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“Arrebatados” com Cristo?
Doutrina

“Arrebatados” com Cristo?

“Arrebatados” com Cristo?

Em 1Ts 4,17, São Paulo diz que aqueles que estiverem vivos quando da volta do Senhor não morrerão. Como se posiciona a Igreja com relação a essa teologia paulina? Experimentaremos a morte ou não quando da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo? Haverá arrebatamento?

Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Novembro de 2021Tempo de leitura: 2 minutos
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Recebemos no suporte do site a seguinte pergunta: “Tenho uma dúvida com a qual talvez vocês possam me ajudar. Em 1Ts 4,17, São Paulo diz que aqueles que estiverem vivos quando da volta do Senhor não morrerão. Como se posiciona a Igreja com relação a essa teologia paulina? Experimentaremos a morte ou não quando da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo? Haverá arrebatamento?”

Resposta: Em 1Ts 4,17, lê-se conforme o texto da Vulgata: Nos qui vivimus, qui relinquimur (gr. οἱ ζῶντες, οἱ περιλειπόμενοι = os que permanecemos), simul rapiemur cum illis in nubibus obviam Domino in æra. O da Neovulgata é idêntico. A tradução do Pe. Matos Soares o verte assim: “Nós os que vivemos, os sobreviventes, seremos arrebatados juntamente com eles sobre as nuvens, ao encontro de Cristo, nos ares”.

1.ª opinião: Nessas palavras, entendidas em sentido óbvio, costumam basear-se alguns autores para sustentar uma opinião que, na teologia católica, se considera apenas provável, a saber: a de que os homens que estiverem vivos no tempo da parusia não irão morrer, o que parece ser confimado por outra epístola de São Paulo, que em 1Cor 15,51s escreve: “Eis que vos digo um mistério: não morreremos todos, mas todos seremos mudados num momento” (gr. πάντες οὐ κοιμηθησόμεθα, πάντες δὲ ἀλλαγησόμεθα, ἐν ἀτόμῳ) [1].

2.ª opinião: No entanto, os que defendem a universalidade absoluta da morte, claramente atestada na Escritura (cf. Rm 5,12; 1Cor 15, 22; Hb 9, 27; ver também Gn 3,19; Sl 88,49; Eclo 41,5) explicam assim a passagem de 1Ts: os que, na vinda de Cristo, estiverem vivos irão morrer de fato, mas não serão contados entre os que dormem (lt. dormientes, termo usual na Escritura para designar “os que se encontram nos sepulcros”, cf. Jo 5,28) [2]. Nesse sentido, dever-se-iam distinguir dois eventos, provavelmente simultâneos: de um lado, a ressurreição dos que já haviam dormido; de outro, a imutação (ou transformação) dos vivos, que sofrerão primeiro uma morte quase instantânea, como sugere o trecho de 1Cor 15,51 citado acima.

Embora a 2.ª opinião, para Santo Tomás de Aquino, seja a mais segura e comum (cf. Supp. 78, 1) [3], o católico pode seguir a que julgar mais razoável, uma vez que a Igreja nunca definiu nada sobre isso. Por esse motivo, autores como Suárez, ainda que sigam o parecer majoritário entre os latinos, dizem ser mais temerário e imprudente acusar de falsa ou herética a opinião contrária do que escolher, entre as duas, a que parecer mais bem fundada a cada um. A Igreja, afinal, não nos inclina a uma mais do que à outra [4].

Em resumo, o que se deve considerar de fé nesta matéria é o seguinte: (i) haverá a ressurreição dos mortos e (ii) ela será universal, tanto para bons como para maus. Além disso, dar-se-á com o mesmo corpo, de maneira que o mesmo homem irá ressuscitar, com identidade específica e numérica [5].

Não custa lembrar, de resto, que a Igreja considera inaceitável o milenarismo tanto crasso quanto mitigado. O milenarismo crasso afirma que, antes do juízo final e da ressurreição dos mortos, Cristo virá visivelmente para reinar na terra, o que contradiz o dito em Mt 22,33 (cf. Rm 14,17); o mitigado, que ensina o mesmo, mas sem afirmar ou negar nada sobre o tempo da ressurreição, foi censurado como perigoso por decreto do Santo Ofício de 21 jul. 1944 (AAS 36 [1944] 212): “O sistema do milenarismo mitigado não pode ser ensinado com segurança” (DH 3839 = D 2296). A Escritura deixa claro, com efeito, que Cristo não reinará na terra por um período mais ou menos longo de tempo nem antes do juízo, uma vez que este acontecerá logo após a segunda vinda, nem depois, porque subirá aos céus imediatamente (cf. Mt 16,27; 25,46).

Referências

  1. Atualmente, essa é a reconstrução crítica mais provável de 1Cor 15,51, fundada nos códices BEKLP e em muitos minúsculos, além das versões síria, copta, gótica, muitos códices etiópicos e latinos, sem contar o testemunho da maioria dos Padres gregos, de Tertuliano (cf. Adversus Marc. 1, V 12: ML 2,533; De resurrectione carnis, 41s: ML 2, 899ss) e de São Jerônimo (cf. Epistola 59 3, Ad Marcell.: ML 22, 578; In Isaiam LI, 6: ML 24, 503; contudo, na Epistola 119, 2ss, ad Minervium, prefere não tomar partido). 
  2. Os que sustentam tal opinião baseiam-se também na autoridade dos Padres latinos, que com voz quase unânime defenderam a mesma tese. Costuma-se alegar ainda o decreto tridentino sobre a autenticidade da Vulgata, que no sentir de muitos excluiria como contrária ao sentido do texto a leitura crítica de 1Cor 15,51 (cf. e.g. J. B. Franzelin, De divina Traditione et Scriptura III 19; Cornely, no entanto, o põe em dúvida em Introductio Generalis I, p. 477s).
  3. Cf. Suárez, In STh III 56, 50 §2; J. Corluy, Spicilegium dogmatico-biblicum, Gante, C. Poelman (ed.), vol. 1, 1884, p. 338: “A presente questão é uma daquelas que são objeto de livre disputa entre os teólogos”.
  4. Para uma exposição detalhada de 1Ts, ver Santo Tomás de Aquino, Super I Thess. IV 2.
  5. Cf. V. Zubizarreta, Theologia dogmatico-scholastica, Bilbao, Eléxpuru Hnos. (ed), 1939, 3. ed., vol. 4, pp. 510–513, nn. 833–837.

Notas

  • Este artigo é uma tradução adaptada de H. Simón, Prælectiones biblicæ. Novum Testamentum, Turim, Marietti, 1930, 3. ed., vol. 2, p. 116, n. 579; p. 225ss, n. 703s.

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Educando nossos filhos para o martírio
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Educando nossos filhos para o martírio

Educando nossos filhos para o martírio

Prestamos um desserviço quando preparamos nossos filhos somente com o conhecimento da fé, sem um entendimento do custo que ela tem no século XXI — uma era de capitulação e apostasia que nos pede que ofereçamos “apenas uma pitada de incenso” aos ídolos.

Rob MarcoTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Novembro de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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Há alguns anos, um amigo falou-me de um livro chamado Anything: The Prayer That Unlocked My God and My Soul (“Qualquer coisa: a oração que destravou meu Deus e minha alma”, sem edição no Brasil). Embora eu nunca o tenha lido, a tese era intrigante e até um pouco… desconcertante. Uma dona de casa cristã que morava em um subúrbio e levava uma vida confortável fez certa noite a seguinte oração com o marido antes de se deitar: “Deus, nós faremos qualquer coisa. Qualquer coisa”. E Deus acreditou no que disseram.

É uma oração perigosa, que me volta à mente de tempos em tempos. Sei que o Deus a quem servimos operou milagres em nossas vidas que não consigo explicar de outra forma, por isso sei que Ele é fiel à sua palavra e capaz de mais do que posso imaginar. Ele não nos pediu mais do que nossa fé e confiança, e ainda assim nos cobriu de centenas de bênçãos e consolações.

Oração de abandono

Contudo, por causa de meus apegos, posso dizer que essa oração de abandono — na qual se dá a Deus um “cheque em branco” para que Ele o preencha com a quantia que quiser — ainda não passou pelos meus lábios. E se Ele quiser de mim algo grande — digo, algo realmente grande —, algo realmente importante para mim, sem o qual não sei se poderia viver? E se eu disser que farei qualquer coisa, e Ele tomar minhas palavras literalmente? E se Ele me tirar tudo?

Sabemos que Nosso Senhor não recebe nada do que lhe damos gratuitamente sem nos retribuir com o cêntuplo. Depositamos uma semente de mostarda que equivale ao capital da fé e colhemos os dividendos.

Em verdade vos digo: ninguém há que tenha deixado casa ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras por causa de mim e por causa do Evangelho que não receba, já neste século, cem vezes mais casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras, com perseguições — e no século vindouro a vida eterna (Mc 10, 29s).

São Paulo disse aos romanos que era um escravo de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Rm 1, 1). Ele sabia que sua vida fora resgatada por um preço e que tinha uma dívida para com aquele que o salvou. Alguém poderia replicar: mas nós não somos “amigos de Cristo, e não escravos” (cf. Jo 15, 15)? Um escravo não tem direitos, ao passo que um amigo desfruta da reciprocidade.

Jesus revelou os segredos do Reino a seus amigos mais próximos, os Apóstolos. Mas note-se o que Nosso Senhor diz no mesmo versículo: “Um escravo não sabe o que faz seu senhor”. São Paulo continua:

Não sabeis que, quando vos ofereceis a alguém para lhe obedecer, sois escravos daquele a quem obedeceis, quer seja do pecado para a morte, quer da obediência para a justiça? Graças a Deus, porém, que, depois de terdes sido escravos do pecado, obedecestes de coração à regra da doutrina na qual tendes sido instruídos. E, libertados do pecado, vos tornastes servos da justiça (Rm 6, 16ss).

Para nos tornarmos amigos de Deus, precisamos fazer o que Ele manda (cf. Jo 15, 14). Abraão, pai na fé, deu-nos exemplo disso ao não saber, de fato, o que seu Mestre estava fazendo; mas, com fé, ele “creu em Deus, e isto lhe foi tido em conta de justiça, e foi chamado amigo de Deus” (Tg 2, 23).

Costumamos dar a Deus o que nós mesmos escolhemos dar. Mas Deus pede algo de Abraão como condição para que ele desfrute do privilégio de sua amizade, algo que Abraão dá prontamente, embora aflito: seu filho, seu filho único, Isaac, a quem ama. No teste de Abraão, Deus poupa Isaac quando vê a disposição de Abraão de pôr ao Senhor acima de qualquer coisa por ele amada. Quando Deus o chamou pelo nome (“Abraão!”), Abraão consentiu (“Eis-me aqui!”) que levasse tudo, inclusive o filho.

Preocupações paternas

Ora, para qualquer pai, essa é uma história desconcertante e uma ideia repulsiva. Poderíamos recuar e perguntar: “Que tipo de Deus pede tal coisa?” Contudo, recuamos porque, pela fé, sabemos a resposta: o Deus a quem servimos “não poupou seu próprio Filho, mas por todos nós o entregou; como não nos dará também com Ele todas as coisas?” (Rm 8, 32).

Para nos tornarmos amigos de Deus, precisamos fazer o que Ele manda. E qual mandamento vem antes de todos os outros? “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fez sair do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de minha face” (Ex 20, 2s). Nada pode vir antes dele nem ser preferido a Ele, nem pais, nem esposos, nem filhos, nem trabalhos, nem casas, nem escolas, nem planos de aposentadoria, nem mesmo nossos próprios desejos devem ser colocados antes de Cristo. Quando buscamos imitar a Cristo, fazemos eco de suas palavras de obediência ao Pai: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e cumprir a sua obra” (Jo 4, 34).

Ao subirem Maria e José ao Templo para apresentar o menino Jesus ao Senhor, vemos uma força prefigurativa nas palavras de Simeão: “Eis que este menino está destinado a ser causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradição, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações. E uma espada transpassará a tua alma” (Lc 2, 24s).

O papel de Nossa Senhora

Como pai, não consigo pensar em ninguém melhor do que a Virgem Maria a quem confiar meus filhos. Nossos filhos são, em essência, nosso “cheque em branco” para Deus, mais ainda quando expressamente os oferecemos ao Senhor. Nós fizemos isto mediante a consagração da família a Maria, segundo o método de São Maximiliano Kolbe:

Ó Imaculada, Rainha do céu e da terra, refúgio dos pecadores e nossa Mãe amantíssima, a quem Deus quis confiar a inteira distribuição da misericórdia, eu, N., indigno pecador, me prostro aos teus pés, suplicando-te humildemente que me aceites todo e completamente como coisa e propriedade tua e que faças aquilo que te agrada de mim e de todas as faculdades da minha alma e do meu corpo, de toda a minha vida, morte e eternidade.

Dispõe também, se queres, de todo o meu ser, sem nenhuma reserva, para realizar aquilo que foi dito de ti: “Ela te esmagará a cabeça”, como também: “Somente tu destruíste todas as heresias do mundo inteiro”.

Santa Felicidade: nosso modelo

Ensinamos nossos filhos a rezar, vamos à Missa juntos e os instruímos na fé católica. Mas será que isso é suficiente? A guerra cultural parece-nos sem precedentes, mas obviamente não é; ela somente parece ser porque ainda não dissemos a Deus que lhe daremos “qualquer coisa” que Ele pedir. 

Santa Felicidade fez justamente isso. Ela foi uma mártir do século II. Comparecendo diante do prefeito de Roma com seus piedosos filhos, foi exortada a fazer um sacrifício aos ídolos, mas a resposta que deu foi uma generosa confissão de fé: “Não me faças ameaças. O Espírito de Deus está comigo e superará qualquer ataque que fizeres”.

“Martírio de Santa Felicidade e de seus sete filhos”, por Francesco Coghetti.

“Mulher miserável!” — disse-lhe o prefeito. — “Como podes ser tão bárbara a ponto de expor teus filhos a tormentos e à morte? Tende piedade dessas jovens criaturas, que estão na flor da idade e podem aspirar às mais altas posições no Império!”

Felicidade respondeu: “Meus filhos viverão eternamente com Jesus Cristo se forem fiéis, mas não terão senão tormentos eternos se se puserem a sacrificar aos ídolos. Tua aparente piedade não é senão uma cruel impiedade”.

Prestamos um desserviço quando preparamos nossos filhos somente com o conhecimento da fé, sem um entendimento do custo da verdadeira fé no século XXI, uma era de capitulação e apostasia que nos pede que ofereçamos “apenas uma pitada de incenso” [1].

Nossos filhos não terão o luxo de um catolicismo cultural nem mesmo a opção de ser mornos. Defender o que é verdadeiro, professá-lo e vivê-lo são coisas que os tornam alvos. Não há nada de que eu queira proteger mais os meus filhos que desse tipo de perseguição. No entanto, é justamente isso o que o Senhor diz que devemos levar em conta quando calculamos os custos. É algo que devemos comunicar a nossos filhos, se desejamos que eles assumam como sua a fé. 

A oração de um pai

Quando peço a intercessão de Santa Felicidade e seus filhos mártires e medito sobre o Filho da Mãe dolorosa pendente na Cruz, dou-me conta de que me estou enganando quando penso que posso servir ao Senhor dos Exércitos, sem contudo me abster de nada. O martírio de testemunho não exige menos que isso. 

Será que Ele deseja levar para si alguém a quem amo, por doença ou acidente? Senhor, dou-te todos eles porque sei que os verei novamente no último dia, se me mantiver fiel a ti.

Será que Ele me pede que permaneça firme, ao invés de negá-lo diante dos homens, mesmo que isso signifique perder o trabalho ou sustento? Senhor, jamais permitas que eu te negue. Toma de mim o que tu mesmo me deste, se isso for um obstáculo, pois eu sei que tu alimentas teus filhos com o pão de cada dia.

Meus filhos irão antes de mim para me testar a fé, como ocorreu com Abraão? Senhor, toma-os dos braços da tua Mãe, à qual os consagramos, e segura-os tu mesmo. Deixa que eu leve as pancadas em minhas próprias costas. Mas, se eles tiverem de me ser tirados, dá-lhes a graça de perseverar até o fim e nunca te negar.

Ao perceber que nossa sensação de controle é uma grande ilusão e que, sem o auxílio de Nossa Senhora, não temos a mínima chance de enfrentar como cristãos o tempo futuro, confiamos a ela nossos filhos, aquilo que temos de mais importante. Pedimos a ela que os forme, encoraje, conforte e ensine a sofrer bem, para que possam, pela graça, perseverar até o fim. 

Mas nunca deixamos de depositar a esperança derradeira em Cristo. Pois nesse tempo perverso não temos nada, nenhum recurso além da confiança no cumprimento das palavras do Senhor quando lhe damos tudo: “Todo aquele que por minha causa deixar irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos, terras ou casa receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna” (Mt 19, 29).

Notas

  1. Oferecer incenso nos templos era um costume pagão entre os romanos. A muitos cristãos que se negavam a prestar culto ao imperador ou aos deuses pagãos foi-lhes dada a alternativa de oferecer uma pitada de incenso à estátua de César. Negando a própria fé, escapariam da tortura e da morte. A São Policarpo (séc. II) fizeram essa proposta. Como se negou a fazê-lo, foi martirizado.

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São José teve verdadeiros sentimentos paternais por Jesus
Santos & Mártires

São José teve verdadeiros
sentimentos paternais por Jesus

São José teve verdadeiros sentimentos paternais por Jesus

“A natureza não é mais veemente no amor do que a graça”. Deus ateou na alma de São José um amor ardentíssimo pelo Filho de sua Esposa, não inferior ao que lhe teria se fosse seu próprio filho por natureza, mas incomparavelmente maior em intensidade e pureza.

Pe. Bonifacio LlameraTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Novembro de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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São José, por seu coração, foi verdadeiramente pai de Cristo, já que, segundo o princípio de Santo Anselmo, “a natureza não é mais veemente no amor do que a graça” [1]; ao contrário, a graça, muito mais poderosa do que a natureza, ateou em sua alma um amor ardentíssimo pelo Filho de sua Esposa, não inferior ao que lhe teria se fosse seu próprio filho por natureza, mas incomparavelmente maior em intensidade e pureza.

A vontade de Deus, infinitamente mais eficaz do que a natureza, deu ao santo Patriarca um coração paternal, concedendo-lhe de um modo muito mais excelente todos os sentimentos paternais que um pai pode ter por seu filho e até “uma faísca do amor infinito” que o Pai tem pelo seu Filho unigênito, como disse Bossuet:

Talvez pergunteis — disse — de onde ele [São José] tomou esse coração paternal, se a natureza não lho deu? Acaso estas inclinações naturais podem ser adquiridas por livre escolha, e a arte pode imitar o que a natureza escreve nos corações? Se São José não é pai, como teria um amor paternal? Aqui devemos compreender que o poder divino atua em nossa obra. Devido a tão excelso poder, São José tem um coração de pai; e já que a natureza não lho ofereceu, Deus, por sua própria iniciativa, concede-lhe um. Deus, o verdadeiro Pai de Jesus Cristo, que o gerou desde toda eternidade, ao escolher o divino José para servir de pai terreno do seu Filho único, fê-lo de tal forma que colocou um raio, uma faísca do amor infinito que tem por seu Filho. Esta é a causa da transformação do coração de José, é o que lhe dá um amor de pai; e como é certo que o justo José sente em si mesmo um coração paternal formado de uma só vez pela ação de Deus, sente também que Deus lhe ordena empregar sua autoridade de pai [2].

Esse é o motivo primordial pelo qual o Papa Leão XIII apresenta o santo Patriarca, suplicando-lhe sua proteção universal: “Nós vos suplicamos, pelo amor paternal que tivestes ao Menino Jesus…”

É evidente que Deus pôs em São José um coração verdadeiramente paternal, de modo que sentisse por seu Filho o mesmo amor que experimentam em seu íntimo aqueles que são pais por natureza. Ele não é “pai” só por natureza, mas algo muito mais perfeito, como podemos deduzir do princípio anteriormente exposto. Não só devemos chamar-lhe pai, senão que diremos com São Bernardino, uma vez mais, “crer que existiam nele todos os sentimentos paternais de amor e dor para com o seu amado Jesus”.

São José teve um amor ardentíssimo por Jesus: “Não amou menos a Jesus, seu filho adotivo, do que o tivera amado se fosse seu filho natural; amou-o mais porque a graça é mais veemente do que a natureza. Quantas vezes colocou o Menino sobre suas pernas, levou-o em seus braços; quantas vezes o beijou e apertou afetuosamente contra seu peito” [3].

Bem escreve Faber: “Amava Jesus com um amor filial tão grande que, repartido entre todos os pais do mundo, a todos faria felizes num grau que eles mesmos não poderiam crer. Este amor excede em grandeza e santidade tudo o que já existiu de amor paterno; sua paternidade era tão grandiosa, magnânima e distinta que todas as outras deste mundo poderiam dela participar sem esgotá-la” [4].

Sua solicitude paterna é proporcional ao amor. Quem poderá descrever a solicitude de José para com Jesus e Maria? Basta-nos recordar seus cuidados e sacrifícios, vendo-o caminhar a Belém, fugir para o Egito e viver silencioso e diligente em Nazaré. Sobre as tantas virtudes que o santo praticou em sua vida oculta foram escritas muitas páginas vívidas e belas.

Certamente, este sentimento paternal responde a um gênero de paternidade especialíssima e admirável, firmemente fundamentada no vínculo sagrado do contrato matrimonial com Maria, a Mãe de Jesus, e animada pela graça divina, que fez brotar no coração dele os maiores afetos de ternura paternal e a mais generosa entrega em corpo e alma durante toda a vida ao serviço de Jesus Cristo, o Filho de Maria, sua Esposa, e Redentor de todo o gênero humano.

Referências

  1. S. Anselmo, De offic. I, 1, 7 (PL 36, 14).
  2. Bossuet, S. Joseph, son ministère, sa vie intérieure, Premier panégyrique de S. Joseph. Oeuvres: Liège, vol. 1, 1866, p. 564.
  3. J. Miecowiense, Discursus praedicabiles super litanias lauretanas B. V. M., discurso 118. Nápoles, 1856, p. 210.
  4. Faber, Bethlehem. Marietti: Torino, vol. 1, 1869, p. 247.

Notas

  • Original: Pe. Bonifacio Llamera, “San José tuvo verdaderos sentimientos paternales hacia Jesucristo”. In: Teología de San José. Madrid: BAC, 1953, pp. 113-114.

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A geração anônima
Sociedade

A geração anônima

A geração anônima

Os fins não justificam os meios quando se trata de gerar uma vida. Embora a infertilidade possa ser uma luta, ninguém “merece” um filho. Quando se usam técnicas antiéticas para produzir filhos, são as próprias crianças que terminam pagando o preço final.

Ben BroussardTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Novembro de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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O Center for Bioethics and Culture [“Centro de Bioética e Cultura”] produziu cinco anos atrás um documentário sobre doação de esperma. Anonymous Father’s Day [“Dia dos Pais Anônimos”, disponível na íntegra no YouTube] conta todos os fatos sobre a prática e destaca histórias pessoais, contadas por crianças concebidas por doadores. Ao longo de uma hora, o alcance da chamada “tecnologia de reprodução assistida” é discutido francamente pelos mais afetados.

Os Estados Unidos continuam sendo um dos poucos países onde a “tecnologia reprodutiva” não é regulamentada. Entre 30.000 e 60.000 crianças são concebidas anualmente por doação de esperma.

Com o aumento de relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo e mães solteiras, esse número só aumentou. Muitas pessoas hoje estão dispostas a gastar grandes somas para produzir filhos. Estima-se que essa compra e venda não regulamentada de seres humanos equivalha a uma indústria anual de 3,3 bilhões de dólares.

Sucesso sobre nossos tempos. — O custo material empalidece em comparação com o enorme fardo posto sobre as pessoas que foram produtos dessas tecnologias. Querer saber de onde se veio e conhecer a própria história pessoal é perfeitamente natural. Para crianças nascidas e criadas por seus pais biológicos, traçar a árvore genealógica é uma tarefa simples. Não assim para quem foi produzido por inseminação artificial.

O estigma social, mesmo em discutir o tópico, permanece generalizado. O “Dia dos Pais Anônimos” mostra as lutas de crianças produzidas por doadores, que agora cresceram e procuram seus pais. Torna-se claro que todo o marketing em favor da prática gira em torno da felicidade e do altruísmo dos pais. A triste realidade é que as crianças vão crescer com um vazio existencial, sem nunca conhecer o verdadeiro pai e a motivação para a sua geração.

A ascensão da internet tem visto um número crescente desses indivíduos vir a público. Grupos de apoio e redes sociais para pessoas concebidas por doadores estão agora difundidos. O sequenciamento de DNA forneceu outro caminho para encontrar respostas. Um senhor entrevistado conseguiu localizar doze de seus meio-irmãos e meio-irmãs. Estima-se que seu pai doador tenha entre 500 e 1.000 filhos.

A geração anônima. — Os legisladores tentaram diminuir muitos dos dilemas éticos da doação anônima. A Suécia foi a primeira a proibir a doação anônima de gametas, com outros países seguindo o exemplo. Mesmo com a regulamentação, no entanto, as crianças ainda são tratadas como mercadoria a ser comprada e vendida à vontade. Mais crianças concebidas por doadores estão chegando à conclusão de que a única solução real é proibir a prática.

Os apoiadores mais veementes respondem sem pestanejar que isso significa proibir o ato que as trouxe à existência. Elas não deveriam apoiar uma indústria que lhes deu vida? Pela mesma lógica, uma pessoa concebida num estupro deveria apoiar o estupro porque foi esse o ato que a trouxe à existência. É claro que os fins não justificam os meios quando se trata de gerar uma vida.

Embora a infertilidade possa ser uma luta, ninguém “merece” um filho. Quando se usam técnicas antiéticas para produzir filhos, são as próprias crianças que pagam o preço final.

Uma conclusão óbvia sobre o casamento. — Haverá uma pressão crescente para proibir o “Dia das Mães” e do “Dia dos Pais”. Mas as pessoas concebidas por doadores estão falando sobre a importância da maternidade e da paternidade. Uma mãe e um pai que criam seus filhos biológicos, em um relacionamento de compromisso por toda a vida, eis o que há de melhor para os filhos. O “Dia dos Pais Anônimos” deixa claro que também é o melhor para a sociedade.

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