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São José: jovem ou idoso?
Santos & Mártires

São José:
jovem ou idoso?

São José: jovem ou idoso?

A Igreja Católica não tem nenhum ensinamento oficial sobre a idade de São José. Mas alguns nomes de peso de nossa época têm bons motivos para acreditar que, quando se casou com a Virgem Maria, São José era jovem e estava no auge de seu vigor físico.

Pe. Donald CallowayTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 14 minutos
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Não estou de acordo com a forma clássica de representar S. José como um ancião, ainda que com isso se tenha tido a boa intenção de ressaltar a perpétua virgindade de Maria. Eu o imagino jovem, forte, talvez com alguns anos mais do que a Virgem, mas na plenitude da vida e do vigor humano. — S. Josemaría Escrivá [1].

Você já tinha lido de algum santo uma afirmação como essa sobre a idade de S. José? Pois bem, S. Josemaría tem bons motivos para afirmar que S. José era, na verdade, jovem quando se casou com Nossa Senhora — e ele não é o único que pensa assim.

A Igreja Católica não tem nenhum ensinamento formal ou oficial sobre a idade de S. José. Por isso, você é livre para crer que ele era um ancião quando se casou com Maria, se assim desejar. Mas você também é livre para crer que ele era jovem. Pessoalmente, eu acho muito difícil de acreditar que S. José era idoso. As demandas físicas de sua missão reduzem essa possibilidade a praticamente zero.

Se você considerar os títulos que a Igreja atribui a S. José em sua ladainha (Guardião do Redentor; Casto guardião da Virgem; Guardião das virgens; Modelo dos trabalhadores; Terror dos demônios etc.), eles indicam antes um jovem e forte S. José. Esses títulos não são descrições de um homem velho. Um homem velho é capaz de proteger virgens? Pode um idoso servir como modelo de trabalhador? É preciso força para ser um guardião, e saúde para ser um trabalhador. Pode um idoso fazer essas coisas? Como disse uma vez a Madre Angélica: “Homens idosos não caminham até o Egito”. Tampouco guardam qualquer coisa cuja custódia exija mobilidade e força. Sem dúvida, nada disso implica uma deficiência moral para os mais velhos. O mundo está cheio de incontáveis anciãos virtuosos, sábios e santos. Todavia, os idosos não são reconhecidos pela capacidade física de fazer as coisas que S. José, por exemplo, foi chamado a fazer pela Sagrada Família.

Sendo assim, por que a maior parte das obras de arte, ao longo dos séculos, retratou S. José como um ancião? O Venerável Fulton Sheen foi quem deu a melhor resposta a essa questão. Ele escreve:

S. José era jovem ou idoso? A maioria das imagens e retratos que nós vemos de S. José, hoje em dia, o representa como um idoso com barba grisalha, alguém que assumiu a guarda de Maria e de seu voto, com mais ou menos o mesmo desprendimento com que um médico pegaria uma menina em um berçário. Seja como for, nós não temos absolutamente nenhuma evidência histórica da idade de S. José. Alguns relatos apócrifos o descrevem como um homem velho; e os Padres da Igreja, após o quarto século, seguiram essa lenda de forma bastante rígida [...].

Mas, quando procuramos os motivos pelos quais a arte cristã deveria ter representado José como um idoso, nós descobrimos que era para melhor proteger a virgindade de Maria. De algum modo, a suposição de que a senilidade era uma melhor protetora da virgindade do que a adolescência prevaleceu. Então, inconscientemente, a arte fez de José um esposo casto e puro não pela virtude, mas pela idade. Entretanto, isso é quase como assumir que a melhor maneira de mostrar um homem que nunca roubaria é retratá-lo sem mãos [...].

Mas, mais do que isso, descrever José como um idoso sugere, para nós, um homem com pouca energia vital, ao contrário de um que, tendo muita energia, a manteve sob domínio por amor a Deus e por santos propósitos. Fazer S. José parecer puro apenas porque seu corpo envelheceu é como glorificar um riacho que secou. Mas a Igreja não vai ordenar ao sacerdócio um homem sem força vital. Ela quer homens que tenham alguma coisa para mortificar, e não homens “dóceis” sem energia para ser selvagens. E isso não deveria ser diferente com Deus.

Ademais, é razoável crer que Nosso Senhor preferiria para pai adotivo não alguém que tivesse sido forçado a isso, mas um que tivesse feito um sacrifício. Há ainda o fato histórico de que os judeus desaprovavam casamentos desproporcionais entre o que Shakespeare chamou de “idade da rabugice e juventude”; o Talmude admite matrimônios desproporcionais apenas para viúvos e viúvas. Por fim, não parece possível que Deus tenha unido uma mãe jovem, com cerca de dezesseis ou dezessete anos de idade, provavelmente, a um homem idoso. Se, aos pés da Cruz, Ele não se importasse em dar à sua Mãe o jovem João, por que, então, no berço, lhe teria dado um idoso?

Ora, o amor de uma mulher sempre define o modo como um homem ama: ela é a educadora silenciosa da sua força viril. Uma vez que Maria deve ser chamada de a “virginizadora” das mulheres e dos jovens, sendo também a maior inspiração da pureza cristã, ela não deveria, logicamente, ter começado por inspirar e virginizar o primeiro jovem com quem provavelmente se encontrou — José, o Justo? Não seria, portanto, diminuindo o poder de ele amar, mas elevando-o, que Maria teria a sua primeira conquista: a do seu próprio esposo, o homem que era um homem, e não um mero vigia senil.

José provavelmente foi um homem jovem, forte, viril, atlético, belo, casto e disciplinado. Em vez de um homem incapaz de amar, ele deve ter sido alguém ardendo em chamas de amor. Assim como daríamos pouquíssimo crédito à Mãe bendita se ela tivesse feito o seu voto de virgindade após cinquenta anos como uma solteirona, também não poderíamos dar muito crédito a José, se ele tivesse se tornado esposo de Maria apenas porque já era de idade avançada. As moças daqueles dias, do mesmo modo que Maria, faziam votos de amar somente a Deus; e assim o faziam também os rapazes, dentre os quais José era o mais proeminente, pelo que foi chamado o “justo”. Então, por exemplo, em vez de frutas secas para serem servidas à mesa do rei, ele foi antes uma flor cheia de promessa e vigor. Ele não estava no entardecer da vida, mas na manhã, fervendo de energia, força e paixão ordenada. Maria e José levaram para suas núpcias não apenas o voto de virgindade, mas também os dois corações com as maiores torrentes de amor que jamais percorreram entranhas humanas.

Quão mais belos Maria e José se tornam quando vemos em suas vidas o que pode ser chamado de o primeiro Romance Divino! Nenhum coração humano é tocado pelo amor de um velho por uma jovem; mas quem não é tocado pelo amor de um jovem por outra jovem? Em ambos, Maria e José, havia juventude, beleza e compromisso. Deus ama a vazão das cataratas e o barulho das cachoeiras, mas as ama mais ainda, não quando transbordam e afogam suas flores, mas quando são domadas e represadas para encantarem as cidades e matarem a sede de uma criança. Em Maria e José, por sua vez, nós não encontramos uma cachoeira represada e um lago seco respectivamente; mas, em vez disso, dois jovens que, antes de conhecer a beleza um do outro, desejaram submetê-la a Jesus. Portanto, inclinados sobre a manjedoura do Menino Jesus, não estão um idoso e uma jovem, mas dois jovens: a consagração da beleza na donzela e a entrega da fascinante fortaleza no homem [2].

Uau! Fulton Sheen é mesmo brilhante. Até onde sabemos, nenhuma outra pessoa, em toda a história da Igreja, formulou um argumento tão convincente sobre a juventude de S. José quanto Fulton Sheen. Como ele afirmou claramente, a teologia e a arte só descreveram S. José como um ancião para proteger a virgindade de Maria.

Agora, sejamos justos, a decisão de descrever José como um idoso a fim de resguardar a virgindade e a pureza de Maria, seja na pregação, nos escritos ou na arte, realmente funcionou. Como um exemplo extremo disso, um antigo texto copta sobre a vida de S. José o apresenta com 91 anos quando se casou com Maria. Todavia, todos os historiadores e teólogos reconhecem que as fontes que apresentam José como um idoso vêm de documentos apócrifos, isto é, não canônicos. E, além disso, basear-se em escritos apócrifos para sugerir uma idade a S. José leva à ideia de um sujeito velho, diminuindo sua virtude, importância e grandeza no pensamento dos cristãos. Não é de admirar, portanto, que tão poucas pessoas tenham prestado atenção em José ao longo dos séculos.

Quão drástica foi essa abordagem para S. José? Hoje em dia, ele raramente é incluído na formação sacerdotal sobre Cristologia, Mariologia, soteriologia ou eclesiologia. Logo o homem universalmente aclamado como o mais amoroso, justo, casto, prudente, corajoso, obediente e fiel de todos os homens não é mencionado nem mesmo nas aulas de teologia moral. Isso precisa mudar. Demos graças a Deus pela sabedoria e intuição de pessoas como S. Josemaría Escrivá, Madre Angélica e Fulton Sheen. A Igreja precisa re-apresentar aos seus filhos uma imagem de S. José que o descreva como forte, viril e jovem. Porque a apresentação constante dele como um homem velho deformou profundamente o nosso entendimento a respeito do maior de todos os santos (depois de Maria) que já caminhou sobre esta terra. É hora de recuperar S. José.

Agora, não leve isso a mal. O Senhor ama os idosos. Deus ama os anos de trabalho duro, serviço, dedicação pessoal e amoroso sacrifício de um homem. Sociedades calmas, justas e pacíficas repousam sobre os fundamentos estabelecidos por homens veteranos. Entretanto, aqueles homens construíram os fundamentos e os pilares da civilização quando eram jovens, não idosos. Provavelmente, os anos formativos de Jesus Cristo foram amorosamente dirigidos por um forte e jovem pai chamado José. Foi esse pai trabalhador, atencioso e virtuoso que lançou as bases para o crescimento e o desenvolvimento humano de Jesus Cristo. Se, por um lado, não há dúvida de que um idoso é tão capaz de ser santo quanto qualquer jovem, por outro, é necessário um pai forte e jovem para ensinar a um filho como brandir o machado, trabalhar com madeira, carregar lenha, caminhar grandes distâncias e ganhar a vida com o suor da testa.

Se mesmo os príncipes deste mundo consideram uma questão de suma importância escolher cuidadosamente um tutor adequado para seus filhos, pensem como o Deus Eterno, com toda a sua onipotência e sabedoria, não escolheria, dentre as suas criaturas, o homem vivente mais perfeito para ser o guardião de seu divino e glorioso Filho, o príncipe do Céu e da Terra? — S. Francisco de Sales [3].

O Bem-aventurado Guilherme José Chaminade defende uma ideia semelhante, mas ele olha para a masculinidade de S. José da perspectiva do matrimônio com Nossa Senhora. Ele escreve:

Se Deus tivesse encarregado você da honrosa tarefa de escolher, dentre os reis, um marido para a Bem-aventurada Virgem, você não teria dado a ela o que tivesse a maior inteligência do mundo? E se Ele tivesse mandado você escolher um dos santos, você não teria dado a ela o maior santo que já pisou a terra? Agora, você acha que o Espírito Santo, que é o autor deste matrimônio divino, se importa menos do que você em proporcionar a Maria um marido apropriado aos méritos dela? [4]

Isto faz muito sentido, certo? Claro que faz. S. José foi o marido amoroso de Maria, não um marido “aposentado”, incapaz de trabalhos manuais e de longas jornadas a pé. S. José era conhecido em Nazaré como o pai de Jesus, não como o avô de Jesus.

Sendo pai de Jesus, S. José foi um zeloso defensor e um forte protetor de seu Filho amado. S. José sacrificou tudo — inclusive o prazer do amor conjugal — para cumprir totalmente a sua missão de “Guardião da Virgem” e “Guardião do Redentor”. Aliás, quando papas e santos usam a palavra “guardião” em referência a S. José, eles o fazem de um modo mais do que simplesmente jurídico. Eles falam em um sentido de “proteção”, “paternidade” e “virilidade”. Um guardião é alguém forte não apenas na mente e no coração, mas também no físico. S. John Henry Newman fala da tutela de S. José da seguinte maneira: “Ele foi o querubim, colocado para proteger o novo paraíso terrestre da invasão de todos os inimigos” [5].

Um homem com a missão de guardar um território contra a invasão de qualquer inimigo precisa ser fisicamente forte, não um idoso de bengala. E como um poderoso querubim, dedicado à proteção e ao serviço da Rainha dos Anjos, José recebeu a tarefa de guardar o templo do corpo de Maria e, em particular, a sua virgindade. Por isso, o guardião de Maria tinha de ser jovem e forte, a fim de cumprir com sucesso a sua missão. Um idoso provavelmente não teria força para proteger a sua jovem esposa nem a resistência necessária para criar um filho bebê.

A masculinidade de S. José era um escudo protetor, uma capa protetora, para a Virgem Bendita. Nenhum homem ou fera podia causar qualquer dano à Virgem porque S. José mantinha-se atento e pronto para defendê-la, mesmo até a morte.

A nuvem que no Antigo Testamento cobria o tabernáculo é uma figura do casamento de José com a Virgem Bendita. “Então a nuvem cobriu a tenda de reunião e a glória do Senhor encheu o tabernáculo” (Ex 40, 34). O casamento de José é um véu sagrado que cobre o mistério da Encarnação. Todo o mundo vê que Maria é uma mãe, mas apenas José sabe que ela é uma virgem. — Bem-aventurado Guilherme José Chaminade [6].

Como um jovem marido e pai, S. José modelou a masculinidade de seu Filho, Jesus. Todo garoto deveria ser capaz de olhar para seu pai a fim de entender o que significa ser um homem. Se S. José tivesse sido um idoso, acaso Jesus teria visto em seu pai qualquer força física ou verdadeiro amor, postos em prática por meio de uma castidade heroica, de trabalho duro e gestos corporais de piedade — ajoelhar-se, por exemplo? Se S. José fosse duas ou três vezes mais velho do que sua esposa, o que Jesus teria observado nele: cochilos da tarde e esquecimentos? De novo, não há nada de errado com a velhice. Envelhecer faz parte da vida humana. S. José mesmo envelheceu como acontece com todos os homens. Mas Deus Pai teria confiado a disciplina e a educação de seu Filho — o Leão de Judá e Rei dos Reis — a um velho e frágil homem? Provavelmente não.

O que, então, a Igreja e o mundo podem aprender da descrição de um S. José mais jovem — especialmente na teologia, na pregação, na literatura e na arte — é que homens jovens podem ser castos, heroicos e santos. De fato, a Igreja tem incontáveis exemplos de homens jovens que se mantiveram castos e puros por amor ao Reino dos Céus. E S. José foi o maior de todos eles. S. Josemaría Escrivá nos diz:

Para viver a virtude da castidade, não é preciso esperar pela velhice ou pelo termo das energias. A castidade nasce do amor e, para um amor limpo, nem a robustez nem a alegria da juventude representam qualquer obstáculo. Jovem era o coração e o corpo de S. José quando contraiu matrimônio com Maria, quando soube do mistério da sua Maternidade divina, quando viveu junto dela respeitando a integridade que Deus queria oferecer ao mundo, como um sinal mais da sua vinda às criaturas. Quem não for capaz de entender um amor assim, é porque conhece muito mal o verdadeiro amor e desconhece por completo o sentido cristão da castidade [7].

Na minha opinião, S. José foi um jovem marido, terno e amoroso com sua esposa, mas sempre casto, modesto e puro. Maria amava seu José. E o amor viril dele por ela era forte e sempre ordenado pela razão e pela fé. Suas forças viris, sempre mantidas sob controle e a serviço da vontade de Deus, fizeram dele o pai e o marido mais virtuoso que já caminhou sobre esta terra. Nenhuma mulher jamais teve um homem maior do que S. José.

Deus não teria dado a Santíssima Virgem como esposa a José, a menos que ele fosse santo e justo. Que pai sensato daria sua mais amada filha em casamento a um homem que não fosse moral e irrepreensível em sua posição e estado de vida? — S. Lourenço de Brindisi [8].

Então, o que você tem a ganhar com esta maravilha de S. José? Você é obrigado a acreditar que S. José era jovem? Não, não é. Mas você entende, ao menos com base nas exigências físicas que a missão teria inevitavelmente colocado sobre ele, por que faz mais sentido pensar que S. José era jovem, e não velho, quando se casou com Nossa Senhora? Seja como for, independentemente da representação de José que você preferir, saiba que José é seu amoroso, forte e destemido pai espiritual. Agradeça-lhe tudo o que ele fez, de forma amorosa e abnegada, por Jesus e nossa Mãe espiritual, Maria. Agradeça-lhe tudo o que ele faz por amor a você.

Eu te agradeço, ó santo patriarca José, porque nós, que não somos capazes de amar a Jesus e nossa Mãe Imaculada, sabemos e nos regozijamos pelo fato de que ao menos tu a amaste como ela merecia ser amada, a digna e verdadeira Mãe de Jesus. — Bem-aventurado Gabriele Allegra [9].

Referências

  1. S. Josemaría Escrivá. É Cristo que passa, cap. 5, n. 40.
  2. Venerável Fulton Sheen. The World’s First Love: Mary, Mother of God. San Francisco, CA: Ignatius Press, 1996, pp. 91-96.
  3. S. Francisco de Sales, apud Rosalie Marie Levy. Joseph the Just Man. Derby, NY: Daughters of St. Paul, 1955, p. 130.
  4. Bem-aventurado Guilherme José Chaminade. Marian Writings. Vol. 1, ed. J.B. Armbruster, SM. Dayton, OH: Marianist Press, 1980, p. 228.
  5. S. John Henry Newman, apud Maria Cecilia Baij, OSB. The life of St. Joseph .Asbury, NJ: 101 Foundation, Inc., 1996, p. 422.
  6. Bem-aventurado Guilherme José Chaminade. The Chaminade Legacy, Monograph Series, Document n. 53, vol. 2, Joseph Stefanelli, SM .Dayton, OH: NACMS, 2008, p. 411.
  7. S. Josemaría Escrivá. op. cit., cap. 5, n. 40.
  8. S. Lourenço de Brindisi. Opera Omnia: Feastday Sermons, trans. Vernon Wagner, OFM Cap. Delhi, India: Media House, 2007, p. 539.
  9. Bem-aventurado Gabriele Allegra. Mary's Immaculate Heart: A way to God .Chicago, IL: Franciscan Herald Press, 1983, p. 56.

Notas

  • Texto extraído de: Pe. Donald H. Calloway. Consecration to St. Joseph: The Wonders of Our Spiritual Father. Stockbridge: Marian Press, 2020, pp. 115-121.

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Sexo e corporeidade na teologia católica
Doutrina

Sexo e corporeidade na teologia católica

Sexo e corporeidade na teologia católica

O que um católico crê a respeito da importância da masculinidade e da feminilidade? À luz da fé, como devemos reagir às atuais ideias de “gênero”? E como nos dirigir a um mundo secular cada vez mais desorientado em relação à sexualidade?

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 12 minutos
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No dia 6 de janeiro, a Igreja celebra a grande festa da Epifania do Senhor (ou Teofania, como a chamam os nossos irmãos bizantinos [1]): a revelação de Deus às nações e povos do mundo, representados pelos três sábios que, guiados pela divina Providência, caminharam das trevas do paganismo para a Luz do único Salvador da humanidade. Na cena da Epifania, vemos o núcleo da diversidade da Igreja: mãe, pai, bebê e sua família estendida; rainha, guardião, rei e cortesãos; judeus e gentios, pobres e príncipes, pequenos e grandes. No nível mais básico, vemos seres humanos, homens e mulheres cujas identidades e funções não foram atribuídas de forma aleatória e não podem ser trocadas livremente. 

Quando olhamos para a cena da Sagrada Família, podemos fazer uma pergunta inesperada: como Deus se revela para nós na masculinidade e na feminilidade?

“Adoração dos Magos”, de Carlo Dolci.

Recentemente, escolas católicas e seculares acolheram inúmeras discussões sobre a “expressão de gênero” e o chamado “gênero binário”. Não estamos falando de instituições obscuras, mas de locais famosos como Notre Dame, Villanova e a Universidade de San Diego. O pressuposto desses debates é a ideia de que “gênero” é algo fluido, capaz de assumir muitas formas diferentes, permitindo inclusive que uma pessoa mude de uma forma para outra. Como o conceito de “gênero fluido” é novo, até os fiéis católicos podem não saber como responder a essa situação. O que um católico crê a respeito da importância da masculinidade e da feminilidade? Como nos dirigimos a um mundo secular que está desorientado em relação à sexualidade [2]?  

A Igreja Católica fundamenta sua visão sobre a masculinidade e a feminilidade na Sagrada Escritura, que põe homem e mulher no centro de cada etapa da história da Salvação. Um breve tour por essa história, partindo de seu início, tornará manifestas a consistência e a profundidade de sua mensagem e também a razão pela qual seus protagonistas jamais poderiam ser redefinidos sem que sua mensagem fosse completamente subvertida — algo de que estão perfeitamente conscientes os mais inteligentes adversários do cristianismo, creio eu. Depois disso, analisarei o motivo pelo qual a cultura que nos circunda dificulta a compreensão dos ensinamentos contidos na Sagrada Escritura. Em seguida, apresentarei algumas reflexões sobre como podemos nos dirigir de modo eficaz a um mundo secularizado. Mas, antes, voltemo-nos para a história da Salvação.  

Criação. — No relato da Criação, o corpo humano torna visíveis coisas invisíveis. Quando Deus criou o primeiro homem, disse o seguinte: “Não é bom que o homem esteja só. Vou dar-lhe uma auxiliar que lhe seja adequada” (Gn 2, 18). O Criador sabe que fez os seres humanos para viver uns com os outros; como diz o Catecismo, fomos criados para ser uma “comunidade de pessoas” (§372). Mas, como relata o Gênesis, essa “comunidade de pessoas” foi inscrita diretamente em nossos corpos por meio da masculinidade e da feminilidade. A mulher foi feita do homem como uma “auxiliar que lhe seja adequada”, e o homem alegra-se quando a vê: “Eis agora aqui — disse o homem — o osso de meus ossos e a carne de minha carne!” (Gn 2, 23). Masculino e feminino são “adequados” um ao outro. Seus corpos, que são complementares, tornam exteriormente visível o que é verdadeiro em relação àquilo que lhes é mais íntimo.

Juntos, homem e mulher recebem a seguinte ordem: “Frutificai e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a” (Gn 1, 28). Assim como seus corpos masculino e feminino mostram que são feitos um para o outro, também mostram que são feitos para servir outras pessoas — os filhos em primeiro lugar e, em última instância, a sociedade espalhada pelo mundo e fundada no amor procriador. O chamado ao espírito humano para viver em comunidade torna-se visível por meio do corpo sexuado [3]. 

Mas esse é apenas o início. Em última análise, temos um chamado para a vida em comunidade porque somos feitos à imagem da Trindade, a comunhão na unidade entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. O Gênesis pode inclusive aludir a isso quando diz: “Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher” (Gn 1, 27). No final das contas, o que o corpo humano torna visível (em seu dimorfismo essencial) é uma realidade divina que transcende o corpo, mas é capaz de ecoar nele. É uma obra-prima da arte de Deus.

Redenção. — Masculinidade e feminilidade tornam-se ainda mais importantes depois da queda de nossos primeiros pais. Já no Antigo Testamento os profetas falam de Deus como esposo de Israel e do povo escolhido como noiva dele: “Eu a desposarei para sempre, conforme a justiça e o direito, com benevolência e ternura. Eu a desposarei com fidelidade e conhecerás o Senhor” (Os 2, 21-22). No Novo Testamento, esse “casamento” entre Deus e o homem adquire um sentido muito mais profundo porque “o Verbo se fez carne” (Jo 1, 14), fazendo com que Deus e a humanidade se unam literalmente numa só carne. No Gênesis, os corpos masculino e feminino tornaram a pessoa humana visível externamente, mas nos Evangelhos o corpo de Jesus torna externamente visível a própria pessoa de Deus [Filho]! 

Para os católicos, a Encarnação dá pleno sentido ao corpo humano. Sentimos a importância de nossa união com o próprio corpo de Deus sempre que nos aproximamos da Sagrada Eucaristia, sobre a qual Jesus disse: “Isto é o meu corpo, que é dado por vós” (Lc 22, 19). O corpo de Cristo, crucificado no Calvário e glorificado no Céu, é a maior obra de arte feita por Deus. Esse corpo é o seu autorretrato definitivo! E a Encarnação também nos traz Maria, Mãe de Deus, a pessoa humana mais venerada em todo o universo e que recebeu sua elevada vocação precisamente por ser mulher.

A vida em Cristo. — Após a ascensão de Cristo ao Céu, a Encarnação continua a dar sentido aos nossos corpos. O Batismo santifica a nossa alma e o nosso corpo pelo poder de sua Cruz. O casamento místico de Cristo com a Igreja significa que os nossos corpos são membros dele. Dirigindo-se a cristãos viciados em fornicação, S. Paulo lhes pergunta: “Não sabeis que vossos corpos são membros de Cristo?” (1Cor 6, 15). Ele prossegue e os confronta: “Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habi­ta em vós, o qual recebes­tes de Deus e que, por isso mesmo, já não vos pertenceis?” (1Cor 6, 19). É desafiador viver à altura da santidade do corpo cristão!

Do mesmo modo, as ações corporais dos cristãos são poderosas. Como seus corpos são membros de Cristo e templos do Espírito, a união física no matrimônio cristão é inclusive um sacramento, sinal e fonte de graça sobrenatural. S. Paulo diz aos romanos: “Eu vos exorto, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a ofere­cerdes vossos corpos em sacri­fício vivo, santo, agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual” (Rm 12, 1). Este é o motivo fundamental pelo qual somos seres litúrgicos: Deus não nos deu apenas uma mente com a qual devemos pensar nele, mas um corpo no qual e pelo qual devemos adorá-lo e louvá-lo. A liturgia está completamente envolta pela corporeidade, particularmente pela comunhão numa só carne entre Cristo, o esposo, e a Igreja, sua esposa [4].  

Consumação. — O relato da história da Salvação terminará com uma forte ênfase no corpo humano quando todos os mortos ressuscitarem para o Juízo. A ressurreição demonstra de uma vez por todas a importância eterna do corpo no plano de Deus, porque a vitória de Cristo seria incompleta sem a salvação do corpo. O livro do Apocalipse descreve aquele último dia como as “as núpcias do Cordeiro”, quando Cristo finalmente desposará para sempre sua “noiva”, a Igreja (Ap 19, 7).

Essa maneira de descrever o fim resolve um enigma. Homens e mulheres ressuscitarão com seus respectivos corpos masculinos e femininos; apesar disso, Jesus diz que “não terão mulher nem marido” (Lc 20, 35). Isso quer dizer que masculinidade e feminilidade não serão mais importantes? Não, isso mostra que o significado natural do corpo humano se tornará pleno quando virmos Deus “face a face” (1Cor 13, 2), num “matrimônio” com nosso Criador. O fato de que fomos feitos para a comunhão significa não apenas que fomos criados à imagem da comunhão trinitária, mas que, em última instância, fomos feitos para a comunhão com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Mesmo agora, neste mundo, vemos esse significado definitivo do corpo humano naqueles que escolheram a virgindade “por amor ao Reino dos Céus” (Mt 19, 12).  

Uma visão de mundo secular. — Portanto, vemos que a história da nossa salvação não diz respeito apenas à salvação das almas, mas também à do corpo — do início ao fim! Mas, embora a fé católica tenha muito a dizer sobre o corpo humano, falar para um mundo secularizado não é tão fácil quanto citar muitos trechos da Sagrada Escritura. A má filosofia permeou nossa cultura, criando uma barricada que impede que até pessoas de boa vontade compreendam o que a Igreja tem a oferecer. Isso está relacionado com o modo de o mundo moderno enxergar o corpo humano. 

De acordo com o Catecismo

a unidade da alma e do corpo é tão profunda que se deve considerar a alma como a ‘forma’ do corpo; quer dizer, é graças à alma espiritual que o corpo, constituído de matéria, é um corpo humano e vivo. No homem, o espírito e a matéria não são duas naturezas unidas, mas a sua união forma uma única natureza (§365). 

Em geral, os ocidentais entendem que os seres humanos são livres e têm direitos apenas por serem humanos; não podemos simplesmente fazer o que desejamos com um ser humano. A Igreja Católica ensina que os corpos humanos são também humanos e que, portanto, não podemos fazer o que bem entendermos com eles.

No entanto, a modernidade passou a enxergar o mundo de uma perspectiva mecanicista. Tendemos a imaginar que há tanta “natureza” num corpo humano quanto num automóvel. As pessoas se revoltam com a ideia de que a “mera” biologia possa decidir como deveríamos viver, porque não percebem que o mundo biológico possui em si mesmo um sentido. Por que ter um corpo feminino supõe uma vocação para a maternidade? Por que ter um corpo masculino implica ser responsável por uma família?

Consequentemente, nossa cultura não vê o corpo humano como obra-prima de Deus, mas como uma tela em branco na qual podemos pintar qualquer coisa. “O que farei do meu corpo? Será masculino, feminino ou algo diferente disso? Será fértil ou estéril? O que devo fazer?” Já se passou um bom tempo desde que nossa cultura começou a promover o controle de natalidade como uma forma de separar o corpo de sua vocação. O aborto tem sido promovido como sinônimo do controle que a mulher teria sobre seu corpo. Tudo isso nasce da mesma fonte: as pessoas falam em “expressar-se” por meio de seus corpos porque não acreditam mais que o corpo já as expresse naturalmente. No final das contas, temos o “gênero fluido” e a “expressão de gênero”. 

Como vimos acima, o significado natural do corpo é que a pessoa humana foi feita para a vida em comunidade. Mas quando nossa cultura abandonou a ideia de qualquer “natureza” do corpo, também abandonou a ideia de que a sociedade é “natural” [5]. Os indivíduos são vistos como absolutos e autônomos, ao passo que a sociedade é considerada algo artificial que construímos por conveniência. Até a família, a sociedade mais obviamente natural, vai para o ralo quando se perde o sentido natural do corpo. O resultado é uma noção de direitos humanos radicalmente individualista segundo a qual cada pessoa tem o “direito” de decidir qual será o seu significado espiritual e corpóreo, ainda que essa decisão seja ruim para a sociedade como um todo — e, de fato, ruim para o indivíduo que se rebela contra a personalidade humana.

Falando para um mundo secular. — Se quisermos ser bem-sucedidos em nossa comunicação com o mundo secular, teremos de remover da melhor maneira possível as barreiras filosóficas e emocionais. Não existe um jeito rápido e fácil de consertar uma visão de mundo deturpada, mas três regras práticas se mostrarão úteis. 

Primeiro, seja positivo e trabalhe com o que é fundamental. Antes de chegarmos ao “não…”, temos de repetir de todas as maneiras possíveis que o corpo humano é algo maravilhoso que merece respeito. Temos de insistir na verdade fundamental de que o corpo humano não é apenas algo mecânico: é algo que possui sentido. Tem uma natureza, um princípio de identidade e operação intrínseco, que é anterior a qualquer coisa que pensemos a respeito dele. Essa natureza não é o resultado de uma interação de átomos ou moléculas, mas é realmente anterior às partículas, e as utiliza para se fazer visível. Além disso, faz parte de um todo maior conhecido como pessoa, que é esse corpo (embora também mais do que somente esse corpo) e se comunica em e pelo corpo.  

Segundo, não faça da desaprovação retumbante seu principal modus operandi. Nossa natureza está caída e ferida por causa do pecado. Todos nós experimentamos tendências e desejos que contradizem o verdadeiro significado do corpo, independentemente de nossa “orientação” ou situação na vida. Muitas vezes um jovem herda dos pais ou de outros mentores uma condição fragmentada que gera ainda mais confusão. Às vezes, essa confusão leva a desvios sexuais “heterossexuais”, “gays” ou de outro tipo, mas o fato é que a confusão relacionada ao gênero faz parte de uma fragmentação generalizada da sexualidade, experimentada em maior ou menor grau por todos nós. “Se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós” (1Jo 1, 8) — sem dúvida, isso é verdade em relação à concupiscência desordenada, que aflige a todos nós. Nossa própria experiência de tentação ou luta deveria nos tornar humildes, compassivos e capazes de oferecer bons conselhos que nós mesmos testamos antes de oferecer.  

Finalmente, enfatize a coragem. A santidade que Cristo deu ao corpo por meio de seu próprio corpo chagado e ressuscitado é para todos, independentemente das inclinações que possamos experimentar; mas é necessário ter coragem e convicção para viver à altura de nossa elevada vocação. A moralidade sexual não equivale ao cumprimento de um conjunto de regras; é, antes, o árduo caminho de nos tornarmos o que somos e quem somos chamados a ser em Cristo. Fingir que é algo fácil para pessoas “boas” não ajuda ninguém. Se nos concentrarmos na verdadeira natureza da castidade, que não implica ficar numa zona de conforto, mas vencer uma batalha para alcançar a integridade, o autodomínio e a capacidade de amar, creio que veremos uma resposta daquela pequena parcela do legado de nossa civilização que ainda anseia pela grandiosidade. 

Notas

  1. Neste outro artigo, encorajo a celebração da Epifania como ela merece ser celebrada: no décimo segundo dia depois do Natal, como sempre se fez na tradição cristã, tanto no Oriente como no Ocidente — e critico o fato de ela ter sido empurrada para o domingo mais próximo, algo um tanto incoerente com o próprio mistério que ela celebra.  
  2. Este artigo deve sua gênese e essência às sábias reflexões de um amigo próximo, que me encorajou a tomar essas ideias, desenvolvê-las e publicá-las. Fico muito satisfeito em fazê-lo, pois a verdade é a verdade e merece ser compartilhada. Não creio no mito iluminista de busca da originalidade a todo custo.
  3. É verdade que, hoje, a maioria das pessoas diria “corpo com gênero”, mas temos de ser muito claros a respeito disso: sexo é um fenômeno biológico e pessoal, ao passo que gênero é um fenômeno gramatical. Muitos idiomas têm os gêneros “masculino, feminino e neutro” para substantivos e adjetivos, mas os animais só possuem dois sexos: masculino e feminino.  
  4. Para ler mais sobre essa perspectiva, recomendo o meu artigo Incarnate Realism and the Catholic Priesthood.
  5. Aqui podemos ver a profunda conexão entre a revolta (ocorrida no início da modernidade) contra a filosofia natural aristotélica, com sua ênfase na forma e na finalidade, e o subsequente desenvolvimento da filosofia política do “contrato social”, que também rejeita a ideia de que a sociedade possui forma e finalidade inerentes. Ela seria, antes, um conglomerado material de partes sobre as quais alguma ordem é imposta de modo extrínseco, para servir aos objetivos particulares das partes que a compõem ou daquele que ordena.

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Quando vamos nos render? Jamais!
Pró-Vida

Quando vamos nos render? Jamais!

Quando vamos nos render? Jamais!

A aprovação do aborto na Argentina pode ter sido uma derrota para o movimento pró-vida, mas nem de longe é o fim da nossa guerra contra a cultura da morte. Esta está apenas começando e, contando com a graça de Deus, nós não nos renderemos nunca.

Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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A notícia de que, nesta última quarta-feira, 30 de dezembro, o Senado argentino aprovou por 38 votos a favor e 29 contra a maldita prática do aborto suscita tantos sentimentos, tanta indignação, tristeza, desânimo e lamúria — seja pela vileza dos que se obstinam na cultura da morte, seja pela carnificina que se seguirá daqui para frente —, que é preciso medir bem as palavras antes de colocar no papel o que vem à mente. E deve ser assim porque a situação, embora trágica, não pode ser tratada ao sabor de nossas paixões, mas à luz da razão e da graça. Como diria o Papa Pio XII: “O preceito da hora presente não é lamento, mas ação” (Radiomensagem de Natal, 1942).

Por isso este artigo saiu apenas agora, não tendo a pretensão de simplesmente lamentar o fato. Uma equipe esportiva, quando sofre uma derrota, não pode perder tempo escrevendo notinhas à imprensa com justificativas esdrúxulas sobre o próprio fracasso. De lamentos e desculpas esfarrapadas, convenhamos, o inferno está cheio. Ao contrário, é preciso voltar a campo, reorganizar a equipe, estudar o adversário, identificar os pontos fracos, traçar uma linha de combate e partir atrás da vitória. A vida humana sofreu mais um ataque hediondo neste final de 2020. Agora, mais do que antes, é nosso dever moral protegê-la, santificá-la e devolver-lhe a verdadeira dignidade. É dentro desse espírito que queremos, portanto, dirigir estas linhas aos nossos alunos, amigos, leitores aleatórios e, sobretudo, às mulheres em geral.

Feministas comemoram aprovação do aborto na Argentina.

As feministas que saíram às ruas de Buenos Aires para comemorar a nova lei traziam, na sua maioria, vestes verdes. Dentro do senso comum, o verde pode indicar “sorte” ou “esperança”, mas é também a cor dos frutos que ainda não amadureceram. O signo de uma mulher madura é justamente a maternidade. (Não necessariamente a maternidade biológica, mas a capacidade de se entregar maternalmente por alguém, sobretudo pelos mais pequeninos e indefesos.) Notamos que uma moça se torna mulher não apenas pela primeira menstruação, mas quando ela desenvolve aquele senso maternal que fascina tanto as crianças. (Santa Teresinha, por exemplo.) Nesse sentido, o verde das vestes feministas não podia ser mais revelador: trata-se de pessoas imaturas e que, pior ainda, reivindicam o direito à eterna imaturidade.

É uma grande ilusão achar que a legalização do aborto tem algo a ver com a dignidade da mulher ou de quem quer que seja. Se a questão fosse realmente a violência doméstica ou o risco à saúde, os militantes chamados “pró-escolha” lutariam apenas por essas duas possibilidades (ainda que sejam também inaceitáveis, atenção), e não por uma lei arbitrária e irresponsável para um suposto direito ao aborto legal, seguro e gratuito. Porém, o que vemos na maior parte dos casos é a procura indiscriminada do aborto, e por motivos os mais subjetivos: carreira, emprego, beleza, prêmios, indisposição etc. (“As vidas que devem ser salvas estão nas granjas e matadouros, não em nossos úteros”, dizia o cartaz de uma feminista.) E ninguém que reivindique uma insanidade dessas — ou pior, celebre-a como uma conquista olímpica — pode ser considerado uma pessoa madura. Porque não estamos falando de uma escolha entre fumar cigarro ou não, mas de tirar a vida do próprio filho.

Mas essa deficiência de caráter, caros leitores, não é uma exclusividade delas, que fique claro, e sim de toda a sociedade. Em um texto após a decisão do Senado, o presidente argentino Alberto Fernández disse que “o aborto seguro, legal e gratuito é lei. Hoje somos uma sociedade melhor, que amplia os direitos das mulheres e garante a saúde pública”. Em outras palavras, o que esse senhor está dizendo é que, agora, homens e mulheres podem igual e livremente viver suas sexualidades, porque têm a garantia paternalista do Estado. E se acaso houver uma gravidez inconveniente sob qualquer aspecto, basta abortá-la. Eis a sociedade dos sonhos de todo adolescente mimado que quer viver seus prazeres irresponsavelmente e com o respaldo dos outros.

O aborto é o corolário de uma geração moral e afetivamente fraca, que não aprendeu a virtude do sacrifício e da responsabilidade pelo próximo. A começar pela secularização do casamento, homem e mulher deixaram de se unir num vínculo sagrado e indissolúvel, cuja finalidade deveria ser a formação de uma família, numa entrega amorosa pela salvação um do outro, para simplesmente assinar um contrato civil de convivência. Mas contratos podem ser rompidos a qualquer hora e por diferentes razões, como em qualquer sociedade. Daí se introduziu o divórcio, apareceram os anticoncepcionais, o sexo se tornou lazer e o resto da história todos já sabem: relacionamentos rotativos, abusivos e tóxicos, como costumam dizer. Mas dentro de uma dinâmica na qual um serve para o outro apenas como instrumento de prazer, só podia dar nisso. Quem identificou cedo a pedra que rolou da montanha, causando esta avalanche que sofremos hoje, foi Gustavo Corção:

Para a criança, ao contrário, a união dos pais é física, metafísica e necessária. Melhor do que os filósofos e teólogos, a criança vê, “d’un simple régard”, o vínculo que faz dos pais um bloco, uma base. É uma experiência afetiva e intelectual de uma importância enorme para a criança essa primeira apreensão da realidade familiar.

Assim como se abrem os olhos para o jogo das leis naturais, abrem-se também para essa realidade de pedra que a protege, que a envolve, como paredes de uma casa viva. Por isso, a separação dos cônjuges terá para a criança um aspecto de alucinação. Não se trata apenas de um afastamento livremente consentido de duas pessoas que livremente se uniram. Não será apenas a quebra de um juramento ou a rescisão de um contrato. A separação dos pais, para a criança, é um absurdo. Não é um drama moral, é uma tragédia cósmica. Não é conflito de duas pessoas, é conflito dos elementos constitutivos do universo. O mundo enlouqueceu se os pais se separam. Na mente infantil, a repercussão afetiva e intelectual significa um abalo de todas as fundamentais experiências até então colhidas. É como se a água deixasse de molhar, o sol deixasse de brilhar, a pedra deixasse de ser dura. Não é muito difícil extrapolar as consequências de tão brutal experiência: os psiquiatras estão aí para dizer no que dão os filhos do divórcio [1].

Eles dão no aborto. Afinal, é mais prático tirar a vida do filho do que se submeter a um processo dispendioso de guarda e pensão alimentícia, não é mesmo? Ora, a mentalidade divorcista conduziu a isso, partindo do princípio de que o interesse dos cônjuges, e não o das crianças, está em primeiro lugar. Gerações e gerações inteiras cresceram e foram educadas sem pai ou sem mãe ou mesmo sem os dois, concluindo que não há vínculos definitivos nem instituições invioláveis. Acontece que, sem esse resguardo familiar, o amadurecimento afetivo, psicológico e, inclusive, biológico torna-se problemático. Resta a noção de que, na vida, o importante mesmo é o bem-estar individual e a realização dos próprios projetos. (O aborto foi aprovado nos Estados Unidos justamente com o argumento do direito à privacidade.) E que se danem os demais.

A ausência paterna e materna, consequentemente, se faz sentir hoje em todos os âmbitos sociais, inclusive dentro da Igreja, como reconheceu recentemente o Papa: “Na sociedade atual, muitas vezes os filhos parecem ser órfãos de pai. A própria Igreja de hoje precisa de pais” (Patris corde, n. 7). E isso explica o silêncio de alguns e a perplexidade de outros em relação a temas tão urgentes. É que, como descreve o profeta Jeremias, “os pastores ficaram estúpidos” e, por isso, “todo o seu pastoreio se dispersou” (Jr 10, 21). Mas não podemos ficar mais calados, como cães mudos. É necessária uma resistência varonil e paternal contra essa cultura mortífera que se vai alastrando cada vez mais sobre nossas famílias.

Em 1940, quando as hordas nazistas já haviam tomado boa parte da Europa e ameaçavam a soberania do Império Britânico, o primeiro ministro inglês Winston Churchill recusou-se a apertar as mãos do Führer em qualquer tipo de concordata, lançando-se bravamente contra aquilo que definiu como “uma monstruosa tirania, que não tem precedente no sombrio e lamentável catálogo dos crimes humanos”. Na contramão de um parlamento pusilânime e diplomático, o estadista encorajou os ingleses à resistência, pondo-se à frente do seu povo, sob pena de oferecer “sangue, sofrimento, lágrimas e suor”. Em um de seus mais célebres discursos, Churchill declarou: “Temos diante de nós muitos, muitos e longos meses de luta e sofrimento. Os senhores perguntam: qual é nosso plano de ação? Posso dizer: é travar guerra, por mar, terra e ar, com todo o nosso poder e com toda a força que Deus possa nos dar”. Hoje os historiadores são praticamente unânimes em reconhecer na atitude de Churchill, que à época parecia loucura, um fator decisivo para a derrocada de Hitler.

Essa é a atitude que se espera de homens e mulheres maduros. Decerto, os nossos tempos estão ameaçados por uma tirania ainda mais cruel e sanguinolenta do que aquela dos anos 1940. As raposas Jezabel e Herodes se levantaram mais uma vez contra a verdade e a inocência. A nós, pois, servem perfeitamente as palavras do anjo ao profeta Elias: “Levanta-te e come! Ainda tens um longo caminho a percorrer” (1Rs 19, 7). Temos de rezar muito, estudar muito e trabalhar muito. Porque é nosso dever descer à arena para “combater o bom combate”, em defesa de nossos filhos, de nossas famílias e da nossa fé, sabendo principalmente que “a nossa luta não é contra o sangue e a carne, mas contra os principados, as potestades, os dominadores deste mundo tenebroso, os espíritos malignos espalhados pelo espaço” (Ef 6, 12). 

Seja qual for o poder diabólico em nosso caminho, contando com o auxílio da graça de Deus, uma coisa é certa: nunca vamos nos render!

Referências

  1. Citação do artigo “Os inocentes castigados”, presente no livro Claro Escuro.

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Não é de hoje que nós falamos de São José...
Cursos

Não é de hoje
que nós falamos de São José...

Não é de hoje que nós falamos de São José...

...mas, neste Ano Jubilar dedicado ao Padroeiro da Santa Igreja, temos uma ocasião especialíssima para conhecer com ainda mais profundidade e amar com ainda mais fervor o Patriarca da Sagrada Família!

Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 2 minutos
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Não é de hoje que nós, do site do Padre Paulo Ricardo, falamos de São José, assim como não é de agora, obviamente, o culto de veneração especial que a Igreja lhe tributa. 

O Santo Padre proclamou, no entanto, para 2021, um Ano Jubilar de São José: ocasião especialíssima para conhecermos com ainda mais profundidade e amarmos com ainda mais fervor o Patriarca da Sagrada Família!

É por isso que estamos preparando para você e sua família um Curso de Férias justamente sobre o pai virginal do Redentor e a devoção que nós, católicos, devemos ter para com ele. 

Para receber atualizações relativas a esse novo conteúdo, é só se cadastrar aqui! Mas desde já anote em sua agenda o nosso cronograma de lançamento!

  • 19/1, terça-feira, às 21h: transmissão de abertura das inscrições para o curso, com Pe. Paulo Ricardo;
  • 26/1, terça-feira, às 21h: lançamento oficial de nosso curso, com publicação de todas as aulas que o compõem e transmissão da 1.ª aula para alunos.

Para que você entre conosco na expectativa deste conteúdo e, ao mesmo tempo, vá se preparando para as nossas aulas, queremos recomendar 7 matérias e meditações que já publicamos sobre São José e que desde agora farão você crescer em amor a ele: 

  1. Como São José pode ajudar a salvar o nosso século?, Equipe CNP — Oxalá abríssemos os nossos olhos e compreendêssemos, como São José entendeu, que sempre o mais urgente a fazer é rezar!
  2. O que São José nos ensina com seu silêncio?, Equipe CNP — “Quem não encontrar mestre que lhe ensine oração”, diz Santa Teresa de Ávila, “tome ao glorioso São José por mestre e não errará no caminho.”
  3. São José não é um santo qualquer!, Equipe CNP — Os católicos amamos todos os santos da Igreja e até elegemos um e outro como santo de devoção. Mas São José… São José é especial. Afinal, a que outro santo Deus chamou de pai?
  4. São José, o patriarcado e os homens de hoje, Equipe CNP — O patriarcado é uma coisa ruim? Entenda nesta matéria por que as famílias precisam de homens e como eles podem se tornar pais segundo o coração puríssimo de São José.
  5. Deus escolheu José, e a mais ninguém, Edward Healy Thompson — Da tribo de Judá e dos filhos de Davi, haviam de surgir grandes patriarcas, célebres líderes para o povo e reis da mais alta nobreza, mas Deus não escolheu a nenhum deles; só a José.
  6. São José, o maior de todos os santos, Edward Healy Thompson — Constituído chefe da Sagrada Família, posto imediatamente a serviço do Deus-Homem, São José transcende em dignidade todos os outros santos, pois foi estabelecido em uma ordem superior a todas as outras na Igreja.
  7. É hora da “Consagração a São José”!, Brian Fraga — Por que precisamos, agora mais do que nunca, encomendar-nos a São José? É o que explica nesta entrevista o Pe. Donald Calloway, autor de um recente livro devocional que propõe todo um roteiro de consagração ao pai virginal de Jesus.

Isso é tudo... por enquanto! Oportunamente entraremos em contato com você para mais atualizações e novas informações e publicações em nosso site. Fique atento!

Desde já, tendo qualquer dúvida quanto ao curso ou dificuldade no acesso ao nosso material, não hesite em falar conosco! Estamos à disposição através do e-mail suporte@padrepauloricardo.org, do telefone (11) 4933-0425 ou do WhatsApp, clicando aqui. Deus abençoe você!

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