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Participar da Missa: você está fazendo isso errado!
Liturgia

Participar da Missa:
você está fazendo isso errado!

Participar da Missa: você está fazendo isso errado!

“O altar é um Calvário”: eis a consciência que precisamos para participar bem da liturgia e comportar-nos melhor na igreja. Todo o resto, principalmente o “auê”, pode ficar muito bem, obrigado, do lado de fora.

Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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Recebemos nas redes sociais, alguns meses atrás, o seguinte comentário, como resposta ao nosso último texto sobre o latim na liturgia

O sacerdote orar em latim, de costas para os fiéis… Misericórdia! Minha avó contava que tinha pessoas que oravam o terço durante a missa, outras dormiam, ou seja, não participavam de nada do mistério da missa

Sim, você certamente já ouviu, também, algum comentário do gênero. Infelizmente, é essa a impressão que muitas pessoas, se não a maioria, têm sobre como era rezada a Santa Missa antes da reforma litúrgica após o Concílio Vaticano II. Não é raro que se ouça aqui e ali, inclusive a respeito das mudanças que sofreu o rito romano, alguém comparar a Missa de São Pio V a uma espécie de “Velho Testamento” da liturgia católica. Antes, o povo inteiro estava “à espera”, ansiando pelo acesso “pleno” aos mistérios sagrados, que se ocultavam sob uma língua incompreensível, um sacerdócio afastado do povo, uma Igreja “fria” e “imobilizada”, que não se comunicava efetivamente com os fiéis... Até que veio o Novus Ordo.

Sacerdote celebrando no rito romano antigo.

Por trás desse preconceito com a antiga liturgia e os antigos costumes católicos está uma visão de progresso malsã, que não raro pode colocar em xeque a própria infalibilidade da Igreja. Afinal, se Pentecostes foi “adiado” até 1969, por assim dizer, onde estava o Espírito Santo nesse meio tempo? Como fica a promessa de Nosso Senhor de que estaria com seus discípulos omnibus diebus, “todos os dias”, usque ad consummationem saeculi, “até a consumação dos séculos” (Mt 28, 20)? 

O Papa emérito Bento XVI se manifestou diversas vezes contra essa visão, primeiro como Cardeal — em O Sal da Terra, por exemplo: “Uma comunidade põe-se a si mesma em xeque quando declara como estritamente proibido o que até então tinha tido como o mais sagrado e o mais elevado, e quando considera, por assim dizer, impróprio o desejo desse elemento” (Rio: Imago, 2005, p. 141) — e também depois, já Pontífice, ao autorizar amplamente a celebração da Missa antiga: “Na história da Liturgia, há crescimento e progresso, mas nenhuma ruptura”, disse ele na ocasião. “Aquilo que para as gerações anteriores era sagrado, permanece sagrado e grande também para nós, e não pode ser de improviso totalmente proibido ou mesmo prejudicial”. Noutras palavras, se não conseguimos apreciar a liturgia antiga, o problema não era com a Igreja; é conosco.

Nossos antepassados conviveram por mais de 400 anos com a liturgia do Concílio de Trento e, considerando a quantidade de santos que se formaram na escola dessa divina liturgia, chega a soar como um insulto a acusação de que, ao longo desse tempo, as pessoas “não participavam de nada do mistério da missa”. 

Comece-se pelo fato de que o conceito que temos de participação [1] na liturgia é muitíssimo deficiente, quando não completamente equivocado

É deficiente porque, hoje, tendemos a pensar que só participa bem a pessoa que sabe todas as respostas da Missa de cor, que sabe entoar todos os cantos que o ministério de música puxar, que sabe a hora certa de ficar de pé, sentar e ajoelhar-se etc., quando, na verdade, uma pessoa pode estar fazendo tudo isso sem adentrar minimamente o mistério que está diante dela. A esse respeito, valeria a pena recordar, retomando uma lição de Santo Tomás de Aquino (cf. STh II-II 83, 13), que na oração a atenção às palavras é menos importante que a atenção à presença de Deus. Na liturgia, que é a oração pública da Igreja, deve dar-se o mesmo: a ideia é que estejamos concentrados no Senhor; todo o resto é acessório e subordina-se a isso.

Mas tantas vezes nosso conceito de participação na liturgia é também equivocado. Quando a Constituição Sacrosanctum Concilium, do Vaticano II, fez referência “àquela plena, consciente e ativa participação (actuosam participationem) nas celebrações litúrgicas que a própria natureza da Liturgia exige e que é, por força do Batismo, um direito e um dever do povo cristão” (n. 14), é difícil imaginar que os Padres conciliares tenham pensado, por exemplo, em palminhas efusivas, performances coreográficas e uma assembleia dialogante, a todo o tempo respondendo ao sacerdote como num programa de auditório... 

Não, esse nunca foi o sentir da Igreja a respeito da divina liturgia. Tomar parte nos santos mistérios não significa posicionar-se como uma Marta agitada ao redor do altar, procurando algo que fazer. A atividade dos fiéis na igreja consiste muito mais na atitude contemplativa de Maria, que se põe “aos pés do Senhor para ouvi-lo falar” (Lc 10, 39).

Aqui é importante destacar o seguinte: cada um participa da Missa na medida de sua capacidade e da forma que lhe for mais conveniente. Não é correto impor a todo o povo fiel uma forma única de tomar parte nos mistérios sagrados, como se todas as outras fossem erradas… O respeito e a reverência, evidentemente, são devidos sempre, mas eles não se manifestam apenas no fiel que, com o Missal ou um folheto em mãos, responde ao padre, acompanha todas as orações e penetra-lhes o significado. Antigamente, era mesmo muito comum que as pessoas recitassem o Rosário durante a Missa ou praticassem outra forma de devoção que as ajudasse a acompanhar os santos mistérios. 

Sim, nossa visão atual de participação litúrgica deplora isso (o ar escandalizado do comentário que transcrevemos acima não nos deixa mentir), mas o costume era encarado com bastante naturalidade há não muito tempo. Fosse a Via-Sacra, algo sobre a Paixão do Senhor ou orações afins, o importante é que os fiéis, na quietude de seus bancos, se unissem ao sacerdote que oferecia o santo Sacrifício, oferecendo-se a si mesmos “em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus” (Rm 12, 1). Com a palavra a esse respeito, o Papa Pio XII:

Não poucos fiéis, com efeito, são incapazes de usar o “Missal Romano” ainda quando escrito em língua vulgar; nem todos são capazes de compreender corretamente, como convém, os ritos e as cerimônias litúrgicas. A inteligência, o caráter e a índole dos homens são tão vários e dissemelhantes que nem todos podem igualmente impressionar-se e serem guiados pelas orações, pelos cantos ou pelas ações sagradas feitas em comum. Além disso, as necessidades e as disposições das almas não são iguais em todos, nem ficam sempre as mesmas em cada um. Quem, pois, poderá dizer, levado por tal preconceito, que tantos cristãos não podem participar do sacrifício eucarístico e aproveitar-lhe os benefícios? Certamente que o podem fazer de outra maneira, e para alguns mais fácil: por exemplo, meditando piamente os mistérios de Jesus Cristo ou fazendo exercícios de piedade e outras orações que, embora na forma difiram dos sagrados ritos, a eles todavia correspondem pela sua natureza (Mediator Dei, n. 98).

O problema, portanto — voltemos ao ponto inicial —, não era lá atrás com a Igreja; o problema é hoje, conosco. Essas práticas de piedade a que Pio XII faz referência, muito comuns no rito antigo, só floresceram graças a uma atmosfera de silêncio sagrado que agora, infeliz e tragicamente, já não existe na maior parte das liturgias católicas — seja como consequência de aspectos da própria reforma de 1969, seja como efeito da dissipação geral em que nos encontramos.

O que fazer, então? Pedir ao Papa que baixe um decreto mandando todos “fecharem a matraca” durante a Missa? De acordo com o Cardeal Robert Sarah, em seu O Poder  do Silêncio, essa está muito longe de ser a solução para a nossa crise atual:

O silêncio é uma atitude da alma. Ele não pode ser imposto por decreto sem parecer exagerado, vazio e artificial. Nas liturgias da Igreja, o silêncio não pode ser uma pausa entre dois rituais; ele em si é um ritual por completo, que a tudo envolve. Trata-se do tecido a partir do qual devem ser feitas todas as nossas liturgias. Nada nelas deve interromper a atmosfera silenciosa que constitui sua configuração natural (n. 250). 

O Prefeito do Culto Divino fala aqui a partir de sua consciência de fé, pois o silêncio brota naturalmente dos corações que se sabem na presença de Deus — e aqui está o grande segredo de tudo. Silenciar, para os animais, pode ser muito bem um simples “calar a boca”; para os seres humanos, porém, a ausência de barulho não quer dizer muita coisa. Quantas vezes, por exemplo, mesmo mudos, não nos encontramos interiormente agitados, com um sem-número de sons e imagens na cabeça? Se não houver um treinamento contínuo fora da liturgia, um verdadeiro cultivo da vida interior, nem sacerdotes nem o povo fiel serão capazes de reproduzir um silêncio autêntico e sagrado na Santa Missa.

É preciso também ter ao menos uma noção básica do que acontece na liturgia — coisa que, infelizmente, muita gente não tem. Curiosa e paradoxalmente, um pretexto muito difundido para se acabar com o latim na liturgia era de que o povo não entendia nada da Missa — ou, como colocou nosso comentarista, as pessoas “não participavam de nada do mistério”. Cabe-nos perguntar, porém, se agora, “rasgado o véu do templo”, alguma coisa realmente mudou. Será que passamos a entender mais, a participar melhor da Missa? 

O Pe. João Batista Reus reagia a esse argumento em seu Curso de Liturgia dizendo o seguinte: “A missa é uma ação, não um curso de instrução religiosa. No Calvário não havia explicações. O altar é um Calvário. Todo cristão sabe o que significa: imolar-se” (3.ª ed. Petrópolis: Vozes, 1952, p. 53).

Pois bem, é disso que se trata. Sabemos o que significa imolar-se? Ou nos animalizamos a ponto de perder até isso?

Quando as Missas públicas voltarem ao fim da quarentena (em alguns lugares já estão retornando), acerquemo-nos do altar de nossas igrejas como quem se aproxima do Calvário, da Cruz de Cristo, da solene imolação que nos deu a salvação. É dessa consciência que precisamos para participar bem da liturgia e comportar-nos melhor na igreja. Todo o resto, principalmente o “auê”, pode ficar muito bem, obrigado, do lado de fora.

Notas

  1. Há quem se pergunte se o correto é assistir ou participar da Santa Missa. Sobre isso, leia-se esse artigo do site Veritatis Splendor. De qualquer modo, há uma miríade de verbos que podem ser usados nesse contexto: a Missa se reza, se diz (no caso do padre), se escuta ou se ouve (no caso dos fiéis), dela se participa e a ela se assiste, e não há problema no uso de nenhum desses verbos, desde que sejam entendidos em um sentido concorde com o que orienta a Igreja sobre a santa liturgia.

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Padre Leonel Franca, o outro apóstolo do Brasil
Igreja Católica

Padre Leonel Franca,
o outro apóstolo do Brasil

Padre Leonel Franca, o outro apóstolo do Brasil

Pe. Leonel Franca foi uma destas personalidades raríssimas, capazes de influenciar o rumo da história. Mas nenhuma alma dessa envergadura surge do nada. Conheça um pouco da história deste sacerdote, que ombreia com São José de Anchieta o título de “apóstolo do Brasil”.

Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Abril de 2021Tempo de leitura: 12 minutos
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Em 1920, o pastor e gramático Eduardo Carlos Pereira lançou um livro para lá de auspicioso: O problema religioso da América Latina. A ideia principal da obra, apresentada com toda a pompa de um “estudo dogmático-histórico”, era provar, sem meias palavras, que a culpada de todos os males da civilização latino-americana não era outra senão a Igreja Católica. Tamanha ousadia não passaria sem ser notada entre a opinião pública, dada a influência do catolicismo no Brasil, ainda mais naqueles tempos. Mas não coube a nenhum grande teólogo da época a missão de refutar brilhantemente o polêmico livro. Veio da pena de um ilustre desconhecido, um adoentado seminarista da Companhia de Jesus, a esmagadora resposta que causaria terror nas fileiras do protestantismo. O nome dele era Leonel Edgar da Silveira Franca.

Quando o livro A Igreja, a Reforma e a Civilização chegou às mãos dos leitores brasileiros, com o imprimatur do então arcebispo coadjutor do Rio de Janeiro, D. Sebastião Leme, os protestantes foram tomados de assalto por uma obra digna dos mais elevados polemistas. De fato, chegou-se a difundir a maledicência de que a Igreja havia recorrido a um de seus maiores teólogos para vasculhar às pressas os arquivos do Vaticano e encontrar material contrário ao sr. Pereira. A verdade, no entanto, era bem outra. Leonel Franca já se encontrava em Roma para concluir seus estudos quando deparou com as traquinagens do pastor. E diante daquele “libelo de sectário apaixonado”, o então seminarista viu a oportunidade de colocar a inteligência a serviço da Igreja e do bem das almas [1]. Iniciava-se ali a jornada pública daquele que — no parecer de ninguém menos que D. Aquino Corrêa — iria ombrear com S. José de Anchieta o título de “apóstolo do Brasil” [2].

O Pe. Leonel Franca.

Padre Leonel Franca foi uma daquelas personalidades raríssimas, capazes de influenciar o rumo da história. Mas nenhuma alma dessa envergadura surge do nada, é preciso frisar. Nascido no dia 7 de janeiro de 1893, em São Gabriel (RS), Leonel foi formado, desde a mais tenra idade, num berço católico e educado em bons colégios, onde aprendeu lições de alemão, francês e inglês. Nesse ínterim, seu avô materno, Joaquim de Macedo Costa, teria vislumbrado uma rosa saindo do coração do neto e exalando um perfume dulcíssimo, como de um santo. Aliás, a veia combatente do futuro sacerdote vinha exatamente deste lado da família: o tio, D. Antônio de Macedo Costa, era bispo do Pará e, ao lado de D. Vital, bispo de Olinda, travara luta voraz contra a Maçonaria. Decerto, é possível imaginar como Leonel Franca fôra cuidadosamente instruído na religião sagrada.

Após a morte da mãe, ele e o irmão Leovigildo foram internados no Colégio Anchieta de Nova Friburgo (RJ). Nesse ambiente, pôde demonstrar suas primeiras inclinações à vida intelectual e ao sacerdócio, recebendo, ao cabo do ano letivo de 1906, oito medalhas condecorativas pelo bom desempenho e aplicação nos estudos. O próprio arcebispo do Rio de Janeiro, o Cardeal Joaquim Arcoverde, foi quem lhe conferiu os títulos. 

Franca sentiu-se atraído pelo carisma da Companhia de Jesus já em meados de 1907, dirigindo um pedido formal ao superior da missão brasileira, Pe. Justino Lombardi, a fim de ingressar na família jesuíta. A princípio hesitantes, por conta da saúde frágil do candidato, os superiores só lhe aceitaram o ingresso após uma intervenção do Pe. Yabar, então diretor espiritual de Leonel. Uma vez admitido, ele não retrocederia nem mais um passo: “[Jesus] chamou-me de novo e, mau grado meu, me trouxe à Companhia! Oh! Amor incompreensível! Mais que nenhum outro sou obrigado a corresponder à minha vocação. O amor, a gratidão, o interesse o exigem” [3].

Leonel Franca entrou para a Companhia de Jesus com 15 anos de idade, no dia 12 de novembro de 1908. Noviço, cuidou em forjar-se na prática da oração e das virtudes, sobretudo para viver os votos de obediência, pobreza e celibato. Esse tempo de preparação ocorreu na casa dos jesuítas em São Paulo, para onde se mudou junto com o Pe. Fialho de Vargas. Já nesse período, sentiu no coração o desejo de um grande apostolado, como se pode ler em seu caderno espiritual: “Sinto inclinação para os estudos e para dar missões, principalmente aos índios…” [4]. Longe de uma pretensão vaidosa, ele manifestava sinceramente um chamado ao “estado de perfeição apostólica para o qual foram chamados... os maiores santos da Igreja” [5]. Por isso temia muitas vezes não ser capaz de corresponder àquela tarefa.

Dada a tenacidade com que Leonel aproveitou a formação, não é nada espantoso o propósito ao qual ele se aplicou após o chamado “Retiro Grande” dos jesuítas. Ele escreveu o seu próprio “Regulamento” em nada menos que 54 páginas de um caderno, imbuído da máxima: Maledictus qui facit opus Dei negligenter, isto é, “Maldito o que faz com negligência a obra de Deus. Desde então, a humildade, a oração e a mortificação se tornaram como as três colunas de sua vida interior, mantendo-as especialmente pela devoção ao S. Coração de Jesus. De fato, Leonel vivia essa devoção como “o lugar do seu repouso” e via como seu dever torná-la mais e mais conhecida. Era sobretudo na Eucaristia que se sentia mais próximo do Coração de Cristo, tendo em vista este seu santo propósito: “ordenar todo o dia, todas as minhas ações em relação à Santa comunhão, tornando-a o centro de minha vida espiritual” [6]. Ademais, tinha também uma piedade bastante voltada para a Via Sacra, a Virgem Santíssima e São José.

Essa vida ascética ajudou Leonel Franca a chegar à ordenação ciente de que seu dever primeiríssimo não era tanto o estudo quanto sua santificação. “No trato íntimo e contínuo com Deus, na meditação da vida e exemplos de Jesus Cristo é que devo haurir todos os dias a luz para a inteligência e sobretudo a força para a vontade, insistia [7]. Em 1923, depois do estrondoso lançamento de A Igreja, a Reforma e a Civilização, ele ainda teria a emoção de uma crise cardíaca que quase o levou à morte. A comorbidade deixou-lhe sequelas para o resto da vida, impedindo-o de realizar certos projetos, como o de assumir uma das cátedras da Universidade Gregoriana. “O essencial na vida é fazer a vontade de Deus, e o programa que Ele traça a cada um de nós nem sempre coincide com o que fantasiamos nos entusiasmos de uma juventude ardente”, escreveu Leonel a respeito [8]. 

Seja como for, no dia 26 de julho do mesmo ano, festa de Sant’Ana no antigo calendário litúrgico, Leonel Franca foi ordenado sacerdote pelo Cardeal Basílio Pompili. O irmão, Pe. Leovigildo, acompanhou de perto como Leonel viveu “aqueles dias envolvido numa atmosfera toda sobrenatural; muito amável e alegre com todos, mas sentia-se que não estava neste mundo”. “Durante toda a sua vida de sacerdote”, anotou depois o Pe. Leovigildo, “meu irmão conservou sempre este fervor edificante na celebração da Santa Missa” [9]. Pe. Leonel Franca concluiu seus estudos em Roma, sendo aprovado no exame ad gradum com sumo louvor. Estava formado o sacerdote que iria conduzir os brasileiros, sobretudo os jovens, para o Caminho, a Verdade e a Vida:

Quando penso no movimento espiritual que traz a juventude ao seio da Igreja, quando penso no campo imenso que no Brasil está esperando por quem o cultive, quando penso ainda que até agora, nós no Brasil não temos feito nada, nada para salvar a juventude universitária, vêm-me as lágrimas aos olhos. Enfim, Nosso Senhor sabe o que faz [10].

De volta ao Brasil, ele imediatamente se viu obrigado a combater pela Igreja frente à investida do modernista José Oiticica [11]. A resposta afiada do Pe. Leonel contra as tendências anticlericais daquele senhor mereceu de Jackson de Figueiredo, diretor do Centro Dom Vital, um elogio profético: “A Companhia, decerto, compreenderá o que o sr. pode fazer de bem ao Brasil contemporâneo, pois não há católico de senso que não saiba que ao sr. cabe dirigir, neste momento, a atividade intelectual das novas gerações…” [12]. Sem dúvida, o Pe. Leonel, em breve, tornar-se-ia o líder dos intelectuais católicos no Brasil.

Monumento em honra a D. Sebastião Leme, bispo do Pe. Leonel Franca.

O trabalho intelectual do Pe. Leonel Franca não serviu apenas à causa da Igreja, mas também à sociedade civil. Durante os 20 anos em que esteve no Colégio Santo Inácio, ele empreendeu iniciativas tremendas. Por nomeação do Cardeal Sebastião Leme, o Pe. Franca dirigiu a Ação Universitária Católica, cuja finalidade era ajudar os estudantes a trabalharem pelo bem da sociedade segundo os princípios da fé católica. A partir disso, em 1930, ele organizou um grupo para pessoas dos cursos de Medicina, Direito, Engenharia etc., para instruí-los na doutrina sagrada. Grupos semelhantes foram surgindo em outras cidades, como São Paulo, onde a agremiação estudantil mais importante, o Centro XI de Agosto, passou a ser dirigida por católicos na sua maioria.

Do mesmo modo, D. Sebastião Leme confiou-lhe o cargo de assessor do Centro Dom Vital, pelo qual já se interessava desde 1923, quando esse importante instituto foi fundado por Jackson de Figueiredo. O Pe. Leonel Franca acompanhou o grupo frutuosamente até 1936. Das conferências que proferiu entre os anos de 1929 e 1930 a respeito dos obstáculos à fé, surgiu o livro A psicologia da fé, outro fenômeno editorial na época. A obra ganhou repercussão nacional e internacional, com vários artigos elogiosos.

O campo de atuação do Pe. Leonel Franca se estendeu também sobre a área do Direito. Outra vez por indicação de D. Sebastião Leme, Leonel passou a auxiliar a Sociedade Jurídica Santo Ivo, cuja missão era reunir magistrados, professores de Direito e advogados católicos para defender o país de leis iníquas e preservar o bem da família e da Igreja. Com esse espírito, o Pe. Leonel Franca conseguiu reintroduzir o ensino religioso nas escolas e debelar o grande erro da época, que ameaçava a família: o divórcio. Durante a reforma do Código Civil, Leonel Franca realizou incansáveis conferências, fustigando com argúcia os argumentos divorcistas. Essas conferências foram depois organizadas em livro com o título de O Divórcio, e ninguém mais ousou tocar no assunto naqueles anos, dada a força da pregação do Pe. Leonel

Com palavras bem acertadas, o prof. Alcebíades Delamare escreveu sobre o sábio sacerdote: “Feliz é o povo que pode inscrever nos índices dos seus mais altos valores mentais, na coluna dos seus mais puros quantitativos morais, um homem da estirpe intelectual e das virtudes angélicas de um Padre Leonel Franca” [13].

Dada a credencial desse digno sacerdote, qualquer um pode calcular o tamanho da encrenca que seria desafiá-lo para um debate. Os oponentes não sairiam sem o devido vexame, ainda que, em sua arte retórica, o Pe. Leonel sempre mantivesse o caráter pacífico, segundo o lema de S. Agostinho: Diligite homines, interficite errores, “Amai os homens, destruí os erros”. Assim se viram corrigidos os vários pastores protestantes que, depois do estupor provocado por A Igreja, a Reforma e a Civilização, quiseram reavivar a polêmica. Para socorrer Eduardo Carlos Pereira, o pastor Ernesto Luís de Oliveira publicou Roma, a Igreja e o Anticristo. Dizia-se que aquele seria o golpe fatal na Igreja Católica, mas, como escreveu Pe. Leonel, “a realidade mentiu às esperanças”, porque “o livro do sr. Ernesto não adianta um ponto à controvérsia; repisa apenas, em mau português, velhos lugares comuns mil vezes refutados” [14]. Pe. Leonel, em resposta, publicou o contundente Catolicismo e Protestantismo.

Não satisfeito, o pastor Othoniel Motta decidiu colocar um ponto final no debate, pois, como ele mesmo reconhecia, o primeiro livro do Pe. Franca havia “tonteado o mundo protestante” [15]. Acontece que, mais uma vez, o campeão dos jesuítas venceu a disputa, trazendo para as fileiras da Igreja muitos reformadores, inclusive um dos mais notáveis alunos do prof. Othoniel Motta, o dr. José Lopes Ribeiro, que declarou:

[...] o amor à verdade nos leva a confessar que, nem a obra do Dr. Lysanias de Cerqueira Leite, nem a do conhecido professor e escritor [Othoniel Mott], nenhuma delas, sob qualquer aspecto, pode comparar-se, em lógica, na exposição de textos bíblicos ou na interpretação dos fatos históricos, a mais esse monumento que o grande e humilde filho de Santo Inácio levanta, ad majorem Dei gloriam, à causa de Nosso Senhor na terra de Santa Cruz [16].

Esses debates, por sua vez, reforçaram em Pe. Leonel a necessidade de trabalhar ainda mais pelo bem intelectual do país. Ele queria, no fim das contas, edificar uma universidade católica que pudesse oferecer aos jovens estudantes o patrimônio intelectual da humanidade, bem como uma orientação segura em meio à complexidade do mundo moderno. O seu apostolado pedagógico atraiu tanto o respeito da sociedade, que o padre acabou trabalhando durante 17 anos no Conselho Nacional de Educação, tendo sido nomeado, em 1931, pelo presidente Getúlio Vargas. Como princípio orientador, o Pe. Leonel tinha a Ratio Studiorum dos jesuítas, que traduziu e comentou. Anos mais tarde, ele lançaria um de seus mais importantes livros: A crise do mundo moderno.

O seu sonho enfim se tornou realidade, em outubro de 1940, com a inauguração da primeira universidade católica do Brasil, no Rio de Janeiro, e sua nomeação como primeiro reitor da instituição, em dezembro do mesmo ano. Mais tarde, em 1946, o governo brasileiro reconheceu a nova instituição dentro da legislação nacional e, em 20 de janeiro de 1947, a Santa Sé concedeu-lhe o título de Pontifícia Universidade Católica, pelo decreto Laeta Coelo Arridens.

Esses últimos esforços, porém, foram bastante severos para a saúde já frágil do sacerdote, de modo que, em 1948, ele começou a apresentar sinais de grave esgotamento. Finalmente, no dia 3 de setembro do mesmo ano, o campeão dos jesuítas entrou na eternidade. A notícia de seu falecimento foi motivo de tristeza em todo o Brasil, suscitando as mais belas homenagens e o reconhecimento por parte de muitas personalidades da época. Na Missa de sétimo dia, a Companhia de Jesus mandou estampar o seguinte lema de recordação: “Amou a Igreja realizando a verdade na caridade”.

Tal foi a vida de quem tudo fez para conservar no coração dos brasileiros o estandarte da Cruz de Cristo. Apesar de sua morte, Pe. Leonel Franca deixou-nos “um monumento a atestar continuamente sua presença no meio de nossa geração, que ele instruiu com sua cultura e edificou com os exemplos de sua vida”, afirmou o Cardeal Jaime Câmara, então arcebispo do Rio de Janeiro, desejoso de que o legado daquele exímio sacerdote fosse preservado e desse frutos abundantes [17]. 

Nestes dias sombrios, em que a Igreja parece caminhar errante, como se houvesse esquecido o Caminho, a redescoberta do patrimônio intelectual e espiritual do Pe. Leonel Franca é tarefa mais do que desejada. É mesmo uma pena que esse eminente pastor de almas seja hoje tão pouco conhecido, sobretudo dentro da Igreja Católica, em cujas fileiras há quem o considere figura ultrapassada e de pouca monta. Mas voltar a esses mestres do passado não representa um retrocesso — não se trata de ressuscitar um “cavaleiro do apocalipse”, como talvez alguns o chamariam hoje —; trata-se, sim, de voltar às veredas de outrora, à boa via da salvação, da reta doutrina da qual jamais deveríamos ter saído, e andar por ela, como nos manda o Senhor (cf. Jr 6, 16). Afinal, Deus suscita profetas do meio do povo para, num mundo vacilante, nos trazer de volta à firmeza de sua Palavra.

Notas

  1. Pe. Leonel Franca, A Igreja, a Reforma e a Civilização. Campinas: Calvariae, 2020, p. 9.
  2. Luiz G. S. D’Elboux, O padre Leonel Franca. Rio de Janeiro: Agir, 1952, pp. 9-10.
  3. Id., p. 30.
  4. Id., p. 37.
  5. Id., ibid.
  6. Id., p. 43.
  7. Id., pp. 80-81.
  8. Id., p. 135.
  9. Id., p. 134.
  10. Id., p. 123.
  11. Militante anarquista e membro da Fraternidade Rosa Cruz, José Oiticica dirigiu um ataque infeliz à Igreja e ao Papado pelas páginas do Correio da Manhã, em 13 de fevereiro de 1926. A resposta do Pe. Leonel Franca veio dias depois, em O Jornal, despertando o vivo interesse dos leitores cariocas. Mas tão-logo percebeu a vulgaridade do opositor, Pe. Franca guardou silêncio, deixando-o falar sozinho ao longo de mais de um mês. Depois de 15 artigos, quando José Oiticica cessou a ofensiva, então o Pe. Leonel mandou publicar Relíquias de uma polêmica, colocando um ponto final na questão. “Deus o inspirou, com a publicação do seu trabalho. Porque se o novo Sancho do leninismo não se confundir com os seus avisos, nós, católicos, sem letras, acharemos muito que aprender e aproveitar no repleto celeiro do seu livro”, disse um dos admiradores do Pe. Franca dentre as centenas que escreveram ao jornal, parabenizando-o pela coragem e sabedoria.
  12. Id., p. 157.
  13. Id., p. 190.
  14. Pe. Leonel Franca, O Protestantismo no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. ABC, 1938, p. 12.
  15. Luiz G. S. D’Elboux, op.cit., p. 223.
  16. Id., p. 227.
  17. A Editora Realeza preparou uma reedição limitada das “Obras Completas” do Padre Leonel Franca, já à venda.

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Faça um aluno!
Padre Paulo Ricardo

Faça um aluno!

Faça um aluno!

Ainda não é nosso aluno? Torne-se um! Mas, se já é nosso aluno, dê um passo a mais: traga outra pessoa para se tornar membro de nossa família apostólica!

Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Abril de 2021Tempo de leitura: 1 minutos
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Com o vídeo a seguir, Padre Paulo Ricardo está lançando a campanha “Faça um aluno”.

É claro: se você ainda não é nosso aluno, isso significa que é você, em primeiro lugar, quem deve se tornar um membro de nossa família apostólica.

Mas, para aqueles que já assinam nossos cursos, este convite é para que dêem um passo a mais e tragam outras pessoas para fazer parte de nossa obra de evangelização. 

Nosso Senhor nos ensina, no Evangelho, que precisamos “ganhar” os nossos irmãos. Isto é, não basta que eu conheça a verdade: assim como os Apóstolos, depois de pescados por Cristo, se tornaram “pescadores de homens”, também eu, uma vez encontrado por Deus e reconciliado com Ele, preciso sair ao encontro dos que me rodeiam…

Na verdade, é quase automático, para quem se converte, esse ato de sair e anunciar a verdade conhecida. O coração de fato transformado por Deus não consegue manter em segredo a sua descoberta. Naturalmente ele sente a necessidade de contar aos outros o que lhe aconteceu, naturalmente ele sai de si; em outras palavras, todo cristão é um apóstolo.

O que acontece, não poucas vezes, é de não sabermos como conquistar o próximo para Cristo, talvez porque sintamos dificuldades em transmitir o que aprendemos, ou porque nos falte a habilidade para falar bem, persuadir o outro, explicar as coisas da fé.

E é por isso que queremos convidar você a usar o nosso site como um instrumento do seu apostolado. Todos os nossos cursos foram pensados justamente para isso, seja no sentido de despertar os que ainda dormem, seja com a ideia de dar solidez às conversões que já aconteceram.

Mas o mais belo de tudo isso é o que São Tiago ensina em sua Carta (5, 19-20): “Meus irmãos, se alguém fizer voltar ao bom caminho algum de vós que se afastou para longe da verdade, saiba: aquele que fizer um pecador retroceder do seu erro, salvará sua alma da morte e fará desaparecer uma multidão de pecados”. Ou seja, ao assistir uma outra pessoa na fé, você salva não só a alma dela, como ajuda a salvar a sua própria!

Por isso, o que você ainda está esperando? Faça um bem ao próximo e a si mesmo! Seja um apóstolo conosco e… “Faça um aluno”! 

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Deus, o vinho e as Sagradas Escrituras
Doutrina

Deus, o vinho
e as Sagradas Escrituras

Deus, o vinho e as Sagradas Escrituras

É muito comum que se celebrem ocasiões especiais com uma boa taça de vinho. Mas também a Bíblia está cheia de referências a essa bebida, principalmente no Evangelho, onde Jesus transforma a água em vinho e converte este líquido em seu próprio Sangue.

Mark HaasTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Abril de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Cresci numa casa em que o vinho era presença constante. Católico de berço, vi adultos tomarem vinho em diversas ocasiões, seja durante uma festa ou uma reunião. Em casa, partilhávamos uma abençoada taça de vinho para celebrar qualquer ocasião especial, como uma primeira comunhão, um aniversário de batismo etc. Alguns de meus amigos não católicos ficavam espantados de ver o espaço de nossa geladeira reservado aos vinhos. 

Qual o problema do vinho? As Sagradas Escrituras são claras: Deus ama o vinho!

No Antigo Testamento, o vinho é usado como símbolo poderoso. Ele representa a sabedoria (cf. Pr 9, 1-5; Eclo 17-21), a Lei e as bodas (cf. Ct 1, 2ss; 4, 10; 5, 1; 7, 2). O profeta Isaías fala de uma reunião de todos os povos para um “festim de vinhos”, no qual Deus irá salvá-los (cf. Is 25, 6-9). O profeta Amós prediz os dias em que Deus restaurará o reino de Davi e “o vinho correrá pelas montanhas e todas as colinas derreterão” (Am 9, 13).

As bodas em Caná.

Jesus usa vinho ao longo de todo o Evangelho. Seu primeiro milagre ocorreu durante as famosas bodas de Caná. Jesus e sua Mãe foram à festa, mas o noivo ficou sem vinho que servir aos convidados. Hoje, ficar sem ter o que servir em uma festa ou reunião pode ser uma frustração ou um inconveniente menor, tanto para o anfitrião quanto para os convidados. Mas, na antiga tradição judaica, ficar sem vinho durante uma festa de bodas teria sido uma gafe catastrófica, capaz de destruir a posição social da família na comunidade. 

Maria percebe a iminente calamidade e diz a Jesus: “Eles não têm vinho” (Jo 2, 3). A afirmação desencadeia o primeiro milagre público de seu Filho. Maria vê as necessidades das pessoas e intercede por elas. Depois de uma breve conversa com Nosso Senhor, Maria diz aos servos: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2, 5). A interação entre Maria e Jesus é muito similar à doutrina católica sobre a oração de intercessão mariana. Assim como os convidados das bodas, nós recorremos a Maria com nossas orações. Maria, por sua vez, as apresenta diretamente a Deus com esperanças de bênçãos abundantes. Nosso Senhor Jesus Cristo, que não se deixa vencer em generosidade (cf. 2Cor 8, 2), abençoa então as nossas vidas com transbordante generosidade. 

Depois de ouvir a intercessão de sua Mãe, Jesus acolhe com benevolência a solicitação. Quando Deus deseja fazer vinho, Ele o faz em abundância. As talhas de pedra usadas no ritual judaico comportariam entre 20 e 30 galões de água (cf. Jo 2, 6). Ao todo, Jesus encheu milagrosamente 120 galões de vinho! Sabemos que aquele era o vinho mais saboroso e fermentado:

Logo que o chefe dos serventes provou da água tornada vinho, não sabendo de onde era (se bem que o soubessem os serventes, pois tinham tirado a água), chamou o noivo e disse-lhe: “É costume servir primeiro o vinho bom e, depois, quando os convidados já estão quase embriagados, servir o menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora” (Jo 2, 9-10).

Jesus produziu o melhor vinho, um vinho celestial, para que durasse até o final da festa.

Isso, obviamente, não equivale a dizer que a Bíblia admita a embriaguez. Pelo contrário, as Escrituras são claras ao apontar que sempre se deve evitar bebida em excesso. Depois de fazer vinho, Noé logo ficou bêbado e caiu (um paralelo com Adão), perpetuando o ciclo de falhas humanas que perdura em todo o Velho Testamento (cf. Gn 9, 21). No Novo Testamento, S. Paulo alerta sobre o uso de bebida em excesso (cf. 1Tm 3, 8; 1Cor 5, 11). É melhor beber vinho com moderação: “Sede sóbrios e vigiai” (1Pd 5, 8).

Em preparação para a morte de Cristo, o vinho mostra-se um símbolo relevante para dirigir nossa atenção à crucifixão. Consideremos a comparação tipológica entre a Páscoa judaica, no Livro do Êxodo, e a Paixão do Senhor, nos Evangelhos. Depois de salvar os israelitas dos grilhões da escravidão, Moisés foi instruído por Deus a celebrar uma ceia perpétua seguindo instruções bastante específicas: Deus diz a Moisés que sacrifique um cordeiro de um ano de idade, puro, sem mácula nem qualquer osso quebrado. Deus lhe diz então que colete o sangue do cordeiro em uma tigela e pinte os batentes das portas dos israelitas com ele, usando para isso um feixe de hissopo (cf. Ex 12, 21ss). Esse momento histórico foi entronizado na tradição judaica com a celebração anual da Páscoa. 

É interessante notar que nessa antiga refeição pascal eram servidos quatro cálices de vinho, que representavam a libertação dos israelitas da escravidão [1]: 

  1. O cálice da santificação: Eu vos farei sair
  2. O cálice da libertação: Eu vos resgatarei
  3. O cálice da redenção: Eu vos redimirei
  4. O cálice do louvor: Eu vos tomarei como meu povo (cf. Ex 6, 6-7).

Um quinto cálice era reservado a Elias, na esperança de que ele os visitasse durante a celebração. Dessa taça não se bebia.

Avancemos rapidamente até Nosso Senhor Jesus Cristo, que João Batista disse ser “o Cordeiro de Deus” (Jo 1, 29). Jesus, o novo Cordeiro sacrificial, celebrou a Páscoa judaica com seus discípulos na Santa Ceia:

Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-o, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: “Tomai e comei, isto é o meu corpo”. Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo: “Bebei dele todos, porque isto é o meu sangue, o sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens em remissão dos pecados. Digo-vos: doravante não beberei mais desse fruto da vinha até o dia em que o beberei de novo convosco no Reino de meu Pai” (Mt 26, 26-29).

Jesus declara que não beberá o último cálice de vinho até que o Reino de seu Pai esteja completo.

No dia seguinte, durante sua Paixão, Jesus se recusa a tomar qualquer vinho: “Deram-lhe de beber vinho misturado com fel. Ele provou, mas se recusou a beber” (Mt 27, 34). Jesus então é elevado na Cruz, e lhe oferecem vinho de novo:

Em seguida, sabendo Jesus que tudo estava consumado, para se cumprir plenamente a Escritura, disse: “Tenho sede”. Havia ali um vaso cheio de vinagre. Os soldados encheram de vinagre uma esponja e, fixando-a numa vara de hissopo, chegaram-lhe à boca (Jo 19, 28-29).

Depois de finalmente receber o vinho numa vara de hissopo, Jesus disse: τετέλεσται (tetélestai), “está consumado”. O que estava consumado? Na noite anterior, Jesus omitira o quarto cálice da ceia pascal, transformando-o na ceia pascal da Nova Aliança: a Sagrada Eucaristia. Nosso Senhor e Salvador bebe agora da taça final, que estava reservada a Elias. Numa interpretação bastante convincente, o dr. Scott Hahn, estudioso bíblico católico, sugere que a nova celebração pascal termina quando Jesus recebe o vinho na Cruz. Cristo recebe o cálice final, que consuma a Nova Aliança. O cálice final está agora à disposição de todos os que recorrem a Ele na Santa Eucaristia. 

O plano de salvação de Deus é apresentado por meio do consumo físico de pão e de vinho. Que nós possamos eternamente “comer e beber e encontrar satisfação em todo o nosso trabalho, pois esse é o dom de Deus” (Ecle 3, 13).

Notas

  1. “À primeira vista, o vinho pode não parecer tão essencial ao seder quanto, digamos, o cordeiro ou o pão ázimo. Na verdade, ele não aparece nas rubricas prescritas pela Torá. Os historiadores acreditam que os quatro cálices de vinho foram acrescentados depois a fim de sublinhar o sentido festivo do banquete — ‘vinho para alegrar o coração do homem’ (Sl 104, 15).” (Scott Hahn. The Fourth Cup. New York: Image, 2008, pp. 107-108. A nota e a tradução são nossas.)

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Como ser ou escolher um bom padrinho de batismo?
Espiritualidade

Como ser ou escolher
um bom padrinho de batismo?

Como ser ou escolher um bom padrinho de batismo?

Se você foi convidado a ser padrinho, ou está à procura de um para o seu filho, lembre-se: este é um papel que deve ser levado muito a sério. As ações de um bom padrinho podem fazer, de fato, uma diferença eterna na nossa vida e na de nossos filhos.

Woodeene Koenig-BrickerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Abril de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Ser padrinho é uma daquelas honras e responsabilidades, não tão bem compreendidas, que alguns de nós somos chamados a assumir em nome de crianças, da família e de amigos. Embora possamos estar dispostos, nem sempre sabemos o que significa ser padrinho.

O papel do padrinho se desenvolveu a partir do catecumenato da Igreja primitiva. Sua função era garantir que uma pessoa estivesse pronta para receber os três sacramentos de iniciação — Batismo, Eucaristia e Confirmação — e, depois, ajudá-la a viver a vida cristã. Foi no início da Idade Média, quando o batismo de crianças se estabeleceu firmemente, que se popularizou o termo patrinus, ou “padrinho”; na Igreja antiga, essas pessoas também eram chamadas de sponsores, offerentes, susceptores e fidejussores — termos latinos que significam, em suma, “patronos” ou “testemunhas” [1].

A Igreja primitiva sabia que um padrinho tinha uma função prática bem definida; hoje, porém, ser padrinho é visto muitas vezes como uma honra cerimonial (por exemplo, quando Bono Vox, da banda de rock U2, foi nomeado “padrinho” dos gêmeos de Brad Pitt e Angelina Jolie, crianças que provavelmente jamais verão o interior de uma igreja, muito menos serão batizadas ou confirmadas). O padrinho é visto ora como uma fada madrinha da vida real, que serve para dar presentes em ocasiões especiais, ora como uma espécie de tutor civil, encarregado de assumir a educação da criança no caso de os pais biológicos morrerem.

Na verdade, nada disso tem a ver com a função real de um padrinho. Essencialmente, um padrinho é quem ajuda e auxilia no desenvolvimento espiritual de uma criança (às vezes de um adulto convertido que é uma “criança” na fé). Como diz o Código de Direito Canônico: “Dê-se, quanto possível, ao batizando um padrinho, cuja missão é assistir na iniciação cristã ao adulto batizado, e, conjuntamente com os pais, apresentar ao batismo a criança a batizar e esforçar-se por que o batizado viva uma vida cristã consentânea com o batismo e cumpra fielmente as obrigações que lhe são inerentes” (Cân. 872).

Certos requisitos e responsabilidades com relação aos padrinhos devem ser cumpridos de acordo com a lei da Igreja [2], mas ainda permanece uma pergunta prática: o que faz um bom padrinho?

“O Batismo”, de Pietro Longhi.

Em primeiro lugar, um padrinho deve ser uma pessoa de fé profunda. Sua responsabilidade é ajudar a desenvolver e estabelecer a fé no afilhado. Por isso, é essencial que ele entenda a doutrina católica e viva a fé diariamente, de maneira pessoal e profunda. Você não pode transmitir aquilo em que não acredita total e completamente. Não basta conhecer a fé; um padrinho deve vivê-la. Isso significa ter o hábito de assistir à Missa aos domingos e observar as leis da Igreja. Mas significa também ser comprometido com o próprio crescimento espiritual, de maneira contínua através do estudo, da oração, dos sacramentos e das obras de misericórdia corporais e espirituais.

Um bom padrinho também está, na medida do possível, envolvido positivamente na contínua experiência de fé do afilhado. Isso não significa apenas estar fisicamente presente no batismo ou na confirmação, mas assumir um papel tão ativo quanto na preparação para a primeira confissão e a primeira comunhão, bem como, mais tarde, para o matrimônio ou as Ordens sagradas. Isso significará, no mais das vezes, um encorajamento, um apoio ou um entusiasmo ao próprio afilhado; nos casos, porém, em que os pais não puderem ou não levarem o filho à catequese, ou não o acompanharem na preparação para os sacramentos, os padrinhos precisam estar dispostos a intervir de maneira mais incisiva.

À medida que as crianças crescem, comemorar o dia do batismo e/ou da confirmação com uma ligação, uma visita, um cartão ou um presente apropriado pode ajudar a manter intactos esses laços espirituais. Em suma, um bom padrinho caminha ao longo de toda a jornada da com o afilhado, não apenas em seus primeiros passos ou nas comemorações.

Um padrinho pode ser particularmente valioso ao oferecer uma referência segura para discutir dúvidas e resolver perguntas, sobretudo quando os afilhados chegam à adolescência. Os pais, naturalmente, ficam nervosos quando os filhos começam a questionar os ensinamentos da Igreja em temas morais. Um padrinho pode ser a pessoa que ouvirá e falará sobre tais questões, emocionalmente pesadas, sem entrar na defensiva ou na ofensiva. Os adolescentes podem achar mais fácil discutir com outra pessoa assuntos como a doutrina da Igreja sobre o sexo fora do casamento, a contracepção, a homossexualidade etc., embora questões sobre a divindade de Jesus, o significado da salvação e a importância de ser católico sejam também pontos importantes de discussão com um padrinho.

Outra área em que um bom padrinho pode fazer a diferença é na exposição aos sacramentais e às práticas devocionais. Embora não seja necessário sobrecarregar os afilhados com quinquilharias religiosas, garantir que eles tenham um Rosário digno, uma medalha do santo padroeiro, uma Bíblia católica e um crucifixo é certamente um dever importante dos padrinhos.

O mesmo se aplica às devoções. Garantir que os afilhados saibam rezar o Rosário, dizer as estações da Via-Sacra e conhecer os santos, as novenas e as práticas sazonais de piedade, como a coroa do Advento, são outras maneiras de os padrinhos serem proativos na vida dos afilhados, sem correr o risco de serem invasivos.

Obviamente, tudo isso supõe que o padrinho more perto o bastante do afilhado, a ponto de poder estar presente com certa regularidade, o que nem sempre é o caso na sociedade móvel de hoje. É por isso que o ato mais importante de um padrinho em favor do afilhado é a oração regular e constante. Como disse o poeta Alfred Tennyson: “Mais coisas são feitas pela oração do que este mundo pode sonhar”. Embora seja verdade que os pais são os principais mestres na fé, os padrinhos podem fazer uma enorme diferença em como essa fé lança raízes, ao encomendarem na oração os seus afilhados.

Se você for convidado a ser padrinho (ou estiver pensando em escolher um), lembre-se de que esse papel deve ser levado a sério, pois as ações de um bom padrinho podem fazer, de fato, uma diferença eterna na vida de uma criança.

Notas

  1. Este parágrafo foi adaptado para explicar com mais clareza a origem da função dos padrinhos. Sua complementação foi retirada de: William Fanning, “Baptism”. The Catholic Encyclopedia, 1907.
  2. A esse respeito, ler o que diz o Código de Direito Canônico, Cân. 874, § 1: “Para alguém poder assumir o múnus de padrinho requer-se que: 1.º seja designado pelo próprio batizando ou pelos pais ou por quem faz as vezes destes ou, na falta deles, pelo pároco ou ministro, e possua aptidão e intenção de desempenhar este múnus; 2.º tenha completado dezesseis anos de idade, a não ser que outra idade tenha sido determinada pelo Bispo diocesano, ou ao pároco ou ao ministro por justa causa pareça dever admitir-se exceção; 3.º seja católico, confirmado e já tenha recebido a santíssima Eucaristia, e leve uma vida consentânea com a fé e o múnus que vai desempenhar; 4.º não esteja abrangido por nenhuma pena canônica legitimamente aplicada ou declarada; 5.º não seja o pai ou a mãe do batizando.”

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