações desejam o Todo, e não descansarão até obtê-lo. O Matrimônio é um todo espiritual, um bem comum feito de partes intrínsecas: marido e mulher. Se o todo for removido, as partes se dissolvem, assim como a mão perde sua essência quando separada do corpo, pois em tal circunstância ela só pode ser chamada “mão” de modo equívoco. Se o todo for danificado ou eliminado, as partes perecerão, assim como o homem morre quando cortado ao meio ou o corpo se corrompe quando dele se separa a alma. 

O voto nupcial representa a união de dois espíritos, cuja graça, paz, alegria e caridade podem ser reforçadas pela união física. A beleza do ato interno (duas pessoas unidas por um voto) redunda na beleza do externo (duas pessoas numa só carne); a veracidade do ato interno contém e aprofunda a veracidade do externo; a bondade do ato interno purifica e ilumina o externo. Essa é outra forma verdadeira de dizer: “O que Deus uniu o homem não separe”.

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É possível o retorno à inocência?
Sociedade

É possível o retorno à inocência?

É possível o retorno à inocência?

Com a contínua banalização do vício na modernidade, a ideia de preservar ou recuperar a inocência pode parecer um tanto irrelevante. Mas seria impossível fazê-lo? Ou, ao contrário, não é esse o único caminho para Deus?

Auguste MeyratTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere (adaptado)20 de Setembro de 2019
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Com a contínua banalização do vício na modernidade, a ideia de preservar ou recuperar a inocência parece um tanto irrelevante. Hoje, apenas alguns pais (geralmente mórmons ou católicos tradicionais) levam a sério a inocência de sua família e fazem o possível para proteger os filhos da corrupção reinante em todas as formas de mídia e ambientes. Eles educam em casa, restringem ou proíbem o tempo de televisão e  procuram limitar as companhias e amizades de seus filhos.

Na maioria dos casos, seus vizinhos mais progressistas os ridicularizam como loucos e fariseus modernos, principalmente quando veem seus filhos alimentando a fé e vivendo prudentemente, enquanto os seus próprios caem em todos os pântanos morais imagináveis.

Diante de tal êxito, pode-se perguntar por que mais pessoas não seguem essas famílias saudáveis em vez de zombar delas. Algumas o fazem, e isso explica por que as comunidades religiosas ortodoxas mais tradicionais estão crescendo rapidamente, enquanto as liberais continuam a decair de forma vertiginosa. Outros não o fazem porque não compreenderam o que realmente significa inocência. Com demasiada frequência, ela é entendida em termo negativos: não ser exposto a más influências, não observar ou conhecer o mal, não ter maus pensamentos ou cometer ações más etc. Se as pessoas veem a inocência como um conjunto de “não-experiências”, os que a ela se opõem podem tratá-la como algo que denota ignorância, ingenuidade e até insensibilidade.

A consequência dessa redefinição é clara, especialmente nas escolas, no entretenimento e na vida familiar. Na escola, as crianças são sistematicamente escandalizadas em relação à sua fé, aos seus relacionamentos e à sua própria identidade. Elas aprendem cedo a equiparar religião com superstição, amor com utilidade e o “eu” com características acidentais. Os alunos que praticam sua fé, evitam o sexo e renunciam ao status de “vítima” são considerados estranhos e atraem o desprezo universal. Por outro lado, os estudantes “de gênero fluido”, com muitos parceiros e sem religião, são cada vez mais celebrados e admirados.

No entretenimento, as crianças veem o bem e o mal relativizados, com o vilão muitas vezes interpretando o herói, e virtudes como a bravura e a honestidade sendo dissolvidas em desprezo, incompetência e superficialidade. Pode até ser que os telespectadores mais jovens aprendam a ser gentis com as pessoas, mas o que eles costumam aprender com mais frequência é a tirar sarro dos outros, esquecer suas boas maneiras e agir como palhaços.

Além de absorver a imoralidade desse entretenimento, o ato de consumir passivamente imagens e sons, na tela, atrai as crianças para o vício. Não há melhor maneira de tirar a inocência de uma geração inteira do que transformá-los em viciados.

É claro que a escola e o entretenimento não teriam tanto efeito sobre a inocência dos jovens se os adultos estivessem em guarda. Mas, infelizmente, a maioria dos adultos abandonou o posto, deixando suas casas um caos e as crianças se virando por si mesmas. Incentivados por uma propaganda onipresente, eles têm cada vez menos escrúpulos em submeter seus filhos à corrupção. Assim, as crianças passam os primeiros anos de formação em lares onde abuso, palavrões e mentiras são algo comum.

Essa extinção da inocência continua, perigosa, até a idade adulta. Colocados em uma ladeira escorregadia e achando que nada mais têm a perder, a maioria dos adultos continua perdendo ainda mais a inocência. Seu lazer, educação e vida doméstica se tornam ainda mais escandalosos e destrutivos, a ponto de males extremos como o aborto, a eutanásia e a perseguição religiosa começarem a ser tratados como opções desejáveis para revolucionar a cultura.

Essa situação deixa duas opções para o indivíduo que ainda acredita na inocência: lutar ou fugir. A curto prazo, aqueles que escolherem a última opção podem ser mais eficazes em lidar com esse movimento espiral de decadência moral, mas isso não acontecerá a longo prazo. A tão criticada “Opção Beneditina” poderia funcionar em uma sociedade feudal descentralizada, que é o que a Europa se tornou após a queda do Império Romano. Mas não pode funcionar em países modernos, onde um governo autoritário tem os meios e o apoio para simplesmente proibir ideias e práticas contrárias à sua ideologia. Por exemplo: as leis do Canadá que anulam a autoridade dos pais para pressionar a doutrinação LGBT, ou as leis draconianas da Alemanha contra o ensino em casa, indicam qual será o destino final das famílias que tentarem se afastar da corrupta cultura secular da nossa época.

Em vez disso, a melhor opção para preservar a inocência é combater a corrupção predominante. O primeiro passo requer recuperar a definição adequada de inocência. Muito mais do que uma mera falta de experiências negativas, a inocência é uma confiança em realidades superiores — como a Verdade, a Bondade e a Beleza. É inocente a pessoa que acredita na verdade da revelação de Deus, na bondade dos amigos e familiares, na beleza da Criação e da imaginação. Essa pessoa tem uma visão transcendente do mundo e é capaz de enxergar para além de si mesma. Ela não reduz toda a experiência a fenômenos materiais aleatórios, mas encontra significado em tudo e em todos. 

Por terem menos experiências que as levariam a duvidar das realidades mais elevadas, as crianças são naturalmente mais inocentes. No Sermão da Montanha, Cristo, a própria encarnação da inocência, claramente quer preservar essa qualidade nos jovens e recuperá-la nos velhos: “Em verdade vos digo: se não vos transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18, 3). Jesus não ordena que os adultos abandonem suas responsabilidades ou seus conhecimentos, como ele deixa claro três versículos depois (cf. Mt 18, 6), mas exorta a manterem sua inocência e confiança em Deus.

Felizmente, apenas conhecer ou experimentar algo feio, mau ou falso não leva necessariamente as pessoas a perderem a inocência, embora isso certo aconteça se não tivermos cuidado. Dostoiévski ilustra essa situação com os protagonistas de Crime e Castigo. Na esperança de provar a teoria de que indivíduos verdadeiramente iluminados podem dispensar a moralidade, o protagonista Raskólnikov comete um duplo homicídio, perdendo a inocência no sentido não apenas jurídico, mas também espiritual. A miséria por ele experimentada não provém da culpa por tirar a vida de um inocente, mas da decisão de desistir da Verdade, da Bondade e da Beleza pela falsa sensação de poder resultante do pecado.

Em contraste direto, a personagem Sônia preservou a inocência. Ela brilha como um anjo, apesar de experimentar males muito piores como prostituta, apoiando o pai alcoólatra, com uma mãe histérica e irmãos pequenos e indefesos. Nas conversas entre os dois, Sônia é inocente, afirmando sua confiança em Deus e em seu amor, enquanto Raskólnikov se sente qualificado para lhe dizer o quão errada e ingênua ela é, ainda que ele mesmo nunca se dê conta da própria estupidez, ao cometer um crime pela simples razão de justificar uma hipotética moral adolescente.

Em vez de evitar Raskólnikov para manter sua pureza, Sônia pacientemente o confronta sobre seu crime e o desafia ao arrependimento. Nesse sentido, ela reflete os santos que brandiram sua inocência diante da corrupção. Eles entenderam que isso era mais persuasivo do que qualquer argumento. São Paulo conquistou mais convertidos na Grécia com sua inocência do que os maiores filósofos fizeram com seus diálogos e tratados. O próprio Santo Agostinho se converteu não por sua educação retórico-filosófica, mas por causa dos exemplos morais de sua mãe Santa Mônica e de seu mentor, Santo Ambrósio. São Bernardo de Claraval superou o lógico e célebre Pedro Abelardo (numa época em que havia pessoas assim) mais pelo poder de suas convicções do que por seu brilhantismo. São João Paulo II, um gênio por mérito próprio, dedicou sua vida a Deus depois de testemunhar a fé inabalável do pai, a quem considerou como seu “primeiro seminário”. Nada disso exclui a necessidade da razão; indica, porém, que esta é muito mais convincente quando associada à inocência.

Além de provar o poder da inocência, esses exemplos do passado demonstram que ela constitui o remédio concreto para um presente já fadigado. Obviamente, os que preservaram sua inocência devem torná-la um modelo para os outros. Eles podem esperar retaliações, mas pelo menos as pessoas notarão e talvez até venham a tomar consciência mais profunda dos efeitos encantadores da inocência.

O que é menos óbvio nesses exemplos, mas ainda assim imprescindível, é a necessidade subsequente do afastamento do mundo. A inocência impulsiona os homens para o céu; a corrupção os afasta. A pessoa deixa de confiar na Verdade, na Bondade e na Beleza quando passa tempo ouvindo mentiras, sucumbindo ao vício e se rendendo à autossuficiência. Portanto, o homem deve se afastar dessas influências.

Tal mudança acontece para Raskólnikov quando ele passa anos em uma prisão siberiana, antes de finalmente se arrepender. São Paulo escolheu viver no anonimato por três anos após sua conversão, antes de iniciar seu apostolado em Antioquia. Após sua conversão, Santo Agostinho se afastou permanentemente do mundo e de todos os seus prazeres e, praticamente, formou sua própria Ordem religiosa. São Bernardo ingressou na comunidade monástica mais rígida da França de sua época, e São João Paulo II perdeu o sono para passar mais horas em oração. Para todos esses homens, foi o afastamento do mundo que permitiu à inocência criar raízes e florescer. Eles pareciam haver entendido que, sem essa separação, a inocência continuaria sendo um ideal distante que induziria mais a remorsos do que à mudança de vida.

Na era da informação, esse afastamento se tornou cada vez mais difícil, à medida que novos dispositivos preenchem todos os espaços da vida; e inventores e psicólogos desonestos incorporam “tecnologia persuasiva” para destruir a possibilidade de autocontrole das pessoas. Por esse motivo, é necessário ter um propósito de mudar os próprios hábitos e reordenar as prioridades da vida. O tempo gasto anteriormente na televisão e nas mídias sociais pode ser preenchido com oração, trabalho, estudo e momentos de convivência. Se tal mudança puder ser sustentada sem recaídas, surgirão momentos de inocência em que a pessoa perceberá, e se revoltará, com o profano; e exaltará o belo, cheia de gratidão pelas muitas bênçãos presentes no mundo ao seu redor.

Para muitas pessoas que perderam sua inocência, a percepção de que ela pode ser resgatada é uma ocasião de grande alívio, e até de emancipação. Elas não precisam mais se desesperar por terem se afastado da inocência, nem continuar fingindo que estavam melhor por tê-la perdido. Em vez disso, elas podem ser encorajadas pela possibilidade de se tornarem inocentes novamente, protegendo a inocência de outrem e confrontando as forças que trazem à nossa sociedade essa tão sufocante corrupção. Por fim, um retorno à inocência através do afastamento do mundo é a única maneira de amar verdadeiramente ao próximo e aos inimigos, sem se perder e permitir o pecado. É a única maneira de combater os escândalos sem ser escandalizado. Mais importante ainda, é o único caminho para Deus.

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O melhor temperamento é…
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O melhor temperamento é…

O melhor temperamento é…

Como nascemos todos com o pecado original, não existe um temperamento melhor do que o outro. É preciso aproveitar as qualidades da própria “compleição”, trabalhar as suas debilidades e, sobretudo, crescer na graça de Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Setembro de 2019
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Não é porque somos filhos de Adão e desenvolvemos certos maus hábitos ao longo dos anos que precisamos envelhecer no mal e fazer dele um projeto de vida. O temperamento que recebemos “não é uma resignação”. Deus nos deu uma “compleição” específica, mas é no trabalho e na purificação dela que está a nossa santificação.

Além disso, coléricos ou sanguíneos, fleumáticos ou melancólicos, todos somos herdeiros do pecado original. Por isso, no estado em que nos encontramos, não existe um temperamento melhor do que o outro. É preciso aproveitar as próprias qualidades, sanar as próprias debilidades e, sobretudo, procurar crescer na graça de Deus, que nos eleva acima de nossa natureza decaída.

Tudo isso é só para dizer que nós já estamos trabalhando na produção do curso “Os Quatro Temperamentos” e, abaixo, você confere um pouco do que espera por você em outubro, aqui no site do Padre Paulo Ricardo:

Como você pode ver na própria abordagem do vídeo, nosso curso não é um “manual” de cunho psicológico sobre os temperamentos. Para nosso apostolado, o importante mesmo é ver onde esse assunto se encaixa no caminho da santidade

Se por um lado não se deve superestimar a sua importância, como se fôssemos “animais” e estivéssemos confinados aos limites do que a natureza nos impôs, nem por isso os temperamentos devem ser subestimados, como se não passassem de uma “teoria ultrapassada”, sem nada a acrescentar à nossa vida de virtudes e de busca de Deus.

Se você quer saber melhor como esse assunto é tratado dentro do sadio equilíbrio da espiritualidade cristã, inscreva-se agora mesmo em nossa lista exclusiva para este curso e receba todas as atualizações a respeito!

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