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Homossexualidade e liberdade autêntica
Doutrina

Homossexualidade
e liberdade autêntica

Homossexualidade e liberdade autêntica

Só a verdade sobre a sexualidade humana pode dar liberdade às pessoas homossexuais, depois que, pelo abuso de seu livre-arbítrio, elas se tornaram escravas de suas paixões. E todos nós clamamos por essa verdade, ainda que nem sempre tenhamos consciência disso.

Dr. Mark LoweryTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Julho de 2021Tempo de leitura: 22 minutos
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Por um lado, muitos modernos aderiram a uma visão autônoma da realidade: “Posso fazer o que quiser, contanto que isso não prejudique outras pessoas.” De acordo com esse tipo de relativismo, os atos homossexuais são perfeitamente legítimos quando realizados entre dois adultos que consentem em realizá-los. Numa completa reação a tal subjetivismo, muitas outras pessoas aderem a um moralismo que facilmente se torna perigoso, quando vilipendia e demoniza [1]. A distinção entre a condição homossexual e os atos homossexuais só é levada em conta como uma reflexão tardia. Esse ponto de vista, oposto ao da autonomia, poderia ser chamado de heteronomia, porque se entende que a lei de Deus deve ser imposta ao homem de forma extrínseca e um tanto arbitrária, com uma aparente falta de preocupação com a experiência real das pessoas envolvidas. 

O Papa João Paulo II, em sua Encíclica Veritatis Splendor (n. 41), distingue a perspectiva moral católica dessas duas posições errôneas. Ele chama a perspectiva católica de “teonomia participada”. Se na perspectiva da autonomia não há nenhuma lei, e se de acordo com a heteronomia a lei deve ser seguida porque Deus assim determinou, na teonomia participada a lei moral é algo favorável ao nosso ser, algo feito para a nossa verdadeira realização e para a nossa liberdade autêntica. A lei não é verdadeira porque Deus assim ordenou; ao contrário, Deus ordenou que seguíssemos a lei porque ela é verdadeira. Quando usamos o nosso livre-arbítrio para nos alinhar com essa verdade, possuímos a liberdade autêntica.

Qual é a implicação disso no debate sobre a homossexualidade? A verdade sobre a sexualidade humana é algo que, em última instância, confere ao homossexual a verdadeira liberdade, ajudando-o a escapar da escravidão de suas paixões, resultado do abuso de seu livre-arbítrio. É uma verdade que alcança com verdadeira compaixão a pessoa homossexual em seu desespero. Essa pessoa clama pela verdade, embora, talvez, não tenha consciência disso. Quando a resposta da nossa cultura é heterônoma e mal-intencionada, essa pessoa recua e se engana, conformando-se com uma visão de mundo que adota a autonomia. A Igreja e a sociedade devem oferecer a verdade, e fazê-lo da forma correta: apresentando o caminho da teonomia participada.

Um contexto pastoral: a teonomia participada

O Papa São João Paulo II.

Não basta começar com um bom argumento lógico, usando os dados da razão e da revelação. Tais argumentos ocuparão uma posição central na perspectiva católica geral, inclusive neste artigo, mas somente depois de estabelecermos fundamentos adequados por meio de uma abordagem pastoral solidária. Como disse Frank Sheed em algum lugar: “Ganhe a discussão, perca um convertido”. Temos de começar pela experiência existencial da pessoa humana [2]. A primeira maneira de fazer isso é ter cuidado com a terminologia. Jamais usemos a palavra “homossexual” como se ela definisse uma pessoa. Usemos antes a frase “pessoa com tendência homossexual” ou “pessoa homossexual” [3]. Sempre que usamos a palavra “pessoa” ressaltamos que estamos falando de alguém que possui uma dignidade inviolável. Algo ainda mais importante: jamais usemos a palavra “gay” para nos referir à pessoa homossexual. Ninguém é “gay”. Esta é uma palavra (infeliz) cujo uso foi imposto para nos referirmos àqueles que escolheram um determinado estilo de vida. Tal escolha implica um uso indevido da própria liberdade, o qual leva a pessoa a uma situação de desespero. Há caminhos para sair desse desespero — ninguém nasce “gay.

Uma abordagem pastoral reconhece que o “desespero” está precisamente no centro da experiência da pessoa homossexual. Muitas vezes, esse desespero está escondido nos clamores por libertação daqueles que, iludidos pelo movimento dos direitos dos homossexuais, “saíram do armário”. Frequentemente, ele é escondido pelas falsas alegações de que “ser gay é normal” e pelo ativismo político [4]. Poderíamos responder na mesma altura a esse atrevimento, mas é muito melhor trilhar o caminho certo e enxergar isso como um clamor por ajuda.

Gerard J. M. van den Aardweg mostrou por que a atração homossexual não é apenas uma variante da atração heterossexual. É um fenômeno de espécie diferente, acompanhado de sintomas de depressão, inveja e agitação [5]. Não há nenhuma evidência de que a homossexualidade tenha causa genética, embora possa haver uma predisposição genética para essa conduta. Como observou Christopher Wolfe: 

Se [a homossexualidade] realmente fosse genética, é quase certo que ela teria desaparecido, ou estaria ao menos em contínuo declínio. Os homossexuais se reproduzem em taxas muito menores do que a população em geral […]. Portanto, se fosse uma característica genética […], seria encontrada numa porcentagem cada vez menor da população [...]. Se a homossexualidade fosse genética, então em todos os casos de gêmeos idênticos em que um deles fosse homossexual o outro também o seria” [6]. 

Por outro lado, não é possível provar que a tendência homossexual seja causada pelo ambiente, mas todas as evidências apontam para essa direção [7].

Essas evidências são, afinal, notícias boas e libertadoras, pois com a ajuda adequada muitas pessoas podem corrigir sua inclinação de modo pleno ou parcial. Um ótimo livro de van den Aardweg, A batalha pela normalidade sexual, apresenta um método de “autoajuda”, e uma organização chamada NARTH (National Association for Reparative Therapy for Homosexual Persons — Associação Nacional para Terapia Reparadora para Pessoas Homossexuais) tem o compromisso de ajudar indivíduos a encontrar auxílio profissional.

Há um bom número de teorias sobre causas ambientais, teorias que foram confirmadas na prática clínica. Todas essas teorias possuem pontos de vista ligeiramente diferentes, mas também têm muitas coisas em comum e são de muitos modos compatíveis entre si [8]. Basicamente, a homossexualidade parece resultar de uma fragmentação na relação filho/pai/mãe, e a mais profunda necessidade da pessoa homossexual é reparar essa fragmentação. Como observa Joseph Nicolosi: 

Quando reconhecemos as verdadeiras necessidades que estão por trás dos nossos comportamentos indesejados, ganhamos uma nova compreensão […]. O impulso reparador — a tentativa inconsciente de ‘reparar’ a incompletude masculina — é a mais profunda transformação […]. O cliente compreende o seguinte: ‘Na verdade, não quero ter relações sexuais com um homem. Ao contrário, o que realmente desejo é curar minha identidade masculina’ [9]. 

Quero participar de modo mais pleno da natureza carregada de sentido que me foi dada, mas que, infelizmente, foi distorcida. Em outras palavras: teonomia participada.

No entanto, a terapia reparadora não deveria de modo algum ser apresentada à pessoa homossexual como uma exigência. É uma opção. O que se exige dela é um nobre esforço para viver de forma casta. O Pe. John Harvey fundou o apostolado Courage, uma ampla rede de grupos de apoio precisamente para ajudar as pessoas nesta tarefa. É importante compreender que todos temos dificuldades na vida e precisamos uns dos outros para lidar com elas. Podemos fazer uma distinção básica entre a matéria-prima que cada um de nós leva para a vida moral, e a vida moral em si na qual fazemos escolhas boas ou ruins. Todos nós somos desordenados em algum aspecto e em algum grau em nossa “matéria-prima” — às vezes, em termos psicológicos, físicos ou espirituais [10]. Estas desordens são objetivas, e uma delas é a inclinação homossexual [11].

É conveniente fazer decisões prudentes sobre a reparação de nossas matérias-primas danificadas, seja por meio de terapia ou de intervenção médica. Mas todos nós temos consciência de que não podemos projetar por meio da psicoterapia e da medicina uma matéria-prima perfeita. Isso é uma ilusão utópica. Fazemos bem em meditar sobre a gratidão que São Paulo tinha a Deus por ter recebido dele um “espinho na carne” que o levava a se recordar constantemente de que dependia plenamente de Deus. Portanto, podemos pegar as nossas matérias-primas danificadas, tomar decisões prudentes sobre quais delas devemos corrigir e viver com as outras.

Em certo sentido, essa perspectiva coloca todo o mundo em pé de igualdade. A pessoa homossexual não possui uma desordem que a põe numa categoria separada de outros seres humanos frágeis e finitos [12]. Todos nós temos nossas respectivas cruzes que carregar — todos sofremos com uma desordem primordial da concupiscência — e todos temos a capacidade de cumprir nossas obrigações, particularmente com a graça de Cristo [13]. “Deve-se evitar a todo custo o pressuposto infundado e aviltante segundo o qual o comportamento sexual das pessoas homossexuais é sempre e totalmente compulsivo e, portanto, irrepreensível” [14].

Dito de outro modo, somos realmente livres. Não se trata de um simulacro de liberdade nem de uma liberdade “de brinquedo”, mas de algo genuíno. Um simulacro de liberdade nos daria o sentimento agradável de que realmente fazemos escolhas livres (por exemplo, sobre o que comer e vestir), mas, quando algo realmente desafiador está em jogo, não somos realmente livres. Não poderíamos ser verdadeiramente responsáveis por nossas ações, já que a complexidade da vida torna impossível tal responsabilidade. 

Do ponto de vista oposto, quando deparamos com um grande desafio, o grande dom da liberdade clama para ser usado, e de forma adequada. Nossa dignidade humana vem do uso correto de nossa liberdade (liberdade autêntica), particularmente no meio dos desafios mais alarmantes de nossas vidas. Devemos enfrentar esses desafios com a matéria-prima danificada de nossas vidas — e a homossexualidade é um exemplo disso. Mas, independentemente do desafio, encontramos a nossa verdadeira dignidade quando o encaramos justamente em meio àquele nobre esforço para alinhar nossas vidas à lei natural e à revelação de Deus. 

A próxima seção deste artigo lida respectivamente com essas duas fontes da verdade. Segundo a perspectiva personalista da teonomia participada (esboçada acima), ambas são eminentemente razoáveis e sensatas — amigáveis com o nosso ser. Fora dessa perspectiva, os argumentos que seguem parecerão imposições extrínsecas e heterônomas que destroem a singularidade do indivíduo. Nesta perspectiva personalista, esses argumentos podem exercer um papel integral tanto na terapia reparadora como numa vida casta.

A lei natural

Nos debates contemporâneos sobre a homossexualidade, muitos ficam tentados a começar com um apelo à revelação divina, entendida quer numa perspectiva católica, quer protestante. Mas se começarmos por esta perspectiva, seremos justamente criticados por “impor a nossa religião aos outros”, o que é reprovado numa ordem política como a nossa, que aprecia a liberdade religiosa. Somos livres para praticar qualquer religião ou nenhuma religião, mas não podemos violar a lei natural, a lei moral conatural a nós e acessível à razão, ou seja, nós participamos dessa verdade natural de forma intuitiva, e isso faz todo o sentido [15].

Uma das marcas da tradição católica é o fato de ela apreciar argumentos que operam apenas no nível da razão. O princípio importante em jogo aqui, articulado da melhor maneira possível por Santo Tomás de Aquino, é o seguinte: a graça não destrói nossa natureza, mas a pressupõe e aperfeiçoa. A revelação, portanto, reafirma o argumento natural e acrescenta novas informações a ele. Esses dados adicionais, derivados das fontes gêmeas da revelação (Tradição e Sagrada Escritura), são impressionantes e enriquecedores, além de fornecerem aos cristãos o argumento integral para a doutrina contra os atos homossexuais. Mas, mesmo sem esses dados, um bom argumento pode ser elaborado com base na lei natural.

Muitas pessoas alegam que “não podemos legislar sobre moralidade”. Um adesivo de carro diz: “Tire suas leis do meu corpo”. Porém, os documentos de fundação da nossa nação [N.T.: os Estados Unidos] recorrem à lei natural como fundamento da nossa ordem política (“natureza e Deus da natureza”; “Afirmamos que estas verdades são autoevidentes…”). Desejamos muita diversidade nos EUA, mas uma unidade fundamental a partir dos princípios da lei natural. A frase In God we trust, “Confiamos em Deus”, não é uma imposição da religião a ninguém, mas uma recordação de que Deus nos deu uma natureza e a lei natural para que ela floresça. Todas as leis civis boas são baseadas na lei natural. As leis más são baseadas num sistema moral diferente, como o relativismo ou o utilitarismo. De qualquer modo, legislamos sobre moralidade; a única questão é sobre qual moralidade devemos legislar. A nova lei que permite as “uniões civis” em Vermont não é neutra [16]. Ela legisla com base em um código moral muito específico: o relativismo absoluto.

Qual é exatamente o argumento contrário ao comportamento homossexual baseado na lei natural? Devemos ter em mente vários pontos. Primeiro, temos de enfatizar que a lei natural está, em certo sentido, dentro de nós. Não é uma imposição extrínseca. Ao contrário, é uma verdade colocada em nosso ser pelo Criador, permitindo que participemos do sábio plano do Criador — portanto, “teonomia participada”. Segundo, não deveríamos pensar que a lei natural seja idêntica às leis biológicas. O termo “natureza” na expressão lei natural se refere à nossa natureza humana. As leis da nossa natureza biológica são muito relevantes para a compreensão da lei natural, mas não são a soma total dela. Se o fossem, seríamos reduzidos a animais que devem seguir seus instintos biológicos. Em vez disso, a lei natural usa as leis biológicas, mas as personaliza na medida em que enxerga o profundo sentido pessoal que está escondido em nossa biologia. A Encíclica Veritatis Splendor fala de sinais antecipatórios e indícios racionais em nossa biologia [17]. Como pessoas, somos capazes de “minar” esse profundo sentido pessoal inerente ao corpo. Os animais não podem fazer isso, e esta é uma das razões pelas quais podemos praticar eutanásia neles — eles não podem descobrir o profundo sentido espiritual que reside em seu “relógio biológico” e se alinhar livremente por conta própria. As pessoas humanas podem fazer isso. Descobrimos a nossa dignidade quando fazemos isso. Por isso o slogan “morrer com dignidade” é tão inapropriado.

É igualmente inapropriado para a pessoa homossexual “fazer o que quer com seu corpo”. O corpo fala uma linguagem que devemos escutar: ou vivemos segundo a verdade ou segundo a mentira. As faculdades reprodutivas humanas não são feitas para atos homossexuais, e tais atos provocam doenças graves. Isso nos dá um grande indício [18], escrito em nossa natureza biológica, de que há um profundo sentido em nossa heterossexualidade biológica. O sentido pessoal está atado ao fato biológico — uma visão integral da pessoa, e não uma visão fragmentada. Segundo a visão integral, a pessoa é uma união entre corpo e espírito; de acordo com a visão fragmentada, a pessoa está contra o corpo, que representa a matéria-prima que pode ser manipulada de acordo com os preceitos do indivíduo. Ainda segundo esta visão, posso tratar o corpo como quiser, pois ele não tem nenhum sentido transcendente.

Nossas faculdades reprodutivas possuem sentidos pessoais e transcendentes idênticos. Sua linguagem nos transmite a seguinte mensagem: se quisermos viver de acordo com a nossa dignidade, devemos usar essas faculdades para expressar um amor permanente (sentido unitivo) e gerar filhos (sentido procriativo) — em suma, união carnal e bebês. Os atos homossexuais separam o elo importantíssimo entre os sentidos unitivo e procriativo. É justamente por causa desse elo que contracepção, adultério e fornicação, bem como novas técnicas de reprodução (tais como barriga de aluguel e inseminação artificial) também violam a lei natural

Analisemos o sentido unitivo. Quando deixamos de lado a permanência, tratamos o outro como descartável, não como insubstituível. Somente uma união permanente e exclusiva condiz com a dignidade de cada cônjuge ou é proporcional a ela. Uma união permanente e exclusiva afirma corajosamente que o outro não é um objeto que possa ser substituído, mas uma pessoa de dignidade inviolável. Quando um casal estabelece o compromisso do matrimônio, os cônjuges dizem um ao outro (o ato conjugal de cada um diz ao outro): “Você é insubstituível” e “Eu me doarei completamente só a você”. Divórcio, adultério ou poligamia, portanto, são afirmações de que o parceiro não é de modo algum insubstituível. Quando isso é dito, a dignidade inviolável do outro é violada.

Por que duas pessoas homossexuais comprometidas não podem ter essa permanência? Pensemos no seguinte: por que no casamento heterossexual as violações da permanência são a exceção e não a regra, enquanto nas uniões homossexuais essas violações são a regra e não a exceção? Isso não significa que as relações heterossexuais sejam imunes a esse tipo de fragmentação; várias pessoas heterossexuais levam vidas tão promíscuas quanto as vidas de pessoas homossexuais. Mas quando pessoas heterossexuais fragmentam o aspecto unitivo, ferem simultaneamente o elemento procriativo, usando a contracepção (ou ao menos agindo com uma mentalidade contraceptiva) ou recorrendo ao aborto. É melhor que elas digam: “Não deveríamos ter filhos juntos; portanto, não deveríamos ter relações sexuais”. Permanência e procriação estão unidas, heterossexualmente.

Por natureza, os atos homossexuais ferem a dimensão reprodutiva. (Repare que o argumento da lei natural apresentado aqui é tão crítico em relação à contracepção como em relação à homossexualidade.) Nos dois casos, o ato conjugal é transformado numa espécie diferente de ato; as faculdades reprodutivas são usadas de modo contrário a seus fins naturais de união e procriação, que estão inextricavelmente conectados. Em suma, a permanência é impulsionada pela procriação. Quando os filhos são descartados, a união dos dois faz com que se voltem para si mesmos, e não para uma abertura exterior. As relações homossexuais não têm o traço da permanência porque está ausente essa razão ou finalidade específica. É verdade que a permanência é um valor em si, mas é um valor ligado à procriação.

Os casais que têm problema com infertilidade têm clara consciência do quanto a dimensão reprodutiva é inerente ao seu próprio compromisso. São profundamente honestos ao escutar a linguagem do corpo e responder a ela e, portanto, são testemunhas corajosas dessa linguagem. Escutem esses casais: eles nos dizem que a união profunda e permanente, valiosa em si, está vinculada aos filhos. Algum fator externo que está além do controle deles impede que tenham filhos. Mas sua união permanente é uma espécie de união reprodutiva, seus atos conjugais são reprodutivos. (Neste sentido, sua prole é o próprio ato sexual.) Eles poderiam recorrer a novas técnicas de reprodução; mas, neste caso, também escutam a linguagem do corpo e a afirmam. Profundamente unitivo, o ato conjugal é um ato reprodutivo, e o dom do filho está profundamente ligado com o dom de si encarnado naquele ato conjugal, e não meramente copulatório. Casais inférteis podem nos chocar por causa da nossa complacência, da nossa tendência a considerar o filho um direito. Eles conhecem mais do que ninguém aquilo que tendemos a perceber vagamente: que a criança é um dom. É assim que Deus age por meio da natureza humana, que por si só é um dom do Criador — portanto, afirmamos que a natureza corpórea fala conosco por meio de uma linguagem transcendente. O casal infértil vê esse dom de modo ainda mais claro por meio das lentes do seu sofrimento e, portanto, proclamam com mais firmeza do que outras pessoas a verdade da teonomia participada. Da mesma forma, a pessoa homossexual pode proclamar com profundidade a teonomia participada: a amizade marital é um grande dom, não um direito. A natureza caída — a raiz de todas as desordens — é considerada uma espécie de felix culpa; as distorções resultantes dela nos tornam mais conscientes do que nunca a respeito do dom da natureza. Nossa natureza caída nos faz um alerta e nos direciona para a teonomia participada. É a voz de Deus que fala por meio da natureza, uma voz que corresponde profundamente à nossa dignidade pessoal.

Dados da revelação divina

Até aqui nos concentramos nos sentidos naturais e transcendentes presentes no corpo, particularmente nas faculdades reprodutivas. A revelação — Sagrada Escritura e Tradição interpretadas pelo Magistério — nos faz avançar um passo ao colocar a relação homem/mulher num contexto litúrgico. Uma relação heterossexual propriamente ordenada é um evento litúrgico porque é um reflexo — um sacramento — da aliança entre Deus e a humanidade, entre Cristo e a Igreja. Muitos textos bíblicos apontam para essa imagem (cf. Oséias; Is 62, 4-5; Jr 7, 34; 31, 31; Sl 88, 26; Mt 9, 15; Jo 3; Ef 5, 32; Apo 21, 2). A união dos esposos é uma imagem da união permanente e exclusiva de Deus com o seu povo, e a procriação dos esposos é uma imagem da generosidade de Deus, particularmente da efusão de sua vida trinitária em nosso ser (graça). Em suma, o corpo fala a linguagem da aliança. Já que a aliança entre Deus e o homem culmina na obra redentora de Cristo, feita presente de modo sacramental na Eucaristia, há uma íntima reciprocidade entre matrimônio e Eucaristia. A Eucaristia é marital (Deus desposa seu povo), e o matrimônio é eucarístico (um sacramento da aliança). A linguagem do corpo não é apenas natural, é também sacramental.

Gravura representando a destruição de Sodoma.

A razão pela qual encontramos na Bíblia (cf. Gn 3; 19, 1-11; Lv 18, 22 e 20, 13; 1Cor 6, 9; Rm 1, 18-32; 1Tm 1, 10) e em toda a tradição católica (onde essa doutrina é ensinada de modo infalível por meio do magistério episcopal ordinário e universal) uma doutrina consistente sobre a homossexualidade é o sentido sacramental profundamente pessoal do corpo. Mas de novo: os atos homossexuais não são errados por causa desse padrão de ensino consistente; ao contrário, esse padrão é consistente porque os atos homossexuais não condizem com a nossa natureza. Nosso próprio ser participa do plano amoroso de Deus, e sua lei, em vez de ser inconstante e heterônoma, reflete esse plano. A tradição judaico-cristã deve ser articulada por meio da lente da teonomia participada. 

É neste contexto que os argumentos de John Boswell e outros são respondidos de forma mais adequada. Eles argumentam que não existe na Bíblia condenação ética dos atos homossexuais. Ao contrário, as condenações devem ser vistas à luz da impureza ritual — a homossexualidade é condenada porque recorre a práticas rituais como as que existiam nas religiões cananeias e depois foram imitadas em Israel. A melhor maneira de responder ao argumento de Boswell é conceder momentaneamente que as proibições do Antigo Testamento se refiram a práticas de culto idolátrico, que os atos homossexuais são errados por serem usados liturgicamente num falso culto a falsos deuses e deusas. É exatamente este o ponto — os atos homossexuais são, em certo sentido, atos “litúrgicos” em si, reflexos inextricáveis de idolatria. Esses atos são errados precisamente por serem “sacramentos invertidos”. Assim como a conduta ética num casamento ordenado reflete a aliança estabelecida, do mesmo modo a conduta antiética da homossexualidade é uma falsa imagem da aliança, ou algo que reflete uma compreensão distorcida da relação do homem com Deus. A razão pela qual práticas sexuais são usadas de forma ritual (sacramental) é precisamente porque aquela atividade ética ordenada ou desordenada é, ela mesma, uma imagem do verdadeiro ou do falso relacionamento entre o homem e Deus. Portanto, em resposta a Boswell podemos dizer que o Antigo Testamento não condena o uso ritual da homossexualidade, enquanto deixa de lado outros usos. A sexualidade fala uma linguagem “litúrgica” e, portanto, condenar o uso ritual dos atos homossexuais equivale a condenar os atos homossexuais em si. Acima de tudo, a condenação não é um fim heterônomo em si; ao longo do itinerário da teonomia participada, ela nos conduz ao fruto sacramental/litúrgico pleno: o respeito à linguagem natural do corpo.

A dimensão social/legal

O movimento pelos direitos dos homossexuais faz o seguinte questionamento: “Por que vocês simplesmente não nos deixam fazer o que quisermos, já que somos adultos e agimos de forma voluntária?” Qualquer crítica à homossexualidade é considerada uma discriminação injusta. Subitamente, passamos a cometer um crime tão abominável quanto o racismo ou o sexismo. A resposta a essa objeção deve ser feita a partir da estrutura da teonomia participada.

Aparentemente, estamos falando de uma atividade escolhida livremente por adultos que agem de forma voluntária, mas este é apenas um dos lados da história. Alguém que sucumbe a uma atividade contrária à lei natural, em certo sentido, não deseja realmente fazer isso e, portanto, realiza essa ação “involuntariamente”, para usar essa palavra em seu sentido mais profundo. Naturalmente, essa pessoa é dotada de livre-arbítrio, e seu ato será voluntário na medida em que resulta desse arbítrio. Porém, ela está usando seu livre-arbítrio incorretamente, sem que esteja de acordo com sua natureza. Esse uso incorreto está no contexto de sua desordem — daí o senso de desespero. Ela acha que deseja agir contra a natureza, mas não precisa fazer isso; isso não atende ao seu melhor interesse como pessoa, nem pode torná-lo verdadeiramente livre. Por isso dizemos aos nossos amigos: “Na verdade, você não quer fazer isso” no momento mesmo em que estão fazendo algo “voluntariamente” contra sua natureza. A teonomia participada destrói a ilusão pela qual dizemos a nós mesmos: “Adultos que agem de forma voluntária podem fazer o que quiser, desde que a ação seja voluntária e não prejudique mais ninguém”. Isso não é verdadeira liberdade, e é algo profundamente nocivo.

As recompensas que a sociedade oferece aos casais devem ser vistas dessa perspectiva. Como diz Michael Pakaluk: “A amizade do matrimônio resulta em filhos, cuja criação é difícil; como a sociedade se beneficia bastante quando os filhos são bem educados, ela faz uma distinção entre a amizade do matrimônio e outras amizades, a fim de dar a ela um reconhecimento especial e de premiá-la como benefícios peculiares” [19]. Se a sociedade tivesse de conceder benefícios semelhantes a pessoas homossexuais, então teria de dar os mesmos benefícios a quaisquer grupos de amigos que tanto os desejassem! Em vez disso, a sociedade tenta proteger aquilo que corresponde ao melhor interesse de todos.

A concessão de um conjunto especial de direitos às pessoas homossexuais seria algo contrário a esses interesses reais. Os crimes que violam os direitos legítimos das pessoas homossexuais são intoleráveis. “Mas a reação adequada aos crimes cometidos contra pessoas homossexuais não deveria ser a alegação de que a condição homossexual não é desordenada. Quando tal afirmação é feita e, consequentemente, quando a atividade homossexual é tolerada, ou quando são implementadas leis civis para proteger um comportamento ao qual ninguém possui qualquer direito imaginável, nem a Igreja nem a sociedade como um todo deveriam se surpreender quando outras ideias e práticas distorcidas ganham terreno e tempestades irracionais aumentam” [20].

Como diz o ditado: ninguém tem o direito de fazer o que é errado. “O que é errado” é aquilo que é hostil à nossa natureza, aquilo que interrompe a nossa plena participação na natureza carregada de sentido, que nos foi dada por sermos pessoas humanas encarnadas. A pessoa homossexual pode inicialmente sentir repulsa pela perspectiva apresentada aqui, mas isso acontece porque ela confunde facilmente a natureza humana com aquilo que lhe “parece natural” ou “surge naturalmente” — neste caso, o poderoso desejo de ter relações sexuais com alguém do mesmo sexo. Ela está apenas seguindo a tendência ditada pela cultura secular, que a bombardeou desde a adolescência com a visão de que a realização humana está relacionada a qualquer forma de “satisfação” sexual que “surja naturalmente”. Ela usa seu livre-arbítrio de forma equivocada ao seguir aquilo que “surge naturalmente” e assim é escravizada. O caminho para sair desse desespero em direção à liberdade autêntica é a participação no plano cuidadoso que Deus inseriu na natureza dela, e essa participação só se tornou possível por causa da graça radiante de Cristo, que “libertou a nossa liberdade do domínio da concupiscência” [21].

Notas

  1. Aqui, no original, o autor exemplifica essa postura com a frase: “‘A homossexualidade é um erro porque Deus disse’ (e nada além disso)”. Com isso, o autor quer dizer que “a livre obediência do homem à lei de Deus implica, de fato, a participação da razão e da vontade humana na sabedoria e providência de Deus” (Veritatis Splendor, 41). Ou seja, Deus não é um tirano que, do alto do céu, ordena certas coisas e condena outras “porque sim”. Mas isso nem de longe tira o mérito de quem, mesmo sem entender a fundo o porquê dos Mandamentos, humildemente crê no que Deus revelou acerca da homossexualidade. Afinal, o ato de fé não se deve, em primeiro lugar, “à verdade intrínseca das coisas”, como explica a Constituição Dei Filius, do Concílio Vaticano I, mas à “autoridade do próprio Deus, autor da Revelação, que não pode enganar-se nem enganar”. Ele sempre revela o que é a verdade para o nosso bem. Justamente por isso, e para não confundir as pessoas nessa matéria, preferimos omitir a sentença em questão (N.T.).
  2. A estratégia é análoga à da organização pró-vida CareNet. A pesquisa realizada por ela descobriu que os excelentes argumentos apresentados pela causa pró-vida em defesa da personalidade do feto humano não respondiam à situação existencial de muitas mulheres que pensavam em abortar e que viam o nascituro, apesar de sua personalidade, como uma ameaça às suas vidas.
  3. Essa é a sugestão do Pe. John Harvey, um verdadeiro herói moderno quando se trata do cuidado com pessoas homossexuais. Seu livro mais recente é The Truth About Homosexuality: The Cry of the Faithful. San Francisco, Ignatius Press, 1996 (N.A.). No texto, traduzimos a expressão inglesa orientation ora como “tendência”, ora como “inclinação”, dando preferência aos termos que a própria Igreja emprega em seus documentos oficiais (N.T.).
  4. Em 1973, a Associação Americana de Psiquiatria revogou sua classificação da homossexualidade como desordem, após ter sofrido pressão do grupo National Gay Task Force. Ver Elizabeth Moberly, “Homosexuality and Hope”, First Things 71, março 1997, 30-33, 30.
  5. William Main, “Gay But Unhappy”, Crisis, março 1990, 32–37, 36. Este é um excelente resumo dos insights de van den Aardweg. Seu livro mais acessível aos leigos é Homosexuality and Hope. Ann Arbor, Servant Books.
  6. World, May 20, 2000, 51-54. Ver a obra de Jeffrey Satinover, Homosexuality and the Politics of Truth. Grand Rapids, Baker, 1996, particularmente o capítulo 5 sobre gêmeos.
  7. Jeffrey Satinover, “The Biology of Homosexuality: Science or Politics?”, em: Christopher Wolfe, ed., Homosexuality and American Public Life. Dallas, Spence, 1999, 3–61.
  8. Ver Fr. John Harvey, The Truth About Homosexuality, capítulo 4, para um excelente panorama sobre os muitos praticantes.
  9. “The Cause and Treatment of Homosexuality”, Catholic World Report (julho, 1997), 51–52.
  10. Ver o excelente capítulo de Mero Cristianismo, de C. S. Lewis, intitulado “Moral e Psicanálise”.
  11. Congregação para a Doutrina da Fé, Sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais, n. 11 (daqui em diante, AP).
  12. Esta compreensão pode exercer um papel importante na própria terapia reparadora, como um antídoto central para o senso de “autopiedade que se torna neuroticamente habitual”, que alguns supõem ser uma das causas centrais dessa desordem. Ver Main, “Gay But Unhappy”.
  13. AP, n. 11.
  14. AP, n. 11.
  15. O autor não aborda aqui, por não ser o escopo do artigo, a intrincada questão da liberdade religiosa. De todo modo, como lembra a própria Declaração Dignitatis Humanae, do Concílio Vaticano II, “todos os homens têm o dever de buscar a verdade, sobretudo no que diz respeito a Deus e à sua Igreja e, uma vez conhecida, de a abraçar e guardar” (n. 1) (N.T.).
  16. Vermont é um estado norte-americano. O autor fala, evidentemente, a partir de sua própria realidade, mas no Brasil as coisas não estão muito diferentes. Com a diferença que, aqui, em vez de leis propriamente ditas, foi o ativismo judicial do STF que permitiu a celebração civil da união de pessoas do mesmo sexo (N.T.).
  17. Ver Veritatis Splendor, nn. 47–53, a resposta do Papa aos teólogos que alegam que a doutrina católica sobre a moral sexual sucumbe a um biologismo bruto pelo qual as leis morais seriam automaticamente urdidas a partir de simples leis biológicas. O centro da doutrina moral católica não deduz de modo falacioso um “dever” moral a partir de um único fato biológico. 
  18. Como diz Richard John Neuhaus (“Love, No Matter What” em: Wolfe, Homosexuality, p. 245), a maioria das pessoas sente repulsa, de um modo intuitivo e pré-articulado, pelo que “fazem os homossexuais”. O mesmo acontece com muitos dos que estão entre os 2% da população que têm inclinação homossexual. (Os 10% mencionados pelo antigo Relatório Kinsey eram falaciosos.)
  19. “The Price of Same-Sex Union”, Catholic World Report, julho 1997, 49. Ver também Family, Marriage and “De Facto” Unions, Pontifício Conselho para a Família, 2000.
  20. AP, n. 10.
  21. VS, n. 103.

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O grande risco de não pensar no inferno
Espiritualidade

O grande risco
de não pensar no inferno

O grande risco de não pensar no inferno

O inferno não é um assunto a ser evitado; é um lugar a ser evitado. E não pensar nele é um grande risco. Podemos inclusive nos enganar com a ideia de que ele não existe. Mas pensar sobre o inferno é uma ótima ideia. E uma boa maneira de nos mantermos fora dele.

Dale AhlquistTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Julho de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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Todos sabemos que vamos morrer, e todos odiamos o fato de que iremos morrer. Porque a morte é algo podre. É o “fracasso da carne”. Na verdade, Chesterton usou o medo da morte para fazer as pessoas apreciarem melhor a vida. Era por isso que, quando alguém dizia que não valia a pena viver, Chesterton sacava uma arma e se oferecia para atirar na pessoa. De repente, por alguma razão, quando fitamos o tambor de uma arma, vemos que a vida vale a pena! A vida é boa. A vida é preciosa.

Embora o medo da morte seja universal, o medo da condenação é mais pessoal e mais individual, porque esse temor é a voz de nossa consciência que nos julga. É o senso inescapável de que, se recebêssemos o julgamento que realmente merecemos, ele não seria agradável. Justiça é algo que todos desejamos quando achamos que fomos prejudicados, mas também é algo em que realmente não gostamos de pensar no restante do tempo, ou seja, na maior parte dele. O medo de ser realmente condenado é apenas uma profunda compreensão de que Deus é justo.  

Assim como Chesterton usou o medo da morte para despertar uma maior valorização da vida, também recorreu ao medo da condenação para estimular um maior apreço pela salvação. Geralmente, o medo da condenação é retratado como algo muito negativo, mas Chesterton não hesita em apresentá-lo como algo bastante positivo. Em São Francisco de Assis ele diz:

Um ateu muito honesto com quem debati certa vez usou a expressão: “Os homens só têm permanecido na escravidão por causa do medo do inferno”. Como lhe mostrei, se ele tivesse dito que os homens só foram libertados da escravidão por causa do medo do inferno, ao menos teria se referido a um fato histórico inquestionável.

Foi o medo do inferno que libertou os escravos, que, ao contrário de seus proprietários, não tinham medo do inferno. Thomas Jefferson se inquietou com o fato de que os recém-formados Estados Unidos da América, fundados sobre a liberdade, não haviam libertado os escravos. Ele se preocupava, dizia, “porque Deus é justo”.

Ao longo da história, os santos e outros amantes da justiça pregaram em defesa da reforma da sociedade, a fim de torná-la mais justa e menos infernal para os pobres e oprimidos. Usaram palavras simples sobre coisas boas como pão, terra, filhos e igrejas, e palavras simples sobre coisas ruins como crime, pecado, morte e inferno.

Pregaram aos presunçosos e aos que estão satisfeitos consigo mesmos, aos que abusam de cada um dos dons de Deus, inclusive o da linguagem, para criar filosofias cujo objetivo é naturalizar a religião. Chesterton diz que essas filosofias são de uma “brandura insondável”. Com certeza se esqueceram de Deus, mas seu grande erro antes disso foi ter esquecido o inferno.

“A Queda dos Anjos Rebeldes”, de Eugenio Cajés.

Quando nos esquecemos do inferno, esquecemo-nos da realidade mais ampla fora de nós. Cedemos ao egoísmo e egocentrismo. O inferno é a separação de Deus. Para piorar as coisas, o inferno é ficar aprisionado a si mesmo. 

Naturalmente, o inferno é sempre retratado como fogo, mas quando nos esquecemos dele congelamos. (Provavelmente, é por isso que Chesterton compara a Escandinávia ao inferno). Ele diz: “O inferno é o lugar onde nada pode acontecer”. Não podemos agir. Nada pode acontecer. Somos congelados. Por isso o inferno é simbolizado por correntes, e o céu por “asas livres como o vento”.

Ironicamente, só podemos agir neste mundo se houver um inferno. Só podemos agir se soubermos que nossas ações são importantes, eternamente importantes. Só podemos agir se nossas ações — boas e más — tiverem consequências.    

Em outras palavras, sem inferno não há livre-arbítrio.

Fomos feitos para o céu, mas não somos obrigados a ir para lá. Chesterton diz que é um dogma fundamental da Igreja Católica “que todos os seres humanos, sem exceção, foram feitos de modo especial, foram moldados e apontados como flechas reluzentes cuja finalidade é atingir o alvo da bem-aventurança”. Porém, as hastes dessas flechas, diz ele, “carregam as penas do livre-arbítrio e, portanto, formam a sombra de todas as trágicas possibilidades do livre-arbítrio”.

A mais trágica dessas possibilidades é a condenação eterna. A Igreja sempre tentou enfatizar “a maravilha da glória possível”, mas também tem de “chamar a atenção para as trevas da tragédia possível”.

No entanto, há no seio do cristianismo, e no da Igreja Católica, uma heresia crescente e insidiosa chamada universalismo. É a ideia de que todos irão para o céu independentemente do que fizerem. Evidentemente, isso contraria a doutrina da Igreja. Mesmo assim, vemos em muitos lugares uma resistência cada vez maior para falar sobre o inferno e as “possibilidades trágicas” que acompanham a glória do livre-arbítrio. Os universalistas superaram os protestantes, que reduziram o plano da salvação à ideia de que bastava a fé para obtê-la, enquanto os universalistas jogaram fora até mesmo a fé. Agora a salvação não depende de nada.

Mas a dignidade humana depende da doutrina do livre-arbítrio. Chesterton diz que o outro nome dela é responsabilidade moral. Também afirma que “pendem dessa perigosa e sublime liberdade o céu, o inferno e todo o misterioso drama da alma”, isto é, a incrível possibilidade de “um homem se separar de Deus”. Mas o fato de um homem poder se reconciliar com Deus é ainda mais dramático. Não há fundamento lógico — nem teológico — para a ideia de que podemos nos reconciliar com Deus sem que possamos nos separar dEle.

O inferno não é um assunto a ser evitado; é um lugar a ser evitado. É um grande risco não pensar nele. Podemos inclusive nos enganar com a ideia de que ele não existe. No entanto, pensar sobre o inferno é uma ótima ideia. E uma boa maneira de nos mantermos fora dele.

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Santa Maria Goretti: um “tapa na nossa cara”
Santos & Mártires

Santa Maria Goretti:
um “tapa na nossa cara”

Santa Maria Goretti: um “tapa na nossa cara”

Sob ameaça de violências e morte, Santa Maria Goretti guardou sua pureza inviolável, enquanto nós, querendo, caminhamos alegre e tranquilamente para a impureza que, mais cedo ou mais tarde, nos levará para o inferno.

Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Julho de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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“Não! Deus não quer! Se fazes isto, vais para o inferno! Que fazes, Alexandre? Não me toques! É pecado!”: assim “Marieta gritava, mais preocupada em defender o seu pudor do que a sua vida” [1].

O depoimento acima foi recolhido da boca do próprio Alexandre Serenelli, assassino de Santa Maria Goretti, e atesta uma coisa: para se conservar na graça de Deus, o ser humano deve fazer de tudo, inclusive suportar a própria morte.

De fato, a pequena camponesa que a Igreja hoje celebra — e que contava, quando morreu, apenas “11 anos, 8 meses e 20 dias” de vida — não defendeu a virgindade com raciocínios meramente humanos [2]. Não foi por uma questão de honra pessoal que ela lutou até o fim para não ser violada — ainda que essa fosse, humanamente falando, uma causa muitíssimo justa. Sua preocupação, externada nos gritos terríveis com que se defendia do algoz, eram a vontade de Deus e a salvação da alma de seu agressor. Como todo mártir, Maria Goretti aferrava-se à , desprezando o mundo visível pelas realidades invisíveis. Mesmo analfabeta, a menina descobrira, a partir da educação cristã dos pais, que havia algo maior que a vida natural: a graça divina dentro de si. Por ela, valeria a pena gastar tudo, inclusive derramar o próprio sangue. E por isso ela resistiu [3].

“Antes morrer do que pecar”. Eis a verdade em que creram, de modo particular, todos os mártires da Igreja; verdade em que todos os católicos deveriam acreditar. De acordo com uma teologia mais moderna, no entanto, preocupada com “proporções” e “adaptações”, talvez as pessoas não devessem ser tão rigorosas assim no cumprimento dos Mandamentos. Talvez fosse necessário avaliar, no caso concreto, a resposta que se pode oferecer a Deus; seria necessário distinguir os bons aspectos de cada situação. Assim se procura legitimar, hoje, desde a aceitação das várias e mais disparatadas religiões até as relações entre pessoas do mesmo sexo. “Uma coisa é o conceito de pecado — eles dizem —, outra são as circunstâncias concretas em que se encontram as pessoas”.

A essas pessoas que parecem crer, também só em teoria — porque, na prática, defendem o que defenderia qualquer pessoa sem fé —, seria necessário lembrar a dura e tão esquecida advertência de Nosso Senhor no Evangelho: “Seja o vosso sim, sim; o vosso não, não. O que passa disto vem do Maligno” (Mt 5, 37). Ou, como diz o Papa Pio XII:

Pode haver situações em que o homem, e especialmente o cristão, não pode ignorar que deve sacrificar tudo, inclusive a própria vida, a fim de salvar a própria alma. Todos os mártires no-lo recordam. E os há em grande número, também em nossos tempos. Mas será que a mãe dos Macabeus e seus filhos, santas Perpétua e Felicidade, sem embargo de seus recém-nascidos, Maria Goretti e milhares de outros, homens e mulheres venerados pela Igreja e que se opuseram à “situação”, sofreram inutilmente — e até por engano — uma morte sangrenta? Certamente não. E eles, com seu sangue, são os testemunhos mais expressivos da verdade contra a “nova moral”

Santa Maria Goretti, por exemplo, não “relativizou” o pecado que a fez padecer. Ao contrário, reconheceu-lhe a gravidade desde o princípio, e por isso mesmo se negou a consentir; acolheu as consequências terríveis desta escolha e ofereceu-as todas a Deus, como reparação e, ao mesmo tempo, intercessão por seu algoz.

Nisso ela se assemelhou sobremaneira a Nosso Senhor em seu sacrifício expiatório. Não deixa de ser significativo, a propósito, que celebremos o testemunho de sangue desta criança justamente no mês de julho, dedicado ao Preciosíssimo Sangue de Cristo. 

De fato, assim como Jesus no Calvário, esta pequena viu o sangue jorrar das feridas abertas pelo assassino em seu corpo imaculado. “Na cama” onde a colocaram depois do atentado à sua integridade física, “Maria jazia toda salpicada de sangue” e “as roupas se lhe enfiavam nas feridas, causando-lhe dores indizíveis” [4]. 

Também em perfeita configuração a Cristo, ela concedeu ao seu agressor nada menos que o perdão. “Marieta, Jesus morreu perdoando ao bom ladrão; e você perdoa de todo coração ao assassino?”, perguntaram-lhe. “Oh, sim”, respondeu. “Eu também lhe perdoo por amor de Jesus. E desejo vê-lo bem perto de mim no Paraíso” [5].

Mais tarde, seu desejo seria atendido: Alexandre se converteria verdadeiramente ainda na prisão, e passaria o resto da vida fazendo penitência por seu crime. Mas seu pecado teve um preço imediato. O perdão de Maria não foi “barato”. Às 15h45min do dia 6 de julho de 1902, ela não resistiu e faleceu. “Apagava-se uma lâmpada na terra e acendia-se uma estrela no céu” [6].

A morte desta mártir é o completo avesso da mentalidade mundana moderna, que afetou até pessoas de Igreja. Hoje, diante do pecado, como reagem os católicos? Cientes de que irão ofender a Deus, eles nem por isso deixam de pecar, já “seguros” de que se confessarão depois. Pecar é como extrair um dente, ou nem isso. É uma trivialidade, um ato que facilmente se cancela com algumas palavras mais ou menos sinceras diante de um padre. 

A vida desta virgem, por sua vez, é um verdadeiro “tapa na cara” da juventude moderna, tão habituada aos prazeres fáceis da carne. Sob ameaças de violência e morte, Maria Goretti guardou sua pureza inviolável, enquanto nós, querendo, caminhamos alegres e tranquilos para a impureza que, mais cedo ou mais tarde, nos levará para o inferno. 

Para os corações retos a vontade de Deus é tudo” [7]; para os corações desviados, porém, o pecado é tudo, e a vontade de Deus não passa de um obstáculo para a sua “felicidade” egoísta e autossuficiente. A pergunta é quando acordaremos desta ilusão de morte — se é que acordaremos a tempo. 

Não abusemos mais da misericórdia e da paciência de Deus para conosco. — Santa Maria Goretti, rogai por nós!

Referências

  1. Padre J. C. M. Colombo, Santa Maria Goretti, mártir da pureza. 2.ª ed. Paulinas, 1949, p. 70.
  2. Id., p. 82.
  3. “Causa verdadeiro espanto — diz o Decreto da Introdução da Causa — o alto grau de virtude que atingiu essa menina, que naquela desolada região não recebera instrução nem leiga, nem religiosa, a não ser as práticas que ouvia na igreja, os rudimentos do catecismo para a Primeira Comunhão e o exemplo dos pais. Pois, sendo analfabeta, não tinha nem sequer o recurso da leitura. É bem certo que os puros de coração têm a intuição de Deus; que Deus revela seus segredos aos pequeninos; e que nos pequeninos se manifesta de um modo maravilhoso; que a virtude e os dons infusos do Batismo se aperfeiçoam pelo Crisma e se alimentam pela Eucaristia” (Ibid., p. 65).
  4. Id., pp. 9 e 73.
  5. Id., p. 79.
  6. Id., p. 82.
  7. Id., p. 28.

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“Transracial”: a história do inglês que decidiu “virar” coreano
Sociedade

“Transracial”: a história
do inglês que decidiu “virar” coreano

“Transracial”: a história do inglês que decidiu “virar” coreano

Nossa cultura degradou-se ao ponto de um jovem inglês passar por 18 cirurgias plásticas, insistir em que é um coreano não-binário e, por fim, usar os mesmos argumentos da ideologia de gênero para defender a sua “transição racial”.

Jonathon van MarenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Julho de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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Como Rod Dreher observa em seu recente livro Live Not By Lies: A Manual for Christian Dissidents [Não Viva de Mentiras: Um Manual para Cristãos Dissidentes, sem tradução para o português], ideologias perversas podem conquistar civilizações inteiras simplesmente porque a maioria das pessoas escolhe viver de mentiras, mesmo que não acredite nelas, simplesmente porque isso é mais fácil. O ódio ameaça as sociedades — a apatia as destrói. Por isso, enquanto uma minoria barulhenta e muito poderosa nos Estados Unidos concorda com a agenda transgênero, a vasta maioria da população simplesmente não se incomoda em protestar. Isso é assim, em boa parte, porque estes movimentos não impactam o nosso dia a dia — até, de repente, impactarem.

É óbvio para qualquer pessoa com olhos e um córtex pré-frontal em funcionamento que o movimento trans está tirando sarro de todos nós. Mas, mais especificamente, está tirando sarro das mulheres. São as mulheres que estão sendo forçadas a dividir vestiários e banheiros com suas “irmãs” de gogó; são as mulheres que saem arrasadas de eventos esportivos; e, parece loucura, são as mulheres que, em essência, têm de ouvir que homens biológicos são melhores em ser mulheres do que elas mesmas.

Por exemplo, um homem que se identifica como mulher — Kataluna Enriquez — foi coroado Miss Nevada, deixando fora do páreo 21 concorrentes femininas no ringue da beleza. E como você acha que a grande mídia reagiu a este novo patriarcado drag? A NBC o chamou “uma vitória histórica”. O Courier Mail o chamou “uma bela e extraordinária rainha”. O Entertainment Weekly despejou um “está fazendo história”. Grupos LGBT celebraram amplamente este salto adiante em sua revolta cultural, e é fácil dizer por quê.

Penso que concursos de beleza são, em geral, shows de exploração e pornografia soft, mas acontece que até mesmo esse bastião de objetificação feminina pode ser colonizado por homens — não como guarda-costas, mas como “moças”.

Mas a coisa ainda vai piorar. Um sujeito chamado Oli London, um influenciador britânico que é obcecado pelo astro K-pop Park Jimin, decidiu passar por uma série de cirurgias plásticas grotescas a fim de se transformar num sósia de Jimin. Tendo-se convertido numa paródia perturbadora de seu ídolo, ele agora se apresenta em público como um coreano não-binário

Digamos o óbvio: ele é um inglês branco. Mas porque lhe disseram que um homem pode tornar-se mulher com um retoque aqui e ali, ele — muito compreensivelmente — acredita ter-se transformado num coreano de gênero indistinto.

Ele postou um vídeo proclamando sua nova identidade: 

Eu me identifico como coreano. Esta é a minha cultura. Esta é a minha terra natal. É exatamente o que pareço agora. Eu também me identifico como Jimin, e este é o meu nome artístico. Eu sei que isso pode ser um pouco confuso para as pessoas — ninguém nunca se revela como coreano, mas isso é uma coisa que vocês sabem, se me acompanharam em minha jornada. Nos últimos oito anos, eu realmente lutei com problemas de identidade, com aquilo que sou… Eu finalmente passei por minha cirurgia de transição racial.

É desnecessário dizer que houve um monte de reações negativas — mas os críticos dele não têm muito onde se apoiar. Eles passaram os último cincos anos, mais ou menos, criticando vigorosamente quem quer que discordasse da premissa de que você pode escolher sua própria identidade e moldar-se a si mesmo dentro dela, e não há razão lógica pela qual um homem pode tornar-se mulher, mas um homem branco não pode tornar-se coreano. Oli respondeu dizendo basicamente o seguinte: 

Se você pode ser transssexual, você também pode ser TRANSRACIAL. Por que têm dois pesos e duas medidas e são tão hipócritas as pessoas que me criticam por ser coreano (sic). É o mesmo caso de alguém que nasceu no corpo errado e deseja virar um homem ou uma mulher. Eu, de fato, nasci no corpo errado.
O jovem inglês Oli London, com a máscara de seu ídolo pop coreano.

Ele chega a dizer que tomou coragem graças a todos os que têm “saído do armário” e se identificado como os vários e diversificados membros do “clube do alfabeto”, e que também ele gostaria de aproveitar o Mês do Orgulho [LGBT] para fazer sua revelação. London passou por 18 cirurgias plásticas (o que fica muito, muito à vista), usa o mesmo linguajar que as pessoas trans usam e afirma ter-se “sentido bonito pela primeira vez”. Ele diz que antes se sentia preso no próprio corpo. Ele chega até mesmo a anunciar seus próprios pronomes. Em seguida, encoraja outros que se identificam como coreanos, japoneses ou qualquer outra etnia a seguir seus passos e revelar-se em público. Afinal, por que não? Como seria possível que alguém se opusesse, depois de todas as coisas que nos têm enfiado goela abaixo ao longo da última década?

Eu pensei que o vídeo de London seria uma espécie de sátira, mas não foi. Ele parece muito doentio, e ele não parece coreano — ele parece ter sofrido um assalto e recebido no processo uma boa surra. Se eu não tivesse visto por mim mesmo as notícias e assistido à sua revelação, pensaria que ele estava apenas de brincadeira — ou, quem sabe, até mesmo “trolando” o movimento trans

Mas ele não está. Ele fala realmente a sério. Nossa cultura degradou-se ao ponto de um jovem inglês passar por 18 cirurgias plásticas, insistir em que é um coreano não-binário e, por fim, usar os argumentos que governos ocidentais têm estado ocupados em transformar em lei nos últimos anos para alertar as pessoas de que é melhor não tirar onda com a cara dele.

Assistir ao vídeo da revelação de Oli London é como ver uma tragédia desenrolar-se em tempo real — e ele, infelizmente, é apenas um microcosmo para uma legião de jovens tão confusos, feridos e iludidos como ele próprio.

Notas

  • Os bonecos personalizados acima são dos integrantes da banda coreana BTS — entre os quais está Park Jimin, o cantor com quem Oli London quer se parecer. 

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