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Todo trabalho é essencial: uma reflexão para tempos de pandemia
Sociedade

Todo trabalho é essencial:
uma reflexão para tempos de pandemia

Todo trabalho é essencial: uma reflexão para tempos de pandemia

Ainda que a distinção entre serviços “essenciais” e “não essenciais” deva ser aceita para frear a disseminação do coronavírus, não podemos nos esquecer que, no fundo, todo trabalho é essencial, pois é ele que dá dignidade a nós, homens, e propósito às nossas vidas.

Francis LeeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Junho de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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A crescente taxa de desemprego nos EUA, consequência natural da paralisação econômica, pôs a classe média americana de joelhos [1]. Dez milhões de americanos foram demitidos em apenas duas semanas, e o número segue crescendo. Às pessoas cadastradas para receber seguro desemprego foi informado que deveriam esperar algumas semanas até receberem o primeiro pagamento. Os números foram exibidos todas as manhãs no noticiário, e na minha opinião o sofrimento dos desempregados foi tratado, em grande medida, apenas em termos numéricos, como um valor destituído de qualquer significado humano.

Minha intuição e formação religiosa me diziam que eu deveria sentir compaixão e empatia pelos menos afortunados, mas eu não conseguia invocar esses sentimentos humanos fundamentais. Seguia com minha vida ordinária, ignorando essa realidade distante; talvez fosse uma maneira de preservar minha tranquilidade. Foi preciso que a fantasia autoinduzida se transformasse em realidade cotidiana e batesse à porta da minha própria família para que eu entendesse a magnitude da destruição causada por ela na alma humana.  

“Um homem trabalhando no campo”, por Laurits Andersen Ring.

Meu pai trabalha como autônomo na manutenção de máquinas de lavagem a seco. Por isso, só tem serviço quando o dono de uma lavanderia entra em contato para solicitar reparos urgentes em alguma máquina da empresa. Os pedidos variavam em quantidade ao longo da semana, mas a regularidade do serviço permitia que a hipoteca e outras despesas fossem pagas em dia. Com o fechamento obrigatório de quase todas as empresas, a indústria de lavagem a seco entrou em colapso porque diminuiu bastante o número de profissionais que precisam prensar e passar o próprio uniforme de trabalho.

Embora neste período alguns ainda continuem a vestir-se formalmente em casa quando estão em teletrabalho (para manter certo grau de dignidade ou, pelo menos, passar a impressão de que estão trabalhando no escritório), a verdade é que meu pai não recebe demanda de trabalho há quase três semanas. Todas as manhãs, ele costuma acordar e realizar as atividades que faziam parte de sua rotina antes de sair para trabalhar: tomar café da manhã, ler o jornal e fumar um cigarro no jardim. Na hora do almoço, sai de casa com o seu uniforme de trabalho e as ferramentas, voltando apenas na hora do jantar. É óbvio que não há nenhuma demanda de trabalho, mas ele tem cumprido perfeitamente essa rotina todos os dias. Eu me perguntei: por que ele mantém esse hábito? Por que finge trabalhar quando não há trabalho a ser feito?  

Para muitas pessoas, o trabalho é apenas um meio de obter os recursos necessários para pagar a hipoteca, comprar comida e dar aos filhos uma boa educação. Alguns descobrem que a sua vocação terrena lhes dá um incrível senso de propósito que nenhum tipo de lazer poderia dar. O sangue que jorra das mãos por causa do trabalho duro com uma ferramenta, o suor que escorre pelo corpo por causa do trabalho intenso e do calor ao ar livre e as lágrimas salgadas que caem do rosto por causa da dor do trabalho árduo proporcionam uma satisfação única.

À luz dos hábitos do meu pai, comecei a analisar a relação entre o homem e o seu trabalho: o homem trabalha apenas para encontrar meios de sobrevivência para a sua família ou realiza o trabalho pelo trabalho?

Na encíclica Rerum novarum, o Papa Leão XIII diz o seguinte: “Trabalhar é exercer a atividade com o fim de procurar o que requerem as diversas necessidades do homem, mas principalmente a sustentação da própria vida” (n. 27). Ele explica que o homem, como agente ativo da economia, trabalha antes de mais nada para fornecer alimento e moradia à sua família e para receber o salário necessário à sobrevivência. Trata-se de uma “lei incontestável da natureza”.

Na encíclica Laborem exercens, o Papa João Paulo II responde à segunda parte da minha pergunta: 

Desde o princípio [o homem] é chamado ao trabalho. O trabalho é uma das características que distinguem o homem do resto das criaturas, cuja atividade, relacionada com a manutenção da própria vida, não se pode chamar trabalho; somente o homem tem capacidade para o trabalho e somente o homem o realiza preenchendo com ele, ao mesmo tempo, a sua existência sobre a terra. Assim, o trabalho comporta em si uma marca particular do homem e da humanidade, a marca de uma pessoa que opera numa comunidade de pessoas; e uma tal marca determina a qualificação interior do mesmo trabalho e, em certo sentido, constitui a sua própria natureza (n. 1).

Aqui, o grande João Paulo II estabelece a diferença entre o reino animal e a espécie humana. Ele esclarece o seguinte: não podemos chamar de trabalho, tal como o definem os seres humanos, a busca animal de comida e abrigo para si ou para o grupo a que pertence. Por que motivo? Quando “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou”, Ele deu à espécie humana a missão específica de dar continuidade à história da sua Criação através dos trabalhos de nossas mãos, que primeiro começaram com Deus criando “os céus e a terra”. Quando o homem inventa uma máquina, conserta algo ou gera uma nova vida, está participando ativamente da economia divina. Como disse anteriormente, ignorar a nossa natureza propensa ao trabalho significa violar a própria lei natural. Pode-se concluir que trabalhar é algo que está em nosso DNA.

Ao determinar a interrupção da atividade econômica, os governos impuseram a sua interpretação do que são “serviços essenciais”, interpretação que, apesar de variável até certo ponto, não deixa de ter certa uniformidade: negócios vitais para o funcionamento básico da economia (finanças, mercados de produtos alimentícios, serviços de saúde, governo etc.) e dignos de permanecerem abertos durante uma crise de saúde pública. Essa decisão, porém, determinou uma injustificada sentença de morte para uma imensa variedade de trabalhos considerados “não essenciais”. O barbeiro que você frequenta duas vezes por mês, o garçom que você vê muitas vezes em seu restaurante predileto e o barman que faz aquele coquetel perfeito entram nessa categoria.

Embora a população tenha de aceitar essa distinção para minimizar a disseminação do coronavírus, não devemos nos esquecer da verdade fundamental de que todo trabalho é essencial, pois confere dignidade à nossa humanidade e propósito às nossas vidas, além de satisfazer a nossa natureza dada por Deus, que nos leva a encontrar alegria nos frutos do nosso trabalho (cf. Ecl 5, 18).

Notas

  1. Esse texto foi originalmente publicado no dia 23 de abril de 2020. Desde então, a situação nos Estados Unidos com relação à infecção por coronavírus e ao desemprego certamente só piorou. Como o Brasil vive drama semelhante, as considerações feitas há quase dois meses têm perfeita validade para nós (Nota da Equipe CNP).

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Por que a cultura do sexo inconsequente está acabando com os jovens?
Sociedade

Por que a cultura
do sexo inconsequente
está acabando com os jovens?

Por que a cultura do sexo inconsequente está acabando com os jovens?

As pessoas estão se casando cada vez mais tarde, mas começam a se relacionar cada vez mais cedo. O que antes acontecia dentro de um compromisso sério agora se reduz a uma malfadada “diversão”, e com uma série de inconvenientes, para o corpo e para a alma.

Joseph ShawTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Junho de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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O mundo para o qual mandamos os nossos jovens é diferente do mundo dos nossos antepassados em muitos aspectos. Ele é organizado a partir de princípios de recompensa e punição que se associam de modo incoerente e, por isso, emitem sinais confusos. Em determinados aspectos, tornou-se difícil combinar virtude e felicidade natural com sucesso terreno, e isso dá origem a escolhas difíceis.

A modernidade gosta de afirmar o contrário: foram os nossos antepassados que sofreram esse dilema por causa de suas convenções sociais “artificiais”. Particularmente, eles tornaram a atividade sexual fora do matrimônio menos atraente, algo que muitas pessoas, em todas as épocas, tiveram a tentação de fazer. Portanto, prossegue o argumento moderno, isso foi artificial, e depois que aquelas convenções deixaram de existir (para quase todo o mundo e por razões práticas) todos estão numa situação melhor agora. As pessoas podem fazer o que quiserem, e obviamente isso é bom, não é?

Não é, porém, uma conclusão evidente que a satisfação dos nossos desejos sexuais imediatos e naturais seja compatível com os nossos mais estimados objetivos a longo prazo. O assunto requer uma reflexão séria.

É altamente provável que as pessoas que entram na vida adulta queiram, em algum momento, se casar e ter filhos. Excluída a possibilidade de uma vocação religiosa, a maioria das pessoas se casa, e muitas das que ficam solteiras gostariam de ter se casado. Isso inclui muitos que desprezaram a ideia quando eram mais novos; não se trata, pois, de uma possibilidade que deva ser descartada irrefletidamente de antemão. Para as mulheres, com o tempo, o desejo de ter filhos tem uma tendência particular a crescer.

As exigências da educação em tempo integral e da convenção social moderna fizeram a média de idade do primeiro casamento subir. Em 2018, a média feminina nos Estados Unidos era de 27,8 anos e a masculina era de 29,8. Isso faz com que homens e mulheres jovens tenham uma fase adulta de mais ou menos dez anos antes do casamento. Que tipo de relação romântica você poderia ou deveria ter durante esse longo intervalo?

A resposta normal é “diversão” e, em essência, a alegação moderna é que esse estilo de vida não tem um lado negativo. Em muitos ambientes sociais, ao contrário, quem resiste a esse modo de agir é tido não tanto como um rebelde, mas como uma aberração antissocial. Só que o estilo de vida padrão da monogamia periódica, que progressivamente se transforma em promiscuidade, de fato tem inconvenientes.

A primeira e mais óbvia consideração é de ordem física. Uma década de atividade sexual durante o próprio pico de fertilidade é algo que naturalmente terá como consequência a gravidez. Ela geralmente não faz parte do plano; portanto, esse estilo de vida pressupõe um compromisso de longo prazo com a contracepção. Por causa do uso prolongado de contracepção nesse período, aquilo que teoricamente poderia corresponder a níveis insignificantes de falha na contracepção está longe de ser insignificante, e o mesmo vale para doenças sexualmente transmissíveis. No caso da gravidez, isso significa que a cultura do sexo inconsequente também é, necessariamente, uma cultura de aborto.

As únicas formas de contracepção que permitem à mulher um controle sobre o próprio corpo são as que possuem consequências potencialmente negativas para a sua saúde e particularmente para a sua fertilidade futura. Mais uma vez, isso parece uma questão insignificante, mas basta usar contraceptivos por dez anos para que as probabilidades aumentem. Os leitores podem buscar informações na internet por conta própria. 

De um ponto de vista psicológico, o sexo inconsequente não é de modo algum livre de consequências emocionais. A ideologia moderna afirma que o desgosto, a traição, o ciúme e a decepção que fazem parte desse estilo de vida são o preço a pagar para ter relacionamentos emocionalmente gratificantes. Trata-se de uma verdade pela metade. Sim, o envolvimento emocional com outro ser humano traz consigo a possibilidade de traição, mas essa probabilidade resulta da falta de verdadeiro compromisso. A única resposta possível a essa dificuldade é tentar evitar o envolvimento emocional tanto quanto possível. Isso é difícil, mas a prática leva à perfeição. Após mais ou menos uma década de esforço constante, divorciar a sexualidade do afeto pode tornar-se quase uma segunda natureza. Só que isso é não uma preparação para o matrimônio, mas um treinamento para o divórcio.

De um ponto de vista espiritual, esperemos e rezemos para que todos os nossos jovens se arrependam de suas indiscrições juvenis quando finalmente se casarem. Muitos dos maiores santos tiveram muito do que se arrepender; portanto, isso com certeza não é impossível. Mas o arrependimento de um pecado sério exige o reconhecimento de que o que se fez foi seriamente errado. Ninguém pode dizer que “nem importa tanto assim” porque é possível arrepender-se depois. Se não importa, nem há por que arrepender-se depois. Se alguém pensa que não importa, arrepender-se mais tarde torna-se impossível. A verdade é que uma grande quantidade de jovens católicos se casa sem purificar as próprias consciências; como resultado, eles deixam de ganhar em plenitude as graças do sacramento que recebem.

Um único pecado mortal nos faz perder a amizade de Deus e acaba com a vida da graça. Viver nesse estado por um período prolongado é ruim não apenas por causa da possibilidade remota da morte... É ruim porque equivale à morte, a morte da alma.

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Conheça Santo Antônio!
Cursos

Conheça Santo Antônio!

Conheça Santo Antônio!

Junho é o mês de Santo Antônio! Mas, mesmo sendo muito venerado, a vida desse santo é muito pouco conhecida. Por isso, Pe. Paulo Ricardo quer apresentar a você, na forma de um breve curso, a biografia desse grande Doutor da Igreja.

Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Junho de 2020Tempo de leitura: 1 minutos
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Em 1220, isto é, 800 anos atrás, morriam no Marrocos os primeiros mártires franciscanos, acontecimento decisivo na história da Igreja e ponto de inflexão na vida de um cônego agostiniano português...

O nome de batismo desse sacerdote era Fernando de Bulhões, mas é com o nome de Santo Antônio de Lisboa (em referência ao lugar onde nasceu) e de Pádua (em referência ao lugar onde está sepultado) que sua fama viria a espalhar-se por todo o mundo.

A verdade, porém, é que, mesmo sendo muito venerado, a vida de Santo Antônio é muito pouco conhecida. Os brasileiros mesmos praticamente só o conhecemos como um “casamenteiro” e “fazedor de milagres” que traz o Menino Jesus nos braços.

Mas junho é o mês de Santo Antônio, cuja memória os católicos celebramos no dia 13, e o Pe. Paulo Ricardo quer aproveitar essa oportunidade para apresentar a você, na forma de um breve curso, a biografia desse grande Doutor da Igreja.

O que se esconde por trás dos inúmeros prodígios e favores que Santo Antônio faz aos homens? Por que ele foi chamado “Martelo dos Hereges” e “Arca do Testamento”? Qual é, em suma, a razão de sua grande santidade, que levou o Papa a canonizá-lo menos de um ano após a sua morte?

É o que você vai descobrir a partir do próximo dia 23 de junho, às 21h, aqui em nosso site! Faça sua pré-inscrição para esse curso clicando aqui e seja notificado quando nossas inscrições abrirem!

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A oferta de uma santa “ao Amor Misericordioso”
Oração

A oferta de uma santa
“ao Amor Misericordioso”

A oferta de uma santa “ao Amor Misericordioso”

125 anos atrás, Santa Teresinha do Menino Jesus se ofereceu como “Vítima de Holocausto ao Amor Misericordioso do Bom Deus”, com uma oração que inúmeros fiéis e devotos repetiriam, e que a Igreja enriqueceria com indulgências perpétuas.

Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face10 de Junho de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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No dia 11 de junho de 1895, Santa Teresinha do Menino Jesus se ofereceu como “Vítima de Holocausto ao Amor Misericordioso do Bom Deus”. Para tanto, ela se serviu da fórmula abaixo, composta por ela mesma e usada, depois, por outras irmãs de sua comunidade, que repetiram a mesma oferta. 

O texto dessa oração constitui um tesouro da espiritualidade católica e é enriquecido com indulgências perpétuas: de 300 dias, cada vez que for rezado com devoção, começando ao menos das palavras “ofereço-me como vítima de holocausto…”; e plenárias, em cada mês, quando recitado todos os dias desse mês e cumprindo-se as condições habituais de recebimento das indulgências (conc. da Penitenciaria Apostólica, 31 jul. 1923).


Oferecimento de mim mesma como Vítima de Holocausto ao Amor Misericordioso do Bom Deus

Ó meu Deus! Bem-aventurada Trindade, desejo amar-vos e fazer que vos amem, trabalhar pela glorificação da Santa Igreja, salvando as almas que estão na terra, e libertando as que sofrem no Purgatório. Desejo cumprir, perfeitamente, vossa vontade e alcançar o grau de glória que me preparastes em vosso reino. Numa palavra, desejo ser Santa, mas sinto minha impotência, e peço-vos, ó meu Deus, sede vós mesmo a minha Santidade! 

Já que me amastes a ponto de me dardes vosso Filho único para ser meu Salvador e meu Esposo, são meus os infinitos tesouros de seus méritos. Com prazer, eu vo-los ofereço, suplicando-vos não olheis para mim senão através da Face de Jesus e dentro de seu Coração abrasado de Amor. 

Ofereço-vos também todos os merecimentos dos Santos (que estão no Céu e na terra), seus atos de amor e aqueles dos Santos Anjos. Ofereço-vos, enfim, ó Bem-aventurada Trindade, o amor e os méritos da Santíssima Virgem, minha querida Mãe. É a ela que entrego minha oferenda, pedindo-lhe que a apresente a vós. Seu divino Filho, meu Amado Esposo, nos disse nos dias de sua vida mortal: “Tudo quanto pedirdes ao meu Pai em meu nome, ele vo-lo dará!”. Tenho, pois, certeza de que atendereis meus desejos; eu sei, ó meu Deus: quanto mais quereis dar, tanto mais impelis a desejar. Sinto em meu coração desejos imensos, e é com confiança que vos peço que venhais tomar posse de minha alma. Ah! Não me é dado receber a santa Comunhão tantas vezes, quantas desejo. Mas, Senhor, não sois Todo-Poderoso?... Ficai em mim, como no Tabernáculo, não vos afasteis jamais de vossa pequenina hóstia…

Quisera consolar-vos da ingratidão dos perversos e vos suplico que me tireis a liberdade de vos ofender. Se alguma vez cair por fraqueza, vosso divino olhar purifique imediatamente minha alma, consumindo todas as minhas imperfeições, como o fogo transforma em si próprio todas as coisas… 

Agradeço-vos, ó meu Deus, todas as graças que me concedestes, de modo particular a de me terdes feito passar pelo cadinho do sofrimento. É com alegria que vos contemplarei no último dia, a empunhar o cetro da Cruz; e, já que vos dignastes me dar como partilha esta Cruz tão preciosa, espero, no Céu, me assemelhar a vós e ver brilhar em meu corpo glorificado os sagrados estigmas de vossa Paixão… 

Depois do exílio da terra, espero ir gozar de vós na Pátria. Mas, não quero ajuntar méritos para o Céu; quero trabalhar só por vosso Amor, com o único intuito de vos agradar, de consolar vosso Sagrado Coração, e de salvar almas que vos amem eternamente. 

No entardecer desta vida, comparecerei diante de vós com mãos vazias, pois não vos peço, Senhor, que leveis em conta minhas obras. Todas as nossas justiças têm defeitos aos vossos olhos. Quero, pois, revestir-me de vossa própria Justiça, e receber de vosso Amor a eterna posse de vós mesmo. Não quero outro Trono nem outra Coroa senão vós mesmo, ó meu Amado! 

Para vós, o tempo não é nada. Um único dia é como se fossem mil anos. Podeis, então, preparar-me num instante para comparecer diante de vós…

A fim de viver num ato de perfeito Amor, ofereço-me como vítima de holocausto ao vosso Amor Misericordioso, pedindo-vos que me consumais sem cessar, e façais irromper em minha alma as torrentes de infinita ternura em que vós se encerram, e assim me torne Mártir de vosso Amor, ó meu Deus!...

Que esse martírio, depois de me haver preparado para comparecer diante de vós, me faça enfim morrer, e minha alma se lance sem demora ao eterno abraço de vosso Misericordioso Amor…

Quero, Amado meu, a cada batida do coração, renovar-vos este oferecimento um sem-número de vezes, até que, desfeitas as sombras, possa afiançar-vos meu Amor num eternal Face a face!...

Maria Francisca Teresa do Menino Jesus e da Santa Face
rel. carm. ind.

Festa da Santíssima Trindade.
9 de junho do ano da graça de 1895

Referências

  • Santa Teresa do Menino Jesus. Obras completas: escritos e últimos colóquios (O 6). São Paulo: Paulus, 2002, pp. 833–835.

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