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Os fariseus do século XXI
Sociedade

Os fariseus do século XXI

Os fariseus do século XXI

Se, como ensina Jesus, os fariseus são aqueles que abandonaram “o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens”, nossa época está cheia deles. E nem é preciso procurar muito.

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Setembro de 2018
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No Evangelho deste domingo, Nosso Senhor repreende com dureza os fariseus:

Bem profetizou Isaías a vosso respeito, hipócritas, como está escrito: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim. De nada adianta o culto que me prestam, pois as doutrinas que ensinam são preceitos humanos” (Is 29, 13). Vós abandonais o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens (Mc 7, 6-8).

Nessa passagem, Jesus põe em contraste o “mandamento” de Deus e a “tradição” dos homens. À luz da história da salvação, porém, nós sabemos que se trata de duas tradições (já que traditio vem do verbo latino trado, “transmitir, entregar”): os Mandamentos são uma tradição divina, pois tem como origem o próprio Deus. Foi o próprio Senhor que entregou a Moisés as tábuas da Antiga Lei. Por isso, desde o início, a tradição judaico-cristã é não uma tradição como outra qualquer, mas a Tradição por excelência.

Nas religiões naturais, são os homens que repassam aos outros o que pensam e acreditam a respeito da divindade, num plano meramente horizontal. No judaísmo e no cristianismo, ao contrário, é Deus mesmo que vem ao encontro do homem. Deixar essa tradição, portanto — a Tradição —, é renunciar ao relacionamento com Deus, que é vertical, reduzindo tudo às coisas deste mundo.

Sobre esse abandono do sobrenatural, o Venerável Fulton Sheen se pronunciou certa vez nos termos seguintes:

Antigamente, vivia o homem em um universo tridimensional onde, de uma terra que ele habitava com seus vizinhos, avistava acima o céu e abaixo o inferno. Esquecendo Deus, a sua visão do homem ficou ultimamente reduzida a uma só dimensão. Acha agora que sua atividade esteja limitada à superfície da terra: um plano sobre o qual se move, não subindo para Deus ou descendo para Satanás, mas somente para a direita ou para a esquerda. A velha divisão teológica dos que se acham no estado de graça e dos que não estão deu lugar à separação política entre direitistas e esquerdistas. A alma moderna limitou definitivamente seus horizontes [1].

Embora faça menção explícita a uma “separação política”, Fulton Sheen está falando aqui de um problema fundamentalmente de : o homem moderno deixou de acreditar na Igreja, em Cristo e, em última instância, até no próprio Deus. Com isso, e porque o homem é um ser essencialmente religioso, ele passou a acreditar em outras coisas — ou até, como dizia Chesterton, em qualquer coisa. A imagem bíblica dos salvos e condenados, a distinção agostiniana entre “cidade de Deus” e “cidade dos homens” foi deixada de lado, dando lugar às mais variadas distinções: direita e esquerda, ricos e pobres, homens e mulheres, brancos e negros etc. Não sem razão nossa época vive em conflitos constantes e intermináveis.

Mas a falta de fé de nosso século está atrelada principalmente a um problema de natureza moral. Chesterton já havia “profetizado”, por assim dizer, que a “próxima grande heresia” seria “um ataque à moralidade, especialmente à moral sexual” [2]. Como as duas coisas se conectam é muito fácil entender:

A transgressão contínua e culpável da lei de Deus (desonestidades, negócios sujos etc.) produz na alma do pecador um desassossego cada vez maior contra a lei de Deus, que o proíbe de entregar-se com tranquilidade a suas desordens. Essa situação psicológica deve desembocar logicamente, mais cedo ou mais tarde, em uma destas duas soluções: o abandono do pecado ou o abandono da fé. Se a isso acrescentamos que Deus vai retirando cada vez mais suas graças e suas luzes como castigo pelos pecados cometidos, não é de se maravilhar que o desgraçado pecador acabe apostatando da fé.

Não há dúvida: a imoralidade desenfreada que reina no mundo de hoje é uma das causas principalíssimas — a mais importante depois da propaganda materialista e ateia — da descristianização cada vez maior da sociedade moderna. O mesmo Cristo nos avisa no Evangelho que “todo o que pratica o mal odeia a luz” (Jo 3, 20). Não há nada que cegue tanto como a obstinação no pecado. [3]

Em suma, nossa época abandonou a Tradição e a prática dos Mandamentos porque deixou o seu coração corromper-se com o que Jesus fala ainda no Evangelho dos fariseus: “as más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, ambições desmedidas, maldades, fraudes, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo” (Mc 7, 21-22).

Como consequência dessa falta de fé, a modernidade criou seus próprios “sistemas” morais; assim como os fariseus da época de Jesus, também nossos contemporâneos possuem as suas “tradições”. Por não viverem de acordo com aquilo em que acreditavam, passaram a acreditar no modo como vivem. Eles abandonaram a doutrina católica pelo “politicamente correto”: pecado, agora, é não aceitar o aborto, o “casamento” entre pessoas do mesmo sexo, as relações pré-matrimoniais e tudo o que o mundo apoia, aplaude e incentiva.

O farisaísmo de nossa época é este: a despeito da Palavra de Deus, que é muito clara a respeito do “salário do pecado” (Rm 6, 23) — e do que seja pecado! —, que mui claramente afirma que “nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os devassos, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os assaltantes possuirão o Reino de Deus” (1Cor 6, 9-10), nós estamos convencidos de que o inferno não existe e, se existe, está vazio e não precisamos nos preocupar com ele; nós deixamos de falar do Céu para concentrar nossos esforços na “construção de um mundo melhor”; e também, como consequência disso, não falamos mais de pecado e a única coisa que tememos agora é, quando muito, o juízo dos homens.

De onde quer que nossos contemporâneos tenham tirado todas essas coisas, uma coisa nós sabemos: dos Mandamentos e da Tradição é que não foi. Quem folhear todas as páginas das Escrituras, dos Santos Padres e dos Concílios não achará uma linha sequer em defesa de suas teses mirabolantes — porque, afinal, é disso que se trata: ideias fabricadas, “fábulas” inventadas tão-somente para o prazer daqueles que escutam. Estamos no período profetizado pelo Apóstolo: “tempo em que os homens já não suportarão a sã doutrina da salvação” e, “levados pelas próprias paixões e pelo prurido de escutar novidades, ajustarão mestres para si, apartarão os ouvidos da verdade e se atirarão às fábulas” (2Tm 4, 3-4).

Foi a estas pessoas que Jesus chamou “hipócritas”: as que abandonam “o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens”. São os fariseus do século XXI.

Referências

  1. Fulton Sheen, A paz da alma (trad. de Oscar Mendes), São Paulo: Molokai, 2015, p. 9.
  2. G. K. Chesterton. The Next Heresy. In: The Chesterton Review 26 (3), p. 295-298 (2000).
  3. Antonio Royo Marín, Teología moral para seglares, v. 1, 4.ª ed., Madri: BAC, 1973, p. 253.

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E se fosse hoje o dia da sua morte?
Cursos

E se fosse hoje o dia da sua morte?

E se fosse hoje o dia da sua morte?

Um destino eterno aguarda todo homem que vem a este mundo: ou a glória do céu ou a amargura sem termo do inferno. Cabe a nós, no curso da vida presente, decidir para onde queremos ir.

Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Setembro de 2018
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Os católicos de hoje sofrem de um mal quase desconhecido das gerações passadas: uma total indisposição para pensar na morte e nas realidades que, queiramos ou não, nos aguardam a todos depois dela — os novíssimos.

Derivado do adjetivo latino novum, o termo é um aportuguesamento do superlativo novissimum, que significa o mesmo que “último” ou “final” em alguma ordem de coisas. No sentido em que aqui nos interessa, a expressão “novíssimos” refere-se às realidades últimas que, a partir da morte, estão à espera de todo ser humano: “Em tudo o que fizeres”, diz o Eclesiástico, “lembra-te dos teus novíssimos”, isto é, do teu fim, “e jamais pecarás” (Eclo 7, 40).

Neste derradeiro capítulo de nosso curso “Catequese para Adultos”, Padre Paulo Ricardo faz um estudo sobre a escatologia cristã e explica, de acordo com o que sempre ensinou a Igreja, o que é a morte e o juízo particular que a ela se segue, qual o destino eterno de toda alma e o que acontecerá no fim dos tempos com toda a humanidade.

O teaser acima contém trechos da aula 32, intitulada “Depois da morte vem o juízo”.

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A Igreja Católica é intolerante?
Doutrina

A Igreja Católica é intolerante?

A Igreja Católica é intolerante?

Nosso século clama: “Tolerância, tolerância”. Mas condenar a verdade à tolerância é o mesmo que sentenciá-la ao suicídio. Entenda neste texto, extraído de um antigo sermão, em que sentido a Igreja Católica é intolerante.

Cardeal Pie20 de Setembro de 2018
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Nosso século clama: “Tolerância, tolerância”. Tem-se como certo que um padre deve ser tolerante, que a religião deve ser tolerante.

Meus irmãos, não há nada que valha mais que a franqueza, e eu aqui estou para vos dizer, sem disfarce, que no mundo inteiro só existe uma sociedade que possui a verdade, e que esta sociedade deve ser necessariamente intolerante.

É da essência de toda verdade não tolerar o princípio que a contradiz. A afirmação de uma coisa exclui a negação dessa mesma coisa, assim como a luz exclui as trevas. Onde nada é certo, onde nada é definido, podem-se partilhar os sentimentos, podem variar as opiniões. Compreendo e peço a liberdade de opinião nas coisas duvidosas: in dubiis, libertas. Mas, logo que a verdade se apresenta com as características certas que a distinguem, por isso mesmo que é verdade, ela é positiva, ela é necessária, e por conseguinte ela é una e intolerante: in necessariis, unitas.

Condenar a verdade à tolerância é condená-la ao suicídio. A afirmação se aniquila se duvida de si mesma, e ela duvida de si mesma se admite com indiferença que se ponha a seu lado a sua própria negação. Para a verdade, a intolerância é o instinto de conservação, é o exercício legítimo do direito de propriedade. Quando se possui alguma coisa, é preciso defendê-la, sob pena de logo se ver despojado dela.

Assim, meus irmãos, pela própria necessidade das coisas, a intolerância está em toda parte, porque em toda parte existe o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, a ordem e a desordem. Que há de mais intolerante do que esta proposição: 2 mais 2 são 4?

Nada é tão exclusivo, meus irmãos, quanto a unidade. Ouvi a palavra de São Paulo: Unus Dominus, una fides, unum baptisma. Há, no céu, um só Senhor: unus Dominus. Esse Deus, cuja unidade é seu grande atributo, deu à terra um só símbolo, uma só doutrina, uma só fé: una fides. E esta fé, esta doutrina, Ele confiou-as a uma só sociedade visível, uma só Igreja, cujos filhos são, todos, marcados com o mesmo selo e regenerados pela mesma graça: unum baptisma.

Assim, a unidade divina que resplandece por todos os séculos na glória de Deus produziu-se sobre a terra pela unidade do dogma evangélico, cujo depósito foi confiado por Nosso Senhor Jesus Cristo à unidade hierárquica do sacerdócio: um Deus, uma fé, uma Igreja: unus Dominus, una fides, unum baptisma.

Um pastor inglês teve a coragem de escrever um livro sobre a tolerância de Jesus Cristo, e certo filósofo de Genebra disse, falando do Salvador dos homens: “Não vejo que meu divino Mestre tenha formulado sutilezas sobre o dogma”. Bem verdadeiro, meus irmãos. Jesus Cristo não formulou sutilezas sobre o dogma, mas trouxe aos homens a verdade e disse: Se alguém não for batizado na água e no Espírito Santo, se alguém se recusa a comer a minha carne e a beber o meu sangue, não terá parte em meu reino. Confesso que nisso não há sutilezas; há intolerância, há exclusão, a mais positiva, a mais franca.

E mais: Jesus Cristo enviou seus Apóstolos para pregar a todas as nações, isto é, derrubar todas as religiões existentes para estabelecer em toda a terra a única religião cristã e substituir todas as crenças dos diferentes povos pela unidade do dogma católico. E, prevendo os movimentos e as divisões que esta doutrina iria incitar sobre a terra, Ele não se deteve e declarou que tinha vindo para trazer não a paz, mas a espada, e para acender a guerra não somente entre os povos, mas no seio de uma mesma família e separar, pelo menos quanto às convicções, a esposa fiel do esposo incrédulo, o genro cristão do sogro idólatra. A afirmação é verdadeira e o filósofo tem razão: Jesus Cristo não formulou sutilezas sobre o dogma.

Falam da tolerância dos primeiros séculos, da tolerância dos Apóstolos. Mas isso não é assim, meus irmãos. Ao contrário, o estabelecimento da religião cristã foi, por excelência, uma obra de intolerância religiosa. No momento da pregação dos Apóstolos, quase todo o universo praticava essa tolerância dogmática tão louvada. Como todas as religiões eram igualmente falsas e igualmente desarrazoadas, elas não se guerreavam; como todos os deuses valiam a mesma coisa uns para os outros, eram todos demônios, não eram exclusivos, eles se toleravam uns aos outros: Satã não está dividido contra si mesmo.

O Império Romano, multiplicando suas conquistas, multiplicava seus deuses, e o estudo de sua mitologia se complica na mesma proporção que o de sua geografia. O triunfador que subia ao Capitólio fazia marchar diante dele os deuses conquistados com mais orgulho ainda do que arrastava atrás de si os reis vencidos. O mais das vezes, em virtude de um decreto do senado, os ídolos dos bárbaros se confundiam desde então com o domínio da pátria, e o Olimpo nacional crescia como o Império.

Quando aparece o cristianismo (prestem atenção a isso, meus irmãos, são dados históricos de valor com relação ao assunto presente), quando o cristianismo surge pela primeira vez, não foi repelido imediatamente. O paganismo perguntou-se se, em vez de combater a nova religião, não devia dar-lhe acesso ao seu solo. A Judéia tinha se tornado uma província romana. Roma, acostumada a receber e conciliar todas as religiões, recebeu a princípio, sem maiores dificuldades, o culto saído da Judéia. Um imperador colocou Jesus Cristo, como a Abraão, entre as divindades de seu oratório, assim como se viu mais tarde outro César propor prestar-lhe homenagens solenes.

Mas a palavra do profeta não tardou a se verificar: as multidões de ídolos que viam, de ordinário sem ciúmes, deuses novos e estrangeiros ser colocados ao lado deles, com a chegada do Deus dos cristãos, lançam um grito de terror, e, sacudindo sua tranquila poeira, abalam-se sobre seus altares ameaçados: Ecce Dominus ascendit, et commovebuntur simulacra a facie eius, “Eis que surge o Senhor, e os ídolos estremecem diante de sua face” (Is 19, 1).

Roma estava atenta a esse espetáculo. E logo, quando se percebeu que esse Deus novo era irreconciliável inimigo dos outros deuses; quando se viu que os cristãos, cujo culto se havia admitido, não queriam admitir o culto da nação; em uma palavra, quando se constatou o espírito intolerante da fé cristã, foi então que começou a perseguição.

Ouvi como os historiadores do tempo justificam as torturas dos cristãos. Eles não falam mal de sua religião, de seu Deus, de seu Cristo, de suas práticas; só mais tarde é que inventaram calúnias. Eles os censuram somente por não poderem suportar outra religião senão a deles. “Eu não tinha dúvidas”, diz Plínio, o Jovem, “apesar de seu dogma, de que não era preciso punir sua teimosia e sua obstinação inflexível”: pervicaciam et inflexibilem obstinationem. “Não são criminosos”, diz Tácito, “mas são intolerantes, misantropos, inimigos do gênero humano. Há neles uma fé teimosa em seus princípios, e uma fé exclusiva que condena as crenças de todos os povos”: apud ipsos fides obstinata, sed adversus omnes alios hostile odium.

Os pagãos diziam geralmente dos cristãos o que Celso disse dos judeus, com os quais foram muito tempo confundidos, porque a doutrina cristã tinha nascido na Judéia. “Que esses homens adiram inviolavelmente às suas leis”, dizia este sofista, “nisto não os censuro; só censuro aqueles que abandonam a religião de seus pais para abraçar uma diferente! Mas, se os judeus ou os cristãos querem só dar ares de uma sabedoria mais sublime que aquela do resto do mundo, eu diria que não se deve crer que eles sejam mais agradáveis a Deus que os outros”.

Assim, meus irmãos, o principal agravo contra os cristãos era a rigidez absoluta do seu símbolo de fé, e, como se dizia, o humor insociável de sua teologia. Se só se tratasse de um Deus mais, não teria havido reclamações; mas era um Deus incompatível, que expulsava todos os outros: aí está o porquê da perseguição. Assim, o estabelecimento da Igreja foi obra de intolerância dogmática.

Toda a história da Igreja não é senão a história dessa intolerância. Que são os mártires? Intolerantes em matéria de fé, que preferem os suplícios a professar o erro. Que são os símbolos de fé? São fórmulas de intolerância, que determinam o que é preciso crer e que impõem à razão os mistérios necessários. Que é o papado? Uma instituição de intolerância doutrinal, que pela unidade hierárquica mantém a unidade de fé. Por que os concílios? Para frear os desvios de pensamentos, condenar as falsas interpretações do dogma, anatematizar as proposições contrárias à fé.

Nós somos então intolerantes, exclusivos em matéria de doutrina; disto fazemos profissão; orgulhamo-nos da nossa intolerância. Se não o fôssemos, não estaríamos com a verdade, pois que a verdade é uma, e consequentemente intolerante. Filha do céu, a religião cristã, descendo à terra, apresentou os títulos de sua origem; ofereceu ao exame da razão fatos incontestáveis, e que provam irrefutavelmente sua divindade.

Ora, se ela vem de Deus, se Jesus Cristo, seu autor, pode dizer: “Eu sou a verdade”, Ego sum veritas, é necessário, por uma consequência inevitável, que a Igreja de Cristo conserve incorruptivelmente esta verdade tal qual a recebeu do céu; é necessário que repila, que exclua tudo o que é contrário a esta verdade, tudo o que possa destruí-la. Recriminar à Igreja Católica sua intolerância dogmática, sua afirmação absoluta em matéria de doutrina, é dirigir-lhe uma recriminação muito honrosa. É recriminar à sentinela ser muito fiel e muito vigilante, é recriminar à esposa ser muito delicada e exclusiva.

Nós ficamos muitas vezes confusos, meus irmãos, com o que ouvimos dizer sobre todas estas questões até por pessoas sensatas. Falta-lhes a lógica, desde que se trate de religião. É a paixão, é o preconceito que os cega? É um e outro. No fundo, as paixões sabem bem o que querem quando procuram abalar os fundamentos da fé, pondo a religião entre as coisas sem consistência. Elas não ignoram que, demolindo o dogma, preparam para si uma moral fácil.

Diz-se com justeza perfeita: é antes o decálogo que o símbolo de fé o que as faz incrédulas. Se todas as religiões podem ser postas num mesmo nível, é que se equivalem todas; se todas são verdadeiras, é porque todas são falsas; se todos os deuses se toleram, é porque não há Deus. E, se se pode aí chegar, já não sobra nenhuma moral incômoda. Quantas consciências estariam tranquilas no dia em que a Igreja Católica desse o beijo fraternal a todas as seitas suas rivais!

Jean-Jacques Rousseau foi entre nós o apologista e o propagador desse sistema de tolerância religiosa. A invenção não lhe pertence, se bem que ele tenha ido mais longe que o paganismo, que nunca chegou a levar a indiferença a tal ponto. Eis, com um curto comentário, o ponto principal desse catecismo, tornado infelizmente popular: todas as religiões são boas. Isto é, de outra forma, todas as religiões são ruins.

A filosofia do século XIX se espalha por mil canais por toda a superfície da França. Esta filosofia é chamada eclética, sincrética e, com uma pequena modificação, é também chamada progressiva. Esse belo sistema consiste em dizer que não existe nada falso; que todas as opiniões e todas as religiões podem conciliar-se; que o erro não é possível ao homem, a menos que ele se despoje da humanidade; que todo o erro dos homens consiste em julgar-se possuidores exclusivos de toda a verdade, quando cada um deles só tem dela um elo e quando, da reunião de todos esses elos, se deve formar a corrente inteira da verdade. Assim, segundo essa inacreditável teoria, não há religiões falsas, mas são todas incompletas umas sem as outras.

A verdadeira seria a religião do ecletismo sincrético e progressivo, a qual ajuntaria todas as outras, passadas, presentes e futuras: todas as outras, isto é, a religião natural que reconhece um Deus; o ateísmo, que não conhece nenhum; o panteísmo, que o reconhece em tudo e por tudo; o espiritualismo, que crê na alma, e o materialismo, que só crê na carne, no sangue e nos humores; as sociedades evangélicas, que admitem uma revelação, e o deísmo racionalista, que a rejeita; o cristianismo, que crê no Messias que veio, e o judaísmo, que o espera ainda; o catolicismo, que obedece ao Papa, o protestantismo, que olha o Papa como o Anticristo. Tudo isto é conciliável. São diferentes aspectos da verdade. Da união desses cultos resultará um culto mais largo, mais vasto, o grande culto verdadeiramente católico, isto é, universal, pois que abrigará todas as outras no seu seio.

Esta doutrina, meus irmãos, que qualificais de absurda, não é de minha invenção; ela enche milhares de volumes e de publicações recentes; e, sem que seu fundo jamais varie, toma todos os dias novas formas sob a caneta e sobre os lábios dos homens em cujas mãos repousam os destinos da França.

— A que ponto de loucura chegamos então?

— Chegamos ao ponto a que deve logicamente chegar todo aquele que não admite o princípio incontestável que estabelecemos, a saber: que a verdade é uma e, por consequência, intolerante, apartada de toda doutrina que não a sua. E, para resumir em poucas palavras toda a substância deste meu discurso, eu vos direi: Procurais a verdade sobre a terra? Procurai a Igreja intolerante. Todos os erros podem fazer-se concessões mútuas; eles são parentes próximos, pois que têm um pai comum: Vos ex patre diabolo estis, “Vós sois de vosso pai, o diabo”. A verdade, filha do céu, é a única que não capitula.

Vós, pois, que quereis julgar esta grande causa, tomai para isto a sabedoria de Salomão. Entre essas diferentes sociedades para as quais a verdade é objeto de litígio, como era aquela criança entre as duas mães, quereis saber a quem adjudicá-la. Pedi que vos dêem uma espada, fingi cortar, e examinai as expressões que farão os pretendentes. Haverá vários que se resignarão, que se contentarão da parte que vão ter. Dizei logo: Essas não são as mães! Há uma, ao contrário, que se recusará a toda composição, que dirá: a verdade me pertence, e devo conservá-la inteira, jamais tolerarei que seja diminuída, partida. Dizei: Esta aqui é a verdadeira mãe!

Sim, Santa Igreja Católica, vós tendes a verdade, porque tendes a unidade e, porque sois intolerante, não deixais decompor esta unidade.

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É possível provar a existência da alma?
Fé e Razão

É possível provar a existência da alma?

É possível provar a existência da alma?

A experiência interna da liberdade é uma prova clara de que a ação humana é especificamente distinta da de um animal ou de um computador e só pode ser explicada por referência a um princípio superior à matéria.

Padre Paulo Ricardo19 de Setembro de 2018
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Podemos provar a existência da alma humana? Dizemos provar, e não demonstrar, porque o que nos importa saber é se é possível, ao menos em certa medida, ter experiência da própria alma, de maneira que a existência dela se nos apresente como um fato provado, ou seja, como realidade vivida e incontestável. Antes porém de analisar a prova, convém entender o método em que ela se baseia.

Partimos aqui da comparação entre o que percebemos dentro de nós e o que vemos nos animais e computadores. Se pudermos constatar que algum fenômeno da interioridade humana — acessível a qualquer pessoa — é inexplicável em termos de pura neurologia animal ou de funções computacionais, então é forçoso reconhecer em nós a existência de um princípio de operações irredutível à matéria.

Visto isso, olhemos primeiro para os animais. Sabemos que a conduta dos demais seres vivos é instintiva; obedece, por assim dizer, a uma “programação” prévia que os determina a agir e reagir de forma padronizada diante de determinados estímulos. Ora, todo ser vivo possui, como instinto básico e inato, a tendência à autoconservação, que se traduz fundamentalmente como busca natural do prazer e repúdio natural da dor.

No caso dos animais irracionais, essa tendência se manifesta de modo mais ou menos automático, desprovida de um momento reflexivo prévio acerca de sua própria finalidade. Ainda que o comportamento animal, sobretudo nas espécies superiores, não seja simples automatismo — reflexo e involuntário —, é evidente que os animais não sabem o que fazem, como o fazem nem por que o fazem, o que revela que a sua conduta não é resultado de eleição. Daí que eles sejam incapazes, por um lado, de renunciar ao que lhes parece bom (um prazer, por exemplo) aqui a agora e, por outro, de considerar como um bem o que apreendem como mal (uma situação de perigo, uma dor etc.).

O ser humano, ao contrário, pode transcender e pôr entre parênteses sua tendência à autoconservação, reorientando livremente seus desejos e receios. De fato, todos nós experimentamos dia após dia essa liberdade interior, que nos permite atuar e escolher com relativa independência da nossa “programação” biológica e cerebral. Não estamos, noutras palavras, obrigados a agir conforme os impulsos de um desejo, já que podemos a qualquer momento pôr em cheque a bondade, a conveniência, a oportunidade, a possibilidade etc. daquilo que desejamos.

É por isso que somos capazes de renúncia, de sacrifício, de nos propor ideais e, inclusive, de nos sentir angustiados ante o horizonte de alternativas possibilitadas pela nossa vontade [1].

Esse livre dinamismo da conduta humana também evidencia que o homem não se comporta como um computador. Um computador, com efeito, só pode funcionar a partir do que já possui, ou seja, limitando-se ao que faz parte da sua configuração. Um computador só pode alterar a própria programação ou “aprender” novos comandos ou soluções se essas possibilidades já fizerem parte de sua estrutura, elaborada sempre por alguém distinto do mesmo computador.

Tudo isso nos indica claramente que a liberdade, um fenômeno que qualquer pessoa pode verificar dentro de si, está vinculada a uma dimensão do ser humano que não é material, que não encontra explicação plausível em nenhuma condição ou lei física, química, biológica ou eletrônica. A existência de um princípio interno e imaterial surge, assim, como exigência necessária para poder explicar a especificidade do nosso agir livre, o qual só pode ser efeito da atuação de uma alma espiritual.

“Esta afirmação”, obviamente, “em nada se opõe às leis naturais nem ao espírito científico; simplesmente afirma que, junto com as dimensões que podem ser estudadas pela ciência experimental, existem outras (as espirituais) que, por transcenderem o âmbito natural, também transcendem o âmbito das ciências. Trata-se, porém, de dimensões reais, que devem ser admitidas para explicar os dados da experiência” [2], realizável por qualquer um, e inclusive da própria ciência como atividade humana.

Referências

  1. Cf. J. A. García Cuadrado, Antropología Filosófica. 6.ª ed., Pamplona: EUNSA, 2014, pp. 160-162.
  2. Mariano Artigas, Filosofía de la Naturaleza. 5.ª ed., Pamplona: EUNSA, 2003, p. 272.

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Os leigos e a crise na Igreja
Espiritualidade

Os leigos e a crise na Igreja

Os leigos e a crise na Igreja

Ainda que o ofício de ensinar tenha sido confiado diretamente à hierarquia da Igreja, os fiéis leigos não só podem, como devem “pregar”, especialmente em tempos como os nossos.

Peter Kwasniewski,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Setembro de 2018
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Ainda que o ofício de ensinar tenha sido confiado diretamente à hierarquia da Igreja (o Papa e os bispos em si mesmos, e padres e diáconos por extensão), os leigos não só podem, como devem “pregar”. Neste tempo de grande confusão entre os próprios membros da hierarquia, que supostamente deveriam exercer esse ofício, a “pregação” do laicato  — incluindo sua maciça presença na internet — assume uma importância ainda maior.

Esse tema já foi abordado pelo Papa Leão XIII em sua carta encíclica Sapientiae Christianae, de 1890. Tendo recordado que cabe ao episcopado ensinar com autoridade em nome de Cristo, o Papa afasta uma falsa conclusão que disso se poderia extrair:

Não pense ninguém que ficou proibido aos particulares cooperar com alguma diligência nesse ministério de ensinar, principalmente aos homens a quem Deus concedeu dotes de inteligência junto com o desejo de serem úteis ao próximo. […] ‘A todos os fiéis cristãos, principalmente àqueles que tem superioridade e obrigação de ensino, suplicamos pelas entranhas de Jesus Cristo, e em virtude da autoridade deste mesmo Senhor e Salvador nosso lhes ordenamos, que apliquem todo o seu zelo e trabalho em desviar esses erros e eliminá-los da luta da Igreja, e difundir a luz puríssima da nossa fé’ (Concílio Vaticano I, Cons. Dogm. Dei Filius).

Por fim, lembrem-se todos que podem e devem disseminar a fé católica com a autoridade do exemplo e pregá-la com uma profissão constante. Desse modo, nos deveres que nos ligam com Deus e com a Igreja está em primeiro lugar o zelo com que cada qual deve trabalhar segundo as suas forças em propagar a doutrina cristã e refutar os erros.

Quando uma pessoa é batizada, ela é introduzida no múnus sacerdotal, profético e régio de Cristo Senhor (cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 901-913): é o que denominamos “sacerdócio universal dos fiéis”. Devido ao caráter sacramental impresso na essência de suas almas, os cristãos têm o poder de oferecer a Deus seus corpos e almas, seus trabalhos e sofrimentos — o mundo inteiro, enfim, que geme por salvação. Esse ato de auto-oblação, em união com o Salvador da humanidade, e de esforço por conduzir as realidades temporais à sua finalidade evangélica, deve penetrar todos os aspectos da vida diária do cristão, ainda que ele sempre venha a encontrar a resistência do mundo, da carne e do diabo.

É assim também que Santo Tomás de Aquino entende os efeitos do sacramento da Confirmação (cf. Suma Teológica, III, q. 72): a todo cristão, em virtude do caráter sacramental conferido por essa unção, é dada a força para testemunhar publicamente a única fé verdadeira, seja pelo exemplo de vida, seja pela pregação e a apologética, seja por qualquer outro tipo de testemunho, inclusive o do sofrimento silencioso.

Para o laicato, assim como para as pessoas que estão na vida religiosa, pregar obviamente não significa uma pregação formal no contexto da liturgia. Mas, se tivermos um entendimento mais profundo de pregar como levar o Evangelho ao mundo e torná-lo vivo pela graça de Deus, veremos que não há limites para o número de maneiras através das quais a Boa Nova pode ser espalhada e compartilhada com as pessoas.

Cada religioso ou religiosa contemplativa que reza para a verdadeira reforma da Igreja, para a purificação e santificação do clero, bem como para o sucesso dos leigos em seu trabalho cristão no meio do mundo, pôe-se a serviço da missão apostólica de pregar. Sem as orações dos contemplativos, essas boas obras jamais se multiplicariam ou viriam a dar muitos frutos.

A mãe e o pai de família que ensinam seus filhos sobre Deus, que os introduzem na vida de Jesus, de sua Mãe e dos santos, são verdadeiros anunciadores da Boa Nova, transmissores do depósito da fé, “mestres da verdade e pregadores da graça”, como São Domingos. Através de um direito e um dever ao mesmo tempo natural e dado por Deus, eles servem como os primeiros catequistas e pregadores da fé a seus filhos e, nesse sentido, eles possuem um direito e um dever de transmitir a ortodoxia e afastar a heresia, que não podem ser removidos nem substituídos por pastor algum da Igreja — ainda que seja também verdade que o laicato permanece sob a guia e a autoridade magisterial de seus pastores, responsáveis que são por transmitir a palavra da verdade.

A pregação àqueles afundados no erro ou na descrença deve ser, no mais das vezes, ou apologética ou argumentativa, tentando mostrar a essas pessoas a verdade da posição católica. Mas também precisa fomentar as questões para as quais só o Evangelho — ou melhor, a Pessoa mesma de Cristo — pode dar respostas definitivas. Devido à disseminação do materialismo científico e comercial, existe hoje uma tremenda ignorância das realidades espirituais, uma falta de admiração a respeito de Deus e da alma, uma falta do tipo de questões que constituem terreno fértil para a graça da conversão. O convite a um banquete não é atrativo senão quando se tem fome e sede.

A pregação àqueles que já são católicos, seja os de nome, seja os que estão à margem, seja aos confusos, seja aos sinceros, tenderá a ser, por outro lado, expositiva e exortativa, um esforço por conduzir essas pessoas a um entendimento mais profundo, bem como a uma integração mais consistente de fé e vida. Os melhores “pregadores” leigos devem encontrar modos de acender nos católicos uma consciência do imenso caudal de graças que eles receberam no Batismo — sobretudo, o poder de receber Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, na Santa Comunhão: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim, e eu nele” (Jo 6, 56), e a tremenda misericórdia do sacramento da Confissão, por meio do qual o mesmo sangue lava os nossos pecados e restaura ou aumenta a graça em nossas almas.

Em tudo isso, nós podemos ver o enorme poder e responsabilidade do jornalismo e das publicações católicas em todos os meios de comunicação. Esse trabalho é parte da missão evangelizadora da Igreja, um verdadeiro apostolado de repassar a fé católica recebida.

Então, da próxima vez que você for tentado a reclamar de uma homilia ruim que escutou ou de um pastor que não está vivendo de acordo com seu ofício de pregador (seja porque ele está dizendo falsidades, sem falar nada de substancial, seja porque está vivendo de uma maneira que contradiz a fé católica), faça uma pausa, olhe para dentro de si mesmo e pergunte-se como anda a sua própria “pregação”: seu compromisso com a vida de oração, seu bom exemplo e suas obras de testemunho.

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