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O Salvador que esperávamos silenciosamente
Igreja CatólicaSantos & Mártires

O Salvador que esperávamos silenciosamente

O Salvador que esperávamos silenciosamente

Ainda que falar sobre a colonização da América Latina signifique hoje enfrentar um tabu, todos os cristãos deveriam manifestar uma profunda gratidão às "testemunhas de Deus" que nos trouxeram a luz de Cristo.

Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Março de 2014Tempo de leitura: 6 minutos
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Falar da colonização da América Latina hoje significa enfrentar um tabu. A visão que se tem desse fato, moldada por um método histórico materialista, que desconsidera que o homem possa lutar por algo maior e mais relevante do que a simples existência neste mundo, frequentemente põe as figuras dos navegantes ibéricos em maus lençóis. Falam-se deles, nas aulas de história, como “exploradores" e “carniceiros", homens inescrupulosos e preocupados tão somente com a aquisição de riquezas e especiarias. Abordagens mais radicais chegam ao extremo de ignorar – ou fingir ignorar – qualquer possível bem-feitoria dos colonizadores: o “homem branco" da Europa vinha à América para trazer apenas pilhagem, massacre e destruição.

Longe de fazer uma apologia dos homicídios contra os povos nativos da América – é fora de questão que o número dos indígenas diminuiu abissalmente com a chegada dos colonizadores europeus [1] –, reputar as viagens empreendidas por portugueses e espanhóis ao Novo Mundo como mero ato exploratório também não passa de uma grande mentira. Os primeiros testemunhos de quem haviam partido à conquista das terras além-mar eram relatos de pessoas de fé, que estavam preocupadas especialmente com a evangelização dos povos indígenas.

Assim, quando Cristóvão Colombo chegou às Bahamas, sua primeira atitude foi a de “erguer uma cruz" no lugar e pedir a celebração de uma Missa: “ Os reis de Castela – disse-lhes Colombo [aos nativos] – enviaram-nos não para vos subjugar, mas para vos ensinar a verdadeira religião" [2].

O testamento de Isabel de Castela – a Rainha Católica, como ficou conhecida –, provava que era esse mesmo o anseio da Coroa Espanhola: “O nosso desejo absoluto (...) era fazer todos os esforços para levar os povos desses países a converter-se à nossa santa religião, enviar-lhes sacerdotes, religiosos, prelados e outras pessoas instruídas e tementes a Deus para os educar nas verdades da fé, dar-lhes o gosto e os costumes da vida cristã". Para tal fim, Isabel pedia aos seus herdeiros que “não consentissem jamais que os índios sofressem algum dano nas suas pessoas ou nos seus bens, mas providenciassem para que fossem bem e convenientemente tratados..." [3].

Além disso, escreve o historiador Daniel-Rops, “desde o começo das grandes viagens, ou quase, os missionários embarcaram com destino aos países desconhecidos". E tudo com o aval e a indicação de Roma: “Um dos méritos de Alexandre VI foi precisamente ter aconselhado com toda a firmeza os soberanos de Portugal e Espanha a cuidar de que se incluíssem testemunhas de Deus em todas as expedições" [4].

No entanto, o que muitos gostariam, contaminados pelo mito rousseauniano do “bom selvagem", era que os colonizadores europeus sequer falassem de Cristo em solo americano. Contrapondo à “supremacia cristã" um condenável relativismo, a sua proposta era de que os missionários católicos, aqui chegando, dessem de ombros, traíssem miseravelmente a sua fé e se calassem com relação a todos os costumes locais – por mais absurdos que fossem alguns, como o canibalismo e os sacrifícios humanos.

O que essas mesmas pessoas – às vezes, dentro da própria Igreja – não entendem é que o impulso missionário não é nem uma invenção caprichosa nem um abuso da liberdade alheia. Como preleciona Daniel-Rops:

“O mesmo impulso que leva a Igreja a operar em Trento a indispensável reforma dos costumes e das instituições, o mesmo impulso que lança para as alturas da experiência espiritual um São Filipe Neri, um Santo Inácio de Loyola, uma Santa Teresa de Ávila, lança os corajosos pelos caminhos do mundo, para transmitir à humanidade inteira a mensagem de salvação. A Igreja inteira será impelida a enveredar por essa trilha, com o Papado à frente. A história missionária é inseparável da Reforma católica, da reorganização eclesiástica, da expansão mística: é a sua consequência lógica – num certo sentido até, a sua consagração" [5].

A missão é uma atividade que brota da própria essência da fé. Não à toa Santa Teresinha do Menino Jesus, que passou toda a sua vida reclusa, dizia estar “também pronta para voar para um outro campo de batalha, se o divino General me manifestar o desejo" [6]. Encaixa-se com justeza, nesse ponto, a figura do “sal da terra" e da “luz do mundo" [7]: os cristãos não devem esconder a sua fé – como alguém que “acende uma luz para colocá-la debaixo do alqueire" –, mas fazê-la brilhar diante dos homens.

Ao mesmo tempo, quem aderiu uma vez a Cristo tem consciência de que não é possível segui-lo senão voluntariamente. Por isso, Santo Tomás explicava que os pagãos “de nenhuma maneira devem ser forçados a crer, já que crer é ato da vontade" [8]. As missões, então, não eram “legiões da intolerância", destinadas a “obrigar" os povos nativos à conversão, como muitas vezes se pinta. Eram, ao contrário, na expressão de Daniel-Rops, verdadeiras “testemunhas de Deus": chegaram à América para testemunhar aos índios o mistério da salvação, do qual ninguém deve ser excluído, sob nenhum pretexto.

Ao questionar-se, em solo brasileiro, o que significou a aceitação da fé cristã para os povos da América Latina, o Papa Bento XVI lançou uma resposta ousada, mas contundente:

“Para eles, significou conhecer e acolher Cristo, o Deus desconhecido que os seus antepassados, sem o saber, buscavam nas suas ricas tradições religiosas. Cristo era o Salvador que esperavam silenciosamente. Significou também ter recebido, com as águas do batismo, a vida divina que fez deles filhos de Deus por adoção; ter recebido, outrossim, o Espírito Santo que veio fecundar as suas culturas, purificando-as e desenvolvendo os numerosos germes e sementes que o Verbo encarnado tinha lançado nelas, orientando-as assim pelos caminhos do Evangelho. Com efeito, o anúncio de Jesus e do seu Evangelho não supôs, em qualquer momento, uma alienação das culturas pré-colombianas, nem foi uma imposição de uma cultura alheia. As culturas autênticas não estão encerradas em si mesmas, nem petrificadas num determinado ponto da história, mas estão abertas, mais ainda, buscam o encontro com outras culturas, esperam alcançar a universalidade no encontro e o diálogo com outras formas de vida e com os elementos que possam levar a uma nova síntese, em que se respeite sempre a diversidade das expressões e da sua realização cultural concreta" [9].

Quando a imprensa veiculou essas palavras, com o tom tendencioso que lhes é peculiar, muitas pessoas ficaram enfurecidas, escandalizadas com o fato de o Papa ter defendido as missões cristãs no Novo Mundo! Mas, não é isto o que prega a doutrina de Cristo, desde os seus primórdios: que “não há homem algum, não houve, nem haverá pelo qual ele não tenha sofrido" [10]? Não foi o próprio Jesus quem declarou ser “o caminho, a verdade e a vida", não podendo ninguém ir ao Pai senão por Ele [11]?

Na verdade, a reação descoordenada dos secularistas diante da Cruz provém menos de uma sadia tolerância para com as pessoas do que de um relativismo, que intenta colocar em pé de igualdade quaisquer religiões e culturas que lhes apareçam à frente, custe o que custar.

Ao contrário, “as culturas autênticas", ensina o Papa, “não estão encerradas em si mesmas". Ao mesmo tempo em que diz, nas entrelinhas, que existem culturas falsas – nomeadamente, as que degradam a própria natureza humana –, Bento XVI lembra que nenhuma cultura é tão rica que não possa aprender ou receber elementos de outras. Por meio dessa convicção, muitos missionários cristãos adaptaram o seu modo de evangelizar às culturas em que entraram. “Como notaram o gosto dos indígenas pela música, os jesuítas davam um grande lugar aos concertos e aos cânticos nas suas missões evangélicas" [12], exemplifica Daniel-Rops, traçando um quadro das famosas reduções jesuíticas.

A história é testemunha: ao se aventurar em um mundo novo, os europeus não estavam simplesmente em busca de riquezas, mas também à busca de almas. O lema que São João Bosco consagraria no século XIX: “Da mihi animas, cetera tolle - Dai-me almas, ficai com o resto" pode, com razão, homenagear a vida dos missionários que, enfrentando o mar bravio e agitado, os tenebrosos monstros marinhos que se acreditava habitarem o oceano e a incerteza de chegar a um destino, cruzaram o Atlântico para levar aos povos latino-americanos a luz de Cristo.

Passados quinhentos anos de tão grande empreendimento e olhando para figuras tão marcantes como José de Anchieta, Manuel da Nóbrega e António Vieira, não é possível que as almas verdadeiramente cristãs hesitem em dizer-lhes, com gratidão, um “muito obrigado".

Referências

  1. Vale lembrar, no entanto, que uma das razões preponderantes para uma mudança tão drástica de números foi as “novas doenças" trazidas pelos europeus, para os quais uma época como o século XVI poucos remédios eficazes poderia oferecer.
  2. Henri Daniel-Rops. A Igreja da Renascença e da Reforma (II). Trad. de Emérico da Gama. São Paulo: Quadrante, 1999. p. 275.
  3. Ibidem, p. 275.
  4. Ibidem, p. 276. O Papa Alexandre VI era famoso por manter uma vida pessoal pouco virtuosa, chegando a ter filhos antes e depois de sua eleição ao trono de Pedro.
  5. Ibidem, p. 267.
  6. Manuscrito C, 9r.
  7. Mt 5, 13-16.
  8. Suma Teológica, II-II, q. 10, a. 8.
  9. Discurso na abertura da V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe (13 de maio de 2007).
  10. Sínodo de Quiercy (853), cap. 4: DH 624.
  11. Jo 14, 6.
  12. Henri Daniel-Rops. A Igreja da Renascença e da Reforma (II). Trad. de Emérico da Gama. São Paulo: Quadrante, 1999. p. 299.

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São José e o amor da vida escondida
Santos & Mártires

São José e o amor da vida escondida

São José e o amor da vida escondida

O quanto fala alto o silêncio da vida de São José, escondida aos olhos dos homens, mas resplandecente diante de Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Março de 2014Tempo de leitura: 3 minutos
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Pouco diz a Sagrada Escritura sobre a vida do pai nutrício de Jesus, São José, cuja solenidade é celebrada hoje pela Igreja universal. Ela limita-se a citar a sua genealogia [1], o fato de que era "justo" [2], o sonho no qual recebeu a visita de um anjo [3], a sua profissão [4] e a paternidade que ele verdadeiramente exerceu junto de Jesus [5]. Nada mais. E, se isso pode levar algumas pessoas a desprezar o valor e a virtude desse grande santo, é porque não consideraram o quanto fala alto o silêncio de uma vida oculta aos olhos dos homens, mas resplandecente diante de Deus.

É importante considerar, em primeiro lugar, a grandeza dos bens que Deus colocou nas mãos de São José, para apreciar com justeza o valor de seu escondimento. A providência quis que esse homem fosse depositário fiel da virgindade perpétua de Maria Santíssima, sua esposa; do menino Jesus, o próprio Deus feito homem; e – não fossem os dois o bastante – do segredo da encarnação do Verbo. Uma vida toda passada ao lado de Jesus e Maria e tão poucas palavras ditas a seu respeito, nenhuma palavra saída de sua boca... Como isso é possível?

O beato João Paulo II tem uma frase que se adequa de modo preciso ao silêncio de José: "O bem não faz ruído, a força do amor expressa-se na discrição tranquila do serviço quotidiano" [6]. Na mesma lógica, o grande orador francês, padre Jacques Bossuet, diz "que se pode ser grande sem esplendor, bem-aventurado sem ruído; que se pode ter a verdadeira glória sem o socorro da fama, com o único testemunho de sua consciência" [7]. De fato, escreve o Apóstolo: " Gloria nostra haec est, testimonium conscientiae nostrae – A razão da nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência..." [8].

A virtude que teve São José, desprezando as glórias humanas e escolhendo como única testemunha a palavra de Deus talhada em sua consciência, deve animar-nos a fazer o mesmo: ter em pouco caso o parecer das pessoas, para receber unicamente de Deus, "que vê o escondido" [9], a recompensa. " Que os homens jamais falem de nós, contanto que Jesus Cristo fale um dia" [10].

Olhando ainda para o silêncio de São José, alguém poderia perguntar se não seria errado manter obscuro um tesouro tão precioso como Jesus, sem nada dizer sobre ele. Bossuet faz notar, com razão, uma aparente oposição entre a missão confiada aos Apóstolos e a missão confiada a José: Jesus "é revelado aos apóstolos para ser anunciado em todo o universo; é revelado a José para calar e ocultá-lo" [11]. Novamente, como isso é possível? O mesmo padre Bossuet explica essa diferença:

"Será Deus contrário a si próprio nessas vocações opostas? Não, fiéis; não credes: toda essa disparidade tem por fim ensinar aos filhos de Deus esta verdade importante, que toda a perfeição cristã está na obediência. Aquele que glorifica os apóstolos pela honra da pregação, glorifica também São José pela humildade do silêncio. Aprendemos por aí que a glória dos cristãos brilhantes não está nos empregos, e sim em fazer a vontade de Deus. Se todos não podem ter a honra de pregar Jesus Cristo, todos podem ter a honra de obedecer-lhe, e esta é a glória de São José e a grande honra do cristianismo." [12]

"Se todos não podem ter a honra de pregar Jesus Cristo, todos podem ter a honra de obedecer-lhe". Se nem todos podem ter a honra de atravessar terras e mares para anunciar o Evangelho aos quatro cantos do mundo, se nem todos receberão de Deus a coroa do martírio, todas as pessoas, sem exceção, podem obedecer a Deus e amá-Lo sobre todas as coisas: "ainda que, na Igreja, nem todos sigam pelo mesmo caminho, todos são, contudo, chamados à santidade" [13].

A santidade no escondimento é possível: eis a grande lição de São José. Como ensinou Paulo VI, ele "é a prova de que para ser bons e autênticos seguidores de Cristo não se necessitam 'grandes coisas', mas requerem-se somente virtudes comuns, humanas, simples e autênticas". [14]

Glorioso São José, rogai por nós!

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Amor: matar ou morrer?
Espiritualidade

Amor: matar ou morrer?

Amor: matar ou morrer?

A identidade do amor autêntico está estampada na Cruz: quando se ama, não se mata, mas, verdadeiramente, se morre

Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Março de 2014Tempo de leitura: 3 minutos
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O amor entre o homem e a mulher, firmado desde o princípio como união indissolúvel[1] e antes de ser elevado por Cristo à dignidade de sacramento, foi, de algum modo, perturbado pelo pecado original. As consequências da desobediência do homem afetaram profundamente a comunhão conjugal. "Multiplicarei os sofrimentos de teu parto; darás à luz com dores, teus desejos te impelirão para o teu marido e tu estarás sob o seu domínio"[2], diz Deus à primeira mulher. Assim, "sua atração mútua, dom do próprio Criador, transforma-se em relações de dominação e cobiça"[3] e aquele projeto primeiro do Criador, ainda subsistente, encontrou um inimigo na própria carne, deformada pelo mal.

A simples observação da realidade faz notar que as desordens entre homem e mulher "parecem ter um caráter universal"[4]. A literatura bíblica oferece o exemplo de Susana, que, coagida por dois anciãos, foi vítima de falso testemunho e quase morreu injustamente. O escritor sagrado diz que "os dois anciãos, que a observavam (...), puseram-se a desejá-la", "perverteram assim a sua mente e desviaram seus próprios olhos, de modo a não olharem para o Céu e não se lembrarem dos seus justos julgamentos"[5].

Na peça "Titus Andronicus", de William Shakespeare, os corações de outros dois homens – Demetrius e Chiron – também são corrompidos pelo desejo de dominação. Ao revelar o seu plano de possuir Lavínia, Demetrius diz os seguintes versos: " She is a woman, therefore may be woo'd; / She is a woman, therefore may be won; / She is Lavinia, therefore must be loved. – Ela é mulher, deve ser cortejada; / Ela é mulher, deve ser conquistada; / Ela é Lavínia, e deve ser amada"[6]. A verdade de que a mulher deve ser "cortejada, conquistada, amada" serve, aqui, de pretexto para a defesa de um amor egoísta e cruel, como se vê ao longo da tragédia. Após estuprar Lavínia, os dois godos cortam-lhe a língua e as mãos, mostrando que "a aparente exaltação do corpo pode bem depressa converter-se em ódio à corporeidade", como indica o Papa Bento XVI:

"O eros degradado a puro 'sexo' torna-se mercadoria, torna-se simplesmente uma 'coisa' que se pode comprar e vender; antes, o próprio homem torna-se mercadoria. Na realidade, para o homem, isto não constitui propriamente uma grande afirmação do seu corpo. Pelo contrário, agora considera o corpo e a sexualidade como a parte meramente material de si mesmo a usar e explorar com proveito. Uma parte, aliás, que ele não vê como um âmbito da sua liberdade, mas antes como algo que, a seu modo, procura tornar simultaneamente agradável e inócuo. Na verdade, encontramo-nos diante duma degradação do corpo humano, que deixa de estar integrado no conjunto da liberdade da nossa existência, deixa de ser expressão viva da totalidade do nosso ser, acabando como que relegado para o campo puramente biológico."[7]

Ao contrário do que sucedeu a Lavínia – e quase aconteceu a Susana –, a mulher não deve ser subjugada, mas verdadeiramente amada, em sua integridade e liberdade. O esposo do Cântico dos Cânticos, por exemplo, refere-se à sua esposa como a um "jardim fechado", uma "fonte lacrada"[8]. O bem-aventurado João Paulo II, ao comentar esse trecho das Escrituras, escreve que essas metáforas indicam que o homem está disposto a receber sua mulher como "dona de seu próprio mistério"[9]. "Se o amante quer entrar nesse 'jardim' e participar do mistério da mulher, não pode invadi-lo à força ou tentar arrombar a porta"[10], como fizeram os dois anciãos do livro de Daniel[11], mas, esperar o "sim", imagem do consentimento matrimonial, dado livremente pela mulher: "Eu sou do meu amado"[12].

O amor que Deus tem pelo homem, respeitando a sua liberdade, esperando com paciência o seu "sim", é a imagem da comunhão que deve existir entre o homem e a mulher. A partir da redenção de Cristo, este amor chega ao grande sacrifício da Cruz, no qual está estampada a identidade do autêntico "amor livre": quando se ama, não se mata, mas, verdadeiramente, se morre.

Os relatos trágicos de "amores" humanos advindos de uma liberdade mutilada demonstram até onde o homem pode chegar, fechando-se em si mesmo; ao contrário, o retrato de até onde ele pode chegar, com Deus, não se encontra frequentemente na literatura comum, senão na vida dos santos. É no exemplo de suas vidas que se manifesta o excelso modelo do matrimônio: o amor esponsal de Cristo por Sua Igreja.

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O castelo de nossas almas
Espiritualidade

O castelo de nossas almas

O castelo de nossas almas

Se não tivermos e não procurarmos a paz em nossa própria casa, não a encontraremos em casas alheias.

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Março de 2014Tempo de leitura: 3 minutos
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A analogia de Santa Teresa de Ávila, em suas "Moradas", comparando a alma a um grande castelo, é uma dessas intuições geniais que se podem dizer, sem medo, inspiradas por Deus.

Quem nunca ficou admirado, ao tomar contato com imagens do passado, com os belíssimos castelos medievais, a majestosa arquitetura antiga, ou nunca se imaginou morando em um desses lugares fantásticos, cheios de longas escadarias e obras de arte portentosas? Pois bem, não é grande tolice que nos detenhamos a contemplar essas belas obras humanas ou que nos fixemos demasiadamente naquilo que é material e ignoremos o tão elevado castelo que é a nossa própria alma? Como indica a própria Teresa, "sabemos muito por alto que nossa alma existe, porque assim ouvimos dizer e a fé nos ensina", mas raramente consideramos "as riquezas que há nesta alma, seu grande valor, quem nela habita"[1].

Em sua obra, Teresa convida suas irmãs carmelitas a adentrarem nos castelos de suas almas. Diferentemente dos castelos comuns, para os quais uma breve visita significaria ter de juntar altas somas de dinheiro, percorrer longas distâncias ou, talvez, até atravessar oceanos, para adentrar no castelo de nossas almas, podendo aí permanecer por muito tempo, basta colocar-se à porta: "Pelo que entendo, a porta para entrar neste castelo é a oração"[2]. Porém, ainda que seja simples entrar neste castelo, são poucos os que verdadeiramente abrem a sua porta e entram em si mesmos, por assim dizer.

Mas, por que entrar nesse castelo? Para quê, afinal? Primeiramente, para ganhar a salvação, pois "é desatino pensar que havemos de entrar no céu sem primeiro entrar em nós mesmos"[3]. Não à toa Santo Afonso de Ligório dizia que "quem reza, se salva; quem não reza, se condena": o primeiro santuário no qual todo homem deve entrar é o de si mesmo; aí, além de sua miséria e de sua condição de criatura, ele encontrará o seu Criador, como aconteceu a Santo Agostinho: "Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora!"[4].

Depois, sem recolhermo-nos em nós mesmos, é impossível que nos santifiquemos. Infelizmente, tomados por uma mentalidade mesquinha, temos oferecido a Deus o nosso "mínimo", muitas vezes "nos arrastando à força e cumprindo nossas obrigações somente para evitar pecados"[5]. Ao contrário, se quisermos de fato amar a Deus sobre todas as coisas e corresponder à "vocação universal à santidade"[6], devemos ser generosos, determinando-nos a conformar nossa vontade com a do Senhor e agradá-Lo em tudo.

Por fim, não pode haver verdadeira paz senão no interior: "Haverá maior mal do que não podermos estar em nossa própria casa? Se em nosso próprio lar não achamos sossego, que esperança teremos de encontrá-lo em casas alheias?"[7], pergunta Santa Teresa. Uma filha sua que experimentou a fundo essa verdade foi Santa Teresinha do Menino Jesus. Descrevendo a viagem que fez pela Europa, um ano antes de sua tomada de hábito, ela escreve:

"Durante toda a viagem, hospedamo-nos em hotéis principescos; jamais estive cercada de tanto luxo. É mesmo o caso de dizer que a riqueza não traz a felicidade, pois teria-me sentido mais feliz sob o teto de uma choupana e com a esperança do Carmelo, do que entre lambris dourados, escadas de mármore branco, tapetes de seda e com a amargura no coração... Ah! Eu bem o sentia: a alegria não se acha nos objetos que nos cercam; encontram-se no mais íntimo da alma, pode-se possuí-la do mesmo modo numa prisão ou num palácio. A prova é que sou mais feliz no Carmelo, mesmo no meio de provações interiores e exteriores, do que no mundo, cercada das comodidades da vida e, sobretudo, das ternuras do lar paterno!..."[8]

Como a Teresa do século XVI, a Teresa do século XIX tinha aprendido a grande lição: "Se não tivermos e não procurarmos a paz em nossa casa, não a encontraremos nas alheias"[9].

Referências

  1. Santa Teresa de Jesus. Castelo Interior ou Moradas, Primeiras Moradas, capítulo 1, n. 2. In: São Paulo: Paulus, 2014.
  2. Idem, Primeiras Moradas, capítulo 1, n. 7
  3. Idem, Segundas Moradas, n. 11
  4. Santo Agostinho. Confissões, Livro X, n. 38. In:20ª. ed. São Paulo: Paulus, 2008
  5. Castelo Interior, Quintas Moradas, capítulo 3, n. 6
  6. Cf. Concílio Vaticano II, Constituição dogmática Lumen Gentium, 21 de novembro de 1964, n. 32
  7. Castelo Interior, Segundas Moradas, n. 9
  8. Santa Teresa do Menino Jesus. História de uma alma: Manuscrito A, 65r. In: Obras completas escritos e últimos colóquios. São Paulo: Paulus, 2002
  9. Castelo Interior, Segundas Moradas, n. 9

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