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Por que precisamos voltar a ler o Martirológio?
Santos & Mártires

Por que precisamos
voltar a ler o Martirológio?

Por que precisamos voltar a ler o Martirológio?

É hora de voltarmos a ler o Martirológio Romano — como Igreja militante reunida em torno dos membros mais ilustres da Igreja triunfante; como irmãos reunidos para folhear e admirar o álbum de sua família.

Equipe Christo Nihil Praeponere2 de Setembro de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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Em nosso trabalho diário, incessante e incansável, de resgatar as tradições de nossos antepassados e repassá-las às futuras gerações, um livro não pode faltar: o Martirológio Romano.

Apesar do nome, o livro elenca santos e beatos diversos da Santa Igreja, não apenas os que morreram pela fé. Na explicação do prof. Peter Kwasniewski:

O Martirológio Romano começou como uma antiga lista dos nomes dos mártires em seu dies natalis, isto é, nos dias em que eles nasceram para a glória celeste. Foi-se incrementando século após século, à medida que confessores, Doutores, monges, eremitas, frades, virgens, viúvas, reis, rainhas e outros se juntavam à procissão dos mártires através dos séculos. Trata-se de um livro litúrgico, de fato, porque é recitado ou cantado como parte do igualmente antigo ofício de Prima. (O costume é ler a lista de santos do dia seguinte, o que nos prepara mentalmente para as I Vésperas de qualquer grande festa próxima e, em geral, nos faz lembrar com antecedência dos santos de que queiramos fazer memória.) Ele também transmite a fé da Igreja e continua a ser usado pelos religiosos, clérigos e fiéis leigos que aderiram ao usus antiquior do Rito Romano.

A Prima é uma hora canônica do rito antigo, não mais presente nos livros litúrgicos pós-conciliares. Era rezada após as Laudes, e sua composição, bastante rígida, se concentrava em pedir a Deus luzes e forças para os trabalhos do dia que começava. No meio desse ofício, era prescrita a leitura do Martirológio, com a qual se pedia a intercessão dos santos, ao mesmo tempo que um breve elogio de suas vidas era proposto à nossa meditação, como exemplo a ser seguido.

É claro que, com a abolição da hora Prima — a qual, diferentemente de outros itens da reforma litúrgica, foi pedida pelo próprio Concílio Vaticano II —, também se tornou menos comum o uso e a leitura quotidiana do Martirológio. Seu valor, no entanto, não só permanece: à medida que se aprofunda cada vez mais o processo de “protestantização” no seio da Igreja, sua importância hoje talvez seja muito maior do que 60 anos atrás.

“O Martírio de Santo André”, por Pedro Paulo Rubens.

Sim, é lastimável dizê-lo, mas os católicos de nossa época infelizmente perderam o contato que os fiéis de outras épocas tinham com os santos — com seus tríduos, novenas e ladainhas. Numa ânsia por nos aproximar dos evangélicos, terminamos acolhendo seus postulados e incorporando-os em nossa vida; é como se, de repente, tivéssemos ficado “com medo” de invocar os santos, celebrar suas memórias e ter imagens deles em casa. Nas próprias igrejas católicas, muitas festas tradicionais em honra dos santos se perderam, e os lugares que a eles se reservavam nos templos foram miseravelmente esvaziados, quando não destruídos por completo. 

Esse estado de coisas precisa mudar, a começar pelas nossas próprias casas. Assim como nos relacionamos no dia a dia com os que amamos — nossos cônjuges e filhos, parentes e amigos —, precisamos também criar uma familiaridade com os santos e santas da Igreja. Afinal de contas, se com a graça de Deus viermos a nos salvar, é no convívio com essas almas bem-aventuradas que passaremos a eternidade depois desta vida. Se nossa morada permanente de fato não é neste mundo — como confessamos todos os domingos ao dizer: “Creio… na vida eterna” —, precisamos nos esforçar desde já por conhecer os nossos vizinhos do outro mundo. 

Com efeito, como seremos verdadeiros “membros da família de Deus”, “concidadãos dos santos” (Ef 2, 19), se não tivermos intimidade com eles, se não soubermos ao menos quem foram e por que morreram? 

É claro que, para conhecer a fundo a vida dos santos, o Martirológio Romano não será suficiente. O elenco dos santos e beatos aí presente, além de não ser exaustivo, não contém biografias extensas. De todo modo, sua leituraespecialmente se assídua, quando não quotidianajá é um começo e tanto, que nos ajudará também a orientar nossos dias de acordo com o calendário litúrgico da Igreja. 

Sim, porque os católicos, além do ano civil, com seus meses e dias determinados, têm uma marcação transcendente do tempo, orientada pelos mistérios da nossa fé, pelos eventos extraordinários da vida dos santos e por muitas outras devoções que recebemos de nossos antepassados. Assim, janeiro é o tempo do Natal; fevereiro e março, da Quaresma; em abril temos a Paixão do Senhor e sua Páscoa; em maio, Nossa Senhora; em junho, os célebres Santo Antônio, São João Batista e São Pedro; em julho, o Preciosíssimo Sangue de Cristo; em agosto, São Lourenço e as vocações; em setembro, São Miguel Arcanjo; em outubro, os Santos Anjos e o Rosário de Nossa Senhora; em novembro, as almas do Purgatório; em dezembro é Advento; e no ano seguinte começamos tudo de novo...

Como era belo, também nesse sentido, o costume de dar aos filhos os nomes dos santos! As crianças já nasciam protegidas por companheiros celestes, recebendo desde o princípio as bênçãos de seus santos padroeiros! Os dias destes, marcados pelo Martirológio, eram celebrados com festa igual ou até maior que a dos aniversários natalícios! Eis a tradição do aniversário onomástico, que precisamos recuperar.

“O Martírio de São Pedro”, por Caravaggio.

Outra coisa em que o Martirológio nos ajuda muito, com os relatos tantas vezes perturbadores de como morreram os mártires, é na lembrança destas palavras de Nosso Senhor, das quais nós, seja por ingenuidade, seja pela adesão a certas ideologias, acabamos nos esquecendo: Mundus vos odit, “O mundo vos odeia” (Jo 15, 18). Das primeiras perseguições dos imperadores romanos, passando pelas expansões islâmicas, e pelos morticínios das revoluções “iluministas”, até os campos de concentração modernos, a história é um testemunho vivo desta verdade.

Muitos de nós, em alguns lugares, ficamos “mal acostumados” com a relativa paz de que gozávamos no exercício de nossa religião. Mas as notícias mais recentes — de cidadãos tendo desrespeitadas as suas liberdades mais básicas e fundamentais; de famílias vendo o direito de educar os próprios filhos ameaçado por um Estado cada vez mais ingerente; de regimes totalitários e assassinos perseguindo abertamente os discípulos de Cristo — vêm para nos chacoalhar e lembrar: não fomos feitos para o conforto deste mundo passageiro. Não à toa o príncipe dele é justamente o antagonista de Cristo, o verdadeiro “Príncipe da Paz” de que fala a Escritura (cf. Is 9, 6). 

Em suma, precisamos nos preparar para as perseguições que se avizinham. E que modo pode haver melhor de fazer isso, senão olhando para os que nos precederam e venceram antes de nós as mesmíssimas batalhas que estamos prestes a travar

Por isso, é hora de voltarmos a ler o Martirológio Romano — como Igreja militante reunida em torno dos membros mais ilustres da Igreja triunfante; como irmãos reunidos para folhear e admirar o álbum de sua família. Olhando para a vitória dos mártires, das virgens e dos confessores, ganharemos ânimo no caminho deste “vale de lágrimas”. Descansando para beber água na fonte de sua glória, receberemos graças, forças, para combater nossos inimigos. 

Os que tiverem afinidade com a liturgia antiga, podem acrescentar o Martirológio todos os dias em suas orações matinais, recitando a hora Prima. Saibam todos, porém, que essa obra está à disposição de todos, seja em sua forma mais atualizada, disponível aqui, seja em suas edições mais antigas. Nunca o tesouro da vida dos santos esteve tão facilmente acessível!

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O egoísmo e a instabilidade dos casamentos fechados aos filhos
Família

O egoísmo e a instabilidade
dos casamentos fechados aos filhos

O egoísmo e a instabilidade dos casamentos fechados aos filhos

Por que os casais que escolhem não ter filhos são, em última instância, egoístas e instáveis? Qual o problema com essa falta de desejo, que infelizmente parece estar se alastrando pelo Ocidente nos dias de hoje?

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Setembro de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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Muitos séculos antes de Cristo, Aristóteles registrou a seguinte observação em sua Ética a Nicômaco: “Os filhos parecem ser um vínculo de união. Logo, casais estéreis se separam mais facilmente, pois os filhos são um bem comum às duas partes, e o que é comum preserva a amizade” [1]. No século XIII, Santo Tomás de Aquino fez o seguinte comentário a essa passagem: 

Em seguida, [Aristóteles] indica um meio de fortalecer essa amizade [do matrimônio]. Ele observa que os filhos parecem ser causa de uma união estável e duradoura. Logo, casais estéreis se separam mais facilmente. De fato, no passado, o divórcio era concedido por causa da esterilidade. A razão disso é que os filhos são um bem comum ao marido e à mulher, cuja união existe pelo bem dos filhos. Mas o que é comum continua e preserva a amizade, que também consiste em compartilhar (communicatio), como foi dito.

O Papa João Paulo II, um filósofo da moral muito familiarizado com Aristóteles e Santo Tomás, parece ter pensado justamente nisso quando escreveu o seguinte em sua Carta às Famílias

No recém-nascido realiza-se o bem comum da família. Assim como o bem comum dos esposos se cumpre no amor esponsal, pronto a dar e a acolher a nova vida, do mesmo modo bem comum da família se realiza mediante o mesmo amor esponsal concretizado no recém-nascido (n. 11).

Nem o filósofo iluminista Baruch Spinoza (1632-1677) — um moderno obstinado que afirmou que as coisas não agem por natureza com vistas a um fim e que as causas finais são produtos de nossa fantasia — foi capaz de negar em sua Ética que o matrimônio está inerentemente ligado aos filhos [2]. Foi como se os próprios fatos o forçassem a dar assentimento:   

Com relação ao matrimônio, certamente está em conformidade com a razão o fato de que o desejo de união física pode não ser provocado apenas pela beleza corporal, mas também pelo desejo de gerar filhos e educá-los; e mais ainda: o amor entre os dois, isto é, entre homem e mulher, pode não ser causado apenas pela beleza corporal, mas também pela liberdade da alma.   

Portanto, não estamos completamente despreparados para a observação um tanto ácida de Blaise Pascal (1623-1662), extraída de seus Pensamentos, segundo a qual os filhos são um bem tão grande para o matrimônio, que os casais que os evitam de forma egoísta são piores do que os fornicadores:

Não é a bênção nupcial [da Igreja] que remove o pecado da procriação, mas o desejo de gerar filhos para Deus, o que só é genuíno no matrimônio… As filhas de Ló, por exemplo, que só queriam ter filhos, eram mais puras sem o casamento do que as pessoas casadas que não desejam ter filhos.

Qual é o problema com essa falta de desejo? O que ela nos diz? Poderíamos começar com as incisivas observações de Gabriel Marcel, que descreve em sua obra Homo Viator a contradição da contracepção:

Os defensores do controle de natalidade alegam, de forma mais ou menos sincera, que é por piedade que se recusam a dar aos seus descendentes a chance de existir; mas ainda assim não podemos deixar de observar que essa piedade concedida a um custo baixo, não a seres vivos, mas a uma ausência de ser ou ao nada, é vista juntamente com uma oportunidade suspeitosamente positiva de satisfazer ao mais cínico egoísmo. Além disso, dificilmente ela pode ser separada de uma filosofia empobrecida que mede o valor da vida humana pelos prazeres e conveniências que proporciona.  

O que Marcel está fazendo é apontar o egoísmo inerente ao desejo de “manter o casamento apenas para nós dois”. Isso é contrário à sua própria natureza, que é boa, já que as coisas boas são feitas para ser compartilhadas, disseminadas, multiplicadas e perpetuadas. Se não quisermos multiplicar os pães e peixes que Deus nos deu uma capacidade natural de multiplicar, faremos passar fome a nós mesmos e aos outros. Se não buscarmos uma imagem viva de nosso amor, por meio da qual ele possa transcender a si mesmo e demandar ainda mais amor, levantaremos propositalmente uma barreira para o amadurecimento da amizade, o aumento das virtudes e o crescimento de nossa humanidade. Em suma, isso é autoparalisação, autoisolamento, autoimplosão. Tudo gira ao redor de um dos cônjuges. O pouco de atenção que sobra para o outro só serve para suprir as necessidades de uma das partes, não sobrando nada para mais ninguém [3]. Não à toa Aristóteles e Santo Tomás consideram esse tipo de relação instável e prestes a desintegrar-se.

É verdade que essa descrição só se aplicaria plenamente àqueles que estão tomados por uma mentalidade antifamília extrema, o que infelizmente parece estar se alastrando pelo Ocidente nos dias de hoje. Mas esse é o ponto mais baixo, o caso limite de uma tendência de pensamento e sentimento que não consegue enxergar (ou se recusa a fazê-lo) o quanto o amor esponsal é literalmente “corporificado na criança recém-nascida”

A sabedoria da Igreja Católica é muito diferente da loucura do mundo. Sua doutrina inspira, desafia e consola. Na encíclica Casti Connubii, o Papa Pio XI expressa essa sabedoria: 

Acresce que Deus quis que os homens fossem gerados, não somente para que existam e encham a terra, mas, muito mais, para que sejam adoradores de Deus, o conheçam e amem e, enfim, dele fruam perenemente nos céus. Este fim, em razão da admirável elevação do homem à ordem sobrenatural por Deus, supera tudo o que o olho viu, e o ouvido ouviu e o coração do homem concebeu (cf. 1Cor 2, 9). Daí se vê facilmente o quanto a prole, nascida pela onipotente virtude de Deus, cooperando para isso os cônjuges, é dom da divina bondade e fruto egrégio do matrimônio.

Que modo privilegiado de compartilhar o maior dos bens — batizar filhos e filhas, educá-los no temor e no amor a Deus e pô-los no caminho da vida eterna com Ele e todos os santos —, e fazê-lo como casal, como família!

Notas

  1. Quem se der ao trabalho de ler o texto completo, perceberá que a crítica do autor não é aos casais naturalmente estéreis ou com dificuldades para procriar, mas àquelas pessoas que escolheram, deliberadamente, fechar o seu casamento à geração da vida (N.T.).
  2. A caracterização de Spinoza como um filósofo do Iluminismo é historicamente imprecisa, mas já nele se encontram muitos elementos típicos dos “ilustrados” (N.T.).
  3. No original: It is all about me, a little about you inasmuch as you serve my perceived needs, and nothing about anyone else. Traduzindo literalmente, “é tudo sobre mim, um pouco sobre você (na medida em que sirva às minhas necessidades) e nada sobre mais ninguém” (N.T.).

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34 vezes que os muçulmanos nos deram mártires
Santos & Mártires

34 vezes que os
muçulmanos nos deram mártires

34 vezes que os muçulmanos nos deram mártires

Desde o seu surgimento, no século VII, o islamismo deixou um rastro de crueldade e destruição por onde passou. As mais recentes notícias vindas do Oriente não nos deixam mentir, mas também a história o demonstra com meridiana clareza.

Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Setembro de 2021Tempo de leitura: 9 minutos
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As notícias que o mundo inteiro tem recebido do Afeganistão, agora que os talibãs tomaram o controle do país, são absolutamente lamentáveis: além das inúmeras vidas ceifadas — e das exibições ostensivas de crueldade contra civis —, a informação de que transportes e armamentos potentíssimos estão nas mãos do grupo muçulmano só nos deixa ainda mais inquietos. A exemplo do bom samaritano, somos chamados a socorrer os nossos irmãos no Oriente ao menos com orações e sacrifícios. 

Por outro lado, todas essas notícias não deveriam ser uma “novidade”: o islamismo, desde o seu surgimento, no século VII, sempre deixou um rastro de crueldade e destruição por onde passou. A história e o presente o demonstram com meridiana clareza.

Três razões para não ser muçulmano

Antes de entrar na história, é sempre bom recordar as breves mas imortais palavras de Santo Tomás de Aquino, que dá três razões para mostrar ser em si mesmo leviano e insensato crer no islã: 

  1. ausência de confirmação sobrenatural (ou seja, por milagres) dos ditos de Maomé; 
  2. o fato de o islamismo ter-se espandido pela força das armas e contado entre seus primeiros adeptos homens rudes e mal instruídos; 
  3. ausência de profecias passadas que atestem a instituição divina da lei corânica.

A rápida expansão da nova seita, por sua vez, explica-se facilmente pela índole de suas promessas (prazeres sexuais no paraíso, por exemplo) e de seus preceitos (puramente externos, sem necessidade de mortificação interior), à qual o homem caído está naturalmente inclinado. Eis o que diz o Aquinate (CG I 6, n. 7): 

Os que introduziram seitas errôneas procederam pela via contrária, como é evidente no caso de Maomé, que, com promessas de prazeres carnais, a cujo desejo a concupisência carnal instiga, seduziu os povos. Ditou preceitos conformes a tais promessas, soltando as rédeas à volúpia carnal, aos quais estão naturalmente dispostos a obedecer os homens carnais. Não deu argumentos da verdade [de sua doutrina], a não ser os que podem ser facilmente compreendidos com a razão natural por qualquer um mediocremente instruído; antes, pelo contrário, as verdades que ensinou envolveu-as em muitas fábulas e doutrinas falsíssimas.

Tampouco apresentou [em seu favor] sinais de origem sobrenatural, os únicos com que se dá testemunho conveniente de inspiração divina, na medida em que uma operação visível que não pode ser senão divina mostra estar invisivelmente inspirado o que ensina uma verdade; disse, porém, ter sido enviado no poder das armas, sinal que não falta também a ladrões e tiranos. Tampouco creram nele desde o início sábios exercitados nas coisas divinas e humanas, mas homens bestiais e habitantes do deserto, carentes de toda e qualquer doutrina divina, por cuja multidão, com a violência das armas, subjugou outros à sua lei.

Nem dão testemunho dele oráculos divinos de profetas passados; antes, pelo contrário, depravou com narrações fabulosas quase todos os ensinamentos do Antigo e do Novo Testamento, como fica claro a quem examina sua lei. Daí que, com astúcia, não tenha permitido a seus sequazes a leitura dos livros do Antigo e do Novo Testamento, para que estes não lhe denunciassem a falsidade. E assim se patenteia que os que dão fé às suas palavras creem levianamente.

Uma lista de mártires do islã

“O Martírio de Santo Eulógio”, pintura presente na Catedral de Córdoba.

Como monumento a atestar essas verdades, temos o Martirológio Romano, com o testemunho de sangue de inúmeros cristãos que, em outros tempos, padeceram nas mãos dos mesmos seguidores de Maomé que hoje tomaram o poder no Afeganistão. Para se ter uma ideia de como são numerosos os mártires e confessores vítimas dos muçulmanos, em todos os meses do ano há registro de ao menos uma perseguição empreendida por eles. (Sem falar, evidentemente, da multidão anônima de santos cujas mortes não foram registradas ou cujos registros se perderam no tempo.)

A seguir, oferecemos uma lista com 34 exemplos, extraída de uma edição do Martirológio anterior às reformas pós-conciliares. A maioria deles consta na edição mais recente do livro (que pode ser consultada em português aqui), com algumas omissões, mas também com informações mais precisas sobre o tempo em que se deram os eventos mencionados (os grifos são nossos):

  • No monte Sinai, trinta e oito santos monges, mortos pelos sarracenos, em ódio da fé de Cristo (14 de janeiro).
  • Em Marrocos, na África, o martírio dos cinco santos protomártires da Ordem dos [Frades] Menores, a saber: Berardo, Pedro e Otão, sacerdotes, Acúrsio e Adjuto, leigos, os quais, por pregarem a fé cristã e reprovarem a lei de Mafoma, depois de vários tormentos e afrontas, foram decapitados por ordem do rei dos sarracenos (16 de janeiro).
  • Em Amatrice, no Abruzzo, o trânsito de São José de Leonissa, sacerdote da Ordem dos Menores Capuchinhos e confessor, ilustre pelos cruéis suplícios que, pela pregação da fé, sofreu dos maometanos, pelos seus trabalhos apostólicos e por seus milagres; a quem o Sumo Pontífice Bento XIV inscreveu no cânon dos santos (4 de fevereiro).
  • Na Palestina, a comemoração dos santos monges e outros mártires, que foram, em ódio da fé de Cristo, mortos com grande crueldade pelos sarracenos, às ordens do seu xeique Alamúndaro (19 de fevereiro).
  • Em Damasco, São Pedro Mavimeno, o qual, dizendo a certos árabes que numa sua doença o foram visitar: “Todo aquele que não abraça a fé cristã católica se condena, assim como vosso falso profeta Mafoma”, foi morto por eles (21 de fevereiro).
  • Em Córdova, na Espanha, Santo Eulógio, sacerdote e mártir, o qual, na perseguição dos sarracenos, por sua bela e intrépida confissão de Cristo, ferido com açoites e bofetadas, e por fim passado ao fio da espada, mereceu juntar-se aos mártires daquela cidade, cujos combates pela fé descrevera e invejara (11 de março).
  • Em Córdova, na Espanha, Santa Leocrícia, virgem e mártir, a qual foi pela fé de Cristo afligida com diversos suplícios, na perseguição dos árabes, e por fim degolada (15 de março).
  • Em Córdova, na Espanha, os santos mártires Elias, sacerdote, Paulo e Isidoro, monges, que foram mortos pela confissão da fé de Cristo, durante a perseguição dos árabes (17 de abril).
  • Em Córdova, na Espanha, São Perfeito, sacerdote e mártir, morto à espada pelos mouros, porque atacava a seita de Mafoma, e professava com firmeza a fé de Cristo (18 de abril).
  • Na Palestina, o martírio dos santos monges, que os sarracenos mataram no mosteiro de São Sabas (16 de maio).
  • Em Córdova, na Espanha, São Sancho, mancebo o qual, posto que educado no palácio real, não hesitou contudo, na perseguição dos árabes, em sofrer o martírio pela fé de Cristo (5 de junho).
  • Em Córdova, na Espanha, os santos monges e mártires Pedro, sacerdote, Valabonso, diácono, Sabiniano, Vistremundo, Habêncio e Jeremias, que foram degolados durante a perseguição dos árabes (7 de junho).
  • Em Córdova, na Espanha, São Fândilas, sacerdote e monge, o qual, degolado na perseguição dos árabes, sofreu o martírio, pela fé de Cristo (13 de junho).
  • Em Córdova, na Espanha, o natalício de São Pelaio menino, o qual despedaçado membro a membro com tenazes de ferro, por ordem de Abderamen, rei dos sarracenos, consumou gloriosamente seu martírio, pela confissão da fé (26 de junho).
  • Em Córdova, na Espanha, Santo Argemiro, monge e mártir, o qual, na perseguição dos árabes, foi pela fé de Cristo atormentado no ecúleo e traspassado pela espada (28 de junho). 
  • Em Córdova, na Espanha, Santo Abúndio, sacerdote, o qual, na perseguição dos árabes, porque atacava fortemente a seita de Mafoma, foi coroado de martírio (11 de julho).
  • Em Córdova, na Espanha, São Sizenando, levita e mártir, que foi degolado pelos sarracenos, pela fé de Cristo (16 de julho). 
  • Em Córdova, na Espanha, Santa Áurea, virgem, irmã dos santos mártires Adolfo e João, a qual foi por algum tempo induzida ao crime de apostasia pelo juiz maometano, mas, logo arrependida, voltou ao combate e, derramando o seu sangue, triunfou do inimigo (19 de julho).
  • Em Córdova, na Espanha, São Paulo, diácono e mártir, o qual, porque repreendia os príncipes infiéis da impiedade e crueldade da sua seita maometana, e pregava a Cristo com grande constância, morto por ordem deles, voou aos prêmios celestiais (20 de julho). 
  • Na ilha de Chipre, São Teófilo, pretor, o qual, preso pelos árabes e não podendo nem com presentes nem com ameaças ser levado a renegar a Cristo, foi morto à espada (22 de julho).
  • Em Córdova, na Espanha, os santos mártires Jorge, diácono, Aurélio e Natália, sua mulher, Félix e Liliosa, sua mulher, durante a perseguição dos árabes (27 de julho).
  • No mosteiro de São Pedro de Cardena, da Ordem de São Bento, perto de Burgos, na Espanha, o martírio de duzentos monges com seu abade Estêvão, que foram mortos pelos sarracenos, em ódio da fé de Cristo, e sepultados ali mesmo no claustro pelos cristãos (6 de agosto).
  • Em Córdova, na Espanha, os santos mártires Leovigildo e Cristóvão, monges, durante a perseguição dos árabes. Foram estes santos encarcerados pela defesa da fé cristã, e logo depois cortou-se-lhes a cabeça e lançaram-nos ao fogo, assegurando-lhes por esta morte a palma do martírio (20 de agosto).
  • Em Salônica, São Fantino, confessor, o qual teve muito que sofrer dos sarracenos, foi expulso do mosteiro em que vivera com admirável abstinência, levou a muitos pelo caminho da salvação, e finalmente descansou em boa velhice (30 de agosto).
  • Em Córdova, na Espanha, os santos mártires Emilas, diácono, e Jeremias, os quais, depois de maltratados por muito tempo no cárcere, durante a perseguição dos árabes, finalmente, sendo-lhes, em ódio de Cristo, cortada a cabeça, consumaram seu martírio (15 de setembro).
  • No monte Cassino, o Beato Vítor III, Papa, que sucedeu a São Gregório VII, ilustrou a Igreja com novo esplendor, e conseguiu com o favor divino uma insigne vitória sobre os sarracenos. O Sumo Pontífice Leão XIII ratificou e confirmou o culto que de tempo imemorial lhe era prestado (16 de setembro).
  • Em Córdova, na Espanha, Santa Pomposa, virgem e mártir, a qual, degolada à espada, por causa da sua intrépida confissão de Cristo, durante a perseguição dos árabes, conseguiu a palma do martírio (19 de setembro).
  • Em Córdova, na Espanha, os santos mártires Adolfo e João, irmãos, que foram coroados de martírio pela fé de Cristo, na perseguição dos árabes, e Santa Áurea, sua irmã, a qual, reconduzida à fé pelo seu exemplo, sofreu também ela ao depois com grande coragem o martírio, aos 19 de julho (27 de setembro).
  • Em Ceuta, na Mauritânia Tingitana, o martírio dos santos Daniel, Samuel, Ângelo, Leão, Nicolau, Hugolino e Domno, da Ordem dos Menores, todos sacerdotes, menos Domno, os quais, por pregarem ali o Evangelho e confutarem a seita de Mafoma, depois de sofrerem dos sarracenos injúrias, cadeias e açoites, por fim decapitados, conseguiram a palma do martírio (10 de outubro).
  • Na Tebaida, São Sármatas, discípulo de Santo Antão, abade, que foi morto pelos sarracenos, em ódio de Cristo (11 de outubro).
  • Em Huesca, na Espanha, as santas virgens Nunilo e Alódia, irmãs, as quais, decapitadas pelos sarracenos, por confessarem a fé de Cristo, consumaram seu martírio (22 de outubro).
  • Em Teópolis, isto é, Antioquia, dez santos mártires, dos quais se lê que foram mortos pelos sarracenos (6 de novembro).
  • Em Córdova, na Espanha, as santas virgens e mártires Flora e Maria, as quais, presas por muito tempo, durante a perseguição dos árabes, foram mortas à espada (24 de novembro).
  • Em Eleuterópolis, na Palestina, os santos mártires Floriano, Calinico e cinquenta e oito companheiros seus, que foram mortos pelos sarracenos, por confessarem a fé de Cristo, em tempo do imperador Heráclio (17 de dezembro).

Como dito, essa lista não é nem de longe exaustiva. Ela continua a ser preenchida agora mesmo, neste exato momento em vários lugares do mundo. Que todos esses nomes nos sirvam para que recorramos à intercessão de tantos heróis da fé e acordemos de uma vez por todas da ingenuidade em que tantas vezes nos encontramos em relação a essa religião que de pacífica tem, definitivamente, muitíssimo pouco.

Notas

  • A edição da qual transcrevemos os registros acima é esta: Martirológio Romano. Niterói: Permanência, 2014. A lista em questão foi apresentada em: Peter Kwasniewski. Islam in the “Lex Orandi” of the Old Roman Martyrology, em: New Liturgical Movement, 11 mar. 2019.
  • A pintura principal, acima, retrata “O Martírio de São João Evangelista”, por Quentin Metsys, o Jovem. Não se trata de uma vítima do islã, mas os martírios levados a cabo por seus adeptos foram muito piores. São João, por sua vez, como se sabe, não morreu mártir, mas a tradição narra que “o imperador Domiciano [...] mandou trazerem-no e jogou-o numa cuba de óleo fervendo, na Porta Latina. Saiu dela são e salvo, porque vivera livre da corrupção da carne. Ao saber que João continuava a pregar, o imperador relegou-o ao exílio na ilha deserta de Patmos, onde o santo escreveu o Apocalipse” (Jacopo de Varazze, Legenda áurea: vidas de santos. Trad. de Hilário Franco Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 113s).

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Os católicos acreditam mais na Igreja que na Bíblia?
Igreja Católica

Os católicos acreditam
mais na Igreja que na Bíblia?

Os católicos acreditam mais na Igreja que na Bíblia?

A Igreja não é apenas uma instituição humana estabelecida por seres humanos. Ela é o Corpo de Cristo. Quanto à Escritura, a Igreja é realmente mais velha do que ela, pelo menos no que diz respeito ao Novo Testamento.

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Setembro de 2021Tempo de leitura: 2 minutos
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Minha esposa, que é evangélica, diz que os católicos acreditam na Igreja e não na Bíblia. Ela acha que a única fonte de autoridade é a Bíblia e que é errado acreditar em uma instituição humana. Qual é a resposta adequada para isso? 

É totalmente apropriado dizer que a Igreja é um objeto de fé. Confessamos isso todos os domingos no Credo [niceno-constantinopolitano]: “Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica”. Isso pressupõe, no entanto, que a Igreja não é apenas uma instituição humana estabelecida por seres humanos. A Igreja é o Corpo de Cristo, estabelecida por Ele próprio. Jesus é a Cabeça do Corpo (cf. Cl 1, 18), e nós somos seus membros (cf. 1Cor 12, 27). Como tal, a Igreja é a presença viva e ativa de Jesus Cristo no mundo de hoje. 

Muitos hoje pensam apenas na Igreja em termos institucionais e, culturalmente, as instituições são desfavorecidas e, muitas vezes, criticadas por serem grandes e impessoais. No entanto, a Igreja não é uma instituição; é Cristo, Cabeça e membros juntos. 

O Espírito Santo também habita na Igreja e nos seus membros (cf. 1Cor 6, 19). Jesus prometeu aos Apóstolos que o Espírito Santo os conduziria à plenitude da verdade (cf. Jo 16, 13) e os recordaria de tudo o que lhes ensinou (cf. Jo 14, 26). Por isso, somos chamados a ter confiança e fé em tudo o que a Igreja solenemente nos ensina ser revelado por Deus. 

Quanto à Escritura, a Igreja é realmente mais velha do que ela, pelo menos no que diz respeito ao Novo Testamento. Os primeiros anos da Igreja viram os evangelhos e epístolas serem escritos e compartilhados. No entanto, foi somente em meados do século IV que a lista exata dos livros do Novo Testamento foi formalmente aceita. Bispos da Igreja Católica se reuniram em Hipona, Cartago e Roma e, com a ratificação do Papa Inocêncio I, em 405 d.C., o cânon (ou lista) dos livros do Novo Testamento, como os conhecemos hoje, entrava em vigor. Desta forma, a autoridade das Escrituras depende da autoridade da Igreja, pois é somente pelo ensino autorizado da Igreja que sabemos quais livros são apropriadamente chamados de Sagradas Escrituras. Os protestantes e evangélicos podem até alegar que somente as Escrituras têm autoridade, mas eles ainda precisam aceitar que dependem da Igreja Católica e de sua autoridade para definir as Escrituras. Pois foi por meio do Magistério (ou autoridade docente) da Igreja Católica que Deus lhes deu essas Escrituras.

Simplesmente não há como contornar isso: Jesus fundou a Igreja sobre Pedro, os Apóstolos e seus sucessores, e os encarregou de transmitir fielmente o que Ele ensinou (cf. Mt 16, 18; Mt 28, 19-20; Mc 16, 15-16; Jo 13, 20). É devido à presença de Cristo, como Cabeça da Igreja, e do Espírito Santo, que devemos considerar a Igreja como objeto de fé e não duvidar do que ela formalmente nos propõe como divinamente revelado. 

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