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O santo que lutou sozinho contra o mundo inteiro
História da Igreja

O santo que lutou sozinho
contra o mundo inteiro

O santo que lutou sozinho contra o mundo inteiro

Quando a cristandade inteira, de repente, se viu dominada pela heresia ariana, Deus levantou um homem para portar o estandarte da ortodoxia.

Christopher CheckTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere2 de Maio de 2018
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Quem de nós não gostaria de voltar atrás e testemunhar em primeira mão certos momentos da história da Igreja — certos momentos decisivos?

Eis alguns dos meus.

Na véspera da Batalha de Lepanto, sem levantar a voz, Dom João de Áustria silenciou seus almirantes que brigavam. “Cavalheiros”, ele disse, “o tempo para se aconselhar já passou, agora é a hora da guerra.” Imagine só o olhar aturdido no rosto de Sebastião Veniero, veterano de Veneza, com três vezes a idade de Dom João.

Ou imagine ouvir as carmelitas de Compiègne cantando o Veni Creator Spiritus enquanto caminhavam, em procissão, para o cadafalso. Dias depois cessou o Terror. Imagine ainda assistir à pequena Caterina Benincasa, com típica determinação sienense, dizer ao Papa Gregório XI, comodamente instalado em Avinhão: Esto vir!, “Seja homem!”, e mandá-lo de volta para Roma… Grandes momentos, todos esses.

Eis aqui mais um para fazer arder o coração. Imagine estar presente na reunião do Concílio de Niceia. Ver o esplendor da corte de Constantino. Ver os heroicos sobreviventes da perseguição de Diocleciano ostentando suas cicatrizes (talvez até comparando-as entre si, com um pouco de bravata, como os homens costumam fazer), alguns sem olhos e outros sem línguas. Ver São Nicolau acertar um golpe no maxilar do heresiarca Ário. Ver o bispo Alexandre, de Alexandria, defendendo a divindade de Jesus Cristo. E ver, em meio a tudo isso, um brilhante diácono, sem sequer ter chegado aos trinta anos, com os olhos ardentes e o coração cheio de confiança em Deus, chamado… Atanásio.

Santo Atanásio. Este homem foi decisivo.

Não quero dizer com isso, simplesmente, que ele foi bom em tomar decisões — embora ele tenha sido também —, mas sim que, no momento em que “o mundo inteiro, surpreso, se viu ariano”, como disse São Jerônimo, Deus levantou um homem para portar com bravura o estandarte da ortodoxia. Como todos os heróis que a história depois trata de colocar em situações decisivas, Santo Atanásio superou a própria vida. Entrou para a história, como se costuma dizer.

Sua biografia é, de fato, digna de uma epopeia. Atanásio foi sacerdote por mais de meio século, tendo servido como bispo de Alexandria, a sé de São Marcos, por quarenta e cinco anos. Conheceu cinco papas e cinco imperadores. Suportou cinco exílios, totalizando aproximadamente duas décadas. Seus exílios e aventuras levaram-no por toda parte do Império: desde Roma, no sudoeste, até a germânica Tréveris, no noroeste; e de Constantinopla e Niceia, no nordeste, até Tiro, Alexandria e os desertos do sudeste.

Sua mente foi aguçada em meio aos padres da Escola de Alexandria, onde a Verdade revelada e o pensamento grego se uniram para dar à cristandade a primeira fórmula extrabíblica capaz de explicar, na medida do possível, o insondável mistério da relação entre o Pai e o Filho, a Primeira e a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade: os dois são homousion, ou, como nós católicos rezamos no Creio, “consubstanciais”.

Em nossa época miserável, é difícil conceber pessoas comuns brigando por uma questão teológica, mas levar nossas mentes de volta a tal época pode ajudar. As perseguições dos primeiros três séculos de Igreja deram têmpera ao coração da Esposa de Cristo. As heresias inoportunas, que explodiram justamente quando a Igreja passou a se ver livre da tirania política, ameaçavam romper essa consistência. Os fiéis reagiram à heterodoxia de Ário e de seus seguidores com multidões amotinadas nas ruas.

Se a inteligência de Santo Atanásio foi formada em Alexandria, seu coração foi forjado depois, na companhia de Santo Antão do Deserto e dos ascetas que formavam uma comunidade em torno dele. Os primeiros monges solitários, cujas práticas Atanásio traria a Roma em seu segundo exílio (quase dois séculos antes de São Bento), levavam bem a sério as palavras de Jesus ao homem rico: “Vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me” (Mc 10, 21).

Santo Atanásio seguiu Nosso Senhor, nas situações favoráveis e nas desfavoráveis. Niceia deveria ter resolvido a questão, mas o presbítero líbio Ário amava demais os holofotes sob os quais suas novidades teológicas o haviam colocado. Alto, magro e com o cabelo meio embaraçado, ele tinha um modo de falar peculiar e sedutor, que atraía especialmente a atenção das mulheres. Cultivava com cuidado a aparência de alguém que levava uma vida severamente austera. Foi o principal promotor, se não o próprio autor, da maior ameaça que a Igreja já havia enfrentado e enfrentaria até a revolta protestante: a heresia segundo a qual o Filho passou a existir, sendo criado por Deus Pai.

Escultura de Santo Atanásio presente na Catedral de Lichfield, Inglaterra.

É fácil ver aonde tudo isso leva: uma criatura pode mudar. Se uma criatura pode mudar, ela pode pecar. Se a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade foi criada, ela poderia pecar. Essa heresia, para dizer a verdade, não desapareceu totalmente. Trata-se de um princípio mantido hoje por mórmons e por testemunhas de Jeová.

Na época de Atanásio, porém, essa heresia não estava confinada aos seguidores de uma espécie de “Igreja Adventista do Sétimo Dia”. O arianismo havia seduzido a maior parte do episcopado, e até o Papa Libério foi forçado a assinar uma fórmula semiariana. Ário teve um fim trágico, sofrendo uma morte tão indigna que qualquer homem temente a Deus teria visto nisso um castigo divino, mas já era tarde demais. A heresia havia tomado conta dos palácios do poder, sejam os seculares sejam os religiosos. Inseparáveis como eram, no século IV, a Igreja e o Estado, a heresia ameaçou, ao mesmo tempo, a salvação eterna das almas e a paz temporal do Império.

E no olho do furacão estava sempre Santo Atanásio, cuja fortaleza e perseverança incendiaram os corações de seu rebanho. Em duas ocasiões, quando os imperadores mandaram bispos arianos para invadir a sé de Atanásio, os fiéis de Alexandria cuidaram do assunto com suas próprias mãos.

Uma corja infindável de caluniadores agiu para tentar desacreditar Atanásio. Se não podemos contestar os argumentos de um homem — eles pensavam —, ataquemos o seu caráter. Suas acusações eram as mais fantasiosas. Diziam que ele havia decepado a mão de um certo bispo, de nome Arsínio, para usá-la em ritos de necromancia e, para apanhá-lo, chegaram a forjar uma mão seca durante um julgamento público. Quando Atanásio mostrou o bispo, supostamente aleijado, vivo e passando bem, ele se divertiu um pouco com a situação: “Talvez Arsínio tenha nascido com três mãos?”, ele sugeriu, com um sorriso.

Ele violentou uma irmã, eles diziam. E arranjaram uma mulher para contar em detalhes tudo o que ela havia sofrido nas mãos de Atanásio. Um dos seus, então, passando-se por Atanásio, aproximou-se da moça. “Então eu fiz a você isto e isto?”, ele perguntou. “E isto?” “Sim, você fez!”, a garota respondeu, antes de perceber que havia sido enganada. De tanta vergonha, ela fugiu do julgamento.

Ainda assim, as acusações não cessavam. Quando tudo havia falhado, então, ele foi acusado de simplesmente não se dar bem com as pessoas: era uma pessoa “divisiva”. Como São Thomas More, que enfrentou a outra grande provação da Igreja doze séculos depois, a Atanásio pouco importava “se dar bem” com os outros. Sua preocupação era com a Verdade. E, a exemplo do santo inglês, Atanásio teve a coragem não somente de sofrer pela Verdade, mas também de agir sozinho.

Em sua obra Arians of the Fourth Century [“Arianos do Século Quarto”, sem tradução para o português], o bem-aventurado Cardeal Newman disse que foi Atanásio, “depois dos Apóstolos, um dos principais instrumentos por meio dos quais as verdades sagradas do cristianismo foram defendidas e transmitidas para o mundo”.

Além dessa obra de Newman — que é uma empreitada um pouco mais pesada —, os católicos que quiserem compreender melhor a grandeza de Santo Atanásio podem começar com a “Vida de Santo Antão”, escrita por ele mesmo e, depois, com seu livro sobre “A Encarnação do Verbo” — um favorito de C. S. Lewis. Sobre Atanásio, o autor das “Crônicas de Nárnia” escreveu que “só um gênio poderia, no século IV, ter escrito de modo tão profundo a respeito de um assunto como esse e com uma tal simplicidade clássica”.

Atanásio conclui esse seu trabalho, a propósito, com as mesmas palavras pelas quais ele tão ardorosamente viveu:

Para entender corretamente as Escrituras, é necessário ter uma vida reta e uma alma pura; e, para a virtude cristã guiar a mente, é necessário apegar-se, tanto quanto pode a natureza humana, à verdade referente ao Verbo de Deus. Ninguém é capaz de entender a doutrina dos santos, a menos que tenha uma mente pura e procure imitar-lhes a vida… Quem quer que deseje entender a mente dos escritores sacros deve, em primeiro lugar, purificar a própria vida e aproximar-se dos santos reproduzindo os atos que eles praticaram. Só assim, unindo-se assim a eles na comunhão de vidas, será possível entender as coisas que lhes foram reveladas por Deus e, escapando do perigo que ameaça os pecadores no julgamento, receber o que lhes está reservado no Reino dos céus.

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Temperamento não é muleta!
Cursos

Temperamento não é muleta!

Temperamento não é muleta!

Não é porque você nasceu com esta ou aquela tendência que precisa ceder à sua natureza e levar a vida de qualquer modo. Temperamento não é muleta, nem licença para ser um mau caráter!

Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Setembro de 2019
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Nós, seres humanos, estamos sempre arrumando uma desculpa, um “jeitinho” para justificar nossos defeitos e permanecer na cômoda mesmice de nossos maus hábitos…

Pois bem, se há algo em que nosso novo curso sobre “Os Quatro Temperamentos” quer ajudar você, é justamente a mudar isso. Assim como o Apóstolo disse: “Não vos conformeis com este mundo” (Rm 12, 2), este curso é para dizer a você: Não se conforme com seu temperamento! Não se conforme às más inclinações com que você nasceu! Lute — com a graça de Deus, é claro, mas lute — para transformar a própria têmpera!

Dizendo de modo mais claro e concreto: 

  • não é porque você nasceu mais propenso à cólera que pode ser mal educado e sair por aí dando coice nos outros; 
  • não é porque nasceu mais dado à melancolia que precisa ficar “chorando as pitangas” todo dia; 
  • não é porque nasceu mais inclinado à preguiça que não precisa “pegar no batente”; 
  • não é porque tende à inconstância que está fadado a sempre começar as coisas e nunca terminá-las… 

Porque temperamento não é muleta, nem licença para ser um mau caráter, e é essa a mensagem do novo teaser que estamos enviando a você, com mais trechos inéditos de nossas aulas. Assista:

Se você gostou e quer saber melhor como esse assunto é tratado dentro do sadio equilíbrio da espiritualidade cristã, inscreva-se agora mesmo em nossa lista exclusiva para este curso e receba todas as atualizações a respeito! “Porque é a partir desse conhecimento, do que é a minha tendência biológica, que eu vou construir o meu caráter”.

E anote em sua agenda: nosso lançamento será no dia 15 de outubro, memória de Santa Teresa de Jesus.

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Marido e mulher, vocês não pertencem a si mesmos!
Família

Marido e mulher,
vocês não pertencem a si mesmos!

Marido e mulher, vocês não pertencem a si mesmos!

Embora o sacramento do Matrimônio não imprima caráter em sentido estrito, o casal muda verdadeiramente: o alicerce deixa de ser o próprio eu e passar a ser o outro, deixa de ser o isolamento para ser a comunhão.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Setembro de 2019
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A linguagem tradicional de “direitos” ou “débitos” no Matrimônio foi muito criticada  antes e durante a realização do Concílio Vaticano II, e quase desapareceu do vocabulário católico. No entanto, é necessário analisá-la novamente. Porque é importante reconhecer, especialmente numa época de confusão a respeito da indissolubilidade matrimonial, que no momento em que nasce o vínculo conjugal algo de cada um dos cônjuges pertence, por direito, ao outro, e não apenas a si mesmo.

Vejamos os votos contraídos no Matrimônio: “Eu, N., recebo-te por minha esposa (meu esposo) a ti, N., e prometo ser-te fiel...”. A troca de consentimentos não é um contrato limitado e revogável: ao contrário, ele é livre, irrevogável e desinteressado, pois um se entrega ao cuidado do outro. Eu deixo de ser “dono do meu nariz”, pois agora pertenço à outra pessoa. Em certo sentido, torno-me propriedade do meu cônjuge. Os esposos podem reivindicar coisas um do outro, porque cada um deles tem um direito verdadeiro e definitivo sobre o outro. Esse é precisamente o significado do voto, diferentemente de acordos, contratos, pactos, parcerias ou “casos”.

Vale a pena fazer uma comparação com os votos religiosos. A mulher que entra para a vida religiosa, como costumamos dizer, faz um voto irrevogável e incondicional de se casar espiritualmente com Nosso Senhor Jesus Cristo. Por sua vez, o homem que entra para a vida religiosa promete pôr-se plenamente à disposição e a serviço dEle. Não se trata de um mero passatempo, mas da consagração de toda a vida a outra pessoa.

Por isso, tanto o Matrimônio como a vida religiosa exigem uma preparação séria, um propósito lúcido, esforço e oração constantes para que haja perseverança e um desejo pleno de aceitar o fardo do outro “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”, nas épocas de esplendor e nas noites escuras. 

Você não pertence a si mesmo” — é esse o clamor que sai da boca do Apóstolo (1Cor 6, 19). Marido e mulher, vocês não pertencem a si mesmos, pertencem um ao outro e, portanto, devem tudo um ao outro. Esse débito se estende de forma natural, espontânea e apropriada aos filhos, por quem os pais são responsáveis e de quem recebem as bênçãos da alegria, do apoio e do sofrimento, ou seja, trata-se de uma verdadeira participação no mistério pascal de Cristo. De modos distintos, os membros da família pertencem uns aos outros. Nenhum deles pertence a si mesmo. 

Você não pertence a si mesmo. Contraímos uma dívida eterna com Deus pelo simples fato de termos sido criados do nada por sua vontade benéfica e sábia. Devemos a Ele nosso próprio ser, porque Ele nos fez para ser, Ele nos dá o “ato de ser”, a fonte de nossa personalidade, a energia dinâmica que nos transforma em seres reais, e não meramente possíveis. Como se isso não bastasse, Ele nos salva: “Fostes comprados por um alto preço” (1Cor 6, 20).   

O Matrimônio é análogo à Criação e Redenção. Deus remodela os esposos como marido e mulher através dos votos feitos livremente por eles e, num mistério que envolve o uno e o múltiplo, o passado e a eternidade, o exercício da vontade individual de cada um dá origem à união amorosa de duas vidas. Por meio dos votos o relacionamento (ou seja, sua mútua dependência) vai da possibilidade à realidade: ele se torna algo real, e não apenas uma ideia ou desejo. 

Embora o sacramento do Matrimônio não imprima caráter em sentido estrito, o casal muda verdadeiramente: o alicerce deixa de ser o próprio eu e passar a ser o outro, deixa de ser o isolamento para ser a comunhão. Os cônjuges estabelecem uma nova relação, enraizada na razão e na vontade, e por meio da qual são novamente criados no Reino de Deus e neste mundo. Essa relação é tão íntima que somente a morte (literalmente, o desaparecimento de um dos esposos) lhe pode estabelecer um limite temporal. Na medida, porém, em que a alma santificada de uma pessoa leva consigo tudo o que ela fez em sua vocação para a glória de Deus, o vínculo entre os esposos pode continuar no céu, não da forma como existe na terra (cf. Mc 12, 25), mas num estado transfigurado de perfeita e elevada união, que foi imperfeitamente alcançado nesta vida. 

O que foi dito acima ajuda a explicar por que a união física entre homem e mulher só faz sentido no contexto matrimonial. Ela é tradicionalmente chamada “ato conjugal” (ou nupcial) por ser o ato por que se paga, de modo simbólico e real, a dívida espiritual dos votos. É imagem passageira de um compromisso duradouro, evidência momentânea da intenção de amar e servir por toda a vida. 

Esse ato perde o sentido quando não há comunhão de almas alicerçada num voto. Fora do casamento, o ato se autodestrói, pois ignora sua elevada finalidade e se torna ou um ritual niilista, do qual se cansam até as pessoas mais inteligentes e artísticas, ou um ato animal sem qualquer valor pessoal. Isso acontece porque a união física digna de duas pessoas humanas só pode ocorrer se for realizada primeiro no campo espiritual por meio de votos solenes, pelos quais homem e mulher se concedem mutuamente o direito exclusivo que um pode exercer sobre o outro. É assim que se entregam um ao outro. Qualquer outra coisa além disso é autocontraditória, medíocre mesmo, algo a que Nietzsche chamou “meio a meio”.

Nietzsche também dizia que o coração do homem e da mulher tem um profundo desejo de eternidade. Nossos corações desejam o Todo, e não descansarão até obtê-lo. O Matrimônio é um todo espiritual, um bem comum feito de partes intrínsecas: marido e mulher. Se o todo for removido, as partes se dissolvem, assim como a mão perde sua essência quando separada do corpo, pois em tal circunstância ela só pode ser chamada “mão” de modo equívoco. Se o todo for danificado ou eliminado, as partes perecerão, assim como o homem morre quando cortado ao meio ou o corpo se corrompe quando dele se separa a alma. 

O voto nupcial representa a união de dois espíritos, cuja graça, paz, alegria e caridade podem ser reforçadas pela união física. A beleza do ato interno (duas pessoas unidas por um voto) redunda na beleza do externo (duas pessoas numa só carne); a veracidade do ato interno contém e aprofunda a veracidade do externo; a bondade do ato interno purifica e ilumina o externo. Essa é outra forma verdadeira de dizer: “O que Deus uniu o homem não separe”.

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É possível o retorno à inocência?
Sociedade

É possível o retorno à inocência?

É possível o retorno à inocência?

Com a contínua banalização do vício na modernidade, a ideia de preservar ou recuperar a inocência pode parecer um tanto irrelevante. Mas seria impossível fazê-lo? Ou, ao contrário, não é esse o único caminho para Deus?

Auguste MeyratTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere (adaptado)20 de Setembro de 2019
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Com a contínua banalização do vício na modernidade, a ideia de preservar ou recuperar a inocência parece um tanto irrelevante. Hoje, apenas alguns pais (geralmente mórmons ou católicos tradicionais) levam a sério a inocência de sua família e fazem o possível para proteger os filhos da corrupção reinante em todas as formas de mídia e ambientes. Eles educam em casa, restringem ou proíbem o tempo de televisão e  procuram limitar as companhias e amizades de seus filhos.

Na maioria dos casos, seus vizinhos mais progressistas os ridicularizam como loucos e fariseus modernos, principalmente quando veem seus filhos alimentando a fé e vivendo prudentemente, enquanto os seus próprios caem em todos os pântanos morais imagináveis.

Diante de tal êxito, pode-se perguntar por que mais pessoas não seguem essas famílias saudáveis em vez de zombar delas. Algumas o fazem, e isso explica por que as comunidades religiosas ortodoxas mais tradicionais estão crescendo rapidamente, enquanto as liberais continuam a decair de forma vertiginosa. Outros não o fazem porque não compreenderam o que realmente significa inocência. Com demasiada frequência, ela é entendida em termo negativos: não ser exposto a más influências, não observar ou conhecer o mal, não ter maus pensamentos ou cometer ações más etc. Se as pessoas veem a inocência como um conjunto de “não-experiências”, os que a ela se opõem podem tratá-la como algo que denota ignorância, ingenuidade e até insensibilidade.

A consequência dessa redefinição é clara, especialmente nas escolas, no entretenimento e na vida familiar. Na escola, as crianças são sistematicamente escandalizadas em relação à sua fé, aos seus relacionamentos e à sua própria identidade. Elas aprendem cedo a equiparar religião com superstição, amor com utilidade e o “eu” com características acidentais. Os alunos que praticam sua fé, evitam o sexo e renunciam ao status de “vítima” são considerados estranhos e atraem o desprezo universal. Por outro lado, os estudantes “de gênero fluido”, com muitos parceiros e sem religião, são cada vez mais celebrados e admirados.

No entretenimento, as crianças veem o bem e o mal relativizados, com o vilão muitas vezes interpretando o herói, e virtudes como a bravura e a honestidade sendo dissolvidas em desprezo, incompetência e superficialidade. Pode até ser que os telespectadores mais jovens aprendam a ser gentis com as pessoas, mas o que eles costumam aprender com mais frequência é a tirar sarro dos outros, esquecer suas boas maneiras e agir como palhaços.

Além de absorver a imoralidade desse entretenimento, o ato de consumir passivamente imagens e sons, na tela, atrai as crianças para o vício. Não há melhor maneira de tirar a inocência de uma geração inteira do que transformá-los em viciados.

É claro que a escola e o entretenimento não teriam tanto efeito sobre a inocência dos jovens se os adultos estivessem em guarda. Mas, infelizmente, a maioria dos adultos abandonou o posto, deixando suas casas um caos e as crianças se virando por si mesmas. Incentivados por uma propaganda onipresente, eles têm cada vez menos escrúpulos em submeter seus filhos à corrupção. Assim, as crianças passam os primeiros anos de formação em lares onde abuso, palavrões e mentiras são algo comum.

Essa extinção da inocência continua, perigosa, até a idade adulta. Colocados em uma ladeira escorregadia e achando que nada mais têm a perder, a maioria dos adultos continua perdendo ainda mais a inocência. Seu lazer, educação e vida doméstica se tornam ainda mais escandalosos e destrutivos, a ponto de males extremos como o aborto, a eutanásia e a perseguição religiosa começarem a ser tratados como opções desejáveis para revolucionar a cultura.

Essa situação deixa duas opções para o indivíduo que ainda acredita na inocência: lutar ou fugir. A curto prazo, aqueles que escolherem a última opção podem ser mais eficazes em lidar com esse movimento espiral de decadência moral, mas isso não acontecerá a longo prazo. A tão criticada “Opção Beneditina” poderia funcionar em uma sociedade feudal descentralizada, que é o que a Europa se tornou após a queda do Império Romano. Mas não pode funcionar em países modernos, onde um governo autoritário tem os meios e o apoio para simplesmente proibir ideias e práticas contrárias à sua ideologia. Por exemplo: as leis do Canadá que anulam a autoridade dos pais para pressionar a doutrinação LGBT, ou as leis draconianas da Alemanha contra o ensino em casa, indicam qual será o destino final das famílias que tentarem se afastar da corrupta cultura secular da nossa época.

Em vez disso, a melhor opção para preservar a inocência é combater a corrupção predominante. O primeiro passo requer recuperar a definição adequada de inocência. Muito mais do que uma mera falta de experiências negativas, a inocência é uma confiança em realidades superiores — como a Verdade, a Bondade e a Beleza. É inocente a pessoa que acredita na verdade da revelação de Deus, na bondade dos amigos e familiares, na beleza da Criação e da imaginação. Essa pessoa tem uma visão transcendente do mundo e é capaz de enxergar para além de si mesma. Ela não reduz toda a experiência a fenômenos materiais aleatórios, mas encontra significado em tudo e em todos. 

Por terem menos experiências que as levariam a duvidar das realidades mais elevadas, as crianças são naturalmente mais inocentes. No Sermão da Montanha, Cristo, a própria encarnação da inocência, claramente quer preservar essa qualidade nos jovens e recuperá-la nos velhos: “Em verdade vos digo: se não vos transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18, 3). Jesus não ordena que os adultos abandonem suas responsabilidades ou seus conhecimentos, como ele deixa claro três versículos depois (cf. Mt 18, 6), mas exorta a manterem sua inocência e confiança em Deus.

Felizmente, apenas conhecer ou experimentar algo feio, mau ou falso não leva necessariamente as pessoas a perderem a inocência, embora isso certo aconteça se não tivermos cuidado. Dostoiévski ilustra essa situação com os protagonistas de Crime e Castigo. Na esperança de provar a teoria de que indivíduos verdadeiramente iluminados podem dispensar a moralidade, o protagonista Raskólnikov comete um duplo homicídio, perdendo a inocência no sentido não apenas jurídico, mas também espiritual. A miséria por ele experimentada não provém da culpa por tirar a vida de um inocente, mas da decisão de desistir da Verdade, da Bondade e da Beleza pela falsa sensação de poder resultante do pecado.

Em contraste direto, a personagem Sônia preservou a inocência. Ela brilha como um anjo, apesar de experimentar males muito piores como prostituta, apoiando o pai alcoólatra, com uma mãe histérica e irmãos pequenos e indefesos. Nas conversas entre os dois, Sônia é inocente, afirmando sua confiança em Deus e em seu amor, enquanto Raskólnikov se sente qualificado para lhe dizer o quão errada e ingênua ela é, ainda que ele mesmo nunca se dê conta da própria estupidez, ao cometer um crime pela simples razão de justificar uma hipotética moral adolescente.

Em vez de evitar Raskólnikov para manter sua pureza, Sônia pacientemente o confronta sobre seu crime e o desafia ao arrependimento. Nesse sentido, ela reflete os santos que brandiram sua inocência diante da corrupção. Eles entenderam que isso era mais persuasivo do que qualquer argumento. São Paulo conquistou mais convertidos na Grécia com sua inocência do que os maiores filósofos fizeram com seus diálogos e tratados. O próprio Santo Agostinho se converteu não por sua educação retórico-filosófica, mas por causa dos exemplos morais de sua mãe Santa Mônica e de seu mentor, Santo Ambrósio. São Bernardo de Claraval superou o lógico e célebre Pedro Abelardo (numa época em que havia pessoas assim) mais pelo poder de suas convicções do que por seu brilhantismo. São João Paulo II, um gênio por mérito próprio, dedicou sua vida a Deus depois de testemunhar a fé inabalável do pai, a quem considerou como seu “primeiro seminário”. Nada disso exclui a necessidade da razão; indica, porém, que esta é muito mais convincente quando associada à inocência.

Além de provar o poder da inocência, esses exemplos do passado demonstram que ela constitui o remédio concreto para um presente já fadigado. Obviamente, os que preservaram sua inocência devem torná-la um modelo para os outros. Eles podem esperar retaliações, mas pelo menos as pessoas notarão e talvez até venham a tomar consciência mais profunda dos efeitos encantadores da inocência.

O que é menos óbvio nesses exemplos, mas ainda assim imprescindível, é a necessidade subsequente do afastamento do mundo. A inocência impulsiona os homens para o céu; a corrupção os afasta. A pessoa deixa de confiar na Verdade, na Bondade e na Beleza quando passa tempo ouvindo mentiras, sucumbindo ao vício e se rendendo à autossuficiência. Portanto, o homem deve se afastar dessas influências.

Tal mudança acontece para Raskólnikov quando ele passa anos em uma prisão siberiana, antes de finalmente se arrepender. São Paulo escolheu viver no anonimato por três anos após sua conversão, antes de iniciar seu apostolado em Antioquia. Após sua conversão, Santo Agostinho se afastou permanentemente do mundo e de todos os seus prazeres e, praticamente, formou sua própria Ordem religiosa. São Bernardo ingressou na comunidade monástica mais rígida da França de sua época, e São João Paulo II perdeu o sono para passar mais horas em oração. Para todos esses homens, foi o afastamento do mundo que permitiu à inocência criar raízes e florescer. Eles pareciam haver entendido que, sem essa separação, a inocência continuaria sendo um ideal distante que induziria mais a remorsos do que à mudança de vida.

Na era da informação, esse afastamento se tornou cada vez mais difícil, à medida que novos dispositivos preenchem todos os espaços da vida; e inventores e psicólogos desonestos incorporam “tecnologia persuasiva” para destruir a possibilidade de autocontrole das pessoas. Por esse motivo, é necessário ter um propósito de mudar os próprios hábitos e reordenar as prioridades da vida. O tempo gasto anteriormente na televisão e nas mídias sociais pode ser preenchido com oração, trabalho, estudo e momentos de convivência. Se tal mudança puder ser sustentada sem recaídas, surgirão momentos de inocência em que a pessoa perceberá, e se revoltará, com o profano; e exaltará o belo, cheia de gratidão pelas muitas bênçãos presentes no mundo ao seu redor.

Para muitas pessoas que perderam sua inocência, a percepção de que ela pode ser resgatada é uma ocasião de grande alívio, e até de emancipação. Elas não precisam mais se desesperar por terem se afastado da inocência, nem continuar fingindo que estavam melhor por tê-la perdido. Em vez disso, elas podem ser encorajadas pela possibilidade de se tornarem inocentes novamente, protegendo a inocência de outrem e confrontando as forças que trazem à nossa sociedade essa tão sufocante corrupção. Por fim, um retorno à inocência através do afastamento do mundo é a única maneira de amar verdadeiramente ao próximo e aos inimigos, sem se perder e permitir o pecado. É a única maneira de combater os escândalos sem ser escandalizado. Mais importante ainda, é o único caminho para Deus.

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O melhor temperamento é…
Cursos

O melhor temperamento é…

O melhor temperamento é…

Como nascemos todos com o pecado original, não existe um temperamento melhor do que o outro. É preciso aproveitar as qualidades da própria “compleição”, trabalhar as suas debilidades e, sobretudo, crescer na graça de Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Setembro de 2019
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Não é porque somos filhos de Adão e desenvolvemos certos maus hábitos ao longo dos anos que precisamos envelhecer no mal e fazer dele um projeto de vida. O temperamento que recebemos “não é uma resignação”. Deus nos deu uma “compleição” específica, mas é no trabalho e na purificação dela que está a nossa santificação.

Além disso, coléricos ou sanguíneos, fleumáticos ou melancólicos, todos somos herdeiros do pecado original. Por isso, no estado em que nos encontramos, não existe um temperamento melhor do que o outro. É preciso aproveitar as próprias qualidades, sanar as próprias debilidades e, sobretudo, procurar crescer na graça de Deus, que nos eleva acima de nossa natureza decaída.

Tudo isso é só para dizer que nós já estamos trabalhando na produção do curso “Os Quatro Temperamentos” e, abaixo, você confere um pouco do que espera por você em outubro, aqui no site do Padre Paulo Ricardo:

Como você pode ver na própria abordagem do vídeo, nosso curso não é um “manual” de cunho psicológico sobre os temperamentos. Para nosso apostolado, o importante mesmo é ver onde esse assunto se encaixa no caminho da santidade

Se por um lado não se deve superestimar a sua importância, como se fôssemos “animais” e estivéssemos confinados aos limites do que a natureza nos impôs, nem por isso os temperamentos devem ser subestimados, como se não passassem de uma “teoria ultrapassada”, sem nada a acrescentar à nossa vida de virtudes e de busca de Deus.

Se você quer saber melhor como esse assunto é tratado dentro do sadio equilíbrio da espiritualidade cristã, inscreva-se agora mesmo em nossa lista exclusiva para este curso e receba todas as atualizações a respeito!

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