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Ensina-nos a orar

Não rezeis como os pagãos

"Quando orardes", diz o Senhor, "não useis de muitas palavras, como fazem os pagãos. Eles pensam que serão ouvidos por força das muitas palavras" (Mt 6, 7). Se não são as palavras que contam, então o que é preciso para rezar bem?

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I. A oração vocal

O primeiro grau de oração — indispensável à vida cristã e, de modo especial, ao culto público da Igreja (cf. CIC 2701) — é a chamada oração vocal, expressa por meio de palavras e conceitos próprios à linguagem humana [1]. Longe de ser algo estranho à espiritualidade do Evangelho, este modo de orar foi recomendado e ensinado por Cristo mesmo. Antes de entregar aos discípulos a mais excelente oração que nos pode sair dos lábios, o Pai-nosso, deu-lhes Jesus a seguinte ordem: "Quando orardes, dizei..." (Lc 11, 2). Dizer, sim; mas não como os pagãos, "que julgam que serão ouvidos à força de palavras" (Mt 6, 7), como se a vontade de Deus fosse suscetível aos discursos do homem ou pudesse ser alterada por fórmulas e invocações mágicas. "Não os imiteis", conclui o Senhor, "porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes que vós lho peçais" (Mt 6, 8). 

A oração vocal, portanto, não significa multiplicar palavras nem "pronunciar discursos bonitos, frases grandiloquentes ou que consolem" [2]; a sua força e o seu valor derivam, antes, de termos o coração presente nAquele a quem nos dirigimos ao rezar (cf. CIC 2700). Orar a Deus vocalmente não consiste, pois, em muito falar, senão em muito amar [3].

II. Suas condições

Mas para que a nossa oração vocal se converta em verdadeira e autêntica oração — isto é, em encontro —, precisamos, em primeiro lugar, daquele recolhimento interior que nos permite entrar na presença de Deus. Por isso, enquanto estivermos recitando esta ou aquela prece (o Breviário, o Rosário ou qualquer outra fórmula devidamente aprovada), é de suma importância repararmos, por um lado, na baixeza de quem fala e, por outro, na grandeza dAquele a quem se fala: "É bom que encareis", escreve Santa Teresa às suas monjas, "Aquele com quem falais, bem como quem sois vós, ao menos para usar de cortesia"; porque, com efeito, "como podeis chamar o rei de Alteza ou conhecer as cerimônias que se empregam para falar com uma grande personagem se não conheceis bem a Sua e a nossa condição social?" [4]. 

Quando rezamos, não falamos a um qualquer; dirigimo-nos a Alguém que, por pura bondade, dignou-se dar-nos ouvido. Que imprudência e grande petulância cometeríamos se, indo falar a Deus, o fizéssemos só com a boca, como se Aquele que se hospeda em nosso coração não devesse, por isso mesmo, reinar também em nossos lábios [5].

Nossa oração vocal, portanto, será efetivamente proveitosa se, mais do que às coisas que dizemos, dermos particular atenção a Quem as dizemos: "Se, falando", continua Santa Teresa, "entendo perfeitamente e percebo que falo com Deus, concentrando-me mais nisso do que nas palavras que digo, estão juntas aqui a oração mental e a vocal" [6]. 

Porque orar, lembremo-nos sempre disto, não é encher o ar com palavreados, como se receássemos não ser ouvidos ou tivéssemos pressa em terminar uma tarefa aborrecida, mas pôr-se aos pés de Cristo como um soldado que permanece de guarda, ou como um cachorrinho que, com silenciosa fidelidade, deita-se aos pés do seu amo [7]. Deus, que perscruta até os nossos rins (cf. Ap 2, 23), quer ouvir o que temos no coração, e não o que dizemos com a voz [8].

III. Atenção às palavras

De quanto temos dito, porém, não se pode deduzir que as palavras de que nos servimos na oração vocal devam passar totalmente despercebidas. Pelo contrário, devemos reparar bem, quanto nos for possível, naquilo que pretendemos dizer a Deus. Não podemos, pois, limitar-nos a recitar ou ler coisas somente com a boca; é necessário, acima de tudo, que elevemos aos Céus o nosso espírito, pela atenção, o nosso coração, pela devoção; e nossa vontade, pela submissão aos beneplácitos do Pai

"Se alguém de propósito deixa a mente divagar durante a oração", explica Santo Tomás, "comete pecado e priva-se do fruto da oração" [9]. Mas se, pelo contrário, unimos ao som das palavras a consideração atenta e amorosa do que e a Quem falamos, então já temos aí o início da oração mental, à qual nossas palavras devem conduzir-nos:

Direis que isto já é meditação, que não podeis nem quereis senão rezar vocalmente. [...] Tendes razão em afirmar que isso já é oração mental. Mas eu vos digo que, na verdade, não sei como separá-la da oração vocal, se é que pretendemos rezar vocalmente com perfeição, entendendo com quem falamos. De fato, é nossa obrigação procurar rezar com atenção [10].

Ao fazermos oração vocal, precisamos como que saborear a doçura daquilo que dizemos a Deus, nosso Amado, dizendo-lho com amor e humildade, muito pausada e calmamente, procurando excitar a devoção e o fervor interior, oferecendo-Lhe, como culto agradável, a homenagem do nosso corpo e dos nossos afetos, ainda que pouco ou nada nos venha à mente

Porque é essa, ao fim e ao cabo, a função da oração vocal: elevar-nos a alma a Deus pouco a pouco e introduzir-nos naquele colóquio íntimo e espontâneo que o nosso divino Amigo deseja ter conosco. Ouçamos, para concluir essa meditação, o que Santa Teresinha do Menino Jesus, já no cume de sua vida espiritual, nos deixou registrado sobre a importância e conveniência deste gênero de oração:

Vez por outra, quando a minha mente está em tão grande aridez que me é impossível extrair um pensamento para me unir a Deus, recito muito lentamente um "Pai-nosso" e a saudação angélica; então, essas orações me encantam, alimentam minha alma muito mas do que se as tivesse recitado precipitadamente um centena de vezes[11].

Referências

  1. Cf. Antonio R. Marín, Teología de la Perfección Cristiana. Madrid: BAC, 2012, n. 492, p. 653; Vital Lehodey, The Ways of Mental Prayer. Dublin: M. H. Gill & Son, 1960, c. 1, § 2, p. 5.
  2. Josemaria Escrivá, Forja. Trad. port. de Emérico da Gama. 2.ª ed., São Paulo: Quadrante, 2005, n. 73, p. 44.
  3. Cf. Teresa d'Ávila, Fundações, c. 5, n. 2. In: "Obras Completas". Trad. port. de Adail U. Sobral et al. 4.ª ed., São Paulo: Edições Carmelitanas; Loyola, 2009, p. 613; João Crisóstomo, Ecloga ex hom. II, "De oratione" (PG 63, 583).
  4. Id., Caminho de Perfeição, c. 22, n. 1, p. 366.
  5. Cf. Cipriano de Cartago, De Oratione Dominica, 3 (PL 4, 521B).
  6. Tersa d'Ávila, op. cit., loc. cit.
  7. Cf. Josemaria Escrivá, op. cit., loc. cit.
  8. Cf. Cipriano de Cartago, op. cit., 4 (PL 4, 522A).
  9. Tomás de Aquino, Sum. Th. II-II, q. 83, a. 13, ad 3; cf. Vital Lehodey, op. cit., c. 1, § 3, p. 8.
  10. Teresa d'Ávila, op. cit., c. 24, n. 6, p. 372s.
  11. Teresa de Lisieux, Manuscrito C. In: "Obras Completas: Textos e Últimas Palavras". Trad. port. do Carmelo de Cotia et al. 2.ª ed., São Paulo: Loyola, 2001, p. 250.
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