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“Como se pode fazer de uma ‘batatinha’ o Corpo de Cristo?”
Espiritualidade

“Como se pode fazer de
uma ‘batatinha’ o Corpo de Cristo?”

“Como se pode fazer de uma ‘batatinha’ o Corpo de Cristo?”

As provocações dos hereges não merecem resposta, mas nós, católicos, deveríamos ter sempre na ponta da língua a verdade da nossa fé e as razões da nossa esperança em Jesus Sacramentado.

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Maio de 2019
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“Como se pode fazer de uma ‘batatinha’ o Corpo de Cristo?”: a provocação feita pelo profanador de Trieste é uma objeção à Eucaristia que atravessa os séculos. Patatina não passa de uma versão mais irreverente do escândalo que muitos dos primeiros discípulos experimentaram ao ouvir falar desse mistério pela primeira vez. É uma versão muito parecida com a acusação que os protestantes vivem fazendo contra os católicos, de que, além de adorarmos imagens, ainda por cima nos prostramos diante de uma “bolacha” ou um “pedaço de pão”. Não estamos falando, portanto, de uma agressão pontual, mas de um desafio constante à nossa fé.

Mas se os hereges debochados, como o profanador de Trieste, ou mesmo os protestantes mais agressivos, não merecem uma resposta, nós, católicos, entretanto, deveríamos ter sempre na ponta da língua a resposta a essa provocação. Se não para os que nos perguntam e provocam, ao menos para nós mesmos, para que tenhamos cada vez mais firmeza da nossa fé, para que nos estejam sempre presentes no espírito as razões da nossa esperança (cf. 1Pd 3, 15).

Respondamos, então, como é possível que em toda Santa Missa os católicos façam de uma “batatinha”, de uma “bolacha”, de um “pãozinho” (ou seja lá como se queira chamar a matéria deste sacramento), nada mais nada menos do que o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Como se dá isso, afinal? Onde o porquê disso?

Comecemos do Evangelho, mais exatamente do momento exato em que Jesus nos promete a Eucaristia. Sabemos que a instituição deste sacramento se deu na noite da Quinta-feira Santa, na Última Ceia. Mas antes disso, em seu ministério público, Jesus já havia aludido ao mistério que havia de inaugurar, e isso aconteceu no célebre “discurso do pão da vida”, presente no capítulo 6 do Evangelho de São João (v. 22-71).

“A Eucaristia”, por Juan de Juanes.

A quem ainda não leu esta importante passagem bíblica, vale a pena fazê-lo, mas sua ideia central é muito simples: Jesus Cristo quer se dar aos homens como alimento. Percebam, no entanto, que Ele não institui a Eucaristia naquele episódio, estando no meio da multidão, senão que escolhe seus momentos finais para fazê-lo, estando na intimidade com seus amigos, e deixando-lhes sua carne e seu sangue como um verdadeiro testamento. Nosso Senhor revestiu de grande solenidade a instituição da Eucaristia, e com isso Ele já indicava o respeito e a reverência que queria receber dos homens neste sacramento.

A promessa do pão da vida, no entanto, é feita a todo o povo, porque de toda a multidão que O escutava desde já Nosso Senhor queria receber a obediência da fé. Jesus Cristo usará nessa ocasião termos fortes, como nunca antes tinha usado: falará de sua carne como “verdadeira comida” e de seu sangue como “verdadeira bebida”, dizendo ainda que seria necessário τρώγειν (lit., “roer, mastigar, comer”) o seu corpo para ter a vida eterna (cf. Jo 6, 53-55). Muitos, ao ouvir dessas palavras, reagirão assustados e perplexos — “Isto é muito duro! Quem o pode admitir?” (Jo 6, 60), deixarão de seguir a Jesus (cf. Jo 6, 66) e no próprio colégio apostólico haverá um que não crê: Judas Iscariotes, a quem o Senhor chama “um demônio” (Jo 6, 70) já nesta ocasião.

Dos lábios de São Pedro, no entanto, Nosso Senhor recebe aquilo por que tanto ansiava: um ato de fé. “Senhor, a quem iremos nós?”, ele diz. “Só tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6, 68).

A atitude do primeiro Papa é a atitude que toda a multidão de fiéis deverá imitar ao longo dos séculos para com o Santíssimo Sacramento. Com a diferença que se canta no hino Adoro te devote: In cruce latebat sola deitas, / at hic latet simul et humanitas, isto é, “Na cruz estava oculta somente a divindade, / mas aqui se esconde também a humanidade”. Ou seja, São Pedro ainda pôde ver a carne física de Cristo, enquanto de nossa parte é exigida a fé tanto na divindade quanto na humanidade de Nosso Senhor, ambas escondidas sob a aparência do pão e do vinho.

Toda essa digressão é necessária para explicar por que Deus não opera logo, em nossos altares, todos os dias, o milagre de Lanciano, por exemplo, transformando tudo — inclusive as aparências do pão e do vinho — em seu Corpo e em seu Sangue gloriosos. Ele não o faz porque quer a nossa fé, assim como quis a de seus primeiros discípulos. Se toda vez que fôssemos à Missa o padre tivesse em suas mãos um pedaço da carne viva de Cristo, não seria necessário ter fé. A Missa poderia até se tornar um “espetáculo” aos olhos do mundo, mas não foi para se mostrar vaidosamente aos homens que o Filho de Deus instituiu a Eucaristia; foi para se unir a nós que Ele o fez.

E aqui está a outra grande razão pela qual Nosso Senhor se esconde na Hóstia consagrada: porque foi dando-se a nós na forma de alimento — ou seja, nas espécies do pão e do vinho — que Ele conseguiu realizar o grande desejo de se unir a nós. Eis a razão de Ele se submeter a um tal rebaixamento! Eis o grande amor que O faz descer ao aspecto de um simples alimento, submetendo-se (como se submete) a profanações como a de Trieste, a irreverências que tão frequentemente ocorrem em nossas Missas e às ingratidões de tantas das nossas comunhões!

Embora Nosso Senhor se exponha a isso, no entanto, que fique bem claro: o que Ele quer é a nossa fé e o nosso amor. Não é para os descrentes, para os Judas Iscariotes ou para os malfeitores que Cristo desce aos altares.  É, ao contrário, para estar com os que crêem nEle, para estar com os que O amam, para ouvir deles como ouviu de São Pedro: Domine, ad quem ibimus? Verba vitae aeternae habes. Como diz Santa Teresa d’Ávila, “Ele tudo suporta e se dispõe a sofrer para encontrar uma única alma que O receba e Lhe dê uma acolhida amorosa; que essa alma seja a vossa” (Caminho de Perfeição, 35, 2).

Mas se ainda não estamos convencidos o suficiente da grandeza do amor que brota do Coração Eucarístico de Nosso Senhor, que nos convença esta revelação recebida por Santa Teresa e registrada em seu Livro da Vida (38, 23):

Indo comungar, vi com os olhos da alma, com maior clareza do que com os do corpo, dois demônios deveras abomináveis. Tive a impressão de que, com os seus chifres, mantinham presa a garganta do pobre sacerdote. E, na hóstia que ia receber, vi meu Senhor, com a majestade que descrevi, posto naquelas mãos, que percebi com clareza serem transgressoras, compreendendo que aquela alma estava em pecado mortal. Que seria, Senhor meu, ver Vossa formosura entre figuras tão abomináveis? Elas estavam como que amedrontadas e espantadas diante de Vós, e creio que de boa vontade teriam fugido se Vós lhes tivésseis permitido.

Isso me provocou tamanha perturbação que não sei como pude comungar, e fui tomada de grande temor, pensando que, se fosse visão de Deus, Este não me permitiria ver o mal que se instalara naquela alma. O Senhor disse que rogasse por ele e que permitira semelhante coisa para que eu entendesse que força tinham as palavras da consagração e visse que, por pior que seja o sacerdote que as pronuncia, Deus está sempre ali; disse também que o fizera para que eu conhecesse Sua grande bondade, que se põe nas mãos do inimigo só para o meu bem e o de todos.

“Como se pode fazer de uma ‘batatinha’ o Corpo de Cristo?” Como pode ser que Ele se submeta a ficar nas mãos de um criminoso debochado como o de Trieste? Porque é grande a sua bondade, a ponto de se pôr nas mãos do inimigo… só para se unir aos que quer como seus amigos. Assim como aconteceu dois mil anos atrás, quando o Bom Jesus deixou-se prender, flagelar e coroar de espinhos, só para ter o nosso amor, também hoje a sua entrega se repete em nossas igrejas. E cabe a cada um de nós responder se temos sido os malfeitores que O profanam ou as almas adoradoras que O consolam e desagravam.

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Católicos, ainda cremos na Eucaristia?
Liturgia

Católicos, ainda cremos na Eucaristia?

Católicos, ainda cremos na Eucaristia?

Ele entrou dentro de uma igreja, tomou a Hóstia consagrada, saiu debochando do sacramento e ninguém fez nada. Ou os homens perderam por completo a virilidade, ou os católicos perderam a fé... ou as duas coisas juntas.

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Maio de 2019
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Circulou no mundo inteiro um vídeo, gravado durante uma Missa de Páscoa, no qual um homem visivelmente alterado recebe a Hóstia consagrada das mãos do padre e sai andando com ela por toda a igreja, enquanto blasfema e debocha da presença real de Jesus na Eucaristia. Impressiona o fato de o vídeo ter sido filmado pelo próprio criminoso, mas mais impressionante ainda é que ninguém faz nada para contê-lo, tirar-lhe a Hóstia da mão ou impedir, de alguma forma, que ele fizesse o que fez.

O fato passou-se na cidade de Trieste, na Itália, e o vídeo é revoltante do começo ao fim. Tamanha é a desfaçatez do profanador que já na procissão da Comunhão ele está filmando tudo, já ao receber do sacerdote a Hóstia ele está debochando — “Corpo de Cristo”, diz o padre, ao que ele retruca: “E che parte è questa del corpo?” —; ainda, ao deixar a procissão ele anda tranquilamente pela nave da igreja, aponta a câmera para si, profere um sem número de blasfêmias — pergunta, por exemplo: “Ma come puoi fare di una patatina (“batatinha”) il Corpo di Cristo?” — e o vídeo se acaba.

(Deixamos o vídeo disponível abaixo, mas advertimos nossos leitores para o peso do conteúdo. A quem assistir, que as imagens abaixo sirvam para aumentar em nós o espírito de zelo para com o Santíssimo Sacramento e a vontade de reparar as ofensas cometidas contra Jesus Eucarístico.)

A impressão que fica, aos que assistem ao vídeo, é que todo o sacrilégio poderia muito bem ter sido evitado, seja na hora da distribuição mesma da espécie sagrada (pois era muito claro que o homem não estava “devidamente disposto” para receber a Comunhão: CDC, cân. 843, § 1), seja depois, quando o indivíduo foi deixando a igreja sem que ninguém esboçasse a mínima reação de defesa ao ataque que estava acontecendo [1]. Que não houvesse um homem, um único que fosse, para deter o profanador (com força física mesmo, se necessário), já é um sinal muito claro de em que pé está a crise de masculinidade na sociedade ocidental e na Igreja.

Mas é evidente que não é só esta a crise por trás do que aconteceu em Trieste — e que pode acontecer, no fundo, em qualquer capela católica. Se olharmos para o modo como os fiéis católicos de modo geral, sejam leigos sejam sacerdotes, têm tratado o Corpo de Cristo, deveríamos nos perguntar se, afinal de contas, essas pessoas que vivem na igreja, dizem-se católicas, e talvez até participem de um movimento ou de uma pastoral, acreditam mesmo no mistério que está no sacramento da Eucaristia.

A Igreja chama-lhe “Santíssimo Sacramento”; mas, se olharmos para a forma como Ele é tratado no dia a dia — pois passamos em frente às igrejas e, quando nelas estamos, quantos de nós passamos pelo sacrário sem fazer um gesto sequer de reverência! —, na liturgia — pois a Missa se tornou em muitos lugares um verdadeiro espetáculo circense — ou na distribuição da Comunhão — pois Ele é recebido como se fosse pão comum —, nem parece que a Eucaristia seja um sacramento, tampouco que seja santíssimo.

A Igreja ensina que “no venerável sacramento da Eucaristia [...] está contido o Cristo inteiro em cada espécie e sob cada parte da espécie” (Concílio de Trento, s. XIII, cân. 3: DH 1653); mas, se olharmos para a negligência com que se tratam as espécies consagradas e os menores de seus fragmentos, seja no altar, seja na mesa de Comunhão, não há como não perguntarmos se, afinal, os católicos realmente acreditam naquilo que celebram todos os domingos ou se tudo não passa de uma farsa, um teatro ou algo do gênero.

A Igreja tem inúmeras orientações quanto ao modo como se deve distribuir a Comunhão aos fiéis. Há um bom compêndio delas na instrução Redemptionis Sacramentum, nn. 88-96, onde, entre outras coisas, é possível ler:

  • ponha-se especial cuidado em que o comungante consuma imediatamente a hóstia, na frente do ministro”;
  • “ninguém se desloque (retorne) tendo na mão as espécies eucarísticas”;
  • “a bandeja para a Comunhão dos fiéis se deve manter, para evitar o perigo de que caia a hóstia sagrada ou algum fragmento”;
  • “não está permitido que os fiéis tomem a hóstia consagrada nem o cálice sagrado por si mesmos”; e, por fim:
  • Se existe perigo de profanação, não se distribua aos fiéis a Comunhão na mão.”

Mas… bem, nem é preciso dizer como nada disso é posto em prática. Ao contrário, são justamente as iniciativas de mais piedade e reverência para com o Santíssimo Sacramento que parecem incomodar. É como se estivéssemos vivendo num mundo paralelo, onde um louco como esse de Trieste pode “brincar” sacrilegamente com a Eucaristia, mas os fiéis católicos não podem demonstrar em público seu amor e respeito para com Jesus Sacramentado…

O Cardeal Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, observou recentemente “como a fé na Presença Real pode influenciar o modo de receber a Comunhão, e vice-versa”. Disse ele que

a atenção às mais pequeninas partículas, o cuidado na purificação dos vasos sagrados, o não tocar a Hóstia com as mãos sujas de suor, tornam-se profissões de fé na presença real de Jesus, ainda que seja nas menores partes das espécies consagradas: se Jesus é a substância do Pão Eucarístico, e se as dimensões dos fragmentos são acidentes apenas do pão, pouco importa que o pedaço da Hóstia seja grande ou pequeno! A substância é a mesma! É Ele! Ao contrário, a desatenção aos fragmentos faz perder de vista o dogma: pouco a pouco poderia começar a prevalecer o pensamento: “Se até o pároco não dá atenção aos fragmentos, se administra a Comunhão de um modo que os fragmentos podem se dispersar, então quer dizer que Jesus não está presente neles, ou está ‘até um certo ponto’.”

Trieste, portanto, é só mais um exemplo da completa apatia e indiferença de nossos católicos pela Eucaristia: muitos de nós deixamos de crer, e tantos outros são deixados na ignorância a respeito do que a Igreja realmente ensina sobre esse sacramento. Se não voltarmos o quanto antes a uma boa catequese e uma boa liturgia — em atenção à velha fórmula lex orandi, lex credendi —, continuaremos ladeira abaixo… e só Deus sabe se o Filho do Homem, quando voltar, ainda encontrará fé eucarística sobre a terra (cf. Lc 18, 8).

Notas

  1. Na pesquisa que fizemos na internet até a publicação desta matéria, não conseguimos encontrar mais detalhes a respeito do que teria acontecido após os eventos do vídeo.

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São José Operário e o perigo do ativismo
Espiritualidade

São José Operário e o perigo do ativismo

São José Operário e o perigo do ativismo

Sempre que celebramos os santos na glória, nós recordamos não só os seus valiosos trabalhos na terra, mas também seu descanso eterno em Deus e a mais intensa que existe das atividades: a visão face a face que eles têm da Santíssima Trindade.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Maio de 2019
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Pode parecer paradoxal, mas a festa de São José Operário, com que se começa o mês de maio, não é uma glorificação do trabalho.

Todas as vezes que celebramos os santos na glória, nós recordamos seus valiosos trabalhos na terra, mas celebramos também seu descanso eterno em Deus e a mais intensa que existe das atividades: a visão face a face da Santíssima Trindade através da qual os santos, mesmo arrebatados naquele que é o princípio e fim de todas as coisas, não deixam de ver nossas necessidades e interceder por nós junto ao Sumo Sacerdote em quem pusemos nossa fé. Como até os antigos intuíram, essa suprema contemplação não pode ser descrita como um trabalho, nem mesmo como uma ocupação humana. Aquilo que há de mais elevado no homem, aquilo por que aspiramos, é o descanso sabático em Deus.

Dizê-lo não é fazer uma exaltação pagã do ócio, tampouco aderir a um legalismo judaico de evitar trabalhos: é antes o ensinamento cristalino da Carta aos Hebreus, que resume a boa-nova da Revelação cristã melhor do que qualquer outro texto do Novo Testamento. A superação de nossos trabalhos finitos no descanso beatífico, onde Deus é tudo em todos e nós estamos imersos em sua paz, é o fim em que cremos e esperamos, é o fim por que rezamos e ansiamos.

Se esse descanso divino, derradeiro e eterno não for o objetivo do trabalho humano —  e não se pode negar que nossa cultura está programada contra essa orientação transcendental —, então nossos trabalhos se tornarão contraproducentes e perniciosos, não passarão de uma distração, uma armadilha, um estágio com o pai da mentira, ao invés de uma disciplina com que ascender acima das estrelas.

A era moderna testemunhou diversas ondas de iconoclasmo orgulhoso contra a vida monástica, como se pode ver na dissolução das casas religiosas por Henrique VIII, ou nas “secularizações” impostas pelos regimes anticlericais de anos mais recentes. Stratford Caldecott viu nesse fato como que um raio-x do esqueleto da modernidade:

A destruição dos mosteiros é particularmente pungente como um símbolo do que está acontecendo. É como se nosso mundo moderno tivesse como sua base e pressuposto a destruição da contemplação — ou ao menos a destruição daquele ideal (em grande parte beneditino) que é a síntese entre ação e contemplação, síntese que repousa no coração da Cristandade.

O Papa Bento XVI chamou frequentemente a atenção para o vício do ativismo, que ele via como destruidor para a vida espiritual e, portanto, para a própria missão da Igreja no mundo:

O ativismo, o querer fazer, de qualquer maneira, coisas “produtivas”, “relevantes”, é a tentação constante do homem, também do religioso. E é exatamente essa orientação que domina nas eclesiologias [...] que apresentam a Igreja como um “povo de Deus” atarefado, empenhado em traduzir o evangelho de um programa de ação que obtenha “resultados” sociais, políticos e culturais. Mas não é por acaso que a Igreja é nome de gênero feminino. Nela, com efeito, vive o mistério da maternidade, da gratuidade, da contemplação da beleza, dos valores, enfim, que parecem inúteis aos olhos do mundo profano. Talvez até mesmo sem ser plenamente consciente dos motivos, a religiosa percebe a insatisfação profunda de viver em uma Igreja onde o cristianismo foi reduzido à ideologia do fazer, segundo essa eclesiologia duramente machista e que, no entanto, é apresentada — e até mesmo aceita — como mais próxima também das mulheres e de suas exigências “modernas”. É, pelo contrário, um projeto de Igreja em que não há mais lugar para a experiência mística, esse cume da vida religiosa que, não por acaso, esteve entre as glórias e as riquezas a todos oferecidas, com milenária constância e abundância, mais por mulheres do que por homens [1].

A separação entre a vida ativa e a vida contemplativa, que veio se dando lentamente através dos séculos e que acelerou tremendamente de ritmo após o Concílio Vaticano II, é uma separação fatal, assim como a separação entre natureza e graça, razão e fé, ciência e piedade. Ela tornou supérflua a atividade da Igreja, transformando-a numa espécie de “ativismo” mesmo, ao invés de uma extensão da presença salvífica de Cristo no mundo ao nosso redor. As duas tentações mencionadas por Ratzinger — o reducionismo da “relevância” e a preocupação com a “produtividade” — acabaram encontrando sua influência aninhadora na liturgia, que foi colonizada e dominada por elas.

Com palavras que têm a intensidade cristalina e apaixonada de um profeta do Antigo Testamento, o Cardeal Sarah vem nos advertindo para o que acontece ao espírito humano e à própria religião quando o silêncio e a meditação se escasseiam, quando o estar continuamente ocupado substitui a entrega contemplativa da adoração. Em um mundo assim, fica difícil sentir um gosto da (e pela) contemplação — e não surpreende que ouçamos em todo lugar esta opinião simplista, advinda talvez de uma consciência inquieta, segundo a qual “tudo pode ser uma forma de contemplação”.

Pode até ser que, para um homem ou uma mulher já profundamente imersos na vida trinitária — digamos, uma Catarina de Sena ou uma Teresa de Jesus —, tudo o que elas fazem seja uma extensão daquele fogo ardente de oração interior, e elas de fato encontrem a Deus em tudo. Mas não é este o lugar de onde partimos; nós precisamos tomar aquilo a que o salmista chama vias duras, os caminhos tortuosos da oração litúrgica e da oração pessoal disciplinada, se quisermos chegar à alta planície, à cidade de Jerusalém, à cidade da paz, ao reino da contemplação. Ter a capacidade de ver a Deus em tudo e de ver tudo em Deus, é a meta, não o ponto de partida. Trata-se sobretudo de um dom, algo pelo qual nós precisamos implorar, e não de uma coisa que nós podemos instantaneamente produzir.

Essa, creio eu, é a primeira lição que São José, o homem do silêncio, o homem da pronta obediência à palavra divina, da qual ele estava sempre atentamente à escuta, gostaria de nos ensinar nos dias atuais. Talvez ele nos dissesse: “Se tens de escolher entre mais uma hora em teu ofício humano ou a recitação de uma parte do Ofício Divino, não hesites em escolher esta última. Será melhor para ti, para teu trabalho, para a Igreja e para o mundo.”

Referências

  1. Joseph Ratzinger, A fé em crise?: o Cardeal Ratzinger se interroga, trad. Fernando José Guimarães, São Paulo: EPU, 1985, p. 75.

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Vivos ou mortos: quem mais precisa de orações?
Espiritualidade

Vivos ou mortos:
quem mais precisa de orações?

Vivos ou mortos: quem mais precisa de orações?

“Certamente devemos orar pela conversão dos pecadores, mas sem prejuízo do que devemos às almas sofredoras do Purgatório, tão caras ao Coração de Jesus.”

Pe. François Xavier SchouppeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Abril de 2019
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Quando exaltamos os méritos da oração pelos mortos, de modo algum inferimos que outras boas obras devam ser omitidas; porque todos as outras obras se devem praticar de acordo com o tempo, o lugar e as circunstâncias. A única intenção que tínhamos em vista era dar uma ideia correta da misericórdia para com os mortos e inspirar aos outros o desejo de praticá-la.

Além disso, as obras de misericórdia espiritual, que têm por objeto a salvação das almas, são todas de igual excelência, e é somente em certos aspectos que podemos colocar a assistência dos mortos acima do zelo pela conversão dos pecadores.

Relata-se nas Crônicas dos Frades Pregadores que surgiu uma controvérsia entre dois religiosos daquela Ordem, os irmãos Bento e Bertrand, cujo tema eram os sufrágios pelos defuntos. Foi ocasionada pelo seguinte: o irmão Bertrand celebrava frequentemente a Santa Missa pelos pecadores e orava continuamente por sua conversão, impondo-se as mais severas penitências; mas raramente era visto celebrando a Missa com as vestes pretas em favor dos mortos. O irmão Bento, que tinha grande devoção pelas almas do Purgatório, tendo observado essa conduta, perguntou-lhe por que ele agia assim.

“Porque”, respondeu Bertrand, “as almas do Purgatório têm certeza de sua salvação, enquanto os pecadores estão continuamente expostos ao perigo de cair no inferno. Pode haver condição mais deplorável que a de uma alma em estado de pecado mortal? Ela está em inimizade com Deus e presa nas correntes do diabo, suspensa sobre o abismo do inferno pelo frágil fio da vida, que se pode romper a qualquer momento. O pecador anda no caminho da perdição; se ele continuar avançando, cairá no abismo eterno. Devemos, portanto, vir em seu auxílio e preservá-lo desta que é a maior das desgraças, trabalhando pela sua conversão. Além disso, não foi para salvar os pecadores que o Filho de Deus veio à Terra e morreu na cruz? São Dênis também nos assegura que a mais divina de todas as coisas divinas é trabalhar com Deus para a salvação das almas.”

“Quanto às almas no Purgatório”, continuou o irmão Bertrand, “elas estão seguras, sua salvação eterna é certa. Elas sofrem, presas a grandes tormentos, mas nada têm a temer do inferno, e os seus sofrimentos terão um fim. As dívidas contraídas diminuem a cada dia, e logo desfrutarão da luz eterna, ao passo que os pecadores são continuamente ameaçados pela condenação, a desgraça mais terrível que pode acontecer a uma criatura de Deus.”

“Tudo o que você disse é verdade”, respondeu o irmão Bento, “mas há outra consideração a ser feita. Os pecadores são escravos de Satanás por livre e espontânea vontade. Seu jugo é de sua própria escolha, e eles poderiam quebrar suas correntes se assim quisessem, enquanto as pobres almas do Purgatório só o que fazem é suspirar e implorar a ajuda dos vivos. É impossível que elas quebrem os grilhões que as mantêm presas nas chamas penais. Suponha que você tenha encontrado dois mendigos, um doente, mutilado e indefeso, absolutamente incapaz de sustentar-se sozinho; o outro, pelo contrário, embora em grande angústia, jovem e vigoroso; qual dos dois mereceria a maior parte de sua esmola?”

“O inválido, certamente”, respondeu Bertrand.

“Bem, meu querido pai”, continuou Bento, “esse é o caso dos pecadores e das santas almas do Purgatório. Estas não podem mais se ajudar. O tempo de oração, confissão e boas obras passou para elas; nós, porém, somos capazes de aliviá-las. É verdade que elas mereceram esses sofrimentos em punição de seus pecados, mas agora elas os choram e detestam. Elas estão na graça e amizade de Deus, enquanto os pecadores são inimigos dele. Certamente devemos orar pela conversão destes, mas sem prejuízo do que devemos às almas sofredoras, tão caras ao Coração de Jesus.”

“Vamos compadecer-nos dos pecadores, mas não nos esqueçamos”, rematou o irmão Bento, “que eles têm à sua disposição todos os meios de salvação; eles devem quebrar os laços do pecado e fugir ao perigo da condenação que os ameaça. Não parece evidente que as almas sofredoras têm mais necessidade e merecem uma participação maior em nossa caridade?”

Apesar da força desses argumentos, o irmão Bertrand persistiu em sua primeira opinião.

Na noite seguinte, porém, apareceu-lhe uma alma do Purgatório que o fez experimentar por uns breves instantes a dor que ela mesma suportava. O sofrimento foi tão atroz que pareceu impossível suportá-lo. E, como diz o profeta Isaías, vexatio intellectum dabit, quer dizer, “só a aflição faz entender a lição” (Is 28, 19), Bertrand finalmente se convenceu de que deveria fazer mais pelas almas sofredoras. Na manhã seguinte, cheio de compaixão, subiu os degraus do altar revestido de preto e ofereceu o Santo Sacrifício pelos mortos.

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