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Pai-Nosso, a mais perfeita das orações
Espiritualidade

Pai-Nosso, a mais perfeita das orações

Pai-Nosso, a mais perfeita das orações

Ainda que percorramos todas as Escrituras, não encontraremos, nem mesmo entre os Salmos, uma oração mais bela e perfeita do que o Pai-Nosso. Na Oração do Senhor está contida toda a ciência da vida espiritual.

Santo Tomás de AquinoTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Agosto de 2017
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Durante seu último período de ensino em Nápoles, entre os anos de 1272 e 1273, Santo Tomás de Aquino dividiu-se entre a cátedra e o púlpito. É a essa época que pertence uma série de homilias quaresmais pregadas pelo Angélico em dialeto napolitano e posteriormente transcritas em latim por algum confrade seu. Entre as que sobreviveram ao tempo, encontra-se uma densa, mas sucinta exposição sobre o Pai-Nosso (Collationes in Orationem Dominicam), cujo prólogo apresentamos abaixo em nova tradução ao português. Trata-se de um "escrito" que, com a liberdade típica de um sermão proferido ante um público de leigos e religiosos, preserva os traços característicos de um gênio teológico como o de Santo Tomás. Análise minuciosa, clareza expositiva e, sobretudo, o respaldo constante das Escrituras são algumas das notas que dão a essa obra uma fisionomia genuinamente tomista; só no pequeno trecho introdutório com que hoje damos início à sua publicação contam-se mais de vinte referências bíblicas — citadas pelo Aquinate, provavelmente, todas de memória.

Depois de explicar a excelência da Oração do Senhor e as palavras invocatórias "Pai nosso que estais nos céus", Tomás expõe cada um dos sete pedidos que a compõem, concluindo com uma brevíssima síntese de todo o Pai-Nosso, semelhante em certos pontos à que se lê em S. Th. II-II, q. 83, a. 9. Resumo de todo o Evangelho e centro a que converge a riqueza dos Salmos, a Oração dominical ocupa o principal lugar entre as demais orações; por ela não só aprendemos o que podemos desejar (cf. De decem præceptis, pr.), mas ainda o modo com que o devemos pedir, e nisto consiste o fundamento e ponto de arranque de toda a vida espiritual. Esmiuçando a prece que, por ter em grau sumo as qualidades que uma boa oração deve possuir, é com justiça as mais perfeita de todas, estas Collationes são de grande proveito para a nossa meditação diária. E se bem que não tenham sido vistas e revistas pelo autor, constituem, em todo o caso, uma joia da literatura cristã medieval que ainda merece ser lida, apreciada e, acima de tudo, meditada nos dias de hoje, em que rezar nunca foi tão necessário. Foram esses os motivos que levaram a equipe Christo Nihil Præponere a dá-las a conhecer a quantos estiverem interessados não só em aprender com o Aquinate, mas também a orar com ele e com a ajuda dele.

O texto-base de que nos servimos para realizar essa tradução é o estabelecido na conhecida edição de Turim (cf. S. Thomæ Aquinatis, "In Orationem Dominicam, videlicet 'Pater noster' expositio", in: R. M. Spiazzi (org.), Opuscula Theologica, vol. 2. 2.ª ed., Taurini-Romæ: Marietti, 1954, pp. 219-235), também disponível aqui, em formato eletrônico. No que respeita aos critérios adotados, convém observar que, embora procure manter-se fiel ao fraseado original, a versão portuguesa aqui disponibilizada não tem a pretensão de ser "acadêmica", mas uma pequena tentativa de divulgar a obra de Santo Tomás de Aquino sem trair-lhe o pensamento. Esta tradução, mais do que decalcar ad litteram, procura dizer em português aquilo e só aquilo que o original diz sinteticamente em latim. Por isso, as inelegâncias de estilo e a repetição frequente de certas fórmulas correspondem, na medida do possível, ao sabor e à sobriedade do original, carente de sutilezas escolásticas, palavras técnicas e voos oratórios [1]. As palavras entre divisas (< >) são explicitações ou inserções de nossa parte que visam ora esclarecer o texto, ora torná-lo mais fluido. A tradução das citações bíblicas foi extraída, na maioria dos casos, das versões "Ave-Maria" (195.ª ed., São Paulo: Ave-Maria, 2011) e do Pe. Matos Soares (6.ª ed., Porto: Tip. Sociedade de Papelaria, 1956). Além destas, foram utilizadas também, de quando em quando, as traduções da CNBB e da Bíblia de Jerusalém.

Exposição sobre a Oração do Senhor [2]

Santo Tomás de Aquino

PRÓLOGO [3]

I. A excelência do Pai-Nosso

1․ As cinco qualidades da oração․ — A Oração do Senhor ocupa, entre as demais orações, o principal lugar, já que possui as cinco qualidades de que <toda> oração se deve revestir. Com efeito, a oração deve ser confiante, reta, ordenada, devota e humilde.

a) Deve ser confiante, para que nos "aproximemos confiadamente do trono da graça" (Hb 4, 16), como está escrito na Epístola aos Hebreus, e também firme na fé, como diz São Tiago: "Peça com fé, sem nada hesitar" (Tg 1, 6). A Oração do Senhor é com razão a mais confiável, porque (i) foi instituída pelo nosso advogado, o mais sábio dos pedintes, "no qual estão escondidos todos os tesouros de sabedoria" (Cl 2, 3) e de quem diz São João: "Temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo" (1Jo 2, 1). Por isso, diz Cipriano: "Uma vez que temos a Cristo como advogado junto ao Pai por nossos pecados, ao pedirmos perdão de nossos delitos apresentemo-nos com as palavras do nosso defensor" [4]. Ela parece ser, além disso, ainda mais confiável (ii) pelo fato de nos ter ensinado a rezar aquele que com o Pai presta ouvidos à nossa oração, de acordo com o Salmo: "Quando me invocar, eu o atenderei" (Sl 90, 15). Por isso, diz Cipriano: "Rogar ao Senhor com suas próprias palavras é dirigir-lhe uma oração amiga, familiar e piedosa" [5]. Daí que nunca se saia desta oração sem fruto. De fato, como diz Agostinho, por ela são perdoadas as faltas veniais [6].

b) A nossa oração deve também ser reta, de maneira que o orante peça a Deus o que lhe convém, pois, segundo Damasceno, "a oração é um pedido a Deus dos bens adequados" [7]. Com efeito, a oração deixa muitas vezes de ser atendida porque se pedem coisas inapropriadas: "Pedis e não recebeis, porque pedis mal" (Tg 4, 3) [8]. De fato, é dificílimo saber o que se deve pedir, já que tampouco é fácil saber o que se deve desejar. Igualmente, é permitido aspirar ao que na oração é lícito pedir. Por isso, o Apóstolo reconhece: "Não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém" (Rm 8, 26). Ora, é a Cristo, nosso Mestre, que toca ensinar o que temos de pedir, e por isso lhe rogaram os discípulos: "Senhor, ensina-nos a orar" (Lc 11, 1). Por conseguinte, o que Ele nos ensina a pedir na oração é o que mais retamente podemos desejar: "Quaisquer que sejam as nossas palavras", diz Agostinho <a esse propósito>, "nada diremos que já não esteja contido nessa oração, contanto que rezemos de modo justo e adequado" [9].

c) Em terceiro lugar, a oração tem de ser ordenada como o desejo do qual é expressão. Pois bem, a ordem devida é que em nossos desejos e orações prefiramos os bens do espírito aos da carne e as coisas celestes às terrenas, conforme o que se lê no Evangelho segundo Mateus: "Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo" (Mt 6, 33). É isso o que o Senhor nos ensinou a observar nessa oração, em que primeiro se pedem os bens celestiais e só depois os terrenos.

d) Deve também ser devota, pois a devoção em abundância torna aceitável a Deus o sacrifício da oração, de acordo com o Salmo: "Invocando o vosso nome, levantarei as minhas mãos. Como de banha e de gordura será saciada a minha alma" (Sl 62, 5s). Ora, acontece muitas vezes de a devoção enfraquecer-se por causa do excesso de palavras. Por esse motivo, o Senhor ensinou a fugir à excessiva prolixidade da oração, ao dizer: "Nas vossas orações, não multipliqueis as palavras" (Mt 6, 7). E Agostinho escreve a Proba: "Que a oração não tenha excesso de palavras, mas de súplicas, se continua fervorosa a atenção" [10]. Por isso, o Senhor instituiu essa breve oração. Mas a devoção, por sua vez, nasce da caridade, que é amor a Deus e ao próximo, ambos os quais estão presentes nessa oração. Com efeito, para manifestarmos nosso amor a Deus, chamamos-lhe Pai; e para manifestarmos nosso amor ao próximo, oramos por todos em comum dizendo: "Pai nosso" e "Perdoai-nos as nossas ofensas". A isso nos move, pois, o amor aos semelhantes.

e) A oração precisa, enfim, ser humilde, conforme o que diz o Salmo: "Ele se voltou para a súplica dos indigentes" (Sl 101, 18), a parábola do fariseu e do publicano (cf. Lc 18, 9-15) e o que se lê no Livro de Judite: "Sempre vos foram aceitas as preces dos mansos e humildes" (Jt 9, 16). Ora, na Oração do Senhor se guarda a verdadeira humildade, que consiste em nada presumir das próprias forças, mas tudo esperar da virtude divina.

2․ Os três efeitos da oração․ — Deve-se notar, além disso, que a oração produz três bons efeitos.

a) Em primeiro lugar, ela é um remédio eficaz e útil contra os males. A oração livra-nos, pois, (i) dos pecados cometidos, como canta o salmista: "E vós perdoastes a pena do meu pecado. Assim também todo fiel recorrerá a vós" (Sl 31, 5s). Desse modo orou o ladrão pregado à cruz, obtendo o perdão: "Hoje estarás comigo no paraíso" (Lc 23, 42) e o publicano, voltando para casa justificado (cf. Lc 18, 9-14). Livra-nos também (ii) do medo dos pecados futuros, das tribulações e das tristezas: "Alguém entre vós está triste? Reze!" (Tg 5, 13). Livra-nos, enfim, (iii) das perseguições e dos inimigos: "Em resposta ao meu afeto, acusaram-me. Eu, porém, orava" (Sl 108, 4).

b) A oração, em segundo lugar, é um meio eficaz e útil de obter tudo o que se deseja: "Tudo o que pedirdes na oração, crede que o tendes recebido" (Mc 11, 24). Mas se porventura não somos ouvidos, isto se deve a que ou não pedimos com insistência, pois "é necessário orar sempre sem jamais deixar de fazê-lo" (Lc 18, 1), ou não pedimos o que mais convém à nossa salvação: "O bom Senhor", diz Agostinho, "negando-nos muitas vezes o que queremos, dá-nos o que deveríamos querer" [11]. Assim sucedeu a Paulo, que três vezes rogou a Deus que lhe apartasse um espinho na carne e não foi atendido (cf. 2Cor 12, 7s).

c) Em terceiro lugar, é útil, porque nos torna amigos íntimos de Deus: "Que minha oração suba até vós como a fumaça do incenso" (Sl 140, 2).

Referências

  1. Cf. J.-P. Torrell, Iniciação a Santo Tomás de Aquino. Trad. port. de Luiz P. Rouanet. 3.ª ed., São Paulo: Loyola, 2011, p. 86.
  2. Ao presente opúsculo se atribuem outros títulos em diferentes edições: Expositio devotissima Orationis Dominicæ, Collationes de Pater noster, Expositio de Pater noster. P. Mandonnet (1858-1936), importante historiador da filosofia medieval, data-o do tempo da Quaresma de 1273 (cf. Bibliographie Thomiste, Le Saulchoir, Kain, 1921, p. XVII, n. 72. A sua autenticidade não é posta em dúvida por nenhum estudioso (cf. P. Mandonnet, Des écrits authentiques de Saint Thomas d'Aquin. 2.ª ed., Freibourg, 1910, p. 107, n. 72; A. Michelitsch, Thomas Schriften, vol. 1, Graz, 1913, p. 186, n. 78; M. Grabmann, Die echten Shriften des hl. Thomas von Aquin, 3.ª ed., Münster i. W. 1949, p. 318). Pertence aos Reportata, isto é, ao conjunto de obras que, não tendo sido escritas de próprio punho por Santo Tomás, foram passadas ao papel seja por ditado, seja pela transcrição (reportatio) de alguma homilia; a desta nos foi legada, provavelmente, por Reginaldo de Piperno (c. 1230 – c. 1290), amigo e secretário do Aquinate. Trata-se de escritos nem sempre revistos e corrigidos pelo autor, mas recebidos, em todo o caso, de sua própria boca.
  3. Cf. Tomás de Aquino, S. Th. II-II, q. 83, a. 9; III Sent.,d. 34, q. 1, a. 6; Compend. Theol. II, cc. 4ss; In Matth., c. 6.
  4. Cipriano de Cartago, De or. dom. 3 (PL 4, 521B).
  5. Id., ibid.
  6. Cf. Agostinho de Hipona, Ench. 78․21 (PL 40, 270). É doutrina comum que os pecados veniais podem ser perdoados, mesmo sem contrição perfeita, fora do sacramento da Penitência, desde que o fiel se encontre em estado de graça (cf. E. Genicot; I. Salsmans, Institutiones Theologiæ Moralis. 17.ª ed., Bruxelas: Universelle, 1951, p. 153, n. 238). É o que se deduz das seguintes palavras do Concílio de Trento: "Os <pecados> veniais, pelos quais não somos excluídos da graça de Deus e nos quais caímos com frequência, posto que com retidão e utilidade, e sem qualquer presunção, se digam na confissão [...], todavia podem ser calados sem culpa e expiados por muitos outros meios" (14.ª sessão, de 25 nov. 1551, c. 5; DH 1680).
  7. João Damasceno, De fide orth. 3․24 (PG 94, 1090). Por "bens adequados" ou "convenientes" (decentia) se entende o que é necessário à salvação. Isto não significa, porém, que o cristão não possa pedir bens temporais a Deus; pode pedi-los, mas não principalmente (principaliter), como se fossem o fim da oração, mas de modo secundário, subordinado-os ao bem da alma. De fato, os bens deste mundo, como o alimento, o vestuário etc., devem ser pedidos na condição de instrumentos (adminicula), isto é, na medida em que nos auxiliam a chegar à bem-aventurança eterna, a conservar a vida corporal, a dispor-nos com mais facilidade ao exercício das virtudes e a servir melhor a Deus (cf. S. Th. II-II, q. 83, a. 6, co.).
  8. Muitos autores ensinam, baseados no claro testemunho das Escrituras (cf., por exemplo, Mt 7, 7s; 21, 22; Jo 14, 13s; 15, 7․16; 16, 23s; 1Jo 5, 14s), que a oração possui uma eficácia infalível, desde que cumpra quatro condições imprescindíveis: (1) pedir para si mesmo (2) coisas necessárias à salvação, como graças atuais eficazes, (3) de modo piedoso — o que abrange a humildade, a firme confiança, a atenção e a petição em nome de Cristo (cf. Jo 14, 13s; 15, 16; 16, 23s) — e (4) com perseverança. Se observados estes pré-requisitos, a oração "obtém infalivelmente o que pede em virtude das promessas de Deus" (A. Royo Marín, Teología de la Perfección Cristiana. Madrid: BAC, 2012, p. 425, n. 287). Cf. S. Th. II-II, q. 83, a. 7, ad 2; a. 15, ad 2; a. 16, co.
  9. Agostinho de Hipona, Ep. 130, 12․22 (PL 33, 502); para uma explicação detalhada de todo o Pai-Nosso, v. também, do mesmo autor, Serm. Dom. 2․4-11․15-39 (PL 34, 1275-1287). Santo Tomás repete esta mesma tese em S. Th. II-II, q. 83, a. 9, co.: "Visto que a oração, com efeito, é como um intérprete do nosso desejo diante de Deus, só podemos pedir retamente o que retamente nos é permitido querer. Pois bem, na Oração dominical não apenas se pedem todas as coisas que retamente podemos desejar, mas ainda na ordem em que elas devem ser desejadas. De modo que esta oração não só nos ensina a pedir, mas também retifica todos os nossos afetos".
  10. Id., Ep. 130, 10․20 (PL 33, 502). De acordo com Santo Tomás, a atenção é absolutamente necessária à oração, sobretudo à vocal, de modo que distrair-se deliberadamente (ex proposito) ao rezar não só é pecado como também impede o fruto da oração, o que não se dá com a distração involuntária (cf. S. Th. II-II, q. 83, a. 13, co. e ad 3). O Angélico distingue ainda, na resposta a esta mesma questão, três tipos de atenção que se podem dar à oração vocal, em graus crescentes de perfeição: a) atenção ad verba, ordenada à correta enunciação das palavras; b) atenção ad sensum, com a qual nos atemos ao sentido delas; e c) atenção ad finem, "que atende ao fim da oração, ou seja, a Deus e à coisa que se pede" (A. Royo Marín, op. cit., p. 654, n. 494). No que respeita à duração, Santo Tomás afirma que a oração deve, por um lado, ser a) contínua, na medida em que procede da virtude da caridade — cujo influxo atual ou habitual perpassa todos os atos de quem está na graça de Deus e os transforma, assim, em "oração" incessante (cf. 1Ts 5, 17) — e, por outro, b) transitória e proporcionada ao seu fim, ou seja: convém que a oração dure o necessário para excitar o fervor interior (cf. S. Th. II-II, q. 83, a. 14, co.; A. Royo Marín, op. cit., p. 655, n. 495).
  11. Id., Ep. 31, 1 (PL 33, 121).

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O Natal não é a festa de aniversário de Jesus
Liturgia

O Natal não é a festa
de aniversário de Jesus

O Natal não é a festa de aniversário de Jesus

Alguns pensam que celebrar o Natal é comemorar o aniversário de Jesus, e chegam até a cantar “parabéns pra você”. Mas esse nunca foi o sentir da Igreja a respeito deste tempo litúrgico.
Dom Henrique Soares da Costa14 de Dezembro de 2017
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Alguns pensam que celebrar o Natal é comemorar o aniversário de Jesus; alguns chegam até a cantar “parabéns pra você”! Coisa totalmente fora de propósito, contrária ao sentimento da Igreja e fora do sentido da celebração dos cristãos. Então, se não celebramos o aniversário de Jesus, o que fazemos no Natal?

Antes de tudo é necessário entender o que é a Liturgia, a Celebração da Igreja.

Vejamos. O nosso Deus, quando quis nos salvar, agiu na nossa história. Primeiramente agiu na história de toda a humanidade, guiando de modo secreto e sábio todos os seres humanos e sua história. Basta que pensemos nos santos pagãos do Antigo Testamento — santos que não pertenceram ao povo de Israel: Sto. Abel, Sto. Henoc, São Matusalém, São Noé, São Melquisedec, São Jó, São Balaão… Nenhum destes pertencia ao povo de Deus… e no entanto, Deus agia através deles… Depois, Deus agiu de modo forte, aberto, intenso na história do povo de Israel, com as palavras de fogo dos profetas, com a mão estendida e o braço potente nas obras maravilhosas em benefício do seu povo eleito.

Dom Henrique Soares é bispo da Diocese de Palmares, Pernambuco.

Finalmente, Deus agiu de modo pleno e total, fazendo-se pessoalmente presente, em Jesus Cristo, que é o cume, o centro e a finalidade da revelação e da ação de Deus: em Jesus, tudo quanto Deus sonhou para nós se realizou de modo pleno, único, absoluto, completo e definitivo! Então, o nosso Deus não se revela principalmente com ensinamentos, com doutrinas e conselhos, mas com ações concretas e palavras concretas de amor! E tudo isso chegou à plenitude na vida, nos gestos, palavras e ações de Jesus Cristo!

Pois bem: são estas obras salvíficas de Deus, realizadas de modo pleno em Jesus, que nós tornamos presente na nossa vida quando celebramos a Santa Liturgia, sobretudo a Eucaristia! Na força do Espírito Santo de Jesus, através das palavras, dos gestos e dos símbolos litúrgicos, os acontecimentos do passado — todos resumidos em Cristo: na sua Encarnação, no seu Nascimento, Ministério, Morte e Ressurreição e no Dom do seu Espírito — tornam-se presentes na nossa vida.

Vejamos, agora, o caso do Natal. Quando a Igreja celebra as cinco festas do Natal, ela quer celebrar não o aniversarinho do menininho Jesus… O que ela quer fazer e faz é tornar presente para nós, na força do Espírito Santo, a graça da vinda do Cristo! Celebrando a liturgia do Natal, o acontecimento do passado (a Manifestação do Filho de Deus) torna-se presente no hoje da nossa vida! Na liturgia do Natal a Igreja não diz: “Há dois mil anos nasceu Jesus”! Nada disso! O que ela diz é: “Alegremo-nos todos no Senhor: hoje nasceu o Salvador do mundo, desceu do céu a verdadeira paz!” (Antífona de Entrada da Missa da Noite do Natal).

Então, celebrando as santas festas do Natal, celebramos a Manifestação do Salvador no nosso hoje, na nossa vida, no nosso mundo! A liturgia tem essa característica: na força do Santo Espírito torna presente realmente, de verdade, aquele acontecimento ocorrido no passado. Não é uma repetição do acontecimento, nem uma recordação! É, ao invés, aquilo que a Bíblia chama de memorial, isto é, tornar presente os atos de salvação de Deus!

Agora vejamos: a Eucaristia é a celebração, o memorial da Páscoa do Senhor. Como é, então, que no Natal a gente celebra a Missa, que é a Páscoa? Como é que já no Natal a Igreja mete a celebração da Páscoa? É que a Eucaristia não é simplesmente a celebração da paixão, morte e ressurreição de Cristo! Essa seria uma idéia muito mesquinha, estreita! Em cada Missa é todo o mistério da nossa salvação que se faz presente, é tudo aquilo que Deus realizou por nós, desde a criação até agora… e tudo isso tem o seu centro em Jesus: na sua Encarnação, na sua vida e na sua pregação, e alcança seu cume na sua morte e ressurreição, na sua ascensão e no dom do Santo Espírito. Então, celebramos as cinco festas do Natal celebrando a Missa, porque aí o mistério, o acontecimento da nossa salvação se torna presente e atuante na nossa vida.

Voltando para casa após a Missa do Natal, podemos dizer: “Hoje eu vi, hoje eu ouvi, hoje eu experimentei, hoje eu testemunhei e hoje eu anuncio: nasceu para nós, nasceu para o mundo um Salvador! Ele veio, ele não nos deixou, ele se fez nosso companheiro de estrada!” Celebrando a Eucaristia do Natal, recebemos a graça do Natal, entramos em comunhão com o Cristo que veio no Natal, porque recebemos no Corpo e Sangue do Senhor o próprio Cristo que nasceu para nós, e, agora, Cristo ressuscitado, pleno do Santo Espírito! É incrível, mas a graça do Natal chega a nós mais do que chegou para Maria e José e os pastores e os magos. Porque eles viram um menininho no presépio, enquanto nós o recebemos dentro de nós, seu Corpo no nosso corpo, seu Sangue no nosso sangue, sua Alma na nossa alma, seu Espírito no nosso espírito… e não mais um menininho frágil, com esta nossa vidinha humana, mas o próprio Filho agora glorificado, com uma natureza humana imortal e gloriosa, que nos transformará para a vida eterna.

Então, que neste Natal ninguém cante parabéns para o Menino Jesus, nem fique com inveja dos pastores e dos magos… Também para nós hoje nasceu um Salvador: o Cristo ressuscitado, glorioso, que recebemos no seu Corpo e Sangue e cujo mistério celebramos nos gestos, palavras e símbolos da liturgia!

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O que Deus pede de nós em tempos de crise?
EspiritualidadeHistória da Igreja

O que Deus pede
de nós em tempos de crise?

O que Deus pede de nós em tempos de crise?

Nosso Senhor não irá nos julgar por aquilo que um padre, um bispo ou seja lá quem for disse, fez ou deixou de fazer. A pergunta que Ele nos fará é: você fez o que eu lhe pedi para fazer? E o caso será encerrado.

Robert B. Greving,  Crisis MagazineTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Dezembro de 2017
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Ronald Knox disse certa vez que “quem viaja a bordo da barca de São Pedro seria melhor que não olhasse muito de perto para o interior da sala de máquinas”. A menos que você tenha vivido dentro de uma caverna pelos últimos cinco, dez ou cinquenta anos, saiba que a barca tem atravessado alguns mares turbulentos. Alguns diriam que estamos com Colombo navegando rumo a um novo mundo; outros, que o nome escrito na lateral da barca é Titanic. De qualquer modo, vale a pena ressaltar que, seja lá qual for a maneira de ler o sinais dos tempos, em certo sentido, em um sentido bem verdadeiro, nada disso importa.

Não digo que não devamos rezar pela Igreja ou pelo Papa e os bispos, nem que não devamos ficar preocupados quando padres ou prelados, e até mesmo aqueles do mais alto escalão, dizem coisas que nos fazem ficar com a pulga atrás da orelha, para dizer o mínimo. Não digo que não devamos confrontar o erro, chamar as coisas pelo nome, ou que devamos fechar os olhos para o escândalo. O que quero dizer é que, em certo sentido, em um sentido bem verdadeiro, não nos devemos preocupar com nada disso, porque a única coisa com a qual devemos realmente nos preocupar não é, de forma nenhuma, afetada por tais problemas. E essa única coisa é a nossa própria alma.

Ao longo do último mês de novembro, a Igreja nos levou a refletir sobre os Novíssimos — literalmente, as “últimas coisas” —, indicando que nossa preocupação última deve ser a nossa santidade pessoal. É fácil, e talvez desculpável, ficar perturbado com o que algum padre, bispo, político “católico” ou escola “católica” disse, fez ou deixou de fazer. Eu sou o primeiro a admitir que posso, sim, ficar mordido com essas coisas. E, como disse, há alguma justiça nisso. Nós amamos a Igreja e, devemos reconhecer, é mesmo preocupante vê-la em um estado de “diluição”. A Igreja deveria ser nossa “rocha”, mas a sensação atual, para muitos de nós, é a de que ela se assemelha mais à areia movediça. Mas, é aí que está o ponto, o que devemos fazer diante de tudo isso?

Quando morrermos — e esta é a única coisa com a qual devemos nos preocupar —, Nosso Senhor não irá nos julgar a partir do que um padre, um bispo, um Papa ou seja lá quem for disse, fez ou deixou de fazer. Ao contrário, Ele nos julgará por um critério bem simples: você fez aquilo que eu lhe pedi para fazer? E o caso será encerrado.

No romance Emma, de Jane Austen, a personagem que dá nome ao livro e seu amigo, sr. Knightley, conversam sobre outra personagem, Frank Churchill, que aparentemente fracassou em seus deveres como filho. Enquanto Emma busca todas as razões possíveis para desculpar o jovem, ao sr. Knightley não acode nenhuma. Ele finalmente diz: “Há uma coisa, Emma, que um homem pode sempre fazer se ele quiser, e essa coisa é o dever, não por interesse e vaidade, mas por força e resolução”. Essa também deveria ser a nossa atitude.

Vejamos por outro ângulo. Houve alguma vez na história uma época em que a Igreja, do Papa ao pároco, e deste ao paroquiano no banco da igreja, tenha sido perfeita? Não. São Paulo pareceu ter gasto a maior parte do seu tempo resolvendo disputas e corrigindo heresias. Os primeiros cinco séculos da história da Igreja (pelo menos) foram gastos formando-se um credo e, mesmo então, ao menos uma vez, a maioria (formada por arianos) não o professou corretamente. A Idade Média viu o Papa mudar-se para Avignon e lá ficar por quase 70 anos, e ainda depois, por mais 25 anos, tivemos três homens reivindicando o papado. E nem se fale da Renascença. O século XVII teve os jansenistas; o XVIII, os iluministas e a Revolução Francesa. No século XIX, o Concílio Vaticano I foi suspenso porque tropas italianas invadiram a Cidade Eterna.

Santa Joana d’Arc, por John Everett Millais.

Muitos ainda falam da “época de ouro” da Igreja antes do Vaticano II. Embora possa existir certa verdade nisso, a questão que deve ser levantada é: onde e quando as sementes do dilúvio do “espírito do Vaticano II” foram lançadas senão naquela “época de ouro”? A Igreja — em seus membros — nunca foi perfeita.

No entanto, também sempre houve santos. Sempre existiram aqueles poucos indivíduos que, como temos dito, não se transtornavam por causa do que alguém fazia ou deixava de fazer; em vez disso, fizeram eles mesmos o que deviam fazer, por mais humilde ou simples que fosse o trabalho. Eles perseguiam sua própria santidade. E faziam-no com os mesmos meios que você e eu temos à nossa disposição — oração, sacramentos, a graça de Deus e a própria vontade. Nenhum deles dependeu da santidade pessoal de outras pessoas na Igreja. Em todos estes tempos difíceis, houve grandes santos.

Eu disse acima que não deveríamos falar da Renascença, mas vamos fazer isso agora. O papado sangrava por conta de escândalos pessoais e da heresia de Martinho Lutero. Na Inglaterra, todos os bispos, exceto um, submeteram-se a Henrique VIII. Mesmo assim, Thomas More tornou-se um santo, indo calmamente para a guilhotina e fazendo piadas, não porque seu pároco fizesse ótimos sermões ou porque houvesse um ótimo projeto pastoral em sua diocese, não por causa da pureza ou clareza doutrinária do clero, mas porque ele mesmo levou uma vida de santidade. (E o fez ao mesmo tempo em que sustentava uma família, trabalhava como advogado e estava envolvido em todos os tipos de assuntos políticos.) Ele não murmurou, não reclamou nem apresentou desculpas, mas olhou para sua própria alma.

“Estas crises mundiais são crises de santos”, dizia São Josemaria Escrivá, que derramou lágrimas quando a Igreja parecia ruir durante as décadas de 1960 e 1970. Isso quer dizer que essas crises não são, em primeiro lugar, crises de Papas, bispos, padres, ou de universitários, teólogos e políticos, mas, sim, de você e eu, que deveríamos ser santos no lugar em que Deus nos colocou. Hoje nós temos um fardo ainda maior nessa matéria, porque com a quantidade de pregações e conselhos espirituais disponíveis em livros e outras mídias, nós realmente não temos nenhuma desculpa para não conhecer nosso dever e o modo de cumpri-lo. Quanto esforço temos empregado nisso?

Ninguém pode impedir que sejamos santos exceto nós mesmos! Por isso, por todos os meios possíveis, corrijamos e exortemos os outros, ajudemos financeiramente aqueles que são dignos e boicotemos aqueles que não o são, mas, em primeiro lugar e acima de tudo, rezemos, frequentemos os sacramentos, imploremos pela graça de Deus e façamos, enfim, a única coisa que podemos fazer: ser santos. É tudo que Deus nos pede.

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O Papa que veio do Purgatório pedir orações a uma santa
Santos & Mártires

O Papa que veio do
Purgatório pedir orações a uma santa

O Papa que veio do Purgatório pedir orações a uma santa

Surpresa por ver um espectro envolto em chamas, esta santa descobriu que estava diante de ninguém menos que o Papa. Conheça a história desta impressionante aparição.

Pe. François Xavier SchouppeTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Dezembro de 2017
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Permitam-me contar-lhes uma famosa aparição de um Papa a uma santa.

O Papa Inocêncio III morreu no dia 16 de julho de 1216. No mesmo dia, ele apareceu a Santa Lutgarda, no monastério de Aywières, região central da Bélgica. Surpresa por ver um espectro envolto em chamas, ela perguntou de quem se tratava e o que queria.

“Sou o Papa Inocêncio”, ele respondeu.

“Mas seria possível que o senhor, nosso pai comum, se encontrasse em um estado assim?”, ela perguntou.

“Sim, eu de fato me encontro neste lugar”, ele respondeu. “Estou expiando três faltas que teriam causado minha perdição eterna. Graças à bem-aventurada Virgem Maria, obtive o perdão delas, mas tenho de fazer reparação. Ai de mim! Aqui é terrível e isto durará por séculos, se tu não vieres em meu auxílio. Em nome de Maria, que obteve para mim o favor de recorrer a ti, ajuda-me.”

Depois de dizer estas palavras, ele desapareceu.

Lutgarda anunciou a morte do Papa a suas irmãs, e juntas elas se dedicaram à oração e a obras penitenciais em favor do augusto e venerável Pontífice, cujo falecimento lhes foi comunicado algumas semanas depois, vindo de outra fonte.

Efígie do Papa Inocêncio III, representado como um dos maiores legisladores da história, esculpida por Joseph Kiselewski em 1950 e presente no Capitólio dos EUA.

Devo admitir que a leitura deste incidente me impactou muito e eu com prazer o deixaria passar em silêncio, pois relutava em pensar que um Papa, e ainda mais este Papa, tivesse se condenado a um Purgatório tão longo e terrível.

Sabemos que Inocêncio III, que presidiu em 1215 o célebre Concílio de Latrão, foi um dos maiores Pontífices a se sentar no trono de S. Pedro. Seu zelo e sua piedade levaram-no a realizar grandes feitos pela Igreja de Deus e pela santa disciplina. Como admitir, então, que um homem dessa estirpe fosse julgado com tamanha severidade pelo Tribunal Supremo? Como reconciliar essa revelação de Santa Lutgarda com a misericórdia divina?

Por conta dessas questões, passei a tratar essa aparição como algo ilusório, procurando por razões que dessem suporte a essa ideia.

O que descobri, no entanto, ao contrário disso, foi que a veracidade dessa aparição é admitida pelos mais sérios autores, não sendo rejeitada por nenhum sequer. Ademais, o biógrafo dessa santa, Tomás de Cantimpré, é muito transparente ao escrever e, ao mesmo tempo, bastante reservado. “Devo explicar, leitor”, ele escreve ao fim de sua narrativa, “que foi da própria boca da piedosa Lutgarda que eu ouvi as faltas reveladas pelo defunto, as quais eu omito aqui por respeito a um tão grande Pontífice.”

À parte isso, considerando o evento em si mesmo, poderíamos encontrar uma boa razão para questioná-lo? Não sabemos nós, afinal de contas, que Deus não faz acepção de pessoas — e que os Papas aparecem diante do seu tribunal, portanto, assim como o mais humilde dos fiéis —, que todos, grandes e pequenos, são iguais diante dEle, e que cada um recebe de acordo com suas obras? Não sabemos igualmente que aqueles que governam os outros têm uma grande responsabilidade, e terão de fazer uma severa prestação de contas?

Judicium durissimum his, qui praesunt, fiet: “Será duríssimo o juízo dos que governam” (Sb 6, 6). É o Espírito Santo quem o declara. Pois bem, Inocêncio III reinou por dezoito anos e durante tempos muito turbulentos; além disso, acrescentam os Bolandistas, não está escrito que os julgamentos de Deus são inescrutáveis, e com frequência muito diferentes dos julgamentos dos homens? Judicia tua abyssus multa: “Teus juízos são como o grande abismo” (Sl 35, 7).

A realidade dessa aparição não pode, portanto, ser razoavelmente posta em dúvida e eu não vejo nenhuma razão para omiti-la, dado que Deus não revela mistérios dessa natureza senão com o fim de que sejam conhecidos para a edificação de sua Igreja.

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O presépio dos egoístas
Sociedade

O presépio dos egoístas

O presépio dos egoístas

Para muitas pessoas, a Sagrada Família não cabe mais no presépio de Natal. São aqueles que abandonaram o projeto cristão para “ter a vida só para si mesmos”.
Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Dezembro de 2017
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Vocês vão ter de nos perdoar a insistência sobre o tal presépio com dois “Josés”, mas é uma oportunidade única para falarmos sobre a guerra cultural que se trava hoje, diante de nossos olhos. Se em nosso último texto evitamos falar sobre o aspecto sexual dessa batalha, agora se nos torna inevitável analisá-lo, dado o caráter claramente sexual da própria blasfêmia em análise.

Nós sabemos, não é incomum aparecerem pessoas dizendo que os cristãos conservadores falam de moral sexual com uma obsessão quase fanatizante. — Existem tantos outros pecados a serem abordados nas pregações! Por que a insistência nisto? — Concordamos com a afirmação de que pecados há outros muito piores. A soberba e a inveja, que são os pecados dos anjos decaídos, são muito mais graves do que os pecados ditos carnais. A verdade porém é que, conforme o juízo de Santo Afonso de Ligório, doutor da Igreja, “noventa e nove por cento dos réprobos é pelo pecado da impureza que se condenaram” [1]. E Nossa Senhora de Fátima disse aos três pastorinhos que “vão mais almas para o inferno por causa dos pecados da carne do que por qualquer outra razão”. Talvez devêssemos acusar este santo doutor e esta santa Senhora de obsessão também? Certamente não.

Além do mais, os que acusam os religiosos, com o dedo em riste, de falarem demais sobre sexualidade, normalmente o fazem não por oposição sólida e fundamentada, mas por uma questão de incômodo mesmo. Naturalmente, as pessoas não gostam de ver os próprios pecados denunciados em público. Ainda que seus nomes não sejam pronunciados, ainda que os olhares de quem prega sequer estejam dirigidos a elas, as verdades de fora despertam aquilo que está dentro delas: suas consciências.

E, nos nossos tempos, quantas não são as pessoas a tentarem abafar essa voz! Quantos não são os cristãos que, não se esforçando por viverem de acordo com a sua fé, terminam por acreditar no modo como vivem! Quantos outros, ainda, não vão ainda mais longe, militando pelo novo “estilo de vida” que decidem seguir — e contrariando abertamente o Evangelho e a doutrina de Cristo!

É isso o que fica patente no presépio dos dois Josés. Ali não há nenhuma proposta concreta de Natal, mas tão somente uma desconstrução do que é o verdadeiro Natal, do que é verdadeiramente a religião cristã, do que significa realmente a Sagrada Família.

Mais do que criticar, no entanto, essa “problematização”, é preciso deixar bem claro contra o que, bem concretamente, nossa modernidade está lutando.

Detalhe de “Adoração dos Pastores”, do Fr. Juan Bautista Maíno.

Para tanto, vamos nos servir de um ensinamento lapidar de Santo Tomás de Aquino, que, perguntando se Cristo devia nascer de uma virgem dada em casamento, apresenta-nos uma razão especial: “A Mãe do Senhor foi casada e virgem, porque na sua pessoa é honrada tanto a virgindade como o matrimônio, contra os heréticos que detratam aquela e este.”

Ora, o que se pode dizer aqui a respeito de Maria Santíssima é igualmente aplicável à figura de São José: os dois foram virgens e realmente casados um com o outro, e com isso Deus procurava ensinar a todos os homens o valor que têm tanto o celibato e a virgindade consagrados a Deus, quanto o matrimônio.

Não, a Igreja Católica não acredita que todas as pessoas foram feitas para se casarem. O próprio Jesus Cristo não achava isso: “Porque há eunucos”, Ele dizia, “que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos céus” (Mt 19, 12). Evidentemente, não se trata aqui de mutilar os próprios genitais, como fez Orígenes no início da Igreja. Jesus Cristo está falando de um sacrifício espiritual — cujo sentido “nem todos são capazes de compreender” (v. 11) —, mas que realmente faz parte da vivência dos discípulos do Senhor, desde o começo da Igreja.

Duas são, portanto, as decisões de vida simbolizadas no presépio, nas imagens da Sagrada Família: a decisão, “por toda a vida”, do Matrimônio; e o voto, também perpétuo, de quem se abstém da sexualidade por amor a Deus. Parecem dois extremos contraditórios, mas não o são. São compromissos profundamente ligados um ao outro, de modo que as grandes crises humanas, quando afetam uma dessas vocações, terminam inevitavelmente atingindo a outra.

O grande problema do celibato sacerdotal, por exemplo, que os homens de nossa época parecem não querer mais assumir, anda de mãos dadas com o grande fracasso moderno do matrimônio, como notou certa vez, com grande perspicácia, o Papa emérito Bento XVI:

Num certo sentido, esta crítica permanente contra o celibato pode surpreender, num tempo em que está cada vez mais na moda não casar. Mas este não-casar é uma coisa total, fundamentalmente diversa do celibato, porque o não-casar se baseia na vontade de viver só para si mesmo, de não aceitar qualquer vínculo definitivo, de ter a vida em todos os momentos em plena autonomia, decidir em qualquer momento como fazer, o que tirar da vida; e portanto um “não” ao vínculo, um “não” à definitividade, um ter a vida só para si mesmos.

Enquanto o celibato é precisamente o contrário: é um “sim” definitivo, é um deixar-se guiar pela mão de Deus, entregar-se nas mãos do Senhor, no seu “eu”, e portanto é um ato de fidelidade e de confiança, um ato que supõe também a fidelidade do matrimônio; é precisamente o contrário deste “não”, desta autonomia que não se quer comprometer, que não quer entrar num vínculo; é precisamente o “sim” definitivo que supõe, confirma o “sim” definitivo do matrimônio. [...] E se isto desaparecer, será destruída a raiz da nossa cultura. Por isso, o celibato confirma o “sim” do matrimônio com o seu “sim” ao mundo futuro, e assim queremos ir em frente e tornar presente este escândalo de uma fé que baseia toda a existência em Deus. [2]

Aqui chegamos, então, ao ponto central da crítica moderna tanto ao casamento quanto à virgindade. As pessoas que morrem de ódio por verem um padre ou uma freira que não se casaram são, por incrível que pareça, as mesmas que ficam aturdidas ao se depararem com uma família de filhos numerosos. Esquizofrenia? Incoerência? Não! A ojeriza da modernidade não é tanto à mortalha eclesiástica ou à aliança matrimonial, mas a qualquer coisa que represente compromisso, doação e fidelidade. O sintoma de que falamos aqui é outro, mas a doença é a mesma. Seu nome é egolatria.

O mais triste é que, não obstante o relativismo com que muitas vezes as pessoas tratam esses assuntos, todos sem exceção são capazes de reconhecer os frutos maduros do verdadeiro amor. No Natal, por exemplo, todos gostariam de ver as próprias casas abarrotadas de gente, com filhos, netos e sobrinhos correndo de um lado para o outro, um cônjuge do lado e muitos amigos com quem se reunir. Fatalmente, porém, muitas das escolhas que nós, os jovens, fazemos no presente só nos levarão para a solidão, para a tristeza e para o desespero. Esses frutos amargos, também, todos somos capazes de enxergar: são os frutos que inevitavelmente colhem todos os que deram “um ‘não’ ao vínculo, um ‘não’ à definitividade”, preferindo “ter a vida só para si mesmos”.

Cabe a nós decidir, em grande parte, o destino que vamos ter, tudo dependendo do exemplo que nos dispusermos a seguir. Se nossas casas estarão enfeitadas, neste Natal, com um belo presépio, que nossas famílias imitem, então, a verdadeira família de Nazaré — e não a família “fake” de quem preferiu dar corda às próprias paixões ao invés de se gastar por Deus e pelos outros.

Afinal de contas, como é triste a vida de quem se deixa levar pelo egoísmo!

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