O texto a seguir é de autoria do Cardeal George Pell, que faleceu no último dia 10 de janeiro. Publicado em dezembro de 2020, fala de sua própria mudança de visão, ao longo do tempo, em relação àquela parte da doutrina cristã que costumamos chamar de Novíssimos, isto é, as últimas coisas, as realidades finais que nos esperam tanto após a morte quanto no fim dos tempos. 

Traduzimos esta meditação e a publicamos aqui como um tributo ao prelado falecido, fazendo votos de que alcance a consciência de todos que nos lêem — especialmente os responsáveis pelo cuidado das almas. Fica também o convite a todos de rezar pela alma deste servo do Senhor, para que Deus o acolha em sua misericórdia e o receba nas moradas eternas.


Em 1972, participei de uma mesa-redonda entre cristãos, cujo público alvo eram estudantes prestes a completar o ensino médio numa escola pública do interior da Austrália. Findo o evento, um estudante me abordou com o intuito de debater nossas alegações católicas. Ele era um incréu também procurando respostas de um pequeno grupo protestante. Meu erro foi explicar a ele que a Igreja Católica não ensinava que ele iria para o inferno caso não aceitasse se tornar católico. A seita protestante da qual ele fazia parte era bastante clara: se a rejeitasse, ele seria condenado.  

Durante o recente período em que tive problemas com a lei, esse ex-aluno escreveu para me consolar. Também me agradeceu por ter-lhe respeitado a autonomia. Não rejeito nem me arrependo do conselho que dei a ele em 1972. Mas me arrependo, sim, de não lhe ter transmitido um senso de urgência maior quanto à importância de sua busca e decisão.  

Era incomum a situação desse estudante, que cogitava se tornar católico, pois a maior parte do tráfego seguia a direção oposta. Desde o Concílio Vaticano II, todas as sociedades ocidentais testemunharam um êxodo dos membros da Igreja e uma diminuição da prática [religiosa]. As comunidades católicas na Bélgica e na Holanda, por exemplo, quase desapareceram por completo.

O Cardeal Pell e o Papa Bento XVI.

Infeliz e inesperadamente, após uma série de reviravoltas brutais em toda a Igreja, provou-se que os “profetas da desgraça”, explicitamente rejeitados no Concílio, estavam certos. Os Novíssimos — Céu e Inferno, morte e juízo — podem não ter virado sucata em todos os lugares, mas, nos locais em que não são rejeitados, muitas vezes são ignorados ou obscurecidos.

Teria a ameaça da condenação ao Inferno — um temor desproporcional da punição após a morte — desempenhado um papel no declínio da Igreja? Há quarenta ou cinquenta anos, a maioria das paróquias na Austrália tinha penitentes regulares atormentados por escrúpulos. A escrupulosidade causava muito sofrimento; portanto, não é surpreendente que haja uma reação a ela. Mas a moeda teria outro lado? Nosso silêncio em relação à recompensa e à punição após a morte não agravou a indiferença ao destruir dois dos nossos recursos doutrinais mais persuasivos?     

Todas as pessoas questionam se há vida após a morte, e ao longo da história a maioria delas acreditou em algo como a imortalidade da alma.

Naturalmente, a doutrina cristã sobre os Novíssimos é mais específica. Ela supõe a crença no Deus Criador, que é bom, racional, se interessa por nós e está longe de ser caprichoso. Deus exige que todas as pessoas escolham o bem ao invés do mal, e a fé ao invés da dúvida, da indiferença ou da recusa [de crer]. Portanto, o Deus único e verdadeiro também é o juiz supremo, que separa as ovelhas dos cabritos, concedendo a felicidade ou o castigo eterno no Último Dia, quando as almas boas e as más experimentarão a ressurreição dos corpos. Essa crença pode ser um enorme consolo para familiares e amigos que estão de luto, como pode atestar qualquer sacerdote que tenha celebrado funerais para uma assembleia de fiéis. Mas este ainda é um ensinamento difícil, ao qual muitas vezes resistem ferozmente aqueles que se consideram autônomos e que julgam ter o direito de definir o que é o certo e o que é errado para si mesmos. Nem os secularistas antiquados nem os woke veem com bons olhos a ideia de Deus como Criador e Juiz [i]. 

Surge a partir disso uma questão inevitável para todos os cristãos. Quantas pessoas serão salvas? Embora Jesus não fosse sentimentalista, Lucas nos diz que Ele não respondeu diretamente à questão de se apenas algumas pessoas seriam salvas. Ele não menciona nenhuma porcentagem: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque vos digo que muitos procurarão entrar, e não conseguirão”. Jesus conclui de forma mais otimista que muitos virão ao banquete de todas as direções, e os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos (cf. Lc 13, 22-30).

Jesus é mais explícito no relato de Mateus. A porta é estreita, o caminho para a destruição é espaçoso. As árvores que não produzirem bons frutos, as videiras que produzirem espinhos ao invés de uvas serão cortadas e queimadas, enquanto aqueles que escutam as palavras de Cristo e agem construirão sobre fundamentos sólidos (cf. Mt 7, 12-27).

Mateus também relata a promessa explícita de Jesus de que o Filho do Homem não será inclusivo no Juízo Final, mas separará as ovelhas dos cabritos, para receberem a recompensa ou a punição eterna. Certa vez me perguntei por que Nosso Senhor tinha tanta antipatia pelos cabritos. Concluí que isso se devia ao individualismo e à teimosia deles, à sua recusa de cooperar e em ser pastoreados (cf. Mt 25, 31-46). As cabras não simbolizam conversão e [espírito de] comunidade. 

O cristianismo é centrado no amor de Deus e no amor ao próximo (cf. Mc 12, 30-31). Deus nos amou tanto, que seu Filho morreu para nos redimir (cf. Rm 5, 8). É neste contexto que devemos colocar os ensinamentos tradicionais sobre o Céu e o Inferno.

Nunca tive dificuldades em aceitar a doutrina de que pode ser necessária uma purificação antes de entrar na presença de Deus ou ficar face a face com sua bondade. Comparei isso ao desconforto que experimentamos quando acordados subitamente por uma luz intensa. Mas sempre tive dificuldades para conciliar as ideias gêmeas de um Deus amoroso e a condenação eterna.

Há mais de cinquenta anos, eu preparava um grupo de rapazes ingleses para a Primeira Comunhão. Por alguma razão, eles começaram a explicar confiantemente que o Inferno não existia. “Mas e Hitler?”, perguntei a eles — e o Inferno estava de volta para se vingar. 

Então, ensinei publicamente sobre o Inferno por décadas — recebendo certa vez uma longa carta de apoio de Germain Grisez com profundas reflexões teológicas —, mas manifestei a esperança, talvez a expectativa, de que poucos seriam condenados ao Inferno, contrabalançando isso com a crença de que muitos precisariam ser purificados no Purgatório.  

Eu tinha consciência de que a maioria dos teólogos — e, na verdade, os Doutores da Igreja — acreditavam que a maioria dos seres humanos seria condenada. Santo Agostinho foi bastante explícito quanto ao destino dos não batizados: “Portanto, são poucos os que se salvam, em comparação com os muitos que perecem”. Ele elaborou os ensinamentos sobre esses pontos contra os donatistas e também contra Pelágio, que é visto como sendo mais razoável e “moderno” em relação ao destino das crianças não batizadas. Nas minhas tutorias sobre Agostinho, que se concentravam principalmente nas Confissões, era praticamente unânime a indignação dos estudantes com a posição dele sobre a condenação das crianças não batizadas, apesar de ele enfatizar que as crianças experimentam “a mais branda das condenações”.  

O Cardeal Pell se despedindo do Papa Bento XVI, poucos dias antes de sua própria morte.

Oitocentos anos depois, Santo Tomás de Aquino deu um veredito tão claro quanto o de Santo Agostinho, mas menos provocativo que o dele. Os que são salvos fazem parte de uma minoria, apesar de não sabermos quantos são e de “ser mais apropriado afirmar que ‘só Deus conhece o número daqueles para os quais está reservada a felicidade eterna’”. 

O Concílio de Trento, no Decreto sobre a Justificação de 1547, parece excluir a possibilidade de que, ao fim e ao cabo, todos serão salvos: “Ora, se bem que ‘Ele tenha morrido por todos’ (2Cor 5, 15), contudo nem todos recebem o benefício da sua morte, mas somente aqueles a quem é comunicado o mérito da sua Paixão”.

Porém, a discussão sobre o número daqueles que serão salvos foi transformada pelo ensinamento da Constituição Dogmática Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II: “Com efeito, aqueles que, ignorando sem culpa o Evangelho de Cristo, e a sua Igreja, procuram, contudo, a Deus com coração sincero, e se esforçam, sob o influxo da graça, por cumprir a sua vontade, manifestada pelo ditame da consciência, também eles podem alcançar a salvação eterna” (n. 16). Deste modo, a doutrina de que “não há salvação fora da Igreja” foi substancialmente desenvolvida.

As gerações que passaram a desfrutar do sufrágio universal e tomaram conhecimento da Declaração Universal dos Direitos Humanos aceitaram prontamente [a ideia de] que nem um acidente de nascimento nem a fraqueza humana normal deveriam excluí-las do Paraíso. A desigualdade pressuposta pela instituição da escravidão estava abolida. O Concílio encorajou o diálogo ao invés da condenação e a persuasão mais que a punição, de modo que a noção mesma de pecado que conduz à morte foi atenuada [ii]. A participação no sacramento da Confissão — agora chamado de Reconciliação — diminuiu dramaticamente. 

Eu, como muitos outros, passei a acreditar que (quase) todas as pessoas seriam salvas. Recorria ao teólogo alexandrino Orígenes (c. 185-254), que ensinava que na apocatástase final todas as criaturas — inclusive o demônio — seriam salvas, e ao grande teólogo Hans Urs von Balthasar, autor de Was dürfen wir hoffen? [“O que podemos esperar?”, sem tradução para língua portuguesa] [iii]. Mas cheguei à conclusão de que não há muita diferença entre crer que todos serão salvos e crer que ninguém o será

Minhas opiniões mudaram de forma inesperada. Todos os anos as autoridades do Vaticano organizam dois cursos em Roma para “bispos novatos”, ou seja, os que foram sagrados recentemente. Eu estava presidindo um dia de debates quando um bispo americano desenvolveu o argumento de que toda a nossa atividade sacerdotal é determinada pelo número de pessoas que acreditamos que serão salvas. Se não há punição e todos serão salvos, por que deveríamos nos preocupar? Por que Jesus se incomodou com a Cruz? Fui obrigado a repensar minha posição. Retornei aos ensinamentos de Jesus no Novo Testamento e descobri que eles não apresentavam garantias suficientes para meu otimismo. Não é necessário crer, com São Francisco Xavier, que os não batizados estão condenados, mas sentimentalistas como eu [sheltered sentimentalists like me] ignoram com muita facilidade o terrível sofrimento causado pelo pecado e subestimam a obstinação da vontade humana.

Meu amigo jesuíta Pe. Paul Mankowski, falecido recentemente, defendia o argumento de John Finnis segundo o qual a recusa de levar a sério o juízo de Jesus no Última Dia “está no centro da crise da fé e da moral”. Hoje estou de acordo com isso. A esperança cristã no triunfo do bem pressupõe o juízo de Jesus Cristo.

Notas

  1. A palavra woke, cujo uso já se tornou comum no mundo anglófono, é bem difícil de traduzir para o português. Deriva do verbo to wake e tem sido usada para retratar positivamente pessoas com mentalidade política mais à esquerda como tendo “consciência social”. A ideia é de que essas pessoas estão “acordadas”, têm os olhos bem abertos para os “preconceitos” e as “desigualdades” que existem ao seu redor. (N.T.)
  2. Death-bearing sin, no original. O Cardeal Pell está falando do conceito de “pecado mortal”, extraído da própria Escritura: “Há um pecado que conduz à morte” (1Jo 5, 16). (N.T.)
  3. O título da obra de Von Balthasar em inglês é: Dare We Hope “That All Men Be Saved”? — literalmente, “Ousamos esperar ‘que todos os homens se salvem’”? Mas em outras línguas os títulos variam bastante. (N.T.)