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Septuagésima: uma Coleta desde o exílio
Liturgia

Septuagésima:
uma Coleta desde o exílio

Septuagésima: uma Coleta desde o exílio

Se a Quaresma recorda os quarenta anos de Israel no deserto, a Septuagésima evoca os seus setenta anos de exílio na Babilônia, quando o povo escolhido sentia tantas saudades de sua terra a ponto de não conseguir entoar sequer um cântico de Sião.

Gregory DipippoTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Fevereiro de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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A pré-Quaresma, ou Septuagésima (aproximadamente, o 70.º dia antes da Páscoa), começou com as Primeiras Vésperas deste domingo [1]. Esse período fascinante, que dura duas semanas e meia, atua como ponte entre o júbilo do ciclo do Natal e a austeridade da Quaresma. Usam-se vestimentas violáceas e suprimem-se o Glória e o Aleluia, mas não há nenhum jejum obrigatório; de fato, foi o velho costume de acabar com as comidas proibidas durante a Quaresma que levou aos excessos do Carnaval. 

As orações próprias da Septuagésima são uma lição perfeita de como nos aproximar do ciclo da Quaresma e da Páscoa. Durante as Matinas deste tempo [N.T.: o atual Ofício das Leituras], a Igreja contempla a Queda de Adão: aquele fatídico ato, aquela felix culpa — como escutaremos durante o Exultet no Sábado Santo — que apressa nossa redenção através da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. 

A Coleta para o Domingo da Septuagésima é igualmente instrutiva:

Preces pópuli tui, quáesumus, Dómine, clementer exaudi: ut, qui iuste pro peccátis nostris afflígimur, pro tui nóminis gloria misericórditer liberémur. Per Dóminum. — Atendei com clemência, nós vos pedimos, Senhor, as orações do vosso povo, a fim de que nós, que com justiça somos afligidos por nossos pecados, pela glória do vosso nome sejamos misericordiosamente libertados. Por Nosso Senhor.

Assim como a Quaresma recorda os quarenta anos que os hebreus passaram no deserto, a Septuagésima evoca os setenta anos do exílio babilônico, quando o povo escolhido sentia tantas saudades de sua terra a ponto de não conseguir entoar sequer um cântico de Sião:

Junto dos rios de Babilônia, ali nos assentamos a chorar,
lembrando-nos de Sião.
Nos salgueiros que lá havia,
penduramos as nossas cítaras.
Os mesmos que nos tinham levado cativos pediam-nos
que cantássemos (os nossos) cânticos.
E os que à força nos tinham levado diziam:
Cantai-nos um hino dos cânticos de Sião.
Como cantaremos o cântico do Senhor
em terra estranha (lhes respondemos) (Sl 136, 1-4).

A supressão da palavra “Aleluia” durante todo esse tempo é uma conveniente imitação dos hebreus quando se recusavam a cantar junto aos rios da Babilônia, já que o Aleluia é uma canção nos lábios dos anjos e santos em nossa verdadeira pátria, que é o Céu

A Septuagésima e a Quaresma são, assim, lembretes sérios de nossa condição de peregrinos vivendo a leste do Éden [2], “afligidos com justiça por nossos pecados” neste vale de lágrimas [3].

Mas ainda que sejamos afligidos com justiça, nós rezamos para que Deus “atenda com clemência” nossas orações. O pedido clementer exaudi, que ocorre três vezes nas orações do rito romano, é um tanto quanto difícil de traduzir. Audi significa escutar; ex-audi significa escutar com clareza, prestar atenção, conceder, ou até mesmo obedecer. Clementer é a forma adverbial de clemens, de onde vem clementia, “clemência”. Tanto em latim quanto em português, a palavra clementia traz consigo uma conotação jurídica, como quando o juiz demonstra clemência ao emitir sua sentença; e um dos títulos que recebiam os imperadores romanos era Clementia tua (literalmente “Vossa Clemência”, ou “Vossa Graça”). Por meio desta Coleta, estamos, essencialmente, reconhecendo que somos pecadores, ao mesmo tempo que imploramos por clemência.

E por que Deus, o supremo Juiz, a demonstraria a pecadores miseráveis como nós? Porque, diz a Coleta, esse ato dará glória ao seu nome. Talvez seja o povo que, livre dos seus pecados, dê glória a Deus, ou talvez o ato de clemência, em si mesmo, conte como um ato glorioso. Seja como for, a esperança de quem pede é que Deus seja impelido a agir pela glória do seu nome. Essa esperança, eco do Sl 78, 9 — Adiuva nos, Deus, salutaris noster; et propter gloriam nominis tui, Domine, libera nos, “Ajuda-nos, ó Deus, salvador nosso, e pela glória do teu nome, Senhor, livra-nos” —, está presente em toda Missa no Suscipiat (“Receba o Senhor por tuas mãos…”), quando o povo fiel pede a Deus que aceite o sacrifício eucarístico para o louvor e a glória do seu nome.

No Antigo Testamento, porém, a glória de YHWH (Javé) é também um verdadeiro “fenômeno físico indicativo da presença divina”, que apareceu no monte Sinai, no Tabernáculo, no Templo e que geralmente se manifesta como uma forma de luz [4]. As orações da Igreja na Páscoa aplicam essa luz à glória da Ressurreição; assim, quando a Coleta da Septuagésima pede por libertação pela glória do nome de Deus, ela já está prevendo aquela Luz no fim do túnel penitencial em que agora estamos entrando, trazendo-nos a esperança de que nossas mortificações encontrem um feliz resultado [5].

Notas

  1. Já escrevemos a esse respeito, mas não custa lembrar: o Tempo da Septuagésima não está mais presente na atual forma do rito romano. O Summorum Pontificum, no entanto, iniciativa do Papa emérito Bento XVI, torna possível que os católicos de qualquer lugar revivam essa tradição litúrgica em suas próprias casas e com suas famílias (N.T.).
  2. “A leste do Éden” é uma referência à terra de Node, para onde a Sagrada Escritura diz que Caim foi exilado (N.T.).
  3. Esta frase está ausente no novo Missal. A oração que mais se aproxima de sua redação é uma opcional de pós-comunhão para a Missa votiva In Quacumque Necessitate: Tribulatiónem nostram, quáesumus, Dómine, propitius réspice, et iram tuæ indignatiónis, quam pro peccátis nostris iuste merémur, per passiónem Filii tui, propitiátus averte. Per Christum, “Olhai propício a nossa tribulação, nós vós pedimos, Senhor, e aplacado pela paixão de vosso Filho, afastai de nós a ira de vossa indignação, que com justiça merecemos por nossos pecados. Por Cristo...” (N.A.).
  4. Mary Pierre Ellebracht. Remarks on the Vocabulary of the Ancient Orations in the Missale Romanum (Dekker & Van de Vegt N.V.), 32-33.
  5. O texto original foi levemente adaptado para esta publicação. A pintura acima escolhida é dos “Judeus de Luto no Exílio Babilônico”, por Eduard Bendemann (N.T.).

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As confissões de um ex-ideólogo de gênero
Testemunhos

As confissões de
um ex-ideólogo de gênero

As confissões de um ex-ideólogo de gênero

Professor universitário renomado volta atrás em relação à ideologia de gênero: “Decepcionante ver que os pontos de vista que eu costumava defender com tanto fervor, e com tão poucos fundamentos, foram hoje aceitos por tantas pessoas na sociedade”.

Calvin FreiburgerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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Um historiador canadense que ajudou a popularizar a ideia de gênero como construção social para preservar estruturas de poder tradicionais veio a público fazer um mea culpa sobre sua obra pregressa. Ele não apenas repudiou as consequências do transgenerismo, como admitiu que havia se baseado parcialmente em informações manipuladas para que se confirmassem os seus preconceitos ideológicos.  

Christopher Dummitt, professor associado da School for the Study of Canada, na Trent University, publicou no dia 17 de setembro de 2019, no portal Quillette, um ensaio no qual ele explica sua antiga convicção de que o “sexo era integralmente uma construção social que só dizia respeito ao poder”, admite que sua “grande ideia” passou por cima do bom senso biológico e da liberdade de expressão, e apresenta um “mea culpa por sua responsabilidade em tudo isso”.   

Em 2007, Dummitt publicou um livro sobre o assunto, o qual foi intitulado The Manly Modern: Masculinity in Postwar Canada [“A Virilidade Moderna: Masculinidade no Canadá do Pós-Guerra”]. Em 1998, já havia publicado um artigo baseado em sua dissertação de mestrado, intitulado Finding a Place for Father: Selling the Barbecue in Postwar Canada [“Encontrando um Lugar para o Pai: Vendendo Churrasco no Canadá do Pós-Guerra”]. Segundo ele, o livro foi citado em trabalhos subsequentes sobre o tema, e o seu artigo “foi republicado diversas vezes em manuais para estudantes universitários”.

Apesar do sucesso profissional, Dummitt admite que hoje “se envergonha de alguns dos conteúdos” porque, embora tenha “acertado parcialmente em alguns pontos”, “todo o restante foi basicamente inventado”.

Em seguida, Dummitt faz um esboço do processo por meio do qual inventou e sustentou suas alegações, começando com uma declaração como esta: “Houve uma grande quantidade de variações históricas e culturais” em relação à definição de sexo. Para sustentar essas alegações, “eu tinha meus exemplos favoritos, e finalmente os encaixava em anedotas concisas que eu podia usar em palestras ou conversas”, tais como a mudança de associação das cores azul e rosa aos dois sexos. 

“Em segundo lugar, eu argumentava que toda vez que dizíamos a alguém que algo era masculino ou feminino, aquilo nunca dizia respeito apenas ao sexo”, prossegue. “Aquilo sempre referiria simultaneamente ao poder. E o poder continua sendo uma espécie de palavra mágica na Academia”.

“Portanto, quando alguém negava que gênero e sexo variavam, quando sugeriam que realmente havia algo atemporal ou biológico em relação ao sexo e ao gênero, de fato estavam justificando o poder. Eram apologistas da opressão”, explica. “Isso soa familiar?”

Depois disso, ele “foi em busca de alguma explicação no contexto histórico que mostrasse, num determinado momento histórico, por que as pessoas se referiam a algo como masculino ou feminino”. Ele mesmo admitiu que podia “manipular” os detalhes porque “a história é um lugar imenso. Então, sempre havia algo para encontrar”. 

Dummitt argumenta que estava em “território seguro”, visto que ele “ficava preso aos documentos e reconstruía o que as pessoas falavam”, mas as conclusões que tirava deles eram “intelectualmente falidas” porque “vinham de minhas crenças ideológicas — ainda que, naquela ocasião, eu não tivesse descrito aquilo como ideologia”.

“Eu deveria ter sido mais esperto. Se fosse me submeter a uma psicanálise retroativa, diria que realmente eu era mais esperto”, confessa Dummitt. “Por isso fiquei tão nervoso e fui tão assertivo sobre o que achava que sabia. O objetivo era esconder o fato de que, num nível muito elementar, eu não tinha prova de parte do que estava dizendo. Então, fiquei preso a argumentos de forma fervorosa e denunciei pontos de vista alternativos. Não foi algo belo do ponto de vista intelectual. Por isso é tão decepcionante ver que os pontos de vista que eu costumava defender com tanto fervor — e com tão poucos fundamentos — foram hoje aceitos por tantas pessoas na sociedade”. 

Dummitt também observa que seu envolvimento com a ideologia de gênero se explicava parcialmente pelo fato de nunca ter confrontado pontos de vista acadêmicos divergentes. “A crítica de Steven Pinker ao construcionismo social, The Blank Slate: The Modern Denial of Human Nature [‘A Lousa em Branco: a Negação Moderna da Natureza Humana’], foi publicada em 2002 antes que eu terminasse meu doutorado e depois que publiquei meu livro. Porém, não tinha ouvido falar dele, e ninguém nunca me sugeriu que eu tivesse de lidar com seus argumentos e evidências”, observa. “Isso bastaria para lhe revelar muito da bolha em que todos nós vivíamos”.

Ele argumenta que esses problemas são generalizados no campo da “história de gênero”, e aquilo que é considerado “prova” na verdade não passa de um grupo de acadêmicos que gostam de citar-se mutuamente como afirmação.

“Meu raciocínio falho e outros acadêmicos que usam o mesmo tipo de raciocínio agora são usados por ativistas e governos para transformar em lei um novo código moral de conduta”, lamenta Dummitt. “Era diferente quando eu bebia com colegas de graduação e lutava no irrelevante mundo do nosso próprio ego. Mas hoje muitas outras coisas estão em jogo”. Ele ainda crê que o gênero é “socialmente construído” em alguns casos, mas “os críticos dos construcionistas sociais estão certos em erguer as sobrancelhas diante das assim chamadas provas apresentadas por supostos especialistas”.      

“Até que haja acadêmicos seriamente críticos e ideologicamente divergentes quanto a sexo e gênero”, conclui Dummit, “e até que a revisão ‘por pares’ seja mais do que uma forma de controle intra-grupo, teremos de ser, de fato, bastante céticos sobre muito do que se considera ‘expertise’ quanto à construção social de sexo e gênero”.

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São José, o primeiro adorador do Verbo encarnado
Santos & Mártires

São José, o primeiro
adorador do Verbo encarnado

São José, o primeiro adorador do Verbo encarnado

Como habitou no seio de Maria e viveu em Nazaré, Nosso Senhor está presente no sacrário de cada igreja católica. O que muitas vezes falta em nossos templos são almas que se pareçam com São José, e adorem Jesus presente e escondido no tabernáculo.

Pe. Donald CallowayTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 16 minutos
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Interessado em São José e desejoso de aumentar a sua devoção a este grande santo? Então não deixe de se inscrever para o curso do Pe. Paulo Ricardo justamente sobre o excelso Patrono da Santa Igreja Católica!


Quantas vezes S. José, como um pardal solitário, abrigou-se sobre o telhado daquele templo sagrado da divindade, a fim de contemplar o divino Menino dormindo em seus braços ao mesmo tempo que pensava no seu próprio repouso eterno no seio do Pai celestial? — Bem-aventurado Guilherme José Chaminade [1].

Para onde quer que S. José fosse com sua esposa e Filho, sua casa se tornava uma capela de adoração. Nazaré, Belém e o Egito são todos lugares onde ele contemplou a presença divina de Jesus Cristo e recebeu outros para fazerem a mesma coisa. Nesse sentido, S. José é o fundador das capelas de adoração e, com sua esposa, foi o primeiro a conduzir uma procissão com o Corpo e o Sangue de Cristo.

Junto com Jesus e Maria, S. José deu ao mundo a maior capela de adoração conhecida pelos homens: a Igreja Católica. Graças a Maria e a S. José, aliás, todos os templos católicos ao redor do mundo têm um tabernáculo guardando a presença real de Jesus Cristo — Cristo presente em seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade.

Ninguém é capaz de descrever a adoração da nobre alma de S. José. Ele não viu nada, e ainda assim acreditou; sua fé teve de perscrutar o véu virginal de Maria. Por isso, você deve agir do mesmo modo! Sob o véu das espécies sagradas, sua fé deve enxergar Nosso Senhor. Peça, então, a S. José uma fé viva e constante. — S. Pedro Julião Eymard [2].

Em Nazaré, S. José já se achava a poucos centímetros da presença “tabernaculada” de Deus no ventre de Maria, por assim dizer, meses antes de o anjo ter-lhe revelado que sua esposa estava grávida do Menino. O Deus encarnado estava vivendo e crescendo dentro do ventre de Maria. E o Senhor estava preparando José para ser o amado pai do maior tesouro que o mundo jamais conheceu: o Filho de Deus encarnado.

Como todo homem recém-casado, S. José também nunca quis ficar longe de sua esposa. Por essa razão, ele deve ter ficado bastante surpreso quando Maria lhe manifestou o desejo de passar três meses com sua prima Isabel. Quando lemos este episódio no Evangelho, nós acabamos presumindo que Maria não pediu a S. José que a acompanhasse até a casa de Isabel. As Sagradas Páginas, contudo, não nos dizem o que realmente aconteceu, senão que Maria foi às pressas para a região montanhosa. Não ficamos sabendo se S. José foi ou não com ela.

Muitos santos e místicos — por exemplo, S. Bernardo de Claraval, S. Boaventura, S. Bernardino de Sena, S. Francisco de Sales, a Venerável Maria de Ágreda, a Bem-aventurada Ana Catarina Emmerich e outros — acreditam que S. José realmente acompanhou Maria até a casa de Isabel. Afinal, por que ele não iria com ela? Que tipo de esposo ele seria se deixasse sua jovem e bela esposa fazer tal viagem desacompanhada do esposo? De fato, o Novo Testamento não nos conta explicitamente que S. José foi com Maria, mas também não diz explicitamente que ele não foi. De uma perspectiva marital, como ele poderia ficar longe dela por tanto tempo? Faria muito mais sentido, portanto, que S. José a tivesse acompanhado, e mesmo permanecido por lá durante os três meses. Porque, além de uma longa jornada de Nazaré até as regiões montanhosas onde vivia Isabel (quase 160 km), coisas horríveis também poderiam acontecer com a bela esposa de S. José durante o caminho. 

Que homem recém-casado não estaria preocupado com tal jornada, especialmente quando esta envolve caminhar e dormir em lugares perigosos? Nenhum homem mentalmente sadio ficaria para trás.

Nos escritos místicos da Venerável Maria de Ágreda, Maria SS. e S. José têm uma conversa adorável sobre a Visitação:

[Maria a S. José:] “Meu senhor e marido, o Bom Deus agradou-se em me iluminar, informando-me que minha prima Isabel, apesar de infértil, agora está esperando um filho há muito desejado. Portanto, acho que pode ser adequado eu ir visitá-la para ajudá-la e confortá-la espiritualmente. Se isso, meu senhor, estiver de acordo com tua vontade, eu o farei. Considera o que pode ser melhor e diz-me o que devo fazer.

[S. José a Maria:] “Bem sabes, minha senhora e minha esposa, que teus desejos são meus e que confio plenamente na tua prudência, pois a tua mais sincera vontade não se inclinaria a nada que não fosse da maior satisfação do Altíssimo. Então, acredito que seja a mesma coisa com essa jornada. E para que não pareça estranho que tu a empreendas sem a companhia de teu marido, seguir-te-ei com alegria para ser útil a ti no caminho, até que tu alcances o teu destino [3].

Ainda que José não tenha permanecido os três meses com Maria na casa de Isabel, é bem provável que ele ao menos a tenha acompanhado, a fim de mantê-la a salvo de ladrões e homens mal intencionados. E, chegando à casa de Isabel com Maria, ele teria voltado sozinho para Nazaré. Depois de três meses, ele teria feito a viagem de volta para a casa de Isabel e escoltado com segurança sua esposa até Nazaré. Se isso, pois, aconteceu mesmo, S. José conduziu, sem saber, a primeira procissão com o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor.

Para uma meditação razoável, digamos que José ao menos acompanhou Maria à casa de Isabel. E o que ele deve ter experimentado ao chegar lá? Bem, ele provavelmente ouviu a saudação, cheia do Espírito Santo, de Isabel a Maria:

Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Como me acontece que a mãe do meu Senhor venha a mim? Logo que ressoou aos meus ouvidos a tua saudação, a criança pulou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque se cumprirá o que lhe foi dito da parte do Senhor (Lc 1, 42-45).

E o que S. José deve ter pensado da saudação de Isabel? Ora, aquelas palavras devem ter-lhe parecido estranhas. Até porque ele de forma alguma teria entendido o significado teológico daquilo, uma vez que não tinha ideia de que sua esposa estava grávida. No entanto, como um homem de profunda oração, ele deve ter ponderado tais palavras e levado tudo à oração. Ele pode não ter entendido o significado daquilo no momento, mas meses depois, quando percebeu que Maria estava grávida, certamente se lembrou das palavras de Isabel. Lembrando que Isabel chamara Maria de “Mãe do meu Senhor”, os olhos de José devem ter sido abertos para a realidade plena do que estava acontecendo no ventre de sua esposa. E, como todo judeu devoto, José também não ignorava as Escrituras que afirmam que uma virgem daria à luz o Messias (cf. Is 7, 14). Por isso, percebendo tamanha maravilha, ele deve ter-se sentido completamente indigno de ser marido [de Maria] e pai de uma criança como aquela.

A possibilidade de José ter acompanhado Maria e ouvido a inspirada saudação de Isabel nos ajuda a entender por que ele nunca duvidou de Nossa Senhora ou quis divorciar-se dela. Como Isabel, ele ficou maravilhado com a revelação de que sua amada esposa estava grávida de um filho celestial. E, sendo um homem justo e temente a Deus, José não se considerava digno de viver sob o mesmo teto que Maria e de servir como pai da criança em seu ventre. Como ele poderia ser digno de ser marido de tal esposa? Como ele poderia levar tal mãe e filho para sua casa e submetê-los aos seus cuidados? De fato, nada menos que um anúncio angelical o impediria de se retirar da situação.

Por outro lado, se S. José não acompanhou sua esposa à casa de Isabel, imagine a solidão que ele deve ter sentido por estar sem Maria por três meses. Uma separação de tal duração teria sido uma tortura para seu coração. O coração de S. José deve ter esperado ansiosamente para se reunir com sua amada. A ideia de ouvir a voz dela outra vez deve ter ocupado sua mente dia e noite. Como seu coração deve ter batido forte de alegria com o retorno de sua rainha após três longos meses.

“A Sagrada Família com o Infante Batista”, de Murillo.

Quer ele tenha acompanhado Maria à casa de Isabel ou não, ele provavelmente viajou com sua esposa e Filho para ver Isabel, Zacarias e S. João Batista, em “visitas” posteriores. Esses tipos de visitas são corriqueiras. A intuição católica sempre soube disso e, por essa razão, retratou essas visitações na arte. Cenas de Maria, José, o Menino Jesus e João Batista são proeminentes na arte católica em todo o mundo. Afinal, Jesus e João eram parentes. Eles devem ter brincado e rezado juntos durante as muitas visitas que aconteceram ao longo dos anos. S. José, de fato, pode não ter presenciado a saudação de Isabel, ou testemunhado o nascimento de S. João Batista, mas ele com certeza ouviu e falou com S. João Batista em outras visitas familiares. S. José e S. João Batista provavelmente se conheceram.

Se, portanto, a primeira procissão com Jesus foi para a casa de Isabel, a segunda procissão aconteceu quando S. José viajou com sua esposa grávida para Belém, a fim de serem inscritos no censo. Nesta procissão, José estabeleceu a primeira capela de adoração do mundo: Belém. O Venerável Joseph Mindszenty recorda, nesse sentido, que “S. José foi apressado com Maria a Belém, que significa ‘casa do pão’, para que ali nascesse o pão da vida eterna” [4].

Ora, nada mais apropriado do que a primeira exposição pública do Pão vivo do Céu ocorrer justamente em Belém. Como bem lembra o Venerável Joseph Mindszenty, a palavra Belém em hebraico significa “casa do pão”. Em árabe, por sua vez, Belém significa “casa da refeição” ou “casa da carne”. Nosso Senhor Jesus, o verdadeiro Pão que desceu do Céu, nasceu na pobreza e foi colocado na manjedoura por uma razão: sendo um rei humilde, ele quis que S. José o colocasse numa manjedoura pobre, porque a manjedoura é onde os animais se alimentam. E a palavra “manjedoura” está relacionada a uma palavra italiana muito conhecida: mangiare (comer).

Ó tão íntima familiaridade a de estar sempre com Deus, falar só com Deus, trabalhar, descansar, conversar na companhia e na presença de Deus! Quantas vezes o bem-aventurado tutor do Menino Jesus, como uma abelha casta, colheu o néctar da devoção pura desta bela flor de Jessé! Quantas vezes ele, José, como uma pomba, se escondeu no interior desta rocha! — Bem-aventurado Guilherme José Chaminade.

A primeira capela de adoração foi visitada por pastores locais, seguidos de perto por sábios vindos de uma terra distante só para homenagear o recém-nascido Deus-Rei, deitado numa manjedoura. Porém, S. José não estabeleceria a adoração apenas na Terra Santa. S. José estabeleceu a segunda capela de adoração em território pagão: o Egito.

S. José é ousado.

Quando Jesus nasceu, o Egito era território pagão e o celeiro do mundo. Por essa razão, foi muito oportuno o fato de Deus ter enviado José ao Egito! Lá, S. José foi o responsável por criar a Hóstia viva que alimentaria o mundo. O José do Velho Testamento salvou seu povo da fome distribuindo grãos do Egito. De modo semelhante, o novo José ofereceria ao mundo o “grão” que ele amorosamente havia cultivado no Egito, o Pão vivo que dá vida eterna!

Depois dessa passagem pelo Egito, José e Maria voltaram com Jesus para Nazaré. Essa longa caminhada foi, e continua sendo, a maior procissão do Corpo e Sangue de Cristo já realizada. Foi uma procissão que percorreu mais de 190 km.

Uma vez em Nazaré, José e sua esposa adoraram a presença divina de Jesus em sua casa por décadas. Em certo sentido, era como uma casa de adoração perpétua e contemplação ininterrupta, mesmo enquanto se realizavam todas as tarefas diárias e afazeres da vida doméstica. A adoração durou décadas!

Se os dois discípulos que iam a Emaús foram inflamados de amor divino apenas pelos poucos momentos que passaram em companhia de Nosso Salvador e por suas palavras — tanto assim, que eles disseram: “Não estava ardendo o nosso coração, quando ele nos falava pelo caminho e nos abria as Escrituras?” (Lc 24, 32) —, que chamas de santo amor não devemos supor que foram acesas no coração de S. José, que por trinta anos conversou com Jesus Cristo e ouviu suas palavras de vida eterna?S. Afonso de Ligório [6].

Mesmo que Jesus estivesse fora de casa, trabalhando ou viajando, José ainda permanecia na presença de Deus quando estava perto de sua esposa. Deixe-me explicar.

A Sagrada Família, por Francisco de Goya y Lucientes.

Você já ouviu falar de microquimerismo fetal, por vezes também chamado de microquimerismo fetomaternal? É um termo longo e complicado, eu sei, mas que revela algo maravilhoso sobre a conexão biológica entre uma mãe e um filho. Microquimerismo fetal é o termo científico que descreve o processo no qual células vivas de uma criança permanecem no corpo de sua mãe após o término da gravidez. No final do século XX, os cientistas descobriram que, quando uma mulher fica grávida, as células de seu bebê permanecem no corpo da mãe, mesmo após ela dar à luz. E muitas dessas células permanecem no corpo da mãe pelo resto de sua vida.

Aliás, os cientistas e pesquisadores também descobriram que esse intercâmbio celular, por assim dizer, também ocorre em outra direção; células da mãe migram para o corpo de seu filho e permanecem no corpo dele pelo resto de sua vida! Isso é incrível.

Nesse sentido, embora S. José não soubesse nada de microquimerismo fetal, Deus continuou a abençoá-lo com a presença de Jesus sempre que ele estava na presença de sua esposa. Estar perto de Maria é estar perto de Jesus. Jesus vive nela! Maria tem em seu corpo algumas das células vivas de seu Filho divino. Por isso, Nosso Senhor não precisava estar na casa de José para que seu pai adotivo permanecesse na presença de Deus. Onde quer que Maria estivesse, Jesus estava. A esposa de S. José é um tabernáculo vivo, uma custódia ambulante, um templo velado. Não admira que os demônios não ousem chegar perto de Maria — ela nunca está sem a presença divina. Deus mora em seu corpo!

Se o lírio, por estar exposto apenas por alguns dias à luz e ao calor do sol, adquire sua alvura deslumbrante, quem pode conceber o extraordinário grau de pureza a que S. José foi exaltado, por estar exposto como estava dia e noite, durante tantos anos, aos raios do Sol de Justiça e da Lua Mística que deriva todo o seu esplendor de Jesus? — S. Francisco de Sales [7].

Feliz és tu, SS. Patriarca, pelas horas agradáveis que passaste contemplando com alegria Jesus e desfrutando com prazer da encantadora beleza interior e exterior de Maria! Tu os contemplaste constantemente, extraindo doçura, paciência e abnegação de seus corações. — Bem-aventurada Conchita Cabrera [8].

Padres, monges e freiras têm o privilégio de experimentar algo do que seria viver como S. José. Cada mosteiro e/ou convento tem um tabernáculo que abriga a presença divina; todos os tabernáculos são basicamente uma réplica do templo corporal de Maria. Não importa se o tabernáculo está velado ou se as portas estão fechadas: Jesus ainda está lá. A mesma coisa se passou na sagrada casa de Nazaré. Deus viveu em Maria o tempo todo, e José estava perpetuamente na presença de Jesus. “A marca do cristão é a disposição de buscar o Divino na carne de um bebê no berço, bem como Cristo sob a aparência do pão no altar”, diz Fulton Sheen [9].

Maria, o tabernáculo de Deus, é reproduzida em cada tabernáculo de uma igreja católica. O que muitas vezes falta diante desses tabernáculos, no entanto, são almas que se pareçam com José — almas que adoram Jesus presente e escondido no tabernáculo. A Igreja precisa de mais pessoas como S. José. “Devemos implorar por bons adoradores; o Santíssimo Sacramento precisa deles como sucessores de S. José e imitadores de sua vida de adoração”, afirmava S. Pedro Julião Eymard [10].

Para ser como S. José, consequentemente, você também precisa adorar a Cristo. E você pode fazer isso indo a uma igreja católica mais próxima, onde Jesus está presente em Corpo, Sangue, Alma e Divindade, no SS. Sacramento. A Eucaristia é Jesus Cristo. O SS. Sacramento é a fonte e o ápice da fé cristã, e José quer levar você a um relacionamento mais profundo com Jesus Eucarístico.

Em 1997, João Paulo II conduziu uma visita papal ao Santuário de S. José, em Kalisz, Polônia, e contou aos presentes que, antes de cada uma de suas Missas, ele rezava a seguinte oração a S. José:

Ó homem bem-aventurado, S. José, a quem foi dado não só ver e ouvir Deus, que muitos reis queriam ver e não viram, ouvir e não ouviram (cf. Mt 13, 17), mas também levá-lo nos braços, beijá-lo, vesti-lo e protegê-lo!

Deus, vós que nos concedestes o sacerdócio régio, fazei, nós vos pedimos, que como S. José, o qual mereceu tocar e com respeito levar nos seus braços o vosso Filho unigênito, nascido de Maria Virgem, possamos obter a graça de servir junto dos vossos altares, com a pureza do coração e com a inocência das obras, a fim de recebermos hoje dignamente o sacratíssimo Corpo e Sangue do vosso Filho e merecermos o prêmio eterno no mundo futuro [11].

Passe, portanto, algum tempo na presença de Jesus no SS. Sacramento. Se houver adoração perpétua em uma igreja em seu bairro, inscreva-se para uma hora santa semanal. A adoração mudará sua vida. Mas se não houver uma igreja com adoração perpétua em seu bairro, há às vezes alguma paróquia que expõe o Santíssimo algumas horas por dia ou em um determinado dia da semana para a adoração dos fiéis. Vá! Mas se ainda assim você não conseguir encontrar uma igreja que ofereça a exposição do SS. Sacramento, simplesmente visite qualquer igreja católica e reze diante do sacrário. Jesus está lá noite e dia. E ele espera por você. Seja outro S. José para Jesus e Maria! “Quando você visitar o SS. Sacramento, aproxime-se de Jesus com o amor da SS. Virgem, de S. José e de S. João”, orientava S. José Sebastião Pelczar [12].

Ó Bem-aventurado José, adoro convosco as primeiras palavras que saíram da boca do Verbo encarnado. Prostro-me convosco para beijar com reverência as primeiras pegadas deixadas pelos seus adoráveis pés. Ó Deus infinito, tu te tornaste fraco para nos dar força; quiseste falar como as outras crianças para nos ensinar a língua do Céu! Ó beato José, inspira-me os teus sentimentos por Jesus e obtém-me a graça de amar a Deus como tu. Amém. — Bem-aventurado Bártolo Longo [13].

Referências

  1. Bem-aventurado Guilherme José Chaminade, Marian Writings. Dayton, OH: Marianist Press, 1980, p. 235, v. 1.
  2. S. Pedro Julião Eymard, Month of St. Joseph. Cleveland, OH: Emmanuel Publications, 1948, p. 51.
  3. Venerável Maria de Ágreda apud Sandro Barbagallo, St. Joseph in Art: Iconology and Iconography of the Redeemer’s Silent Guardian. Citta del Vaticano: Edizioni Musei Vaticani, 2014, p. 33.
  4. Venerável Joseph Mindszenty, The Mother. St. Paul, MN: Radio Replies Press, 1949, p. 42.
  5. Bem-aventurado Guilherme José Chaminade. op. cit. , p. 235.
  6. S. Afonso de Ligório, The Glories of Mary. Charlotte, NC: TAN Books, 2012, p. 596.
  7. S. Francisco de Sales apud Pe. Nicholas O’Rafferty, Discourses on St. Joseph. Milwaukee, WI: Bruce Publishing Co., 1951, p. 203.
  8. Bem-aventurada Conceição Cabrera de Armida, Roses and Thorns. Staten Island, NY: Society of St. Paul, 2007, p. 53.
  9. Venerável Fulton Sheen, The World’s First Love: Mary, Mother of God. San Francisco, CA: Ignatius Press, 1996, p. 211.
  10. S. Pedro Julião Eymard, op. cit. p. 2.
  11. S. João Paulo II, Homilia na Capela de S. José em Kalisz. 4 de jun. de 1997.
  12. S. José Sebastião Pelczar, Thoughts of St. Joseph Sebastian Pelczar for Every Day of the Year.
  13. Bem-aventurado Bártolo Longo, Il Mese di Marzo: In Onore di San Giuseppe. Pompei, Italy: Pontificio Santuario di Pompei, 2001, p. 63.

Notas

  • Texto extraído de: Pe. Donald H. Calloway, Consecration to St. Joseph: The Wonders of Our Spiritual Father. Stockbridge: Marian Press, 2020, p. 172s.

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Santo Tomás, mestre de piedade
Santos & Mártires

Santo Tomás,
mestre de piedade

Santo Tomás, mestre de piedade

Santo Tomás, se é mestre nos estudos, não o é menos na piedade. Só ele, entre todos os Doutores, soube unir na mais perfeita amizade a erudição com a virtude, a verdade com a caridade, a leitura com a oração.

Pe. Édouard Hugon, OPTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 13 minutos
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É conhecido, entre outros, o encômio com que o celebérrimo Pe. Pedro Labbe, SJ, cantou as glórias do Aquinate: “Tomás”, diz, “foi anjo antes de ser Doutor Angélico… Fala de Deus como se o tivesse visto; disputa de tal modo sobre os anjos como se fora espírito. Infunde horror ao pecado quando o mostra; torna amáveis as virtudes quando as descreve” (Elogium S. Thomæ).

Entre as virtudes especialmente amáveis e que se hão de amar brilha a piedade, que emerge de tal forma tanto da vida quanto dos escritos dele, que se pode chamar ao Angélico modelo e mestre de piedade: antes, porém, modelo que mestre, já que ele primeiro viveu o que ensinou, e por isso é mestre, porque modelo. Afirma-o também a Encíclica Studiorum ducem, enquanto admira e propõe no santo Preceptor esta aliança da doutrina com a piedade, da erudição com a virtude, da verdade com a caridade. Com efeito, segundo o Sumo Pontífice, “por certo vínculo admirável de parentesco estão unidas entre si a verdadeira ciência e a piedade, companheira de todas as virtudes”. 

Atente-se para a grande força da expressão “parentesco” (cognatio), como se ao mesmo tempo nascessem e na mesma família convivessem a ciência e a piedade. De fato, nas obras do Angélico, de modo quase espontâneo e por um suave processo, a piedade brota da Teologia como os frutos da árvore. Para pô-lo em evidência, indicaremos brevemente, após vermos a noção de piedade, como de cada tratado — sobre Deus, sobre a graça, sobre os atos humanos, sobre as virtudes, sobre a Encarnação, a Eucaristia etc. — emanam aplicações de máxima e felicíssima utilidade para a vida espiritual.

Detalhe de “O triunfo de S. Tomás”, por Benozzo Gozzoli.

1. A virtude da piedade. — A piedade, com base no nosso Doutor, pode ser definida: é a virtude moral anexa à justiça pela qual se presta o culto devido aos pais, à pátria e sobretudo a Deus, que recebe por excelência o título de Pai nosso. Pertence, com efeito, à justiça, porque tem por objeto um débito; mas se distingue da razão de justiça, porquanto não se podem recompensar os pais, a pátria e Deus segundo a medida que lhes é devida (secundum æqualitatem) e, por isso, é uma virtude anexa.

Presta culto aos que são princípio do nosso ser ou governo. Ora, o primeiro princípio desse tipo é Deus, enquanto os pais, dos quais nascemos, e a pátria, na qual fomos nutridos, são princípios secundários (STh II-II 100, 1 ad 3). Por essa razão, a piedade, que honra os pais e a pátria, predica-se por excelência do culto a Deus, assim como a Deus mesmo, por certa superexcelência, convém o nome de pai (cf. STh II-II 100, 3 ad 2).

A estas noções deve dar-se a máxima atenção nestes nossos tempos, nos quais o amor à pátria degenera por vezes até os excessos de um falso ou imoderado nacionalismo, como se fora uma “religião”. Aprendemos de S. Tomás que os pais, a pátria e Deus não devem nunca ser separados, mas amados com a mesma virtude, guardada sempre a ordem devida, segundo a razão pela qual são princípio do nosso ser. Por isso, Deus há de ser honrado e amado por excelência, de modo que nada amemos mais do que a Ele, nem contra Ele, nem tanto quanto a Ele (cf. STh II-II 134, 3 ad 2).

Ora, a piedade, enquanto virtude moral, honra o pai carnal e os outros parentes de sangue; mas, enquanto dom do Espírito Santo, honra a Deus, e assim este dom pode ser definido, com base no mesmo Doutor: Disposição da alma pela qual é facilmente movida pelo Espírito Santo a ter um afeto filial por Deus como pai (cf. STh II-II 121, 1 e 3).

Eis, portanto, cingindo-nos ao escopo que aqui temos em mira, o que há de fixar-se bem firme na mente: é próprio da piedade excitar um filial afeto por Deus enquanto pai. Daí se vê por que S. Tomás é, com justiça, chamado mestre de piedade: porque a sua doutrina, por sua força intrínseca e como que por certo calor nativo, acende este afeto, promove-o e alimenta-o. E nisto se mostra um mestre admirável, na medida em que o faz não com palavras pomposas, não à força e a lanço, mas de modo tão simples, modesto, quase a furto, inclusive nas respostas às objeções, que a nossa mente se vê banhada de inefável devoção. Assim, ao falar do efeito da Eucaristia, afirma (STh III 79, 1 ad 2): 

Como diz S. Gregório, “o amor de Deus não é ocioso: opera grandes coisas, se está presente” (Hom. 30, 2). Por isso, este sacramento, no que depende de sua própria virtude, não só confere o hábito da graça e da virtude, mas também o excita em ato, segundo S. Paulo: “A caridade de Cristo nos impele” (2Cor 5, 14). Daí se segue que, pela virtude deste sacramento, a alma se delicia espiritualmente e, de certo modo, se inebria com a doçura da bondade divina, segundo o Cântico dos Cânticos: “Amigos, comei e bebei; inebriai-vos, ó caríssimos” (Ct 5, 1).

Nestas palavras se revela, de fato, uma forte eloquência; mas, ao mesmo tempo, se franqueiam os segredos da vida interior do Doutor Eucarístico, que mais de uma vez se inebriou com a doçura da bondade divina. Ei-lo: porque piedosíssimo, pôde ser mestre de piedade.

2. O amor, a inabitação e a graça. — A semelhante conclusão se pode chegar por cada tratado. Para arrebatar-nos ao amor das coisas invisíveis, escreve sobre o amor de Deus coisas admiráveis: “É o amor de Deus que infunde e cria a bondade nas coisas” (STh I 79, 1 ad 2), princípio no qual muitíssimas vezes insiste para estabelecer a diferença entre o amor criado e o amor divino. 

Com efeito, o nosso amor, por ser débil e ineficaz, supõe um bem no amado, mas de forma alguma o produz. Por esse motivo, quando amamos um pecador, não o transformamos por isso em santo e formoso, senão que lhe cobrimos feiura: fechamos-lhe os olhos ou não lha imputamos. O amor de Deus, ao contrário, infunde o bem que ama em nós e, por isso, quando começa a amar um pecador, o torna realmente belo e justo, apagando e purificando os pecados, renovando-lhe interiormente a alma (cf. STh I-II 110, 1; 113, 1 e 2).

Assim, porque Cristo nos chama amigos, faz-nos dignos de sua amizade, verdadeiramente belos, verdadeiramente justos e santos. Só o pensamento disso está já pleno de consolação… No entanto, para tornar mais forte e intenso o nosso afeto por Deus, expõe o Angélico que Deus está presente substancialmente em nós como hóspede e amigo, para que possamos, ainda neste exílio, gozar a sua presença: “Toda a Trindade em nós habita pela graça” (De ver., q. 27, 2 ad 3), a saber: não só infundindo dons criados, mas também fazendo em nós, pessoalmente, a sua morada.

Por essa razão, conclui: “O bem da graça de um só é maior do que o bem de natureza de todo o universo” (STh I-II 113, 9 ad 2).

Caetano, que se compraz não só com sutilezas metafísicas, mas também com uma verdadeira e terna piedade, meditando estas áureas palavras de S. Tomás, exclama: “Tem sempre ante teus olhos, de dia e de noite, que o bem da graça de um só é melhor do que o bem de natureza de todo o universo, para que vejas sem cessar a condenação a que se risca quem não dá valor à perda de tamanho bem”.

3. A virtude e a paz. — Também nas questões aparentemente mais áridas sugere o S. Doutor muitos ensinamentos que ajudam e nutrem a vida espiritual. Assim, comparando o filósofo moral, o retor, o político e o teólogo, observa: 

O que o retor persuade, o político decide; ao teólogo, porém, a quem servem as demais artes, competem todos os modos mencionados. Pois ele compartilha com o filósofo moral a consideração dos atos viciosos e virtuosos, e considera, com o retor e o político, os atos na medida em que merecem ser punidos ou premiados (STh I-II 7, 2 ad 3).

Isso vale particularmente para o homem piedoso, asceta e místico, que sempre considera os atos humanos enquanto se referem à vida sobrenatural.

Pintura do Doutor Angélico na igreja de São Roque, em Acireale, Itália.

Ouvimos o Pe. Labbe louvar S. Tomás por fazer amáveis as virtudes quando as descreve. O S. Doutor mostra que toda virtude é amável, já que a beleza convém a qualquer virtude (cf. STh II-II 141, 2 ad 3); mas deve chamar-se bela, de modo especial, à virtude que afasta o homem das coisas que mais o deturpam, a saber: dos prazeres que convêm à natureza humana segundo a parte mais inferior. É por isso que a castidade é uma virtude belíssima. Ora, uma vez que o angélico é o Doutor da castidade, resplende nele uma beleza singular, aspecto no qual ele é superior a S. Agostinho, como lembra a nossa Liturgia: “Diz Agostinho assim a um irmão: ‘Tomás me é igual em glória, mas me supera em pureza virginal’” (resp. IX Matut.). A virtude da temperança auxilia a piedade, a fim de que toda a vida espiritual seja devidamente governada. Pois um homem realmente temperante deseja com moderação e sempre conforme o termo médio da razão; e, pelo mesmo motivo, se entristece com moderação (cf. STh II-II 141, 2 ad 3).

Assim se lançam em todo o homem os fundamentos daquela verdadeira paz a que S. Agostinho chamava tranquilidade da ordem. Não há como não ver o quão bela e precisa é esta definição. A paz não é apenas tranquilidade, já que pode haver certa paz aparente, fingida ou maldosa, como são os gozos desonestos do coração; mas tampouco é apenas ordem, já que a ordem pode ser ferida ou desprezada, senão que é, a um tempo, tranquilidade e ordem ou, melhor ainda, tranquilidade da ordem (cf. De civit. Dei XIX, 93). Donde se segue que o homem perfeitamente piedoso é o que possui em paz a própria alma.

4. A Paixão e a Eucaristia. — A Encarnação é um mistério de piedade, assim como a Eucaristia é o sacramento da piedade. De ambos escreveu o Angélico coisas admiráveis que alimentam uma terníssima devoção. Bastam umas poucas palavras suas para nos comovermos interiormente com as dores de Cristo.

Mostra que a dor da Paixão foi, em Cristo, maior do que todas as dores, tanto extensivamente, porque experimentou em si todas as dores, quanto intensivamente, porque nele a dor foi puríssima e, portanto, máxima (cf. STh III 46). Para intensificar em nós a compaixão, acrescenta: 

A vida corporal de Cristo foi de tanta dignidade, por causa sobretudo de sua união com a divindade, que a morte dela por uma só hora seria mais de lastimar do que a morte de outro homem, por grande que fosse a duração. Por isso diz o Filósofo (cf. EN III, 9) que o virtuoso tanto mais ama a própria vida quanto mais sabe ser ela melhor, e contudo a expõe pelo bem da virtude. Do mesmo modo, Cristo expôs sua vida maximamente amada pelo bem da caridade (STh III 46, 6 ad 4).

Tudo isso abrasa a alma de modo mais eficaz do que as orações e pregações mais refinadas e, por sua própria força, leva à seguinte conclusão: “Como não amar de volta a quem assim nos amou?” Excita também o mais possível a piedade quando fala dos efeitos da morte de Cristo, que nos libertou de nossas duas mortes, isto é, do corpo e da alma (cf. STh III 41). S. Tomás parece fazer eco a S. Efrém, o Sírio, algumas de cujas palavras vale a pena referir, para que nos ensinem hoje a piedade, ao mesmo tempo, os Doutores de Edessa e de Aquino, ou seja, a Igreja oriental e latina: “Glória a ti”, diz S. Efrém cantando a Cristo, “glória a ti, que da tua cruz fizeste uma ponte sobre a morte, a fim de que por ela passem as almas da região da morte para a da vida!” (De Domino Nostro, ed. Lamy, I 158). Belíssima poesia, que nos pinta a cruz como uma ponte sobre a morte!

No tratado sobre a Eucaristia, S. Tomás é ainda mais Doutor de piedade, expondo por que Cristo quis, na véspera de sua Paixão, instituir este sacramento: porque as coisas que fazem ou dizem por último os amigos que partem são as que mais se imprimem na memória, e é quando mais se inflama o afeto (cf. STh III 73 5); e por que nos quis consolar nesta peregrinação com sua presença corporal? Porque o mais próprio da amizade é conviver com os amigos.

Por essa razão, conclui: “Daí ser este sacramento, por tão familiar união de Cristo conosco, o sinal da maior caridade e o sustentáculo da nossa esperança” (STh III 75, 1).

5. Piedade mariana. — Tampouco há de passar em silêncio o fato de o Angélico ser mestre de verdadeira piedade à Bem-aventurada Virgem Maria.

Ele mesmo formulou o firmíssimo e universal princípio no qual se contêm todas as glórias da Beatíssima Virgem: “Na Virgem bendita devia aparecer tudo o que é perfeição” (In IV Sent., dist. 30, q. 2, a. 1, sol. 1). Prova-o pela proximidade com Cristo, fonte das graças:

Quanto mais algo se aproxima do princípio em qualquer gênero, tanto mais participa do efeito desse princípio. Pois bem, Cristo é o princípio da graça. Ora, a bem-aventurada Virgem Maria foi a mais próxima de Cristo segundo a humanidade, porque dela recebeu [Cristo] a natureza humana. Logo, devia receber de Cristo, mais do que outros, uma maior plenitude de graça (STh III 27, 5).

Não só isso. Dessa união com Cristo infere o Angélico uma afinidade com Deus. Comentando esta sentença, Caetano, piedosíssimo também nessa matéria, escreve estas conhecidíssimas palavras: 

Note-se que a junção, por consanguinidade carnal, com a humanidade assunta pelo Verbo chama-se, no texto, “afinidade com Deus” (affinitas ad Deum), de sorte que os consanguíneos de Cristo, enquanto homem, são afins de Deus segundo a razão em que “Deus” é o nome da divindade… Por isso, a Mãe dele foi constituída como afim de Deus… a única que alcança, por sua própria operação natural, os confins (ad fines) da divindade, ao conceber a Deus, dá-lo à luz, criá-lo e alimentá-lo com seu próprio leite (In STh II-II 103, 4).

Argumentos esses que são poderosíssimos estímulos para a piedade, pois se tanta dignidade tem Maria, a ponto de alcançar os confins da divindade, qual não deve ser o nosso filial afeto pela Mãe de Deus e dos homens?

6. Conclusão. — Já que não podemos repisar cada um [dos tratados], notemos apenas que a nossa piedade encontra o máximo auxílio no que ensina o Angélico acerca dos Novíssimos, sobretudo acerca da bem-aventurança celeste, dos dotes, das auréolas e das qualidades dos corpos [ressuscitados]. Aqui também se vê como se cumpre o que com veemência desejava o Sumo Pontífice Pio XI, a quem, como a protetor amantíssimo, agradece o Colégio Angelicum: Pax Christi in regno Christi, quando finalmente Deus será tudo em todos (cf. 1Cor 15, 28).

Do que sucintamente apontamos fica patente como o Mestre de piedade está sempre de mãos dadas com o Mestre dos estudos: pode, sim, mostrar o caminho nos estudos quem tão amigavelmente uniu a doutrina com a piedade, a erudição com a virtude, a verdade com a caridade. Ora, se é guia nos estudos, também nos costumes irá preparar um caminho seguro. Ora, se, como diz o Apóstolo, “a piedade é útil para tudo”, tendo a promessa da vida presente e da futura, o que foi Guia para a verdade e a piedade, será no fim Guia para a felicidade.

Notas

  • Este texto é uma tradução do artigo “Sanctus Thomas, Magister Pietatis”, do Pe. Édouard Hugon, OP, publicado originalmente em Roma, na revista Angelicum, vol. 3, n. 1 (mar. 1926), pp. 79–84.

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